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quarta-feira, 22 de março de 2017
PORQUE NOS HAVEMOS DE IMPORTAR COM A CIÊNCIA
No próximo dia 28 de Março, terça-feira, pelas 18h00, realiza-se no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra intitulada "Porque nos havemos de importar com a ciência".
A palestrante será Joana Lobo Antunes, destacada comunicadora de ciência e Investigadora do Instituto de Tecnologia Química e Biológica - António Xavier.
RESUMO DA PALESTRA: "A ciência e tecnologia são das principais forças motrizes de uma economia moderna, são inúmeros os exemplos que nos rodeiam e que demonstram constantemente o quanto a nossa vida mudou graças ao conhecimento e à sua aplicação. Aumento da esperança média de vida, aumento da qualidade de vida, maiores níveis de conforto, maior interacção entre pessoas distantes, melhores acessos.
É fácil compreender o impacto daquilo que chega à sociedade em forma de produtos e serviços, no entanto a Ciência que está a ser produzida neste momento nos institutos de investigação e universidades demorará muito tempo a ser compreendida na sua plenitude.
Ao mesmo tempo, é essa ciência complexa, nova e inovadora que temos de conseguir fazer chegar às pessoas, para que por um lado saibam o que é produzido pelo investimento do dinheiro dos seus impostos e por outro continuemos a alimentar a cultura científica da população, e o prazer intelectual em compreender o conhecimento gerado com quem o faz.
O principal desafio para os comunicadores de ciência hoje em dia é conseguir traduzir este conhecimento, de forma tão estimulante quanto a paixão e empenho que os investigadores depositam nele. Para que as pessoas se importem de vez com a Ciência.
Esta palestra insere-se no ciclo "Ciência às Seis" coordenado por António Piedade.
ENTRADA LIVRE
Público-alvo: Público em Geral Link para o evento no facebook
terça-feira, 15 de novembro de 2016
ComceptCon 2016: o Cérebro
O Cérebro é um dos órgãos mais fascinantes do nosso corpo. Mas o que sabemos sobre ele? O que andam os cientistas a investigar? Podemos confiar sempre nele? É à volta deste tema que a equipa da COMCEPT organiza, em colaboração com a Associação Viver a Ciência, a ComceptCon 2016.
O evento, de entrada gratuita, terá lugar no Pólo de Indústrias Criativas da UPTEC, na Praça Coronel Pacheco, no Porto, dia 19 de Novembro de 2016, a partir das 10h.
Os temas são os seguintes:
- Excepcionalmente Normal: A Neurodiversidade em Humanos, por Ana Matos Pires (Médica Psiquiatra e Docente Universitária, Univ. Algarve)
- O Cérebro: Estado da Arte, por Diana Prata (investigadora do Instituto de Medicina Molecular, Univ. Lisboa)
- Humanidade 2.0: Melhoramento Cognitivo e Outros Vislumbres do Futuro, por Júlio Borlido dos Santos (comunicador de ciência no i3S - Instituto de Investigação e Inovação em Saúde, Univ. Porto)
- Ilusões Pertinentes: Confusões da Percepção Humana, por Maria Ribeiro (IBILI - Instituto de Imagem Biomédica e Ciências da Vida, Univ. de Coimbra)
- Total Recall: Podemos Confiar nas Nossas Memórias?, por Miguel Remondes (investigador do Instituto de Medicina Molecular, Univ. Lisboa)
Mais informações em: http://comcept.org/comceptcon-2016/
terça-feira, 20 de setembro de 2016
Devemos temer os químicos?
Créditos: Dicasfree
O Diário de Notícias (DN) publicou hoje a minha opinião sobre o receio generalizado dos químicos, que pode ser lida aqui: Devemos temer os químicos?.
Surgiu a ideia deste texto após ter lido uma notícia, na semana passada, precisamente sobre os perigos dos químicos. Esta notícia tinha por base um estudo que analisou as substâncias químicas no interior das casas dos Estados Unidos da América. Apesar do artigo científico apresentar uma análise ponderada, a notícia saiu com um tom algo alarmista. Além disso, também o químico monóxido de di-hidrogénio (H2O) foi descrito como um perigo, mesmo tendo reconhecido que se tratava da água.
Assim, é de valorizar o trabalho do DN pela abertura em publicar agora este texto, que esperamos que ajude a esclarecer conceitos.
quinta-feira, 17 de março de 2016
ABRIU O FAMELAB 2016. PARTICIPE!
Em 2015, a bióloga
portuguesa Bárbara Teixeira subiu ao
palco do Cheltenham Science Festival, em Inglaterra, na final internacional do
FameLab 2015, para falar sobre a metamorfose da borboleta. E este ano? Quem irá
representar Portugal na final internacional do FameLab 2016? Poderá ser o
leitor. Para isso, saiba que estão abertas, até dia 28 de Março, as inscrições
para a edição deste ano.
O FameLab é
um concurso internacional de Comunicação de Ciência ao qual podem concorrer qualquer pessoa com idade igual ou superior a 18 anos
e que trabalhe ou estude nas áreas da ciência, tecnologia, engenharia ou
matemática. O concurso não se destina a profissionais da comunicação ou das
artes. Os concorrentes têm de mostrar os seus talentos numa performance
de três minutos num palco, frente a uma audiência ao vivo.
Para se
candidatarem, os concorrentes têm de enviar até dia 28 de Março um vídeo
caseiro (pode ser feito com a câmara do telemóvel) com uma apresentação de três
minutos sobre um tópico de ciência ou tecnologia. Os candidatos que forem
pré-seleccionados participam numa semi-final pública (que terá lugar na
Fundação Calouste Gulbenkian no dia 9 de Abril), onde um júri seleccionará os
dez melhores, que concorrerão em seguida numa final nacional (no Pavilhão do
Conhecimento, a 7 de Maio). Desta competição sairá o representante nacional que
deverá participar na final internacional, no Cheltenham Science Festival, no
Reino Unido, de 7 a 12 de Junho deste ano.
Antes da
final, os dez finalistas têm a oportunidade de frequentar uma Masterclass nos
dias 16 e 17 de Abril. Esta formação intensiva será conduzida por Malcom Love, antigo
produtor da BBC, que é consultor de coaching em comunicação de ciência e dirige
workshops onde ajuda os cientistas a comunicar melhor com o público e com os
Media. Vários testemunhos de participantes de edições anteriores
sublinham a gratificante experiência vivida e adquirida nas Masterclass do
FameLab. São uma oportunidade única de “melhorar as competências de
comunicação” num “ambiente divertido, enérgico e informal”.
As
candidaturas com envio dos vídeos devem ser feitas através do site do concurso
FameLab, onde os concorrentes podem encontrar todas as
informações relevantes sobre a sua participação e ver as apresentações
finalistas nas edições dos anos anteriores.
Para Filipa
Oliveira, vencedora na edição de 2012, “é importante divulgar conceitos
científicos para que a sociedade compreenda o verdadeiro valor e a importância
da ciência. Além disso, este concurso obriga a conjugar em três minutos várias
características de uma boa comunicação, e conseguir equilibrar tudo em tão
pouco tempo, é de facto interessante e estimulante.”
“Se estão a
hesitar por medo ou insegurança”, diz Leonor Medeiros, vencedora da edição de
2011, que se confessa “aterrada” quando foi à primeira eliminatória, “esse
motivo não é nada válido para deixar passar uma experiência que vai alterar o
modo como olham e transmitem a vossa ciência, seja ela qual for. Se o motivo
for falta de tempo, só posso dizer que, se chegarem à final, qualquer tempo que
tenham gasto a participar será recompensado com uma experiência única e muito
enriquecedora. Avancem, arrisquem, divirtam-se!”
Fica aqui o
desafio. Escolha um assunto de ciência ou tecnologia que queira contar aos
outros, pegue numa câmara, faça um vídeo de três minutos e participe.
Em Portugal,
o FameLab é organizado pela sétima vez pela Ciência Viva - Agência Nacional
para a Cultura Científica e Tecnológica, pelo British Council e pela Fundação
Calouste Gulbenkian. O concurso FameLab foi lançado em 2005 no Reino Unido pelo
Cheltenham Science Festival e conta actualmente com mais de vinte países
participantes, entre os quais muitos países europeus mas também Hong Kong,
Egipto, África do Sul, EUA e Austrália.
António Piedade
quinta-feira, 26 de junho de 2014
Resultados do inquérito sobre o interesse na comunicação de ciência
Efectuei um inquérito de
opinião ao público em geral, com o objectivo de prospecionar qual o interesse
por assuntos de ciência e tecnologia e pela comunicação de ciência. O inquérito foi divulgado através da
internet, principalmente pelas redes sociais como seja o facebook. As respostas
ao inquérito foram recebidas entre Janeiro e Junho de 2014.
Responderam ao inquérito 654
indivíduos, sendo 64 % do sexo feminino e 36 % do masculino. As idades da maior
parte dos inquiridos distribuem-se da seguinte forma: 34 % entre os 35 e 44
anos; 29% entre os 25 e os 34 anos; 16% entre os 45 e os 54 anos; 11% entre os
18 e 24 anos.
A distribuição geográfica mostra
que 27% reside no distrito de Lisboa, 19% no distrito de Coimbra, 17% no
distrito do Porto, 9% no distrito de Aveiro, 5% no distrito de Braga e os
restantes um pouco por todo o país.
Em relação à formação académica verifica-se
que 83% possui um grau superior, dos quais 29% possui mestrado e 12%
doutoramento.
Surpreendentemente, 73% dos
inquiridos afirmam fazer comunicação de ciência no âmbito da sua profissão. 97%
procuram diariamente notícias sobre ciência e tecnologia, sendo que a internet
é o meio mais utilizado e preferido para esse acesso ao conhecimento. A rádio e
a televisão são os meios de comunicação social menos usados para obter
informação sobre ciência.
90% dos inquiridos considera que os
meios dedicados à comunicação de ciência em língua portuguesa são
insuficientes. Em relação ao espaço dedicado pelos órgãos de comunicação social
à ciência, 61% considera que ele é insuficiente e 36% muito insuficiente. No
que toca à qualidade da comunicação de ciência efectuada nos meios de
comunicação social portugueses, 66% considera que é razoável, 15% acha que é
boa contra 23% que a avalia como péssima.
Dos inquiridos, 71% dizem ter um
grande interesse por assuntos científicos. Destes 51% têm mais interesse por
ciência aplicada, 30% por ciência fundamental e 19% por tecnologia. A biologia
é a área científica que desperta mais interesse, seguindo-se os assuntos
ligados à saúde e à medicina. A matemática é a área a que é dispensado menos
interesse. No que toca às tecnologias, as que se aplicam ao ambiente e à saúde
são as que recebem mais atenção. A tecnologia associada à geologia é a que
desperta menos interesse.
Ao consultar conteúdos sobre
ciência na internet, os inquiridos usam maioritariamente sítios especificamente
dedicados à divulgação de ciência, sendo que as pesquisas no Google aparecem em
segundo lugar, seguidas dos jornais online. Os blogues surgem em quarto lugar e
a wikipedia em quinto.
O português e o inglês são
igualmente as línguas mais usadas por 89% dos inquiridos. Contudo, 23% dos
inquiridos também usa o espanhol e 22% o francês.
94% dos inquiridos são da opinião que
todos precisamos de ter bons conhecimentos básicos de ciência, enquanto que 5% consideram
que são os mais novos aqueles que devem ter preferencialmente esses
conhecimentos.
António Piedade
terça-feira, 8 de outubro de 2013
RESUMO DA AUDIÊNCIA COM O PRESIDENTE DA FCT A PROPOSITO DO FIM DA ÁREA DE PROMOÇÃO DE CIÊNCIA
No dia 26 de Setembro o Presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia concedeu uma audiência a alguns dos signatários do Manifesto pela Comunicação da Ciência em Portugal (que contínua disponível para ser subscrito), a propósito do fim da área de Promoção e Administração da Ciência e Tecnologia (PACT). Fica aqui o resumo dessa reunião, na perspectiva dos signatários do Manifesto.
Resumo da audiência com o Presidente da FCT, ocorrida a 26 de Setembro 2013
Estiveram presentes: Miguel Seabra (Presidente da FCT), Ana Godinho (coordenadora do gabinete de comunicação da FCT) e os signatários Joana Lobo Antunes, David Marçal e Bruno Pinto.
O Presidente da FCT começou por expressar o seu desagrado pela criação do Manifesto, assim como pela publicação de artigos de opinião acerca da extinção da área de Promoção e Administração da Ciência e Tecnologia (PACT). Considera que estas iniciativas foram desajustadas, por terem ocorrido antes do pedido de uma audiência com a FCT. Explicámos que, sendo os primeiros peticionários um grupo de pessoas preocupadas com a situação, tentámos primeiro descobrir se a nossa indignação encontrava reflexo em mais cidadãos ou se estávamos sozinhos nesta luta. Afirmámos que a petição nos constitui como interlocutores e que, por isso, só depois de recolhidas 600 assinaturas, fizemos o pedido de audiência (que foi respondido nove dias e 250 assinaturas depois).
O Presidente da FCT sustentou que a área científica PACT não foi extinta e que quem quisesse submeter uma candidatura dessa natureza o poderia fazer no concurso de bolsas individuais de 2013, enquadrada noutra área. Questionámos como seria avaliada uma candidatura que tivesse parcial ou totalmente uma componente de promoção e divulgação de ciência e tecnologia. Não obtivemos uma resposta concreta, apenas a referência ao mecanismo geral que permite a convocação de avaliadores externos aos painéis, no âmbito do actual quadro de interdisciplinariedade da FCT. O Presidente da FCT afirmou não estar em condições de detalhar a solução concreta no concurso para este ano, pois ainda não haviam sido definidos os membros dos painéis. Manifestámos a nossa preocupação relativa à eficácia deste mecanismo para avaliar adequadamente projectos que tenham componente de promoção e divulgação de ciência. Defendemos que apenas avaliadores com experiência na área estão em plenas condições para avaliar a pertinência, alcance e novidade de um projecto dentro desse tema.
O Presidente da FCT afirmou que pretende adequar os processos de avaliação às melhores práticas internacionais. Na sua interpretação das melhores práticas internacionais, os painéis de avaliação devem ter mais ou menos a mesma dimensão, não fazendo sentido um painel avaliar um número reduzido de candidaturas, como tem sido o caso da área PACT. Anunciou que as áreas científicas irão ser reformuladas e que essa proposta irá estar em consulta pública nos próximos meses. Remeteu a oportunidade da fundamentação da necessidade da área PACT, para essa consulta pública das novas áreas da FCT (que serão comuns a projectos e bolsas).
Questionado sobre o que irá acontecer às bolsas PACT em curso, nomeadamente no que diz respeito a dotação orçamental para os segundos triénios das bolsas de pós doutoramento, foi-nos dito que estão em ponderação alterações às renovações para os segundos triénios de todas as bolsas de pós doutoramento, não tendo sido avançada uma posição conclusiva acerca do assunto.
Questionámos acerca do futuro do financiamento pela FCT de projectos de comunicação, divulgação ou promoção de ciência (é uma questão que nos preocupa bastante, já que, para além do fim da área PACT, os últimos financiamentos Ciência 2007 e Ciência 2008 acabam em 2014, não se conhecendo alternativas). O Presidente da FCT mostrou-se interessado em encontrar uma via de apoio financeiro a esta linha de investigação e de funções. Nesse sentido comprometeu-se em nomear alguém na FCT para fazer a ponte entre a tutela e a comunidade, e garantiu que pretendia dialogar com os “stakeholders” no sentido de encontrar soluções em conjunto.
Os primeiros signatários desta petição apresentaram uma lista de propostas concretas ao presidente da FCT sobre o futuro do financiamento da comunicação da ciência em Portugal, que ficou em sua posse. Nomeadamente:
- Bolsas individuais de doutoramento e pós doutoramento numa nova área científica que poderia ser designada como Public Understanding of Science/Public Engagement in Science/Science in society/Estudos de Ciência na Sociedade. Porque consideramos fundamental que se continue a financiar investigação neste campo.
- Concurso semelhante ao “Investigador FCT” (“Divulgador FCT”) para projectos a cinco anos de divulgação e promoção da ciência, propostos por investigadores, apoiados por instituições. Para investigadores e divulgadores de ciência com doutoramento e experiência comprovada na área, implementando projectos inovadores de promoção da ciência.
- Prever posições de comunicação de ciência institucional em Unidades de Investigação com mais de xx investigadores. Porque as funções institucionais devem ser apoiadas pela própria estrutura, não podendo depender de bolseiros.
- Avaliar e incluir ponderação específica para actividades de outreach/disseminação/comunicação de ciência nos Projectos I&D submetidos a concursos da FCT nas mais diversas áreas científicas. Estas podem incluir acções para a comunicação da ciência com o público, colaboração com os grupos de comunicação das respectivas Unidades de Investigação ou colaboração com outros grupos de investigação na área da comunicação de ciência com os quais se estabeleça uma parceria de trabalho. Porque a divulgação e comunicação da ciência que é prevista como trabalho inerente às funções dos investigadores deve ser adequadamente valorizada e financiada.
Quando questionado sobre o concurso de bolsas individuais recentemente encerrado, o Presidente da FCT revelou terem havido cerca de 6000 candidaturas, um número semelhante ao do ano passado. Afirmou não estar em condições de dizer quantas bolsas seriam atribuídas, explicando que esse número está dependente da versão final do Orçamento de Estado para 2014. Lembrou que já foram atribuídas cerca de 400 bolsas no âmbito dos programas doutorais.
A reunião terminou com a expressão de disponibilidade mútua para dialogar no sentido de encontrar uma solução para enquadramento de investigadores em ciência e sociedade e divulgadores de ciência.
segunda-feira, 16 de setembro de 2013
CIÊNCIA SEM COMUNICAÇÃO DE CIÊNCIA?
Transcrevo aqui o artigo de opinião, publicado no Público este sábado, da autoria dos membros da Comissão Organizadora do Congresso de Comunicação de Ciência - SciCom Portugal 2013, a propósito da extinção da área de promoção da ciência e tecnologia da Fundação para a Ciência e Tecnologia.
Nos últimos anos, o Estado Português tem investido numa área científica chamada Promoção e Administração de Ciência e Tecnologia (PACT), atribuindo 7 a 11 bolsas de doutoramento e pós-doutoramento por ano desde 2005. Esta era a única área transdisciplinar em todo o leque disponível nos concursos de bolsas individuais que a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT) tem atribuído anualmente, tanto pelo perfil do painel de investigadores que fazia a avaliação das candidaturas (um matemático/divulgador científico, um especialista de Ciências de Educação e um de Ciências Sociais) como pelos percursos e projectos dos bolseiros seleccionados, que cruzam áreas de conhecimento em projectos que promovem e divulgam ciência junto de públicos-alvo tão díspares quanto os existentes na sociedade portuguesa.
Graças a essas bolsas pudemos ter ciência num grande festival de música, ciência em espectáculos de stand-up comedy, ciência em livros, ciência em documentários, ciência portuguesa na imprensa estrangeira, ciência nas redes sociais, ciência em pacotes de açúcar e em chávenas de café, ciência na televisão, rádio e jornais. Para além de encontrar formas inovadoras e apelativas de comunicar ciência, estes bolseiros também se dedicaram a avaliar o impacto das suas actividades junto dos vários públicos e a publicar os seus resultados, submetendo-os ao processo de revisão pelos pares característico da produção científica. Ou seja, estes investigadores não só fizeram comunicação de ciência como conseguiram que a comunicação de ciência de afirmasse como ciência ela mesma em Portugal, a exemplo do que sucede noutros países.
Em Maio deste ano, organizámos o 1º Congresso de Comunicação de Ciência em Portugal, que permitiu que os profissionais que se dedicam a esta área se reunissem e conhecessem o trabalho uns dos outros. O congresso reuniu mais de duzentos profissionais durante dois dias e foi surpreendente e recompensador verificar a quantidade e qualidade do trabalho que tem sido feito em Portugal. Analisando os trabalhos seleccionados, verifica-se que a fonte principal de financiamento desta área é a FCT e que cerca de metade dos trabalhos científicos provinham de bolseiros PACT.
Contudo, no preciso momento em que a comunidade se orgulha do trabalho feito e se congratula pelos objectivos atingidos, coisa rara nos dias de hoje, verificámos o desaparecimento das PACT no actual concurso de atribuição de bolsas individuais de doutoramento e pós-doutoramento da FCT, que decorre até dia 19 de Setembro. Este ano, à semelhança do que se está a esboçar para os futuros financiamentos europeus, a comunicação e promoção da ciência deixa de ser uma área própria e passa a ser incluída no seio das restantes áreas do saber, podendo as candidaturas deste domínio ser apresentadas à área que pareça mais adequada. Fica-se assim dependente da bondade de estranhos, dependente de que o presidente de cada um dos painéis das diversas áreas científicas considere estas candidaturas suficientemente interessantes para convocar peritos externos ou de outros painéis para poder avaliar em toda a sua real dimensão a importância e potencial impacto do projecto e assim lhe atribuir uma nota, permitindo-lhe concorrer com as demais propostas.
Este procedimento suscita-nos várias reservas: a primeira, óbvia, é a dúvida de que, num contexto de redução de bolsas, um painel de avaliação decida financiar projectos de comunicação de ciência em detrimento de outros específicos da sua área, se não houver para isso uma indicação clara por parte da entidade financiadora. A segunda, provém do receio de que a eliminação da única área verdadeiramente interdisciplinar destes concursos, sem apresentar qualquer alternativa, possa significar a morte a curto prazo do que apenas agora estava a começar a dar frutos, o que seria um lamentável desperdício do investimento feito. Mais nos surpreende esta decisão depois da participação do Ministro da Educação e Ciência no Congresso de Comunicação de Ciência, há apenas quatro meses, onde, depois de referir o “progresso extraordinário” feito nesta área nos últimos anos, sublinhou a importância das actividades da comunicação para a própria ciência e tecnologia e até para a economia.
Note-se que, a acompanhar o crescimento do sector, começou também a haver oferta formativa para profissionais (e aspirantes) em comunicação de ciência: mestrados, cursos livres, cursos de verão e até um doutoramento. Para quê? Para quem? Um aumento de recursos especializados, de qualidade, que esbarra numa porta que se fecha.
As bolsas PACT têm (tinham), decerto, as suas limitações. Mas, em vez de assistirmos à sua evolução para propostas mais consistentes, como seria desejável, que dessem sequência ao reconhecimento da importância deste trabalho já feito pela tutela, constatamos o seu desaparecimento. Perante a extinção das bolsas PACT é fundamental que os profissionais da área (que têm as suas bolsas em curso, ou potenciais candidatos (que tinham já a sua candidatura preparada) percebam qual a estratégia da tutela para a comunicação de ciência, o que exige um esclarecimento público do Ministério da Educação e Ciência e da FCT e a explicitação das novas regras de candidatura inerentes a estes casos.
Está online desde 30 de Agosto um Manifesto pela Comunicação da Ciência em Portugal, de apoio à continuação das PACT, que subscrevemos.
Joana Lobo Antunes, José Vítor Malheiros, Sílvia Castro, Sílvio Mendes
Membros da Comissão Organizadora do Congresso de Comunicação de Ciência - SciCom Portugal 2013
quinta-feira, 5 de setembro de 2013
Não apoiar a comunicação em ciência faz parte de uma estratégia
Segundo o texto de Gonçalo Calado, publicado hoje no público:
A petição a propósito deste assunto pode ser assinada aqui.
As bolsas para divulgação e comunicação da ciência deixaram de existir no último concurso aberto pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. É uma estratégia de distanciamento entre ciência e sociedade, que retira poder negocial aos investigadores.Ler o texto integral, aqui.
A petição a propósito deste assunto pode ser assinada aqui.
Escrever para impressionar ou para comunicar?
Como é que, segundo Karl Popper, se deve comunicar a ciência? De modo claro e compreensível, do modo mais claro e compreensível que for possível.
E se assim não acontecer? A ciência não avança. Porque a crítica, uma das condições do seu progresso, não se pode exercer. Tão simples quanto isso!
E se assim não acontecer? A ciência não avança. Porque a crítica, uma das condições do seu progresso, não se pode exercer. Tão simples quanto isso!
“Há muitos anos, costumava prevenir os meus alunos contra a ideia largamente espalhada de que se vai para a faculdade para aprender a falar e a escrever «de modo a impressionar os outros» e de forma incompreensível. Na altura eram muitos os alunos que chegavam à faculdade com esta ideia ridícula, especialmente na Alemanha. E a maioria dos estudante par excellence. Há poucas esperanças de que venham a alguma vez a compreender que estão errados, ou que há outros padrões e valores — valores como a busca da verdade, a aproximação à verdade através da eliminação crítica do erro, e a clareza. Nem virão a descobrir que o padrão de obscuridade «que impressiona» vai, de facto, contra os padrões de verdade e de crítica racional. Pois estes últimos valores dependem da clareza. Não podemos distinguir a verdade da falsidade, não podemos distinguir uma resposta adequada de uma resposta irrelevante para um problema, não podemos distinguir as boas ideias das ideias banais e não podemos avaliar criticamente as ideias (…).”Karl Popper (1999). O mito do contexto: em defesa da ciência e da racionalidade (Lisboa: Edições 70), p. 97.
«Escrevi na língua coloquial porque é preciso que toda a gente o leia»
Sobre a tradição de divulgação da ciência e os problemas com que se tem confrontado.

"Galileu afrontou ainda mais a tradição académica ao escrever a Dissertação [Sobre os Copos que ficam em Cima da Água] em italiano, em vez de latim, a língua franca que permitia que a comunidade académica europeia comunicasse entre si.
«Escrevi na língua coloquial porque é preciso que toda a gente o leia», explicava Galileu - referindo-se aos contrutores navais que admirava no Arsenal veneziano, os sopradores de vidro de Murano, os esmeriladores de lentes, os fabricantes de instrumentos e todos os compatriotas curiosos que assistiam às suas conferências públicas. «Sou levado a fazê-lo por ver como os jovens são enviados ao acaso para as universidades para deles se fazerem médicos, filósofos e aí por diante; assim muitos entregam-se a profissões para as quais não estão adaptados, ao passo que outros que estariam indicados são afastados pelos cuidados co a família e outras ocupações distantes da literatura... Agora, quero que eles vejam que, assim como a Natureza lhes dá tanto a eles como aos filósofos olhos com os quais vejam as suas obras, também lhes deu cérebros capazes de as penetrar e compreender»".
Dava Sobel, A filha de Galileu (Círculo de Leitores/Temas e Debates), 2012, p´. 49

"Galileu afrontou ainda mais a tradição académica ao escrever a Dissertação [Sobre os Copos que ficam em Cima da Água] em italiano, em vez de latim, a língua franca que permitia que a comunidade académica europeia comunicasse entre si.
«Escrevi na língua coloquial porque é preciso que toda a gente o leia», explicava Galileu - referindo-se aos contrutores navais que admirava no Arsenal veneziano, os sopradores de vidro de Murano, os esmeriladores de lentes, os fabricantes de instrumentos e todos os compatriotas curiosos que assistiam às suas conferências públicas. «Sou levado a fazê-lo por ver como os jovens são enviados ao acaso para as universidades para deles se fazerem médicos, filósofos e aí por diante; assim muitos entregam-se a profissões para as quais não estão adaptados, ao passo que outros que estariam indicados são afastados pelos cuidados co a família e outras ocupações distantes da literatura... Agora, quero que eles vejam que, assim como a Natureza lhes dá tanto a eles como aos filósofos olhos com os quais vejam as suas obras, também lhes deu cérebros capazes de as penetrar e compreender»".
Dava Sobel, A filha de Galileu (Círculo de Leitores/Temas e Debates), 2012, p´. 49
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Tudo se mistura e confunde
A propósito de alguma falta de reconhecimento da divulgação científica, que tem sido objecto de debate neste blogue.
A divulgação da ciência - que, vindo de longe, ganhou um enorme impulso depois da Segunda Grande Guerra, em grande medida, por causa dela - é fundamental em termos de informação e consciencialização das sociedades bem como nas decisões que podem tomar nos seus mais diversos sectores. Isso é ponto assente.
Porém, quando se fala em divulgação da ciência pensa-se, certamente, na divulgação de conhecimento produzido nas ditas "disciplinas duras" - química, física, biologia... - e na matemática - com estatuto epistemológico próprio - e não nas ditas "disciplinas moles" - a sociologia, a antropologia, a pedagogia...
No que respeita à pedagogia, que é a área que conheço melhor, tornou-se comum dissertar-se, opinar-se sobre os assuntos que trata sem que isso tivesse sido acompanhado da preparação que tal tarefa exige.
Exemplifico: ao ler no Público on line um artigo recente - Quando a escola deixar de ser uma fábrica de alunos - dei conta da mistura de temas, factos e conceitos, das imprecisões, da infiltração do senso-comum no texto... Como muitos outros, este em vez de esclarecer confunde; em vez de informar desinforma, em vez de se aprofundar ideias deixa-as pela rama.
Neste artigo são tratados temas como...
Reconheço que não me fica muito bem assinar este texto, pois é, em certa medida por omissão dos (pejurativamente nomeados) especialistas em pedagogia que a divulgação científica nesta área está no estado que acima ilustrei. A sua responsabilidade neste particular ainda não se fez soar devidamente, sendo que ela devia fazer-se notar junto de jornais e jornalistas, na escrita artigos e livros que as mais diversas pessoas pudessem compreender e debater.
Há, pois, um trabalho imenso pela frente de divulgação do conhecimento pedagógico, ainda que já possamos contar com iniciativas meritórias (de algumas que tenho conhecimento dei conta aqui e aqui).
A divulgação da ciência - que, vindo de longe, ganhou um enorme impulso depois da Segunda Grande Guerra, em grande medida, por causa dela - é fundamental em termos de informação e consciencialização das sociedades bem como nas decisões que podem tomar nos seus mais diversos sectores. Isso é ponto assente.
Porém, quando se fala em divulgação da ciência pensa-se, certamente, na divulgação de conhecimento produzido nas ditas "disciplinas duras" - química, física, biologia... - e na matemática - com estatuto epistemológico próprio - e não nas ditas "disciplinas moles" - a sociologia, a antropologia, a pedagogia...
No que respeita à pedagogia, que é a área que conheço melhor, tornou-se comum dissertar-se, opinar-se sobre os assuntos que trata sem que isso tivesse sido acompanhado da preparação que tal tarefa exige.
Exemplifico: ao ler no Público on line um artigo recente - Quando a escola deixar de ser uma fábrica de alunos - dei conta da mistura de temas, factos e conceitos, das imprecisões, da infiltração do senso-comum no texto... Como muitos outros, este em vez de esclarecer confunde; em vez de informar desinforma, em vez de se aprofundar ideias deixa-as pela rama.
Neste artigo são tratados temas como...
a organização do espaço na sala de aula, a relação professor-aluno, a escola tradicional e a nova, a morte, sobrevivência e/ou mudança da instituição que é a escola, a relação da escola com a sociedade e o mercado de trabalho, a integração das tecnologias da informação e da comunicação no processo de ensino-aprendizagem (que muda o lugar do professor, do aluno e do conhecimento), os filmes que se disponibilizam na internet como forma de aprendizagem, a organização didáctica das aulas, a organização do espaço e mobiliário escolar, as competências que os alunos devem adquirir, a relação teoria-prática, os métodos de ensino, a motivação dos alunos, a alteração do currículo, avaliação da aprendizagem, o ambiente de sala de aula, as artes na educação, os estilos de aprendizagem, a tutoria e a home-shooling, a equidade, a igualdade de oportunidades, a inclusão social, a inovação pedagógica, casos de países, "pedagogias" e escolas de manifesto sucesso, a formação de professores, a relação entre a tutela e os terrenos educativos, a avaliação internacional, o número de alunos por turma, a aprendizagem colaborativa, o trabalho de grupo, a pesquisa e a discussão dos alunos, a autonomia dos alunos, a inter e multidisciplinaridade...Podia continuar o meu exercício de cotejamento mas paro-o aqui, até porque ele é bastante para se perceber a ideologia que passa ao leitor e que se traduz em verdades inquestionáveis:
o aluno deve ser activo, é preciso mudar a escola porque a sociedade muda, os alunos de hoje são diferentes dos de épocas passadas, é fundamental reforçar a aprendizagem prática, os alunos devem integra-se em comunidades profissionais, a aprendizagem não é "decorar", a mais valia, em termos de aprendizagem do contacto com "vivências reais", deve preferir-se o brincar como forma de aprendizagem, a importância de se trabalhar a auto-estima dos alunos, é preciso que a avaliação se apresente despercebidamente aos alunos e não bem como avaliação, os alunos pode ser espontaneamente imaginativos e a criativos, a arte tem um poder libertador, a diferenciação pedagógica é uma mais-valia, é fundamental respeitar as necessidades individuais de cada aluno...É possível identificar, nesse artigo, outras concepções de educação, mas também fico por aqui, apenas assinalo que nenhuma é analisada no sentido de se perceber o que está em jogo, qual o seu sentido histórico, social, filosófico... que investigação científica tem desencadeado e com que resultados.
Reconheço que não me fica muito bem assinar este texto, pois é, em certa medida por omissão dos (pejurativamente nomeados) especialistas em pedagogia que a divulgação científica nesta área está no estado que acima ilustrei. A sua responsabilidade neste particular ainda não se fez soar devidamente, sendo que ela devia fazer-se notar junto de jornais e jornalistas, na escrita artigos e livros que as mais diversas pessoas pudessem compreender e debater.
Há, pois, um trabalho imenso pela frente de divulgação do conhecimento pedagógico, ainda que já possamos contar com iniciativas meritórias (de algumas que tenho conhecimento dei conta aqui e aqui).
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
GOVERNO ACABA COM UMA ÁREA CIENTÍFICA
A polémica à volta da abertura do concurso de bolsas de investigação científica da Fundação para a Ciência e Tecnologia tem sido abundante. A começar pelo começo: nunca mais começava. Com um calendário relativamente estável durante vários anos, este ano ninguém sabia quando iria abrir o concurso de bolsas individuais. O que já se sabia era que o número de bolsas iria ser drasticamente reduzido, para cerca de metade das do ano anterior.
A abertura foi sucessivamente adiada e quando abriu, abriu nova polémica. Os critérios de acesso às bolsas tinham sido alterados, de modo a que quem não tivesse concluído o mestrado (no caso das bolsas de doutoramento) ou o doutoramento (no caso das bolsas de pós- doutoramento) até ao fim do prazo de candidatura (19 de Setembro) não poderia apresentar-se a concurso. A prática habitual é permitir que candidatos que estejam prestes a acabar, possam concorrer na mesma, sendo condição que obtenham o respectivo grau antes do início da bolsa. Este critério de exclusão, sendo os concursos anuais, implicaria que um investigador que concluísse o seu doutoramento em Outubro, ficaria quase um ano à espera de novo concurso. Face a alguns protestos, a FCT acabou por recuar nesta questão (ou "esclarecer", que é uma maneira de recuar que está muito na moda).
Como se não bastassem estas trapalhadas, aconteceu mais uma que passou bem mais despercebida. O governo acabou com uma área científica. Sem nenhum pré-aviso, desapareceu uma área designada por PACT (Promoção e Administração da Ciência e Tecnologia). Esta área tem, nos últimos anos através dos seus bolseiros, contribuído significativamente para criar alguma massa crítica de divulgadores de ciência em Portugal, assim como permitir a produção de conhecimento e investigação sobre esse tema.
Manter as bolsas PACT não implicava um aumento de despesa, apenas uma maior diversidade de áreas em que são atribuídas as bolsas. Aliás, estas bolsas nunca foram muitas, sendo atribuídas anualmente 7 a 11. Numa situação de grande contenção orçamental, acabar com a PACT é um tiro no pé. Para defender o investimento na ciência (sem a qual não há futuro que interesse) é preciso que os contribuintes compreendam a sua importância.
A fotografia no inicio, da autoria de Roberto Keller, é do congresso de comunicação de ciência SciCom PT 2013, que reuniu recentemente no Pavilhão do Conhecimento parte significativa da comunidade portuguesas de comunicadores de ciência. Esta área tem conhecido progressos extraordinários na última década, para os quais os bolseiros PACT têm contribuído de forma muito relevante. A extinção das PACT é um sério recuo e põe em causa a continuidade do desenvolvimento da comunicação de ciência, que cada vez é mais valorizada pelas agências de financiamento internacionais e pelas instituições europeias. Isto porque os dias de fazer investigação científica sem explicar às pessoas o que se está a fazer com o dinheiro delas e a importância da ciência, estão contados.
sábado, 27 de julho de 2013
Ciência aos Quadradinhos
É urgente a construção de uma sociedade responsável, com capacidade de decisão matura/ fundamentada e detentora de um verdadeiro espírito de cidadania. Nesse sentido, é também obrigação de todos nós que nos movemos neste meio, mais que não seja responsabilidade moral, a implementação de uma série de práticas, desde a clarificação dos conceitos emergentes relativos aos avanços científicos/ tecnológicos que vivemos, à estimulação do pensamento crítico desde tenra idade, e ainda, ao favorecimento da proximidade entre os cientistas e o público em geral. E se colocar tudo isto em prática não é fácil, o grande busílis da questão está mesmo na linguagem a utilizar. Ora parece-me que a aliança entre a Ciência e a Arte in senso lato, duas formas de produção intelectual grandemente dependentes da criatividade, pode ser uma estratégia muito promissora para envolver o público e disseminar a “mensagem”. Adicionalmente, se a mensagem for passada a par de um suporte visual forte, assertivo, coerente e bem disposto, então teremos andado mais de meio caminho em direcção ao nosso propósito.
Foi com estas ideias em mente, foi também tendo em conta os resultados alcançados pelas experiências iterativas de muitos anos a partilhar Ciência às mais diversas faixas etárias e tipos de público, e ainda, revivendo boas memórias dos projectos em que congrego alguma forma de arte figurativa ao processo de comunicação de Ciência, que me decidi a dar este passo. A ideia consiste em utilizar a arte sequencial animada para transmitir, dentro de quatro linhas, conceitos associados a conteúdos de Ciência. Mais concretamente através de cartoons sob a forma de quadro único ou tira. Para titubear os primeiros passos decidi-me pela área da Microbiologia. E porquê? Por (de)formação e porque os microrganismos ou os processos microbianos estão por todo o lado, desde o ambiente às notícias que vemos/lemos diariamente. Bom, mas a razão principal, a razão que me levou mesmo, mesmo a escolher a "vida à escala micro", prende-se com o facto dos microrganismos estarem amarrados com nó cego, a muitos preconceitos e conceitos errados. Errados e perigosos. Consulte-se num qualquer dicionário a palavra microrganismo, micróbio ao termo afim e dá logo vontade de bater na madeira, ao mesmo tempo que se murmura um "vade retro Satanás".
Mas dizer coisas sérias a brincar não é fácil! E a imaginação, Senhores? Ai, a imaginação e a criatividade não aparecem assim à hora marcada com um estalar de dedos. Então lancei o desafio, sob a forma de uma ferramenta de avaliação, aos meus alunos das licenciaturas em Biologia–Geologia e Mestrado Integrado em Engenharia Biológica e ainda, como tema de projecto de licenciatura em Biologia Aplicada com o título de "Microrganismos ao Quadradinhos". Acontece que a motivação e adesão foram enorme e os resultados, grosso modo, muito gratificantes. O cartoon em cima é um dos elementos da colecção com o título supra-citado, da autoria do aluno finalista em Biologia Aplicada, Daniel Ribeiro. O objectivo agora é burilar e maturar esta ideia de modo a poder faze-la sair do quadrado onde está confinada, para um círculo de acção mais alargado onde muitos possam usufruir. Cá por mim, espero que o raio do círculo seja bem grande...
terça-feira, 28 de maio de 2013
CIÊNCIA NA IMPRENSA REGIONAL – CIÊNCIA VIVA
Resumo da minha comunicação ontem, dia 27 de Maio, no primeiro Congresso de Comunicação de Ciência em Portugal - SciCom Pt 2013
Resultados do programa Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva
Créditos da foto: Roberto Keller-Perez
Resultados do programa Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva
O programa «Ciência na Imprensa Regional» é uma
iniciativa da Ciência Viva - Agência Nacional para a Cultura Científica eTecnológica, com início em Agosto de 2011. O principal objectivo desta
iniciativa é a divulgação da ciência e da tecnologia ao maior número de jornais
regionais em todo o país, disponibilizando conteúdos C&T de grande
actualidade e interesse para o comum das pessoas.
Até ao momento o programa conta com 60 jornais
aderentes (continente e ilhas), 47 colaboradores regulares (cientistas,
comunicadores, divulgadores e jornalistas de ciência), cerca de 350 conteúdos produzidos e disponibilizados
em quase 1000 publicações.
Um número significativo de jornais aderentes ao
programa já criaram uma secção permanente de ciência. Também o volume de
artigos publicados atingiu recentemente o número de 90 por mês, numa média de 3
artigos por dia.
Os jornais com edição on line activa (em número de 21) apresentam hoje uma grande fidelização
ao programa, publicando regularmente os conteúdos disponibilizados. Mais de 70%
dos artigos publicados on line
apresentam um número de visualizações superiores a 1000, tendo alguns artigos
atingido mais de 8000 visualizações. Registam-se ainda centenas de partilhas
efectuadas pelos leitores pelas redes sociais facebook, google + e twitter,
sendo que as preferências vão para os artigos que abordam assuntos ligados à
astronomia e à saúde.
Conclui-se que os objectivos
inicialmente propostos para o programa foram atingidos e nalguns aspectos
superados. Os jornais aderentes ao programa publicam hoje
imediata e regularmente a quase totalidade dos conteúdos disponibilizados no
portal. Portanto, conclui-se ainda que a não
publicação de conteúdos de ciência na imprensa regional não se deve a falta de
interesse de editores, jornalistas ou leitores mas, simplesmente, à pouca
disponibilidade desses conteúdos e à falta de jornalistas especializados nesses
meios.
Por fim, consideramos que este programa está
ainda em fase piloto e que os seus resultados devem ser analisados de
diferentes ângulos tendo em conta o panorama actual da imprensa regional, quer
ao nível dos editores quer dos jornalistas e seus públicos. Como potenciar
resultados? Como envolver cada vez mais investigadores? Haverá uma abordagem
mais regional da ciência? Estas são apenas algumas das questões em aberto neste
projecto com resultados muito positivos, mas que devem
ser potenciados.
António Piedade
quarta-feira, 17 de abril de 2013
Dia Aberto ITQB 2013: O que é ser cientista?
Um dia em cada dois anos, os investigadores do Instituto de Tecnologia Química e Biológica (ITQB) recebem todos os visitantes que queiram saber mais sobre o que é ser cientista. O próximo Dia Aberto ITQB é no próximo sábado, dia 20, das 10h às 17h, com entrada livre.
terça-feira, 13 de novembro de 2012
Pipocas com telemóvel e outras histórias de falsa ciência. Entrevista.
Entrevista a Carlos Fiolhais e David Marçal publicada primeiramente no Diário de Coimbra e outra imprensa regional.
“Pipocas com Telemóvel e outras histórias de falsa ciência” é o novo livro de Carlos Fiolhais e de David Marçal, acabado de ser publicado pela editora Gradiva, incluído na sua prestigiada colecção “Ciência Aberta”, número 196.
António Piedade (AP) - Porque é que escreveram este livro?
David Marçal (DM) - É um tema que interessa a ambos, sobre o qual escrevemos habitualmente no nosso blogue "De Rerum Natura". E é um tema muito relevante porque somos diariamente confrontados com afirmações aparentemente baseadas na ciência, mas que de ciência não têm mesmo nada. Há coisas que caracterizam a ciência e outras a falsa ciência. Com este livro, esperamos ajudar os leitores a distinguirem umas das outras. Comunicamos ciência apresentando, com algum humor, casos de não-ciência.
AP - Que tipo de leitores é que tinham em mente quando o escreveram?
Carlos Fiolhais (CF) - Procurámos chegar ao maior público possível. Não desejamos menos do que um "best-seller"! A maior parte dos temas abordados vêm do dia-a-dia das pessoas. Na internet, nos jornais, nos supermercados, em anúncios televisivos, nas farmácias, etc. Os leitores estarão interessados em saber mais sobre as alegações de validade científica com que são confrontados em inúmeras situações. Há muitas tretas que são servidas como verdades. Não é só a astrologia, muito antiga: hoje prometem-se curas quânticas, que não têm a ver com a teoria quântica.
AP - Que tipo de leitores esperam que o leiam?
DM - Leitores interessados em ciência, decerto, mas não necessariamente com formação científica. basta que tenham curiosidade. Mesmo quem seja especialista numa determinada área vai ficar a saber coisas que não sabia. Quem não seja especialista, ficará a saber mais sobre várias áreas. Deixar-se-á enganar menos facilmente.
AP - Porque é que escolheram este título para o livro?
CF - Pensámos que muita gente se iria lembrar de um famoso video que circulou na Internet, que mostrava a preparação de pipocas com telemóveis. Uma treta, claro. E porque essa situação ilustra bem as características da ciência e a atitude crítica que desmascara a falsa ciência. Mesmo não sabendo nada acerca de milho, telemóveis ou radiações, basta uma experiência simples para concluir que não é possível fazer pipocas com telemóvel. A experiência é a base do conhecimento científico. E, neste caso, o leitor pode experimentar.
AP - Há mais adesão às pseudociências em Portugal do que em outros países? Porquê?
DM - Apesar de haver situações específicas em cada país, também a falsa ciência está globalizada. Há cá como nos outros lados. Os produtos de consumo (como iogurtes milagrosos e remédios homeopáticos) ou as notícias disparatadas não conhecem fronteiras. Claro que há coisas que encontram mais adesão nuns países do que noutros. No livro indicamos alguns casos nacionais.
AP - Fazia falta um livro deste género escrito por portugueses. Porque é só agora é que o escreveram?
CF - No livro "Darwin aos Tiros", que já vai na 3.ª edição, o último capítulo é sobre falsa ciência e achámos que seria um bom tema para aprofundar no livro seguinte. Disseram-nos que era uma das partes mais interessantes do livro anterior. Mas pode ler-se este livro sem o outro.
AP - Como classificam a evolução da divulgação de ciência em Portugal nas últimas décadas?
DM - Ímpar. Temos que destacar o papel da Gradiva, designadamente através da sua colecção Ciência Aberta, que conta já com 30 anos e quase 200 obras publicadas. A Ciência Viva, assim como várias associações e instituições de investigação científica, têm sido excelentes nesta área. É uma aposta que deve ser mantida e reforçada pois sem ciência não temos futuro.
quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Comunicar o Oceano nas Mãos da Ciência
O Ciclo de Palestras “Comunicar o Oceano nas Mãos da Ciência” pretende promover a discussão entre especialistas de diferentes áreas de divulgação científica e cruzar diferentes perspectivas entre casos de estudo nacionais e regionais. Os painéis temáticos vão de encontro a temáticas pertinentes que suscitarão debates e reflexões sobre a Comunicação do Oceano e a partilha de conhecimento com a comunidade em geral:
- Quais as estratégias actuais para comunicar para públicos diferenciados?
- Como iniciar um ciclo crítico à divulgação científica que é feita?
- Qual o papel da imagem na comunicação do Oceano?
- Qual o papel dos Centros de Ciência na Divulgação Científica?
Esta iniciativa é organizada pelo Observatório do Mar dos Açores na sua valência Centro de Ciência, tem como parceiro o Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores e é apoiada pela Secretaria Regional da Ciência, Tecnologia e Equipamentos.
sexta-feira, 12 de outubro de 2012
CIÊNCIA E COMUNICAÇÃO
Novo texto do Professor Galopim de Carvalho, que o De Rerum Natura muito agradece.
Ciência não é comunicação, mas não existe sem ela. À semelhança dos mais rudimentares saberes dos nossos primitivos antepassados, também a ciência é inseparável da comunicação.
Entendida como um conjunto de conhecimentos acerca de parcelas maiores ou menores do todo universal, obtidos através da observação, da experimentação e/ou da elaboração mental, a ciência é uma obra colossal do colectivo, cujos alicerces se perdem nos confins do tempo da humanidade. Edificada pedra sobre pedra, ao longo do tempo, o seu fio condutor sempre foi e será a comunicação. Sem este vector o conhecimento científico não avança. Morre com quem o cria.
Comunicar ou comungar, do latim, communicare, significa partilhar com outrem. Comunicam entre si, e até connosco, muitos dos animais que conhecemos. A comunicação entre os humanos utiliza, sobretudo, a palavra falada ou escrita, sendo que, quase sempre, o acto de falar é apoiado pelo gesto e pela expressão fisionómica e corporal.
Apoiada ou não pelos meios que o progresso da tecnologia vai pondo ao nosso alcance, a comunicação é uma constante do nosso viver em sociedade. Comunicam entre pares, ao mais alto patamar de erudição, os “sábios” nas academias e os investigadores nos congressos e outras reuniões científicas. Comunicam entre si professores e alunos. Comunicam, através dos livros, jornais e revistas, rádio e TV, e aos mais diversos níveis, os divulgadores que se dispõem a fazê-lo, muito poucos, em Portugal, diga-se. Quase tudo o que nos rodeia e de que constantemente nos servimos, ou com o qual nos articulamos diariamente, resultou das conquistas da ciência e da tecnologia. Os alimentos, os medicamentos, os transportes e comunicações, os equipamentos mais variados da indústria, da saúde, da cultura ou do lazer, radicam nestas conquistas do génio humano.
O conhecimento científico e as tecnologias com ele relacionadas são alguns dos pilares sobre os quais assentam as sociedades humanas, o progresso social e o bem-estar da humanidade. O paralelismo entre a produção científica e o avanço das técnicas de comunicação é, sobretudo nos dias que correm, uma evidência espectacular. Do texto manuscrito enviado por mar e à vela, ou por terra, na bolsa de um estafeta a cavalo, aos actualíssimos e-mail e skype, passando pelo correio expresso ou pelos já antiquados telex e fax, a generalização e o aperfeiçoamento constante e progressivo dos meios de comunicação de pessoas e ideias fez e faz crescer exponencialmente o hoje imenso e inabarcável edifício da ciência.
Esperemos que o instantâneo da comunicação, que caracteriza os nossos dias, possa acautelar muitos dos riscos que o avanço da ciência também acarreta. Lembremo-nos da pólvora, da dinamite, da fissão e da fusão nucleares, das armas químicas e biológicas, e não esqueçamos a clonagem, os transgénicos, a nanotecnologia e tudo o mais que já está aí e, ainda, o que há-de vir.
Galopim de Carvalho
Ciência não é comunicação, mas não existe sem ela. À semelhança dos mais rudimentares saberes dos nossos primitivos antepassados, também a ciência é inseparável da comunicação.
Entendida como um conjunto de conhecimentos acerca de parcelas maiores ou menores do todo universal, obtidos através da observação, da experimentação e/ou da elaboração mental, a ciência é uma obra colossal do colectivo, cujos alicerces se perdem nos confins do tempo da humanidade. Edificada pedra sobre pedra, ao longo do tempo, o seu fio condutor sempre foi e será a comunicação. Sem este vector o conhecimento científico não avança. Morre com quem o cria.
Comunicar ou comungar, do latim, communicare, significa partilhar com outrem. Comunicam entre si, e até connosco, muitos dos animais que conhecemos. A comunicação entre os humanos utiliza, sobretudo, a palavra falada ou escrita, sendo que, quase sempre, o acto de falar é apoiado pelo gesto e pela expressão fisionómica e corporal.
Apoiada ou não pelos meios que o progresso da tecnologia vai pondo ao nosso alcance, a comunicação é uma constante do nosso viver em sociedade. Comunicam entre pares, ao mais alto patamar de erudição, os “sábios” nas academias e os investigadores nos congressos e outras reuniões científicas. Comunicam entre si professores e alunos. Comunicam, através dos livros, jornais e revistas, rádio e TV, e aos mais diversos níveis, os divulgadores que se dispõem a fazê-lo, muito poucos, em Portugal, diga-se. Quase tudo o que nos rodeia e de que constantemente nos servimos, ou com o qual nos articulamos diariamente, resultou das conquistas da ciência e da tecnologia. Os alimentos, os medicamentos, os transportes e comunicações, os equipamentos mais variados da indústria, da saúde, da cultura ou do lazer, radicam nestas conquistas do génio humano.
O conhecimento científico e as tecnologias com ele relacionadas são alguns dos pilares sobre os quais assentam as sociedades humanas, o progresso social e o bem-estar da humanidade. O paralelismo entre a produção científica e o avanço das técnicas de comunicação é, sobretudo nos dias que correm, uma evidência espectacular. Do texto manuscrito enviado por mar e à vela, ou por terra, na bolsa de um estafeta a cavalo, aos actualíssimos e-mail e skype, passando pelo correio expresso ou pelos já antiquados telex e fax, a generalização e o aperfeiçoamento constante e progressivo dos meios de comunicação de pessoas e ideias fez e faz crescer exponencialmente o hoje imenso e inabarcável edifício da ciência.
Esperemos que o instantâneo da comunicação, que caracteriza os nossos dias, possa acautelar muitos dos riscos que o avanço da ciência também acarreta. Lembremo-nos da pólvora, da dinamite, da fissão e da fusão nucleares, das armas químicas e biológicas, e não esqueçamos a clonagem, os transgénicos, a nanotecnologia e tudo o mais que já está aí e, ainda, o que há-de vir.
Galopim de Carvalho
sábado, 19 de maio de 2012
sexta-feira, 18 de maio de 2012
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