De Rerum Natura
A natureza das coisas
quinta-feira, 2 de abril de 2026
VEREMOS SE A "PROIBIÇÃO" RESULTA
sábado, 28 de março de 2026
ALGUMA COISA VAI MAL, MUITO MAL, NO TRABALHO UNIVERSITÁRIO
O negócio de trabalhos académicos com sede online não é recente, nem raro, nem está escondido (ver aqui): há sites muito elucidativos onde não faltam endereços de email e números de telefone. Presumo que seja legal pois algumas "equipas" - empresas - "emitem fatura do serviço prestado". Por isso, a notícia de uma pseudo-encomenda feita neste contexto, que foi notícia recente no diário As Beiras, não surpreendeu,
segunda-feira, 23 de março de 2026
A cultura e as línguas clássicas: Um blogue a visitar
Quando as humanidades e, muito particularmente, as culturas e as línguas grega e latina perdem lugar na escola, na universidade e na sociedade que, niveladas pelo imediatismo e utilitarismo, desprezam o conhecimento que a pode elevar e pode elevar as pessoas que aí estão, há quem, em contra-corrente, faça o que pode e, como Kant diria, deve.
Isaltina Martins pelo saber imenso que tem, pela dedicação pedagógico-didáctica que se lhe reconhece, pode fazer alguma coisa por essa área de conhecimento tão desprezada. E, se pode, deve... Mas, a verdade é todos os seus leitores também lhe devem a dedicação e erudição.
Outros casos há de classicistas que têm usado a blogosfera para o mesmo fim, espaço que se torna reduto do que deveria ser acarinhado nas instituições educativas e culturais.
Convido, pois, o leitor a visitar este blogue com regularidade. Deixo a ligação para quatro textos recentes, que não tratam, exactamente do que os títulos podem sugerir.
sábado, 21 de março de 2026
21 de Março — Dia Mundial da Poesia
«A poesia está do lado da paz. As palavras da poesia são palavras desarmadas» D. José Tolentino Mendonça
“O Papa Francisco dizia muito bem quando recomendava que a literatura e a poesia poderiam servir muito na formação sacerdotal, porque educam os sentidos, educam o olhar, educam o ouvido para uma hospitalidade mais profunda do mundo e para uma cartografia do ser humano, do mistério do ser humano. A poesia sabe o que é o coração do homem”
“Ele acreditava muito no papel da educação e, sem dúvida, a poesia, a
literatura e a filosofia serviam-lhe para transmitir as ferramentas
necessárias que cada ser humano precisa para realizar a sua vocação” palavras do prefeito do Dicastério para a Cultura e a Educação num entrevista ao
Vatican News (ver aqui)
Aos Poetas
Somos
nós
As humanas cigarras
Nós,
Desde o tempo de Esopo conhecidos...
Nós.
Preguiçosos insectos perseguidos.
Somos nós os ridículos comparsas
Da fábula burguesa da formiga.
Nós, a tribo faminta de ciganos
Que se abriga
Ao luar.
Nós, que nunca passamos,
A passar...
Somos nós, e só nós podemos ter
Asas sonoras.
Asas que em certas horas
Palpitam.
Asas que morrem, mas que ressuscitam
Da sepultura.
E que da planura
Da seara
Erguem a um campo de maior altura
A mão que só altura semeara.
Por isso a vós, Poetas, eu levanto
A taça fraternal deste meu canto,
E bebo em vossa honra o doce vinho
Da amizade e da paz.
Vinho que não é meu,
Mas sim do mosto que a beleza traz.
E vos digo e conjuro que canteis.
Que sejais menestréis
Duma gesta de amor universal.
Duma epopeia que não tenha reis,
Mas homens de tamanho natural.
Homens de toda a terra sem fronteiras.
De todos os feitios e maneiras,
Da cor que o sol lhes deu à flor da pele.
Crias de Adão e Eva verdadeiras.
Homens da torre de Babel.
Homens do dia-a-dia
Que levantem paredes de ilusão.
Homens de pés no chão,
Que se calcem de sonho e de poesia
Pela graça infantil da vossa mão.
Miguel Torga, Odes
sexta-feira, 20 de março de 2026
O QUE MAIS IRÁ SER ENGENDRADO NA LITERACIA FINANCEIRA?
Soube, então, que foi apresentado o Plano Estratégico do Plano Nacional de Formação Financeira (interessante designação) para 2026-2030 no qual se percebem as boas relações entre o Ministério da Educação e três stakeholders (Banco de Portugal, Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões e Comissão do Mercado de Valores Mobiliários) tendo em vista o reforço da tal literacia.
Diz-se nessa nota que:
1) Será criada uma bolsa de formadores através da capacitação de estudantes de ensino superior, docentes, entre outros, tornando-os aptos a lecionar, em articulação com o professor de Cidadania e Desenvolvimento, sessões de formação" em todos os níveis de escolaridade "procurando criar um efeito multiplicador que contribua para o aumento dos níveis de literacia financeira"
2) Os professores para além do "curso certificado" existente podem frequentar "novos cursos flexíveis, organizados por ciclos de ensino e por temas";
3) Em articulação com o Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (EduQA), produzir-se-ão “materiais pedagógicos, incluindo vídeo-aulas e apresentações, de forma modular" de acordo com as Aprendizagens Essenciais" de literacia financeira e empreendedorismo;
4) Será disponibilizada uma "plataforma digital para as escolas", destinada a "complementar a aprendizagem (...) e apoiar a formação contínua dos professores;
5) (E o que já tinha visto na imprensa): integrar-se-á nos Mestrados em Ensino um módulo de literacia financeira destinado a futuros professores. "As escolas passam, assim, a receber uma nova geração de professores capacitada para abordar a educação financeira".
Imagine-se que o Ministério colocava o mesmo empenho em áreas de conhecimento efectivamente escolares: leitura compreensiva e escrita, filosofia, literatura, música, dança, teatro...
quinta-feira, 19 de março de 2026
PARA FECHAR O CÍRCULO DA LITERACIA FINANCEIRA: A FORMAÇÃO INICIAL DE PROFESSORES
Nos últimos anos, a literacia financeira
ganhou um protagonismo
crescente no espaço público,
sendo muitas vezes apresentada como uma
espécie de 'Santo Graal'
para responder a vários desafios económicos e
sociais.
Cristiana Faria Moreira
18 de Março de 2026
A literacia financeira, inscrita na componente curricular de Cidadania e Desenvolvimento, foi ganhando terreno nas duas últimas décadas, sendo agora indubitavelmente central na escolaridade obrigatória. Em Portugal está presente em todos os anos de escolaridade (ver aqui, aqui, aqui, aqui, por exemplo).
Recordo que, em 2012, esta componente passou a integrar o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA), criado e realizado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE). Assim, os países que a integram, vinculados que estão às suas "orientações", tudo têm feito para não ficarem mal posicionados no ranking de resultados.
Recordo que esta entidade não tem:
1) mandato democrático para estabelecer políticas educativas, mas estabelece-as indirectamente, recorrendo a diversos meios de convencimento e pressão;
2) uma orientação educativa, de edificação da pessoa, a sua orientação é de economia de mercado, a qual molda a escolaridade obrigatória.
A ligação de governos stakeholders estratégicos para concretização da Literacia financeira tem sido progressivamente reforçada, ao ponto de, em tempos mais recentes, serem eles a ditar o que os alunos devem aprender, para quê e como, disponibilizam documentos curriculares e materiais, dinamizam actividades várias. E, como se isto não bastasse, substituem os professores em sala de aula. Também avançaram na formação contínua de professores, no seu apoio e acompanhamento.
O que faltava? A formação inicial de professores. O seu intento mais recente é entrar, como formadores de pleno direito, nos Mestrados em Ensino. que têm lugar na Escolas Superiores de Educação e nas Universidades.
A jornalista Cristiana Faria Moreira explica este novo passo num artigo saído ontem no Público 18 (aqui):
O Banco de Portugal, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários e a Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões apresentaram uma proposta ao Ministério da Educação para, em conjunto, trabalharem na elaboração de conteúdos de literacia financeira que sejam introduzidos nos planos de estudo dos mestrados de formação de professores. Querem ter docentes mais preparados para ensinarem conceitos financeiros aos alunos, como se gere o dinheiro, como se fazem orçamentos, como se poupa e como se investe.
Não há ainda qualquer prazo para a implementação desta medida, mas, segundo a informação disponibilizada ao Público pelo ministério, a ideia é que a literacia financeira faça parte da formação inicial dos professores "criando as bases para uma disciplina/módulo de literacia financeira (...) promovendo a sua integração nos planos curriculares dessas instituições".
"A promoção da integração nos planos curriculares dos futuros professores trará às escolas portuguesas uma nova geração de professores capacitados para leccionar conteúdos de literacia financeira", refere a tutela.
O desenvolvimento desta iniciativa e a sua estratégia de implementação serão assegurados com os recursos do Plano Nacional de Formação Financeira em articulação com o ministério.
Noto que a formação inicial de professores tem sido despojada de disciplinas que são "a base da profissão docente", que permitem elevar os professores à categoria de profissionais intelectuais, estando, neste momento, praticamente reduzida a componentes funcionais e técnicas. E este é mais um contributo para isto mesmo.
Que saber, que competência, que sensibilidade têm essas três entidades no campo da educação e da formação para entrarem no sistema de ensino público, nas escolas públicas, nos centros de formação de professores públicos e, agora, nas instituições de ensino superior públicas? E o pior é que todas estas instâncias as deixam entrar, fazem parceria com elas, legitimam a sua ação destrutiva da educação e da formação.
Termino este apontamento com as palavras de um sociólogo que muito estimo, Michael Young, registadas em 2014 e relativas à realidade inglesa.
Os professores [e os educadores/ formadores] já não estudam filosofia, história ou sociologia enquanto estão em formação. Eu acho isso muito sério, porque essas disciplinas eram uma base da profissão e hoje os estudantes são formados quase como tecnólogos da educação, são preparados para oferecer conjuntos de instruções.
Estamos face a "lógicas" poderosas, concertadas e alargadas. Prevejo que, neste caso, os referidos stakeholders (que dialogam com stakeholders mais globais) façam o que Young diz: imponham (substitui a palavra "oferecem" por esta) "conjuntos de instruções" que os professores veiculam aos seus alunos como "conjuntos de instruções". Evidentemente, em benefício dos stakeholders.
terça-feira, 17 de março de 2026
UM SISTEMA EDUCATIVO IRRECONHECÍVEL
No final de Janeiro passado, o Ministério da Educação Ciência e Inovação anunciou mais uma - mais uma ! - revisão curricular, concretamente, "da matriz curricular, em paralelo com as aprendizagens essenciais, que terão em conta a digitalização e inteligência artificial". Estava também em causa a fusão do 1.º e 2.º ciclos do ensino básico. Na altura, disse o Ministro (ver aqui e aqui):
"O nosso objectivo é que estas alterações entrem em vigor em 2027/2028 mas com uma alteração mais profunda, não apenas das aprendizagens essenciais, mas também da matriz curricular e dos próprios conteúdos e tendo em conta também essa alteração da organização dos primeiros ciclos de aprendizagem do ensino básico".
Jornais de hoje referem outra mudança substancial, esta no próprio sistema:
"a reforma do sistema educativo, que está a ser levada a cabo até ao final do próximo ano, vai torná-lo “irreconhecível” com a aplicação de inteligência artificial (IA) (...) [e] defendeu a manutenção de um modelo centralizado por ter capacidade de obter eficiência através da tecnologia".
Estas mudanças, provavelmente entre outras, fazem parte da "visão estratégica" que o governo tem para a educação, focada na "tecnologia dentro das escolas e a reconfiguração de competências na era digital" (ver aqui).
"O ministro com a pasta da Educação defende a promoção do pensamento computacional e diz que temos de educar as crianças, jovens e adultos a interagir com as máquinas (...) e perceber quais são as competências humanas a desenvolver porque as máquinas são incapazes."
As expressões que destaquei tornaram-se banais, mas precisamos de pensemos nelas, sobretudo se somos educadores. Eis algumas tópicos que podem ajudar:
o pensamento é um atributo humano, de modo que quando dizemos "pensamento computacional" estamos a admitir a possibilidade de ele poder ser assumido pela máquina, estamos a antropomorfizar a máquina;
a interacção é outro atributo humano: temos capacidade de "agir" (o que é sempre intencional e moral, diferente de executar um comportamento) e de interagir (o que implica o agir num quadro relacional, entre pessoas); com as máquinas operamos, elas executam;
fica para a escola, para ensinar e aprender, competências que as máquinas (ainda) não foram programadas para fazer? A escola limita-se ao que vai restando?
Tão grande retrocesso do sistema educativo em tempos de tão fantásticos avanços tecnológicos! Não preciso de conhecer a reforma anunciada que o vai deixar "irreconhecível", ele já está "irreconhecível".
PORQUÊ?
Contaram-me como sendo verdade, fui verificar, parece ser verdade.
Uma senhora caminhava na rua à noite. Apesar de ir falando ao telemóvel, sentiu-se seguida, virou-se para trás e viu que aquilo que a seguia era uma máquina, um robot humanoide. Como reagiu ela? Eu diria, que reagiu como uma pessoa vulgar numa situação desconcertante, ou seja, de modo muito pouco racional: enfrentou o robot, gritou com ele, perguntou-lhe porque a seguia, e insistiu na pergunta. Não deve ter tido a frieza de espírito para pensar que ali não havia ninguém, logo, aquilo não podia responder ao "porquê?"
Mas o porquê? da senhora deve ficar fixado. Porquê? E não é a resposta do técnico que operava o robot que esclarece esta pergunta. Ela é profunda, fiquemos com ela a latejar na nossa cabeça.
Final da história: a senhora, em virtude do susto, sentiu-se mal e foi levada para o hospital; o robot nada deve ter sentido e foi preso por dois policias que haviam sido chamados ao local.
domingo, 15 de março de 2026
A EDUCAÇÃO ESCOLAR COMO RESISTÊNCIA E POSSIBILIDADE
As entrevistas são de 2018 e 2024 mas não perderam actualidade. O entrevistado é Gert Biesta, filósofo que tem colocado a Educação no centro do seu trabalho.
Eis a primeira registada em vídeo (ver aqui):
E a segunda, saída no Diário de Notícias, e ralizada por Jorge Andrade quando Biesta esteve em Lisboa para participar na conferência “Futuros da Educação”, promovida pela Cátedra UNESCO (ver aqui).
A palavra “resistência” é importante no seu trabalho. A que resistência se refere?
Julgo que é importante que as crianças e os jovens tenham oportunidade de trabalhar com o que, no currículo inglês, é conhecido como “materiais resistentes”, ou seja, madeira, metal, pedra, argila, entre outros. Ao trabalhar com estes materiais, ao jovem é-lhe permitido perceber que nem todas as ideias que tem sobre o que gostaria de fazer são, realmente, possíveis. Mostra-lhe, desta forma, os limites do seu pensamento e a necessidade de dialogar com um mundo que é real. Desta forma, impõe limites ao que pode fazer com essa realidade. Esta é uma experiência educativa importante, mas também uma lição básica de convivência democrática. O artesanato e as artes são importantes campos de prática. Mas, pode experimentar o mesmo, por exemplo, na matemática ou nas ciências, se tiver professores que entendam a importância educativa da resistência. Há também a necessidade de os pais oferecerem resistência aos desejos dos seus filhos, porque se dissermos sim a tudo o que eles pedem e desejam iremos transformá-los em crianças mimadas, em vez de os ajudarmos a perceber que nem tudo o que é desejado é realmente desejável.
Critica a excessiva instrumentalização da educação, enfatizando a importância da formação de sujeitos críticos e autónomos. A que instrumentalização se refere?
A instrumentalização da educação passa pela ideia de que as escolas, faculdades e universidades devem apenas fazer o que a sociedade e o governo querem que façam. Por exemplo, produzir uma força de trabalho qualificada ou transformando crianças e jovens em cidadãos obedientes. Isto não quer dizer que a educação não tenha aqui um papel a desempenhar, mas se isto é tudo o que esperamos da escola, então as crianças e os jovens são vistos apenas como objetos que precisam de ser treinados e influenciados, e esquecemos que também precisamos de ajudá-los a conduzir a própria vida. Como educadores, deveríamos, por outras palavras, preocupar-nos também com a liberdade dos nossos alunos e com o desafio que se lhes coloca, o de usarem bem a sua liberdade. Isto tem algo a ver com uma preocupação com a autonomia, desde que não pensemos que autonomia significa estar desconectado dos outros seres humanos e apenas fazer o que se quer. O desafio passa, antes, por viver a sua própria vida de tal forma que haja espaço para que as outras pessoas vivam também a sua vida, o que exige, sempre, compromissos e limitações. A ambição da educação deveria ser, portanto, encorajar as crianças e os jovens a tornarem-se indivíduos democráticos, o que não é uma tarefa nada fácil, mas é muito importante.
Como podemos garantir que a educação não se torna simplesmente um meio para fins utilitários? Por exemplo, como referiu, responder apenas à procura do mercado de trabalho.
Significa que nós, enquanto académicos e também como educadores, precisamos de oferecer resistência às tendências de fazer da educação apenas um instrumento ao serviço de interesses terceiros. É aqui que a escola tem o “dever de resistir”, como referiu o académico francês Philippe Meirieu. A questão-chave, claro, é em que base podemos oferecer tal resistência. Para isso, pode ser útil observar que a escola vive, na verdade, numa realidade dupla. Por um lado, responde a uma função das sociedades modernas que surgiu quando a vida quotidiana começou a perder a sua qualidade educativa: quando o trabalho passou de casa para escritórios e fábricas, por exemplo. Mas a escola é também o tempo que dedicamos a que uma nova geração possa conhecer o mundo e encontrar a sua relação com o mundo. E disponibilizamos este tempo porque queremos dar aos jovens a oportunidade, julgo que honesta, de entrarem na sua própria vida. Vem a propósito disto recordar que a palavra grega “escola” significa, na verdade, “tempo de ócio”, tempo que ainda não foi tornado produtivo, ainda não reivindicado por outras forças.
Destaca a importância da relação entre professor e aluno como fundamental para uma educação de qualidade. Como pode o professor equilibrar a transmissão de conhecimentos aos alunos com o estímulo ao seu pensamento crítico e à autonomia?
Na verdade, penso que a educação implica sempre uma relação triádica entre professor, aluno e o mundo, e que o gesto básico da educação é voltar a atenção dos alunos para o mundo. E neste contexto, o mundo não é apenas um “objeto” ou “área” sobre o qual se pode adquirir conhecimento. O mundo também coloca questões que nos são endereçadas. Precisa do nosso cuidado, por exemplo. Não pode ser apenas um objeto para fazermos o que quisermos. Aliás, a crise ecológica tornou esta questão muito visível. Mais do que autonomia e pensamento crítico, talvez haja um trabalho a fazer na tentativa de sensibilizar os nossos alunos para as questões que o mundo natural e social nos endereça. Chamo a isto uma educação centrada no mundo.
Onde se situa a escola entre a necessidade de responder às demandas da sociedade e a necessidade de preservar-se desta?
Devemos reconhecer que a escola tem um “trabalho” importante a fazer no contexto da sociedade. Este trabalho, que se relaciona com proporcionar às crianças e aos jovens compreensão, competências e orientação no mundo, é importante e precisa de ser bem realizado. Mas, como se percebe a partir do que referi anteriormente, isto não é tudo o que compete às escolas. A escola também tem a sua própria “preocupação”, a de cuidar de oferecer às crianças e aos jovens uma oportunidade justa para seguirem com as suas vidas, com a sua própria independência, rumo a iniciativas e a responsabilidades. Equilibrar estas duas exigências é bastante difícil, também porque as escolas estão sob muita pressão inútil para garantir que os seus alunos tenham avaliações “altas” em conhecimentos e competências mensuráveis. Esta pressão, que é intensificada por sistemas ridículos como o PISA da OCDE, esquece que o conhecimento e as competências nunca são um objetivo em si, mas sim um meio de equipar as crianças e os jovens para a sua própria vida ponderada, significativa, responsável e democrática.
A sua teoria sobre a “emancipação” na educação destaca a importância de capacitar os alunos para se tornarem agentes de mudança. Como pode isto ser realizado na prática educativa?
Na verdade, não sou fã da linguagem do empoderamento e também não tenho a certeza sobre a mudança, porque às vezes o que é necessário é lutar contra a mudança, se essa mudança estiver a piorar as coisas. O problema do empoderamento é que ele evoca a imagem de crianças e jovens a ganharem mais poder, mas o principal desafio não é, ou não é apenas, obter mais poder. É muito mais importante ser-se capaz de julgar o que fazer com esse poder. Podemos ver isto à escala global, com políticos muito poderosos que usam o seu poder de formas horríveis. Portanto, o julgamento é, talvez, uma qualidade ainda mais importante a ser abordada. Um julgamento democrático que se concentra no valor de viver a vida na pluralidade e na diferença ou, se quiser, viver a vida com uma orientação para a igualdade e para a paz. Em vez de empoderarmos, precisaríamos, realmente, de trabalhar no oposto, o que poderíamos chamar de desarmamento: uma capacidade de permanecermos abertos e sensíveis.
Há inúmeros argumentos a favor da tecnologia e de como esta remodela radicalmente a educação. No entanto, é crítico em relação ao papel da tecnologia na educação. Considera que a escola não precisa das tecnologias?
Diria que a escola é em si uma tecnologia – a escola é artificial. O currículo, os livros didáticos, a organização das escolas em turmas e turmas anuais, são tecnologias que utilizamos para fazer a educação acontecer. O desafio das tecnologias é que devem ser vistas como meios, mas muitas vezes tornam-se fins em si mesmas. Não há nada de errado num bom livro didático, mas se pensarmos que a educação consiste em memorizar o conteúdo desse livro e passar num teste, então o livro didático torna-se um fim em si mesmo. Julgo que este é um perigo ainda maior com as tecnologias “digitais” contemporâneas, porque muitas vezes parecem muito tentadoras e trazem grandes promessas. Por causa disso, podemos rapidamente esquecer que na educação tudo começa com aquilo que procuramos – o objetivo e o propósito da educação – e é apenas em função disso que podemos decidir que tipo de tecnologias podem ser úteis e significativas. Face a isto, sou muito crítico em relação às tecnologias modernas, talvez ainda mais porque muitas pessoas esquecem-se de fazer as perguntas educativas e pensam apenas que a tecnologia deve ser usada porque está disponível.
sábado, 14 de março de 2026
UM ENCONTRO DE GRANDE INTERESSE SOBRE A IA NO ENSINO E NA INVESTIGAÇÃO
PROVEITO DOS MITOS GREGOS PARA LER A ACTUALIDADE
“Por que razão continuamos a falar de Narciso, Ícaro, Prometeu, Sísifo ou Antígona em pleno século XXI? O que podem dizer-nos os mitos gregos na era dos algoritmos, do stress, da hiperconectividade e da pós-verdade? Pedro José Grande oferece uma resposta clara: estas narrativas antigas continuam a ser ferramentas poderosas para compreendermos e imaginarmos outras formas de viver. Os mitos não são relíquias do passado, mas linguagens simbólicas que iluminam as nossas contradições mais atuais.
Ao longo de 40 capítulos breves e acessíveis, o livro percorre os grandes mitos da Grécia clássica e coloca-os em diálogo com os desafios contemporâneos: redes sociais, vigilância digital, crise emocional, consumismo, dopamina, identidade líquida, burnout, polarização, amor, feminismo, violência, ecologia, dissidência… Cada mito torna-se, assim, um espelho inesperado do que somos e do que poderíamos ser.
Para esta viagem, o autor reúne uma ampla gama de escritores e filósofos cujas ideias atualizam e revitalizam os mitos, tecendo uma ponte entre a sabedoria antiga e os dilemas do presente. O resultado é um livro que nos convida a parar, a refletir e a examinar a nossa vida quotidiana com uma nova profundidade.”
É o passado sempre presente, o passado que nos ensina e nos leva, ou devia levar, a reflectir, a extrair lições para o presente. Na verdade, a mitologia greco-romana é uma fonte inesgotável de ensinamentos. Colocando deuses e homens, mortais e imortais numa convivência natural, mostra-nos também os limites do humano, a forma como os deuses superiores castigavam os que ultrapassavam esses limites.
Vale a pena ler o artigo que, sobre esta obra, escreveu um outro filósofo espanhol, Carlos Díaz, no jornal El Imparcial, no dia 10 de Março de 2026 (ver aqui) e do qual extraímos alguns parágrafos:
“... o livro a que nos referimos constitui um exemplo brilhante da relação entre os elegantes mitos helénicos e os contemporâneos, cheios dessa néscia sabedoria, “novólatra e quantofrénica” pendente da última imbecilidade de algum influencer ou tiktoker [...]
Com efeito, Homero, com a sua visão complexa da relação entre deuses e mortais, levanta questões profundas. Ulisses encontra o seu pleno sentido na luta para regressar a casa, a Odisseia é uma fuga existencial ao tédio, na qual o protagonista enfrenta provações e desafios que desafiam o seu engenho, valentia e resistência. Estas experiências permitem que ele descubra aspectos mais profundos de sua própria humanidade. [...]
O mito de Argos, com os seus olhos que se estendem por todo o corpo, é “um olhar crítico sobre as redes sociais que, na sua análise do panopticismo, descreve um modelo de poder que não precisa de punir para disciplinar, porque o sujeito se autocensura ao saber que está a ser permanentemente observado; as redes sociais reproduzem com precisão essa lógica” (p. 17).
Eco é a perda da voz, da comunicação em tempos de ruído, porque “os indivíduos, em vez de afirmarem a sua voz única, ficam presos numa dinâmica de repetição dos discursos alheios; seja na forma de memes, hashtags, frases feitas ou tendências impostas por algoritmos, tornamo-nos ecos do que foi dito” (p. 28). Pelo mesmo motivo, “Pandora é a caixa dos algoritmos, a origem do mal na internet” (p. 46). Nesse sentido, “Teseu no labirinto é uma jornada pela complexidade do mundo. Num mundo urbano fragmentado, onde o excesso de complexidade gera desconexão, torna-se tão impossível um eu sem cidade como uma cidade sem eu (p. 58).
No meio do caos, “Antígona é o direito à dissidência, a ética frente à legalidade” (p. 77), algo pelo qual Cassandra paga, ... a sua voz profética não se encaixa na lógica linear do logos heróico, não produz certezas úteis, mas advertências desestabilizadoras; a sua voz é um apelo ao cuidado, à escuta, ao tempo necessário para parar, em cuja maldição se revela uma profunda sabedoria: ver sem poder ser acreditado, a forma mais cruel de sabedoria em tempos de ruído...
Apesar de tantas dificuldades, “Ulisses, a odisseia do eu, a identidade líquida no mundo global, representa simbolicamente a possibilidade de uma coerência narrativa do dito eu, um mapa do mundo pessoal. Hoje, Ítaca pode ser a família, um projeto de vida, a própria ética, uma comunidade de pertença ou uma vocação profunda, mas nunca é oferecida: precisa de ser construída, perde-se e é preciso procurá-la novamente” (p. 91).
Uma tarefa difícil para a qual é preciso ter em conta o “monstro interior do Minotauro, a violência e a marginalidade, a sombra, aqueles aspectos da personalidade ignorados ou projetados nos outros, uma criatura híbrida meio homem e meio touro que habita a parte mais profunda do labirinto de Creta e que, como tantos outros seres excluídos, delimita o que se pode ser, representando o que não se deve ser” (pp. 94-96), tudo isso relacionado com “Actéon, o castigo do voyeur, a pornografia, o poder e a punição, uma anomalia secreta transformada em prática massiva, legal e lucrativa” (p. 99), um mito que, por sua vez, tem muito a ver com “Circe e a alquimia do desejo: controle, manipulação e género, já que ela não é simplesmente uma bruxa, mas uma figura liminar, uma metáfora do poder feminino percebido como uma ameaça pelo imaginário do desejo patriarcal ... como uma mulher em busca de autonomia, vítima de deuses abusivos e de homens que a temem por não serem capazes de subjugá-la” (pp. 101-102).
“Helena representa o mito da culpa feminina, as guerras em torno da imagem. Helena foi realmente a causa da Guerra de Tróia, ou apenas o seu pretexto simbólico? Helena continua a ressurgir nas guerras culturais e simbólicas travadas em torno do corpo feminino, da beleza normativa e da representação mediática.
“Mnemósine, o rio da memória, somos nós hoje, os gregos da antiguidade, porque na era digital a memória deixou de ser orgânica ou simbólica, tornando-se quantificável, fragmentária ... Às vezes, o esquecimento escraviza” (pp. 144-145).
Em última análise, devemos manter, como “Calipso, uma tensão fundamental entre o desejo, a pertença e a necessidade de liberdade. Calipso simboliza a ambivalência do refúgio como um espaço que protege, mas também limita” (p. 146).
domingo, 8 de março de 2026
Novos trabalhos de Héracles se impõem
Por Isaltina Martins e Maria Helena Damião
E a escola, que devia ser o último reduto,
o local do pensamento
crítico por excelência,
ou já não tem força para cortar mais cabeças ao
monstro
ou (...) fundiu-se com ele.
Carmen
Garcia, Público, 8 de Março de 2026.
As práticas escolares não surgem do nada; ancoram-se em ideias, muitas delas decorrentes de pressões, seduções e modas, sem escrutínio algum. Se o ministério recomenda, se o "especialista" diz, se a autarquia obriga, se a escola ao lado faz, se a ONG propõe, se a empresa oferece, se a mãe sugere, se o partido político disponibiliza, se... qualquer coisa, então... não há alternativa, não podemos ficar de fora, temos de aceitar. E, bem vistas as coisas, isto, aquilo e mais o outro até parece bem! Porque não? Vamos lá à "actividade", ao "selo", ao "concurso"...
A ideia de que a escola pública tem de
- dar resposta às necessidades que a sociedade diz ter (ou, melhor, certos sectores da sociedade), segundo preceitos e exigências que esta mesma impõe,
- ouvir os mais diversos "agentes/parceiros sociais" para tomar decisões respeitantes ao currículo, acompanhar o seu desenvolvimento, e participar na avaliação,
- permitir que esses "agentes/parceiros" entrem nos espaços escolares, se relacionem directamente com os alunos, colaborem com os profissionais (ou lhes digam o que pensar e fazer) ou, mesmo, os substituam,
mais do que acarinhada (por políticos, académicos, directores, professores, encarregados de educação, autarcas...) é recomendada em documentos da tutela e da escola, e, mais, encontra-se, neste momento, legitimada em letra de lei.
O argumento é que os alunos precisam de se integrar na sociedade, tal como ela é, logo, a escola tem de estar aberta à sociedade no sentido em que a sociedade tem de lhe dizer que rumo tomar. É a "escola sem muros", de que tanto gostamos, que defendemos, e, se lhe encontramos problemas, pensaremos duas vezes antes de os apresentar em público. Seria uma heresia defender, por exemplo, que
- a escola é, antes de mais, dos professores e dos alunos, e que tanto uns como outros precisam de tempo e de tranquilidade para ensinar e aprender,
- é a escola que deve analisar e transformar a sociedade (para melhor, evidentemente) e não a sociedade a mandar a escola fazer isto ou aquilo,
- fica à porta toda e qualquer pessoa ou entidade que tiver em mente tirar benefícios para si própria dos alunos.
Se teimássemos em explicar porque é que a escola tem de ter, não só um, mas vários muros (ontológicos, éticos, epistemológicos...), seríamos, por certo, postos numa daquelas categorias em que se costuma pôr quem pergunta. E pior seria se tentássemos, efectivamente, fazer valer esses muros, neste caso, entraríamos num cenário em tudo igual aos delineados por Kafka.
Carmen Garcia, colonista do jornal Público, percebeu bem isto. Na crónica publicada hoje com o título Hidra de Lerna (ver aqui) conta o caso de uma mãe preocupada em manter a filha de dez anos longe das redes sociais, esperando protegê-la do que de péssimo nelas se passa. Percebeu que não consegue, pois é isso que anda pelas escolas. Passo seguinte: falar com a directora da escola onde a filha está, que admitiu, de imediato, a sua incapacidade "para travar a tal Hidra de Lerna" que invadiu as escolas.
E, na verdade, tal como na Hidra de Lerna, há aqui muitas cabeças repelentes que "matam" a formação das nossas crianças e jovens, que atingem, com consequências muito negativas, o seu crescimento, a sua formação; e, tal como no monstro da mitologia, as cabeças renovam-se, corta-se uma e logo outra surge. Carmen Garcia detém-se nas cabeças afectas aos influencers, mas há outras tão repelentes como estas, apenas não ostensivamente "nojentas", sendo que algumas têm, até, boas maneiras, dão a entender que querem ajudar, cuidar... O que escreveu sobre elas serve, metaforicamente, para todas elas:
Não sei se algum leitor deste jornal já [viu] os perfis dos tais “influencers” que ganharam milhares de euros à custa de presenças em escolas (...). Se não viram, o meu conselho é que assim se mantenham. Porque quando virem já não vão conseguir “desver”. E eu não consigo sequer explicar o asco profundo que aquilo provoca (...). E se é verdade que (...) sempre tivemos a capacidade de tornar famosas pessoas medíocres, a verdade é que, pelo menos, essa mediocridade não entrava nas escolas (...). E eu pergunto-me, até porque não o consigo evitar, qual é, em primeiro lugar, a lógica de convidar estas pessoas para um espaço que é de educação e transmissão de conhecimentos? (...). Em que parte do currículo (...) é que se pode enquadrar a visita de criadores de conteúdos para adultos? (...).
O [papel] da direcção, nestes casos, seria recusar. Mas não, a culpa disto não é só das direcções dos agrupamentos, embora tenhamos agora descoberto que muitas delas dão um excelente contributo para a degradação intelectual a que estamos a assistir de camarote. É (...) também dos pais que colocam telemóveis e redes sociais nas mãos de miúdos de dez anos (...). E quando os pais falham e a escola acompanha essa falha, confesso que não vejo mesmo outro caminho que não seja a proibição (...).
A Hidra de Lerna tem muitas cabeças, todas elas visíveis; esta hidra de stakeholders, mais sofisticada, tem cabeças invisíveis, que só se tornam visíveis quando passam para a comunicação social (antes só eram vistas por alguns, esses tais "hereges"). A comunicação social passou a ser o alter-ego dos educadores: incapazes de distinguir o que está certo do que está errado, ou, se distinguirmos, de resistirmos a pressões, seduções e modas, vamos, inocentemente, atrás... até sermos apanhados por uma notícia, como crianças que se portaram mal. Como educadores, recusamos o estatuto de adultos e, por inerência, demitimo-nos da responsabilidade que temos para com os mais mais novos. Isto é devastador, catastrófico para o mundo que vamos deixar.
Talvez, em breve, venha à luz outra cabeça e outra, e mais outra. Ainda que nasça sempre uma no lugar da que é cortada, o sentimento não deve ser de impotência, mas de esperança... Afinal, houve um Héracles que, corajosa e astuciosamente, matou a Hidra, cortando-lhe as cabeças e queimando a ferida para que cicatrizasse e não renascesse.
sábado, 7 de março de 2026
NÃO É POSSÍVEL!
4) Não se consegue controlar a captação de imagens por parte dos alunos, nem a sua publicação (por isso defende a proibição do uso de telemóveis nas escolas, tê-lo-á feito antes?);
UM DESPACHO (QUE TEM DE SER) PARA TODOS
A repetição é motivada pelo facto de ter sabido, pelo Diário de Notícias, que, na sequência do caso da entrada de influencers em escolas, o mesmo Ministério publicou um despacho que a jornalista Cynthia Valente explica:
"vai criar um grupo de trabalho para elaborar orientações dirigidas às escolas sobre a proibição de atividades consideradas contrárias aos fins das instituições educativas. Esta medida surge após ter sido tornado público que 79 escolas públicas receberam, nos dois últimos anos letivos, influenciadores digitais que promovem nas suas redes sociais conteúdos sexuais e misóginos (...).
O despacho surge num contexto em que, segundo o ministério, a crescente diversidade de iniciativas nas escolas tem originado situações consideradas problemáticas (...) este tipo de situações pode comprometer a integridade, a neutralidade e a segurança do espaço escolar, além de colidir com os valores éticos e de respeito mútuo que devem orientar a comunidade educativa (...).
O MECI pretende reforçar as responsabilidades dos órgãos de direção e gestão das escolas, em particular dos diretores, a quem compete gerir os espaços e autorizar atividades nas instalações escolares.
Ainda que não veja necessidade de um despacho para algo que é óbvio, estou de acordo com a sua letra: as entidades e pessoas que não se pautem pelos princípios referidos não podem entrar na escola pública.
O problema é que, como disse em textos anteriores, além dos influencers há as fundações empresariais, as empresas da mais diversa espécie, ONG de fachada, partidos políticos, igrejas... sem esquecer as suas combinações. Não são apenas os primeiros que devem ser impedidos de entrar na escola, mas todos os os stakholders cujos interesses particulares dissolvem e contrariam a função educativa da escola.
O representante de uma entidade que integrará o "grupo de trabalho" disse (recorro ao que consta na notícia):
“Foi um pedido que fizemos ao ministro e é positiva a criação deste grupo de trabalho, até para clarificar esta situação de quem pode ou não entrar e em que circunstâncias nas nossas escolas”.
Muito bem. Espero que faça valer esta preocupação no grupo e não a restrinja aos ostensivos influencers. Outros stakholders mais sóbrios provocam danos equivalentes nos alunos e na escola pública.
sexta-feira, 6 de março de 2026
O "SILÊNCIO ANTROPOLÓGICO"
"Hoje, observa-se uma indeterminação crescente quanto à definição do que é um ser humano, ou seja, quanto à questão antropológica. Essa é uma questão fundamental para quem se interessa pela educação. O que é que os discursos sobre a educação nos dizem sobre o homem?
Num primeiro momento, interrogam-se as pedagogias “tradicionais” e “novas”, que repousam sobre discursos sobre a natureza humana. A seguir, constata-se que não existe hoje uma pedagogia “contemporânea”, com uma dimensão antropológica, mas bricolagens pedagógicas numa lógica socioeconómica da performance e da concorrência.
Depois, esboça-se, do ponto de vista antropológico, a análise de alguns discursos contemporâneos sobre (…) a “neuroeducação”, a “cibercultura”, o “transhumanismo” [que] possibilitam entender que o ser humano é uma aventura singular e colectiva e sonhar numa educação da solidariedade e da dignidade que contribua com a luta contra a barbárie.
A pedagogia “tradicional” e a pedagogia “nova” repousam sobre bases antropológicas: elas definem uma natureza humana e determinam a partir dela como deve ser a educação (…).
Na sua versão religiosa, a “pedagogia tradicional” considera (…) que a natureza humana foi corrompida pelo pecado original e, logo, a criança nasce corrupta (…). Contudo, a Bíblia ensina também que Jesus veio para salvar os homens e, além do mais, a corrupção ainda não está profundamente enraizada na alma da criança. Portanto, podemos lutar contra a natureza corrupta da criança, pela regra, pela norma, pela disciplina, resumidamente: pela educação. A “pedagogia tradicional” é, fundamentalmente, uma pedagogia da Norma contra o Desejo – logo, contra o corpo e a emoção, que são as fontes do desejo.
A versão laica e iluminista da pedagogia tradicional mantém (…) a mesma visão da natureza humana e da criança, embora não fale mais de pecado e de corrupção, mas de selvajaria e de indisciplina. “A disciplina transforma a animalidade em humanidade”, escreve Kant (…) e, novamente, o corpo é o inimigo: a primeira coisa que as crianças devem aprender na escola, explica Kant, é “acostumarem-se a ficar sentadas tranquilamente, obedecendo exatamente ao que lhes foi ordenado” (…).
Durkheim dá forma social e republicana a essa pedagogia: “a educação tem por objeto superpor, ao ser que somos, ao nascer, individual e associal, um ser inteiramente novo” (…); é o sentimento “da disciplina interna ou externa (que) foi instituído pela sociedade”, que “nos ensina a dominar as paixões, os instintos” (…). Na versão republicana [a criança é] um ser de Razão e de Progresso, futuro cidadão. É importante entender que se reprimem os desejos da criança não por sadismo ou autoritarismo, mas para elevá-la. Com efeito, a natureza da criança é dupla (…), por um lado, é uma natureza corrupta ou selvagem, mas, por outro lado, [tem abertura] para salvar a sua alma, ou ser reconhecida na sua dignidade, de tornar-se adulta.
A corrente pedagógica chamada “nova” repousa também sobre uma antropologia da natureza humana, mas (…) a partir de pressupostos rousseunianos, românticos e, às vezes, médicos A criança é fundamentalmente boa, inocente, pura e, portanto, podemos e devemos confiar nos seus interesses naturais, na sua espontaneidade, nos seus desejos. Contudo, essa natureza sofre as interferências dos adultos; “a idade adulta é a cristalização, a petrificação”, explica Claparède (…). A “pedagogia nova” é uma pedagogia do Desejo contra a Norma adulta. Todavia, bem como a pedagogia tradicional da Norma não pode desistir de todas as formas de desejo, a pedagogia nova do Desejo não consegue prescindir da norma (…).
Quer seja “tradicional” ou “nova”, a pedagogia clássica é construída sobre fundamentos antropológicos que dizem o que é e o que deve ser o Homem e, logo, o que é e como deve ser educada a criança (…).
Quando não há mais resposta à questão antropológica, ou, pior ainda, quando já não é sequer levantada, a porta está aberta para a barbárie. Podemos tratar seres humanos como se fossem objetos incómodos, suscetíveis de serem eliminados (…).
A barbárie desenvolve-se quando não reconhecemos o ser humano como aventura singular e coletiva, quando tratamos como objeto, máquina, computador ou fantoche religioso ou ideológico esse extraordinário organismo biopsicocultural e histórico que um ser humano é.
O antónimo de barbárie é educação, com os valores de solidariedade e de dignidade que possibilitam a aventura humana, nas suas formas universais, culturais e singulares.
Numa sociedade da solidariedade e da dignidade, o que queremos transmitir e ensinar aos jovens? Qual património, quais forças criativas, quais formas de ser um ser humano, quais relações entre a nossa comum humanidade e as diferenças culturais construídas ao longo da história, quais formas de prazer (já que o prazer também se ensina), quais normas?
Quais práticas sociais e pedagógicas contra-hegemónicas podem produzir solidariedade e dignidade numa sociedade cuja lógica dominante é da concorrência generalizada?
Nas nossas escolas, quais práticas (…) são humanas e quais são formas bárbaras de tratar os alunos? E de tratar os professores?
Afinal de contas, qual é nossa antropologia pedagógica prática? A do mais forte e do predador ou a da construção coletiva e solidária de humanidade?"
quarta-feira, 4 de março de 2026
TUDO ISTO É MUITO, MUITO MAU!
A minha dúvida mantém-se (ver aqui): haverá um inquérito porque a "prestação" destes "agentes", é manifestamente deseducativa ou porque, convencidos de que não tinham agido mal, falaram aos jornalistas?
A "responsabilidade" aqui em causa é de escrutinar devidamente quem pode e quem não pode interagir com os alunos ou é de nada dizer do que se passa na escola quando se é interpelado por profissionais, como os jornalistas, cujo dever é informar acerca do que se passa na sociedade e, também, na escola? Fico na dúvida...
Em acréscimo, leio que o Ministro da tutela diz ser "responsabilidade das escolas o controle de quem entra na escola - e isso está previsto na lei -, e só podem entrar em atividades que estão devidamente inseridas naquilo que é a [sua] missão". Ora, parece-me bem claro (tendo em conta a Constituição da República e a Lei de Bases do Sistema Educativo) que a missão da escola é educar, não é doutrinar, não é influenciar, não é fazer seguir ideologias. Cito:
"O Estado não pode atribuir-se o direito de programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas".
Portanto, e usando as palavras do Ministro, há que "proteger o espaço escolar da entrada de entidades ou indivíduos que não têm legitimidade de entrar e que perturbam o processo educativo e a formação das crianças e jovens". Não podia estar mais de acordo com esta declaração, sublinhando que ela é válida para todas as entidades que, descaradamente, entram na escola com fins interesseiros, sejam eles políticos, ideológicos, religiosos ou outros. Refiro-me a fundações empresariais, empresas da mais diversa espécie, ONG que não o são, partidos políticos, igrejas... sem esquecer as suas combinações!
Noto, de resto, que os influencers de que agora se fala surgiram na escola a reboque das campanhas de associações de estudantes nas quais interferem partidos políticos.
Não pergunto o que é pior, porque... é tudo muito mau!
terça-feira, 3 de março de 2026
FAZER O QUE ESTÁ CERTO QUE SE FAÇA
No dossier, que pode ser encontrado aqui, além do esclarecimento que explica essa proibição, reúnem-se testemunhos, pareceres e exemplos de situações, incluindo situações escolares, em que as crianças são expostas a esse tipo de músicas.
segunda-feira, 2 de março de 2026
OS QUE FALARAM... NÃO DEVIAM TER FALADO?
Na continuação do texto: Juntam-se influencers a outros influenciadores na deseducação escolar pública.
João Pinhal, um dos jornalistas que investigou a entrada de influencers nas escolas portuguesas, refere que a equipa do jornal Público contactou, sem sucesso, cinco vezes o Ministro da Educação, Ciência e Inovação. Questionado hoje sobre o que pensa fazer no respeitante à situação, disse que
"não descarta uma investigação da Inspecção-Geral da Educação e Ciência às escolas que permitiram a entrada de influenciadores que fazem negócio com a sexualização das crianças". No entanto, (...) remeteu a responsabilidade destas situações para as direcções das escolas (…). "Quem está no território, sejam as direcções das escolas, sejam as autarquias, é que tem a responsabilidade pela segurança e por aquilo que se passa na escola”. E acrescentou: “penso que a inspecção já estará a olhar para as escolas que foram identificadas e os directores que falaram.”
Tem razão o Ministro numa parte do que disse: nenhum director, nenhum professor, nenhum adulto que esteja na escola deve permitir, tolerar, ficar calado com a entrada de tais sujeitos. Noto, porém, que tais sujeitos são "apenas" os mais recentes e talvez, aos olhos comuns, os mais chocantes pela boçalidade que demonstram, mas as sofisticadas fundações empresariais, empresas, ONG de fachada, partidos políticos são igualmente nocivas e têm de ter o mesmo tratamento. Ora não é isso que vemos por parte da tutela, que tão bom acolhimento dá a estas entidades.
Preocupante é se a Inspecção: 1) só vá escrutinar a situação denunciada, deixando essas outras de fora; 2) só faça isso por causa de uma investigação jornalística; 3) se restrinja às escolas identificadas (muitas outras deixaram fazer o mesmo); 4) e, pior, só indague os "directores que falaram". Deste último aspecto, se tirará a ilacção de que o silêncio é a atitude mais vantajosa (para o próprio) quando algo corre muito mal.
Entretanto, a Federação Nacional de Educação (FNE) divulgou a sua posição relativamente ao que foi divulgado (ver aqui), sublinhando o que também sublinhei: o respeito por critérios (realmente) educativos quando se trata de abrir as portas da escola pública a entidades e pessoas que lhe são externas.
"A Escola é um espaço de formação integral, de proteção e de desenvolvimento saudável. Não pode, em circunstância alguma, ser transformada em palco de promoção comercial, captação de seguidores ou difusão de conteúdos que coloquem em causa o superior interesse das crianças.
Perante a gravidade das situações noticiadas, a FNE considera imprescindível que sejam adotadas medidas claras, uniformes e vinculativas a nível nacional:
- Definição de critérios obrigatórios e transparentes para a entrada de agentes externos nas escolas, incluindo avaliação prévia do conteúdo e dos objetivos pedagógicos das iniciativas;
- Proibição inequívoca de qualquer forma de exploração comercial de alunos ou utilização da sua imagem em contexto escolar;
- Responsabilização institucional clara quanto à autorização e acompanhamento destas atividades;
- Reforço da formação em literacia digital para docentes e alunos, promovendo pensamento crítico e consciência dos riscos associados à exposição nas redes sociais;
- Intervenção imediata do Ministério da Educação, com averiguação das situações denunciadas e emissão de orientações nacionais vinculativas.
A autonomia das escolas é um valor essencial, mas não pode ser confundida com ausência de regulação quando está em causa a proteção de menores. A liberdade pedagógica deve coexistir com responsabilidade institucional e com salvaguardas claras.
A FNE reafirma que a proteção integral das crianças é um princípio inegociável.
A escola deve permanecer um espaço seguro, livre de pressões comerciais e de qualquer forma de instrumentalização da infância.
A Federação acompanhará este processo com exigência e firmeza, defendendo sempre a dignidade da Escola Pública, da profissão docente e dos direitos das crianças."
domingo, 1 de março de 2026
JUNTAM-SE INFLUENCERS A OUTROS INFLUENCIADORES NA DESEDUCAÇÃO ESCOLAR PÚBLICA
"Todos querem alguma coisa da educação:
os governos querem alguma coisa da educação,
a economia, a indústria, os políticos”, por isso
“é preciso resistir às investidas de dissolução da escola,
dos fins que deve perseguir, conhecimento que veicula,
do trabalho do professor e da possibilidade de aprendizagem”.
Gert Biesta, 2024, p. 4
Saiu hoje no jornal Público uma reportagem sobre a entrada de "influenciadores" nas escolas portuguesas. É uma longa reportagem, assente num trabalho demorado e aprofundado que um grupo de jornalistas, em boa hora, decidiu fazer.
Pessoalmente, gostaria que o resultado do trabalho jornalístico em causa tivesse esse efeito construtivo. Pode ser que tenha.
_____________________Biesta, G. (2024). Desinstrumentalizando la educación. Teoría de la Educación. Revista Interuniversitaria, 36(1), 1-12. https://doi.org/10.14201/teri.31487
domingo, 8 de fevereiro de 2026
A ALMA DA EDUCAÇÃO ESCOLAR PÚBLICA EM RISCO
Desse longo artigo extraí as passagens, que me pareceram mais relevante para pensar sobre a adopção da IA na educação, em geral, e na universitária, em particular, independentemente do país ou instituição de referência. Muitas das ideias que nele constam estarão no nosso horizonte.
Primeiro veio o pânico. Nas reuniões do corpo docente viu-se pavor: «Como vamos agora detectar o plágio?», «Devemos voltar aos cadernos e às provas supervisionadas?» Os meus colegas) comportavam-se como se a fraude tivesse sido acabada de inventar. Porém, quase da noite para o dia, a sua ansiedade tomou campus como cogumelos após a chuva. [O espírito] era de aceitação resignada: «Se não podes vencê-los, junta-te a eles».
Essa reviravolta não foi exclusiva do meu campus. O sistema da California State University (CSU) — o maior dos Estados Unidos, com 23 campi e quase meio milhão de estudantes — anunciou uma parceria com a OpenAI: tornar-se-ia o primeiro sistema universitário público “empoderado por IA” do país, oferecendo o ChatGPT Edu, gratuito a todos os estudantes e funcionários. O comunicado à imprensa elogiava as «ferramentas de aprendizagem personalizadas e focadas no futuro» e a «preparação dos estudantes para uma “economia impulsionada pela IA».
Enquanto os administradores cortavam fitas na sua iniciativa de IA, também cortavam cargos docentes, programas académicos inteiros e serviços aos estudantes.
Quando se insiste que o ChatGPT é «apenas mais uma ferramenta na caixa de ferramentas», fico tentado a lembrá-los que há uma diferença entre ferramentas e tecnologias. As ferramentas ajudam-nos a realizar tarefas; as tecnologias remodelam os ambientes em que pensamos, trabalhamos e nos relacionamos. Como observa o filósofo Peter Hershock, não usamos apenas tecnologias; participamos nelas. Com as ferramentas, mantemos o controlo — podemos escolher quando e como usá-las; as tecnologias remodelam as condições da própria escolha. Uma caneta amplia a comunicação sem a redefinir; as redes sociais transformaram o que entendemos por privacidade, amizade e, até mesmo, verdade.
Neil Postman alertou que uma tecnopoly surge quando as sociedades entregam o julgamento aos imperativos tecnológicos — quando a eficiência e a inovação se tornam bens morais em si mesmos. Quando a velocidade e a optimização substituem a reflexão e o diálogo, a educação transforma-se em logística: classificações automatizadas, ensaios gerados em segundos. O conhecimento transforma-se em dados; entrega-se o ensino. O que desaparece são capacidades humanas preciosas — curiosidade, discernimento, presença. O resultado não é inteligência aumentada, mas aprendizagem simulada.
A tecnopoly está a prosperar nas aulas. Os alunos não são ensinados a pensar mais profundamente, mas a responder de forma mais eficaz. Estamos a exportar o próprio trabalho de ensinar e de aprender — o trabalho lento de explorar ideias, suportar o desconforto, a dúvida e a confusão, lutar para encontrar a própria voz. A pedagogia crítica está fora de moda; os truques de produtividade é que estão na moda. Vende-se a rendição como inovação. A universidade não corre apenas o risco de se tornar irrelevante — corre o risco de se tornar um mecanismo sem alma. O maior problema não é a ignorância, mas a indiferença.
Os estudantes sempre encontraram maneiras de fazer batota, mas o ChatGPT levou isso a outro nível. De repente, tiveram acesso a um assistente de escrita que nunca dormia, nunca cobrava e nunca dizia não. As universidades reagiram com detectores de IA, os estudantes continuaram a fazer batota e as universidades reagiram com outros detectores de IA. Face à negligência institucional faz-se funcionar o capitalismo de vigilância. [E resulta?] Não! Os alunos passaram a trocar dicas para tornar o ChatGPT mais burro, inserindo erros ortográficos nos seus textos, por exemplo, para os “humanizar”. Por seu lado, os professores, que antes se mostravam relutantes com a IA, estão agora a ser «empoderados» por ela para escrever palestras e artigos, corrigir trabalhos, redesenhar programas de estudos.
Todo este fingimento lembra uma velha piada soviética: «Eles fingem que nos pagam e nós fingimos que trabalhamos» [que, adaptada, será]: «As administrações fingem que nos apoiam e nós, professores, fingimos que ensinamos» e «Os professores fingem que nos ensinam e nós, estudantes, fingimos que aprendemos». As universidades correm o risco de conferir diplomas sem sentido. A IA ameaça profissionalizar a arte da «actividade sem sentido». Nas palavras de Graeber, [isto cria uma] «profunda violência psicológica», a dissonância de saber que o próprio trabalho não serve nenhum propósito.
Tive um lugar na primeira fila para assistir a essa farsa no workshop «OpenAI Day Faculty Session: AI in the Classroom». A mensagem era clara. Deixe o ChatGPT redesenhar a sua aula. Deixe o ChatGPT dizer-lhe como avaliar os seus alunos. Deixe o ChatGPT dizer aos alunos como usar o ChatGPT. Deixe o ChatGPT resolver o problema da educação humana. [Face à sugestão de que a ferramenta poderia ser uma amiga, uma professora perguntou]: «Estamos a incentivar os estudantes a terem um relacionamento com ela?» [A resposta foi]: «Muitos já fazem isso. Eles veem-na como uma treinadora, mentora, orientadora de carreira... cabe-lhes decidir que tipo de relacionamento querem ter». Bem-vindo ao admirável mundo novo da ligação a máquinas. O momento foi absurdo.
Os administradores parecem incapazes de compreender o óbvio: se o ChatGPT pode escrever ensaios, conseguir classificações excelentes em exames e dar aulas, o que é que a universidade está a vender? Para quê pagar por uma experiência cada vez mais automatizada? Para quê dedicar a vida ao ensino se ele se reduz a uma engenharia de prompts? Para quê manter professores titulares cujo papel parece antiquado e redundante? Para quê ter universidades?
Um professor de filosofia alertou: «Um grande número de estudantes entrará no mercado de trabalho essencialmente analfabeto. Sempre que falo com um colega, surge o mesmo assunto: a reforma. Quando é que me posso reformar? Quando é que me posso livrar disto?»
Quando alguém se opõe a esse evangelismo corporativo, a resposta é previsível: tem «pânico moral» em relação ao progresso inevitável, como foi o caso de Sócrates em relação à escrita. As tecnologias anteriores expandiram a acção humana ao longo de gerações; esta procura substituir a cognição à velocidade da plataforma.
Mas a resposta organizada está a crescer. Nos Estados Unidos, foi apresentada uma queixa por imposição da IA sem consulta prévia do corpo docente, sob a alegação de que houve uma violação da legislação laboral e dos direitos de propriedade intelectual, e uma professora exortou os colegas a exigirem transparência no respeitante ao armazenamento de dados, à exploração laboral e aos danos ambientais que causa. Professores holandeses publicaram uma carta aberta apelando a uma moratória sobre a IA em ambientes académicos, alertando que a sua utilização «desqualifica o pensamento crítico» e reduz os estudantes a operadores de máquinas.
[De facto], o custo cognitivo e moral [imposto aos estudantes não pode deixar de ser tido em conta]. Um estudo recente do MIT, intitulado «Your Brain on ChatGPT: Accumulation of Cognitive Debt when Using an AI Assistant for Essay Writing Task» chegou a resultados preocupantes: quando os participantes usaram o ChatGPT para redigir ensaios, verificou-se uma queda de 47% na conectividade neural em regiões associadas à memória, linguagem e raciocínio crítico. Os seus cérebros trabalharam menos, apesar de os participantes se sentiram envolvidos — uma espécie de miragem metacognitiva. Oitenta e três por cento não conseguiram lembrar-se dos principais tópicos do que haviam «escrito«, em comparação com 10% dos que não usaram ajuda. Após quatro meses de dependência do ChatGPT, os participantes escreviam pior (sem o seu uso) do que aqueles que nunca o tinham usado. Ou seja, quando a escrita é delegada à IA, a forma de aprender muda substancialmente. Como o cientista da computação Joseph Weizenbaum alertou há décadas, o verdadeiro perigo reside na adaptação da mente humana à lógica das máquinas. Os estudantes não estão apenas a aprender menos; os seus cérebros estão a aprender a não aprender.
O podcaster Cal Newport chama a isso «dívida cognitiva» — hipotecar a aptidão cognitiva futura em troca de facilidade a curto prazo. A linguagem da reflexão está a desaparecer. Em seu lugar, surge a gramática limpa da automação: fluente, eficiente e vazia.
A verdadeira tragédia não é que os estudantes usem o ChatGPT para fazer trabalhos, é as universidades estarem a ensinar — estudantes, professores, administradores — a parar de pensar. Caminhamos para a falência educacional: diplomas sem aprendizagem, ensino sem compreensão, instituições sem propósito.
A OpenAI não é uma parceira — é um império, disfarçado de ética A universidade não resistiu. Clicou em «Aceitar». Como professor e como estudante universitário de primeira geração, acreditava que a universidade era um espaço sagrado para aprender. Não fui para a faculdade «para» conseguir um emprego. Fui para explorar, para ser desafiado, para descobrir o que era importante. Levei seis anos para me formar em Psicologia — seis dos anos mais significativos e exploratórios da minha vida. Esse tipo de educação — aberta, acessível e em busca de significado — já floresceu nas universidades públicas. Agora está quase extinta. Mas as coisas podem ser diferentes.
VEREMOS SE A "PROIBIÇÃO" RESULTA
O Na sequência da excelente reportagem saída no jornal Público (ver aqui , aqui , aqui , aqui , aqui , e aqui ) sobre a entrada de infl...
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