Em 2001, Paulo Moura entrevistou, para o jornal Público, a primeira apresentadora do programa de televisão Big Brother (aqui). Todos os anos revisito esta entrevista nas aulas e, à medida que o tempo passa, vejo maior aproximação entre aquilo que a apresentadora disse e a realidade.
Em certo passo, perguntou-lhe Paulo Moura: "E a morte em directo? Se as pessoas quisessem ver alguém a morrer num programa?"
Resposta: "Vamos acabar por ver isso, acho eu."
Pergunta mais adiante: "Teremos então a morte em directo, mal os estudos digam que as pessoas querem."
Resposta mais adiante: Se a pessoa que está a morrer concordasse..."
Passados catorze anos, Henrique Monteiro publicava no jornal Expresso uma crónica (aqui) onde dizia:
“Toda a ética da comunicação tinha mudado para o lado do recetor, absolvendo o emissor de qualquer ato menos próprio. E, no fundo (…) quem não concordava com isso? Não seria isso a liberdade? (...) Sem qualquer tecido social que una e, simultaneamente, hierarquize os valores, ser assim ou assado passou a ser uma questão de preferência e – como se passou a dizer – desde que não incomode ninguém, nada se tem a ver com isso.”
A turbulência que este reality show causou ao início, neste e noutros países, depressa desapareceu e coisas piores, bem piores, se lhe seguiram. A morte em directo, o último bastião da dignidade que Paulo Moura conseguiu imaginar, já se concretizou e a internet permite voltar à cena quantas vezes se quiser. Tudo às claras, não estou a falar da dark net.
O que talvez não estejamos (ainda) preparados para aceitar são as execuções em directo. Por agora, parece-nos demais. Daí a assinalável indignação que está a causar a notícia, divulgada nesta semana pela agência de notícias Reuters, de que o fuzilamento de um condenado, marcada para o final deste ano, vai ser transmitida online.
A determinação não vem de um grupo terrorista ou de um país classificado como totalitário, autocrático; vem dos Estados Unidos da América, que, desde há várias décadas, a Europa toma como referência. "Vai ser fuzilado por soldados, como deve ser, e faremos com que o público possa assistir", anunciou o Secretário da Defesa numa rede social (sublinho, "numa rede social").
Determinações congéneres foram tomadas antes desta, mas o tribunal conseguiu barrá-las. Pessoas individuais, algumas delas bem colocadas na hierarquia política, grupos e organizações, incluindo o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, tentam travar mais este passo de uma nova barbárie.
Há poucos minutos, o jornalista Mário Crespo, em entrevista a um canal de televisão (a partir do minuto 4), dizia que este acto, a concretizar-se, indicia que o país, ou uma parte do mesmo, terá perdido a alma. Sim, concordo, mas não é apenas este país; a alma do mundo não está bem nem se recomenda. Outra vez...
O que podemos fazer? Em última instância, neste caso, aquilo que o vice-presidente do país, em estranha dissidência com o presidente, disse: "Se for transmitida em directo, não vou assistir".
Pragmaticamente, e deixando de lado questões ético-morais, há um raciocínio muito simples que precisamos de ter em conta: quantos mais visionamentos, maior o lucro e, logo, maior a probabilidade de as execuções em directo se repetirem e... normalizarem, como se tem normalizado o que não é, o que não pode ser normal!
Sem comentários:
Enviar um comentário