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quarta-feira, 18 de março de 2020

Comportamentos a ter para evitar a COVID-19

O vírus SARS-CoV-2 e a doença que causa, a COVID-19, têm sido o tema de conversa, debate e preocupação dos últimos tempos. Num bom exemplo de Comunicação de Ciência, com recurso a equipas multidisciplinares de cientistas, escritores e artistas, o site Lifeology apresenta um curso, cujas lições são dadas em cartões ilustrados, sobre este vírus e sua doença. É o ideal para qualquer pessoa compreender o que está em causa e para mostrar aos mais novos Embora esteja em inglês, é uma iniciativa de carácter pedagógico com utilidade para os tempos atuais. Podem consultar aqui:



quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Conversas de Café: Pseudociência em Saúde

A COMCEPT foi convidada a estar presente num debate sobre a pseudociência em saúde, a ter lugar na Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP), no dia 14 de Novembro, às 15h30. Mais informação enviada pela organização:

“As “Conversas de Café” são uma iniciativa que surge da vontade dos alunos do 58º Curso de Especialização em Saúde Pública (CESP) em abordar temas de maior interesse. Este é um espaço de discussão informal onde os participantes podem colocar questões e expor pontos de vista a Professores e peritos em áreas que consideramos pertinentes.

Esta terceira sessão será dedicada à Pseudociência em Saúde – O papel da Saúde Pública. Contaremos com a presença do Prof. Doutor António Vaz Carneiro, médico e Diretor do Instituto de Medicina Preventiva e Saúde Pública e do Conselho Científico do Instituto de Saúde Baseada na Evidência, e do Dr. João Monteiro, biólogo, doutorando em História da Ciência na FCT/NOVA e membro da Comunidade Céptica Portuguesa.”


sexta-feira, 19 de julho de 2019

NEUROMITOLOGIA

Texto enviado por João Nunes, Neurologista

Cérebro, Neurologia, Mitos e pseudociência

O Cérebro, as Neurociências e a Neurologia estão na berra.



Não passa uma semana sem que sejamos confrontados com notícias espetaculares e reveladoras sobre o Cérebro e o seu funcionamento.
O interesse da opinião pública é tal que um comentador na área da ciência chegou a referir que se Andy Warhol estivesse vivo o motivo das suas próximas serigrafias seria o cérebro, deixando para trás a pobre Marilyn Monroe.

“Este é o aspecto do cérebro quando estás apaixonado”, “Descoberto o centro cerebral da religião”, “Estudo comprova que os mais distraídos são os mais inteligentes”, são exemplos de cabeçalhos encontrados na comunicação social ou nas redes sociais, frequentemente acompanhados de imagens vibrantes e coloridas do cérebro humano.
Ou então “investigadores da Universidade X (a preencher consoante a semana) descobrem teste para o diagnóstico precoce de Alzheimer”, ou “novo estudo representa promessa na cura do Parkinson”.

De onde vem todo este interesse pelo Cérebro e pelas Neurociências?
Para além do apelo natural da descoberta dos segredos por detrás do centro que comanda todas as nossas acções e emoções, e que tem motivado cientistas ao longo de séculos, a popularidade recente junto das massas tem a ver, entre outros motivos, com o aparecimento de métodos de imagem que analisam o funcionamento do cerebral, estudando as áreas que estão a consumir mais oxigénio quando o cérebro está a realizar uma determinada função.
E´o caso da chamada Ressonância Magnética Funcional (RMf), que permite a obtenção de imagens de diferentes cores do cérebro, consoante determinada zona está mais ou menos ativa.
Por exemplo se o indivíduo mexer a mão direita é possível através deste método ver uma área cerebral  a “iluminar-se”, a ficar vermelha por estar mais ativa, neste caso uma zona do lado esquerdo do cérebro.
Estes métodos de estudo com imagens, coloridos, apelativos, são obviamente mais interessantes para o público generalista.
Mas há cuidados a ter com esta nova “janela da mente”, obrigando a tratamento estatístico rigoroso dos dados obtidos, e se tal não acontecer podem ser obtidos os resultados que os investigadores antecipadamente querem, o chamado viés de confirmação, ao atropelo do método científico, o que pode ser inconsciente ou nem tanto.
E´ possível, com “Photoshop” estatístico, arranjar atividade cerebral onde ela não existe, como aconteceu num estudo famoso, provocatório, em que os autores, com a utilização da RMf, “demonstraram” atividade, obviamente falsa, no cérebro dum salmão morto, só pelo recurso a tratamento estatístico levado ao extremo.
As notícias que localizam as emoções em diversos pontos do cérebro, devem ser encaradas de forma saudavelmente cética. Nestes casos o que está em jogo são geralmente múltiplas áreas associadas e não uma única área “mágica”.

O grande número de notícias relacionadas com o Cérebro e as Neurociências, tem também a ver com a necessidade de promoção dos Centros de Investigação, de forma a conseguirem visibilidade e financiamento para os seus projectos. Isto faz com que estudos preliminares, “in vitro”, ou em animais, sejam promovidos de forma prematura, em situações de doenças neurológicas com grande visibilidade junto da opinião pública, como a Demência de Alzheimer ou a doença de Parkinson, por exemplo. Por isso há quem defenda que no título da publicação ou artigo científico deve ser referido que o estudo é feito em animais ou que ainda está na fase do tubo de ensaio.

Outros mitos associados a esta área são relativamente inócuos, embora desprovidos de senso comum.
Um dos mais populares, com a ajuda de séries televisivas e filmes, é a de que usamos apenas 10% da nossa capacidade cerebral.
Colocado de forma simples: é falsa a ideia de que só utilizamos um décimo do nosso potencial cerebral, não faria sentido que um órgão que gasta mais de um quinto do total da energia do organismo, tivesse apenas uma pequena parte a trabalhar. Há hoje evidência de que o cérebro está sempre a funcionar na sua totalidade, mesmo durante o sono, embora as áreas mais ativas mudem consoante a tarefa.

Uma outra ideia errada na área das neurociências é a de que a nossa personalidade e forma de pensar dependeria mais de um lado do cérebro. Assim os indivíduos com o lado direito dominante seriam mais criativos, imaginativos, intuitivos e artísticos. Os que tivessem como lado dominante o esquerdo seriam mais organizados, lógicos, analíticos e proficientes a matemática. Este é um conceito errado segundo os atuais conhecimentos neurológicos, embora já tenha permitido a venda de milhões de livros de pseudopsicologia. Todas as tarefas complexas que o nosso cérebro realiza exigem participação dos dois lados do cérebro, existindo extensas ligações entre ambos os lados. Podemos falar do exemplo da linguagem, embora o lado esquerdo seja fundamental para a compreensão e expressão da linguagem, o lado direito é determinante para compreender o contexto e tom das palavras. E na matemática, enquanto o lado esquerdo é importante para a resolução de equações, o lado direito dedica-se a comparações e estimativas.

O interesse que a Neurologia e Neurociências motivam tem também a ver com a nossa procura do Santo Graal cerebral, a  pílula ou suplemento mágico que nos aumente a memória e a concentração, que nos torne mais inteligentes, que nos livre do declínio cerebral associado à idade, ou nos torne as máquinas intelectuais que a atual sociedade ultracompetitiva exige.
Há uma indústria de milhões à volta deste problema, com produtos com designações sugestivas , muitas vezes com nomes associados ao elefante e à sua proverbial memória, comercializados em farmácias, em lojas de produtos naturais e online.
Substâncias como o Omega 3, o Gingko biloba, o Ginseng, o Chá Verde, as bagas Goji e uma miríade de Vitaminas, entre muitos outros, são usados na produção de suplementos milagrosos.
Qual o sumo que se extrai desta multidão de embalagens, suplementos, anúncios? Zero ou muito perto disso. O efeito destes suplementos a nível das nossas capacidades cognitivas ou da memória é praticamente inexistente, e não digo completamente inexistente porque produtos como as Vitaminas ou o Omega 3 poderão ter interesse em grávidas e em pessoas com déficites nutricionais, por exemplo a suplementação com vitaminas do complexo B pode ser necessária em indivíduos com regime alimentar Vegan.

Outra face da mesma moeda é a moda atual, sem qualquer evidência científica, de que é importante, para a nossa saúde, incluindo o funcionamento cerebral, evitar determinados alimentos como o glúten ou o leite animal. Esta corrente só pode ser entendida como uma forma de marketing para produtos que não contenham aqueles “venenos”, e que hoje em dia se encontram por todo o lado. O glúten e o leite foram utilizados tranquilamente pela raça humana durante milénios, mas são agora denunciados como a fonte de todos os males do Homo sapiens ou quase.
A realidade é que, tirando situações muito raras, como é o caso da Doença celíaca no caso do Glúten, ou das pessoas com uma deficiência grave de Lactase (enzima responsável pela digestão da Lactose constituinte do leite) no caso do leite, é perfeitamente seguro e útil o consumo de glúten e de leite na nossa alimentação.
Uma alimentação variada e equilibrada é necessária e suficiente para a nutrição do nosso corpo, incluindo o cérebro.

Outra indústria de milhões associada a uma pretensa acção sobre o funcionamento cerebral é a da venda de produtos de software de treino cerebral, geralmente online e sob a forma de aplicações.
Uma pesquisa feita junto de lojas online de aplicações para telemóveis, revela dezenas de aplicações promovidas com o intuito de manter ou melhorar a memória e a capacidade intelectual. Infelizmente não há estudos fiáveis que mostrem a utilidade de qualquer destes programas, pelos menos isoladamente.
Melhoram a tarefa que é treinada durante o jogo de computador, mas não são úteis no dia a dia, não melhoram a capacidade de ir às compras num idoso com dificuldades cognitivas, ou os resultados dos exames num estudante universitário por exemplo. A promoção dos pretensos efeitos miraculosos destes produtos sobre a capacidade cerebral levou a uma tomada de posição conjunta de cientistas da área a desmitificar o seu efeito.
A sua utilização nos indivíduos com declínio cerebral poderá, no entanto, ser complementar de outros aspetos tão ou mais importantes, como a atividade física, a interacção social, a leitura, tocar um instrumento musical, etc.

A patologia neurológica, dada a riqueza de sintomas que determina, é também fonte de muitos mitos populares e ideias erradas. Um apanhado exaustivo exige o espaço de um livro de texto. Vou referir alguns dos mais frequentes:
O mito de que Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC) são doenças exclusivamente dos idosos. Embora sejam mais frequentes na população mais idosa, os AVC podem ocorrer em jovens, pelo que mesmo em grupos etários mais baixos seja importante a prevenção dos fatores de risco conhecidos, como a Hipertensão, a Diabetes, o Tabagismo, a Obesidade e os valores altos do Colesterol.
Fulcral é a ida emergente à Urgência hospitalar em caso de suspeita de AVC, com recurso ao INEM e à via verde hospitalar, o que permite às vezes desobstruir o vaso entupido que está a causar o problema. Para mais esclarecimentos deve ser consultado o site da DGS a este respeito.
Algumas pessoas ainda têm a ideia errada de que a Epilepsia é uma doença associada a menores capacidades intelectuais. A realidade é que, tirando algumas formas graves e raras , os doentes epiléticos podem fazer uma vida normal, com um controle quase total das crises , o que pode ser atribuído, em parte, à eficácia e variedade da medicação atualmente existente.
Ainda no campo das crises epiléticas existe a noção errónea de que deve ser colocado um objeto na boca da pessoa em crise para evitar que morda a língua, mas tal só vai dificultar a respiração da pessoa, que deve ser colocada de lado, num sítio em que não se magoe, e sem nada a dificultar a circulação de ar.
Outro conceito errado tem a ver com as Demências. Embora a grande maioria seja progressiva e irreversível, existem casos de Demências tratáveis, pelo que é importante a consulta por um médico Neurologista. Exemplos são o déficite de vitamina B12, as Hidrocefalias com acumulação excessiva de líquido no interior do cérebro ou os Hematomas cerebrais crónicos provocados por traumatismos cranianos, entre outras causas tratáveis.

No que diz respeito às doenças neurológicas, um aspeto que prejudica também o tratamento dos pacientes, é o recurso às terapias alternativas.
O seu uso e abuso leva ao atraso no início de tratamentos eficazes, pode levar à interferência das mezinhas com os medicamentos úteis, e troca falsas esperanças por gastos elevados em inutilidades.
Como exemplos apontaria a promoção da acunpuntura, da homeopatia, da osteopatia, da naturopatia e outras no tratamento de diversas doenças neurológicas.
Não há qualquer evidência científica séria que as suporte, mas são promovidas nos meios de comunicação social, inclusive do Estado, como é típico dos programas televisivos matinais.
Relativamente à Acunpuntura, que tem sido publicitada para o tratamento de doenças Neurológicas como a Enxaqueca, existem estudos que mostram que não é mais que um placebo, com resultados iguais quer seja praticada por principiantes ou por mestres, existindo inclusive um estudo em os resultados foram iguais usando agulhas de Acunpuntura ou palitos!
A Osteopatia e a as terapias Quiropráticas utilizam manipulações cervicais, apregoadas como tratamento para quase tudo, mas uma das complicações possíveis já descrita e publicada em revistas científicas, é o facto destas manipulações cervicais poderem danificar artérias do pescoço que levam sangue para o cérebro e poderem causar acidentes vasculares cerebrais.
  
Mais grave é o canto de sereia com que são atraídos doentes desesperados, pelas clínicas internacionais com tratamentos de pretensa base científica, mas ainda em fase de investigação, como é o caso das células estaminais e das vacinas dendríticas.
Os doentes pagam fortunas em troca de tratamentos experimentais, ainda ineficazes ou pouco seguros, acabando por regressar ao nosso SNS piores do que quando foram para essas clínicas, como é triste exemplo famosa clinica alemã, que conta com inescrupulosos angariadores nacionais, principalmente junto de doentes oncológicos.

Falando do Cérebro e de Tumores, outra dúvida com que muitos se confrontam diz respeito à associação dos telemóveis e dos tumores cerebrais.
Não há estudos sólidos que mostrem aumento do número de novos casos de tumores cerebrais após o início da utilização maciça de telemóveis. Tambem não há relação demonstrada entre este e outros tipos de tumores com as redes Wifi, 4G ou 5G, ou micro-ondas, que é, hoje em dia, uma das teorias da conspiração prediletas na internet.

Em conclusão, neste tempo de “fake news” devemos manter um saudável ceticismo, e daí a importância da literacia científica na área das neurociências.
Desconfiemos das fabulosas descobertas e curas espantosas promovidas nos media e redes sociais, mas que não têm grande repercussão junto da comunidade científica.
Se parece demasiado bom para ser verdade é porque provavelmente não é.
Desconfiemos dos suplementos miraculosos, dos programas de software que nos vão pôr a pensar melhor, e das curas e tratamentos alternativos, cuja utilidade é principalmente financeira para quem as pratica.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Na Feira de Educação e Saúde de Belém

As Doenças Inflamatórias do Intestino (DII) afectam cerca de 20.000 pessoas só em Portugal. Atendendo ao número de pacientes, sugiro que visitem a Feira de Educação e Saúde de Belém, que começou hoje. Aí poderão encontrar a equipa do movimento Doença Crohn/Colite Portugal que lá estará a informar e a sensibilizar para as doenças inflamatórias do intestino. Entre essas pessoas estará a Vera Gomes, autora do livro "Conviver com as doenças inflamatórias do intestino".

Para chegar aos doentes, aos seus familiares e a outras pessoas que convivam de perto com a doença, hoje às 13h, a Vera Gomes esteve na Farmácia Fontes Pereira de Melo (em Picoas, Lisboa) a conversar sobre este tipo de doenças. 

Amanhã, das 14 às 15h, a Dr. Joana Torres, gastroenterologiata do Hospital Beatriz Ângelo, dará uma apresentação sobre Doenças Inflamatórias do Intestino. 

No Domingo, haverá um concerto no Largo do Intendente. 

Para saberem mais sobre a doença e as suas consequências na vida de uma pessoa, recomendo a leitura do livro acima mencionado, assim como o blogue da Vera Gomes.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

V Conferência do Solstício: Antibióticos

A COMCEPT - Comunidade Céptica Portuguesa vai organizar a sua V Conferência do Solstício, dedicada ao tema dos antibióticos. Para isso, conta com o médico de família Armando Brito de Sá como orador. Eis uma breve sinopse:

"Os antibióticos constituíram um dos progressos centrais da medicina do século XX, senão mesmo de toda a sua história. O seu sucesso, contudo, trouxe consigo comportamentos que ameaçam, sem exagero, o regresso a situações que não conhecemos há décadas. O desafio que lançamos ao nosso convidado é fazer uma análise da evolução do uso dos antibióticos, dos perigos actuais da sua utilização e das soluções que se vislumbram (ou não) para o combate às infecções."

A entrada é gratuita, mas é necessária inscrição!

Mais informações:
Quando: Dia 15 de Dezembro, 18h
Local: Auditório da Escola-Oficina nº1, no Largo da Graça, 58, Lisboa
Organização: COMCEPT


terça-feira, 30 de outubro de 2018

Bernardino António Gomes (1768-1823): 250 anos do nascimento, 206 anos da purificação do primeiro alcalóide



Em 29 de Outubro de 2018, assinalaram-se os 250 anos do nascimento de Bernardino António Gomes (1768-1823), médico e cientista português, aniversário que já foi aqui lembrado por Carlos Fiolhais. A sua contribuição pioneira para a extracção e purificação do primeiro alcalóide na forma de base pura, obtido da casca da quina (cinchona), usada no tratamento da malária, foi um feito notável que está na origem do desenvolvimento da química medicinal moderna baseada em compostos bioactivos.  

Ao composto que obteve na forma cristalina e identificou com a “virtude febrífuga” das quinas, chamou cinchonino, nome que a partir de 1819, passou a ser cinchonina, seguindo a nomenclatura adoptada universalmente para os alcalóides. Este composto que apresenta as mesmas caracterísiticas terapêuticas da casca de quina, não existia noutras cascas de árvores que eram comercializadas, por fraude ou desconhecimento, também como medicamento para as febres intermitentes da malária. Este trabalho notabilíssimo, realizado em 1812 por solicitação da Academia das Ciências de Lisboa, no Laboratório da Casa da Moeda, de que era director Bonifácio de Andrada e Silva, abria assim o caminho para métodos de controlo de qualidade químicos e de programas de pesquisa de outras plantas que tivessem o mesmo princípio activo.

A descoberta de Gomes foi confirmada em 1820 por Pelletier e Caventou, autores que identificaram um outro dos alcalóides na casca da quina, a quinina, que existe em maior quantidade na casca, e que haviam já descoberto e purificado, em 1817 a estricnina, seguindo em ambos os casos o procedimento de Bernardino António Gomes. É de realçar que a morfina havia já sido isolada em 1806 por Friedrich Serturne, mas a obtenção do primeiro alcalóide puro e o estabelecimento dos princípios do método corrente que permitiu, a partir das primeiras décadas do século XIX, purificar dezenas de compostos alcalóides podem ser atribuídas à publicação de Bernardino António Gomes.

Podemos perguntar por que razão não são mais conhecidas estas contribuições de Bernardino António Gomes e por que razão esta efeméride tão redonda (250 anos) está a passar, tanto quanto sabemos, quase despercebida. Obviamente a questão de Portugal ser um país periférico, sem grande tradição científica, tem sido relevante, mas não é essa a única razão.

Gomes, embora com grande entusiasmo pela investigação irá continuar essencialmente um médico (notável e pioneiro também na vacinação contra a varíola e no estudo da elefantíase entre outros trabalhos), mas não continuou o trabalho sobre a quina, nem o estendeu a outras plantas, nem motivou outros investigadores portugueses a continuaram esse trabalho. Se o trabalho analítico e químico de Bernardino António Gomes tivesse tido continuidade, teria tido com certeza muito mais visibilidade. Assim, aquilo que seria provavelmente a grande motivação e o resultado mais importante do trabalho: identificar a “virtude febrífuga das quinas” que designaríamos actualmente pela busca do princípio activo ou do composto responsável pelo efeito terapêutico, abrindo a possibilidade pioneira na ciência da época de obter este composto de outras formas, substituíndo a necessidade de recorrer à quina, foi rapidamente esquecido e não teve continuidade. 

Para o abandono do projecto e para o quase esquecimento do feito concorreram em grande medida razões locais. Os resultados de Bernardino António Gomes foram duramente criticados por José Feliciano de Castilho no "Jornal de Coimbra" com repercussões internacionais no "Investigador Português em Inglaterra". Tomé Rodrigues Sobral que arbitrou a disputa, optou por uma resposta inconclusiva sugerindo que a “virtude febrifúga” poderia ter uma origem múltipla, pondo-se assim termo à continuação do projecto. 

Mais tarde, com a República e com o Estado Novo, Bernardino António Gomes foi sendo evocado, embora de forma tímida, como um grande cientista português. Mas estas evocações que podem confundir-se com as formas propagandísticas do nacionalismo não ajudaram a consolidar a sua memória num país com tão pouca tradição em homenagear de forma devida a sua ciência. Tem um busto no Jardim Botânico de Lisboa, o nome em algumas ruas, foi declarado fundador da dermatologia portuguesa e patrono da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e, este ano, foi incluído numa emissão filatélica “Vultos da História e da Cultura”, a qual inclui o Padre Himalaya, outro cientista português que deveria ser mais conhecido, mas é pouco, muito pouco, como reconhecimento de tão notável personagem da história da ciência e da cultura portuguesas.

Bernardino António Gomes nasceu a 29 de Outubro de 1768 e foi baptizado, segundo Virgílo Machado, em Paredes do Coura, embora haja autores, incluindo o próprio filho homónimo, indicam como local de nascimento Arcos de Valdevez. Doutorou-se em medicina na Universidade de Coimbra em 1793, tendo ido exercer medicina para Aveiro até 1797. O interesse pela investigação chamava-o e muda-se para Lisboa onde pouco tempo depois é médico da Armada, embarcando para o Brasil. Dessa viagem surge uma publicação sobre a canela do Rio de Janeiro a que se seguirão vários outros trabalhos sobre plantas medicinais do Brasil. Casa em 1801 com Leonor Violante Mourão, jovem viúva sete anos mais nova com quem tem cinco filhos, o mais conhecido é o homónimo Bernardino António Gomes filho que foi professor da Universidade de Coimbra. Este casamento foi tumultuoso e envolveu separações e um divórico público que foi até já alvo de um estudo académico. Em 1806 publicou um trabalho sobre o tifo. Em 1812, esteve envolvido na fundação do Instituto Vacínico de que foi o primeiro director. Incansável investigador e autor, escreveu também sobre as boubas (peste bubónia), a desinfecção de cartas, doenças de pele, a elefantíase e a ténia. Em 1817 acompanhou como médico a princesa Maria Leopoldina até ao Rio de Janeiro. Morreu com 54 anos em Lisboa de “afecção malígna no estômago”. Foi sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa (1812), cavaleiro da Ordem de Cristo (1812), Médico Honorário da Câmara Real (1813), entre outras distinções.

Há ainda bastantes aspectos da vida e dos trabalhos de Bernardino António Gomes que merecem ser melhor estudados. Felizmente, há neste momento pelo menos duas investigadoras, estudantes de doutoramento, que estão a realizar estudos que poderão lançar mais alguma luz sobre os seus trabalhos. Conhecer e divulgar na justa medida a história das descobertas e polémicas em que se viu involvido é uma contribuição importante para entendermos melhor a nossa História e as razões das nossas dificuldades passadas e pode contribuir para uma maior confiança colectiva na ciência portuguesa. 

Bibliografia
AMORIM DA COSTA, A. M., "Thomé Rodrigues Sobral (1759-1829). A Química ao serviço da Comunidade" in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa, 1 (1986), 373-402.   

GOMES, Bernardino António, Ensaio sobre o cinchonino e sobre a sua influencia na virtude da quina, e d''outras cascas, Memórias de Mathemática e Physica da Academia das Sciencias, 1812 (disponível online em várias fontes, republicado na Revista Portuguesa de Química Pura e Aplicada em 1908)

HEROLD, Bernardo, "Bernardino Gomes, pai e Agostinho Lourenço, precursores portugueses da química dos alcalóides e dos polímeros sintéticos" in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa, 1 (1986), 417-433.

HEROLD, Bernardo, CARNEIRO, Ana, Bernardino António Gomes, Biografias, SPQ (http://www.spq.pt/files/docs/Biografias/BAGomesport.pdf acedido 29 de Outubro de 2018). 

MACHADO, Virgílio, O Doutor Bernardino Gomes (1768-1823) : a sua vida e sua obra. Lisboa : Portugalia, 1925 (disponível em http://purl.pt/420)

REIS, Fernando, Bernardino António Gomes, Ciência em Portugal: personagens e episódios. Instituto Camões (http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/p21.html, acedido 29 de Outubro de 2018)

SIMÕES, Manuela Lobo da Costa, Um divórcio na Lisboa oitocentista. Livros Horizonte: Lisboa, 2006. 

SUBTIL, Carlos, Bernardino António Gomes: ilustre médico iluminista nascido em Paredes de Coura. Município de Paredes do Coura, 2017.

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Uma biografia de António Arnaut

Foi lançado este ano o livro "António Arnaut - Biografia", da autoria dos jornalistas Luís Godinho e Ana Luísa Delgado. 

António Arnaut (1936-2018) foi um advogado português que nasceu em Penela e viveu a maior parte da sua vida em Coimbra. Teve uma relevante participação cívica e cultural no panorama nacional: do ponto de vista político, foi um dos fundadores do Partido Socialista, foi deputado, vice-presidente da Assembleia da República e Ministro dos Assuntos Sociais; ainda enquanto político, criou e defendeu o Serviço Nacional de Saúde (SNS); foi autor de dezenas de livros de poesia, ficção e ensaios; pertenceu à maçonaria, uma instituição filantrópica, tendo exercido o cargo de Grão-Mestre do GOL. 

Sempre que possível, utilizava o espaço mediático para defender o SNS, a ética, a justiça e a igualdade, assim como para criticar a corrupção e o neoliberalismo.

O livro pode ser divido em oito partes: do capítulo 1 ao 6 é apresentada a história da criação e vicissitudes do SNS, o capítulo 7 aborda os aspetos principais da sua vida, os capítulos 8 a 10 são dedicados à sua experiência militar, o capítulo 11 centra-se na sua relação com a religião e a perda da fé, nos capítulos 12 a 15 é dada a conhecer a sua vida política, os capítulos 16 a 18 são dedicados à sua atividade literária, os capítulos 19 a 21 abordam a sua preocupação com a ética e a sua intervenção cívica e social, o capítulo 22, o último, encerra com o reconhecimento público que mereceu. 


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Investigação em História da Medicina Tropical

Um grupo de investigadores de vários países reuniu-se em Lisboa, entre 14 e 16 de Outubro de 2015, para apresentar e debater os resultados das suas pesquisas no âmbito da História da Medicina Tropical. O objetivo foi promover uma “reflexão histórico-social obre o papel da medicina tropical no âmbito da saúde pública global, nos séculos XIX e XX” [1]. Os três dias de evento deram lugar a 17 sessões temáticas, 66 comunicações, 3 conferências plenárias, uma mesa redonda, 2 exposições e uma visita ao Museu da Associação Nacional de Farmácias [2].

Estas apresentações levaram à publicação de artigos nos Anais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, num volume especial dedicado a este encontro. Na impossibilidade de referir todos os artigos, irei debruçar-me apenas sobre aqueles que foram escritos pelos investigadores do Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia (CIUHCT), por ser o centro de investigação ao qual pertenço. O total dos artigos pode ser consultado aqui.


A professora Isabel Amaral analisou o impacto da II Guerra Mundial na obra de Aldo Castellani (1877-1971) e a influência do médico na escola portuguesa de medicina tropical (1946-1971), partindo do estudo do espólio legado ao Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT).

O italiano Aldo Castellani foi investigador na London School of Tropical Medicine e na Ceylon Medical College, onde estudou a doença do sono e a framboesia, respetivamente. Ensinou micologia, medicina tropical e foi médico pessoal da Família de Savóia, que acompanhou no seu exílio para Portugal, após a II Guerra Mundial. Quando chegou a Portugal já era conhecido dos médicos tropicalistas, pois, no início do século XX, vira-se envolvido numa disputa internacional com os médicos portugueses sobre quem tinha descoberto o agente etiológico responsável pela Doença do Sono. A prioridade da descoberta seria dada à equipa inglesa, da qual Castellani fazia parte. A sua carreira foi pautada pela identificação de microrganismos responsáveis pela causa de doenças tropicais. Autor prolífico, publicou mais de 500 artigos científicos. Apesar de estar inserido na comunidade médica portuguesa, optou por movimentar-se por outros circuitos, buscando reconhecimento internacional. [3]

O trajeto de Francisco de Cambournac na OMS (1952-1964) foi estudado pela Rita Lobo e por mim, cujos resultados apresentámos em co-autoria. Tendo encontrado novos documentos em arquivo, conseguimos complementar uma lacuna existente na historiografia da medicina tropical, discutindo os meandros da escolha de Cambournac para o Bureau Regional Africano da OMS [4]. Os resultados do nosso trabalho já mereceram destaque na Imprensa.

Sendo a literatura farmacêutica no século XVIII relevante para a história da farmácia e da medicina portuguesa, Wellington Filho apresentou o estudo das obras de Frei Jesus Maria (1716-1795), monge-boticário e administrador da botica do Mosteiro de Santo Tirso, influenciado pela classificação de Lineu e pela ilustração do naturalista Domenico Vandelli - duas figuras históricas importantes para a Botânica. As obras de Jesus Maria revelavam a preocupação em melhor utilizar as riquezas coloniais e em conciliar os conhecimentos populares do uso das plantas com o conhecimento médico-farmacêutico do Iluminismo [5].

Ana Paula Silva, num artigo exploratório, recorrendo a análise de documentos, procura argumentar que o trabalho de técnicos e cientistas portugueses, nos anos 1960-1970, envolvidos na construção do lago artificial de Cahora Bassa, terá aberto o caminho para a Medicina Ambiental em Portugal e para a atual linha de investigação transversal do IHMT, as “Doenças Emergentes e Alterações Ambientais”. Este trabalho deixou-lhe em aberto uma questão que procurará responder no futuro, se a Medicina Ambiental foi introduzida em Portugal através da Medicina Tropical [6].

Na organização do evento, estiveram envolvidos o Centro Interuniversitário de História das Ciências e Tecnologia (CIUHCT), a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Univ. Nova de Lisboa (FCT-UNL), o Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), a Casa de Oswaldo Cruz, a Universidade de York e a Fundação Friedrich Ebert.

Notas:
[1] Isabel Amaral (2016), in Anais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, p.7
[2] Maria Paula Diogo (2016), idem, p.17
[3] Isabel Amaral (2016), idem, pp.119-124
[4] Rita Lobo & João Lourenço Monteiro (2016), idem, pp.133-140
[5] Wellington Filho (2016), idem, pp.161-166
[6] Ana Paula Silva (2016), idem, pp.175-182

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

MEDICALIZAÇÃO DA SOCIEDADE



Quarta-feira, 12 de Novembro, pelas 18h00, no espaço Rómulo de Carvalho Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra.


"Um dos fenómenos mais preocupantes que está a atingir a sociedade prende-se com a medicalização. O ser humano preocupa-se com a perda da saúde e quando lhe acenam com diagnósticos fabricados com o propósito de o perturbar aceita quaisquer propostas. A construção de novas doenças tem vindo a aumentar e a oferta de soluções também. Não há dia em que a comunicação social não chame a atenção para estes problemas. 

A medicalização é uma constante. Curiosamente começou dentro da medicina, mas agora estendeu-se a todas as áreas. Uma das doenças construídas diz respeito à transformação de situações normais, e desejáveis, como é o caso da tristeza. A tristeza, um estado de alma, base de muita criatividade, acabou por ser considerada como doença e tratada como se fosse uma "depressão". 

O resultado é fácil de ver, uma legião de dependentes de ansiolíticos e antidepressivos com todas as consequências daí resultantes. Mas o que é mais preocupante é a oferta de produtos para tudo e para nada, levando a um consumismo exagerado e sem qualquer valor. A população envelhece a olhos vistos e por isso tem de suportar algumas maleitas sem importância, sem correr risco de vida ou sofrer complicações graves de saúde. Frágeis, ansiosos, são um alvo preferencial de campanhas agressivas a fim de comprarem muitos produtos. Outra área que merece profunda reflexão diz respeito à alimentação. Hoje, cada alimento tem propriedades curativas e em função disso passaram a ser mais medicamentos do que outra coisa. Uma obscenidade. 

Todos os dias surgem press releases a anunciar propriedades e mais propriedades de muitos produtos a ponto de parecerem ser uma forma miraculosa para resolver ou prevenir os diferentes problemas. São tantos alimentos que dificilmente se encontrará algum que não tenha propriedades terapêuticas. Outro aspeto preocupante é transformar certas situações, que deveriam ser consideradas como normais, em casos patológicos. E se logo a seguir for oferecida uma "solução", então, é certo e sabido que a procura irá aumentar. 

Desmedicalizar a sociedade é um imperativo. Na prática não vai ser fácil, para não dizer impossível. Em primeiro lugar porque é uma fonte de negócio e em segundo porque as pessoas encontram explicações para os seus "problemas". O que é maravilhoso. Se a seguir tiverem à distância da sua bolsa a solução para os seus males, então, o negócio da medicalização tem o futuro garantido. E pelo que se vê por aí..." 

Salvador Massano Cardoso


Esta palestra insere-se no ciclo "A Ciência no Dia-a-Dia" organizado por António Piedade.

terça-feira, 30 de abril de 2013

UMA VISITA POLITICAMENTE INCORRECTA AO CÉREBRO HUMANO

Recensão publicada primeiramente na imprensa regional.

«Será a mente humana capaz de descobrir qualquer coisa que a transcenda» questiona o eminente neurocientista Alexandre Castro Caldas na introdução do seu mais recente livro “Uma visita POLITICAMENTE INCORRECTA ao cérebro humano”.
Publicado em Fevereiro de 2013 pela editora Guerra & Paz, este livro apresenta e desvenda as novidades do conhecimento que as neurociências têm alcançado sobre esse órgão, o cérebro, que o leitor está a usar para entender o que está a ler agora mesmo.

«Quem somos então, o que somos nós, o que é que o cérebro e as suas funções?» pergunta-nos Alexandre Castro Caldas, para logo responder que as “páginas deste livro não pretendem ser resposta, mas pretendem abrir portas para a reflexão”.

No panorama actual da literatura de divulgação científica portuguesa em geral, e das neurociências em particular, este livro destaca-se pela sua actualidade científica, pela sua simplicidade rigorosa e pela sua utilidade para o leitor que com ele se compreende melhor.

Os diversos casos clínicos que ajudam a entender melhor como o nosso cérebro funciona, são apresentados despedidos de jargões técnicos, para que qualquer um de nós os entenda e logo entenda melhor como o seu próprio cérebro funciona. As notas e as referências bibliografias são dispensadas nesta visita POLITICAMENTE INCORRECTA ao cérebro humano, o que torna fluida a leitura deste livro. 


A propósito do autor, diga-se que Alexandre Castro Caldas começou a sua vastíssima e relevante carreira de investigação científica de excelência com António Damásio, em 1970, e que ficou a dirigir o Laboratório de Estudos de Linguagem, quando, em 1975, Damásio saiu de Portugal.

Mas voltemos ao livro. Está estruturado em dez capítulos que o leitor pode ler pela ordem que entender, eventualmente movido pela sua maior curiosidade, ou interesse por um dado aspecto do nosso cérebro.
No 1.º capítulo “reflecte-se sobre a forma como acreditamos nas coisas”.
No 2.º discute-se como a consciência humana pode ter começado “num sonho”.
Conhece-te a ti mesmo” é o título do 3.º capítulo, no qual de descreve “como o cérebro interage com o sensível”.
No 4.º, intitulado “quem fui eu, quem sou eu”, Castro Caldas discute a questão da identidade.
“Quem és tu? Que casa é esta”, intitula o 5º capítulo que apresenta casos em que o cérebro processa mal a informação sobre o que lhe está próximo, como sejam as pessoas da sua família e os locais que lhe são habituais.
O 6.º capítulo é dedicado a aspectos marcantes da personalidade: “quando se faz aquilo que se não quer fazer” e sobre “o livre-arbítrio”, levando-nos a reflectir sobre a questão da vontade própria.
Abordando aspectos anatómicos, mas funcionais, o 7.º capítulo apresenta ao leitor a realidade da “Dominância Cerebral” e discute-se sobre qual manda, se o hemisfério esquerdo se o direito e quando.
O género sexual e a sua influência sobre o cérebro, um “tema que tanto estimula a imaginação”, é tratado no 8.º capítulo.
Numa época em que vivemos sob a influência de uma nova e globalmente esmagadora tecnologia de informação, Castro Caldas descreve no 9.º capítulo como “Manter o cérebro em forma” numa aproximação aos desafios modernos da “interacção entre o natural e o artificial”.
Por fim, o 10.º capítulo, o qual, como os outros, pode ser lido em primeiro lugar: “Experiências de quase-morte” é o seu título e nele se desmistificam as fantasias, as ilusões geradas pelo cérebro sobre a memória de experiências traumáticas na “fronteira abrupta” entre a vida e a morte.

A leitura deste livro é uma experiência rica em que o autor nos ajuda a compreender melhor o mundo em que vivemos ao explicar à luz do conhecimento actual como é que o cérebro compreende e funciona no mundo em que vive.

António Piedade

quarta-feira, 20 de março de 2013

"Passou-me ao lado"

Dois professores da universidade estadual da Pensilvânia, um médico (Michael J. Green) e um ilustrador (Ray Rieck), publicaram uma história aos quadradinhos sobre o erro médico numa prestigiada revista clínica (Annals of Internal Medicine), cujo título é Missed it (Passou-me ao lado).


O primeiro diz tratar-se de uma história autobiográfica com vinte anos, quando se encontrava ainda em a formação, mas que “iria assombrá-lo ao longo de toda a sua vida.
"Um jovem médico está de banco no hospital, à espera de conseguir dormir umas horas nessa noite, quando recebe um telefonema a dizer que tem de ir examinar um doente que acabou de dar entrada na urgência. Ao longo da noite, o doente, que sofre aparentemente de um problema pulmonar, piora apesar dos tratamentos que lhe vão sendo administrados. E acaba por morrer. A seguir, quando o médico recebe o resultado da autópsia, percebe que não soube ver um sintoma-chave do doente (um sopro cardíaco), apesar de ter estado, literalmente, à frente do seu nariz. Fez um diagnóstico errado – um erro fatal."
Falar do erro, analisar o erro, com saber e ponderação, seja em medicina seja noutra área profissional que requeira grande responsabilidade pelas pessoas, constitui um passo fundamental para a sua desocultação e, em sequência, para a sua transformação em conhecimento, para a sua superação e para a sua prevenção.

Nota: Tive conhecimento desta história através do artigo de Ana Gerschenfeld, saído no Público (em papel) de hoje, dia 20 Março, página 29.

domingo, 2 de setembro de 2012

Primeiro reator nuclear multipropósito brasileiro

O governo do estado de São Paulo anunciou ontem (31/08/2012) a desapropriação de um terreno em Iperó (SP) para a construção do primeiro reator nuclear multipropósito brasileiro (com múltiplas finalidades). O equipamento é fundamental para a produção brasileira de radiofármacos – fármacos, produtos biológicos ou drogas que têm em sua composição elementos radioativos e que são utilizados no diagnóstico ou no tratamento de enfermidades. No país, esses tipos de substâncias são usadas no atendimento de 10 mil pacientes por dia. “A maior causa de mortes é coração e câncer. Se a gente for verificar na cardiologia, na oncologia e nefrologia [as substâncias] são essenciais, seja no diagnóstico, seja na terapia, a medicina nuclear.Além do reator, será construído no local um novo laboratório que poderá ser utilizado pela sociedade acadêmica e por empresas interessadas. “O laboratório multipropósito vai ser usado por todos, comunidade científica, comunidade industrial.

IPEN 56 ANOS UTILIZANDO A FÍSICA NUCLEAR PARA A PRESERVAÇÃO DA VIDA HUMANA!VEJA EM MEU VIDEO ALGUMAS DESTAS APLICAÇÕES:

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Yscope: uma invenção portuguesa!

Com o fim das imagens impressas em sais de prata, os cirurgiões passaram a pendurar (por vezes em blocos operatórios tecnologicamente muito avançados) normais impressões, em papel, das imagens médicas que necessitam consultar durante as cirurgias. Estas são muito limitadas, em resolução e qualidade. E, não fazem uso do potencial dos formatos digitais em que hoje em dia são guardadas as imagens médicas.

Consultar a imagem num computador, com um rato e um teclado, também não ajuda muito. Além de geralmente terem um monitor pequeno, ao tocar num rato perdem-se as condições de esterilidade necessárias para realizar uma cirurgia.



Esta tecnologia, resulta da visão de um dos médicos do serviço de neurocirurgia do Hospital de Santa Maria. Para a desenvolver, foi estabelecida uma parceria com a empresa YDreams, e este é o resultado. O projecto começou há nove meses. Agora, há outros produtos concorrentes, de empresas estrangeiras. Mas este foi o primeiro! Entra agora em testes no bloco operatório e tem boas probabilidades de ser o primeiro a chegar ao mercado. E, segundo dizem os responsáveis pela sua concepção: é o melhor!

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Portugal na vanguarda da tecnologia de visualização médica

O Yscope é uma tecnologia que permite seleccionar e manipular imagens médicas no bloco operatório, ao estilo do filme Minority Report (mas sem a necessidade de luvas especiais para detectar os movimentos das mãos). Uma ideia que nasceu no Hospital de Santa Maria e cresceu na empresa YDreams.



(clique para ampliar)

É apresentado esta sexta-feira, às 11h na Aula Magna da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, piso 3 do Hospital de Santa Maria.

domingo, 27 de maio de 2012

Células-tronco do sangue do cordão umbilical?

Em meio à expectativa pela chegada do bebê, os pais hoje costumam se ver diante de um dilema: congelar ou não as células-tronco do sangue do cordão umbilical do recém-nascido?

O procedimento, que ocorre ainda na sala de parto, pode ser feito de duas formas: por meio de uma empresa privada, para uso exclusivo do bebê, ou através de um banco público. Neste caso, o material fica disponível para qualquer paciente que dele necessite. Apesar de alguns bancos privados argumentarem que aquele punhado de células funcionará como um seguro-saúde caso o recém-nascido venha a sofrer, no futuro, de doenças como diabetes ou Alzheimer, sua utilização ainda é bem restrita. "Por enquanto, o único uso clínico comprovado é o transplante de medula óssea", explica a geneticista Mayana Zatz, pesquisadora da Universidade de São Paulo. Para esclarecer dúvidas sobre o congelamento das células do cordão, VEJA ouviu cinco especialistas no assunto.

Quais são as diferenças entre os bancos públicos e os privados?
Coordenados pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca), os bancos públicos coletam e armazenam células de cordão em maternidades conveniadas, sejam elas ligadas ao Sistema Único de Saúde (SUS), como é o caso do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, sejam elas privadas, a exemplo do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. O serviço é gratuito e o material fica disponível para doação. Ao contrário dos bancos públicos, os privados cobram, em média, 3 000 reais pela coleta e 600 reais de anuidade pelo armazenamento das células. Nesse caso, elas são de uso exclusivo da criança

Toda amostra de sangue de cordão coletada é viável para uso?
Não. De acordo com a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a amostra deve ter, no mínimo, 500 milhões de células-tronco viáveis e estar livre de contaminações. Nos bancos públicos, 60% do material coletado é dispensado após uma minuciosa triagem — se os testes revelarem propensão genética a algum tipo de doença, por exemplo, aquela amostra não será útil para ninguém. Já nos bancos privados, o descarte é de apenas 2% (caso em que se reembolsa o cliente). Embora as regras para bancos públicos sejam mesmo mais rígidas, os especialistas consideram essa discrepância demasiado grande. "A própria análise do material congelado pode danificá-lo. Portanto, só saberemos de fato de sua viabilidade quando houver necessidade de uso", diz o biólogo Daniel Coradi, da Anvisa

Em que tipos de tratamento o sangue do cordão é utilizado?
Por enquanto, apenas no transplante de medula óssea. Isso porque esse material é, sim, riquíssimo em células-tronco, mas apenas em um tipo delas: as hematopoiéticas — capazes, pelo que se sabe até o momento, de formar única e exclusivamente células sanguíneas. "Cerca de 0,1% das células presentes no sangue de cordão pertence ao grupo das mesenquimais — essas, sim, com potencial de originar músculos, ossos, cartilagem e gordura", explica o hematologista Luís Fernando Bouzas, diretor do Centro de Transplante de Medula Óssea do Inca. Em um estudo publicado em 2008, porém, a geneticista Mayana Zatz demonstrou que, em cada dez amostras de sangue de cordão, apenas uma continha células mesenquimais."Acho bobagem congelar o sangue de um bebê para uso privado. Primeiro, porque temos células-tronco em diversos tecidos, inclusive na polpa dentária. Segundo, porque o risco de ele desenvolver anemia grave ou leucemia é muito baixo. E, se isso vier a acontecer, não se recomenda o uso do cordão do próprio paciente", diz a geneticista

Quais são as chances de uma criança vir a utilizar as células do próprio cordão?
De acordo com a Sociedade Americana de Transplante de Sangue e Medula Óssea, as chances são de 0,04% nos primeiros vinte anos de vida. "Menos de 15% das crianças que desenvolvem leucemia linfoblástica aguda — doença sanguínea mais comum nessa fase — precisam de um transplante.
E, quando isso ocorre, o sangue do cordão do próprio paciente é contraindicado", diz o médico Carmino Antonio de Souza, presidente da Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular. Mais um porém: uma amostra de sangue de cordão é suficiente apenas para o tratamento de uma pessoa com até 50 quilos. No caso dos bancos públicos, quando não se encontra um doador adulto compatível, opta-se pelo uso de mais de uma unidade de cordão. Outra situação em que o congelamento é recomendado é quando o recém-nascido tem um irmão que pode ser salvo caso haja compatibilidade genética. "Mas, nessas situações, os próprios bancos públicos fazem a coleta", explica a hematologista Andrea Kondo, do Hospital Albert Einstein.

Fonte: Revista Veja( Gabriella Sandoval)