Por Isaltina Martins e Maria Helena Damião
E a escola, que devia ser o último reduto,
o local do pensamento
crítico por excelência,
ou já não tem força para cortar mais cabeças ao
monstro
ou (...) fundiu-se com ele.
Carmen
Garcia, Público, 8 de Março de 2026.
As práticas escolares não surgem do nada; ancoram-se em ideias, muitas delas decorrentes de pressões, seduções e modas, sem escrutínio algum. Se o ministério recomenda, se o "especialista" diz, se a autarquia obriga, se a escola ao lado faz, se a ONG propõe, se a empresa oferece, se a mãe sugere, se o partido político disponibiliza, se... qualquer coisa, então... não há alternativa, não podemos ficar de fora, temos de aceitar. E, bem vistas as coisas, isto, aquilo e mais o outro até parece bem! Porque não? Vamos lá à "actividade", ao "selo", ao "concurso"...
A ideia de que a escola pública tem de
- dar resposta às necessidades que a sociedade diz ter (ou, melhor, certos sectores da sociedade), segundo preceitos e exigências que esta mesma impõe,
- ouvir os mais diversos "agentes/parceiros sociais" para tomar decisões respeitantes ao currículo, acompanhar o seu desenvolvimento, e participar na avaliação,
- permitir que esses "agentes/parceiros" entrem nos espaços escolares, se relacionem directamente com os alunos, colaborem com os profissionais (ou lhes digam o que pensar e fazer) ou, mesmo, os substituam,
mais do que acarinhada (por políticos, académicos, directores, professores, encarregados de educação, autarcas...) é recomendada em documentos da tutela e da escola, e, mais, encontra-se, neste momento, legitimada em letra de lei.
O argumento é que os alunos precisam de se integrar na sociedade, tal como ela é, logo, a escola tem de estar aberta à sociedade no sentido em que a sociedade tem de lhe dizer que rumo tomar. É a "escola sem muros", de que tanto gostamos, que defendemos, e, se lhe encontramos problemas, pensaremos duas vezes antes de os apresentar em público. Seria uma heresia defender, por exemplo, que
- a escola é, antes de mais, dos professores e dos alunos, e que tanto uns como outros precisam de tempo e de tranquilidade para ensinar e aprender,
- é a escola que deve analisar e transformar a sociedade (para melhor, evidentemente) e não a sociedade a mandar a escola fazer isto ou aquilo,
- fica à porta toda e qualquer pessoa ou entidade que tiver em mente tirar benefícios para si própria dos alunos.
Se teimássemos em explicar porque é que a escola tem de ter, não só um, mas vários muros (ontológicos, éticos, epistemológicos...), seríamos, por certo, postos numa daquelas categorias em que se costuma pôr quem pergunta. E pior seria se tentássemos, efectivamente, fazer valer esses muros, neste caso, entraríamos num cenário em tudo igual aos delineados por Kafka.
Carmen Garcia, colonista do jornal Público, percebeu bem isto. Na crónica publicada hoje com o título Hidra de Lerna (ver aqui) conta o caso de uma mãe preocupada em manter a filha de dez anos longe das redes sociais, esperando protegê-la do que de péssimo nelas se passa. Percebeu que não consegue, pois é isso que anda pelas escolas. Passo seguinte: falar com a directora da escola onde a filha está, que admitiu, de imediato, a sua incapacidade "para travar a tal Hidra de Lerna" que invadiu as escolas.
E, na verdade, tal como na Hidra de Lerna, há aqui muitas cabeças repelentes que "matam" a formação das nossas crianças e jovens, que atingem, com consequências muito negativas, o seu crescimento, a sua formação; e, tal como no monstro da mitologia, as cabeças renovam-se, corta-se uma e logo outra surge. Carmen Garcia detém-se nas cabeças afectas aos influencers, mas há outras tão repelentes como estas, apenas não ostensivamente "nojentas", sendo que algumas têm, até, boas maneiras, dão a entender que querem ajudar, cuidar... O que escreveu sobre elas serve, metaforicamente, para todas elas:
Não sei se algum leitor deste jornal já [viu] os perfis dos tais “influencers” que ganharam milhares de euros à custa de presenças em escolas (...). Se não viram, o meu conselho é que assim se mantenham. Porque quando virem já não vão conseguir “desver”. E eu não consigo sequer explicar o asco profundo que aquilo provoca (...). E se é verdade que (...) sempre tivemos a capacidade de tornar famosas pessoas medíocres, a verdade é que, pelo menos, essa mediocridade não entrava nas escolas (...). E eu pergunto-me, até porque não o consigo evitar, qual é, em primeiro lugar, a lógica de convidar estas pessoas para um espaço que é de educação e transmissão de conhecimentos? (...). Em que parte do currículo (...) é que se pode enquadrar a visita de criadores de conteúdos para adultos? (...).
O [papel] da direcção, nestes casos, seria recusar. Mas não, a culpa disto não é só das direcções dos agrupamentos, embora tenhamos agora descoberto que muitas delas dão um excelente contributo para a degradação intelectual a que estamos a assistir de camarote. É (...) também dos pais que colocam telemóveis e redes sociais nas mãos de miúdos de dez anos (...). E quando os pais falham e a escola acompanha essa falha, confesso que não vejo mesmo outro caminho que não seja a proibição (...).
A Hidra de Lerna tem muitas cabeças, todas elas visíveis; esta hidra de stakeholders, mais sofisticada, tem cabeças invisíveis, que só se tornam visíveis quando passam para a comunicação social (antes só eram vistas por alguns, esses tais "hereges"). A comunicação social passou a ser o alter-ego dos educadores: incapazes de distinguir o que está certo do que está errado, ou, se distinguirmos, de resistirmos a pressões, seduções e modas, vamos, inocentemente, atrás... até sermos apanhados por uma notícia, como crianças que se portaram mal. Como educadores, recusamos o estatuto de adultos e, por inerência, demitimo-nos da responsabilidade que temos para com os mais mais novos. Isto é devastador, catastrófico para o mundo que vamos deixar.
Talvez, em breve, venha à luz outra cabeça e outra, e mais outra. Ainda que nasça sempre uma no lugar da que é cortada, o sentimento não deve ser de impotência, mas de esperança... Afinal, houve um Héracles que, corajosa e astuciosamente, matou a Hidra, cortando-lhe as cabeças e queimando a ferida para que cicatrizasse e não renascesse.
