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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

"Em termos de pódio"

No outro dia, ao guiar numa povoação para mim desconhecida, parei para perguntar a um polícia onde ficava a rua onde queria ir. O guarda informou-me: "Siga em frente até à próxima rotunda e aí, em termos de direita, é a última." Estava longe de ser a primeira vez que ouvia a a expressão "em termos de", um inglesismo hoje usado a torto e a direito. Mas estranhei tanto que decidi ficar atento a frases ao género ditas por pessoas da rua ou notáveis de qualquer espécie. E foi assim que ouvi há poucos dias Vítor Pereira, treinador do futebol Clube do Porto, depois do jogo inaugural desta época com o Lyon, afirmar: "Estamos a crescer em termos de jogo."

Mas tanto a frase do polícia como a do treinador não conseguem bater uma outra com um duplo "
em termos de" do Comandante José Vicente Moura, eterno Presidente do Comité Olímpico Português. Declarou ele, a 14 de Julho passado, em registo da Lusa “a margem da” (é o que diz o despacho) cerimónia de homenagem a Francisco Lázaro, o atleta português que faleceu há cem anos, na maratona de Estocolmo de 1912, durante a primeira participação olímpica portuguesa.

"As minhas previsões não são muito optimistas em termos de pódio, mas não em termos de final. Às vezes, as coisas acontecem, há quatro anos enganei-me e espero que me volte a enganar novamente em Londres."

Todos estão lembrados da autoreferência. Nos Jogos Olímpicos de Pequim, o presidente tinha prometido uma mão-cheia de medalhas para a representação nacional. Após a desqualificação de Naide Gomes, e muito descoroçoado por não cumprir o prometido, afirmou que não se voltaria candidatar-se ao lugar. Mas depressa deu o dito por não dito, passando a ser candidato, quando Nelson Évora ganhou uma medalha de ouro no triplo salto. E lá continuou em funções. Às vezes as coisas acontecem e, dessa vez, uma coisa tinha acontecido "
em termos de medalhas”. Já nos Jogos Olímpicos de Londres, as coisas não têm, pura e simplesmente, acontecido. O presidente bem gostava de se ter enganado, mas até agora não se enganou. Para compensar a falta de lugares no pódio, ainda espera que alguma coisa aconteça "em termos de" final. No final, tavez se volte a candidatar, não se sabe.

Com o país adormecido pelo calor estival e indolente pela continuação da crise quase ninguém reagiu. Só Francis Obikwelu, medalha de prata nos 100 metros em Atenas, não teve pejo em criticar o primarismo das declarações de Vicente Moura: "Um presidente não pode dizer isso. É necessário dar confiança aos atletas que estão nos Jogos." Um comandante assim desautorizado não tem aptidões para ir leme. O navio vai, como não podia deixar de ir, à deriva. Cada atleta entregue a si próprio, cada um esforçando-se certamente por responder às expectativas pessoais e alheias. Mas estas últimas eram bastante baixas, eram quase só a de marcar presença. Um sintoma da falta de liderança foi o abandono indisciplinado de uma atleta da prancha a vela. Houvesse um Comandante atento no seu posto desde a partida e ela nem sequer teria embarcado.

Já que o responsável pelo Comité Olímpico Português é oficial da Marinha reformado (o título de comandante vem daí), não será desadequada uma comparação naval. Imagine-se o que seria se o Comandante do Costa Concordia dissesse: “As minhas previsões não são muito optimistas em termos de salvamento do navio, mas não em termos do meu salvamento. Às vezes as coisas acontecem. Já me enganei várias vezes e espero agora enganar-me novamente."

Com o comandante mentalmente ausente da nossa representação olímpica, o imediato revela-se também capaz de liderar. Mário Campos, responsável pela missão portuguesa e Presidente da Federação de Canoagem, perante o desastre dos resultados, não diz "em termos de", mas atribuiu a culpa ao povo português: "Sinto mágoa de muitas das pessoas em Portugal não terem a cultura desportiva suficiente para valorizar muitos dos resultados que foram aqui obtidos (…). Infelizmente, tenho a noção da pouca cultura desportiva que o nosso país tem.”

Pode até ser que tenha razão a respeito da falta de cultura desportiva em Portugal, reflexo, aliás, da falta de exigência para connosco próprios em quase tudo, mas ele não está ali na qualidade de comentador. Ficar-lhe-ia bem dizer isso num canal televisivo mas não na cadeira de chefe de missão, onde a última coisa que deve fazer é criticar os espectadores. Claro que queremos melhor. Que mal há em ser exigente e querer ver atletas lusos no pódio?

Nos jogos de 1912 um carpinteiro que treinava a correr nas ruas de Lisboa atrás dos eléctricos morreu em prova sem qualquer apoio. Hoje, no tempo em que os apoios são desmesuradamente maiores, honrar a sua memória será, no mínimo, não dizer disparates.

Carlos Fiolhais

terça-feira, 31 de julho de 2012

DE COMO UM DOS "DEUSES DO DARDO”, DO SÉC. XXI, DE CARLOS FIOLHAIS, ATINGIU MORTALMENTE UM ATLETA NO SÉC. XX,



E DE COMO NO SÉC. V a.C., ANTIFÃO NOS ESCLARECE, NAS SUAS TETRALOGIAS, AS CONSEQUÊNCIAS FILOSÓFICO-JURÍDICAS


por João Boaventura


Após a leitura do memorável trabalho, em epígrafe, do Professor Carlos Fiolhais, de imediato o associei a um acontecimento raro, o da morte do atleta sueco Bo Larsson, no Estádio Johanneshov de Estocolmo, quando participava numa corrida de estafetas, por ter sido atingido acidentalmente por um dardo lançado por outro atleta, durante um torneio de atletismo nocturno, segundo informava então o “Diário Popular”, de 29.08.1959.


E nesta sequência, sem vislumbre de qualquer consequência filosófica ou jurídica, resultante de tão infausto acontecimento, no século XX, o único recurso foi o de recorrer a um texto de debate fictício, do séc. V a.C., da autoria de Antifão, professor de eloquência e de direito, autor das referências, “Da verdade”, “Da concórdia”, e das “Tetralogias”, onde os seus discursos judiciários, constituíam modelos de argumentação, para factos que poderiam ocorrer, e serem pleiteados. Os três títulos eram os textos através dos quais Antifão transmitia os seus ensinamentos aos alunos, e assim se formariam os homens do direito desportivo.


Nas “Tetralogias”, esquematicamente, agrupam-se 4 discursos, cabendo dois ao advogado de acusação e dois ao de defesa:


  1. Exposição da acusação
  2. Argumentação da defesa
  3. Resposta
  4. Réplica

No caso presente os acusadores e os defensores são os pais do filho atingido pelo dardo e do do lançador do dardo mortífero, e cujos pleitos se reproduzem:


ANTIFÃO 1.



ANTIFÃO 2.ANTIFÃO 3.


In Anthologie des Textes Sportifs de l'Antiquité

Recueillis par Marcel Berger et Émile Moussat

Grasset, 3 ème Édition, Paris, 1927, pp 92-95


João Boaventura

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Do Século XIX à Matriz Curricular para o Novo Ano Escolar com uma Redução de Trinta Minutos na Carga Horária Semanal de Educação Física


Despendem-se neste país oito milhões de dólares com a assistência médica e nós sabemos que 40% destas despesas resultam totalmente inúteis. Vamos gastar parte desse dinheiro na motivação das pessoas para que participem em qualquer actividade física" (Iona Compagnolo, ministra de Estado para a Boa Condição Física e Desporto Amador no Governo de Pierre Trudeau).

A sociedade portuguesa tem uma juventude cada vez mais vitimada por doenças hipocinéticas (obesidade, deficiências posturais, stress, etc.), a que o “Magalhães” deu uma “preciosa ajuda” pela inactividade, ao sentar os nossos escolares em posições viciosas, horas sem fim, em frente ao computador, “quais ostras fixadas ao rochedo” (Jean-Pierre Gasc). A sociedade tarda em libertar-se de um platonismo que via no corpo o túmulo em vida da alma ou está em garras do dualismo cartesiano, procurando encontrar mais espaço para determinadas disciplinas teóricas e tirando-o à educação física.

Ora isto só será possível se regressarmos ao século XIX, deparando-nos hoje com um país, a andar para trás como o caranguejo, que julga fazer obra asseada e patriótica com políticos de fato e gravata que se identificam, como almas gémeas, aos políticos de antanho de colarinho engomado e bigodes revirados, descritos pela pena impiedosa de Ramalho Ortigão: “Como cultura física indigência igual à sua cultura mental. Se falando metem os pés pelas mãos, calados metem os dedos pelo nariz. Não têm ‘toilette’, não têm maneiras e têm caspa”.

Esse mesmo Ramalho que, valorizando o papel dos pais no acompanhamento escolar dos filhos (em contraste com certos pais de hoje que são obrigados, pelo emprego do casal, a fazerem da escola uma espécie de armazém onde depositam os filhos manhã cedo até ao final da tarde) e em desilusão com a ausência de medidas políticas em prol de uma educação integral dos jovens, exortava os pais (ele próprio o diz, “não nos dirigimos aos políticos”), em tom panfletário de que se fez exímio cultor, a tomadas enérgicas de posição, ao escrever:

“Leitor! Leitora – falemos dos vossos filhos.(…) Pelo que respeita ao corpo, se vêm de um ‘bom colégio, sabem de ginástica o suficiente para fazer dele um mau arlequim, mas nunca empregaram a sua força nos exercícios verdadeiramente úteis a um homem. Não estão habituados à fadiga das marchas, não sabem defender-se se os esbofeteiam, não sabem nadar, desconhecem os princípios mais elementares da higiene. Nós mesmos já fomos educados assim. Vede o que estamos sendo! Vede os homens que deitámos. Vede o país que fizemos e a sociedade que construímos! (…) Pesa sobre vós uma responsabilidade tremenda. No estado em que se encontra a sociedade portuguesa, a família é o duplo refrigério – do coração e do espírito. A família é dos pouquíssimos meios pelos quais ainda é lícito em Portugal a um homem honrado influir para o bem no destino do seu século. Querido leitor! O modo mais eficaz de seres útil à tua pátria é educares o teu filho. Consagra-te a ele!”

Porque para o chinês, personagem literária de Eça, “exageração é pintar uma cobra e depois pôr-lhe quatro patas”, escreveu Ramalho, em defesa das actividades corporais para si tão caras: E francamente devo dizer que levantar trinta quilos em cada pulso, trepar a um quarto andar por uma corda, saltar a pés juntos um fosso com dois metros de largura, me parece, com relação ao domínio do homem sobre o mundo exterior, uma cousa tão importante, pelo menos, como fazer análise gramatical e a análise lógica de uma oração de Cícero”.

É, ainda, esta “Ramalhal figura” que, em denodada campanha em prol da exercitação física da juventude do seu tempo, chama a atenção da Câmara dos Pares para um estudo que demonstrou que os exercícios ginásticos são úteis não só ao desenvolvimento físico. Em sua defesa apresenta o seguinte exemplo: “Nas escolas inglesas em que se introduziu a ginástica os alunos aprenderam mais e em menos tempo do que naquelas em que a ginástica não existia”.

Em apoio, igualmente, desta constatação da velha Albion, passado mais de meio século, trabalhos de investigação, levados a efeito, na década de 50, em França (Vanves, Tourangeau, Montabaun) e na Bélgica (Bruxelas), confirmaram a influência benéfica da Educação Física no rendimento escolar, sob o ponto de vista físico e de aprendizagens cognitivas e não só. O próprio Dr. Fourestier, responsável pela experiência de Vanves, não se exime em declarar entusiasmado: “Com métodos pedagogicamente novos não criaríamos apenas uma raça fisiologicamente nova. Faríamos, possivelmente, homens moralmente novos, e mais fraternos uns com os outros”.Igualmente entusiasmado com estes resultados, OlivierGuichard, ao te

Portugal levou a efeito um estudo sobre a influência da ginástica na melhoria da fadiga intelectual de 36 crianças do ensino primário na realização de provas de ditado. De uma forma muito resumida, os resultados demonstraram que nos dias em que a prova de ditado era precedida de 15 minutos de ginástica os erros ortográficos dados eram em menor número relativamente aos dias em que a ginástica não era ministrada. Este trabalho de investigação científica, intitulado “Influência do Exercício Físico na Fadiga Intelectual”, foi levado a efeito por uma equipa de professores do Instituto Nacional de Educação Física (actual Faculdade de Motricidade Humana), tendo merecido o segundo prémio científico da prestigiada Sociedade de Ciências Médicas de Lisboa (1963), atribuído em colaboração com o Laboratório Pfizer, “com o objectivo de contribuir para a dinamização da investigação em Ciências da Saúde em Portugal”. Foram agraciadas com este prestigiante prémio científico (criado em 1955) cientistas portugueses como, por exemplo, João Lobo Antunes e António Damásio.

Em Abril de 79, o então ministro da Saúde, do Partido Socialista, António Arnaut, entusiasta criador e obreiro do “Serviço Nacional de Saúde”, perspectivou o papel constitucional da Educação Física e da Medicina da forma seguinte: “O governo pretende, ao criar o Serviço Nacional de Saúde, assegurar aos portugueses o efectivo direito à protecção da saúde e isso só se consegue,como resulta da Constituição, pela criação de condições económicas, sociais e culturais que garantam a protecção dos cidadãos e ainda pela promoção da cultura física e desportiva escolar e pelo desenvolvimento da educação sanitária do povo”.

Em notícia do jornal Publico, em finais do passado mês de Maio, “os professores de Educação Física insurgem-se, em carta aberta ao ministro Nuno Crato, contra o que classificam de 'equívoco' na matriz curricular que entrará em vigor no próximo ano lectivo, considerando que despreza a disciplina”. Entretanto, o Conselho Nacional de Associações e Profissionais de Educação Física e a Sociedade Portuguesa de Educação Física solicitaram uma audiência urgente com o Ministro Nuno Crato para darem conta daquilo que consideram “um equívoco”.

Decerto que o ministro Nuno Crato, mesmo em tempo de euforia pelos resultados de Portugal no actual Campeonato Europeu de Futebol, não deixará de ter em conta a defesa de um ilustre e aposentado professor de Educação Física, José Esteves, doutor “honoris causa” pela Universidade Técnica de Lisboa, ex-bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian e autor da notável obra e best-seller (com primeira edição em 1967), “O Desporto e as Estruturas Sociais”. Trata-se de uma verdadeira pedrada no charco nos antípodas dos espectadores de bancada aos fanáticos pelo desporto de alta competição. Escreveu José Esteves:Não troco um êxito desportivo, de repercussão internacional, de um atleta ou de uma selecção portuguesa, pelo prejuízo da iniciação desportiva de alguns milhares de rapazes e raparigas das nossas escolas primárias”. Razão, a acrescentar a outras razões já aqui apresentadas, para corrigir, sem hesitações, este “equívoco”, por dois motivos ponderáveis:

1. Ser Portugal vice-campeão europeu da obesidade juvenil.
2. Um parecer da Organização Mundial de Saúde (OMS) a aconselhar, no mínimo (no mínimo!) três horas de Educação Física Escolar.

Ou seja – só suprimindo a legitimidade, suprimindo a vergonha, suprimindo o interesse do próprio país, suprimindo tudo, enfim, poderá ser levada avante a ideia teimosa, que põe em risco a saúde dos nossos jovens, em diminuir um minuto que seja às horas destinadas à educação física nos horários escolares levando, por via disso, ao desalento de Eça: “(…) não temos a ginástica como ela se faz em França …não temos nada capaz de dar a um rapaz um bocado de fibra, temos só a tourada…Tirem a tourada, e não ficam senão badamecos derreados de espinha, a melarem-se pelo Chiado!”

Na imagem: Iona Campagnolo.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

E NO FINAL GANHA A ALEMANHA


Minha crónica no "Sol" de hoje (na imagem o golo de Wembley, que afinal não o foi!):

O antigo jogador inglês Gary Lineker explicou uma vez: “O futebol é um jogo para 22 homens, 11 de cada lado. Os jogadores chutam a bola de um lado para o outro. A bola tem de entrar numa baliza, defendida por um guarda-redes. O jogo demora 90 minutos e no final ganha sempre a Alemanha.”

Mais uma vez se cumpriu esta “regra do jogo” no recente Portugal-Alemanha no Campeonato da Europa. De nada valeu o violento pontapé de Pepe à barra que ressaltou para o chão sem a bola ultrapassar a linha de baliza. A jogada, embora mais clara (ninguém reclamou desta vez o golo), fez-me lembrar o famoso “golo de Wembley”, na final de 1966 do Campeonato do Mundo entre a Inglaterra e a Alemanha. Aos 11 minutosdo prolongamento, o inglês Geoff Hurst chutou forte contra a barra e a bola ressaltou para a linha de golo. O árbitro ficou na dúvida. Olhou para o juiz de linha soviético e este validou o golo, que daria a vitória à Inglaterra em nítida violação da regra de Lineker. A jogada é uma das mais discutidas de sempre. Foi analisada por físicos e engenheiros, incluindo uma equipa da Universidade de Oxford que publicou um artigo sobre o assunto. Apesar desse artigo ser inglês, a conclusão foi favorável à Alemanha (o “fair play” é inglês!). A bola não entrou na baliza completamente, como exigem as regras do futebol: o diâmetro da bola tem de ultrapassar totalmente a linha de baliza e, no caso, faltaram 6 cm.

Este caso é discutido num livro da autoria de um físico alemão, Metin Tolan, Professor na Universidade de Dortmund, que tem o título “Por vezes ganha o melhor” (Piper, 2011), um frase que bem pode rivalizar com a de Lineker, e o subtítulo “A física do jogo de futebol”. Este livro não está ainda traduzido em português, mas, num país que, em profunda crise, procura a salvação no futebol, bem poderia estar. Aprende-se lá não só a ciência do futebol,incluindo toda a complicada mecânica que descreve a trajectória de uma bola com efeito, mas também a filosofia do jogo. A frase que achei mais interessante não foi a de Lineker, mas sim a de Max Merkel, um jogador e treinador austríaco: “No futebol é como no amor. O que acontece antes pode ser muito bonito, mas não passa de um namorico. A bola tem de entrar lá dentro.”

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O Futebol, Ópio do Povo?


Acabei de assistir esta manhã, no “Programa Opinião Pública”, da SIC,  a uma entrevista ao Professor Paulo Guinote.
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Mas o que mais  impressionou nesta” Opinião Pública” foi ele ter sido forçada a emudecer,  como se a Educação fosse uma questão de lana caprina, para dar prioridade ao "pontapé na bola", como foi anunciado pela respectiva responsável. Por essas e por  outras é que a super estrela da Selecção das Quinas, de seu nome Cristiano Ronaldo, se permitiu, dias atrás,  tratar o presidente da República, ao que nos dizem certas notícias,  por “você”.  E que essa personalidade, que se julga a si própria pairar acima dos comuns mortais, no último Campeonato do Mundo de Futebol, realizado na África do Sul, se voltasse para o Professor Carlos Queirós, antigo docente universitário, ex-treinador das camadas jovens dos nossos futebolistas,que se sagraram campeões do mundo duas vezes, dizendo-lhe com ar agastado, responsabilizando-o pela ausência de golos por si prometidos e não marcados (cito de memória): “Ó Carlos,  isto assim não dá!”

Como escrevi, e de que transcrevo um pequeno excerto de um meu artigo de opinião, publicado num jornal, em início de 61,  “O DESPORTO COMO VALÊNCIA POSITIVA”:  “Para um merecimento perfeito do fenómeno desportivo há que, primeiro acreditar no valor moral dos desportistas, dos técnicos, da imprensa e dos dirigentes. Enfim de todos aqueles que o servem para se evitar o risco em se atingir a decadência do circo romano sem se ter conhecido, sequer, o apogeu de uma educação integral helénica” (“Diário”, de Lourenço Marques, 19/07/1961). Talvez que noutra altura transcreva outros excertos. Apresto-me, agora,  a assistir pela TV ao jogo inicial do presente Campeonato da Europa, início de um período que fará parar o país e servir de lenitivo para os graves problemas sociais e económicos de uma Europa  em evidente decadência e uma União Europeia correndo o risco de voltar às fronteiras dos países que a formam.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

O NOVO ACORDO ORTOGRÁFICO E A MOTRICIDADE HUMANA


“Não exijam ao povo metamorfoses de hábitos e gostos que a tradição lhes inveterou secularmente” (Fialho de Almeida, 1857-1911).

Sempre que ressurge a polémica sobre o Novo Acordo Ortográfico (questão de grafia das palavras), ocorre-me a minha crítica à mudança do nome do Instituto Superior de Educação Física de Lisboa para Faculdade de Motricidade Humana (questão lexical sobre o significado das palavras), em que o importante cede o passo ao acessório com discutível intencionalidade.

Ou seja: alterou-se o nome Educação Física para Motricidade Humana (e porque não, de preferência, Cinesiologia, ciência que estuda o movimento humano com paternidade em Aristóteles e longa tradição académica em parte do mundo universitário?) e, com essa operação cosmética, julgou ter-se resolvido o problema histórico, filosófico e científico da Educação Física; e, por acréscimo, a libertação de uma desonrosa dicotomia cartesiana que tornaria feliz o malfadado “físico” merecedor de um novo destino, sem passado e sem presente desonrosos. Só futuro promissor!

Vai para um dúzia de anos, escrevi: “Que novidade nos traz esta crisma de nome [de Educação Física para Motricidade Humana]? E em que terreno inóspito se lança à terra nova sementeira sem ter em conta que a dignidade da ciência se reconhece pelo valor do seu objecto e não pela sua denominação?” ("Diário de Coimbra”, 28/04/89). Ou seja, em mera utopia dos que perseguem a boa-nova, ou apenas se tornam seus apóstolos, em arquétipo de imaginação superior à de Oswald Crollius (1560-1609), quando, na sua “Basílica Chymica”, eliminou, simplesmente, o prefixo “al” de alquimia. Neste caso houve o enterro piedoso dum sonho que viria a tomar forma científica na Química, mandando às urtigas (passe o plebeísmo) a perseguição da pedra filosofal capaz de transmutar metais vis em ouro, no desconhecimento de que a ciência se cimenta pela formulação e verificação de hipóteses e não no simples imaginário ou querer do homem.

A Medicina, crença em amuletos e talismãs, a Psicologia, fenómenos da alma, a Economia, a arte de governar a casa, evoluíram para conceitos bem mais abrangentes que em muito ampliaram os seus acanhados horizontes. Mas poucos tiveram êxito na ousadia em querer mudar o nome de ciências de fraca linhagem ou das instituições universitárias em que se processa o respectivo ensino. Mesmo a tentativa de Antoine Cournot (1821-1887) e de William Jevons (1835- 1882), para substituir o nome de Economia Política por Crematística, teve como destino o descrédito. Curioso se torna referir a tentativa, igualmente falhada, de um catedrático de Medicina da Universidade de Coimbra, José Macedo Pinto (1814-1895), para alterar o nome de Medicina Veterinária para Zooatria.

Todavia, ciências há em que o nome que as referencia foi caindo em desuso, como Cibernética que para Platão significava “a arte deconduzir um navio” e para André-Marie Ampère (1775-1836) “o estudo dos meios de governo das sociedades”. Coube a Robert Wiener (1894-1964), ir desencantá-la ao baú das coisas com a poeira dos tempos para nomear o “antigo governo de uma máquina com certa autonomia e capacidade de iniciativa e sua aplicação ao estudo do sistema nervoso”.

Para abreviar razões, existe até o perigo dos licenciados nesta ignota matéria ao lhes ser perguntado, em faculdades de Educação Física, desde os Estados Unidos à Rússia, do Japão à Republica Popular da China, ou seja em qualquer recanto do Globo (com excepção de algumas academias brasileiras, permeáveis a todas a espécie de novidades), qual a matéria dos respectivos estudos verem-se obrigados a fornecerem aos inquiridores um complexo tratado sobre a Motricidade Humana. E, mesmo assim, permanece, ainda, o perigo de tentar dar às palavras uma dimensão que elas não têm espelhando, servindo-me de palavras de André Lalanda, dicionarista de termos filosóficos, “um certo gosto pelo equívoco e uma certa obscuridade que dá a ilusão de profundeza”.

Entretanto, o Desporto, de mansinho, e escudado na sua força de arrebatar multidões, fez-se rei coroado do trono incontestado da disciplina escolar de Educação Física, durante dezenas de anos debaixo do manto higiénico da ginástica sueca, também chamada de Ling. Assistindo-se, assim, à sua emancipação, a exemplo do acontecido com a Psicologia relativamente à Filosofia. Veja-se o exemplo da ex-Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física, actual Faculdade de Desporto (“tout court”), da Universidade do Porto, ao amputar a anterior denominação de Educação Física. Já a oitava faculdade da Universidade de Coimbra, apesar de nomes que circularam aquando da sua criação, entre eles Cultura Física, mantém a sua fidelidade à designação inicial: Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física.

E nesta discussão, longe de chegar ao fim, sendo os congressos científicos um fórum de eleição de apresentação de discordâncias vertidas em tese, aproveitei a realização do “IV Congresso de Educação Física e Ciências do Desporto dos Países de Língua Portuguesa”, realizado em Coimbra (de 2 a 5 de Março de 1995), para denunciar numa comunicação a minha discordância contra o aproveitamento que dela foi feita para alterar o nome do Instituto Superior de Educação Física (ISEF) para Faculdade de Motricidade Humana (FMH) por este licenciado em Filosofia, e doutorado em Educação Física, pelo antigo ISEF da Universidade Técnica de Lisboa, Manuel Sérgio, ter a Educação Física como uma pré-ciência e a Motricidade Humana como uma ciência ("Motricidade Humana, uma nova ciência do homem" ,ISEF, Serviços de Edição, Lisboa, 1987, p. 34), quiçá, a exemplo de Marx que teve como pré-história a história que antecedeu a chamada Revolução Bolchevique.

Limitado por condições espaciais de um post, obrigo-me a transcrever, apenas, o abstract dessa minha comunicação, intitulada “Motricidade Humana: um novo paradigma para a Educação Física?” Nele escrevi:

“O autor desta comunicação bem sabe que só em exéquias da dicotomia cartesiana da ‘res cogitans’ a tutelar, em servidão milenar, o corpo (‘res extensa’) se tornou frutuoso o diálogo entre a Educação Física, em esconjuro de má fama, e a Filosofia, hoje, em acto de contrição pela defesa da concepção holística do Homem.

Embora a não deseje iconoclasta, no entanto, é por ele reconhecido que a concepção biológica que perfilha poderá entrar em conflito com o pensamento religioso, as raízes de uma cultura enredada em liames da tradição, mesmo que essa concepção se desvincule de um biologismo redutor (ou mesmo castrante) que não mergulhe o genoma no caldo social.

“Malgré tout”, para um parto difícil, com cordão umbilical em entranhas do tempo, só o recurso ao fórceps dos conhecimentos hodiernos dos “Mecanismos da Mente” (título de um notável livro de de Colin Blakemore) e o acesso futuro à cesariana duma promissora Neurobiologia do 3.º milénio parecem capacitados para prosseguir na esforçada jornada científica do actual paradigma da Educação Física sem a cosmética da sua mudança nominal para Motricidade Humana ansiosa em anunciar jubilosamente a crisma como se tratasse dum radioso horizonte em céu de nuvens plúmbeas do passado.

Mas mesmo se ultrapassada qualquer discordância com o paradigma emergente, permanece a questão do nome de Educação Física que se fez património do mundo sem perder o viço das folhas primaveris no Outono erosivo da linguagem do homem comum ou das pessoas ou instituições universitárias.

Como escreveu Armand Cuvillier, filósofo e sociólogo, com vasta obra publicada, autor do “Pequeno Vocabulário da LínguaFilosófica” (1938), traduzido em Portugal e no Brasil, “assinalava Léon Bérard [ministro da Instrução Pública de França, na 2.ª década do século passado] implantou-se o costume de empregar muitas palavras tiradas do nosso velho vocabulário, mas tomadas num sentido novo e misterioso a ponto de que se poderia crer que nos esforçamos por mais não chamar as coisas pelo nome”.

Seja como for, a Terra não deixará de girar em torno do Sol, como anunciou Copérnico, “urbi et orbi”, sujeitando-se Galileu às labaredas da Inquisição!

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A CIÊNCIA DO HOCKEY NO GELO

A NBC, com o apoio da National Science Foundation, iniciou uma série de divulgação científica para o grande público sobre a ciência do hockey sobre o gelo. Participa, entre outros cientistas, a matemática portuguesa Irene Fonseca.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

O ESTÁDIO A QUE O PAÍS CHEGOU


Minha crónica que saiu hoje na revista "C" (na imagem o estádio municipal de Leiria):

Muita gente se lamenta do estado de quase bancarrota em que nos encontramos. Mas há responsáveis que se passeiam impunemente por aí. Alguns deles são, decerto, os decisores políticos, a nível tanto nacional como regional, que acharam uma boa ideia há cerca de dez anos construir ou reconstruir dez novos estádios para o Euro 2004 de Norte a Sul do país. Pertenço ao pequeno grupo daqueles que, na altura, acharam que essa era uma ideia delirante. Hoje esse grupo alargou consideravelmente pois o delírio custou-nos caro, muito caro.

Só no Centro do país construíram-se três estádios que foram caríssimos e hoje estão quase vazios. Em Aveiro, o estádio do arquitecto Tomás Taveira é o quinto recinto desportivo nacional com maior capacidade (pode albergar 32 000 espectadores), só perdendo para os estádios da Luz, do Dragão, de Alvalade e Estádio Nacional. É a casa do Beira-Mar, mas quase ninguém lá vai assistir aos jogos. Dados os custos insustentáveis, já foi sugerido por líderes locais que se implodisse para construir um estádio menor. Em Coimbra, o estádio chamado “Cidade de Coimbra”, da autoria do arquitecto António Monteiro, é um gigantesco OVNI (leva 30 000 pessoas), numa zona da cidade que merecia melhor. O campo pertence à Câmara Municipal de Coimbra que, por causa da dívida exigida pela obra, ficou sem dinheiro para mandar tocar um cego. No último jogo da Taça de Portugal aí realizado, no qual a Associação Académica de Coimbra venceu o Futebol Clube do Porto não estiveram mais do que dois mil espectadores. O Presidente da Académica já sugeriu a destruição do estádio e a construção de um outro menor. Mas, pasme-se!, existe um outro estádio, muito perto da cidade, o “Sérgio Conceição” (ostenta o nome de um jogador que ficou conhecido pela sua indisciplina), que pertence também à Câmara... Finalmente, em Leiria, há o terceiro grande estádio municipal da região Centro (leva 30 000 pessoas), da autoria de Tomás Taveira tal como o de Aveiro. O estádio de Leiria deixou de ser o cenário dos jogos da equipa local, a União de Leiria, em virtude do reduzido número de espectadores e das despesas incomportáveis de manutenção. A equipa de hóquei em patins de Turquel, uma freguesia do distrito de Leiria, gaba-se de ter jogos que são vistos por 1400 espectadores, mais do que as pessoas que vão ver muitos jogos de futebol do União de Leiria, que hoje joga na Marinha Grande. Perante o descalabro financeiro, a Câmara de Leiria não teve outro remédio senão colocar o seu estádio em hasta pública por 63 milhões de euros. Não houve, no mês passado, quem ocorresse ao leilão.

No resto do país a situação não é muito diferente. No Norte, o Boavista tem um estádio que é usado pela sua equipa que milita no terceiro escalão do futebol nacional. No Sul, o Estádio do Algarve é um outro grande monumento à estupidez humana, pois tem permanecido ainda mais desocupado do que os seus congéneres.

Tudo isto era previsível e podia ter sido evitado. Não o foi foi porque havia na época uma enorme loucura colectiva. Os políticos moviam influências e a banca emprestava dinheiro com uma facilidade que hoje nos espanta. Ainda ninguém fez acto público de contrição Os nossos estádios estão aí vazios tal como os nossos cofres.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A FÍSICA DO SURF


Minha crónica no "Sol" de hoje:

Não é só nesta época de Verão que as praias da Gala (Figueira da Foz), de Peniche e da Ericeira são procuradas pelos surfistas. Os praticantes desse desporto sabem que, mesmo noutras épocas do ano, podem aí encontrar boas ondas, ondas para as quais eles podem subir e equilibrar-se durante algum tempo. Portugal tem sido cada vez mais um destino procurado pelos amantes da modalidade.

O moderno surf começou com a imitação pelos ocidentais das habilidades que os povos indígenas de algumas ilhas do Pacífico faziam nas suas praias. O capitão inglês James Cook relatou nos diários de bordo das suas viagens, em finais do século XVIII, números de surf realizados com canoas no Taiti e com pranchas improvisadas no Havai. Quer num caso quer noutro os naturais dessas ilhas conseguiam ir rapidamente, remando, para o sítio onde a onda ia rebentar, para depois “cavalgarem” a onda até chegarem à praia.

Claro que os surfistas não têm de dominar sofisticadas equações, mas a física, ainda que com alguma dificuldade (a física da rebentação das ondas não é nada simples!), explica o delicado equilíbrio que os surfistas alcançam. Um surfista deitado sobre uma prancha em águas mais ou menos paradas equilibra-se porque o seu peso somado ao da prancha, é simplesmente equilibrado pela força de impulsão, também vertical mas para cima, que Arquimedes descobriu na Antiguidade. Mas, quando há movimento da água, têm de se somar a essas forças outras, ditas hidrodinâmicas, que, além de equilibrarem o peso, permitem empurrar o surfista com a mesma velocidade da onda. Como é sabido por quem já viu as proezas dos surfistas, os atletas colocam-se de pé sobre a prancha, que para isso deve ser convenientemente inclinada. As leis da dinâmica de Newton explicam a graciosa sustentação que os melhores surfistas conseguem.

Há físicos que também fazem surf, sendo assim capazes de verificar por eles próprios as leis de Newton que conhecem melhor do que ninguém. Um deles, o norte-americano Antony Garrett Lisi, divide a sua vida entre a física teórica (propôs uma teoria de unificação de forças que tem sido muito badalada) e a prática do surf, tendo dificuldade em decidir-se por apenas uma dessas carreiras. Apaixonado pelas ondas, tem passado temporadas no Havai. Em Portugal, Pedro Bicudo, embora tendo como ocupação principal o ensino e a investigação da Física no Instituto Superior Técnico, é também um razoável surfista, que, sempre que pode, aproveita as magníficas ondas da praia da Ericeira. Claro que não é tão bom no surf como o seu compatriota Tiago Pires, um profissional que busca um lugar de topo no “ranking” mundial, mas tem prática suficiente para ser capaz de explicar a teoria científica do surf com pleno conhecimento de causa...

terça-feira, 9 de agosto de 2011

O CAMPEÃO DE SURF TIAGO PIRES

Como estamos em plena época de praia, divulgamos aqui a espantosa habilidade daquele que é neste momento o melhor profissional de surf poortuguês:


quarta-feira, 2 de março de 2011

Afinal o exercício físico é bom ou não?


“Sem exercício físico quotidiano apropriado é difícil mantermo-nos de boa saúde" (Arthur Schopenhauer, 1778-1860).

O post da nutricionista Ana Carvalhas, publicado neste blogue,“Apanhado na rede: comer bem em tempo de crise” (01/03/2011), e os diversos textos em que ela se tem debruçado no seu blogue “Comer bem até aos 100 anos…” tecem considerações sobre os benefícios da alimentação e do exercício físico em tempo de declarada crise económica, uma crise tão penosa para a bolsa dos portugueses. Entre outros, os gastos com a saúde têm vindo a ocupar uma fatia cada vez maior dos gastos pessoais, com tudo aquilo que não é coberto por inteiro pela protecção social.

O tema da saúde pública não tem tido entre nós a atenção que merece. Por exemplo, não está devidamente salvaguardada em algumas direcções técnicas dos pomposamente propagandeados Health Centers a responsabilidade por parte de licenciados universitários em Educação Física e Desporto, como acontece no caso das farmácias, que estão sob a direcção técnica de farmacêuticos.

Mereceu o assunto vários posts meus neste blogue. Trago, agora e aqui, à colação um deles, Gerontomotricidade, saúde e boa forma física (20/08/2007), que foi seguido de um outro, em 2/10/2008, intitulado A actividade física e o sistema cardiovascular. Naquele post entendi conveniente advertir: “O exercício físico de que aqui me ocupo, nada tem a ver com um desumanizante desporto que transforma o atleta numa máquina de alto rendimento para alcançar o pódio, tendo atrás de si um perigoso arsenal químico em que os esteróides se tornam vedeta em nome de uma pátria, de uma ideologia ou apenas de um clube.”

Nele relatei a saborosa história de Bernard Shaw, em boa forma física aos 90 anos de idade, que, ao ser-lhe perguntado, por um jornalista, quais eram os exercícios físicos que praticava, respondeu: “Pegar nas bordas dos caixões dos meus amigos que praticaram muito exercício físico”. Foi-me colocada a seguinte questão num comentário (08/11/20O7) que serve de título a este meu novo post: “Afinal o exercício físico é bom ou não?” Rezava assim esse comentário: “Tardiamente venho aqui perguntar ao Professor Rui Baptista se afinal o exercício físico é ou não bom? Gostei muito do artigo. Parabéns. JCM”.

Em 3 de Janeiro do ano seguinte mereceu-me este comentário a seguinte resposta:

“Meu Caro JCM: Veja lá como são as coisas. Só hoje, passados quase dois meses, tomei conhecimento do seu comentário. A minha resposta é esta. Claro que o exercício físico é bom se for feito com conta peso e medida. Por exemplo, se um indivíduo em jovem tiver feito muito exercício físico, e depois parar, deverá ter muito cuidado na sua (re)adaptação ao exercício físico. Suponhamos que, quando for cinquentão, resolve, de supetão, praticar uma carga de esforço físico não adaptado à sua idade e à sua má forma. É mais que certo que pode ter como destino um enfarte ou um AVC ou até uma morte súbita. Claro que este comentário é feito um tanto 'à vol d'oiseau', por não ter em conta muitos outros factores. O caso de Bernard Shaw é uma simples graça. Se morreu velho e viu morrer muitos dos seus amigos que faziam muito exercício físico isso se ficou a dever a questões genéticas: os indivíduos cujos progenitores morrem velhos têm muitas probabilidades de chegarem a uma idade provecta. É quase um lugar-comum dizer-se que é mais importante acrescentar vida aos anos que anos à vida. Ou seja, chegar-se a velho cheio de achaques, por vezes amarrado a uma cama, não é, de certeza, um futuro risonho para ninguém. Espero que leia este meu comentário para que cheguem a si os meus votos de um novo ano com muita saúde e exercício físico adaptado à sua idade e à sua forma física actual”.

Se fosse hoje teria citado, depois de ter voltado a folhear a noite passada o livro de Christiaan Barnard, célebre médico sul-africano, pioneiro na técnica dos transplantes cardíacos, Como defender o coração - tudo o que precisa saber sobre o ataque cardíaco (Livros do Brasil, Lisboa, 1971), este saboroso naco de prosa, ínsito nas respectivas, pp. 88-89:

“Muitas vezes me tem sido feita esta pergunta de ordem geral: ‘Doutor, se um homem saudável de 45 anos o procurasse e lhe perguntasse o que deveria fazer para evitar a doença coronária, o que é que lhe diria?’ Invariavelmente, quem faz a pergunta espera uma espécie de resposta do tipo frase-feita, como por exemplo: ‘Dir-lhe-ia que aprendesse estes simples versos:

'Deitar cedo e cedo erguer;
Não fazer exercício de competição:
Evitar todo o stress:
Ter cuidado em não comer
Manteiga ou ovos ou creme ou carne.
E porque é mau ser varão,
Como está claramente provado,
Faça extirpar os seus testículos!’ ”

Os versos que atribuem o malefício para a saúde coronária à condição de varão fundamentam-se em estudos epidemiológicos que atribuem esta morbilidade em percentagem estatística bem maior aos homens. Mas isso era em tempos em que o cigarro não era um vício feminino herdado de um certo diletantismo propagandeado por Hollywood.

Sobre o stress, apontado como um dos factores da diminuição da esperança de vida humana, conta Christiaan Barnard ter-lhe sido dito por um condutor de táxi em Nova Iorque: “Sossegue. Só há duas coisas que tem de fazer. Tem de pagar os impostos e tem, um dia, de morrer”. Isto em resposta ao apelo feito por este cirurgião à entrada deste meio de transporte: “Vamos embora. Tenho de estar lá às oito e um quarto!”

A última linha destes versos propõe uma medida draconiana - não fundamentada em dados estatísticos sobre a longevidade dos eunucos - que poderá evitar a doença coronária, tal como faz, reconhecidamente, a actividade física, retardando assim o "dia da prestação de contas a Deus". Mas valerá a pena aos quarentões terem um coração saudável, com as coronárias “desentupidas” de ateromas, isto é, placas de degeneração adiposa localizadas na túnica íntima das artérias, mas serem incapazes de amar? Sempre é melhor a prática do exercício físico devidamente orientada por quem para isso se encontra habilitado porque, como escreveu Leonardo da Vinci, “os que se encantam com a prática sem a ciência são como os timoneiros que entram no navio, sem timão nem bússola, nunca tendo a certeza do seu destino”.

Na imagem: Christiaan Barnard na capa da revista Time.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Una Giornata Particolare

Texto recebido do nosso colaborador António Mota de Aguiar:

Vivemos dias inesquecíveis em Portugal: CR7 marcou mais um golo e deu a vitória ao Real Madrid. Foi o futebolista que mais golos marcou numa só temporada na vida do Real Madrid. Nani marcou um fantástico golo no Old Trafford. Em Cantanhede, centenas de pessoas homenagearam o modelo Renato Seabra pelo assassinato, ao que se diz, com um computador e um saca-rolhas, de Carlos Castro – conhecido colunista social das revistas “cor-de-rosa” nacionais. No preciso momento em que um cordão humano manifestava o seu apoio ao Renato, dois encapuzados assaltaram uma loja em Cantanhede: vem nas páginas dos jornais, em grande, ao lado da tragédia no Brasil. Ah, se vissem em fotografia na primeira página dos jornais o cabedal do Renato... Enfim, depois houve uma missa de apoio a Carlos Castro… perdão, a Renato Seabra. “O Renato é apenas um suspeito”, diz-se no DN. Pobre Carlos Castro, não queria estar na pele dele, morrer incógnito é muito chato. E chegou o dinheiro da dívida pública, 1250 milhões. Milagre! O Benfica ganhou 5-0 ao Olhanense! Uff, e o defesa Jardel do Olhanense vai para o Benfica.

Enfim, la vie est belle!

PS: Morreu Vítor Alves, “Capitão de Abril”, co-fundador da democracia portuguesa, há quase 37 anos.

António Mota de Aguiar

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Carlos Queiroz vítima de autêntica chacina pública

“Os bons vi sempre passar/No mundo graves tormentos;/E para mais me espantar/ Os maus vi sempre nadar/ Em mar de contentamentos” - Luíz Vaz de Camões.


Neste blogue, vezes várias, na altura que sobre ele recaíam severas e injustas críticas durante e depois do último "Campeonato do Mundo de Futebol", fui defensor público de Carlos Queiroz, seleccionador nacional de futebol, licenciado em Educação Física e professor da disciplina de Futebol no ISEF/Faculdade de Motricidade Humana (UTL). Foi, por isso, com agrado e mesmo júbilo que vi publicada num jornal desportivo a notícia que a seguir transcrevo, sem grandes comentários havidos por mim desnecessários:

“O antigo campeão do Mundo em Riade, em 1989, Amaral, considera que foi «uma autêntica chacina pública» o tratamento dado a Carlos Queiroz no seu regresso à Federação Portuguesa de Futebol.

«Só tenho pena que não tenha tido a noção que estava bem no Manchester e que não tinha nada que regressar, mas isso foram opções do professor», adiantou hoje à margem da Gala dos Campeões de Riade.

O também antigo jogador do Sporting e Benfica adiantou que a tentativa de voltar a mudar o futebol português por parte de Queiroz não foi entendida pela grande maioria das pessoas.

«Não sou defendor de Queiroz, apenas tenho olhos na cara para ver o que fez pelo futebol nacional. O seu regresso foi um sonho para ele, para tentar fazer pela equipa principal o que fez pelas selecções jovens e foi incompreendido, atacado, acabando por prejudicá-lo e prejudicar o futebol português.»

Amaral chegou ainda a traçar algumas diferenças entre as duas gerações (a de 1989 e 1991 que alcançaram os títulos de campeões do Mundo sub-21)

'Conseguimos alcançar o que nunca ninguém imaginaria ser possível. Temos que ter a noção e assumirmos que fomos responsáveis pela maior mudança do futebol português e estamos cientes que é bastante difícil voltar a haver uma geração como a nossa, o que não significa que não venha a acontecer. O que tivemos que falta agora? Fomos fortes a nível de grupo. Éramos muito amigos e coesos e, acima de tudo, fomos jogadores inteligentes que conseguimos entender as palavras e a mensagem do professor Carlos Queiroz', remata.

As declarações foram feitas à margem da apresentação da Gala dos Campeões, que vai precisamente juntar as duas gerações de campeões do Mundo, que se vão defrontar no próximo sábado, às 14.30 horas, no estádio do Cova da Piedade, não só para marcar a reunião dos antigos campeões como para ajudar a instituição de solidariedade 'Janela Aberta', para a qual irão reverter as receitas do encontro”
(in “A Bola”, o6/01/2011).

Recordo que ninguém é profeta na sua própria terra, apesar dos elogios que lhe teceu Sir Alex Ferguson, o conceituadíssimo treinador do Manchester United, de quem foi adjunto durante vários anos, que se deslocou a Portugal para servir de testemunha abonatória no processo que lhe foi movido pela Federação Portuguesa de Futebol. Abstenho-me de adjectivar, esse processo em respeitoem primeiro lugar para comigo próprio e depois para não ferir a susceptibilidade de pessoas responsáveis por ele, que tomaram atitudes persecutórias nada abonatórias do espírito dos agentes do mundo do Desporto.

Na fotografia: A equipa de futebol portuguesa, campeã do mundo em Riade/89. Carlos Queiroz, numa altura em que era "bestial" para a Federação Portuguesa de Futebol, é o 4.º a contar da esquerda na fila do meio. "Ó tempore, ó mores!"

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Ufa, que alívio...

O Euro 2004 deu um prejuízo imenso a todos nós: basta olhar para os monumentais estádios vazios em Coimbra, Aveiro, Leiria e Faro. Não contentes com esse rombo nas finanças públicas, havia gente que queria agora um rombo semelhante ou maior, com a organização do Mundial de 2018. Mesmo que fossem só três estádios em Portugal as exigências logísticas obrigariam a investimentos avultados que muito dificilmente poderiam ser assegurados a tempo e horas (o TGV, por exemplo). Ainda bem que o Mundial de 2018 foi para a Rússia. Além do mais, se Portugal tivesse sido escolhido com a Espanha, teríamos mais um pretexto para esquecer a enorme crise que atravessamos...

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

À procura do remate perfeito



Post convidado do físico Armando Vieira (no vídeo o supergolo de Roberto Carlos, no França-Brasil de 1997):


Rematar uma bola com precisão requer uma grande perícia que leva anos a aperfeiçoar. E se esse conhecimento fosse, porém, expresso através de um modelo computacional de forma a prever o golo mesmo antes de a bola sair do pé? Se o jogador fosse capaz de tirar partido desse modelo poderia acelerar imenso o longo processo de aprendizagem da técnica do remate perfeito. Impossível? Talvez não.

O futebol é um desporto e uma arte de grande destreza física. Mas é também uma ciência. Desde há muito que a ciência tem sido aplicada ao desporto, por exemplo na optimização do desempenho de atletas, do ponto de vista do treino físico, de forma a tirar o máximo proveito das suas potencialidades. Tem sido também aplicada com sucesso no desenho de bolas de futebol ou no calçado desportivo.

No entanto, no caso do futebol, há ainda um longo caminho a percorrer naquilo que a ciência é capaz de fazer por este desporto. Recentemente, publiquei um artigo científico no qual estudei, de uma forma simplificada, o remate de uma bola de futebol. Nesse artigo apresentei os resultados do cálculo de quantidades como velocidade e força da bola quando é chutada. Os dados deste modelo foram validados usando uma câmara de vídeo de alta velocidade, com 1000 frames por segundo, onde se podiam ver todos os pormenores de um remate que dura apenas um centésimo de segundo. Usando essa câmara e algum processamento digital de imagens por software fui capaz de determinar a forma como o pé do jogador interage com a bola e como a bola sai do chão – velocidade, rotação e ângulo.

Interessante. Contudo o objectivo do futebol não é fazer investigação científica, mas sim marcar golos. Certo? Sim, mas a ciência pode ter respostas inesperadas e por isso há que não fazer juízos de valor precipitados.

Um remate é formado por dois momentos: i) o instante em que o pé transfere energia para a bola e lhe imprime movimento; e ii) o voo da bola até o seu destino final. A partir do momento em que a bola deixa de estar em contacto com o pé tem o seu destino traçado - ela fica escrava das equações da aerodinâmica. Mas essa é a parte fácil: dada a forma da bola, o ângulo com que deixa o solo, a velocidade e rotação, é relativamente simples calcular a trajectória. A parte difícil, e que ainda ninguém estudou em pormenor, é saber como interage o pé com a bola de forma a responder a questões como esta: que tipo de pontapé é capaz de imprimir à bola uma certa velocidade e um certo ângulo?

Todos gostamos de ver bons remates e golos espectaculares como o do Roberto Carlos em que a bola parece que sai e, no último segundo, vira para dentro da baliza. Mas estes remates levam anos a ser aperfeiçoados e só os melhores os conseguem realizar. Acredito que, com uma abordagem mais científica ao mundo do futebol, designadamente com o desenvolvimento de modelo computacionais do remate, as equipas teriam muito a ganhar na performance dos seus jogadores, pelo menos na aceleração da aprendizagem destas técnicas.

A ciência não quer, nem pode, roubar a beleza deste jogo. Pelo contrário, usada apropriadamente, pode ser uma ajuda preciosa para tornar o espectáculo ainda mais espectacular.

Armando Vieira

terça-feira, 23 de novembro de 2010

CIÊNCIA NO BENFICA TV


Hoje, entre as 11 h e as 12 h, no canal de cabo Benfica TV, o físico Armando Vieira, autor de um artigo publicado na "Physics Teacher" sobre a física do pontapé, fala sobre ciência e futebol.