terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Prós e Contras - regulação da Cannabis para fins recreativos


O Prós e Contras em que participei ontem, acerca da regulação da Cannabis para fins recreativos:

https://www.rtp.pt/play/p5337/e443817/pros-contras

Recupero um artigo que escrevi no Público em 2018 acerca do uso de Cannabis para fins medicinais:

https://www.publico.pt/2018/01/14/ciencia/noticia/cannabis-medicinal-muito-exagero-e-algumas-aplicacoes-plausiveis-1799089

Da actual Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física à futura criação de uma Ordem dos Professores de Educação Física (2)


(2.ª e última parte do artigo)

Escrevi na altura: “A novel licenciatura conta já com uma massa crítica que só pode prestigiar a Universidade que a acolheu. Tem ela no seu corpo docente professores universitários oriundos da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa e professores de outras Faculdades de Coimbra, v.g. Medicina e Psicologia e Ciências da Educação.

Desta interdisciplinaridade de saberes muito terá esta licenciatura  a  beneficiar na perspectiva de George Gusdorf, “Da História das Ciências à História do Pensamento”:

“A atitude do especialista, quer seja matemático ou botânico, filólogo ou historiador, que se debruce ciumentamente sobre o estrito compartimento da sua própria competência deve ser considerada uma demissão. Qualquer dissociação do conhecimento é uma negação do conhecimento.

O dever presente é trabalhar para verificar, para dar corpo àquilo que um século de análise desmembrou. O pressuposto da especialização deve dar lugar ao pressuposto da convergência. Ciências e Letras, Ciências da Natureza e Ciências do Homem, que parecem votadas a caminhos distintos, devem tomar consciência, cada uma por seu lado, que são como paralelas que se afastarem da sua própria direcção encontrando-se no infinito”.

Na sua abrangente dimensão de ensino, de investigação e de prestação de serviços à comunidade, apesar da sua condição de neófita  já organizou ela alguns eventos em colaboração com sociedades científicas  e associações profissionais nacionais e estrangeiras como, por exemplo,“ “V Jornadas de Psicologia Desportiva”,  “V  Fórum da EUPEA” e as recentes “II Jornadas de Análise do Ensino em Educação Física”. Para Março do ano que vem, tem agendado o “IV Congresso de Educação Física e Ciências do Desporto dos Países de Língua Portuguesa, em organização conjunta da novel Licenciatura de Educação Física e a Universidade de Coimbra.

Injustiça seria não realçar o papel do Professor Francisco  Sobral, professor catedrático que transitou da Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa para a Lusa Atenas, para presidir à comissão instaladora  da licenciatura de Educação  Ciências do Desporto e Educação Física. Foi ele obreiro de todo um dinamismo que abriria as portas, no ano seguinte, à criação da oitava faculdade da vetusta e tradicional Universidade de Coimbra: a Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física.

Aliás, criação numa acção conjunta, coordenada e muito interessada do reitor da Universidade de Coimbra Rui Alarcão, seu vice-reitor Pinho Brojo e do presidente do Conselho Directivo da Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, Manuel Viegas Abreu como verifiquei nos encontros preliminares comigo havidos.

Como as coisa felizes não têm história, como pontificou o historiador Lopes de Mendonça, não me detenho sobre a criação desta Faculdade – ela própria fará a sua história!

Assunto arrumado, portanto!

Regressemos, assim, à desejada criação da Ordem dos Professores de Educação Física, fazendo uma  resenha do acontecido na altura. Assim:

“Aquando do “I Congresso de Educação e Desporto”, realizado na Figueira da Foz (1988), apresentei uma proposta, aprovada por esmagadora maioria,  na reunião preparatória realizada em Coimbra, para a criação de  uma Ordem  dos Professore de Educação Física. Teve este congresso a duração de três dias, com a presença de cerca de 500  congressistas, oriundos dos diversos cantos de Portugal Continental e das ilhas adjacentes da Madeira e Açores.

Só no último dia e ao cair do pano do proscénio do Congresso, foi a minha moção apresentada e votada tendo obtido os seguintes resultados: 79 votos contra, 54 a favor e 102 abstenções num total de 235 votantes. Ou seja, a votação foi realizada com a presença restrita, de mais ou menos, metade do número de congressistas por, entretanto, a outra metade ter já regressado a casa.

Passadas três décadas, a criação da Ordem dos Professores de Educação Física, curiosamente realizada, outrossim, na “Praia da Claridade, ”conheceu novos desenvolvimentos de que tive conhecimento, através do actual presidente do Conselho  Directivo, Professor José Pedro Leitão Ferreira, que há dias, me enviou uma missiva, que muito me  sensibilizou e que transcrevo devidamente autorizado pelo seu subscritor.

Num cartão escreveu ele (16.11.2019):

“Caro Professor Rui Baptista:Junto anexo uma cópia do meu discurso de encerramento do 11.º Congresso  Nacional de Educação Física, do passado fim de semana, na Figueira. Faço-o porque o mencionei  a  propósito de um assunto que sei ser-lhe  muito querido. Saiba que foi objecto de enorme aplauso de todos os  presentes logo que mencionei o seu nome.

Votos de rápidas melhoras do amigo José Pedro Leitão Ferreira”.

Nota: os votos de rápidas melhoras reportam-se uma queda que me obriga a permanecer em cadeira de rodas com um colete imobilizador durante 4/6 meses, por um fractura de vértebra  lombar, graças a Deus, sem lesão medular. Quatro meses estão quase cumpridos!

Transcrevo, agora, com natural emoção, o derradeiro parágrafo do discurso de encerramento do referido congresso, pronunciado por José Pedro Ferreira:

“Não poderia deixar de terminar esta minha breve intervenção prestando uma homenagem a um Homem de Coimbra que certamente estaria aqui entre nós se a saúde lhe permitisse, a um Homem da Educação Física – Professor Rui Baptista – que durante bem mais vinte anos se bateu por algo que hoje em dia se constata como uma necessidade – a existência de uma ordem profissional que regule e proteja os interesses da nossa área profissional, que possa dialogar em pé de igualdade com os diferentes intervenientes. Não o ouvimos com a devida atenção, deixámo-nos ultrapassar por ‘outros’ que chegaram de um passado bem mais recente.

Talvez ainda estejamos a tempo de recuperar”.

Para os Colegas que me aplaudiram  a minha muita gratidão acompanhada  por um abraço “ex corde” para o meu estimado Doutor José Pedro Ferreira

Finalmente, “tout va bien quand finit bien”. Ou seja, não só nos livros infantis e de adolescentes românticas  há epílogos felizes em que o príncipe casa com a gata borralheira ou o ricaço com a pobretana!

"ORIGINAL É A CULTURA" - ESTAR À MESA

https://sicnoticias.pt/programas/original-e-a-cultura/2019-12-07-Original-e-a-Cultura---Estar-a-Mesa-1

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Da actual Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física à futura Ordem dos Professores de Educação Física (1)

Enquanto os médicos, em tempos idos, só tiveram a concorrência dos barbeiros, o professor de Educação Física ainda vê o seu campo de acção invadido por simples curiosos com o imprimatur do Estado” (Quintino da Costa, professor do INEF em início da década de 50).

Continuo a considerar-me um defensor da criação de uma Ordem dos Professores de Educação Física, conquanto sobre a sua criação, comungue, por analogia, da opinião de Winston Churchill sobre democracia, dizendo ser ela a pior forma de governo exceptuando as outras.

Assim, as novas ordens profissionais e antigos sindicatos são uma forma de que tenho receio por não respeitaram alguns as respectivas funções misturando vinho de boa cepa com água de límpida fonte dando aso a uma verdadeira zurrapa! Mas aqui para evitar disposições legais confusas deverá morar, em sólido e inexpugnável castelo, “o soberaníssimo bom senso” de que nos falava Antero.

Situação confusa esta que me traz me à memória o escritor Pio Barojo quando descreve o acontecido com um ministro espanhol que se virava para o seu secretário, advertindo-o; “Veja lá senhor Rodriguez se a lei está escrita com a necessária confusão!”

Sempre que disserto sobre ordens profissionais encontro fundamento no meu livro “Do Caos `Ordem dos Professores” (edição do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados, Jan. 2004). Foi ele escrito no tempo em que eu desempenhava funções de presidente da Assembleia Geral do Sindicato Nacional dos Professores Licenciados, tendo proposto a criação de vários colégios da especialidade: Letras, Ciências, Educação Física e Desporto, etc.  

Na altura, deparei-me com vários constrangimentos vindos dos seus opositores sindicais e de um  professor de Coimbra que afirmava de cátedra não se enquadrar a profissão docente no âmbito de profissão liberal. Pouco a pouco, com a minha investigação desde os tempos anteriores ao Estado Novo até aos dias da sua publicação foram caindo folhas outonais dessa crítica (e outras) por perderem o viço de dogma. Mas isto são contas de outro rosário!

Sobre a criação de uma Ordem dos Professores de Educação Física, escrevi uma trilogia de artigos publicados com grande destaque no jornal desportivo “Record”: “A (des)Ordem dos Professores de Educação Física” (5. Fev. 1998); “Para um Ordem dos Professores de Educação Física” (20.Dez.1988); e “Ainda a Ordem dos Professores de Educação Física” (30. Dez, 1998).

No “Diário de Coimbra” (20.Dez.1988) era escrito em reportagem de um seu jornalista: “Professores querem avançar com projecto de estatutos". Nesse texto era dado conta de um jantar com  participação de duas dezenas de licenciados e bacharéis em Educação Física que, sentindo a necessidade de dar rosto a este grupo, decidiram  nomear um presidente, um vice-presidente e um tesoureiro, respectivamente Rui Baptista, José Eduardo Falcão e Adelino Marques.

O zénite destas acções em defesa da ordem passou a incidir, outrossim, sobre a criação da Faculdade Educação Física, noticiada, com grande destaque, com o título “Professores querem Ordem e Faculdade” (“Diário de Coimbra”, 8. Nov. 1989).

Esta tomada posição teve grande projecção nas margens do Mondego merecendo uma entrevista do grupo dinamizador na “Rádio Universidade de Coimbra”, em entrevista radiofónica (3. Nov. 1988) e uma detalhada entrevistado no”Diário de Coimbra” (6. Nov. 1989).

Extraio da entrevista supracitada uns tantos nacos de suculenta prosa:

 - “Um grupo de licenciados em EF anunciou em conferência de imprensa o propósito da criação de uma Ordem e a urgência criação da Faculdade de Educação Física na Universidade de Coimbra.”

- “A mesa que presidiu ao encontro com os jornalistas era formada pelos professores Adelino Marques, Luís Pires, Câmara Pestana, Rui Baptista, Vitor Azinhaga e  António Portas.”

- “Rui Baptista, a quem coube o papel de porta-voz do grupo, historiou as tentativas quanto à criação da  faculdade, aludindo à primeira comissão que foi nomeada, algum tempo antes de 25 de Abril, para estudar o assunto.”

Retiro um breve historial dessa minha intervenção:

Comecei por me referir à primeira comissão nomeada, antes de 25 de Abril., ter sido criado novo grupo seria nomeado, logo a seguir a 25 de Abril, “num voo cego rumo a nada” (Reinaldo Ferreira), seguindo-se-lhe um outro  há algum tempo. O trabalho de qualquer deles, no entanto, não teve quaisquer resultados práticos, menos por culpa dos seus membros, mais por responsabilidade de quem quis mais uma faculdade de Educação Física [na altura havia, somente, as faculdades de Lisboa e do Porto] em horizontes longínquos de terras transmontanas.

Tempos depois, foi nomeado um novo grupo de trabalhos que terminou há poucos meses as suas funções. Dele faziam parte dois doutorados em Educação Física, Olímpio Bento (Universidade de Porto) e Jorge Crespo (Universidade Técnica de Lisboa) que entregaram, à reitoria da Universidade de Coimbra, um plano de licenciatura. Era dado um passo em frente, não tão largo como o desejado, finalmente!

Entretanto, alertava eu para a situação de estarmos em Novembro, a uns tantos meses da  abertura do ano lectivo de 90/91, e ainda não se encontrar publicado a legislação que a devia instituir.

A notícia que dava conta desta reunião punha em realce “a presença, na conferência de imprensa, do catedrático Teixeira Dias, candidato a reitor, que, na recente apresentação do seu programa de acção, tinha enfatizado a necessidade de ciar “rapidamente a Faculdade de Educação Física de Coimbra”.

Finalmente, em 94 é criada na Universidade de Coimbra, adstrita à respectiva Reitoria, a licenciatura em Ciências do Desporto e Educação Física que passou a faculdade no ano a seguir.

Sobre esta licenciatura génese da futura Faculdade de Educação Física, teci as seguintes considerações” (“Correio da Manhã”,16.Dez. 1994):

“Tudo leva a crer que a criação desta licenciatura, em vez da muito ambicionada Faculdade se fica a dever ao facto de ser preferível um parto prematuro a um maior arrastamento de um processo que podia levar a um parto teratológico de que a Universidade de Coimbra não desejaria a progénie.

Seja como for, Infelizmente, nas Comemorações de mais um centenário da vetusta Academia Coimbrã, a mais antiga de Portugal e uma das mais velhas da Europa, não esteve presente a sua oitava Faculdade, seiva de uma pujante e remoçada Universidade. Entretanto num horizonte que as nossas mãos já alcançam, segundo fonte oficial, a Universidade de Coimbra passará a contar em breve com a oitava Faculdade – a Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física.

domingo, 8 de dezembro de 2019

"PENSAR O FUTURO": MINHA CONFERÊNCIA EM S.JOÃO DA MADEIRA

https://labor.pt/home/2019/11/28/o-importante-e-nunca-parar-de-questionar/

ORIGINAL É A CULTURA: A CRIAÇÃO TEM GÉNERO

https://sicnoticias.pt/programas/original-e-a-cultura/2019-11-30-Original-e-a-Cultura---A-Criacao-tem-genero-

CONGRESSO "ILUMINAR"


João Rui Pita - 1704: a Pharmacopea Lusitana

NOVA "ATLANTIS"

 “Atlantís” acaba de publicar o seu último número (em acesso aberto). Convidamos a navegar no sumário da revista para aceder à informação.
Agradecemos o seu constante interesse no nosso trabalho,
Imprensa da Universidade de Coimbra

Atlantís - review
v. 30 (2019)
Sumário
https://impactum-journals.uc.pt/atlantis/issue/view/409

[Recensão a] BUDIN, Stephanie Lynn & TURFA, Jean Macintosh (eds.), Women in Antiquity. Real Women across the Ancient World, Londres, Routledge, 2016, 1074 pp. ISBN: 978-1-138-80836-2.
Nuno Simões Rodrigues

[Recensão a] BECKER, Matthias Becker, Porphyrios 'Contra Christianos'. Neue Sammlung der Fragmente, Testimonien und Dubia mit Einleitung. Übersetzung und Anmerkungen. Texte und Kommentare, Bd 52, Berlim, De Gruyter, 2016, 667 pp. ISBN: 978-3-11-044005-8.
José Augusto Ramos

[Recensão a] OKÓN, Danuta, Album Senatorum. Vol. 1. Senatores ab Septimii Severi aetate usque ad Alexandrum Severum (193-235 AD), Szczecin, Uniwersytet Szczeciński, 2017, 398 pp. ISBN: 978-83-7972-125-2.
José d’Encarnação

[Recensão a] SOARES, Martinho, História e ficção em Paul Ricoeur e Tucídides, Coimbra, IUC, 2016, 641 pp. ISBN: 978-989-26-1296-6.
Breno Battistin Sebastiani

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Atlantís
http://impactum-journals.uc.pt/atlantis

CIÊNCIA NO FEMININO - O EBOOK

A exposição "Ciência no Feminino" no Rómulo em Coimbra em versão digital:

https://www.flipsnack.com/romuloccvuc/ci-ncia-no-feminino.html  

O candidato de Wall Street

Meu artigo de opinião no Público saído na quinta-feira passada:

https://www.publico.pt/2019/12/05/mundo/opiniao/candidato-wall-street-1896169

Escrevo de um hotel na mítica Wall Street, a pequena rua apertada entre arranha-céus em Lower Manhattan, Nova Iorque, onde fica a Bolsa de Valores. Na televisão passa um longo anúncio promocional de Michael Bloomberg, o mayor de Nova Iorque entre 2002 e 2013 que declarou há dias que entrava na corrida à presidência americana em 2020. Bloomberg é o 14.º homem mais rico do mundo, estando a sua fortuna avaliada em 58 mil milhões de dólares, vinte vezes mais do que a de Trump. É o fundador e CEO da Bloomberg L.P., que fornece informações e serviços a empresas de Wall Street.

O novo candidato, hoje registado como democrata (começou a sua vida política nesse partido, ganhou como republicano a presidência da câmara de uma cidade maioritariamente democrata, para depois se tornar independente e recentemente voltar ao Partido Democrata), propõe-se pagar do seu bolso toda a sua campanha, o que para ele, por muito que seja, não passará de uns trocos. O seu objectivo imediato – e ainda vem a tempo – é arredar Joe Biden, o candidato que está no topo das sondagens para as primárias dos democratas, logo seguido pelos senadores Elisabeth Warren e Bernie Sanders.

(...)

MICHIO KAKU: "CHEGAREMOS ÀS ESTRELAS"


Minha entrevista ao físico e futurólogo Michio Kaku (no final está um excerto em podcast):

https://www.publico.pt/2019/12/01/ciencia/entrevista/fisica-michio-kaku-carlos-fiolhais-1895629


sábado, 7 de dezembro de 2019

The "new normal". Ou seja, a " nova normalidade", ou, talvez, a "nova norma" para a "educação escolar global", diz a OCDE

Os países afectos à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), muitos deles situados na Europa, que, neste século, aceitaram, primeiro, acolher o Programa Internacional de Avaliação do Estudantes (PISA) e, de seguida, reorganizar o seu currículo escolar em função de princípios que, depois de burilados, deram origem ao documento, publicado em 2018, The future of education and skills. Education 2030. The future we want, não terão grande consciência da mudança que já se operou (destaco que não se irá operar, já se operou) nos seus sistemas de ensino.

Esta afirmação - que não tendo bases empíricas a sustentá-la, fica perto da opinião -, é feita sobretudo a partir no conhecimento que tenho da realidade portuguesa, mas leva, também, em conta o que estudo da realidade de outros países e o que me dizem colegas desses países.

Deixando de lado os agentes políticos (nacionais e locais), que têm, obviamente, a obrigação de implementar a reforma curricular ditada pela OCDE, vejo, 
- num pólo, investigadores/especialistas de universidades, directores e sub-directores escolares e, também, professores inebriados com ela, num indescritível estado de graça;
- num pólo oposto, profissionais incluídos nas mesmas categorias, num estado de perplexidade variável, mas onde está marcada a desorientação, o descrédito, quando não a desistência e a amargura.
Defendo ser preciso proporcionar, de forma completa, objectiva e honesta, informação a quem está no sistema e (ainda) se preocupa com ele, a quem (ainda) se considera responsável pela aprendizagem formal das crianças e jovens. É preciso proporcionar informação porque, não obstante estar muita dela disponível online, a sua indescritível quantidade aliada à sua particular natureza requer apuramento, leitura e sistematização, e, neste processo, separação do que é da ordem da ideologia e do que é da ordem do conhecimento.

Trata-se de um trabalho que demora muito, mas mesmo muito tempo; tempo que nem directores nem professores têm (lamentavelmente, o tempo que têm é para executar, não para estudar e pensar). Contudo, é um trabalho crucial, que deve ser feito, nas escolas e/ou nas universidades, de modo que a informação crua (isto é, sem interpretações) chegue em "doses digeríveis" a directores e professores de modo que estes possam usá-la para tomar decisões compagináveis com as suas funções no quadro escolar.

Esta nota é a propósito da recente publicação das "re-orientações" da OCDE para a educação global, decorrentes da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU), a que o leitor pode ter acesso nos dois vídeos que se seguem. São documentos que deveriam obrigar a um debate profundo  e, obviamente, esclarecido, em cada escola, no sistema, no país.

Future of Education and Skills 2030: The new “normal” in education 

Future of Education and Skills 2030: OECD Learning Compass 2030

quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Meu texto publicado em Cartas ao Director, hoje, no Público:

A ADSE e o SNS
Os responsáveis pela ADSE ficam mudos a todas as reclamações que faço. Ou quando “generosamente” respondem, fazem-no para me passarem o estatuto de ignorância de eu não ser capaz de interpretar textos legais. "A contrario sensu", faço essas reclamações, precisamente, por considerar que a legislação da ADSE despreza, pela sua aplicação retroactiva, princípios de boa-fé e protecção de confiança, relativamente à expulsão dos familiares de seus beneficiários por terem passado a usufruir de pensões de miséria da Segurança Social. Com teimosia, repetem a minha pretendida ignorância em interpretar textos legais, nada valendo eu avocar ter uma 4.ª classe do antigo ensino primário que me habilitou para a interpretação de textos literários e diploma de estudos de ensino superior que me dão uma certa garantia de não ser estúpido de todo. Usando, apenas, do direito de cidadania em fazer perguntas e em ser esclarecido, limito-me a insistir para que a ADSE me informe sobre o bom senso de uma medida que atirou para os braços de um  moribundo SNS (Serviço Nacional de Saúde) nova “clientela” que deixou de interessar a uma medicina privada destinada àqueles que sacrificam os seus muitos ou parcos haveres em prol do supremo bem de uma vida com saúde Entretanto, pobres e remediados são lançados para a antecâmara da morte de uma assistência hospitalar carecida de meios humanos e materiais em decadência acelerada sem medidas governamentais que trave este "status quo". Rui Baptista, Coimbra

Fisiologistas do Exercício (6)

(Em defesa de um mestrado em Fisiologia do Exercício a ser criado na Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra).

Com este texto, dou por terminada uma série de seis artigos. Nele dou conta de exercícios de musculação na terceira idade. que, há anos, era havida como a recta final da vida (50-77 anos), ampliada hoje para uma quarta idade de 78-105 anos, para já não falar de hipotéticas promessas de vida eterna!

O conceito de idade, dos meus tempos de adolescente, traz-me à memória  a lembrança de meu Pai, então cinquentão, que, quando  se referia à rapaziada do seu tempo, despertava  em mim uma sonora gargalhada acompanhada do comentário: “Rapazes do seu tempo? Velhotes do seu tempo, isso sim!”

Com o aumento de número da anos de vida, a preocupação da sociedade não pode descurar a velhice desamparada de meios que retardem várias doenças.

Consequentemente, tenho como urgente a criação de um mestrado (sem subdivisão de uma licenciatura) em Fisiologia do Exercício, na Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física da Universidade de Coimbra, que faça frente a uma sociedade hipocinética responsável pela sarcopenia (diminuição da massa muscular e concomitante perda de força). 

Segundo o Doutor José Maria Santarem, em colaboração com dois colegas: “A piora da capacidade funcional dos idosos, que compromete a realização de tarefas simples do cotidiano, pode ser explicada, em grande parte, pela redução dos sistemas cardiorrespiratório, ‘sacopenia’, diminuição força muscular, redução do equilíbrio e alterações ósseas degenerativas que diminuem a flexibilidade articular".

Vai para meio século, a este propósito, no meu livro, “Educação Física- Ciência ao Serviço da Saúde Pública” (1971); no capítulo  “Educação Física e Gerontologia”, depois de tecer considerações de natureza científica  e da minha  experiência de vida de quarentão, escrevi:

“Reporto-me ao envelhecimento “não como fenómeno essencial do que é normal, mas de aparecimento insidioso por fora de tempo", como escreveu alguém.

Para as doenças tendo como etiologia o sedentarismo dos nossos dias, considero tão importante, no que respeita à saúde dos cidadãos, a construção de uma pista de atletismo como a construção de um hospital; de uma piscina como de uma casa de saúde; de um campo de jogos como de um posto sanitário”.

Encontro nisto o desejo de que na velhice, como diria Bulhão Pato, “o ardor da adolescência corra nas veias”, através de um vigor físico devidamente conservado pela prática de exercícios físicos que faça esquecer a idade cronológica avançada nos anos quando confrontada com a dade fisiológica retardada no tempo. Por outras palavras, ao processo de envelhecimento deverá contrapor-se não cómoda renúncia, mas um  combate sem tréguas de todo o organismo a um quadro de velhice precoce.

Na minha senda em defesa do exercício físico contribuir para saúde pública, pela minha experiência pessoal da influência dos pesos e halteres poderem contribuir para este desiderato, publiquei um livro baseado na minha conferência, proferida na Sociedade de Estudos de Moçambique (1973), que mereceu, do meu ‘compagnon de route’  engenheiro Rogério de Carvalho, o posfácio que reproduzo, em homenagem póstuma, mais de que merecida, por motivos vários, de entre eles a nossa amizade e a notável, eficaz  e de bela forma literária da sua prosa:

“Se as conferências sobre pesos e halteres, do Dr. Rui Baptista, tiveram o êxito assegurado, pela autoridade do conferencista, a publicação deste livro, nem por isso, deixava de se impor como primeiro contragolpe em defesa da caluniada ginástica com pesos, como concreto e valioso passo para retirar a modalidade do campo sempre impreciso do empirismo e como meio de libertar os cultores mais timoratos da preocupação subconsciente pelo futuro dos respectivos e preciosos sistemas cardiovasculares.

Ainda que circunscrito, quanto mais não seja pelo título, o estudo do Dr. Rui Baptista atinge o “coração” do problema. Este mais um dos seus inegáveis merecimentos: a reputação dos pesos e halteres, aliás como muitas outra reputações, anda entregue ao virulento boato e a imprecisões tendenciosas; dir-se-ia mesmo que o cultivo dos “ferros”, imerecidamente rescendendo a brutalidade e à origem plebeia dos hércules de feira, se opõe, no consenso  burguês, herdado do século XIX, ao cultivo das coisas do espírito que, por sua vez, e não se sabe bem porquê, se associa à palidez e à debilidade do corpo.

O saudável desenvolvimento muscular é no vasto e alheado mundo dos que ignoram os ginásios, indício de falta de sensibilidade e tacanhez de inteligência. E quero lembrar que, de ente as acusações, já de âmbito académico, atribui-se a esta ginástica o malefício de tornar mais ansiosos os tensos e mais neuróticos, os deprimidos, graças a um qualquer e desconhecido processo de contracção muscular. (1)

Mas onde a ré parece não ter absolvição é no que respeita ao coração que “arruína” e aos pulmões que “arrebenta”. Rui Baptista seu público defensor, faz mais do que atingir tecnicamente o centro de gravidade dos meios de detracção. Opõe-se, com ousadia, estribada no conhecimento e na investigação, ao doutor Cooper, estrela de momento, formidável adversário dos pesos e halteres, pelos recursos à americana, de que dispõe e pelo prestígio da astronáutica a que está indirectamente ligado.

Este estudo permitirá, mais do que conseguiram, sem dúvidas, esclarecedoras conferência sobre o assunto, desfazer tabus e atrair à modalidade a legião de tímidos que a maledicência arreigada dos tradicionalistas vem assustando.

Rui Baptista é, dada a natureza da luta e dos adversários, mais do que um técnico - é um cavaleiro andante de uma cruzada tão útil e nobre que todos nós, sectários inatos da mesma seita, só lhe podemos louvar os justo e autoritários golpes de montante que, com os riscos que correm todos o apóstata, vem desferindo por uma causa  que há-de vencer, através de todas as modas, no fundamental campo da cultura física: a dos PESOS E Halteres!”

(1) É um facto que todo  trabalho muscular intenso e para mais se associado  a situações novas de pressão como o  acontecido nas competições desportivas pode ser responsável pelo tensão nervosa Todavia, nos pessoa e halteres (culturismo),  mercê de um automatismo de gestos promotora de uma economia do consumo de oxigénio, ao nível do cérebro e do resto corpo, e de um aumento do fluxo sanguíneo, verifica-se uma eficaz drenagem de  produtos tóxicos motivados pela da contracção muscular, como o ácido láctico.
Desse fenómeno nos apercebemos quando após um dia intenso estudo, de trabalho extenuante, somos assaltados por ligeiras cefaleias que, gradualmente, com o treino com pesos vão desaparecendo dando lugar a uma salutar euforia psíquica “.

Premunição de um saudoso amigo, Rogério de Carvalho, que só  viria ecoar em granítico muro científico, passados 28 anos, quando enviei, o meu livro “Os Pesos e Halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper”,ao Professor José Maria Santarém, médico fisiatra e reumatologista de valioso e extenso currículo científico, doutorado em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (Brasil), coordenador do Centro de Estudos em Ciência da Actividade Física da Disciplina de Geriatria da Faculdade de Medicina de São Paulo sendo um dos pioneiros na utilização terapêutica dos exercícios resistidos  e aplicação na promoção da saúde em geral, etc., etc. 

Como é natural, muito honrado e com grande júbilo, recebi, passado pouco tempo, a resposta seguinte:

“Com muita alegria recebi o seu livro e a sua carta. Nossos ideais são comuns, e nossas dificuldades históricas também. Felizmente hoje as evidências nos apoiam e somos ouvidos, mas é sempre emocionante lembrar os tempos em que éramos quase ignorados.

Gostei muito do seu texto que, naturalmente, deve se lido com a lembrança do conhecimento de então. Como me pediu, segue, em anexo, um texto meu actual que é um capítulo de livro de medicina do esporte, ainda a ser editado.

Meu desejo é que um dia nos possamos encontrar e rir bastante com as dificuldade do passado Um abraço fraterno. Santarem.”

Com estes seis textos gostaria de tornar realidade o meu modestíssimo contributo para a necessidade da criação do mestrado em Fisiologia do Exercício na Faculdade de Ciências do Desporto da Universidade de Coimbra.

E se é verdade, segundo Pessoa, que “homem sonha e a obra nasce”, tenho fé  que o meu sonho passe a realidade!!

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

A normalização da "colaboração" entre organizações políticas e entidades sociais da mais diversa natureza, com destaque para as empresas

Os leitores que estão afastados do sistema de ensino talvez não saibam que o currículo escolar integra uma área designada, neste momento, por "Cidadania e Desenvolvimento". No espírito do que se designa por "Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania", essa área ganhou especial protagonismo, sendo composta por dezassete temas que devem ser tratados ao longo do percurso académico (ver, por exemplo, aquiaquiaqui).

A Direcção-Geral da Educação além de explicitar orientações gerais para cada um desses temas, disponibiliza documentos que certos agentes/parceiros educativos "oferecem" (com a legitimidade que a lei lhes reconhece) ao sistema, a escolas e professores, a formadores, a dinamizadores.

Ora, quem são tais agentes/parceiros? São, em muitos casos, empresas/fundações multinacionais e nacionais que têm alguma afinidade com os temas. Por exemplo, para o tema Saúde, são empresas de alimentação, de artigos de higiene, etc.; para o tema Literacia financeira, são bancos, seguradoras e afins; para os temas de Desenvolvimento sustentável e Educação ambiental são empresas de combustíveis, produtora de energia, etc. 

A "lógica" é a seguinte: empresas que causam danos, em muitos casos graves, às pessoas e ao mundo, propõem-se participar na educação dos mais jovens para impedir que esses danos sejam causados. Isto é feito, repito, com conhecimento e permissão dos sistemas de ensino, infiltrando-se neles, desde o nível nacional até ao nível local.

A mensagem que fazem passar não é, evidentemente, esta; é, pelo contrário, uma imagem de filantropismo, de beneficência acima de qualquer suspeita. E, não obstante a evidente contradição  (e grave), todos nesses sistemas parecem achar normal, e mais do que isso: muito bem! Estranho é que alguém estranhe e conteste, como estou a fazer aqui.

É evidente que as empresas que operam deste modo nos sistemas e nas escolas não operam apenas aí; operam nos mais variados sectores da sociedade, mesmo nos políticos, sejam eles nacionais, internacionais ou supranacionais.

Esta nota tem a ver com o seguinte: foi notícia o patrocínio de empresas à Cimeira das Nações Unidas sobre o clima, que está a decorrer em Madrid (aqui e aqui, por exemplo). E, salienta-se, que a empresa que mais dinheiro disponibilizou é a produtora de energia que mais contribui para elevados níveis poluição no país vizinho (ver aqui). É “patrocinadora diamante” do evento. Além disso, terá comprado, com fins de apresentação de imagem, a capa de vários jornais (ver ao lado a declaração de uma autarca.

A estreita "colaboração" entre organizações que defendem direitos fundamentais e entidades que não têm necessariamente essa prioridade é, na verdade, um sinal dos tempos: normalizou-se. E, estando instalada na escola, desde os níveis mais precoces de escolaridade, temo que, no futuro, não tenha qualquer crítica. 

O século dos heróis

“Chesterton imaginou o Super-Homem como um ser débil e doente. Também outros super-homens têm os seus pontos fracos, o que, aos olhos dos seus admiradores, só torna o seu poder sobre-humano mais admirável.”
                                     Alberto Manguel, Monstros fabulosos, Tinta da China, 2019. 
 A Mitologia grega fala-nos da idade dos Heróis, uma era mítica em que a convivência entre humanos e imortais era considerada normal, sentindo-se os humanos uns privilegiados por serem bafejados com essa proximidade com os seres superiores.

Porém, nesse relacionamento destacava-se sempre a força das divindades em fazer valer o seu querer junto dos pobres mortais a quem subjugavam, irremediavelmente, sendo os homens castigados quando se atreviam a igualar-se a eles. Que o diga a jovem Aracne, a habilidosa tecedeira que se atreveu a equiparar-se a Atena e foi por tal orgulho castigada e transformada em aranha, ficando eternamente presa à sua teia.

Com essa mesma vontade divina, que tudo pode, os deuses seduziam as mais belas mortais, e sempre conseguiam os seus intentos graças às metamorfoses e aos disfarces e estratagemas sem conta que conseguiam inventar. Os maiores exemplos vêm dos amores de Zeus com as mortais, de cuja união nasciam seres extraordinários, pois não eram já iguais ao comum dos humanos, mas também não gozavam de todas as prerrogativas dos deuses olímpicos. Eram os semi-deuses, depois, muitos deles heróis, humanos com capacidades fora do normal, quer em força, quer em inteligência, recebidas da sua “costela” imortal, vinda do pai ou da mãe. Por vezes acontecia também o inverso, eram as deusas imortais que se apaixonavam pelos humanos. Veja-se o exemplo de Eneias, filho da deusa Vénus e do mortal Anquises.

Estes heróis, homens, em geral, mas também mulheres, praticavam na sua vida feitos extraordinários que acabavam por elevá-los à categoria de quase deuses. Eram-lhes dedicados templos, estátuas, monumentos de vária ordem, evocativos das suas façanhas, eram cantados pelos poetas o que levava a que nunca fossem esquecidos. Alguns seriam até admitidos no Olimpo junto dos deuses maiores. Os heróis lendários mais conhecidos são os que estão relacionados com a Guerra de Tróia, com destaque para Aquiles, Sarpédon, o filho de Zeus e de Europa, para além do astucioso Ulisses de quem tanto nos fala Homero. 

Passou, depois, esta época dos grandes heróis. 

Longos séculos nos separam dessas histórias que, tidas como verdadeiras, eram apresentadas como exemplos na educação da juventude. A Humanidade caiu em desgraça, mesmo muito depois de renovada pelas pedras de Deucalião e Pirra. A obscura Idade das Trevas, muito mais longa do que aquilo que a História define, reduziu o Humano à sua condição de imperfeito, tornou bem clara a separação entre os mortais e os imortais, a convivência terrena de uns e outros desapareceu. Os deuses deixaram de descer à terra. E essas histórias de semi-deuses e heróis ficaram apenas nos livros que continuam a encantar, em momentos de sonho que nos levam para lá do mundo real.

No entanto, essa era de heróis e seres imortais parece estar a regressar à terra. Outros são os deuses, mas não menos poderosos. E os heróis, criados por essas forças “divinas” aparecem a cada momento, divulgados, agora, pelos Homeros tecnológicos, pelos aedos da comunicação social. 

São os heróis enaltecidos e condecorados, a todo o momento apregoados e apontados como exemplos, adorados pela juventude, aproveitados pelas divindades do poder. Nas mais diferentes áreas há que escolher os melhores e elevá-los a essa categoria de seres extraordinários, endeusá-los, divulgar o seu valor pelo Universo para que sejam adorados pelos humildes mortais. É o melhor futebolista do mundo, o melhor treinador, o melhor goleador, o melhor aluno, o melhor professor do mundo, o empresário do ano, o banqueiro modelar, o melhor profissional, seja de que área for. E apresentam-se como exemplo, são modelos a imitar. E essa emulação, causa depois as angústias, na ânsia de igualar o “modelo”.

Por isso é preciso incentivar a criança, o jovem, o adulto. Desde pequenino incutir no menino, na menina a ideia de que tem de ser excepcional, no que quer que seja. Os pais tratam os filhos como príncipes e princesas a quem nada pode ser negado, a escola dá ao aluno todo o poder porque ele é senhor de si mesmo, capaz, empreendedor e não pode ser “humilhado” com uma repreensão ou uma classificação que destrua a sua auto-estima, porque eles têm o direito à felicidade, que passa, exactamente, por serem reconhecidos, enaltecidos, adulados. Surgem os pequenos ditadores, com uma elevada consideração se si mesmos, que a eles próprios se promovem, se tornam numa marca comercializável, considerando-se, antes que outros os considerem, os melhores, os mais aptos, os mais empreendedores, os mais... mais... 

É esta a nova era dos heróis. O século da auto-promoção, que, nessa busca ansiosa da felicidade gera as depressões, os desalentos, que, depois, é preciso tratar... Por isso, há que promover a psicologia positiva, desenvolver a inteligência emocional, incentivar a auto-estima, levar as pessoas a acreditar que o futuro depende exclusivamente de si próprias e que tudo se resolverá “se acreditarem em si mesmas” e que, por isso, devemos procurar sempre o prazer em tudo aquilo que fazemos. É, de acordo com um livro há pouco publicado entre nós, a “Ditadura da felicidade”*.

E surgem as ajudas para alcançarmos essa felicidade em nós: é o ioga, é o mindfulness, são os livros de auto-ajuda, são os psicólogos da “psicologia positiva”, são os cursos mais variados que nos levam nessa procura de “ser feliz” a todo o custo. 

E em que consiste essa felicidade? 

Não pode ser, com certeza, no poder económico, que vai gerar mais angústia para o alcançar, no trabalhar cada vez mais, graças aos exercícios de ioga ou outros, pois isso só trará menos tempo para usufruir dessa felicidade...

O conceito de felicidade não pode ser imposto pelos “deuses” do poder, não pode ser global e universal, vindo de cima, ele tem de sair das capacidades de cada um se libertar das amarras que o escravizam, da liberdade de cada mente para buscar aquilo que o realiza, que o torna melhor, porque mais sensível ao outro e que não é indiferente a tudo o que é verdadeiramente humano.

Isaltina Martins

*  Edgar Cabanas e Eva Illouz, A Ditadura da Felicidade, Círculo de Leitores, 2019.

IPSISSIMA VERBA

O meu bom Amigo Eugénio Lisboa, académico e crítico literário, a meu pedido, enviou-me este seu delicioso texto, publicado originalmente no último número de "Ler". Confesse o leitor, como eu me confesso, que, de uma maneira geral, todos nós nos vemos retratados neste texto. A propósito, não podia deixar de chamar a atenção do leitor para esta lacónica e corrosiva resposta de Torga, a um antigo colega da Universidade de Coimbra, a respeito de sua mulher: "Estime-a"!

Transcrevo o texto enviado:

"Os homens (e as mulheres) sempre gostaram de falar de si e das suas façanhas. A confissão, dizia não sei quem, é uma tentação irresistível. Vem isto, repito, de muito longe. Júlio César, por exemplo, não deixou por mãos alheias o relato das suas campanhas na Gália: escreveu o seu próprio panegírico no famoso De Bello Gallico, para tormento dos alunos de latim dos liceus do meu tempo.

Rousseau deliciou-se a falar de si e das suas misérias, nas sumarentas Confissões que nos legou. O mesmo fez Santo Agostinho e tantos outros depois dele. Magníficos diários não faltam, por exemplo, na grande literatura francesa: Delacroix, os Goncourt, André Gide, Jules Renard, Julien Green, por exemplo. O Diário de Gide é suavemente indiscreto e o de Julien Green foi-o também, até ter saído, há muito pouco tempo, a sua versão integral, isto é, não expurgada, na qual podemos ver o escritor a deliciar-se na descrição minuciosamente indiscreta e muito crua das suas orgias sexuais: não resistiu à tentação de contar tudo…

Falarmos de nós próprios, com maior ou menor indiscrição, é, repito, uma enorme tentação. Oscar Wilde era muito dado a isso. Conta-se que, estando ele, uma vez, num restaurante, em Londres, lhe apareceu um jovem admirador, que queria conhecê-lo pessoalmente. Wilde aproveitou logo a ocasião para falar de si com abundância e fê-lo durante uma boa meia hora. Por fim, deteve-se e, voltando-se para o jovem, disse-lhe mais ou menos isto (cito de memória): “Basta. Estive muito tempo a falar de mim. Basta. Agora é a sua vez de falar de mim.” 

O autor de O Retrato de Dorian Gray estava longe de ser um caso isolado, no seu tempo e no seu país. Tinha um bom rival, em egotismo e em espírito acerado, no pintor James Whistler. Quando, em certa altura, a célebre revista Punch publicou um elogio ditirâmbico dirigido à actriz Sarah Bernardt, atribuindo a autoria do texto a Oscar Wilde, este reagiu, enviando um telegrama a Whistler, nestes termos: “O Punch é demasiado ridículo. Quando eu e tu estamos juntos, nunca falamos de nada a não ser de nós próprios.” Whistler não perdeu tempo a responder-lhe: “Não, não, Oscar, estás a esquecer-te. Quando tu e eu estamos juntos, nunca falamos de nada a não ser de mim.” Wilde encerrou a conversa com um terceiro telegrama: “É verdade, Jimmy, que nós estávamos a falar de ti, mas eu estava a pensar em mim.”

O pendor confessional é, às vezes, tão forte, que o autor faz entrega de si, às mãos cheias: Gide, para além de um extenso diário, ainda nos deixou uma substanciosa autobiografia intitulada Si le grain ne meurt. Julien Green também, além de um muito volumoso diário, igualmente nos deixou belíssimas páginas de memórias. E o nosso Miguel Torga somou aos dezasseis volumes do seu saboroso diário uma longa autobiografia disfarçada, em cinco volumes: A Criação do Mundo. Sem falar no que, de confissão, pôs na sua poesia. Como se vê, o autor de Bichos, embora discreto, era obstinado a falar de si e da sua circunstância. E estava tão seguro  de si e do seu estatuto, que se não deixava facilmente abater, como o demonstra a seguinte anedota verdadeira.

Estava o escritor a gozar as suas habituais férias, no Gerês, quando lhe apareceu um colega dos tempos da universidade, em Coimbra. O antigo companheiro de estudos fez-lhe uma grande festa: havia que tempos que não se viam e mais isto e mais aquilo, até que o inevitável aconteceu: tirando do bolso um manuscrito, explicou ao autor de Novos Contos da Montanha, que também ele tinha escrito uns Poemas Ibéricos. E, já agora, se o amigo os quisesse ler… Torga, sem uma palavra, meteu os papéis no bolso. E, poucos dias depois, devolveu-lhos, sem dizer uma palavra. O colega, afrontado, reagiu: que o Rocha era de força, que podia, ao menos, dizer se gostara ou não dos seus poemas e que até, por acaso, a sua mulher preferia os seus Poemas Ibéricos aos do Torga. Este respondeu-lhe curto e final: “Estime-a!”"

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Mais uma vez o PISA!

Ao final da tarde alguém me avisou: saíram os resultados do PISA, o programa de avaliação do desempenho dos estudantes com 15 anos da OCDE. Não pude deixar de pensar: outra vez! Há quase duas décadas, de três em três anos, o mesmo cenário: o voluntariado obediente dos países à passagem dos testes e questionários, a que se segue uma longa espera, não sem temor dos resultados; os tratamentos estatísticos que parecem esgotar todas as possibilidade de tratamento dos muitos dados recolhidos; pormenorizadas e fastidiosas análises académicas; múltiplas opiniões na praça pública que retomam argumentos estafados; acusações políticas (mútuas) de todos os quadrantes partidários; e, evidentemente, num retorno neo-liberal do behaviorismo mais atávico, distribuição de elogios e punição a países, regiões, escolas e professores.

De qualquer maneira, espreitei online... E detive-me num artigo com o título Os resultados do PISA: para lá da culpa e da esperança, assinado Luís Miguel Carvalho, professor do Instituto de Educação da Universidade de Lisboa (in jornal Público). Pelas ideias e pela ponderação informada, sem dúvida que valerá a pena lê-lo (da versão original cortei breves passagens):
Com duas décadas de vida, o PISA é acolhido com uma atenção e reverência nunca atribuídas a avaliações congéneres. Neste dia, mais do que a receção mediática, ampliada pela pontual competência da OCDE na gestão da informação, saliento que os resultados do PISA são aceites, por muitos, exatamente como a OCDE os apresenta: um espelho tão perfeito da educação que com ele se monitoriza o desempenho do país.  
A minha posição é inteiramente outra: observo-o como tecnologia de governo, por forma a vir a compreender os mecanismos de administração da vida educativa e a influência em educação das organizações internacionais. É por essa razão que não tenho a veleidade de explicar os resultados do PISA; antes me interessa o seu significado político, em educação. Como tal, nestas notas, quero chamar a atenção para três ideias: os custos de confiar no PISA, as suas limitações e a prudência no seu uso na ação pública. 
Custos da confiança 
Parte da confiança atribuída ao PISA não se encontra na sua qualidade técnica (que detém, apesar de epistemológica e metodologicamente criticável), nem na criação pela OCDE de uma ecologia favorável ao seu uso (que é relevante), mas em forças institucionais. Entre estas destaco a objetividade culturalmente conferida aos números e a perceção da OCDE como entidade que diz a verdade. Sobre a primeira, recordarei, à luz de outros, que os números do PISA não falam por si, mas só quando inseridos nos discursos sobre educação. Assim, os cristalinos e robustos números servem para legitimar o mantra da aprendizagem do séc. XXI (resolve problemas, conduz-se como um empreendedor, capacita-se para uma vida de formação para a empregabilidade) e do conhecimento utilitário que a Escola deve preferir (o que funciona e resolve problemas do dia-a-dia). Quanto à segunda, e quando a qualquer um parece impossível perguntar qual o custo-benefício da participação no PISA, um outro preço subsiste, pois a naturalização do PISA como espelho implica a obediência a uma regra no governo da educação: o teste estandardizado realizado por estudantes de 15 anos em 3 horas é o meio pertinente para capturar a complexidade educacional e a qualidade dos sistemas de ensino. Esta dependência situa os decisores num espaço cooperativo-competitivo mundial no qual a comparação dos resultados autoriza o exercício de um poder moralizante, por via da atribuição de culpas e virtudes aos sistemas, seus reguladores e agentes. 
Limitações 
Os resultados do PISA resultam de um teste estandardizado que, como qualquer outro, tem limitações. Lembro duas. (1) Os resultados são largamente determinados por fatores extrínsecos às práticas escolares, designadamente por fatores socioeconómicos e culturais, pelo que a variação dos resultados não pode basear-se apenas em observações, exigências e políticas sobre as escolas e os professores. Precisa, também, ser analisada e procurada em políticas sociais efetivas e em exigências ao sistema social. (2) Nenhum teste estandardizado pode estar ajustado ao que é procurado pelo ensino em cada contexto específico de ação, pelo que são necessárias outras ferramentas com essa capacidade (..). Deixando as insuficiências próprias ao tipo de avaliação, nas análises dos resultados, noto o cansaço provocado pela repetição ad nauseam, ou por perda momentânea de memória, de uma ideia com 40 anos: as escolas fazem a diferença. Quer seja consequência do modelo de análise seguido ou inconsciente preservação de um mito necessário, a conclusão acrescenta pouco valor ao conhecimento sobre educação. 
Prudência 
Prudência é a palavra que encontro para sintetizar melhor a atitude face aos resultados do PISA, quaisquer que sejam, e para enfrentar os poderes que desencadeiam, de culpa e de esperança. Por isso, exprime um convite ao realismo pluralmente informado, com uso de dados quantitativos e extensivos, indispensáveis para compor séries ininterruptas e longitudinais dos alunos (uma incapacidade metodológica do PISA, note-se) e dados da ação educativa contextualizada, sem descartar especulação e opinião. Tudo isto é necessário, para que o debate democrático não seja feito em função de dados gerados por peritos escolhidos pela OCDE, Estados e redes profissionais (...).