Apesar de algumas campanhas contra o analfabetismo, muitas crianças abandonavam cedo a escola, especialmente nas zonas rurais e o acesso ao ensino secundário e superior estava, sobretudo, ao alcance das famílias com mais recursos.
Durante o Estado Novo o ensino foi fortemente controlado pelo Estado e usado, não só para exercer a aprendizagem das matérias estabelecidas nos programas curriculares como também para transmitirem os valores sociais, políticos e morais caros ao regime. O sistema educativo era centralizado. Os programas, os manuais escolares, a formação e o trabalho dos professores eram supervisionados pelo governo. A religião e a moral católicas faziam parte da educação, sobretudo depois da Concordata de 1940, numa demonstração da forte influência da Igreja Católica.
Visando banir os projectos educacionais da Primeira República, o Estado Novo alterou a formação de professores, substituiu os programas, adaptando-os à nova ideologia, separou os sexos, nas localidades onde isso foi possível, além de que reduziu a escolaridade obrigatória de 4 para 3 anos.
O papel da escola foi reforçado na orientação política e religiosa dos alunos, no culto das virtudes nacionalistas, no elogio da vida modesta e rural e na secundarização da mulher face ao homem. O fervor patriótico e o cunho religioso enquadrados na ideologia oficial do Estado Novo estavam diluídos nas matérias curriculares, nomeadamente, na Leitura, na História e na Geografia, no propósito de, a partir dos bancos da escola, então com início aos sete anos de idade, estimular estas virtudes nos homens e mulheres do futuro. Este ensino terminava por volta dos 10 ou 11 anos, idade em que muitas crianças abandonavam a escola para, em especial no mundo rural e agrícola, ingressarem no trabalho infantil. Nas cidades era frequente vê-los como aprendizes em diversos ofícios ou como marçanos, geralmente, de mercearias e drogarias.
Na segunda metade dos anos de 1930, quando eu a frequentei, o ensino obrigatório terminava com o exame da 3.ª classe (3.º ano, como agora se diz), certificado pelo então “Diploma do Primeiro Grau”, exigível, por exemplo, para ingresso nos lugares mais humildes da função pública, no comércio, como caixeiro, nos correios, como carteiro ou boletineiro e, até, para ser eleitor. Ler, escrever e contar era tudo o que o cidadão comum necessitava para fugir à vida do campo, ao aprendizado artesanal ou oficinal e a outros trabalhos que apenas fizessem uso da força braçal. No discurso proferido em 12 de maio de 1935, na sede da Liga 28 de Maio, Salazar disse:
A partir de 1956, o Decreto-Lei n.º 40 964 alargou a escolaridade obrigatória à 4.ª classe (o 2.º Grau), mas apenas para os rapazes. Só em 1960 essa obrigação foi estendida às raparigas, revelando a desigualdade de género existente na política educativa do regime.
Em 1964, o Decreto-Lei n.º 45 810 aumentou formalmente a escolaridade obrigatória para seis anos e até aos 14 anos de idade, aplicando-se a rapazes e raparigas. Contudo, faltavam escolas, professores, transportes e condições económicas, sobretudo nas áreas rurais, havia pobreza e trabalho realizado por menores de idade, pelo que muitas crianças continuaram sem completar os seis anos previstos na Lei. Em 1973, a reforma Veiga Simão previa o aumento para 8 anos, mas não chegou a ser plenamente aplicada antes do 25 de Abril de 1974.
Durante os seis anos do governo de Marcelo Caetano ocorreram algumas tentativas de modernização. A economia portuguesa precisava de trabalhadores mais qualificados, o que aumentou a preocupação com a expansão do ensino. Mas só depois da Revolução de 1974 o sistema educativo se tornou mais democrático e acessível.
A ideologia nos manuais de ensino
Os livros, seguiam o modelo pedagógico conservador, com textos curtos, simples e moralizadores e ilustrações simbólicas, como bandeiras, heróis nacionais e outras. Tinham três funções centrais: alfabetizar e dar noções básicas; incutir valores de disciplina e obediência; promover o culto da Pátria, da História de Portugal e do “Chefe”. Nos livros de História, a narrativa reforçava valores, como patriotismo, disciplina, fé cristã e sacrifício pela Pátria, e exaltava os nossos feitos e os nossos heróis. O passado negativo era omitido ou suavizado. Os conteúdos, expostos de forma linear, heróica e sem espírito crítico, valorizavam sobremaneira a cruzada contra os infiéis, na reconquista cristã, as lutas contra os castelhanos, na defesa da independência nacional, e os Descobrimentos, conjunto de glórias apresentadas como exemplos do destino ou vocação nacionais e alcançadas sob protecção divina. Recorde-se as Batalha de Ourique (1139) e de Aljubarrota (1385) e toda a epopeia marítima, reforçando a ideia de que Portugal tinha uma missão civilizadora no mundo. Destacavam a grandeza de Portugal como “nação, pluricontinental e multirracial” e davam ênfase a figuras, como D. Afonso Henriques, Nuno Álvares Pereira e Infante Dom Henrique.
Os livros de Geografia reforçavam o orgulho nacional. Incluíam descrições elogiosas do território e mostravam imagens idealizadas do meio rural, considerado o coração moral da Pátria. A vida no campo era frequentemente descrita como o ideal português, saudável e moralmente pura. O mundo urbano, industrial e moderno não tinha esse tratamento. Os livros transmitiam os valores da expansão territorial de Portugal e a missão civilizacional no Império. Os territórios ultramarinos eram apresentados como parte inseparável da nação. O discurso salientava as riquezas naturais, a bondade da presença portuguesa nesses territórios e a ausência de conflitos. Os povos colonizados eram representados de forma paternalista. O objectivo era legitimar o Império português e a ideia de Portugal como “país pluricontinental”. O mapa do Império Colonial Português, pendurado na parede da sala de aula, realçava toda a extensão territorial do Portugal do Minho a Timor.
Em síntese, os manuais escolares do Estado Novo, em particular os do ensino primário, foram instrumentos fundamentais para a manutenção e reprodução da ideologia do regime. Ao controlar o conteúdo ensinado nas escolas, o governo procurou moldar mentalidades e assegurar a continuidade de um sistema baseado na ordem e na exaltação nacionalista, numa imagem de Portugal ajustada aos valores do Estado Novo católico, rural, disciplinado, hierárquico e imperial.


