domingo, 28 de novembro de 2021

CIÊNCIA ÀS SEIS! no RÓMULO: Química ao pé da letra


Informação recebida do Rómulo:

 Realiza-se na terça-feira, dia 30 de Novembro de 2021, pelas 18 horas, a apresentação do livro “Química ao pé da letra” por Maria de Fátima Sousa e Silva (FLUC). Inserida no ciclo em cursoCiência às Seis! (temporada 6)”, a sessão contará com a presença dos autores João Paiva (FCUP) e Martinho Soares (FLUC) e destina-se a todos os interessados. Haverá possibilidade de adquirir o livro.

Resumo: 

Há duas dimensões da língua que refletem também, em certo sentido, uma tensão epistemológica da própria química: a denotação e a conotação. A denotação diz respeito ao significado mais preciso e literal, bem em linha com a objetividade que se procura em ciência. A conotação, por sua vez, relaciona-se com o lugar da acumulação, da relação. O sentido da palavra é de tal forma dinâmico que uma palavra ganha algo quando é dita (ou escrita). As palavras da química são descritas nesta obra de forma breve e de acordo com uma estrutura tripartida: a contextualização da palavra, onde se procura enfatizar a sua relevância social e, sempre que oportuno, as suas relações com outras áreas científicas, com a tecnologia e com o ambiente. Segue-se depois a sua definição científica, pautada pelo compromisso equilibrado entre o rigor e a simplicidade. Por último, procede-se à exemplificação que se traduz na apresentação de aplicações concretas do termo, em situações do nosso dia a dia. Talvez ajude saber que “molécula” pode ter a ver com “monte pequeno” e, daí, voltar a esse agregado com distância típica entre átomos da centena de picómetros. Talvez ajude saber que “substância”, uma palavra tão crucial em química, se pode ligar, no seu filão etimológico, a “estar na base de”, “que subsiste”, “que está dentro”. Regista-se uma cumplicidade analógica entre a química e a palavra, que merece aqui ser sublinhada. Há corpúsculos a que chamamos átomos (quais letras), que se podem agrupar em moléculas e outros agregados (quais palavras), que no seu conjunto originam estruturas mais complexas (quais frases e textos), que constituem a matéria (quais livros), que se transforma e dá vida. E depois há o fascínio e a beleza de como as coisas são… como há na poesia!

 

Biografias:

João Paiva é Professor no Departamento de Química (Secção de Educação) da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e membro da Unidade de Ensino das Ciências dessa faculdade. O seu principal interesse profissional situa-se no diálogo da ciência com outras áreas do saber e nas aplicações pedagógicas das tecnologias de informação e omunicação, particularmente no domínio da química. É também membro do CIQUP. Autor e co-autor de recursos digitais para o ensino e de vários livros

Martinho Soares é licenciado em Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesa e doutorado em Poética e Hermenêutica pela Universidade de Coimbra, instituição na qual é investigador e professor.

Maria de Fátima Sousa e Silva é professora do Instituto de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras de Coimbra desde 1974, e investigadora do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da mesma Universidade. Prepara neste momento um estudo sobre Ésquilo (Ésquilo, o primeiro dramaturgo europeu) e intervém, como coordenadora e tradutora, numa equipa que prepara uma colecção completa da produção dramática grega.

 

Para mais informações:

RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

Maria Manuela Serra e Silva

Telefone – 239 410 699

E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com

Facebook: https://www.facebook.com/Romuloccvuc

AVISO TALVEZ JÁ TARDIO

 


Texto de Eugénio Lisboa: 

Acabo de receber uma bela reportagem fotográfica sobre África, onde vivi, ao todo, trinta e oito anos inesquecíveis. Mas, a esta reportagem sobre o meu continente natal, fiz o doloroso comentário que transcrevo e que em muito transcende o que se passa no continente africano: 

A África é colorida, quente, generosa e mal governada. Foi mal governada por brancos e é pior governada por negros. Os brancos exploravam, os negros saqueiam. Mas a África é grande e bela, os homens é que dão cabo dela. Gosto mais do leão, da gazela, do elefante, da girafa, do camelo, do que gosto do homem. Os bichos não destroem a vida no planeta. Os bichos estão só no planeta. Os homens apropriaram-se do planeta. Quando o homem se tornou inteligente, a vida no planeta começou a ficar ameaçada. Quando o homem se tornou muito inteligente, a vida no planeta começou a definhar. Quando o homem se tornou ainda mais inteligente, a vida no planeta começou a chegar ao fim. Na obra de Dostoiewsky, o homem inteligente é uma representação do diabo. Talvez tenha razão. Aliocha era a bondade que salva e cura, mas Ivan era a inteligência que perverte e destrói. São duas personagens de OS IRMÃOS KARAMAZOV, espantosa fábula premonitória.

Eugénio Lisboa

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

QUATRO NOVAS HISTÓRIAS DAS EPIDEMIAS


Meu artigo no último As Artes entre as Letras:

A pandemia de COVID-19 já dura há mais de ano e meio e, enquanto ela dura, vai crescendo nas livrarias o número de livros sobre epidemias, não apenas a actual, mas também as muitas que a precederam ao longo da história. De início fui coleccionando os livros que saíam, mas, a partir de certa altura, tornou-se impossível continuar, pois a conta excedia os limites do razoável. Mas mantenho um canto na estante para a história das epidemias, que é um assunto tão fascinante quanto inesgotável. Esta última afirmação é comprovada pelo recente aparecimento, na língua portuguesa, de quatro novos livros que resultam de traduções de edições anglo-americanas. As quatro obras apresentam um visão da história global das epidemias. Tentando ajudar leitores interessados, recenseio-os aqui brevemente, resumindo os pergaminhos dos seus autores e as principais mensagens que eles transmitem. Estou certo alguns deles, pela profundidade da sua visão, merecem recensões mais extensas. A ordem é alfabética do apelido do autor:

-  Niall Ferguson, Condenação. A Política da Catástrofe, Temas e Debates – Círculo de Leitores.

Ferguson (n. 1964), escocês naturalizado norte-americano, é um dos historiadores mais conhecidos da actualidade, sendo vários os seus livros já publicados em português. Nomeio, entre outros e por ordem cronológica inversa, A Guerra do Mundo (Relógio d’Água, 2021), A Ascensão do Dinheiro (Relógio d’Água, 2021), A Praça e a Torre (Temas e Debates, 2018), O Declínio do Ocidente (Dom Quixote, 2014) e Império (Civilização, 2013). O autor ensina na Universidade de Stanford e está associado a um centro da Universidade da Harvard, nas duas costas opostas dos Estados Unidos, depois de ter ensinado e investigado noutras prestigiadas escolas. Especialista em história internacional, em especial os impérios inglês e norte-americano, tem-se preocupado mais com os aspectos económico-financeiros da evolução das sociedades. Com aparições frequentes nos média, tem visto o seu nome ficar envolvido em várias polémicas. Recebeu vários prémios e distinções.

O seu último livro, de mais de 550 páginas, debruça-se sobre a história do desastres a e resposta dos líderes a eles. O autor mostra o seu domínio de temas normalmente fora da expertise dos historiadores como a epidemiologia, a história da medicina, a teoria das probabilidades e a teoria das redes. O autor dedica um largo espaço à COVID-19. A conclusão é que não podemos prever epidemias, mas podemos aprender com a história, analisando as epidemias passadas, para que possamos estar mais bem preparados para os próximos eventos do mesmo género.

- Mark Honigsbaum, O Século das Pandemias. Uma história de contágios globais, da gripe espanhola à covid-19. Vogais (do grupo 2020).

O autor (n. 1960) é escritor e jornalista inglês que, tendo estudado na Universidade de Oxford, se especializou em história e ciência das doenças infeciosas. O presente volume é o primeiro dos seus livros a ser traduzido em português, mas publicou um livro sobre a malária (The Fever Trail. In search of the cure for malaria) e outro sobre a gripe espanhola, entre nós conhecida por pneumónica, que grassou em 1918-1919 (Living with Enza. The forgotten story of Britain and the Great Flui Pandemic of 1918).

No novo livro trata as pandemias do século XX, começando precisamente com a gripe espanhola e terminando, já no presente século, com a COVID-19, num acrescento que o autor fez à primeira edição, passando pela SIDA e pelo ébola. Escrito de uma maneira que prende o leitor, esta é, como a anterior, uma obra de fôlego, que se estende por mais de 500 páginas.

- Charles Kenny, A Verdadeira História das Pandemias.  Uma abordagem histórica fundamental para compreender o progresso da nossa civilização. A luta global pela saúde ao longo da história, Clube do Autor.

Kenny (n. 1970) é um economista norte-americano, doutorado pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, que trabalhou no Banco Mundial e trabalha hoje no Center for Global Development, um think tank em Washington DC. Autor de outros livros (Getting Better: Why Global Development is succeddingand how we can improve the world even more e The Upside of Down. Wht the rise of the rest is good for the West) tem marcado presença em vários média. Os seus interesses centram-se em questões do desenvolvimento, globalização e felicidade.

Este livro, com mais de 300 páginas, põe a tónica nos processos de globalização, como foram as viagens dos Descobrimentos marítimos e a posterior colonização, que possibilitaram a transmissão de doenças infeciosas em larga escala. Apesar das sucessivas tragédias que têm marcado a humanidade, o autor, que discute a COVID-19, termina com uma nota de optimismo sobre a possibilidade de intervenções humanas redentoras.  

- William H. McNeill, Peste e Povos. Um relato impressionante sobre o impacto das pandemias na ascensão e queda das civilizações, Casa das Letras (grupo Leya).

McNeill (1917-2016) foi um notável historiador norte-americano, professor na Universidade de Chicago, que publicou ao longo da sua vida mais de duas dezenas de obras, incluindo The Rise of the West. A History of the Human Community, e Pursuit of Power. Technology, armed forces and society since 1000 AD. Presidiu à Associação de História Americana e recebeu o prémio holandês Erasmus, que enaltece contribuições à cultura europeia.

Com mais de 400 páginas, este é outro grande livro de história, na qual MvNeill analisa a evolução da humanidade em linhas muito gerais. O autor não viveu o suficiente para assistir à pandemia que nos aflige, mas esta obra é hoje muito útil por integrar as pandemias no contexto da história do mundo, a uma larga escala temporal.

É bom não esquecer quê sempre tivemos epidemias. Agora estamos é mais bem preparados para as enfrentar. Boas leituras!

 

 

 

sábado, 20 de novembro de 2021

A FESTA ANTES DO TEMPO (MALHAS QUE O PROVINCIANISMO TECE)

 

Novo texto de Eugénio Lisboa: 

A minha maneira de brincar é dizer a verdade. 
É a brincadeira mais divertida do mundo. 
George Bernard Shaw 

Se, por um daqueles artifícios cómodos, 
pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender,
quisermos resumir numa síndroma o mal superior português,
diremos que esse mal consiste no provincianismo. 
Fernando Pessoa 
 
No dia 16 de Novembro do próximo ano cumprem-se cem anos sobre o nascimento de José Saramago, perdão, do “nosso único Nobel”, como a nossa comunicação social tanto se derrete a dizer. Sim, convém roer bem este osso raro e apetecível, que tanto afaga a nossa autoestima e nos leva de novo para a grandeza dos descobrimentos!

Seja como for, seria normal que as celebrações desse aniversário começassem em 16 de Novembro de 2022 e se prolongassem por um ano, até Novembro de 2023. É como se costuma fazer. Mas, desta vez, a impaciência lusíada foi tão grande, o desejo de se agitar freneticamente o milagre Nobel, em nada inferior ao outro de Fátima, foi tão impulsivo, que aí estamos nós, avançando de um ano a efeméride, e a tocar, com acintosa paixão, o tambor da glória. Tudo se vai fazer, em grande, para que lá fora se não esqueça que em Portugal também há um Nobel da Literatura!

Com Saramago, nas letras, e Ronaldo, na bola, não há desculpa para depressões nem para vendas escandalosas de ansiolíticos. Os portugueses, quando celebram, não têm mãos a medir. Aperte-se o cinto, poupe-se no pão e nas ligaduras, mas faça-se um arraial de encher o olho. Uma festarola destas, em grande, é tão indispensável à imagem do país, como a construção de um novo estádio de futebol! Os estrangeiros vão ver como é! 

Camões, em 1980 não teve nada de parecido com isto, mas também é bom de ver que o nosso Luis Vaz é muito bom, é muito bom, mas não teve nunca o Nobel. Essa é que é essa. Pode dizer-se que, no tempo em que Camões comeu o pão que o diabo amassou, não havia Prémio Nobel. Pois sim, mas a julgar por aqueles que os suecos têm desprezado, está muito longe de ser líquido que o nosso Luis Vaz o abichasse. Além do mais, o facto de ter sido castigado com um exílio para a Índia, de ter estado desempregado na Ilha de Moçambique um ror de tempo a coçar os tomates (e a defecar para cima do Índico, Cf. Jorge de Sena) e de ter andado por Lisboa, numa situação social mais do que duvidosa, a viver de uma tença e de esmolas, decerto incomodaria o olfacto fastidioso dos académicos de Estocolmo. 

Saramago, não! Saramago chegou e sobrou para o Prémio e os portugueses não cabem em si, de contentes. De aí, a festança que se aproxima. O Parlamento vai andar num afogadilho a produzir legislação punitiva, para quem se atrever a não gostar de Saramago. Mais: vai, parece, produzir legislação para OBRIGAR todos os portugueses a gostarem ostensivamente do autor de MEMORIAL DO CONVENTO. Sob pena de um severo castigo. De resto, esta ideia de castigar os dissidentes começou logo por altura em que o galardão foi atribuído a Saramago.

Lembro-me de uma sessão qualquer em que o muito lido Eduardo Prado Coelho (EPC), num acesso de entusiasmo patriótico, apontou um dedo ameaçador à audiência que o escutava e disse: “Agora, sempre quero ver se alguém se atreve a criticar Saramago!” A ameaça já era bastante grotesca e indigna de um académico, mas o pior foi a estrondosa salva de palmas que ela desencadeou. Eu fiquei muito quieto, no meu lugar e não aplaudi. Intrigado, um meu vizinho perguntou-me: “Não gosta do Saramago?” Respondi-lhe: “Do que não gosto é de ser ameaçado de punição, caso não goste.” Espantosa descoberta, a de Prado Coelho: um escritor, ao receber o Prémio Nobel fica automaticamente imune à crítica!

EPC disse, ao longo da sua vida, muitas coisas singulares, mas esta foi a cereja em cima do bolo. Saramago, os demónios que tu acordas! Estávamos a voltar ao tempo das ditaduras, as quais não só nos impediam de gostarmos de certas coisas, como nos obrigavam a gostar de outras. O EPC, afogueado em erotismo patriótico, já não distinguia alhos de bugalhos. Sem dar por isso, escorregara para o protocolo salazarento. Acontecia-lhe muito, porque lia tanta coisa, que, como, com muita graça, disse a Sophia, o Eduardo sabia mais do que aquilo que percebia.

Enfim, o Nobel outorgado a Saramago tem o condão de produzir, entre nós, estas coisas excessivas.

Falemos agora um bocadinho mais a sério. Não vou aqui discutir se Saramago é um bom escritor, um escritor razoável ou um escritor medíocre promovido por uma máquina bem oleada. Não interessa agora, até porque os juízos literários são muito subjectivos e escorregadios. Já um dia, quando mostrava sincera perplexidade pela promoção obscena que se andava a fazer de um jovem escritor e de um livro seu, de que se não aproveitava um único verso, alguém me observou: “Mas Você é um em um milhão, ao não admirar este escritor…” 

A este tipo de argumentação, que a mais rudimentar lógica rejeita, já Bertrand Russell respondera nestes termos luminosos: “O facto de uma opinião ser amplamente compartilhada não é nenhuma evidência de que não seja completamente absurda; de facto, tendo em vista a maioria da humanidade, é mais provável que uma opinião muito difundida seja tola do que sensata.”

Basta lembrarmo-nos de que, durante muitos séculos, a esmagadora maioria dos homens tinha a certeza de que a Terra era plana, que o Sol girava em torno da Terra e que os antípodas andavam de cabeça para baixo e, no entanto, essa esmagadora maioria estava errada. Foi por os académicos do Brasil nunca terem deparado com estas palavras do grande lógico matemático, que Paulo Coelho foi parar à Academia Brasileira de Letras: eram tantos a comprá-lo e a lê-lo e a dizerem que era muito bom! Que haviam de fazer os académicos brasileiros se não estender-lhe o tapete? Quem se atreve a dispensar uma estrela mediática? Um homem traduzido em dezenas de línguas? 

Coragem, sim, mas devagar! Além disso os homens de letras, a quem falta, deploravelmente, um mínimo de formação científica, são normalmente muito assertivos, até porque acham que as chamadas ciências exactas são mesmo exactas, do género dois e dois serem quatro. Só que isso está longe de ser assim e, voltando ao grande lógico matemático, recomendo este aforismo dele, para uso dos dogmáticos das letras: “Todas as ciências exactas são dominadas pela ideia de aproximação.” 

Voltemos então ao Nobel de Saramago e aos orgasmos de admiração parola que desencadeou no nosso país, não excluindo nem as elites intelectuais nem o próprio Presidente da República, Jorge Sampaio (um homem por quem sempre tive a maior estima, admiração e gratidão). Mas a verdade é que, em toda a história do Prémio Nobel, não me consta que o Presidente dos Estados Unidos tenha corrido para Estocolmo, por ocasião do Nobel ganho por O’Neill, Faulkner ou Hemingway, nem a Rainha de Inglaterra, tenha arrastado as suas vestes reais, desde o Palácio de Buckingham até aos frios nórdicos, para assistir à coroação nobélica do seu taciturno súbdito, T. S. Eliot (que ela achava chato, soturno e incompreensível). 

Mas como tudo é diferente em Portugal! Não só o amor, celebrado pelos cardeais de Júlio Dantas, mas também a admiração, celebrada de cardeal para baixo! Somos diferentes, eis a questão. Quando admiramos, admiramos aos gritos e detestamos vesgamente quem ponha uma tímida reserva. Dizer-se que não se gosta lá muito deste ou daquele romance do miraculado escritor é crime de lesa idolatria. Porque é a idolatria que, nestas alturas, entra em vigor e a idolatria odeia a reserva cautelosa. Em 1998, ano do milagre, quem não idolatrasse Saramago era inimigo da pátria. Quem, em colóquio ou viagem de turismo cultural, não metesse Saramago era tido por odioso sabotador do êxtase nacional. Prado Coelho, promovido a inquisidor-mor, estava severamente vigilante. Nada de críticas! Nada de relaxações! O momento era de adoração e de justificada histeria.

A mim, que lera alguma coisa e que vivera quase duas décadas em Londres, onde a recepção de um Nobel de Literatura ou outro era um acontecimento extremamente sóbrio e discreto, durante o qual a comunicação social noticiava mas não se extasiava provincianamente, o espalhafato lusíada confesso que me incomodou. Mais do que um bocadinho. Que diabo, toda a intelectualidade adulta sabe que as decisões de um júri são apenas as decisões de homens falíveis. É sempre agradável receber um prémio, mas um escritor consciente das fragilidades humanas, deve sempre fazê-lo, with a pinch of salt, como dizem os britânicos. Os dezoito suecos que presidem ao Nobel de Literatura, não possuem especiais poderes de avaliação. São homens e, como homens, são sujeitos a lobbies, interesses, limites de conhecimento, preconceitos e ocasionais lapsos de juízo crítico. Não é pecado de maior. É só um facto da vida.

Compreende-se que o prémio seja apetecível pelo seu avultado valor monetário. Já o seu prestígio intrínseco é muito mais difícil de compreender e justificar: errare humanum est, mas errar à escala a que os júris do Nobel têm errado é digno de mais que algum espanto. E não só pelo que diz respeito ao prémio de Literatura. Muita gente não sabe, mas o júri do Nobel da Física não se atreveu a dar o Prémio a Einstein, pela teoria da Relatividade, que o tornou famoso e revolucionou a Física pós-Newton: atribuíram-no aos seus trabalhos sobre o efeito fotoeléctrico, provavelmente por se não sentirem muito à vontade com a teoria da relatividade (a restrita e a generalizada), à qual não chegavam.

Em Literatura, a Academia Sueca consagrou, é certo, alguns grandes escritores, como George Bernard Shaw, Eugene O’Neill, Luigi Pirandello, Anatole France, Thomas Mann, Herman Hesse, André Gide, Roger Martin du Gard, Bertrand Russell, Ernest Hemingway, William Faulkner, Albert Camus e não muitos mais. Em compensação, por motivos os mais variados mas que nada tiveram a ver com mérito literário, galardoaram um enormíssimo número de escritores francamente menores, a maioria dos quais está hoje esquecida, deixando de fora escritores notabilíssimos (alguns, verdadeiros gigantes), como Henry James, Mark Twain, Robert Frost, Robert Lowell, Emily Dickinson, Truman Capote, Arthur Miller, Tennessee Williams, Edward Albee, John dos Passos, Virginia Woolf, Aldous Huxley, W. H. Auden, Ortega y Gasset, Miguel Unamuno, Frederico Garcia Lorca, Pio Baroja, Karen Blixen, August Strindberg, Alberto Moravia, Henrik Ibsen, Émile Zola, Jorge Luis Borges, Graham Greene, Joseph Conrad, Lawrence Durrell, Phillip Roth, Marcel Proust, Paul Claudel, Paul Valéry, André Malraux, Antoine de Saint-Exupéry, Jean Anouilh, Rainer Maria Rilke, Konstantino Kavafis, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, João Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, José Régio, Miguel Torga, Jorge de Sena, Sophia Andresen, Herberto Hélder. 

Deixo de fora ainda alguns, mas não quero alongar demais a lista. Tudo isto nos deve conduzir a aceitar sempre com alguma sobriedade os juízos valorativos que nos chegam da Escandinávia, não nos deixando cair em tentação de idolatria.

Lembrem-se da cáustica advertência do irlandês George Bernard Shaw (que aceitou o diploma e a medalha do Nobel, mas recusou galhardamente o dinheiro): “O selvagem adora ídolos de madeira e pedra, o homem civilizado, ídolos de carne e osso.” 

Eu prefiro não adorar nem uns nem outros. Admirá-los, sim; adorá-los, nunca.  
Eugénio Lisboa 
17.11.2021

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

O RÓMULO FAZ 13 ANOS COM NUNO FERRAND E ANTÓNIO JORGE GONÇALVES

 


 O RÓMULO  FAZ TREZE ANOS!

O RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra comemora no próximo dia 24 de Novembro, dia de nascimento de Rómulo de Carvalho e Dias Nacional da Cultura Científica, o seu 13.º aniversário. Os pontos altos serão a inauguração da exposição “Posters com Ciência”, do artista Edgar Ascensão,  e as palestras do biólogo Nuno Ferrand, “Reflexões de um Naturalista na Era da Genómica”, e do artista  António Jorge Gonçalves, “Desenhar no Escuro”, com um debate final sobreCiência e Arte moderado pro Carlos Fiolhais. Nuno Ferrand será na ocasião  homenageado pelo Rómulo, valorizando os eu trabalho de promoção da ciência.


4.ª feira | 24 Novembro 2021 | 15h45 – 19h15

O RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra abriu as suas portas no dia de 24 de Novembro de 2008, no edifício do Departamento de Física daquela Universidade. No próximo dia 24 de Novembro assinalam-se, portanto, os treze anos de funcionamento contínuo e em crescimento constante como centro de difusão da cultura científica na sociedade e como centro de recursos para a aprendizagem e divulgação das ciências.  A Biblioteca do Rómulo passou dos cerca de 3000 títulos iniciais para cerca de 50000 items, sendo hoje, graças a importantes doações, uma notável colecção de livros, revistas, CD e DVD sobre os mais variados tópicos da relação entre  ciência e sociedade à disposição de todos os interessados.

O RÓMULO, que integra a rede de centros Ciência Viva espalhados pelo país, tem sido palco de numerosas actividades de divulgação da cultura científica e a sua actividade, apesar dos tempos de pandemia, tem-se mantido muito viva, dirigindo-se a vários públicos, incluindo uma grande colaboração com escolas.  Destaca-se a parceria, no quadro da Escola Ciência Viva, da Universidade de Coimbra com o município de Cantanhede.

Pelas 15h45, abrirá a exposição “Posters com Ciência,” uma exposição que resultou de uma colaboração entre o Centro Ciência Viva do Lousal - Mina de Ciência e o artista gráfico Edgar Ascensão e que propõe, cruzar o olhar único da arte com as grandes conquistas da ciência. Neste trabalho, para cada filme foi escolhido um acontecimento científico, contemporâneo com a mesma data, ao longo de sete décadas, mostrando o modo como a arte pode imitar a realidade e vice-versa. Desde “O Marciano”, passando por “Parque Jurássico” até “A Guerra das Estrelas”, são cerca de 25 filmes que contam uma história ímpar do conhecimento e desenvolvimento tecnológico. Cada poster, é uma visão acrescida ao mundo da sétima arte.

Pelas 16h00, terá lugar a palestra intitulada “Reflexões de um Naturalista na era da genómica”, pelo Professor Nuno Ferrand,, da Universidade do Porto (Faculdae de Ciências e CIBIO), que será apresentado por Carlos Fiolhais, que expressará a homenagem do RÒMULO,

Pelas 17,30, depois de um magusto, terá lugar a palestra “Desenhar no Escuro” pelo artista António Jorge Gonçalves  a que se seguirá, pelas 18h30, o debate “Ciência e Arte”, moderado por Carlos Fiolhais.

A sessão é aberta ao público em geral, portador de máscara de protecção individual, havendo lugar a diálogo com os oradores.

BIOGRAFIAS

 

Edgar Ascensão, licenciado em Artes da Imagem e repórter de imagem na SIC, encontrou no desenho de posters alternativos um modo de exprimir o seu amor pelo cinema. Tem um blogue e uma plataforma online onde publica os seus trabalhos, muitos dos quais já com um reconhecimento mundial. Já saiu o segundo volume do livro que compila as suas criações “Posters Caseiros Vol. II”.

Nuno Ferrand, é coordenador Científico do CIBIO-InBIO e Professor Catedrático do Departamento de Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, onde lecciona genética e evolução. Ferrand interessa-se por biologia evolutiva, particularmente por padrões de diversidade genética de populações naturais, ecologia, conservação, domesticação e especiação. Tem desenvolvido vários projectos de investigação nestas áreas utilizando o coelho como principal espécie modelo. Também estudou a evolução de muitas espécies de anfíbios e répteis na Península Ibérica e no Norte da África.

Publicou mais de 150 artigos, nomeadamente na Science, Nature Genetics, Molecular Biology and Evolution, PloS Genetics, Evolution, Biological Journal of the Linnean Society, Genetics, Molecular Ecology, Molecular Phylogenetics, e Evolution Heredity. É autor de três livros e de onze capítulos de livros, e editor de quatro .

É o Diretor do Programa de Doutoramento em Biodiversidade, Genética e Evolução organizado pelas Universidades do Porto e de Lisboa, financiado pela FCT. Orientou 19 teses de doutoramento, 21 teses de mestrado e 15 pós-doutorados. Atualmente,  orienta 4 alunos de doutoramento e 11 pós-doutorandos.

É o Diretor do Museu de História Natural e Ciências da Universidade do Porto, onde lidera uma profunda reestruturação para a criação de um novo museu focado numa filosofia museográfica inovadora, em parceria com a Ciência Viva. Organizou várias exposições, incluindo a «Evolução de Darwin?.

António Jorge Gonçalves é licenciado em Design de Comunicação, na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa, e fez mestrado em Cenografia para Teatro, na Slade School of Fine Art, em Londres, como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian.

O seu trabalho envolve ilustração editorial, cartoon político e performance visual. É autor de diversos livros de banda desenhada, entre os quais a trilogia Filipe Seems (com Nuno Artur Silva) e as novelas gráficas A Arte Suprema e Rei  (com Rui Zink). Entre 2003 e 2018, publicou semanalmente cartoons políticos no Inimigo Público. Fez direcção visual em várias peças de teatro, entre as quais O Que Diz Molero e Arte e Como Fazer Coisas Com Palavras, e criou o projecto «Subway Life». Recebeu, em 2014, o Prémio Nacional de Ilustração pelo livro Uma Escuridão Bonita, de Ondjaki.

Na última década, as suas performances de desenho digital têm tido lugar em todo o mundo, envolvendo artistas como Bulllet, Kalaf, Amélia Muge, Micro Audio Waves, Gino Robair, Ellen Fullman, Mário Laginha ou Bernardo Sassetti. 

Para mais informações:

 

RÓMULOCentro Ciência Viva da Universidade de Coimbra 

                   Maria Manuela Serra e Silva

                   Telefone – 239 410 699

                   E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com

                   Facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100002912006773

                   Página: https://www.uc.pt/iii/romuloccv

CIÊNCIA ÀS SEIS! no RÓMULO: Azul do meu coração


Informação recebida do Rómulo :

Realiza-se na terça-feira, dia 23 de Novembro de 2021, pelas 18 horas, o lançamento do livro infantojuvenil Azul do meu coraçãoinserido no ciclo em cursoCiência às Seis! (temporada 6)”, com a presença das autoras Isabel Bravo, texto, e Danuta Wojciechowska, ilustrações.

Resumo:

Nesta obra, realidade e ficção estão de mãos dadas. A personagem principal é Mateus, um rapazinho de origem terrestre que vive fora da Terra e Ayla, que vem de longe no espaço, e que o visita numa noite especial: a noite de Natal. E ficam amigos. E num divertido diálogo, Mateus e Ayla vão recriar a grande história do Universo: uma história extraordinária que não exclui outras histórias que Mateus conta a Ayla porque ela gosta de o ouvir. E lá vão eles, a bordo de uma nave espacial, viver uma história que é, para um deles, a do regresso às origens… 

O lançamento, com intervenção de Carlos Fiolhais, destina-se a todos os interessados pela educação, pela literatura infanto juvenil e pelas relações entre arte e ciência. Haverá possibilidade de adquirir o livro que saiu em edição de autor e é uma óptima prenda de Natal.

O evento, apenas presencial, integra-se na Semana Nacionalç da Cultura Científica. A entrada é livre para todos os interessados, cumprindo todas as normas sanitárias em curso,

Biografias: 

Isabel Bravo estudou Ensino de História e Ciências da Informação e da Comunicação na Universidade de Évora. É professora de História e Geografia de Portugal e Português do 2.º ciclo e professora bibliotecária. Exerceu esse cargo em várias bibliotecas escolares integradas na Rede de Bibliotecas Escolares no distrito de Évora. Atualmente, é professora bibliotecária na Escola Básica e Secundária Rainha Dona Leonor de Lencastre, em São Marcos, Sintra. É autora da história recomendada pela Associação de Professores de História e pelo Plano Nacional de Leitura,  Amali e Abdul do Outro Lado do Muro (Caminho das Palavras). 

Danuta Wojciechowska é responsável pela direção do atelier Lupa Design. É formada em Design de Comunicação, pela Escola Superior de Design de Zurique, com pós-graduação em Educação pela Arte, na Emerson College, em Inglaterra. Especializada na criação e edição de conteúdos dirigidos aos mais novos, ilustrou mais de 60 livros, jogos e manuais escolares. Agraciada, entre outros, com o Prémio Nacional de Ilustração (2003), foi distinguida como uma das "Mulheres Criadoras de Cultura" (2014) pelo governo de Portugal. 

 

Para mais informações:

RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

Maria Manuela Serra e Silva

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quinta-feira, 18 de novembro de 2021

RODRIGO DE CASTRO E A PESTE DE HAMBURGO


Minha recensão no I de hoje:

Rodrigo de Castro (c.1546-1627) é um médico de origem judaica, nascido em Lisboa e formado em Salamanca que foi obrigado a exilar-se devido ao ambiente inquisitorial que se vivia no reino português no final do século XVI, tendo-se fixado em Hamburgo, na Alemanha. Pertence a uma elite de médicos portugueses desse século, que integra outros judeus emigrados, como Garcia de Orta (c. 1501-1568), que foi para a Índia, Amato Lusitano (1511-1568), que andou por terras das actuais Bélgica, Itália, Croácia e Grécia, Francisco Sanches (1550-1622), que se fixou em França, e Zacuto Lusitano (1575-1642), que emigrou para os Países Baixos. Tanto Castro como Sanches e Zacuto são contemporâneos de Galileu, Kepler e Descartes e, portanto, da Revolução Científica. De certo modo, Sanches, com o seu Que Nada Se Sabe (1581; edição moderna: Vega, 1991), precedeu Descartes.

Entre as obras de Castro, quase todas escritas em latim, só estava traduzida em português O Médico Político. Ou Tratado Sobre Deveres Médico-políticos (Colibri, 2011), publicada em Hamburgo em 1616, que é um extraordinário tratado de ética médica que ainda hoje é moderno em muitos aspetos como salientou o saudoso João Lobo Antunes, numa sessão na Ordem dos Médicos aquando do seu lançamento, na qual tive o gosto de participar. Deixo um excerto: «Pois se [o médico] exercer a medicina por qualquer outra razão [sem ser curar doenças], como o lucro, a honra ou por causa da glória, não será chamado simplesmente médico, mas, tirado da finalidade o nome, será designado médico ambicioso, presunçoso e interesseiro (…); aquele, porém, que se designa verdadeiramente médico é impelido a curar por bondade e humanidade.» A obra maior de Castro, por ser fundadora da Ginecologia e Obstetrícia (conforme salientei recentemente numa apresentação que fiz a abrir o 22.º Congresso Português de Ginecologia e Obstetrícia, realizado no Porto), foi, porém, o seu tratado, saído em Hamburgo e Colónia em 1603, e que conheceu um total de nove edições: De Uniuersa Mulierum Medicina («A medicina completa das mulheres»).

Porém, o primeiro livro de Rodrigo de Castro intitula-se Tractatus breuis De Natura, et Causis Pestis… ou, em português, Tratado Breve Sobre a Natureza e as Causas da Peste, que neste ano de 1596 assolou a cidade de Hamburgo. A edição original foi publicada por Jacob Lucius Junior, nessa cidade, e a edição moderna em português acaba de sair na Afrontamento, do Porto, sob o título A Peste de Hamburgo. Tratado breve da sua natureza e suas causas. O volume contém o texto latino original e a tradução em português, além de introdução, edição e notas de Bernardo Mota, Cristina Pinheiro e Gabriela Silva, todos eles investigadores no Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa. O livro tem um prólogo do historiador de medicina espanhol Jon Arrizabalaga. Sendo o n.º 171 da colecção «Textos», trata-se de um trabalho académico, realizado no quadro do projecto «Gyneceu - Rodrigo de Castro e a tradição médica antiga sobre ginecologia e embriologia», coordenado por Cristina Pinheiro, professora da Universidade da Madeira. Mas esta edição, muito bem editada e produzida, tem também interesse para todos os curiosos pela história da medicina, ou, em geral, pela história e, em particular, por todos aqueles que, motivados pela pandemia que hoje vivemos, queiram conhecer as epidemias passadas.

A bela capa exibe o quadro de Pieter Bruegel, o Velho, O Triunfo da Morte (c. 1562), exposto no Museu do Prado em Madrid, que retrata uma surreal paisagem apocalíptica.

O resumo de A Peste de Hamburgo está indicado no subtítulo: «Nele se mostra, de forma sucinta, mas exacta, na presente enfermidade, que método de prevenção e de cura se deve observar, para que tanto a cidade no seu todo como cada um possa, do mal nascente, preservar-se, e, depois, a pernície já ocupante, mais facilmente, rechaçar. E ainda muitas coisas nesta matéria até agora difíceis de entender são explicadas de passagem.»

O autor começa com uma dedicatória ao Senado de Hamburgo, onde brilha a sua arte retórica: «Incríveis Varões de tão grande sabedoria e virtude! Perseverai a fazer o que sempre fazeis e guarnecei a florentíssima e opulentíssima República com este triplo nó, que, como se diz, não se desata facilmente: com os bens da fortuna, com a justiça e com as letras. (…) É verdade que há, nesta cidade, varões sapientíssimos e aprimoradamente versados na arte médica, que, com os seus muito eruditos e salutares conselhos, podem ajudar a República, e, por isso, esta nossa obra poderá parecer menos necessária. Considerei, no entanto, que também Vos devia ser oferecida alguma coisa sobre esta matéria, não tanto por dela terdes falta, mas porque desejava que a minha afeição e o meu respeito para convosco e para com o Magistrado fossem conhecidos e testemunhados. Espero que Vós, muito distintos e esplêndidos Varões, considereis esta oferta boa e justa.»

 Depois deste empolgante intróito, o autor divide o seu texto em quatro partes: «A natureza das causas e os sinais desta calamidade», «O método e preservação contra a peste», «O método para curar a peste» e «O uso correcto dos remédios». Sobre as causas da peste bubónica – sabemos hoje que ela resulta da bactéria Yersenia pestis – o autor escreve: «Ela provém de qualidade oculta, envenenada e perniciosa, oriunda ou de podridão maligna concebida pelos humores ou de alguma causa superior, que vem acompanhada, muitíssimas vezes, por febre maligna, pápulas ou manchas de diversas cores ou ainda bubões.» Apesar de a doença ter, em última instância, origem divina, cabe aos médicos fazer-lhe frente: «Com efeito, tal como lhes cabe a eles [os teólogos] ensinar o conhecimento de Deus e livrar a alma das suas afecções, assim cabe aos médicos perscrutar as obras da natureza e libertar o corpo humano das enfermidades.»

Encontram-se muitas coisas modernas no texto de Castro, designadamente as medidas de afastamento social, incluindo a cessação dos cumprimentos tradicionais: «Todos aqueles que se querem manter saudáveis devem fugir das aglomerações de pessoas, pois aí o ar não circula livremente e o hálito expirado é mais rapidamente comunicado aos presentes. Por isso, agirão muito correctamente os que conversam uns com os outros, se evitarem que o hálito da boca, que com extrema frequência infecta, atinja a pessoa que está próxima. Com efeito, noutras regiões, isto respeita-se com extrema diligência mesmo em tempos de saúde, por civilidade. Ainda que o costume de estender a mão seja óptimo e louvável, a mim, todavia, parecer-me-ia mais proveitoso se, enquanto durar o contágio, as pessoas usassem outro modo de cumprimento.»

 Também actuais são outras medidas de saúde pública: «Penso que seria extremamente acertado e útil se, em cada paróquia, houvesse dois ou três homens (que, em outros lados, se chamam ‘Provedores da Saúde’ e são de grande autoridade) para diligentemente inquirirem sobre doentes semelhantes e os persuadirem a tomar, a tempo, medicamentos úteis à saúde, e não deixarem ninguém sair de uma casa infectada.» Sendo a doença de grande letalidade, haveria que  enterrar os mortos com cuidado: «E se alguém morrer deste mal pernicioso, haja coveiros adscritos a esta função: de o sepultar. E mais: requeira-se um médico, um pastor, um cirurgião, ou cirurgiões assistentes, e guardiões indicados para esta tarefa: de os visitar, mas sem se aproximarem dos outros, para que o mal não alastre através das mãos e se dissemine.» E, haveria, tal como hoje, de se tratar das estatísticas da mortalidade: «De seguida, se, em cada semana, se enviar, de cada paróquia, o número dos doentes e dos mortos ao Magistrado, isso será de grande utilidade para se compreender mais facilmente a progressão da doença; para ela não levar mais vidas, a pretexto de outra enfermidade, ao espalhar-se às escondidas; para, pelo contrário, com um bom conhecimento da situação, podermos enfrentá-la melhor e os pacientes tomarem os seus remédios atempadamente.»

 O livro indica um extenso rol de medicamentos a tomar para prevenir ou tratar o flagelo da peste – um rol que nos informa sobre o estado primitivo da medicina na época. O autor insiste que é possível tanto prevenir como curar: «A peste é, sem dúvida, de sua natureza, uma doença letal e que mata muitos dos mortais – excepto se, pela aplicação dos remédios convenientes, os seres humanos, com o auxílio da arte médica, resistirem de forma diligentíssima e rápida. Daí vermos que muitos, tendo tomado os remédios a tempo, se restabeleceram e salvaram.»

 Rodrigo de Castro é autor de mais um livro, escrito em português, sobre o herém, a excomunhão judaica (a pena a que foi condenado o famoso filósofo judeu de origem portuguesa Bento Espinosa, 1632-1677, na Sinagoga Portuguesa de Amesterdão), Tratado de Herém, Em o Qual a Cerca Desta Matéria…, mas essa obra perdeu-se. Se e quando aparecer será interessante conhecer melhor as circunstâncias da excomunhão de um médico que tinha assumido a sua pertença ao judaísmo, sob o nome de David Nahmias. Castro quis exercer o levirato, isto é, a faculdade de, mesmo sendo casado, fecundar a mulher do seu irmão, que tinha falecido sem descendência. A comunidade judaico-portuguesa de Hamburgo logo se opôs, apoiada pelo rabi, o que obrigou o médico a defender a sua posição num livro que, existente na biblioteca central de Hamburgo, desapareceu durante a Segunda Guerra Mundial. Ficou um enigma por deslindar…

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

DA IMPOSSIBILIDADE DE CONHECER A HISTÓRIA DOS HOMENS (UM APÓLOGO)

 


Novo texto de Eugénio Lisboa: 

Anatole France foi, no último quartel do século XIX e primeiro quartel do século XX, talvez o mais admirado escritor francês e o mais internacionalmente conhecido. A Academia sueca ansiava por dar-lhe o Prémio, pois era escandaloso não galardoar o mais óbvio herdeiro de Voltaire. Mas andou a arrastar os pés, por puras razões de cobardia e paroquialismo: o facto de Anatole ter uma história de grande amor extra-conjugal, com Madame Arman de Caillavet. Experiência profunda e duradoura, que nos valeu esse belo romance sobre o ciúme, intitulado LE LYS ROUGE (O LÍRIO VERMELHO). Por fim, a nem sempre muito inspirada Academia lá lhe deu o galardão, em 1921, isto é tarde e a más horas, três anos antes da morte do escritor. O autor de A ILHA DOS PINGUINS não precisava do Prémio para nada, mas o Prémio é que tinha muito a ganhar, pendurando-se no grande escritor. O número de romances e de ensaios que nos legou constitui um dos mais nobres e sedutores patrimónios de que todos, franceses e não franceses, se podem orgulhar e abundantemente servir. De uma invulgar erudição, dono de um espírito suavemente acutilante, perspicaz no sondar as grandezas e fraquezas do ser humano, iconoclasta sorridente, pessimista não amargurado, mas intrépido, sempre que foi necessário, o autor de THAÏS, LA RÔTISSERIE DE LA REINE PÉDAUQUE, LES DIEUX ONT SOIF, LES OPINIONS DE M. JERÔME COIGNARD, CRAINQUEBILLE, LA RÉVOLTE DES ANGES, LA VIE LITTÉRRAIRE e tantos outros, fecundou, com o seu saber irónico mas tolerante, várias gerações de leitores e continua hoje vivo e activo no mercado dos livros. LES DIEUX ONT SOIF continua a ser um livro dolorosamente indispensável para se conhecer por dentro o mecanismo das revoluções e o apetite destas pelo Terror, em que acabam por descambar.

É do seu livro LES OPINIONS DE M. JERÔME COIGNARD, que eu hoje retiro e traduzo esta sorridente meditação sobre a impossibilidade de se fazer e ler História, de tal modo a documentação vai crescendo e tornando inviável o acesso completo a ela. Eis o apólogo de que o erudito e céptico Abade Coignard se serviu para entreter os seus ouvintes e fazer valer as suas sérias dúvidas sobre a viabilidade da História:

 Quando o jovem príncipe Zémire sucedeu ao seu pai, no trono da Pérsia, chamou todos os académicos do seu reino e, tendo-os reunido, disse-lhes:

- “O Doutor Zeb, meu mestre, ensinou-me que os soberanos se exporiam a menos erros se fossem esclarecidos pelo exemplo do passado. Eis por que quero estudar os anais dos povos. Incumbo-vos, pois, de comporem uma história universal e de nada negligenciarem, para que ela resulte completa.”

Os sábios prometeram satisfazer o desejo do príncipe e, tendo-se retirado, meteram mãos à obra. Ao fim de vinte anos, apresentaram-se ao rei, seguidos por uma caravana de doze camelos, carregando cada um deles quinhentos volumes. O secretário da academia, tendo-se prostrado nos degraus do trono, falou nestes termos:

- “Senhor, os académicos do vosso reino têm a honra de depositar aos vossos pés a história universal que compuseram, à atenção de Vossa Majestade. Ela compreende seis mil tomos e engloba tudo o que nos foi possível reunir, no que respeita aos costumes dos povos e às vicissitudes dos impérios. Inserimos nela as antigas crónicas que foram felizmente preservadas e enriquecemo-las com notas sobre a geografia, a cronologia e a diplomacia. Os prolegómenos formam, por si só, o carregamento de um camelo e os paralipómenos são carregados, com grande dificuldade por outro camelo.”

O rei respondeu:

- “Meus senhores, agradeço-vos o incómodo que vos causei. Mas estou muito ocupado com os cuidados do governo. De resto, envelheci enquanto fazíeis o vosso trabalho. Já cheguei, como diz o poeta persa, ao meio do caminho da vida e, mesmo supondo que morro velho, não posso razoavelmente esperar ter tempo para ler uma história tão longa. Ela será, pois, depositada nos arquivos do reino. Façam-me um resumo mais proporcionado à brevidade da existência humana:”

Os académicos da Pérsia trabalharam mais vinte anos, levando depois ao rei mil e quinhentos volumes, carregados por três camelos.

- “Senhor”, disse o secretário perpétuo, com uma voz enfraquecida, “eis a nova obra. Julgamos não ter omitido nada de essencial.”

- “Pode ser que sim”, respondeu o rei, “mas não vou lê-la. As tarefas longas não dizem com a minha idade: resumi mais e sem demora.”

Eles demoraram tão pouco que, ao fim de dez anos, voltaram seguidos por um elefante jovem, carregando quinhentos volumes.

- “Gabo-me de ter sido sucinto”, disse o secretário perpétuo.

- “Não o fostes suficientemente”, respondeu o rei. “Cheguei ao fim da vida. Resumi, resumi, se quiserdes que eu conheça, antes de morrer, a história dos homens.”

Voltou a ver-se o secretário perpétuo, diante do palácio, ao fim de cinco anos. Caminhando com muletas, ele trazia, pela arreata, um burrico que carregava um livro enorme.

- “Apressai-vos”, disse um funcionário, “o rei está mesmo a morrer.”

De facto, o rei encontrava-se no leito de morte. Dirigiu ao académico e ao enorme livro um olhar quase apagado e disse, suspirando:

- “Vou morrer sem conhecer a história dos homens!”

- “Senhor”, respondeu o sábio, quase tão moribundo como o rei, “vou-vo-la resumir em três palavras: Eles nasceram, sofreram e morreram”

Foi assim que o rei da Pérsia aprendeu, já tarde, a história universal.

 Eugénio Lisboa

sexta-feira, 12 de novembro de 2021

O PLANETA APÓS A COP16

 


HOMENAGEM A NUNO FERRAND NO RÓMULO


 

CIÊNCIA E LITERATURA EM TORRES NOVAS


 

CLASSICA DIGITALIA

  Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em Acesso Aberto

 NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Humanitas - Supplementum” [estudos]

 - José Ruivo & Virgílio Hipólito Correia (eds.), Conimbriga Diripitur. Aspetos das ocupações tardias de ma antiga cidade romana (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2021). 430 p.DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2149-4

[Este volume apresenta o essencial dos trabalhos arqueológicos das duas últimas décadas em Conimbriga, desenvolvidos de acordo com metodologias cuidadas de observação estratigráfica, designadamente dos níveis superiores de abandono e lixeira, combinadas com estudos de materiais relevantes, até aqui pouco considerados nas análises feitas. A primeira parte da obra reúne um conjunto de observações sobre a construção da muralha baixo-imperial e da evolução da cidade no período imediatamente posterior. A segunda estuda os aspetos da arqueologia, da arquitetura e da evolução do urbanismo em cinco edifícios da cidade, quer diretamente, quer através das condições de jazida dos materiais com eles relacionados, nas fases de destruição do tecido urbano. A  terceira parte aborda as questões da instalação da escultura decorativa tardo-antiga na cidade e correlaciona-a com a criação de necrópoles dentro do espaço urbano.]

Série “Autores Gregos e Latinos” [textos]

- Priscilla Adriane Ferreira Almeida: Bébio Itálico. A Ilíada latina. Tradução do latim, introdução e notas (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2021). 152 p.

Link: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2205-7

[A Ilíada Latina é um resumo em latim da Ilíada, feito por Bébio Itálico na época de Nero. A redução da Ilíada homérica para apenas 1070 versos inevitavelmente acarreta perda da profundidade original, mas a Ilíada Latina também encer

Ainda sobre o moderno e o clássico

Na continuação do texto A constante luta entre clássico e moderno João Boavida É isso mesmo, volto ao tema, do moderno e do clássico.  Se um...