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segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Uma coleção zoológica (re)encontrada numa antiga escola

Esta é uma história de acasos que levou à recente publicação de um artigo em história da ciência, intitulado Between republicans and freemasons: a lost zoological collection found in a very particular school, na revista Endeavour

Abreviando uma história longa: estava eu no início do programa doutoral, quando me pediram ajuda para classificar umas conchas encontradas numa antiga escola do Bairro da Graça (a Escola-Oficina nº1), em Lisboa, que se preparava para ter umas necessárias obras - alguns anos antes tinha trabalhado no Instituto Português de Malacologia onde dei início à catalogação da coleção do fundador, Ilídio Félix Alves, onde me tinha debruçado não só, mas principalmente, sobre conchas do género Conus e Oliva. Quando cheguei à tal escola, percebi que a grande maioria das conchas eram fósseis, o que escapava ao meu conhecimento. Mas antes de ir embora, explorei a sala, juntamente com os membros da Direção do espaço, e fomos gradualmente encontrando uma diversidade de espécimenes zoológicos. À medida que íamos tirando material para fora da sala onde tudo estava guardado há longos anos, entre material de laboratório e de ensino, fomos encontrando animais taxidermizados, esqueletos de animais e uma  rica coleção húmida dos mais variados grupos taxonómicos.

Coincidiu nesse mês que, para a cadeira de Património Científico, me fosse pedido que estudasse uma coleção de alguma instituição, pelo que me debrucei automaticamente sobre este espólio. Para esse estudo, tentei perceber que coleção era aquela, de que é que era constituída, como foi reunida, para que efeitos, e em que contexto. E esse resultado é o que agora foi publicado pela revista Endeavour

Escola-Oficina nº1, em Lisboa. Fonte: Filorbis

A Escola-Oficina nº1, pertence à Sociedade Promotora de Escolas, e foi criada por Republicanos e Maçons nos inícios do século XX para dar formação gratuita às crianças pobres, filhas dos operários, do Bairro da Graça, num período em que ainda não havia Estado-Social, pelo que iniciativas filantrópicas deste tipo eram essenciais. Era uma Escola-Oficina porque para além das disciplinas comuns, aprendia-se também um ofício para que as crianças pudessem quebrar o ciclo de pobreza: assim, aprenderiam a ler, a escrever e a contar, e, simultaneamente, aprenderiam um ofício que lhes permitisse ingressar no mercado de trabalho quando crescessem. O modelo de ensino era libertário e tinha várias particularidades, entre elas o ensino era centrado no aluno, os quadros estavam ao nível das crianças,  os professores não leccionavam em estrados mas sentados em cadeiras próximos dos alunos, o ensino era misto e os castigos corporais tinham sido abolidos.

Fonte: João Lourenço Monteiro, Between republicans and freemasons: a lost zoological collection found in a very particular school, Endeavour, 42 (4), 2018: 196-199  

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Bernardino António Gomes (1768-1823): 250 anos do nascimento, 206 anos da purificação do primeiro alcalóide



Em 29 de Outubro de 2018, assinalaram-se os 250 anos do nascimento de Bernardino António Gomes (1768-1823), médico e cientista português, aniversário que já foi aqui lembrado por Carlos Fiolhais. A sua contribuição pioneira para a extracção e purificação do primeiro alcalóide na forma de base pura, obtido da casca da quina (cinchona), usada no tratamento da malária, foi um feito notável que está na origem do desenvolvimento da química medicinal moderna baseada em compostos bioactivos.  

Ao composto que obteve na forma cristalina e identificou com a “virtude febrífuga” das quinas, chamou cinchonino, nome que a partir de 1819, passou a ser cinchonina, seguindo a nomenclatura adoptada universalmente para os alcalóides. Este composto que apresenta as mesmas caracterísiticas terapêuticas da casca de quina, não existia noutras cascas de árvores que eram comercializadas, por fraude ou desconhecimento, também como medicamento para as febres intermitentes da malária. Este trabalho notabilíssimo, realizado em 1812 por solicitação da Academia das Ciências de Lisboa, no Laboratório da Casa da Moeda, de que era director Bonifácio de Andrada e Silva, abria assim o caminho para métodos de controlo de qualidade químicos e de programas de pesquisa de outras plantas que tivessem o mesmo princípio activo.

A descoberta de Gomes foi confirmada em 1820 por Pelletier e Caventou, autores que identificaram um outro dos alcalóides na casca da quina, a quinina, que existe em maior quantidade na casca, e que haviam já descoberto e purificado, em 1817 a estricnina, seguindo em ambos os casos o procedimento de Bernardino António Gomes. É de realçar que a morfina havia já sido isolada em 1806 por Friedrich Serturne, mas a obtenção do primeiro alcalóide puro e o estabelecimento dos princípios do método corrente que permitiu, a partir das primeiras décadas do século XIX, purificar dezenas de compostos alcalóides podem ser atribuídas à publicação de Bernardino António Gomes.

Podemos perguntar por que razão não são mais conhecidas estas contribuições de Bernardino António Gomes e por que razão esta efeméride tão redonda (250 anos) está a passar, tanto quanto sabemos, quase despercebida. Obviamente a questão de Portugal ser um país periférico, sem grande tradição científica, tem sido relevante, mas não é essa a única razão.

Gomes, embora com grande entusiasmo pela investigação irá continuar essencialmente um médico (notável e pioneiro também na vacinação contra a varíola e no estudo da elefantíase entre outros trabalhos), mas não continuou o trabalho sobre a quina, nem o estendeu a outras plantas, nem motivou outros investigadores portugueses a continuaram esse trabalho. Se o trabalho analítico e químico de Bernardino António Gomes tivesse tido continuidade, teria tido com certeza muito mais visibilidade. Assim, aquilo que seria provavelmente a grande motivação e o resultado mais importante do trabalho: identificar a “virtude febrífuga das quinas” que designaríamos actualmente pela busca do princípio activo ou do composto responsável pelo efeito terapêutico, abrindo a possibilidade pioneira na ciência da época de obter este composto de outras formas, substituíndo a necessidade de recorrer à quina, foi rapidamente esquecido e não teve continuidade. 

Para o abandono do projecto e para o quase esquecimento do feito concorreram em grande medida razões locais. Os resultados de Bernardino António Gomes foram duramente criticados por José Feliciano de Castilho no "Jornal de Coimbra" com repercussões internacionais no "Investigador Português em Inglaterra". Tomé Rodrigues Sobral que arbitrou a disputa, optou por uma resposta inconclusiva sugerindo que a “virtude febrifúga” poderia ter uma origem múltipla, pondo-se assim termo à continuação do projecto. 

Mais tarde, com a República e com o Estado Novo, Bernardino António Gomes foi sendo evocado, embora de forma tímida, como um grande cientista português. Mas estas evocações que podem confundir-se com as formas propagandísticas do nacionalismo não ajudaram a consolidar a sua memória num país com tão pouca tradição em homenagear de forma devida a sua ciência. Tem um busto no Jardim Botânico de Lisboa, o nome em algumas ruas, foi declarado fundador da dermatologia portuguesa e patrono da Sociedade Portuguesa de Dermatologia e, este ano, foi incluído numa emissão filatélica “Vultos da História e da Cultura”, a qual inclui o Padre Himalaya, outro cientista português que deveria ser mais conhecido, mas é pouco, muito pouco, como reconhecimento de tão notável personagem da história da ciência e da cultura portuguesas.

Bernardino António Gomes nasceu a 29 de Outubro de 1768 e foi baptizado, segundo Virgílo Machado, em Paredes do Coura, embora haja autores, incluindo o próprio filho homónimo, indicam como local de nascimento Arcos de Valdevez. Doutorou-se em medicina na Universidade de Coimbra em 1793, tendo ido exercer medicina para Aveiro até 1797. O interesse pela investigação chamava-o e muda-se para Lisboa onde pouco tempo depois é médico da Armada, embarcando para o Brasil. Dessa viagem surge uma publicação sobre a canela do Rio de Janeiro a que se seguirão vários outros trabalhos sobre plantas medicinais do Brasil. Casa em 1801 com Leonor Violante Mourão, jovem viúva sete anos mais nova com quem tem cinco filhos, o mais conhecido é o homónimo Bernardino António Gomes filho que foi professor da Universidade de Coimbra. Este casamento foi tumultuoso e envolveu separações e um divórico público que foi até já alvo de um estudo académico. Em 1806 publicou um trabalho sobre o tifo. Em 1812, esteve envolvido na fundação do Instituto Vacínico de que foi o primeiro director. Incansável investigador e autor, escreveu também sobre as boubas (peste bubónia), a desinfecção de cartas, doenças de pele, a elefantíase e a ténia. Em 1817 acompanhou como médico a princesa Maria Leopoldina até ao Rio de Janeiro. Morreu com 54 anos em Lisboa de “afecção malígna no estômago”. Foi sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa (1812), cavaleiro da Ordem de Cristo (1812), Médico Honorário da Câmara Real (1813), entre outras distinções.

Há ainda bastantes aspectos da vida e dos trabalhos de Bernardino António Gomes que merecem ser melhor estudados. Felizmente, há neste momento pelo menos duas investigadoras, estudantes de doutoramento, que estão a realizar estudos que poderão lançar mais alguma luz sobre os seus trabalhos. Conhecer e divulgar na justa medida a história das descobertas e polémicas em que se viu involvido é uma contribuição importante para entendermos melhor a nossa História e as razões das nossas dificuldades passadas e pode contribuir para uma maior confiança colectiva na ciência portuguesa. 

Bibliografia
AMORIM DA COSTA, A. M., "Thomé Rodrigues Sobral (1759-1829). A Química ao serviço da Comunidade" in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa, 1 (1986), 373-402.   

GOMES, Bernardino António, Ensaio sobre o cinchonino e sobre a sua influencia na virtude da quina, e d''outras cascas, Memórias de Mathemática e Physica da Academia das Sciencias, 1812 (disponível online em várias fontes, republicado na Revista Portuguesa de Química Pura e Aplicada em 1908)

HEROLD, Bernardo, "Bernardino Gomes, pai e Agostinho Lourenço, precursores portugueses da química dos alcalóides e dos polímeros sintéticos" in História e Desenvolvimento da Ciência em Portugal, Publicações do II Centenário da Academia das Ciências de Lisboa, 1 (1986), 417-433.

HEROLD, Bernardo, CARNEIRO, Ana, Bernardino António Gomes, Biografias, SPQ (http://www.spq.pt/files/docs/Biografias/BAGomesport.pdf acedido 29 de Outubro de 2018). 

MACHADO, Virgílio, O Doutor Bernardino Gomes (1768-1823) : a sua vida e sua obra. Lisboa : Portugalia, 1925 (disponível em http://purl.pt/420)

REIS, Fernando, Bernardino António Gomes, Ciência em Portugal: personagens e episódios. Instituto Camões (http://cvc.instituto-camoes.pt/ciencia/p21.html, acedido 29 de Outubro de 2018)

SIMÕES, Manuela Lobo da Costa, Um divórcio na Lisboa oitocentista. Livros Horizonte: Lisboa, 2006. 

SUBTIL, Carlos, Bernardino António Gomes: ilustre médico iluminista nascido em Paredes de Coura. Município de Paredes do Coura, 2017.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Investigação em História da Medicina Tropical

Um grupo de investigadores de vários países reuniu-se em Lisboa, entre 14 e 16 de Outubro de 2015, para apresentar e debater os resultados das suas pesquisas no âmbito da História da Medicina Tropical. O objetivo foi promover uma “reflexão histórico-social obre o papel da medicina tropical no âmbito da saúde pública global, nos séculos XIX e XX” [1]. Os três dias de evento deram lugar a 17 sessões temáticas, 66 comunicações, 3 conferências plenárias, uma mesa redonda, 2 exposições e uma visita ao Museu da Associação Nacional de Farmácias [2].

Estas apresentações levaram à publicação de artigos nos Anais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, num volume especial dedicado a este encontro. Na impossibilidade de referir todos os artigos, irei debruçar-me apenas sobre aqueles que foram escritos pelos investigadores do Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia (CIUHCT), por ser o centro de investigação ao qual pertenço. O total dos artigos pode ser consultado aqui.


A professora Isabel Amaral analisou o impacto da II Guerra Mundial na obra de Aldo Castellani (1877-1971) e a influência do médico na escola portuguesa de medicina tropical (1946-1971), partindo do estudo do espólio legado ao Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT).

O italiano Aldo Castellani foi investigador na London School of Tropical Medicine e na Ceylon Medical College, onde estudou a doença do sono e a framboesia, respetivamente. Ensinou micologia, medicina tropical e foi médico pessoal da Família de Savóia, que acompanhou no seu exílio para Portugal, após a II Guerra Mundial. Quando chegou a Portugal já era conhecido dos médicos tropicalistas, pois, no início do século XX, vira-se envolvido numa disputa internacional com os médicos portugueses sobre quem tinha descoberto o agente etiológico responsável pela Doença do Sono. A prioridade da descoberta seria dada à equipa inglesa, da qual Castellani fazia parte. A sua carreira foi pautada pela identificação de microrganismos responsáveis pela causa de doenças tropicais. Autor prolífico, publicou mais de 500 artigos científicos. Apesar de estar inserido na comunidade médica portuguesa, optou por movimentar-se por outros circuitos, buscando reconhecimento internacional. [3]

O trajeto de Francisco de Cambournac na OMS (1952-1964) foi estudado pela Rita Lobo e por mim, cujos resultados apresentámos em co-autoria. Tendo encontrado novos documentos em arquivo, conseguimos complementar uma lacuna existente na historiografia da medicina tropical, discutindo os meandros da escolha de Cambournac para o Bureau Regional Africano da OMS [4]. Os resultados do nosso trabalho já mereceram destaque na Imprensa.

Sendo a literatura farmacêutica no século XVIII relevante para a história da farmácia e da medicina portuguesa, Wellington Filho apresentou o estudo das obras de Frei Jesus Maria (1716-1795), monge-boticário e administrador da botica do Mosteiro de Santo Tirso, influenciado pela classificação de Lineu e pela ilustração do naturalista Domenico Vandelli - duas figuras históricas importantes para a Botânica. As obras de Jesus Maria revelavam a preocupação em melhor utilizar as riquezas coloniais e em conciliar os conhecimentos populares do uso das plantas com o conhecimento médico-farmacêutico do Iluminismo [5].

Ana Paula Silva, num artigo exploratório, recorrendo a análise de documentos, procura argumentar que o trabalho de técnicos e cientistas portugueses, nos anos 1960-1970, envolvidos na construção do lago artificial de Cahora Bassa, terá aberto o caminho para a Medicina Ambiental em Portugal e para a atual linha de investigação transversal do IHMT, as “Doenças Emergentes e Alterações Ambientais”. Este trabalho deixou-lhe em aberto uma questão que procurará responder no futuro, se a Medicina Ambiental foi introduzida em Portugal através da Medicina Tropical [6].

Na organização do evento, estiveram envolvidos o Centro Interuniversitário de História das Ciências e Tecnologia (CIUHCT), a Faculdade de Ciências e Tecnologia da Univ. Nova de Lisboa (FCT-UNL), o Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), a Casa de Oswaldo Cruz, a Universidade de York e a Fundação Friedrich Ebert.

Notas:
[1] Isabel Amaral (2016), in Anais do Instituto de Higiene e Medicina Tropical, p.7
[2] Maria Paula Diogo (2016), idem, p.17
[3] Isabel Amaral (2016), idem, pp.119-124
[4] Rita Lobo & João Lourenço Monteiro (2016), idem, pp.133-140
[5] Wellington Filho (2016), idem, pp.161-166
[6] Ana Paula Silva (2016), idem, pp.175-182

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

UMA HISTÓRIA MAL CONTADA

Texto primeiramente publicado na imprensa regional.







Faz hoje, dia 26 de Fevereiro, 400 anos que Gaileu Galilei (1564 – 1642) foi advertido pela Igreja Católica pela sua opinião em defesa do sistema heliocêntrico: era a Terra que girava em torno do Sol e não o contrário como era defendido pela Igreja Católica e muitos académicos de então.

O cardeal Roberto Bellarmino (1542-1621), figura então importante da Igreja Católica cujo Papa à época era Paulo V (1552 – 1621), foi incumbido dessa missão. Segundo um muito interessante artigo sobre este assunto escrito pelo físico e astrónomo Guilherme de Almeida, Bellarmino adverte Galileu: que a "afirmação de que o Sol é o centro imóvel do sistema do mundo é temerária, quase herética; que a afirmação de que a Terra se move está teologicamente errada; proíbe-o de falar do heliocentrismo como realidade física, mas autoriza-o a referir-se a este apenas como hipótese matemática".

Ressalta destas acusações que a discordância entre a Igreja Católica de então e Galileu é fundamentalmente de natureza teológica. Não é científica. A Igreja Católica permite que Galileu refira cientificamente o heliocentrismo. Ou seja, não houve propriamente uma confrontação fracturante entre ciência e religião como está generalizado no saber comum.

Esta imagem de Galileu, pai da ciência experimental moderna, como um mártir da ciência aos pés de uma Igreja Católica autoritária e contrária ao saber científico libertário, foi, segundo a historiadora de ciência Patricia Fara, forjada durante o século XIX por propagandistas científicos e é uma história muito mal contada. Diga-se, a propósito, que Patricia Fara é autora, entre outras obras, de um incontornável “Ciência: 4000 de história”, publicado entre nós pela editora Livros Horizonte, em 2012, com prefácio de Carlos Fiolhais.

Uma nova geração de historiadores de ciência, em que Patricia Fara se enquadra, tem tentado nas últimas décadas reconstituir a verdade histórica dos factos e romper com o paradigma dominante na história ocidental de uma ciência triunfante em completo e permanente conflito com a religião, em particular a religião católica. Sabe-se hoje que a ideia reinante, ainda entre nós, de uma Igreja Católica que impediu o desenvolvimento da ciência está longe de corresponder completamente à verdade histórica.

No que diz respeito ao episódio que realmente aconteceu há 400 anos, em vez de um confronto directo entre ciência e religião, ou entre Galileu e o Papa, deve-se considerar que aquele foi um conflito mais complexo e que envolveu facções rivais dentro e fora da Igreja.

É preciso ter em conta que Galileu era um católico devoto e que tinha e continuou a ter apoiantes em todos os degraus da hierarquia clerical. Mas Galileu tinha muitos inimigos, principalmente devido ao seu estatuto social invejável: era primeiro matemático e filósofo na corte de Cósimo II de Médicis, grão-duque da Toscânia e governante de Florença. Acrescente-se a isto o facto de muitos académicos e eruditos não clericais de então serem acérrimos defensores do geocentrismo de Ptolomeu, não considerando os trabalhos de Copérnico, Tycho Brahe, Kepler e os dados observacionais permitidos pelo novo instrumento revolucionário, o telescópio, que Galileu desenvolveu e aplicou na descoberta e interpretação do Universo.

Assim, são hoje melhor conhecidas as ambições e rivalidades pessoais que gravitaram em torno de Galileu e há quem defenda que se este tivesse agido de modo mais diplomático e não tivesse escrito obras científicas em italiano ao alcance de outros que não só os eruditos e eclesiásticos, talvez tivesse conseguido divulgar mais o seu universo heliocêntrico sem ter sido oficialmente condenado por razões teológicas.


António Piedade

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

GALILEU GALILEI FOI REPREENDIDO PELA IGREJA CATÓLICA HÁ PRECISAMENTE 400 ANOS

Com a devida vénia, publicamos aqui este artigo do professor de Físico-Química e astrónomo  Guilherme de Almeida, texto primeiramente publicado na imprensa regional através do programa "Ciência na Imprensa Regional - Ciência Viva".

Imagem: Jorge Miguel 


Em 26 de Fevereiro de 1616 — faz agora 400 anos —, Galileu foi chamado a Roma, por ordem do Papa Paulo V. O propósito era claro: esperava-o uma advertência severa da Igreja Católica. E isso iria ter repercussões na sua vida. É interessante saber como se chegou a este ponto.

Os problemas começaram em 1609. Depois de aperfeiçoar o telescópio, Galileu (1564-1642) começou a utilizá-lo para observar o céu. Fez sucessivas descobertas: as crateras e montanhas da Lua, as quatro maiores luas de Júpiter, muitas estrelas nunca antes observadas e a verdadeira constituição da Via Láctea. Entusiasmado, publicou, em Março de 1610, um livro revelador: Sidereus Nuncius (O Mensageiro Sideral). E continuou, descobrindo as fases de Vénus, as manchas solares e a rotação do Sol. Quase descobriu os anéis do planeta Saturno.

Muitas destas revelações fazem-no crer que a Terra não pode estar imóvel, nem ser o centro de tudo: recusa o geocentrismo. Torna-se adepto do heliocentrismo, de Copérnico, teoria segundo a qual será o Sol, e não a Terra, o centro do “sistema do mundo”.

Galileu gozava então de um estatuto invejável: era Primeiro Matemático e Filósofo na corte de Cósimo II de Médicis, grão-duque da Toscânia e governante de Florença, mas isso não o tornava intocável. A proclamação destas convicções heliocentristas desagradou à Igreja Católica, defensora do geocentrismo, por contrariar as opiniões vigentes baseadas nas aparências imediatas e em antigos textos desligados da observação. Daí resultaram inimizades vindas das facções mais conservadoras do Clero e até de alguns sábios que o contestavam. O Papa Paulo V entendeu que era tempo de lhe dar a famosa advertência.
O cardeal Roberto Bellarmino (1542-1621), figura importante da Igreja Católica, fora incumbido dessa missão impositiva. Galileu é recebido na casa de Bellarmino, que o adverte de várias questões essenciais: 1- diz-lhe que a afirmação de que o Sol é o centro imóvel do sistema do mundo é temerária, quase heresia; 2- aponta-lhe que a afirmação de que a Terra se move está teologicamente errada; 3- proíbe-o de falar do heliocentrismo como realidade física, mas autoriza-o a referir-se a este apenas como hipótese matemática.

Depois da advertência de 1616, Galileu conteve-se por algum tempo e procurou cumprir. Escreveu mais três livros, o segundo dos quais, o Diálogo Sobre os dois Principais Sistemas do Mundo (publicado em 1632), abonava a favor do heliocentrismo, constituindo desobediência. E o novo Papa (Urbano VIII) sentiu-se ridicularizado numa das personagens do livro. Daí resultaria, em 1633, a sua abjuração e condenação a prisão domiciliária para o resto da vida.

Galileu veio a falecer em 1642, dois anos depois da Restauração portuguesa que nos livrou da dinastia filipina. A sua obra marcou o despontar da ciência moderna e uma nova atitude perante o trabalho científico. E a sua vida foi um exemplo de persistência e dedicação. Por outro lado, ironicamente, Bellarmino (Belarmino) foi canonizado e declarado santo em 1930. Todos os anos, 17 de Setembro é o dia de São Roberto Belarmino, dia do seu falecimento.

Para saber mais, a vida de Galileu contada aos jovens encontra-se em: http://www.platanoeditora.pt/?q=C/BOOKSSHOW/2117

Texto de Guilherme de Almeida


Guilherme de Almeida (n. 1950) é licenciado em Física pela Faculdade de Ciências de Lisboa e foi professor desta disciplina, tendo incluído Astronomia na sua formação universitária. Proferiu mais de 90 de palestras sobre Astronomia, observações astronómicas e Física, publicou mais de 100 artigos e é formador certificado nestas matérias. É autor de oito livros sobre Astronomia, observações astronómicas e Física. Algumas das suas obras também estão publicadas em inglês, castelhano e catalão. Mais informação em http://www.wook.pt/authors/detail/id/5235

terça-feira, 30 de junho de 2015

LUZ INVISÍVEL

Texto primeiramente publicado na imprensa regional portuguesa.




Há mais luz para além da luz visível. Para além do arco-íris, há muita mais luz que é invisível aos nossos olhos.

A luz solar influenciou e permitiu o desenvolvimento da vida tal qual a conhecemos no planeta Terra. A vida adaptou-se ao intervalo de energias em que a radiação emitida pelo Sol é mais intensa. A evolução dos olhos, iniciada há cerca de 560 a 520 milhões de anos durante o Câmbrico (caracterizado por uma intensa revolução na vida na Terra em que se formaram quase todos os grandes grupos de animais), permitiu aos seres vivos detectar essa luz solar, torná-la um sentido visível e receber muita informação sobre o meio envolvente. Permitiu aos seres que desenvolveram olhos localizar predadores e prezas à distância, evitar obstáculos, potenciar uma ágil mobilidade. 

À luz solar a que os nossos olhos são sensíveis e que está belamente resumida no arco-íris, chamamos naturalmente luz visível. Mas esta constitui um pequeno intervalo no largo espectro de luz (ou radiação electromagnética) que hoje conhecemos e detectamos científica e tecnologicamente.

A zona visível do espetro, compreendida entre o vermelho e o violeta, situa-se entre o infravermelho (invisível, de frequência ou energia menor que a radiação visível) e a luz ultravioleta (também invisível, mas de frequência ou energia mais elevada que a radiação visível). Diga-se que frequência é o número de repetições, ou ciclos, da onda por unidade de tempo. Os cientistas descobriram que há uma relação proporcional entre a frequência e a energia: quanto maior a frequência de uma dada radiação electromagnética (aqui genericamente designada por luz) maior a sua energia.

Foi em 1800 que o físico inglês William Herschel descobriu a luz infravermelha. Um termómetro colocado na zona invisível, perto da zona vermelha do espetro visível, revelou uma nova radiação. Esta experiência clássica expandiu o conhecimento para a existência de luz invisível. A luz infravermelha é usada hoje, por exemplo, nos comandos da televisão. 

Em 1801, o físico alemão Johann Wilhelm Ritter investigou o outro lado do espectro visível e detectou a existência do que ele chamou de "raios químicos" (raios de luz invisíveis que provocavam reações químicas). Estes raios comportavam-se de forma semelhante aos raios de luz violeta visíveis, mas estavam para além deles no espectro. O termo "raios químicos" foi posteriormente mudado para radiação ultravioleta. A luz ultravioleta, tal como outros tipos de radiações, é emitida pelo Sol. Mas é absorvida pela atmosfera, excepto no famoso “buraco de ozono” na Antártida.

O espetro eletromagnético compreende ainda radiações invisíveis de mais baixa frequência como as ondas de rádio, de televisão e as micro-ondas – com aplicações nas telecomunicações - e de muito mais elevada frequência, como os raios X e os raios gama – que têm aplicações médicas tanto em diagnóstico como em terapia.

Os raios X foram descobertos em dezembro de 1895 pelo físico alemão Wilhelm Roentgen, quando estudava a passagem de correntes elétricas em tubos cheios de determinados gases (tubo de Crookes). Essa experiência foi repetida em Coimbra cerca de um mês depois, uma vez que os instrumentos necessários (bobina de Ruhmkorff e o tubo de Crookes) existiam no Laboratório de Física da Universidade de Coimbra.

Os raios gama foram descobertos em 1900 pelo químico e físico francês Paul Ulrich Villard, ao estudar uma das propriedades do Urânio. Mas foi só em 1910 que o físico britânico William Henry Bragg mostrou que essa forma de energia era realmente radiação electromagnética muito energética. Por outras palavras, os raios gama são a luz invisível que conhecemos com a frequência mais elevada.

Temos assim e simplificadamente o espectro de luz que conhecemos no universo, distinguido em regiões, ordenadas da menor para a maior energia: ondas de rádio, micro-ondas, infravermelho, visível, ultravioleta, raios X e raios gama.


António Piedade

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A DESCOBERTA DO ADN



A sigla ADN é hoje usada em vários contextos. Ultrapassou as fronteiras da genética e da biologia molecular e é vulgar ouvir-se em vários órgãos de comunicação social que fulano e sicrano têm ADN, como se fosse possível a vida sem ele.

O ADN, sigla do ácido desoxirribonucleico, molécula da hereditariedade, imprime iconicamente uma dupla hélice no nosso olhar. É assim desde que Watson e Crick propuseram, em 1953, esse modelo helicoidal para a biomolécula dos genes. Como acontece com tudo na vida, a forma estrutural tem em si mesma significado funcional. A revolução científica que esta descoberta causou na biologia e na medicina, faz com que ela se confunda com a descoberta da molécula ADN.

De facto, a substância ADN foi descoberta muito antes. Em 1869, o suíço Johann Friedrich Miescher (1844 – 1895) identificou uma nova substância ao analisar o conteúdo dos núcleos celulares dos glóbulos brancos. Essa substância era ácida e continha na sua composição fósforo, um elemento ausente nas proteínas. À nova substância, que não tinha propriedades proteicas, Miescher deu o nome de nucleína.

Bioquímico alemão Johann Friedrich Miescher (1844 – 1895)

Note-se que esta descoberta é efectuada numa época rica em revoluções na Biologia: em 1859, Darwin publica "A Origem das Espécies"; em 1865, Schwann e Scheiden postulam a teoria celular; ainda em 1865, Mendel publica o seu artigo sobre a hereditariedade, apesar de o mesmo ter tido pouca divulgação ou consideração.

Há alguns factos curiosos ao redor da descoberta do ADN e sobre o seu descobridor.

Miescher formou-se em medicina na Universidade de Basileia. Contudo, uma surdez impediu-o de exercer medicina e optou por seguir uma carreira científica, influenciado pelo seu tio, professor de química fisiológica (hoje diríamos bioquímica) naquela universidade. A sua incapacidade auditiva não o impediu de ser um investigador com uma visão acutilante para os problemas científicos na sua área. De facto a sua descoberta teve implicações na biologia, na genética, na medicina, muito além daquilo que ele poderia suspeitar na época em que viveu.

Friedrich Miescher começou a sua carreira de investigação no laboratório de Felix Hoppe-Seyler (1825 – 1895) um dos mais prestigiados bioquímicos da época - identificou e caracterizou a hemoglobina, entre outras proteínas. Situado no castelo de Tubinga, o laboratório ocupava as instalações de uma antiga lavandaria. A investigação nesse laboratório envolvia identificar e caracterizar o conteúdo proteico das células. Pensava-se que, uma vez identificadas todas as proteínas, se poderia compreender o funcionamento molecular da vida assim como a sua hereditariedade.

Miescher começou, assim, a explorar as proteínas no citoplasma de glóbulos brancos que obtinha a partir do pus retido em ligaduras de feridas provenientes de um hospital vizinho. Para que o material biológico não se degradasse, mantinha a janela do laboratório aberta o que fazia com que a temperatura de trabalho rondasse os 5 graus Celsius durante o Inverno!

Apesar da sua persistência metodológica, cedo percebeu que existiam muitas mais proteínas no citoplasma dos glóbulos brancos do que aquelas que a técnicas analíticas de então permitiam identificar. Influenciado pelo eventual papel do núcleo na hereditariedade, uma ideia nova para a época, desenvolveu os protocolos necessários para isolar esse organelo celular e proceder à análise da sua composição.

É então que Miescher verifica que está perante uma substância desconhecida à época, como já se disse. A estranheza em o núcleo não ser constituído maioritariamente por proteínas, levou a que o Hoppe-Seyler duvidasse dos resultados e obrigasse Miescher e outros investigadores a repetir a caracterização inúmeras vezes. Só em 1871, dois anos após a descoberta, é que Miescher publicaria os seus resultados numa revista científica.

Ao longo da sua carreira científica, Miescher convenceu-se de que a nucleína não poderia ser a molécula responsável pela transmissão de caracteres hereditários nem que estava envolvida na fecundação. Ademais, considerava que a nucleína deveria ser, devido ao seu enorme peso molecular, um repositório de matéria para a síntese de outras moléculas necessárias à vida.
A composição aparentemente monótona da nucleína (mais tarde rebaptizada por ácido desorribonucleico, ou ADN) contrastava com a diversidade incontável das proteínas. E à falta de outras evidências experimentais, os genes não poderiam ser feitos de uma substância tão pouco diversa, teriam de ser constituídos por proteínas. Esta ideia persistiu durante mais de 70 anos, até a meados da década de 40 do século XX, altura em que ficou demonstrada experimentalmente que o ADN é a molécula dos genes.  

António Piedade

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

"Se não apoiarmos os jovens cientistas não teremos futuro"


A propósito do novo livro de Carlos Fiolhais, “História da Ciência em Portugal”, sobre o qual escrevi aqui, realizei agora uma entrevista ao Professor do Departamento de Física da Universidade de Coimbra. Para além do livro, fala-se do passado, presente e futuro da ciência. (Esta entrevista foi primeiramente publicada em vários jornais regionais.)

António Piedade (AP) - Porque é que escreveu este livro?
Carlos Fiolhais (CF) - Fiz um curso livre sobre História da Ciência a convite do El Corte Inglês, em Lisboa. O livro baseia-se no curso. E é uma maneira de divulgar a história da ciência em Portugal ao maior número possível de pessoas. É que, como digo, no livro, sempre houve ciência em Portugal e informação sobre a ciência deve fazer parte da cultura de qualquer pessoa. Comunicar história da ciência é uma maneira de alargar a cultura científica.

AP - A quem se destina este livro?
CF - A quem queira saber mais sobre este assunto. Procurei escrever em linguagem comum e incluí no livro muitas figuras, sempre que possível, a cores. É, que eu saiba, a primeira obra deste tipo para o grande público.

AP - Pode dizer-se que há uma ciência portuguesa?
CF - Não. A ciência é internacional, porque a ciência é a descoberta do mundo e o nosso mundo é partilhado por todos. O que se pode dizer é que há ciência feita por portugueses, cá ou lá fora. Ou ciência feita por estrangeiros cá. Por isso o título é história da ciência em Portugal e não história da ciência portuguesa. Uma parte do livro é dedicada a explicar o valor da liberdade de circulação de pessoas e livros para a construção da ciência.

AP - Como e com quem nasceu a ciência em Portugal?
CF - Não há nenhum momento mágico de início. Geralmente atribui-se o nascimento da ciência moderna, isto é a ciência associada ao método observacional e experimental, à data de 1543, ano de publicação das obras mais importantes de Copérnico e Vesálio, um astrónomo e outro médico. O primeiro afirma que o Sol está no Centro do "sistema do mundo" em vez da Terra e o segundo mostra o interior do homem, revelado pela anatomia. Mas trata-se, claro, de uma simplificação. A ciência é um processo de construção contínua e já na Idade Média, podemos encontrar, designadamente no século XIII (o chamado 1º Renascimento), antecessores do processo científico moderno, como Roger Bacon. Em Portugal no tempo de Copérnico e Vesálio houve grandes sábios, como Pedro Nunes e Garcia da Orta, para dar dois nomes portugueses de craveira mundial. Foi aliás um tempo áureo da ciência portuguesa, esse século XVI, que precedeu o século de Galileu e Newton. E, no tempo de Roger Bacon, tivemos o papa português Pedro Hispano, que foi médico e filósofo.

AP - Quais os momentos mais profícuos da ciência portuguesa?
CF - Sem dúvida, o tempo dos Descobrimentos e da expansão que se seguiu, em que descobrimos novas terras, novas espécies, novas gentes. Depois dessa época maior de brilho, onde também pontificaram Amato Lusitano (um médico judeu que correu a Europa) e D. João de Castro (um cientista, militar e estadista que fez os primeiros estudos globais de geomagnetismo), a actividade científica declinou. Houve é certo, a actividade continuada da "Aula da Esfera" em Lisboa, no estabelecimento jesuíta do Colégio de S. Antão, que ajudou sobremaneira na recepção de Galileu e na transmissão da Revolução Científica por ele protagonizada a terras da China e do Japão. Mas voltamos a encontrar intensa actividade, com a recepção plena do Newton, no século XVIII, num processo que culminou com a Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra em 1772. Desempenharam nesse período um papel os chamados "estrangeirados", portugueses" cultos lá fora, mas muito atentos ao que aqui se passava. Depois dessa nova luz voltou a haver sombra. A 1ª República teve boas intenções mas não teve tempo de as concretizar. E o Estado Novo não foi muito "amigo" da ciência, perseguindo muitos cientistas. Desde a Revolução de 1974 e, mais ainda, desde a entrada na União Europeia em 1986, voltou a haver novo período de luz. Nunca houve tantos cientistas como hoje. Mas é ainda cedo para escrever a história destes dias mais recentes.

AP - Quais as áreas científicas que mais se destacaram ao longo da história?
CF - A medicina, com Pedro Hispano, Garcia da Orta e Amato Lusitano que já referi. Francisco Sanches e António Ribeiro Sanches, que estiveram lá fora, nos séculos XVI-XVII e XVIII. Mais tarde, no final do século XIX, Ricardo Jorge e Câmara Pestana, grandes defensores da saúde pública. No século XX Abel Salazar e Egas Moniz, este o único prémio Nobel português na área das ciências. Também, claramente, a matemática e a astronomia, com Pedro Nunes, no século XVI, Anastácio da Cunha no século XVIII e Gomes Teixeira, no século XIX, e Mira Fernandes, no século XX. A botânica, com Avelar Brotero  e Júlio Henriques no século XIX. E também a física e a química, onde pontificaram, entre outros, Teodoro de Almeida e João Jacinto Magalhães, no século XVIII. O meu livro contém no fim um dicionário de cientistas portugueses ou estrangeiros que por aqui passaram. Mas decerto que a ciência não são só nomes: são também instituições como mostra a obra na "Aula da Esfera".

AP - Como classifica o momento actual da ciência em Portugal?
CF - No cômputo global da história da ciência parece-me um bom momento. Houve, com a criação do Ministério da Ciência e Tecnologia por José Mariano Gago em 1995, um forte investimento em pessoas e meios. Assistimos a uma a forte internacionalização e, nalgumas disciplinas, há grupos de qualidade mundial. Também há alguns portugueses muito reconhecidos internacionalmente como, por exemplo, António Damásio, João Magueijo e Irene Fonseca.

AP - Qual é, a seu ver, o futuro da ciência no nosso país?
CF - Pese embora algumas dificuldades na actualidade, resultado em parte das dificuldades económicas do país, quero estar optimista quanto ao futuro da ciência e do país. Esses dois futuros estão ligados fortemente. A nossa maior riqueza reside nos nossos cientistas, na maioria jovens e oxalá lhes possam ser dadas mais oportunidades. Se não os apoiarmos na medida suficiente não teremos futuro.

António Piedade

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

A HISTÓRIA DA CIÊNCIA EM PORTUGAL



O meu primeiro texto publicado no novo jornal online Coimbra Jornal.


Os países mais desenvolvidos também são aqueles que mais investem em ciência e tecnologia. Por outro lado, a ciência floresce mais nos países democráticos. Isto não é de estranhar pelo facto de a actividade científica ser intrinsecamente democrática. A ciência exige pensamento livre, debate de opiniões contrárias e diversas, uma atitude céptica e crítica, a verificação experimental das hipóteses e das teorias científicas que são os alicerces da nossa melhor compreensão sobre o universo em que existimos.

Também em Portugal a ciência floresceu com a implantação do regime democrático após o 25 de Abril de 1974. De facto, nos últimos 40 anos formaram-se mais cientistas do que em toda a anterior história de Portugal. Concomitantemente, a produção científica portuguesa aumentou exponencialmente e projectou a sua excelência a nível internacional. É igualmente de assinalar neste período o aumento significativo de empresas de base tecnológica, fruto da transferência de saber científico das universidades e centros investigação para a sociedade, galvanizando a economia. Caso exemplar disto verificou-se em Coimbra através da acção incubadora e pioneira do Instituto Pedro Nunes, de que resultaram empresas de sucesso internacional como a Critical Software, a ISA, a Crioestaminal, entre muitas outras.

O nome de Pedro Nunes relega-nos para outra dimensão da história da ciência em Portugal. Tendo sido um dos maiores matemáticos e cientistas do seu tempo, viveu no século XVI, é também um dos primeiros cientistas portugueses numa época em que a ciência se engrandece em Portugal. É hoje incontestável que a grande empresa dos descobrimentos foi acompanhada por um contributo português singular para o desenvolvimento da ciência moderna ocidental. Ademais, a globalização portuguesa permitiu e condicionou a revolução científica e humana do renascimento europeu.

Tudo isto vem a propósito da publicação, em Dezembro de 2013, do mais recente livro do Professor Carlos Fiolhais. Com o título “História da Ciência em Portugal”, é uma obra ímpar que vem permitir o acesso à história dos nossos cientistas ao longo de sete séculos de ciência entre nós, num registo de divulgação sem pretensões de ensaio académico e num volume único.

Esta obra, pela sua característica inédita, é ela própria um marco histórico no contexto da ciência em Portugal. Carlos Fiolhais, um dos principais e incontornável divulgador de ciência em Portugal, oferece-nos um livro muito útil, que perspectiva um olhar inédito sobre um território pouco conhecido da história portuguesa.

Com este livro é possível conhecer melhor as oscilações verificadas na actividade científica ao longo do tempo e de como elas estão associadas a outros acontecimentos que marcaram a história portuguesa. Aquém disso, e ao longo deste livro editado pela Arranha-Céus, o leitor pode encontrar episódios interessantes e antes desconhecidos da nossa história, através de uma escrita fluída, cativante e bem humorada, compaginada por muitas figuras.

Diga-se, para terminar, que esta obra inclui uma cronologia, um dicionário de cientistas portugueses e estrangeiros que trabalharam entre nós, e uma interessante bibliografia para outras leituras complementares.

Não há nada melhor para começar do que conhecer bem a nossa história.


António Piedade 

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

DO MODELO ATÓMICO DE BOHR À DESCOBERTA DA VITAMINA A EM 1913

Crónica primeiramente publicada na imprensa regional.


O ano de 1913 foi marcado por inúmeros avanços no conhecimento científico e na tecnologia. Cem anos depois verificamos que essas descobertas permitem-nos compreender melhor o universo. Por exemplo, ao ligarmos qualquer equipamento electrónico estamos a usufruir do avanço no conhecimento sobre a natureza “íntima do átomo” verificado em 1913. De facto, são desse ano três artigos seminais do físico e prémio Nobel dinamarquês Niels Bohr (1-3).


Publicados na revista Philosophical Magazine, é nestes três artigos, sobre a constituição do átomo e das moléculas, que Bohr descreve as suas propostas para o comportamento do átomo, segundo o modelo atómico proposto em 1911 por Ernest Rutherford.

O modelo de Bohr propõe que os electrões orbitam o núcleo atómico em órbitas precisas e que eles libertam ou absorvem quantidades fixas de energia ao transitarem de uma órbita para outra.

Bohr estende ao universo íntimo do átom a teoria quântica formulada por Max Planck em 1900. Os “quanta” de energia captados ou emitidos nas transições electrónicas são "grãos" de radiação electromagnética (como a luz visível, as ondas de rádio e as micro-ondas entre outras). Bohr propõe ainda, na alvorada da física nuclear, que o fenómeno designado por decaimento beta (uma emissão “espontânea” de um electrão ou positrão por um núcleo de um átomo instável) é um processo nuclear.

Numa outra área do conhecimento, mais precisamente o da bioquímica, 1913 ficou para a história como o ano em que se identificou uma substância que mais tarde se designaria por vitamina A, ou retinol.


Recorde-se, a propósito, que 1912 tinha sido marcado pela cunhagem por Casimir Funk do termo “vitamina” (a amina vital) para o “factor alimentar acessório” e pela formulação, por Hopkins e Funk, da “hipótese da deficiência vitamínica”, que propunha que a ausência, num dado sistema orgânico, de quantidades suficientes de uma certa vitamina, poderia levar ao desenvolvimento de uma determinada doença.

Neste contexto bioquímico, no ano seguinte, o de 1913, é descoberto um “factor alimentar acessório” solúvel em groduras, importante para o crescimento do rato (Mus musculus), animal que tinha sido introduzido em 1909 por Little como modelo animal experimental nos estudos laboratoriais.


Curioso, mas não único na história da ciência, o facto de a descoberta de ter sido efectuada, de forma independente, por duas equipas de cientistas. Por um lado, Lafayette Mendel e Thomas Osborne (4), por outro lado, Elmer McCollum e Marguerite Davis (5), comunicaram uma observação similar utilizando ratos alimentados com extractos de gema de ovo e de manteiga. 

McCollum e Davis enviaram o artigo com os resultados para publicação três semanas antes de Mendel e Osborne fazerem o mesmo. Ainda mais singular, os dois artigos foram publicados no mesmo número (o 15) do “Journal of Biological Chemistry”! A descoberta foi creditada a McCollum e Davis pelo facto de o artigo destes ter sido recebido primeiro.

Cem anos depois, continuamos a estudar o papel da vitamina A como essencial para a manutenção de um bom estado de saúde. Um dos aspectos mais fulcrais é o de o composto que dela deriva no nosso organismo (o ácido retinóico) permitir a visão, uma vez que é a componente funcional de proteínas (rodopsinas) existentes na retina dos nossos olhos. Excitada pela radiação eletromagnéctica do espetro visível da luz solar, entendemos o seu funcionamento também pela contribuição de Bohr para a compreensão das transições electrónicas nos átomos e moléculas. 

Sem elas o leitor não estaria a ver este texto.

António Piedade

Referências

1.       Niels Bohr (1913). "On the Constitution of Atoms and Molecules, Part I"Philosophical Magazine 26: 1–24. 
2.       Niels Bohr (1913). "On the Constitution of Atoms and Molecules, Part II Systems Containing Only a Single Nucleus"Philosophical Magazine 26 (153): 476–502.
3.       Niels Bohr (1913). "On the Constitution of Atoms and Molecules, Part III Systems containing several nuclei". Philosophical Magazine 26: 857–875.
4.       Osborne TB, Mendel LB. The relation of growth to the chemical constituents of the dietJ Biol Chem 1913;15:311-326.
5.       McCollum EV, Davis M. The necessity of certain lipins in the diet during growthJ Biol Chem 1913;15:167-175. 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

TOP 3 + 2 - DIVULGAÇÃO DE CIÊNCIA EM PORTUGAL 2012


Na sequência do meu post anterior, apresento a seguir 3 + 2 livros publicados em 2012 em Portugal e que foram, no meu entender, os acontecimentos editoriais mais relevantes nas áreas da divulgação de ciência, história da ciência ou sobre ciência e tecnologia. 

Separo-os por três primeiras edições em português e duas reedições. Seguem por ordem de preferência (subjectiva e discutível) numa estante-pódio seguida de duas incontornáveis menções honrosas.


Estante-pódio

1 - “Um Céu mais Perfeito – Como Copérnico revolucionou o cosmos, publicado em Setembro de 2012 pela Temas e Debates e pelo Círculo de Leitores, Dava Sobel, tradução de Artur Lopes Cardoso, revisão Levi Condinho.



2 - “A Espiral da Vida - As Dez Mais NotáveisInvenções da Evolução”, de Nick Lane, editado pela Gradiva, colecção Ciência Aberta, nº 194. Tradução de Alexandra Nobre.



3 - “Os superficiais - O que ainternet está a fazer aos nossos cérebros”, de Nicholas Carr, editado pela Gradiva na sua colecção Trajectos, nº 92. Tradução de Luiza Alves da Costa, revisão de João Paiva. 



Menções Honrosas

Os Dragões do Édem - Especulações Sobre A Evolução Da InteligênciaHumana E Das Outras, de Carl Sagan. Premiado em 1977 com o prémio Pulitzer, para muitos (em que incluo) a mais bela obra de Carl Sagan.. Reeditado pela 8º vez pela Gradiva, para a sua colecção “Obras de Carl Sagan” (6.º título). A tradução desta obra foi efectuada por Ana Falcão Bastos, a revisão científica foi do físico José Mariano Gago e dos biólogos Maria Margarida Perestrello Ramos e Carlos Henriques de Jesus. 



“O Sistema Periódico”, escrito por Primo Levi em 1975, foi considerado em 2006 “o melhor livro de ciência jamais escrito”, pela Real Academia de Londres. Reeditado este ano pela Teorema, com tradução de Maria do Rosário Pedreira e revisão de Fernando Milheiro. Esta distinção deu visibilidade à valência química de “um dos escritores italianos mais marcantes do séc. XX”, no dizer de Umberto Eco.



Boas leituras.

António Piedade

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

A PRIMEIRA RAINHA PORTUGUESA INSEMINADA ARTIFICIALMENTE



Recensão de "A Rainha Adúltera", biografia de D. Joana de Portugal da autoria do historiador Marsilio Cassotti, publicada em Outubro de 2012 pela A Esfera dos Livros. Texto publicado primeiramente na imprensa regional.

D. Joana de Avis (1439 -1475), infanta de Portugal, foi rainha de Castela enquanto esposa do rei Enrique IV de Castela. Apesar deste último ter recebido o cognome de “o Impotente”, o casal régio teve descendência legítima na pessoa de D. Juana de Castela.

D Joana infanta de Portugal rainha de Castela.

O problema disfuncional que causava a impotência a Henrique IV está bem documentado quer por descrições de exames urológicos feitos em vida do monarca, quer por análises aos seus restos mortais efectuadas também no século XX. O rei de Castela não conseguia consumar a cópula, impedido por um constrangimento físico na anatomia funcional do seu pénis.

Enrique IV de Castela

Mas a necessidade de assegurar descendência legítima, e assim continuar a sua linhagem na coroa de Castela, levou a que medidas “execpcionais” fossem tomadas. Havia uma indicação anterior inscrita na “Lei de Partidas” de Alfonso X de Castela, o Sábio, que autorizava a praticar nos reis de Castela “as mestrias que se façam” para resolver os seus problemas reprodutivos, mas sempre no respeito pelo direito natural tal como proclamado pela Igreja Católica.

E que “mestrias” eram essas? Enrique IV recorreu à “concepção sem cópula” (sine concúbito) para engravidar D. Joana de Portugal. Para isto fez chamar um físico (médico) judeu, especialista que terá efectuado essa “mestria” no casal monarca. Estas práticas eram proibidas pela Igreja Católica, mas não pela lei judaica. De facto, está bem documentada o reconhecimento da concepção sem cópula como sendo possível e legítima “pelos sábios judeus da antiguidade, a primeira vez no século V d. C., no Talmud da Babilónia” e existem referências precisas a este tema “nas obras de rabinos judeus dos séculos XIII e XIV da área mediterrânica”.

Quem o escreve é o historiador argentino Marsilio Cassoti, no seu livro “A Rainha Adúltera”, biografia editada em Outubro deste ano entre nós pela A Esfera dos Livros. Nesta obra é também indicada pelo menos uma fonte que documenta a prática de inseminação artificial ou, poderíamos dizer mais exactamente, inseminação assistida, num texto árabe datado de 1322, no qual se relata a história de um habitante do antigo reino da Núbia ter efectuado aquela “técnica” para inseminar éguas com sémen de cavalos de outros estábulos. Ou seja, a prática da inseminação artificial era conhecida na antiguidade e praticada pelo menos no que poderíamos hoje designar por "veterinária".

Nesta biografia de D. Joana de Portugal, traduzida por António Júnior, o historiador apresenta, facto após facto, argumento após argumento, documentando-se em fontes históricas bem identificadas, a tese de que D. Joana de Portugal terá sido inseminada artificialmente, ou pelo menos de forma assistida, com sémen de Enrique IV de Castela, através de uma “mestria” conduzida provavelmente pelo físico judeu de nome Yusef bem Yahia. A inseminação decorreu com sucesso, e a 28 de Fevereiro de 1462 nasceria D. Juana de Castela, legitimada pelo Papa Pio II como descendente de Enrique IV de Castela. Mais, a santidade escreve que D. Joana terá concebido “virgem”: “Disseram que se tinha casada com os melhores auspícios e que foi fecundada sem perder a virgindade. Houve quem afirmasse que o sémen derramado na entrada tinha penetrado nos lugares mais recônditos”.

Isto foi o que descobriu a investigação efectuada por Cassotti, dissolvendo um enigma secular, e que acrescenta uma nova visão histórica sobre esse nascimento até agora julgado fruto de uma relação adúltera de D. Joana de Portugal. De facto, uma pesquisa breve pela nternet indica-nos que D. Joana foi afastada da corte e repudiada por Enrique IV de Castela pelas suas relações extraconjugais. Daí o título “A Rainha Adúltera”.

Cassotti sabia, antes de começar a biografia de D. Joana, “que ela teve de fazer frente a uma circunstância política dificilíssima, na qual, tal como nos dias de hoje, se utilizou a manipulação para alcançar fins determinados por uma minoria interessada” na coroa de Castela. Com este livro, e ao longo de 24 capítulos devidamente anotados, o autor pretendeu “destacar a existência de uma personagem feminina e portuguesa, pouco conhecida, que teve a inteligência, audácia e a coragem de querer estender a influência de Portugal sobre Espanha”, em plena época dos Descobrimentos.

Ainda segundo Cassotti, quer a inseminação artificial, quer a disfunção sexual estão indiscutivelmente documentadas “num diário do médico alemão, Hieronimus Munzer, escrito despois de viajar por Espanha e Portugal, entre 1494 e 1495, no qual descreve, segundo Maganto Pavón (um urólogo espanhol actual) uma práctica de inseminação artificial rudimentar”.

No contexto de uma ibéria em vésperas de descobrir novos mundos, Cassotti dá-nos a conhecer aquela que terá sido a primeira inseminação artificial efectuada nas cortes europeias, e repõe justiça numa difamação secular. O passo seguinte seria a análise genética comparada de D. Juana e Enrique IV, a partir dos seus restos mortais, para confirmar que a primeira é filha biológica do monarca. A arqueogenética forense dos nossos dias poderia assim, num exercício interdisciplinar, robustecer e corroborar as fontes históricas documentais. Mas, infelizmente, ambos os restos mortais de mãe e filha desapareceram em infortunas demolições dos edifícios em que estavam sepultadas.

António Piedade

Ficha bibliográfica
Título: A Rainha Adúltera
Autor: Marsílio Cassotti
Tradução: António Júnior
Editora: A Esfera dos Livros
Colecção: História Biográfica 
Número de páginas:531
Formato: 16 x 23,5
Encadernação: Brochado
1ª edição: Outubro de 2012
ISBN: 978-989-626-405-5