quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Ó meu pobre coração, perdes tudo

Ó meu pobre coração, perdes tudo.

Não sabes tu inventar outra rua.

E por ela fluísse o ar mais puro,

A boca e a palavra sempre nua.

PIOR OU MELHOR, A EDUCAÇÃO ESCOLAR TEM FEITO A SUA PARTE

Um grupo de estudantes do Mestrado em Ciências da Educação da Universidade de Coimbra colocou-me algumas perguntas sobre o presente da educação. Perguntas que, como a generalidade das perguntas que esta área suscita, são de muito difícil e nada consensual resposta. Ao correr do pensamento, respondi à primeira pergunta o que se segue.

Ao olharmos para as sociedades atuais, podemos afirmar que a educação falhou?
As sociedades actuais – vou restringir-me às ocidentais –, no seu modo de organização e funcionamento, assemelham-se às sociedades precedentes, mesmo às mais arcaicas. Isto porque a condição humana é aquilo que é, com o que tem de fragilidade e de potencialidade. 
Cedo, na nossa evolução, teremos percebido que não podemos deixar os seres que nascem entregues à sua própria sorte, é preciso educá-los para se tornarem humanos. A nossa condição é frágil, nascemos com capacidades – capacidades para… – mas elas não têm inscritas as expressões que consideramos humanas, estas são-nos facultadas por quem nos educa, e que já foi educado por outrem...
Se, por um acaso, a educação fosse suprimida, se as crianças fossem deixadas entregues à sua própria sorte, caso sobrevivessem, não conseguiriam tornar-se seres humanos. Na verdade, para se ser humano é preciso ter-se integrado, em si, a essência da humanidade.  
Toda a educação assenta, pois, na herança que recebemos daqueles que nos precederam, do conhecimento que a humanidade construiu até aqui e que esperemos continue a construir pelo futuro fora. Falo do conhecimento que Lev Vigotsky notou ser histórica e socialmente construído, ao longo de milénios, por isso ninguém pode reconstitui-lo a partir de si mesmo, sem mais. É com base neste conhecimento que podem estimular-se as capacidades humanas superiores. O mencionado psicólogo explicou que é na escola, na relação professor-alunos, que isso deve acontecer, na sua máxima amplitude. 
Também cedo teremos percebido que, se educarmos, a geração seguinte pode conhecer mais, alcançar mais discernimento do que a anterior. É dizer: “os que educamos podem ser melhores do que nós” ou “educamos para que os mais novos sejam melhores do que nós”. Esse é o nosso potencial como humanidade e como pessoas individuais.   
O Iluminismo fixou-se neste potencial e empenhou-se em concretizá-lo como talvez nunca na história tivesse acontecido. Deu-nos a ideia, que hoje sabemos ser uma utopia, de que a educação, sobretudo a escolar, resolveria se não todos os males do mundo, pelo menos os mais relevantes. 
A descoberta de que os seres humanos, para o serem, têm de se educar e de que a educação pode melhorar a espécie será uma das primeiras e grandes descobertas da humanidade. Todavia, na Modernidade e, mais próximo, na Contemporaneidade, tendemos, com frequência, a negá-la, apesar dos dados científicos que a corroboram. 
Efectivamente, o presente da educação escolar é muito marcado pelo assombro do progresso técnico e tecnológico, ao ponto de negligenciarmos a nossa condição humana, de nos esquecermos das suas fragilidades e das suas potencialidades. 
É comum invocarmos a crença de que esse progresso se inscreveu da nossa condição original, orientando-a. Isto ao ponto de podermos confiar nela para sermos humanos, dispensando a educação. Usando as palavras de Carlos Fernandes Maia, ao ponto de os adultos educados se demitirem de educar os mais novos. 
Aqui devo retomar e sublinhar o seguinte: tanto quanto sabemos, partilhamos com os nossos antepassados mais próximos e mais distantes as capacidades cognitivas, afectivas e motoras, e temos igual necessidade de sermos educados para que essas capacidades se manifestem. 
Se manifestem de forma diferente em cada um de nós, conferindo-nos a nossa própria identidade, o que se estende à sociedade e a faz funcionar, desejavelmente, segundo princípios aceitáveis. 
Enfim, num determinado momento, as sociedades terão percebido que precisavam de um contexto em que pudesse ser transmitida uma parte do conhecimento que iam acumulando e que já não podia ser deixado ao acaso, sob pena de se perder e, assim, regredirem. O que a educação escolar faz, ou deve fazer, é transmitir uma parte substancial do legado de gerações anteriores – o que se entende ser o melhor que construíram – às novas gerações para que estas o usem em seu benefício, o ampliem e o transmitam às próximas gerações. E por aí adiante… 
Interpreto que queriam perguntar-me o seguinte: percebendo os grandes problemas das sociedades actuais, de que serve educar, se a educação, tal como acima a perspectivo, não evita esses problemas, nem os resolve depois de eles se manifestarem? 
Essa pergunta, da maior importância, ocupou vários, sobretudo filósofos do pós Segunda Grande Guerra. Em concreto, questionaram: de que serviu aos alemães terem chegado ao patamar de cultura e de educação a que chegaram, se permitiram que acontecesse o que aconteceu, se participaram no que aconteceu, sendo alguns colaboracionistas e outros actores principais? George Steiner notou que altos responsáveis por campos de concentração podiam controlar o extermínio de centenas ou milhares de pessoas durante o dia e à noite apreciar música clássica. Podia trazer para aqui outros exemplos colhidos no passado e no presente, sendo que, por certo, eles têm lugar reservado no futuro. 
Não sei se é a educação que falha quando a sociedade se torna iníqua, para afirmar isso teria de admitir que existe uma orientação inequivocamente certa para a educação e que essa orientação é cumprida, sendo que, por alguma razão, ela pode falhar. O problema é muito mais complexo do que isso. A verdade é que não sabemos qual a orientação inequivocamente certa a imprimir à educação: podemos dizer que é a perfeição do humano. Só que não sabemos bem o que é a “perfeição”. Este é o paradoxo que Immanuel Kant nos deixou e que ainda não conseguimos resolver, e talvez nunca o consigamos. 
Em suma, diria que a educação escolar pública, entendida verdadeiramente como educação – despida das múltiplas ideologias, doutrinas que vemos apropriar-se dela, dos múltiplos interesses que insistem em dar-lhe o rumo que lhes é mais conveniente –, faz o que pode.  
Sendo uma fonte de educação entre outras – familiar, entre pares, etc. – que a sociedade proporciona e, apesar de mais vezes do que seria desejável a vermos desviada do seu rumo, há que reconhecer que tem feito a sua parte. Ou mais do que isso. Ajudou-nos a chegar até aqui, com tudo o que o "aqui" tem de bom e da mau, de desejável e de indesejável.
Recorro às palavras de um colega, Joaquim Pires Valentim, que me parecem traduzir bem o que pretendo afirmar: “temos pedido sempre muito à escola (…) permitir a igualdade e agora, entre muitas outras coisas, que, respeitando as diferenças individuais, promova o mérito e o talento de cada um, o desenvolvimento integral, que valorize as diferenças culturais e combata as pulsões xenófobas. A questão é saber se o pode fazer. É verdade que a escola não é redutível a uma mera agência de promoção social mas pode mudar bastante a vida das pessoas ao fornecer-lhes instrumentos cognitivos.” 
Termino, com uma pergunta: o que acontece(rá) à(s) sociedade(s) se, como vaticinam aqueles que julgam ter poder nas(s) sociedade(s), a educação que está entregue à escola for de tal modo transformada que deixamos de a reconhecer como tal, desaparecendo, inclusivamente, a própria instituição a que chamamos escola? 

O POETA E O SEU POEMA

Um poema é uma pedra no caminho? 
Ou é só um fulgor que logo passa? 
Apagar-se-á ele devagarinho? 
Será só breve momento de graça?

Porém, o poeta que o escreve
julga sempre apostar na eternidade:
por mais que o poema seja breve,
há no poeta, sempre, veleidade.

O poema dura só o que dura
e dá-nos apenas a luz que tem.
Não pode ir além da sua altura

e a humildade fica-lhe tão bem!
Mas o poeta ama-o, como filho,
e vê nele, portanto, eterno brilho!

Eugénio Lisboa

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

UM POEMA É UMA CONSTRUÇÃO

Constrói-se um poema, como uma ponte:
com o cálculo, visa-se a beleza.
Nos números, nada que amedronte
ou que tire, à beleza, a nobreza.

Os números também têm beleza, 
mesmo que seja uma beleza fria;
mas eles sabem, com enorme destreza,
dar à beleza, enorme euforia.

Há, na construção, grande poesia,
sendo a transpiração inspiração
e não sendo o rigor só geometria: 

há, nos números, uma promoção
de emoções novas, inesperadas,
de jóias secretas mas encontradas!

Eugénio Lisboa

"Dias fundamentais para a educação no País"

 

"Não é exagero dizer que os próximos dias vão ser cruciais para o futuro da educação no Brasil. Desde 2014, ano em que ingressei no Ministério da Educação, a pasta foi liderada por nada menos que 12 ministros, isso sem contar os momentos em que os secretários executivos se tornaram ministros interinamente."

Assim começa um texto de opinião assinado por Manoela Araújo Resende, estudante de doutoramento em Ciências da Educação nas Universidades de Coimbra e de Brasília. Nele, a autora, deixa transparecer a esperança na educação escolar pública a que um novo regime político conduz. 

A PALAVRA DE MINHA ESCOLHA

O poeta Alberto de Lacerda 
gostava da palavra “maravilha”,
que escrevia com mão direita e esquerda,
talvez porque ela rimava com ilha,

tendo ele nascido ao sol duma ilha.
Cada um faz a escolha que pode:
eu, por exemplo, gosto de “baunilha”,
palavra linda, que tanto eclode!

Mas se quer saber da qual eu mais gosto,
a que me traz o passado ao presente,
um passado, no qual, eu me recosto,

então, pegue na caneta e assente: 
coisa bela como saia ou catraia,
só uma me ocorre e é “praia”!

Eugénio Lisboa

"O ARDIL DA FLEXIBILIDADE": DO MUNDO EMPRESARIAL PARA O MUNDO DA EDUCAÇÃO

A dicotomia rígida e flexível anunciaria uma transição,
uma mudança com ares de positividade,
uma promessa para a sociedade em transformação. 
É necessário submeter tais pressupostos ao crivo da crítica.
Sadi Dal Rosso, 2017, 11.

A mais recente reforma do sistema educativo português designa-se por "Autonomia e flexibilidade curricular". Já antes desta reforma se usavam abundantemente as palavras "autonomia" e "flexibilidade" associadas à educação escolar, ao currículo, ao trabalho pedagógico, ao calendário lectivo, etc. O mesmo acontece numa multiplicidade de países alinhados pelas políticas supranacionais.

A sua conotação é inequivocamente positiva: preferimos "autonomia" a "dependência / subordinação"; "flexibilidade" a "rigidez / intransigência". E, sendo assim, dispensamo-nos de interrogar o seu efectivo sentido no contexto em que são usadas. Isto é um erro.

Focalizando a atenção apenas e só na palavra "flexibilidade", há a dizer que ela tem sido, desde finais do século passado, tornada central no mundo do trabalho, adquirindo um sentido muito próprio, o qual foi importando para o mundo da educação. Tendo a lógica organizacional do primeiro sido transposta para o segundo, convém perceber que sentido lhe é conferido no mundo do trabalho para se perceber o sentido que lhe é conferido no mundo da educação.

O sociólogo brasileiro Sadi Dal Rosso ajuda-nos nessa tarefa. No seu livro O ardil da flexibilidade, publicado em 2017, tomando por referência as políticas globais para o trabalho, analisa o modo como, a partir delas, as empresas se estruturam. Em resultado, declara que a "flexibilidade" ganha terreno no emprego: na repartição das tarefas e na sua distribuição pelas horas do dia. Mas ganha também terreno na formação e qualificação profissional. O objectivo é fazer com que os trabalhadores "sejam, em si, flexíveis" (p. 11).

Mas, o que é a flexibilidade? Dal Rosso assinala, logo no início da obra, a dificuldade de responder a esta pergunta. Nas suas palavras: "a qualidade de ser flexível e o processo de flexibilização chegam ao nosso alcance como objectos foscos, recobertos por camadas de pressupostos ideológicos e teóricos, de tal modo que se torna difícil interpretar seu significado. Em seu âmago escondem-se significados herméticos, donde procede a tarefa de compreender não apenas as manifestações concretas da flexibilidade como, inclusive, os pressupostos sobre os quais ela se firma" (p. 12).

Mais fácil será, então, explicar as suas manifestações. De novo as palavras de Dal Rosso: "a flexibilidade transformaria os momentos da vida, sem necessariamente diminuir a duração da jornada de trabalho. Os negócios desejam trabalhadores flexíveis para melhor se estruturar, para ajustar desencontros entre oferta e procura, para elevar o nível de intensidade laboral com vistas a alcançar o rendimento do trabalho e assim superar a competição, para impedir tempos perdidos e evitar gastos de contratação de mão de obra em tempos contínuos, para produzir, mediante o emprego de trabalho flexível, muito mais valor do que se alcançava com o emprego de trabalho em jornadas longas, fixas, repetitivas, de tempo integral" (p. 12).

Porque é que a flexibilidade se configura como "ardil"? Porque ela é apresentada, acima de tudo, como uma medida favorável aos trabalhadores. Sendo objecto de alguma contestação, sobretudo por parte de sindicatos, a verdade é que os trabalhadores, tendem a aceitá-la de bom grado e, em muitos casos, a reivindicá-la como um direito. Cada vez mais isolados, "empreendedores" por conta própria, remetidos para a categoria genérica de "colaboradores", desvinculados ou nunca vinculados a um grupo profissional, e, portanto, sem a identidade que este confere, aceitam, pensando estar a negociar, as condições laborais que estão previamente estabelecidas.

Nesta linha, o autor demonstra, com base em referências sólidas, que tal apresentação é assaz ardilosa, pois, na verdade, a flexibilidade constitui uma estratégia económica bem pensada que visa, tão simplesmente, ampliar os lucros das empresas, tocando muito mais do que a gestão do tempo no trabalho e fora do trabalho. São os salários, os lugares, os contratos, os tempos, os espaços, os direitos, as metas/objectivos a cumprir, etc, que se tornam também flexíveis. O horizonte é a uberização do trabalho, "sonho dourado do mundo empresarial", como diz Ricardo Antunes, que assina a badana do livro.

Sadi Dal Rosso não faz uma ligação à educação escolar pública - o seu foco não é esse -, mas lendo os textos que delineiam a reforma em curso, réplica da reforma global da educação, percebemos que os alunos devem ser moldados em função de um perfil flexível, ajustado a este "mercado de trabalho". Cabe aos educadores decidir se devem fazer isso ou se devem educar, sendo que educar inclui, obviamente, preparar para o trabalho digno. Mas essa é outra reflexão...

domingo, 4 de dezembro de 2022

Oh, Dias Tristes, Não Ouço Ninguém!

I)

Oh, dias tristes, não ouço ninguém!

Dias que se alongam e longo é o tempo.

Onde nem mesmo te ouço a voz, ó mãe,

Enterro o coração e enterro o vento.

II)

Exagero não é querer o arrebol

E o ar adocicado quando és voz.

O sorriso é de quem o vê florir,

Assemelha a um clarão,

E no rosto acha o mais belo sol.

E o ar é de quem vê os lábios,

Sem nada ouvir,

Sem separar a voz do coração.


sábado, 3 de dezembro de 2022

Agradecimento

Queria deixar aqui a minha palavra de agradecimento a um leitor que comentou, ainda que de forma anónima, um poema que escrevi, intitulado Mesmo com o Corpo Alquebrado, da seguinte forma: Arrojada a intrepidez na qual acaba por se assenhorar em relação ao público-alvo desta maledicência. É inadmissível que um professor seja perseguido, há cerca de quatro meses, de forma maquiavélica, numa escola pública deste país. Na hora certa, o mesmo professor contará toda a verdade. Não se trata aqui de procurar denegrir somente o lado profissional de um professor, mas também o seu lado pessoal e humano, bem como arruinar a sua saúde. Felizmente, nessa escola, muitas pessoas começam a ver a realidade com olhos de ver. Um dos melhores filmes que vi, mais recentemente, foi A Caça, com Mads Mikkelsen. Nunca me passara pela cabeça, numa colina belíssima, ver esse professor passar por algo semelhante, embora por razões diferentes.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

À LA RECHERCHE DU TEMPS PERDU II

Ah, la belle Afrique de mon enfance… 
O verão era de sol violento, 
mas hesitava-se entre sol e chuva.
O mundo nascia naquele momento,
feito, para nós, como uma luva.

Emigrados do palmar para a praia,
o mar imenso a nosso comando!
Afrontando aquele líquido Himalaia,
éramos, ali, quero-posso-e-mando.

Alguém mais, já viu o mundo nascer, 
naquele paraíso vegetal?
Era um Big-Bang a acontecer,

um começar de tudo, auroral!
Do palmar à praia, dava-se um salto,
e era tudo um imenso sobressalto! 

Eugénio Lisboa

Nunca, nunca ao amor te negues

Nunca, nunca ao amor te negues,

Ainda que a chuva pese e não passe,

E o medo cante e escorra.

Nunca ao amor entregues

O medo de cair longe da tua face.

Ana Arruda Callado - Biografias de Mulheres

segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Mesmo com o corpo alquebrado

Mesmo com o corpo alquebrado,

Não prescindo da voz.

Da liberdade

De dizer,

Ainda que num sopro,

Só a verdade.

Matais-me, inúteis figuras

Dos inúteis projetos

Sobre ribeiras cenosas

Como vossos rostos abjetos.

Matais perfidamente

O coração que da sua debilidade

Vos pôs ao corrente.

As crianças berram e choram,

Quase desmaio, dói-me o peito

A língua arrasta-se no chão!

Matais-me, pequenez nua,

Falso mérito, entre microscópios,

Sonhando um chão de ouro,

Com os olhos postos na lua.

Matais-me, oradores maníacos,

Pregoeiros que lúcidos apregoeis,

Espantalhos

Que do tabaco apenas sabeis

Que é uma planta.

Matais-me, vós que troçais

Dos pequenos comentários.

Matais-me, lidadores efeminados  

Que do início ao término

Só de boca pegueis

Os cornos de um touro.

Sem pão, morrerei,

Serei uma só história.

Mas, não nego que Copérnico

Se fez em Cracóvia.

Mas, não matais a minha voz,

A liberdade

Que nunca atraiçoarei.

PERPETUAR UM GRANDE ESCRITOR

Ao CENTRO DE ESTUDOS REGIANOS

Celebrar quem foi um grande escritor
é apenas lembrar e agradecer
o prazer que nos deu o seu fulgor, 
o seu facho, na escuridão, a arder:

para, com muita dor, nos ensinar
a sedução que existe nos abismos
e, também, como saber procurar
a verdade, fora dos catecismos!

A grandeza sempre inquietou
e, não poucas vezes, dela afastou
os que mais saberiam preservá-la.

Por isso, às vezes, o futuro cala
grandes vozes que já se ouviram
e tão fundamente repercutiram!

Eugénio Lisboa
________________
Soneto lido no dia 26 deste mês, no Centro de Estudos Regianos, em Vila do Conde, no momento em que ali se assinalavam os 25 anos da sua existência

DEZ LIVROS DE CIÊNCIA PARA O NATAL

 Meu artigo no «As Artes entre as Letras»:

Com o Natal à porta, é tempo de sugerir livros de ciência para prendas de Natal. Escolhi uma1 dúzia doas obras mais recentes que saíram entre nós. A obra é a alfabética do apelido do autor.

1- João Paulo André, Irmãs de Prometeu, A Química no Feminino, Gradiva, com minha revisão científica

O autor, professor de Química na Universidade do Minho, depois do seu sucesso na mesma editora Poções e Paixões. Química e Ópera, faz uma interessantíssima digressão pela história das mulheres não só na Química como, mais em geral, na ciência.  Raramente reconhecidas, elas têm uma longa presença na história da ciência.
2- Jorge Buescu, Amor, Matemática e Outros Portentos, Gradiva, com prefácio meu.

Este é o sétimo livro do autor, professor de Matemática na Universidade de Lisboa, contendo interessantíssimas crónicas de Matemática na colecção «Ciência Aberta». Ele torna a matemática, ainda receada por muitos, ao alcance de todos.

3- François de Closets, Corbeyran e Chabbert, As Guerras de Einstein, Gradiva, 2 vols.

Esta é uma banda desenhada muito atraente que mostra os dois grandes conflitos armados da vida do sábio nascido na Alemanha e o modo como ele os viveu. Sendo a arte notável, a idoneidade histórica e científica está assegurada.

4- Setz Stephens-Davidowitz, Não Confie nos Instintos, Actual (Almedina)

O autor, formado em Filosofia e Economia, e ex-cientista de dados da Google, alerta-nos com numerosos exemplos para os perigos desta era da desinformação. E dá-nos dicas para não nos deixarmos enganar.

5- Karl Deisseroth, Projeções. Uma História das Emoções Humanas, Relógio d’Água

Obra de um norte-americano professor de Bioengenharia e Psiquiatria na Universidade de Stanford, transmite-nos em escrita sedutora, que faz lembrar o saudoso Oliver Sacks, alguns casos clínicos que indicam  a origem biológica de algumas doenças mentais.

6- Philip Lymbery, As Últimas Colheitas, Vogais (Penguin Random House)

O autor, professor da Universidade de Winchester e sobretudo  dirigente da ONG Compassion in World Farming explica como a «agricultura intensiva é uma ameaça tão grande como as alterações climáticas.» Aliás, as alterações climáticas são, em boa parte, devidas a formas de agronegócios que prejudicam sobremaneira a Natureza.

7- Steven Koonin,  A Ciência do Clima. O que a ciência nos diz, o que não diz e o que isso interessa, Guerra & Paz, com minha revisão científica.

Um físico que foi governante num dos mandatos do presidente Obama dá-nos a sua visão sobre a ciência por detrás das alterações climáticas, chamando a atenção para aspectos mais incertos e para as dificuldades que a ciência tem, por vezes, em ser bem compreendida pelo público.

8- Nuno Maulide, Como Desvendar o Quebra-cabeças da Origem da Vida? 27 perguntas sobre a vida e o Universo que sempre quis fazer a um químico, Planeta.

O químico português, que ensina na Universidade de Viena, depois do seu enorme sucesso  que foi Como se Transforma Ar em Pão?, saído na mesma editora, responde sabiamente a uma série de perguntas que qualquer um de nós pode fazer.

9- Lee McIntyre, Como Falar com um Negacionista, Desassossego.

Incluído na colecção «Eu amo a Ciência» este livro, de um investigador em Filosofia e História da Ciência da Universidade de Boston, ajuda a quem precise de se orientar nos labirintos do mundo de hoje, dominado pelas fake news e pelas teorias da conspiração.

 10 - Desmond Morris, Observar. Encontros com humanos e outros animais, Arte e Ciência

Esta é uma autobiografia do antropólogo britânico muito conhecido, hoje com 94 anos, que vendeu milhões de O Macaco Nu, para além de várias outras obras, que sai numa colecção da Universidade do Porto dirigida por Nuno Ferrand que publicou também uma autobiografia de Richard Dawkins. Morris ofereceu o seu espólio àquela universidade.

11- Giorgio Parisi, A Minha História da Física. O voo dos estorninhos e outros sistemas complexos, Bertrand, com prefácio meu.

O físico italiano que recebeu o Prémio Nobel da Física em 2021, especialista em problemas de complexidade, conta aqui de modo acessível alguns episódios da sua carreira (a começar pelo estudo do voo dos estorninhos), ao mesmo tempo que expõe de modo brilhante a natureza da ciência.  

12- Greta Thunberg (criado por). O Livro do Clima, Objectiva (Penguin Random House)

 A bem conhecida activista ambiental sueca não esteve na COP27 no Egipto, por já não acreditar nas negociações que decorrem sob a égide das Nações Unidas. Mas ajudou a preparar este livro, com um magnífico aspecto gráfico, que reúne um vasto leque de especialistas em vários temas relacionados com as alterações climáticas, que constituem o maior desafio do nosso tempo. Destaco entre os autores Naomi Orestes, Nicholas Stern e David Wallace-Wells.

Há nestes livros muita matéria tanto para informação sobre reflexão sobre grandes questões que nos preocupam. Sim, enfrentamos perigos, mas a nossa melhor arma continua a ser a ciência.  Boas leituras!

domingo, 27 de novembro de 2022

"A VOSSA VOZ CONTA" PORQUE ELA É A NOSSA VOZ, QUE QUEREMOS QUE SEJA VOSSA

Saiu no Expresso online de ontem, sábado, um texto muito esclarecedor do jornalista Rui Duarte Silva sobre as terceiras Jornadas da Juventude, promovidas por uma tal Fundação da Juventude. O desafio colocado neste ano aos jovens, situados num amplo intervalo etário (entre os 15 e os 30 anos), foi "identificar problemas e apresentar aos políticos propostas concretas" no respeitante à saúde mental, emprego, educação e sustentabilidade. 

O trabalho, de três dias, resultou em conclusões (de grande “qualidade", segundo a presidente executiva da fundação) que foram apresentadas presencialmente a "decisores e assessores políticos", sendo a breve trecho comunicadas à "Assembleia da República e aos diferentes grupos parlamentares". O Presidente da República enviou uma mensagem com os seguintes dizeres: 
“A vossa voz conta, as vossas ações contam (...). Agora, aos decisores políticos, cabe querer fazer alguma coisa ou querer só ouvir. Se for só ouvir, é fácil mas não serve para nada. Se for para ouvir e aplicar, então vamos melhorar um bocadinho o nosso país e a nossa Europa”. 
Mas que conclusões tão relevantes são essas que convém acolher dentro e fora de portas? Direccionei o olhar para as que se referem à educação. São elas (meus destaques):
  • Reformular a forma como as aulas são dadas, tornando-as mais lúdicas e dinâmicas, recorrendo ao modelo de ensino não-formal, onde os alunos são o foco. Os alunos podem, assim, aprender os conteúdos de forma mais autónoma, interativa e motivadora. O professor assume um papel de moderador, guiando os alunos de forma pouco intrusiva, para serem eles a terem a iniciativa de aprender.
  • Rejuvenescer a classe docente, dando melhores condições àqueles que entram na carreira (aumento dos salários, redução da carga horária, entre outras).
  • Dar formação a todos os professores, nos períodos de interrupção letiva, ao longo de vários anos, de forma a dotá-los de novas ferramentas e métodos pedagógicos.
  • Inovar os conteúdos lecionados e inserir no programa ferramentas necessárias no dia a dia, ou seja, competências que têm utilidade prática para todos, como saber procurar emprego, fazer o IRS, pagar impostos, etc.
  • Promover um sistema de cooperativas [de material escolar], de forma a diminuir desigualdades. Cada encarregado de educação contribuiria com um valor monetário baixo, de modo a permitir que a escola compre e faça a manutenção desse material. Todos os alunos, cujos encarregados de educação contribuíssem, poderiam utilizar o material. 
  • Criar projetos de mentoria/“apadrinhamento”, com o intuito de promover uma só comunidade escolar, onde os alunos mais novos terão oportunidade de criar laços com alunos mais velhos. Esta é uma forma de os alunos poderem ter acesso a muita informação, relevante para decisões futuras, nomeadamente o percurso profissional e académico.
  • Integrar na média de acesso ao ensino superior uma percentagem atribuída com base no percurso/participação cívica dos jovens em projetos escolares, voluntariado, associações juvenis. 
E, confirma-se, a educação está ligada ao "mercado de trabalho": 
  • Alargar e implementar estágios curriculares obrigatórios em todo o ensino superior desde o início. 
  • Criar uma semana de empreendedorismo jovem a nível nacional.
  • Criar estágios observacionais no ensino secundário ou pós-secundário.
As minhas conclusões (muito gerais):
1) Rigorosamente, nada de novo. Quantas vezes já lemos, já ouvimos esta retórica? Centenas? Milhares? Os (estes) jovens repetem o que os (certos) mais velhos querem que repitam, tão simples quanto isto. Os primeiros pensam que estão a dizer grande coisa, coisa "inovadora"; os segundos... não sei, confesso ter dificuldade em entender o que leva adultos, até com formação académica superior, a afirmar, de modo convicto, o que se pode ler acima; 
2) Não me pronuncio sobre cada uma das propostas, seria repetir uma prosa interminável, relembro apenas que elas fazem parte do pacote que é a "transformação global da escolaridade". Pacote saído do mais refinado e eficaz neoliberalismo global, o qual passou a governar os governos e, portanto, a nossa vida; 
3) Note-se que chegámos a um patamar tão refinado e eficaz desse neoliberalismo, que mais velhos e mais novos são levados a pensar exactamente o que se pretende que, nesse quadro, pensem, julgando que é pensamento próprio. Somos já nós que pedimos a transformação que há muito está definida para nós, nada nos é imposto, nós queremos o que nos prejudica, crendo que nos beneficia; 
4) A debilidade política de governos e governantes é aqui bem visível (será que estes não a vêem?): pede-se a jovens que indiquem aos decisores políticos as decisões que lhes cabem. E é o próprio Presidente da República a reconhecê-lo, sugerindo os ganhos de efectivar essas decisões em acções (o Ministro da Educação tem feito o mesmo); 
5) Por último, estamos perante um excelente exemplo d' "a morte da competência": quem não tem formação, saber, experiência em áreas tão sensíveis e importantes como as assinaladas, áreas que requerem um elevado grau de especialização, é convidado a dar a "sua opinião", sendo que, não obstante, como referi acima, essa opinião comum, desavisada é ouvida "atentamente" por representantes do país que, além disso, dizem, levá-la em conta.
Para se compreender bem o que acima escrevi, será de "visitar" a fundação em causa. Ver aqui.

sábado, 26 de novembro de 2022

ORIGINAL É A CULTURA: NATUREZA E CULTURA

 https://omny.fm/shows/expresso-original-a-cultura/a-natureza-e-a-cultura

NADA DO QUE TENS NO CORAÇÃO TE PERTENCE

I

Nada do que tens no coração te pertence.

Mas há uma razão para aí permanecer

Além do tempo que já não te pertence.

Luz e palavra que ninguém pode exceder.

É aí que reside o amor: é outro rosto,

A doçura da palavra quase dita sem fôlego,

A melancolia que sucumbe num tímido sorriso.

Ninguém pode suceder a esse outro rosto.

Brilho vernal que nas águas escuras floresce.

Zumbido que acorda e me leva o coração.

II

Que poderei dizer do amor,

Se o coração me responder?

Ao coração tanto respondo

Que me ouve sem nada dizer.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

OS GLADIADORES DA GLÓRIA

Lutar pela glória permite tudo:
a cegueira, a traição, o atropelo.
É preciso ter coração peludo
e maneiras de cobra de capelo.

Poder trepar aos píncaros da glória
exige corpo frio de lagarto,
como a Lady Macbeth da história:
o ventre gelado, o peito farto!

Trepa-se a murro e com punhal,
insensível ao grito e ao sangue.
Sacode-se o empecilho da moral

e deixa-se o obstáculo exangue.
O aspirante à glória abomina
quem dela se não torna Messalina. 

Eugénio Lisboa

lançamento do CD "A Química do Amor", no dia 27 de novembro, às 16h30, no Momo - Museu do Circo, em Foz de Arouce

Recebemos a seguinte informação que está disponível Direção-Geral das Artes:

"A companhia Encerrado para Obras vai lançar o CD "A Química do Amor", no dia 27 de novembro, às 16h30, no Momo - Museu do Circo, em Foz de Arouce, com o apoio da Direção-Geral das Artes.

O disco reúne as canções do espetáculo de teatro "Quimicomic". Ao todo, são sete canções que abordam diversos temas da Química, tais como as reações  ácido-base, a tabela periódica, os estados físicos da matéria, ou ainda as hormonas, tópico principal da canção A Química do Amor, tema musical que dá o nome ao disco.

A sessão de apresentação do CD inclui um concerto com os músicos Cláudia Santos, David Cruz e João Balão. Inclui, ainda, a projeção de um vídeo com algumas cenas do espetáculo "Quimicomic" e o videoclipe da canção "O Alfabeto do Universo", que será disponibilizado livremente na internet, a partir de dezembro.

Todas as canções têm letra e música de David Cruz, diretor da Encerrado para Obras. A direção musical do disco está a cargo do músico multi-instrumentista João Balão. Participam no trabalho  um total de nove músicos profissionais oriundos de várias regiões do país. Destaque para a participação da Sociedade Filarmónica Lousanense no tema "O Alfabeto do Universo".

Apoios: Direção-Geral das Artes, Câmara Municipal da Lousã e Companhia Marimbondo"

A Figueira, os Livros e os Autores

Artigo meu saído no jornal O Figueirense (foto minha das margens do Mondego na Figueira):

Ouvi há dias na TSF uma excelente entrevista, que está disponível em podcast, do jornalista Fernando Alves, da série «Onde nos levam os caminhos», com Miguel de Carvalho, designado pelo entrevistador por «livreiro, editor e poeta da Figueira da Foz que se enamorou dos surrealistas». Nele conta a sua história de vida, o modo como se tornou alfarrabista deixando de ser geólogo e como trocou a Baixa de Coimbra pela arejada livraria com o seu nome na Rua Dr. José Jardim, em plena Baixa da Figueira da Foz (segundo ele, a cultura na Baixa coimbrã foi uma senhora que morreu de prolongada doença).  A entrevista acaba num restaurante próxima, com paredes cheias de memórias da antiga Figueira.

A Figueira da Foz tem, felizmente, mantido viva a cultura, sabendo absorver os «emigrantes culturais» e outros sítios. No capítulo das livrarias, para além da loja de Miguel de Carvalho, a oferta não é muita, mas destaco a livraria infanto-juvenil Bruaá no Centro de Artes e Espectáculos. Mas gosto sempre de visitar a Feira das Velharias, que se realiza nos primeiros sábados de cada mês, que passou do jardim municipal para a beira-rio (um sítio magnífico pelas vistas sobre a água!), e que, sem qualquer dúvida, ganha à Feira de Velharias de Coimbra, que deixou a Praça Velha para ir para as imediações da Loja do Cidadão (vulgo «bota-abaixo», foi de facto um «bota-abaixo do local da Feira). 

No domínio dos livros, visitei a Feira do Livro da Figueira da Foz durante o Verão numa tenda gigante em Buarcos, que continuava bem fornecida apesar da mudança de sítio (fiquei com a ideia de que o sítio anterior era melhor): vi a Guida Cândido, autora de vários e bons livros de história da gastronomia (tem um sobre a gastronomia figueirense, apoiado pelo município) a assinar as suas obras e só não assinou para mim porque tenho tudo o que ela publicou. 

E também já tive o gosto de participar nas «Quintas de Leitura» organizada pela Biblioteca Municipal (que tem um espólio de dimensão impressionante e que teve o mérito de digitalizar e mostrar on-line boa parte dos jornais regionais), tendo verificado que o evento mobilizava público. Mais ocasionalmente, também já participei em lançamento de livros e outros eventos culturais no Casino da Figueira da Foz, tendo ficado com a ideia, talvez injusta, de que o Casino pode fazer, nesta área, muito mais do que tem feito.

É bem conhecida a riqueza do rol de autores literários que a Figueira tem fornecido. Lembro-me assim, de repente, ordenando-os por ordem cronológica de nascimento, de João de Barros (1881- 1960), não o das crónicas da Índia, mas o poeta, pedagogo e político que se distinguiu durante a Primeira República (o filho Henrique de Barros distinguir-se-ia após o 25 de Abril): João Gaspar Simões (1903-1987), que durante muito tempo foi o «campeão» na nossa crítica literária: Maria Manuel Viana (n. 1955), uma escritora que se tem distinguido na defesa dos direitos das mulheres; Gonçalo Cadilhe (n. 1968), o incansável cronista de viagens; Afonso Cruz (n. 1971), um dos mais originais autores contemporâneos; e Nuno Camarneiro (n. 1977, em Coimbra, mas com família ligada à Figueira), que foi meu aluno no curso de Engenharia Física da Universidade de Coimbra. 

Tenho, para ler, na minha mesa de cabeceira, os recentes As Evidências Nocturnas, de Maria Manuel Viana (Teodolito, 2021), A Casa das Perguntas (Minotauro, 2022), uma obra infanto-juvenil de Nuno Camarneiro que ele fez o favor de me mandar assinada,  e estou à espera de mais um volume da Enciclopédia da História Universal de Afonso Cruz, intitulado Deuses e Afins, prometido para o mês de Novembro (estes volumes deixam-nos sempre na dúvida entre ficção e realidade).  Isto para já não falar de referências à Figueira por autores que por lá passaram como Jorge de Sena, no admirável Sinais de Fogo, que retrata os conturbados tempos da Guerra Civil espanhola.

No domínio das ciências, pontificaram os seguintes figueirenses, que elenco de novo por ordem cronológica de nascimento: António dos Santos Rocha (1853-1910), arqueólogo de renome e primeiro director do Museu Municipal; Luís Wittnich Carrisso (1886-1937), botânico  da Universidade de Coimbra que faleceu em Angola na sua terceira missão científica aquele território; Joaquim de Carvalho (1892-1958), filósofo e historiador de ciência que dirigiu a Imprensa da Universidade de Coimbra; e Manuel Rocha (1913-1981), um dos nossos maiores engenheiros civis, que se distinguiu como director do LNEC- Laboratório Nacional de Engenharia Civil.

De alguns destes figueirenses notáveis, designadamente os mais antigos, arranjam-se livros na Livraria Miguel de Carvalho ou, procurando bem, na Feira das Velharias. Sempre que lá vou gosto de ser surpreendido. A Figueira da Foz tem o enorme dom de me surpreender de cada vez – e são muitas – que lá vou.


*Professor Aposentado de Física da Universidade de Coimbra

Dois poemas

I)

Se eu amar, se houver amor,
E o amor por vezes é um rio veloz
Ficando aquém da razão de florir,
Canto, como se fossem mar
Até as águas que não foram foz.

II)
A noite longe de ti, mãe.
Longe do teu colo e do brilho.
Tenho o quarto, ninguém.
Tenho o rio, ninguém.
Olho ao redor, ninguém.
Estou só, longe de ti, mãe.
Apenas o coração ainda faz
Com que eu chame retiro
A este quartinho e ao rio.
Oh, o peito perseguido pela dor!
A noite longe de ti, mãe.
E jazem o quartinho e o rio.
E jaz o sonho latente.
Jaz tudo em mim e ao redor.
O teu passo estugado persigo
Na terra dura do trilho, mãe.
Então começa, no amplo silêncio, 
Do menino o amplo sopor.
Ao teu colo, me retiro,
Em paz, do mundo, onde
Ainda nada sei sobre o amor.

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

REPRESENTAR A PÁTRIA OU SOMOS OS MELHORES DO MUNDO

Esta ditosa pátria minha amada
enviou os seus barões assinalados,
de cabeça solene e levantada,
representá-la num dos emirados. 

Jogava-se ali o nosso destino:
ganhar ou não ganhar o campeonato
fazia do país grande ou franzino,
o que tornava o povinho insensato.

Que importavam os direitos humanos,
que não tinha a mulher Qatari
e os trabalhos mais que desumanos

se o que importava era o charivari?
Ali, no abençoado relvado,
o nosso passado era confirmado!

Eugénio Lisboa

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Branca no canto a espuma

Branca no canto a espuma

A espraiar-se no tempo.

A correr a areia e a sitiar-te

Mais veloz do que chuva.

E o sol alto só podia dar-te

Uma outra pele e lume.

Do sal dos ombros tão perto,

Perto do chão do teu ventre,

O sol a arder, quase no cume.

E o peito que só podia dar-te

A dor, o deserto e o negrume,

Deu-te o canto, para sempre,

O branco do mar e o sol ardente.


segunda-feira, 21 de novembro de 2022

O ÁLVARO DE CAMPOS NÃO SABIA O QUE ERA LEVAR PORRADA

O Álvaro de Campos descobriu
nunca haver descoberto ninguém 
que tivesse levado porrada. Viu
que, porrada, só ele e mais ninguém.

Com desprezo, olhou à sua volta
e só viu gente porreira e intacta.
Mas esta conversa ligeira e solta
só deixa a gente d’hoje estupefacta!

Renascesse e fosse ver a Ucrânia,
e veria o que é levar porrada,
da dura, como era na Germânia.

Porrada que deixa a gente cagada,
estropiada ou morta, só na guerra,
onde morto nem sempre se enterra!

Eugénio Lisboa

OS PRINCÍPIOS DA EDUCAÇÃO : 2.ª PARTE

Segunda intervenção minha no debate on-line sobre educação realizado em 15/Junho/2020:

Mário Fortes –Tenho aqui uma que vai já diretamente para o Prof. Carlos Fiolhais, que é do Prof. Eduardo Leite: não obstante a importância da educação, tendo em mente a lição de Hannah Arendt, o homem sem consciência e moral, não estará, infelizmente, a prosperar nas sociedades modernas?

Carlos Fiolhais – Quando me pedem-me para comentar as possibilidades que podem acontecer no futuro, sei que corro sempre alguns riscos. Aliás qualquer pessoa que fala do futuro arrisca-se a errar, quer dizer, adivinhar o futuro é impossível. Nós não sabemos o que vai acontecer. Quem diria no final do ano passado que este ano estamos a viver a situação de pandemia? As pessoas, com base na pandemia, estão agora já a projetar cenários. Esses cenários são, em geral, desejos das próprias pessoas. Essa atitude é bastante natural. Nós projetamos aquilo que por que ansiamos, mas o certo é que ninguém sabe como será o mundo daqui a um ou dois anos e muito menos a dez ou vinte anos. Não fazemos ideia nenhuma. Apesar dessa incerteza ou mesmo por causa dessa incerteza, a educação escolar continua a ter um papel. E é um papel muito forte.

 Permitam-me que seja crítico de algum rumo deste mundo cuja economia, com a ajuda da técnica, se globalizou muito rapidamente. O dinheiro circula muito mais rapidamente do que as pessoas. Ganha-se, aliás, dinheiro só com a circulação de dinheiro, por vezes sem acrescentar nada, sem prestar quaisquer serviços: ganha-se dinheiro simplesmente ao movê-lo de um lado para o outro. A economia do mundo decorre sem grande controlo. Ora, a economia está relacionada com a educação e nem sempre da melhor maneira. Não é por acaso que o Banco Mundial, por exemplo, trata de problemas de educação, estabelece objetivos para a educação. Não é por acaso que as métricas (a Luísa falou da questão das classificações) comparativas da educação dos vários países sejam criadas pela OCDE – a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico – que anda a par com o Banco Mundial. Isto significa que, de uma maneira ou de outra, por vezes de maneiras muito subtis, a educação escolar pública – noto o carácter “público” – é colocada ao serviço da economia, podendo nós ter dúvidas acerca dos princípios de justiça social subjacentes. E podendo nós ter dúvidas se o desenvolvimento de que se fala é apenas para uns e não para todos. Vivemos num mundo ferido por profundas desigualdades. Daí que apareçam esses sentimentos da falta de consciência e moral.

Curioso, nesse processo de domínio da educação pela economia e é que os professores tenham perdido boa parte da autoridade que tinham. Uso aqui a expressão “autoridade” no sentido que Arendt lhe deu: ser “autor” por ter dado uma interpretação única ao conhecimento de que beneficiou, e que oferece aos mais jovens para que eles construam a sua “autoridade”. Os professores, dizia eu, têm de cumprir objetivos comportamentais, que são embrulhados em frases bonitas, onde consta destacada, por exemplo, a palavra “humanismo”. Por vezes não há nada de humanista nos objetivos que são determinados e que parecem estar afinados para excluir o pensamento abstrato, aquele pensamento que nos conduz ao que de melhor há na nossa condição humana. Esses objetivos, a que agora se chamam “competências transformadoras”, estão por todo o lado do mundo, incluindo em Portugal.

A estrutura pretensamente teórica que é invocada desvaloriza o conhecimento (a Luísa concordará comigo porque eu estou a concordar com ela), o que interessa já não é o saber, mas o fazer. Nessas competências – definidas de uma forma muito equívoca, de modo que ficamos sem saber o que realmente são –, os conhecimentos estão lá, mas como ingredientes práticos para resolver problemas do quotidiano, têm perdido a dignidade que tinham. Incluem ou remetem para as emoções, os afetos, o trabalho de grupo, a aprendizagem ativa... coisas que fazem um belo ramalhete, mas julgo que não serão relevantes sem um conhecimento sólido das ciências, das humanidades, das artes, da motricidade. Quando se fala, por exemplo, de passarinhos da Primavera, temos de ter uma ideia sobre aves e sobre estações do ano, o que não nos deve impedir de gozarmos o chilrear. E não estou apenas a falar de conhecimento científico. Por vezes, fala-se em passarinhos na Primavera sem conhecer o que a grande literatura já disse sobre isso. Por outras palavras, há um apagamento do saber em nome de outras coisas que não conseguimos perceber bem o que são, mas do que percebemos podemos conjeturar que não concorrem nem a bem dos mais jovens nem do mundo. Um responsável do PISA – Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes –, da OCDE, disse em Portugal, como diz noutros países que não é necessário dar conhecimento aos alunos, pois lhes bastará usar o Google, que tem respostas para tudo. A ideia é que agora está tudo nos telemóveis, está tudo nos computadores e, portanto, só temos de os consultar. Ora o Google é um grande «burro», não sabe nada, quer dizer, se eu quiser saber alguma coisa o Google poder-me-á ajudar, mas tenho primeiro de saber alguma coisa. Se eu não souber nada, o Google será absolutamente inútil. O Google não pode levantar as questões por mim, não pode antecipar nenhuma das minhas questões…

As orientações da OCDE estão cheias de metas, uma noção que tem muito a ver com a economia, à qual está subjacente a questão da produtividade. Trata-se, no fundo, de fazer uma escola – ou algo parecido com ela – que não pense nem leve a pensar. Os professores não são chamados a pensar e os alunos muito menos. Como é que os alunos vão, com essa escola, conseguir pensar?

Portanto, estamos perante perigos vários, e alguns deles estão relacionados com a globalização económica. Há aspetos positivos na globalização – partilho dos ideais do José Eduardo Franco sobre um melhor mundo global -, mas temos de encontrar, entre os diversos conceitos de globalização, o que está de acordo com os princípios éticos que assistem à educação. Agora a questão é como é que vamos afirmar esses ideais na vida, em particular, como é que vamos incorporá-los na escola? Voltando a Hannah Arendt – cuja vida, como a nossa, teve as suas contradições: sendo judia perseguida pelo nazismo teve um caso amoroso com Martin Heidegger, um reputado nazi (mas atenção, não deixou de ser um grande filósofo por ser nazi) – no ensaio que referi – A Crise da Educação – escreveu: «O papel da escola consiste em ensinar às crianças o que é o mundo e não lhes inculcar a arte de viver. Dado que o mundo é velho, sempre mais velho do que eles, o facto de aprender está inevitavelmente voltado para o passado, sem ter em consideração a proporção da nossa vida que se dedicará ao presente.» O que quer isto dizer? Nós falamos de futuro – é essa a tónica da educação – quando não sabemos nada do futuro. Isto não quer dizer que a escola negue a preparação para o futuro, efetivamente tem de a assegurar, e sabemos que, nesse futuro, seja ele o que for, precisamos de pessoas razoáveis, sensatas, dialogantes, que não tenham uma atitude rígida, dogmática, mas isso não significa que as tornemos mão-de-obra servil, não pensante. A escola devia ter o propósito iluminista, kantiano, de “ter o atrevimento de pensar”. Temos de ter o atrevimento de pensar a escola, a escola nos seus fundamentos e propósitos. A escola está, neste momento de globalização, ameaçada pelo grande perigo de afastar o pensamento; compete-nos evitar as suas consequências mais funestas.

Mário Fortes – Prof. Carlos Fiolhais, atrevo-me a formular mais uma questão depois daquilo que disse e da sua brilhante exposição: como é que seria para si a escola ideal?

Carlos Fiolhais – A escola, a educação que desde há milénios lhe está confiada, é um problema que temos de enfrentar. Não há uma solução para ele que seja imediata e definitiva. Há um princípio da escola, um propósito da escola, que eu considero intemporal, que é a garantia do humano. Os seres humanos constroem-se com a ajuda da escola. Os seres humanos não seriam os mesmos, não serão os mesmos sem a escola – eu, em particular, não seria o que sou se não tivesse andado na escola. Eu sou eu, claro, mas isso resulta em primeiro lugar dos meus pais (que me deram os genes), em segundo lugar dos meus professores (que me deram o conhecimento do mundo, que não estava nos genes) e só em terceiro lugar de mim próprio (que procurei o conhecimento do mundo). Para esse desafio que me lança, não encontro outra resposta além desta. Em cada momento histórico, temos de construir a escola que é melhor para construir o ser humano e para a odisseia da humanidade. Não consigo imaginar como será a escola de amanhã. E o que eu critiquei é o facto de algumas pessoas hoje quererem alinhar a escola por um projeto de sociedade a que chamam «Quarta Revolução Industrial», um conceito que é mais ou menos quimérico. Não digo que o mundo de amanhã não vai ser diferente. Claro que vai. Mas eu não sei quais vão ser as diferenças e a escola tem de ter guardiã da tradição que permite enfrentar o futuro. A escola tem de ser, eu vou arriscar dizer – espero que esta seleta audiência não me crucifique por dizer isso –, conservadora. Arendt disse isto e não foi bem vista nos Estados Unidos há seis décadas. Se a escola deixar de ser conservadora, deixará de cumprir a sua função essencial. A escola tem de dar o melhor do passado para termos um futuro melhor.

Mário Fortes- A pergunta foi provocatória...

Carlos Fiolhais – Na escola ideal vamos sempre colocar a questão de melhorar a escola. Daqui a dez anos vai-me colocar de novo essa questão e não haverá ainda uma solução, mas os princípios que estou agora a enunciar, os princípios de uma escola que seja uma garantia da história humana, poderão ser repetidos.

 

Ó meu pobre coração, perdes tudo

Ó meu pobre coração, perdes tudo. Não sabes tu inventar outra rua. E por ela fluísse o ar mais puro, A boca e a palavra sempre nua.