quinta-feira, 23 de setembro de 2021

O tempo e a Terra


Minha palestra no Vale das Buracas do Casmilo no dia 18/9/2021 a abrir um concerto do ensemble da Orquestra Clássica do Centro:

Estamos num lugar espectacular, o vale das Buracas, no Camilo, é uma paisagem calcária, pertencente ao maciço calcário de Sicó. Conheço-o bem, porque entre os 15 e os 20 anos pratiquei espeleologia, o desporto-aventura da exploração de grutas que é ao mesmo tempo uma disciplina científica. Andei por estas serras, dormi em tendas, desci ao interior da Terra. Era membro do centro de espeleologia em Coimbra e o principal responsável pelo boletim A Gruta, onde publicávamos as descobertas que fazíamos nesta região. Lembro-me de ter ido à Biblioteca Geral da Universidade consultar revistas e livros antigos sobre as grutas de Condeixa. Há um artigo em 1854 intitulado “Grutas de Condeixa” na revista “O Instituto” de António Augusto da Costa Simões que foi professor de Medicina, presidente da Câmara de Coimbra, em 1856-1867, e reitor da Universidade, muito mais tarde, entre 1892 e 1898. Trata-se de um dos documentos científicos mais antigas sobre grutas portuguesas.

Os vazios da Terra 

Posso até contar uma história que na altura não foi nada divertida: fiquei uma vez preso nas profundidades da maior gruta portuguesa. As Grutas de Mira de Aire, que hoje os turistas podem percorrer em parte. Só ao fim de umas horas é que os meus colegas me conseguiram desentalar de um aperto numa passagem estreita. As Grutas de Mira de Aire, descobertas em 1947, são hoje a gruta mais comprida em Portugal: estendem-se por mais de 11 km, indo até mais de 110 m de profundidade. Mais profundas são os Olhos de Água do Alviela, uma das mais notáveis nascentes do país e mesmo do mundo pois os espeleólogos subaquáticos já conseguiram descer, no ano ano passado, sempre debaixo de água, a mais de 115 m de profundidade sem conseguirem encontrar a volta em U em que a água remonta no sifão. Nas regiões calcárias como esta a água que contém dióxido de carbono , dissolve a rocha calcária, que é formada por carbonato de cálcio, abrindo grutas, por vezes sem entrada para a superfície. O terreno é uma verdadeira esponja. A água acaba por aparecer na periferia do maciço em nascentes ou olhos de água. A gruta maior aqui do Sicó é o Soprador do Carvalho, em Ferrarias, Penela, que tem um rio subterrâneo, e que se estende por mais de 3 km. O interior da Terra tem muitos segredos por nos revelar… Nem o Soprador do Carvalho nem as Grutas de Mira de Aire se podem porém comparar com as maiores grutas do mundo. A maior é a Mammoth Cave, a gruta mamute, no Kentucky, EUA, cujas galerias subterrâneas se estendem por mais de 600 km. E a gruta mais profunda do mundo situa-se nas montanhas da Geórgia, na Europa de Leste, que alcança a profundidade de 2200 m. Uma descida até ao fundo dessa cavidade fará lembrar a Viagem ao Centro da Terra de Júlio Verne.

Aqui as grutas são mais pequena. Lembro-me de ter descido varias vezes ao Algar das Quintas, perto da capela da Senhora da Estrela, na Redinha, aqui um pouco mais a Sul. São 75 m a descer a pique e depois, o que é pior, outros 75 m para subir. 

As buracas que aqui vêem, não muito grandes mas muito abertas, deviam fazer parte de espaços subterrâneos, que foram escavados por um rio que cavou este vale ou canhão. A certa altura caíram as paredes e o interior subterrâneo ficou a descoberto, enquanto ao longo do tempo, o rio se ia afundando e o vale ia crescendo. O trabalho de erosão - a chuva e o vento -ajudaram a fazer esta paisagem. Demorou milhões e milhões de anos. Como diz Marguerite Yourcenar, o tempo é o grande construtor. 

Este vales são típicos da regiões calcárias. Aqui mais a baixo há outro ainda maior e também com buracas, o Vale do Poio Novo, um sitio onde nos divertíamos a fazer eco entre uma vertente e a outra. Esta paisagem chama-se carso, o que vem da palavra eslovena karst, a região da Eslovénia, perto de Itália, onde a paisagem calcária está toda escavada. Já lá andei: há até uma gruta turística onde se anda de comboio lá dentro. Esta modelação da pedra a superfície, chama-se lapiás. Há também depressões circulares chamadas dolinas e depressões maiores chamadas poljes – há um em  Mira de Aire - Minde que alaga no Inverno por a água ficar retida pelo leito de argilas. E as grutas podem ser mais horizontais – chamamos-lhe lapas, ou mais verticais – chamamos lhe algares.

As eras geológicas

Falei do tempo, o grande construtor e também destruidor. A Terra é obra do tempo. Quando foram formadas estes estratos calcários? Os geólogos ensinam-nos que este calcário é do período Jurássico, mais propriamente de andares estratigráficos conhecidos como Bajociano e Batoniano que pertencem  ao Jurássico médio, que por sua vez pertence à era do Mesozóico que por sua vez pertence a uma divisão temporal maior, dita éon, chamado o Fanerozóico – palavra que significa vida visível, é o tempo no qual passou a haver marcas visíveis da vida. O Jurássico médio ocorreu há cerca de 170 milhões de anos. Napoleão disse aos seus soldados no Egipto: “Do alto destas pirâmides 4000 anos vos contemplam”. Aqui poderia dizer: “Do alto destes penhascos 170 milhões de anos vos contemplam.” Há marcas de vida dessa altura e a vida era dominada poe esses grandes répteis que eram os dinossauros. Toda a gente viu os filmes Parque Jurássico de Steven Spielberg. Estes grandes sáurios apareceram há cerca de 230 milhões de anos, no Triássico, antes do Jurássico, e desapareceram no Cretácico, já depois do Jurássico, há cerca de de 68 milhões de anos. Julga-se que foi um gigantesco meteorito que caiu na região do Iucatão do México combinado com invulgar atividade vulcânica que levou ao fim dos dinossauros. Com o seu fim, puderam triunfar os mamíferos. Em Portugal há marcas de dinossauros: ninhos na Lourinhã, pistas na Pedreira do Galinha na Serra de Aire, pegadas no cabo Mondego, Tudo isso são marcas do Jurássico,

Mas nessa altura, quando a terra era comunicada pelos dinossauros, já a história da Terra ia adiantada. Quando começou a Terra? Quantas velas devemos por no bolo se houvesse um dia de anos da Terra? Sabemos hoje que é contemporânea do sistema solar que tem cerca de 4,5 mil milhões de anos. Essa é a idade das rochas mais antigas da Terra, que podemos dar usando técnicas de radioatividade. É cerca de um terço da idade do Universo, pois de acordo com a teoria do Big Bang, o Universo terá começado há cerca de 14 mil milhões de anos. A melhor teoria que temos da formação do sistema solar é a de uma nuvem, formada principalmente por hidrogénio, mas tendo muitos outros elementos químicos pesados, que comprimida pela gravidade, e sempre em rotação rápida levou à formação do Sol, no centro, onde se acendeu uma fornalha termonuclear graças a forças de pressão incríveis. Perto ficaram planetas rochosos: Mercúrio, Vénus, Terra e Marte, os dois últimos com possibilidade de vida no sentido em que existiu ou existe água em várias fases: líquida, gelo e vapor de água.  E, depois de uma cintura de meteoritos, ficaram grandes planetas que são gasosos: Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno. A terra no inicio era mais pequena e foi crescendo com o bombardeamento de meteoritos. No início do sistema solar não havia a ordem que hoje há. A Lua, o nosso satélite natural, formou-se devido a colisão de um corpo celeste com a proto Terra: as pedras que os astronautas trouxeram da Lua são tão antigas como rochas muito antigas da Terra. Facto curioso: o Sol transforma hidrogénio em hélio irradiando energia, e há-se transformar hélio em carbono, mas não tem capacidade para produzir cálcio que existe no carbonato de cálcio destas rochas e, já agora, do cálcio que existe nos nossos ossos. Teve de haver por isso um outro sol anterior ao nosso que explodiu espalhando átomos pesados pelo espaço. Nós somos filhos dessa estrela mais remota. Essa explosão violenta de uma estrela chama-se supernova. Houve mais do que tempo para haver estrelas que explodiram, antes que o nosso sol se formasse. 

Desde que a Terra se formou passaram-se cerca de 700 milhões de anos antes que aparecesse vida, que remonta a 3800 mil milhões de anos. Não sabemos como apareceu a vida da Terra. Nem sequer sabemos se veio de fora ou se apareceu primeiro aqui devido a reacções química, que em condições particulares num meio aquoso, permitiram, a moléculas autorreproduzirem-se, fazendo cópias de si próprias. Os primeiros seres vivos, na base da grande arvores da vida –    seres vivos muito variados, pelo que falamos de biodiversidade – , foram microscópicos. Nessa altura a reprodução consistia na divisão das células ao meio. Só mais tarde a evolução biológica haveria de inventar o sexo, que permitiu acelerar a biodiversidade. Mas, no início da vida, nem sequer havia atmosfera com oxigénio. Havia azoto, dióxido de carbono e metano, mas o oxigénio que hoje sustenta boa parte da vida só foi a certa altura produzido por um certo tipo de bactérias. No princípio foi o éon Hadeano, durou até há 4 mil milhões de anos. Depois, quando apareceu a vida, foi o Arqueano, até há 2,5 mil milhões de anos. Depois veio o Proterozoico, que durou muito, até há 500 milhões de anos. Só depois é que foi o Fanerozóico, dividio no Paleozóico, tempo dos peixes, no Mesozoico, o tempo dos dinossauros, e no Cenozóico, tempo dos mamíferos. Os primeiros hominídeos, ainda muito distantes de nós, surgiram de há cerca de 10 milhões de anos. O género homo já apareceu no quaternário, há cerca de dois milhões de anos, um tempo muito pequeno na vida da Terra. E o homo sapiens   há 350 000 anos. Terá coexistido com o homem de Neandertal como mostra a criança do Lapedo, encontrada no Vale do Lapedo perto de Leiria. Hoje estamos no período do Quaternário chamado Holoceno, mas há quem defenda que mudámos de tal maneira a Terra que o nosso tempo se deveria chamar Antropoceno. 

Bestas buracas há marcas de ocupação pré-histórica. Os arqueólogos encontraram vestígios do Paleolítico, a idade da pedra lascada. Há até algumas marcas de arte rupestre, nas paredes de certas buracas: não são paleolíticas, mas já da idade do bronze. Lembro que da época neolítica  há vestígios aqui em Condeixa, como necrópole de Eira Pedrinha, que eu visitei como espeleólogo tendo ficado admirado com a enorme quantidade de ossos. Foi no Neolítico, há 10 000 anos,  que se deu a revolução agrícola, com a sedentarização das comunidades humanas e a domesticação dos primeiros animais. A época dos caçadores-recolectores tinha ficado para trás.

O que é o tempo?

O que é o tempo? Bem, de um modo operacional, é o que marca um relógio. Um segundo é uma fracção da hora, que é uma fracção do dia, que é uma fracção do ano, tudo isto marcado pelo movimentos astronómicos. Hoje em dia define-se os segundo com base em medidas atómicas, mas a definição inicial veio do movimento dos astros.

Podemos medir, mas nós não sabemos definir o tempo. É dos nossos grandes mistérios. Santo Agostinho disse que se não lhe perguntassem o que era o tempo ele sabia, mas que se lhe perguntassem ele não sabia. Trago aqui uma citação  de Eça de Queiroz quando ele fala dos almanaques em “Notas Contemporâneas”:

 O tempo, essa impressão misteriosa a que chamamos tempo, é para o homem como uma planície sem forma, sem caminho, sem fim, sem luz, onde ele transita guiado pelo almanaque, que o segura pela mão, o vai puxando e a cada passo murmurando: "Aqui, estás em setembro!... Além, finda a semana!... Em breve alcanças o vinte e oito... Hoje é sábado..." Se o almanaque de repente, por facécia ou perfídia, lhe soltasse a mão, o abandonasse, o homem vaguearia irremissivelmente confuso e perdido dentro da vacuidade de o não ser do tempo. Sumida a noção do ano, do mês, do dia, ele não poderia mais cumprir, com ordem proveitosa, os atos da sua vida urbana, rural, religiosa, política, social — e logo se arriscaria àqueles dois erros de que galhofava o provérbio antigo: a semear o seu trigo em julho e a celebrar a sua Páscoa em novembro. Só com o almanaque, sempre presente e sempre vigilante, pode existir regularidade na vida individual ou coletiva.”

De facto, sem os calendários estaríamos perdidos no tempo. A nossa vida não estaria organizada. Por um lado há no tempo um lado de continuação, eternidade. Houve um início e provavelmente não haverá fim. Mas, por outro lado, ao contrário das viagens  no espaço, no tempo não se pode ir e voltar. As viagens  são num só sentido. Todos nós andamos para a frente no tempo. Os físicos descobriram uma lei -  a 2ª. Lei da Termodinâmica. que diz precisamente isso: que só se pode andar para a frente no tempo. Define-se uma grandeza, a entropia, que é uma medida da desordem. Num sistema isolado a entropia só pode crescer. Este Vale das Buracas é resultado da erosão do tempo, do crescimento da entropia. E nós que nos deslumbramos com o vale? Bem nós não somos sistemas fechados, recebemos energia do exterior, pelo que a desordem não cresce em nós.

Há uma história curiosa de um dos descobridores da 2.ª Lei da Termodinâmica. O britânico William Thomson, lorde Kelvin (há numa relação com Portugal: ele casou com a filha do cônsul inglês no Funchal, que conheceu quando andava a instalar linhas de telégrafo eléctrico entre Portugal e  o Brasil). Pois Kelvin,  um dos maiores sábios do século XIX,  cometeu um importante erro na avaliação da idade da Terra. Fez umas contas a partir do tempo que um corpo quente, como a Terra primitiva, demora a arrefecer e falhou por muito. Os geólogos conheciam o enorme tempo que é preciso para formar paisagens como este estavam mais certos do que os físicos quanto à idade da Terra. Vale a pena contar a história da disputa científica sobre a idade do nosso planeta.

O erro da idade da Terra

Quando falamos em história da Terra, estamos a falar de longos períodos de tempo. A busca do relógio da Terra iniciou-se há muito tempo. O alemão Abraham Werner, que viveu entre os séculos XVII e XIX, foi  um dos” avôs” da geologia.  Werner defendia que a formação da Terra teria sido um processo rápido e que todas as rochas se teriam depositado num oceano primordial, num espaço de tempo muito curto – esta é a chamada cronologia curta da Terra. A teoria werniana estava de acordo com os ensinamentos bíblicos (Deus teria criado todo o Universo, incluindo a Terra, em apenas alguns dias). E foi por isso que permaneceu, durante algum tempo, inabalada.

 Acabou por ser questionada nos finais do século XVIII pelo geólogo inglês James Hutton. Hutton, ao observar rochas sedimentares depositadas horizontalmente, concluiu que estas teriam sido depositadas em diferentes épocas e que, portanto, era longa a história da Terra – esta é a chamada cronologia longa da Terra. Já antes um médico dinamarquês do século XVII,  Nicolau Steno, tinha intuído isso: Os estratos por baixo são mais antigos do que os que estão por cima. Marcas de vegetais ou animais nesses estratos são mais antigas que marcas de animais por cima. Em 1795, Hutton publicou o livro Theory of Earth, no qual fala de uma história geológica uniforme, permanente, sem início nem fim: poder-se-ia mesmo falar de uma idade infinita! Claro que para as pessoas que levavam à letra a palavra da Bíblia, a ideia de um tempo infinito era uma verdadeira heresia, uma vez que proibia o cato criador reportado nas Escrituras. Hoje sabe-se que a teoria de Hutton estava essencialmente correcta, tendo servido de base para as teorias de geologia e biologia que se lhe seguiram. 

O geólogo inglês oitocentista Charles Lyell seguiu na peugada das ideias de Hutton. Considerado por muitos o pai da Geologia, publicou entre 1830 e 1833 o livro fundador dessa ciência - Principes of Geology (em três volumes), onde defendeu as conceções de Hutton contra as de Werner. Lyell datou rochas através dos fósseis que continham, tendo concluído não só que a Terra teria vários milhões de anos como também que teria mudado lentamente ao longo de todo esse tempo, devido a factores como a erosão. O princípio do uniformismo defendido por Hutton ganhou nesta altura tal preponderância que, a partir de meados do século XIX, a Bíblia quase desapareceu do estudo da história da Terra.

 Charles Darwin, o autor da Origem das Espécies (1859), foi um adepto das ideias do seu amigo Lyell, tendo feito uso delas na sua teoria da evolução. Por sua vez, Lyell, que antes acreditava que as espécies se tinham mantido imutáveis ao longo dos tempos, quando toma conhecimento da teoria de Darwin, tornou-se um dos seus maiores defensores. O desenvolvimento da estratigrafia e da paleontologia, já preliminarmente estudadas por sábios como da Vinci e Lavoisier, ajudou à aceitação das teses uniformistas de Hutton e Lyell. O estudo dos fósseis permitiu datar sequências de estratos e conhecer melhor a cronologia da história da Terra.

Em 1859, Darwin estimou em 300 milhões de anos, um tempo claramente longo, o período de escavação de um grande vale inglês. Esse cálculo concordava “grosso modo” com outro relativo à salinidade dos oceanos, que fixava em 100 milhões de anos o tempo necessário para salinizar toda a água do mar.

 Mas, em 1863, o físico William Thomson, mais conhecido pelo seu título de Lorde Kelvin, que na altura era considerado o “papa” da Física, voltou, embora sem invocar a Bíblia, às ideias da cronologia curta presentes em Werner. Baseado na 1.ª Lei da Termodinâmica – a Lei da Energia, que estipulava a conservação dessa grandeza física – estudou o fluxo de calor emitido pela Terra, concluindo que o nosso planeta teria, no máximo, 100 milhões de anos. Em 1987 Kelvin, com novos cálculos, atribuiu à Terra cerca de 20 milhões de anos, um valor que provocou um grande alvoroço entre geólogos. Lyell respondeu-lhe afirmando que haveria reacções químicas no interior da Terra que não tinham sido consideradas nesses cálculos mas não conseguiu demover o teimoso Kelvin, que, quando muito, estava apenas disposto a admitir o valor de 400 milhões de anos.

 Kelvin estava rotundamente errado e a chave para mostrar o seu erro só apareceria mais tarde, em 1896, com a descoberta da radioactividade pelo físico francês Henri Becquerel. De facto, a radioactividade, que está associada à emissão de calor, não entrava nos cálculos de Kelvin! E, curiosamente, foi a radioactividade de algumas rochas naturais que permitiu finalmente datar com precisão o planeta Terra. Um dos geólogos mais famosos do século XX que investigou o problema da datação da Terra foi o britânico Arthur Holmes. Holmes concluiu que a Terra teria uma idade entre 1400 e 3000 milhões de anos. Contudo, determinações mais recentes dão à Terra, como de resto a todo o sistema solar, a provecta idade de 4,5 mil milhões de anos, como já referi. Não é um tempo infinito como defendia Hutton, mas é muito maior do que o tempo bíblico ou do que o tempo de Kelvin. Kelvin não viveu o tempo suficiente para reconhecer o seu erro!

A ciência é feita de erros, mas de erros que são corrigidos com o evoluir do tempo. Mas já falei de mais. A mensagem mais importante é que o tempo é mudança – já dizia Camões – “todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre  novas qualidades”, - a Terra é um sitio dinâmico. No tempo do Jurássico foi quando o grande continente único - a Pangeia - se começou a separar em duas grandes parte. Foi quando se começou a formar o oceano Atlântico. Por falar em oceano, estres estratos que aqui vemos formaram-se por deposição de carbonato de cálcio no fundo de um oceano. A Terra está sempre a mudar a sua geografia, comos sabemos da teoria da deriva dos continentes devido ao movimento das placas tectónicas, que foi aventada elo alemão Alfred Wegener, levantando grande controvérsia. Fiquei um dia muito impressionado porque numa placa à entrada de um museu da Terra em Edimburgo dizia lá que aquele sitio já tinha estado no equador. Não sabemos - apenas podemos fazer previsões, quando será a geografia dos continentes  daqui a 170 milhões de anos ainda ontem saiu um artigo sobre isso no Expresso. É uma previsão, que pode falhar… Porque há surpresas, a Terra é uma caixinha de surpresas!

Tempo da música 

Mas é tempo e dar lugar a música, que obviamente está relacionada com o tempo. A música é uma sucessão de sons no tempo e o ritmo com que se sucedem podem ser maiores ou menores. Mas é curioso que há um tempo psicológico: perante uma bela peça de música não vemos o tempo passa- já passou vinte minutos desde que comecei  a falar - com certeza que repararam  que o tempo nunca mais passava - e agora o tempo vai passar depressa – por vezes vai ficar suspenso com estes artistas do ensemble da Orquestra Clássica do Centro.

Vamos ouvir trechos antigos como a música de Vivaldi das Quatro Estações, que nos lembra o clima e a meteorologia. Mas vamos também ouvir músicas de autores contemporâneos como Asthor Piazolla, que se fosse vivo, faria este ano 100 anos. E como Enio Morricone, falecido há pouco tempo. Vamos também ouvir vários temas de música rock. O rock and roll teve origem nos EUA nos anos 30 e 40 e vem da música de blues e de jazz. Rock and roll remete para o movimento rítmico: significa á letra balança e rola. Música é movimento, como vamos ouvir já a seguir com o grupo da Orquestra Clássica do Centro. Bom espectáculo!

NAOMI ORESKES E A CONFIANÇA NA CIÊNCIA


Meu artigo no I de hoje:

A norte-americana Naomi Oreskes (n. 1958), com formação inicial na área da Geologia no Imperial College de Londres e na Universidade de Stanford, é professora de História da Ciência na Universidade de Harvard, em Boston. Tem trabalhado na história das ciências ambientais e climáticas, na política de ciência, nas relações entre ciência e religião e em questões de género. É autora de sete livros e de mais de 150 artigos científicos. O seu livro que suscitou mais atenção – alimentando mesmo um vivo debate – foi Merchants of Doubt (Bloomsbury, 2010), escrito em colaboração com Erik Conway, historiador da NASA, que incide sobre o negacionismo das alterações climáticas. O seu livro mais recente é Science on a Mission. American Oceanography from the Cold War to the Climate Change (University of Chicago Press, 2021), sobre a relação entre cientistas e militares no domínico da oceanografia. Merchants of Doubt, traduzido em nove línguas (ainda não em português), serviu de base a um documentário com o mesmo título que foi distribuído pela Sony Pictures. Na edição mais recente, teve um prefácio de Al Gore, o ex-vice presidente dos Estados Unidos e destacado ambientalista (autor do filme e livro Uma Verdade Inconveniente).

Naomi Oreskes ganhou proeminência quando, num artigo publicado na revista Science em 2004 mostrou, analisando milhares de artigos, que havia um maciço consenso na comunidade científica sobre as alterações climáticas e a sua origem, tema que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas tem vindo a rever em sucessivos relatórios. A contribuição das Ciências Físico-Químicas para o próximo relatório (o sexto), divulgada em Agosto passado, é particularmente alarmante, ao dizer que o limiar de aquecimento de 1,5 ºC, indicado no Acordo de Paris de 2015, vai ser transposto. Existem, de facto, alterações climáticas globais devidas ao aumento do efeito estufa, causado pelas emissões de dióxido de carbono e de outros gases resultantes da actividade humana. Oreskes apontou o dedo às petrolíferas que negavam as provas, tal como no passado as tabaqueiras tinham negado a relação entre fumo do tabaco e o cancro do pulmão. Entidades com um óbvio conflito de interesse nunca são independentes a analisar assuntos que lhes dizem respeito.

Oreskes tem escrito para destacados órgãos da imprensa como o New York Times e o Washington Post. Escreveu a introdução a uma edição norte-americana da encíclica Laudato Si’ do papa Francisco sobre mudanças climáticas e desigualdades sociais, publicada no mesmo ano do Acordo de Paris. E é colunista regular da revista Scientific American.

Acaba de sair na colecção «Ciência Aberta» da Gradiva, com o n.º 236, a edição portuguesa do livro de Naomi Oreskes Porque Confiar na Ciência? (original: Princeton University Press, 2019). A obra contém as Tanner Lectures que a autora proferiu na Universidade de Princeton em 2016. Tem uma introdução de Stephen Macedo, professor de Ciências Políticas em Princeton, e um conjunto de quatro textos de reflexão crítica de vários autores suscitada pelas palestras de Oreskes. No final, a autora responde a todos, num esforço de síntese, actualizando num posfácio alguns dos seus argumentos. A tradução, muito competente, é de Maria de Fátima Carmo e eu próprio fiz a revisão científica, que foi de pouca monta até porque o livro não está escrito numa linguagem especializada: pode ser lido por um leigo em ciência. A obra encerra com numerosas notas e uma extensa bibliografia.

Vivemos num mundo em que, apesar dos impressionantes sucessos da ciência, há quem desconfie dela. Quer nas alterações climáticas quer na questão mais recente do Covid-19 são múltiplas as manifestações dos chamados negacionistas, que recusam acreditar nas provas científicas. O astrofísico e comunicador de ciência norte-americano Carl Sagan foi peremptório quando, no seu livro O Mundo Infestado de Demónios. A Ciência como uma Luz na Escuridão (Gradiva, 1998), escreveu: «Criámos uma civilização global em que os elementos mais cruciais – o transporte, as comunicações e todas as outras indústrias, a agricultura, a medicina, a educação, o entretenimento, a protecção ao meio ambiente e até a importante instituição democrática do voto – dependem profundamente da ciência e da tecnologia. Também criámos uma ordem em que quase ninguém compreende a ciência e a tecnologia. É uma receita para o desastre. Podemos escapar ilesos por algum tempo, porém, mais cedo ou mais tarde, essa mistura inflamável de ignorância e poder vai-nos explodir na cara.»

A mistura inflamável já nos explodiu na cara com Donald Trump, que negava as alterações climáticas (e, baseado nas suas convicções infundadas, retirou o seu país do Acordo de Paris) e alimentou posições também negacionistas sobre a actual pandemia. A sociedade estaria perdida se recusasse quer a ciência das alterações climáticas quer  a ciência das vacinas. Hoje estamos confrontados com questões de vida ou de morte e a morte pode ganhar se a ciência for derrotada.

Naomi Oreskes esteve ligada a Portugal, no ano passado, no Mês da Educação e Ciência da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que apoiou a edição deste livro. Falou nesse âmbito com o bioquímico e comunicador de ciência David Marçal. E vai estar de novo em ligação com o nosso país na apresentação do livro que será no dia  14 de Outubro em Oeiras.

Oreskes começa o livro desta maneira: «Muitas pessoas estão confundidas quanto aos riscos envolvidos na vacinação, às causas das alterações climáticas, o que fazer para permanecer saudável e outras matérias que estão dentro do domínio da ciência. Os imunologistas dizem-nos que as vacinas são geralmente seguras para a maioria das pessoas, já protegeram milhões de pessoas de doenças mortíferas ou que desfiguram, e não provocam autismo. Os físicos atmosféricos dizem-nos que a acumulação de gases com efeito de estufa na atmosfera está a aquecer o planeta e a causar a subida do nível dos mares e de fenómenos meteorológicos extremos. Os dentistas dizem-nos para usarmos fio dental. Mas como é que eles sabem estas coisas? E como sabemos nós que eles não estão errados? Todas estas afirmações são questionadas na imprensa popular e na Internet, por vezes por pessoas que se afirmam cientistas. Poderemos encontrar um caminho nestas afirmações contraditórias?»

 Mais adiante, acrescenta: «A ideia de que a ciência deveria ser a nossa fonte dominante de autoridade acerca de assuntos empíricos — acerca de questões de facto — prevaleceu nos países ocidentais desde o Iluminismo, mas já não pode ser aceite sem argumentação. Devemos confiar na ciência? Em caso afirmativo, porquê e em que medida? A existir, qual é a base certa da confiança na ciência? Trata-se de um problema académico, mas com graves consequências sociais. Se não conseguirmos responder à pergunta ) porque devemos confiar na ciência — ou mesmo se devemos sequer confiar nela —, então teremos poucas hipóteses de convencer os nossos concidadãos, e muito menos os nossos líderes políticos, de que devem vacinar os filhos, usar fio dental e agir no sentido de evitar as alterações climáticas.»

A conclusão final depois de ampla discussão em que apresenta a história, a sociologia e a política da ciência, é que devemos confiar na ciência, embora obviamente de um modo crítico. Escreve a autora: «Há muito que não sabemos, mas isso não é razão para não confiar na ciência quanto às coisas que sabemos. O argumento a favor da confiança na ciência não defende uma confiança cega e total. Defende uma confiança justificada, contra um cepticismo injustificado, nas descobertas dos cientistas nos seus domínios de especialização.»

Oreskes serve-se de exemplos elucidativos. Conta alguns casos em que alguns cientistas fizeram afirmações erradas: a chamada teoria da energia limitada, a rejeição da deriva dos continentes, a eugenia, o controlo hormonal da natalidade e a depressão (em que conta uma história pessoal) e o uso do fio dental. A ciência está longe de ser perfeita — aliás, nenhum empreendimento humano o é. A ciência, por vezes, erra. Mas ela própria tem mecanismos para emendar os erros. Este é um livro essencial para compreender o que é a ciência.

Porque devemos confiar na ciência? A discussão científica a respeito do funcionamento do mundo é eminentemente social: é feito por uma comunidade de especialistas. Ora, a ciência é robusta porque essa comunidade tem métodos para confirmar ou desmentir uma afirmação sobre o mundo. A ciência nunca é o que diz um só cientista ou sequer uma ou duas equipas de cientistas. A ciência é o que acaba por ser sedimentado (para usar uma metáfora da geologia) à medida que o tempo passa e as provas se vão acumulando. Pode ter havido no passado dúvidas sobre os factos fundamentais das alterações climáticas de origem antropogénica, mas hoje já não as há.

Num mundo profundamente influenciado pela ciência, mas onde ainda há tanta gente desconfiada da ciência (o problema em Portugal ainda não é muito grave, mas já surgiram casos que nos deviam preocupar) este é um livro que recomendo. Oreskes lembra-nos a necessidade dos valores que devem informar os cientistas – a ciência deve ser feita com consciência – e diz, convictamente, no final da sua intervenção inicial: «Se não agirmos à luz do nosso conhecimento científico e se ele estiver correcto, as pessoas sofrerão e o mundo ficará diminuído. As provas disso são avassaladoras.» Tem razão.

O Deus das Moscas tem Fome | Ciência às Seis (on-line)

quarta-feira, 22 de setembro de 2021

À LA RECHERCHE DU TEMPS PERDU

Novo texto do Professor Eugénio Lisboa. 

Lourenço Marques ficou sendo, para sempre, a minha capital da memória. O termo deu-mo a Maria de Lourdes Cortez, que o pilhou, por sua vez, ao Lawrence Durrell. 

Era uma cidadezinha muito bela e ajardinada, onde tudo ficava à mão, para efeitos de convívio, amizade e amor. Crescia-se ali como no paraíso. Para os pouco abastados, como eu, uma parte da vida (a casa) ficava num extremo da 24 de Julho (a avenida mais comprida lá do burgo), e a outra parte (o liceu) quase no outro extremo, a desembocar na “rampa” que se atirava por ali abaixo até ao Pavilhão da Praia. Mesmo, mesmo no extremo, logo a seguir ao liceu, ficava um caramanchão e a casa do Reis Costa.

O Reis Costa, para quem não saiba, era um personagem: homem cultíssimo, de olhar penetrante e caminheiro infatigável (nunca teve carro), fora amigo e companheiro de habitação do Hernâni Cidade e ensinava francês e português como quem trata por tu o Camões, o Anatole, o Oliveira Martins, o Gide, o Pessoa, o Proust ou o Régio. Esfuracava, com os olhos imensamente acesos, os nossos mistérios adolescentes e metia-nos nas mãos a Karenina e as Encruzilhadas de Deus. Amava instantaneamente uns e detestava, figadalmente e de modo igualmente abrupto, outros. Mas, se lhe pedíamos clemência para os colegas em desgraça, cedia com gesto magnânimo de imperador caprichoso mas dialogante.

No liceu, as aulas cheiravam deliciadamente a amendoim torrado. Tudo quanto ali aprendi ficou saborosamente contaminado por aquele bom cheiro e por aquele sabor que o mundo teve quando foi feito. Amendoim, o Júlio Verne, amendoim, o Salgari, amendoim, o Alexandre Herculano. Aquele liceu era fora de série, e acho que nunca paguei publicamente a dívida que fiquei a ter para com ele. Foi ali que nasci um pouco e foi ali que fiz a minha segunda grande guerra. Mas já lá vou. 

O importante era a praia. A praia estava ali connosco: mais do que à mão, estava quase dentro de nós. Junto ao Pavilhão, havia a “rede”, por causa dos tubarões, e uma ponte de onde se pescava (para fora da rede) e se saltava para dentro do recinto protegido pela rede. Uma grande parte das pessoas tomava banho dentro da rede, mais por causa da “prancha” que tinha sido construída dentro daquele recinto, para “saltos” e “mergulhos”, do que por causa dos tubarões. Porque a malta, a verdade diga-se, estava-se borrifando para os tubarões. Quantos e quantos dias não íamos antes para o Palmar, junto ao Peter’s ou à Costa do Sol, perfeitamente esquecidos dos tubarões que andavam aos cardumes a poucas centenas de metros, junto à Xefina. Porque não vinham ter connosco? Mistérios que deixo ao ardil dos biologistas. 

Para a praia, levava quase sempre o Nero. Mal chegávamos ao topo da rampa, de onde se avistava a soberba baía, o Nero, de nervoso, parecia um árabe em transe de manifestação espontânea: perdia, literalmente, os pedais. Disseram-me que era por ser “cão de água”. Por mim, acho que o tanas. O que ele era, era laurentino de gema e pelava-se pela praia como a malta toda que ali tinha nascido.

Isto era nos anos quarenta e, a partir de certa altura, a praia ficou cheia de soldados do Infantaria 68 e, um pouco mais tarde, do Infantaria 10: tinham ido para ali “em missão de soberania”, para guardarem Moçambique dos alemães (ou dos ingleses?). Destes, dos magalas, lembro-me sobretudo que me faziam uma inveja do caneco porque alguns se punham a ler, refastelados na areia, como quem esquece, livros do Camilo, que me apeteciam, mas a que não tinha acesso.

Ficou-me, desse tempo, uma tal fome do Amor de Perdição que, quando me apanhei em Lisboa, na universidade, atirei-me ao Camilo como gato a bofe. Mal acabava um, saía desesperado à procura de outro. Quando já não havia nas livrarias de Lisboa, comprava nas Caldas da Rainha ou onde calhasse. As grandes e intensas leituras são muitas vezes um puro ajuste de contas com fomes muito antigas: aqui têm uma teoria novinha em folha, que vos ofereço de borla, para eventual tese de doutoramento (que vai acabar por estragar a gracinha que tudo isto tem. Mas, enfim.)

Reparem que estou a recordar, como o Proust. Sobem-me à crista da memória momentos, imagens, rostos, instantes de felicidade, que até apetece gritar. As imagens são boas porque não traem a verdade dos momentos que já foram: ficam intactas, iguaizinhas ao que tinham sido naquele tempo. “O tempo”, dizia Proust, “que muda as pessoas, não altera a imagem que delas retivemos”. 

O quarto onde me rodeava de livros e onde, pela primeira vez, vi aparecer, ao portão, a Senhora de Rênal, esse quarto está, na minha memória, intacto, mas a casa onde havia o quarto desapareceu. Qual a realidade mais forte? A casa que já não existe ou o quarto que, em mim, ainda existe? A escolha, quanto a mim, é fácil. Matar o quarto era matar a Senhora de Rênal que em mim não morre, ou só morrerá quando eu morrer.

Sim, lia muito, lia interminavelmente, à balda, sem ordem nenhuma, ao sabor de um apetite voraz e querendo começar tudo ao mesmo tempo: mais olhos que barriga. Mais tarde percebi muito bem o que queria dizer o Salinger, ao afirmar que era perfeitamente iletrado, mas que tinha lido uma data de livros. Percebi mas não sei se concordei. Até porque não sei se alguma vez se leu de outra maneira ou se há outra maneira que dê tanto proveito. 

Os grandes momentos de descoberta estavam sempre ligados – e assim ficaram na minha memória – a certos momentos ”históricos” ou mesmo históricos (sem aspas). O encontro com a Charlotte Brontë e com o Stendhal veio “marcado”: a Jane Eyre surgia ligeiramente estragada pela água, o Vermelho e Negro, em tradução do Marinho, mostrava-se claramente danificado pelo banho que tomara, em viagem marítima de Lisboa para Lourenço Marques. Em vez de irem para o refugo, os “rejects” vinham, pelas mãos do meu pai, parar às minhas. Eu associava romanticamente o estrago dos livros aos perigos da guerra, mas acho que exagerava. Devia ter só que ver com o mau tempo e com o mau resguardo da mercadoria no porão. 

A tais descuidos, em todo o caso, fiquei eu a dever o início mágico das minhas leituras e o meu amor vitalício pela Senhora de Rênal. É o que se chama “faire un bon usage des maladies”. O Pascal, que, nessa altura, ainda não conhecia (excepto o da Física...) ficaria satisfeito – a sua terapêutica, por uma vez, funcionara. O Stendhal providenciava-me, de um golpe, dois benefícios inestimáveis: o meu amor pela Senhora de Rênal e a minha incomensurável aprendizagem do horror à pompa asinina e à ênfase balofa. O seu estilo despojado, acerado e voltaireano (mas cheio de nervo e emoção) tomou-me de assalto e comigo ficou para o resto da vida. Tem feito, com frequência, a minha felicidade (como Gide, volto constantemente a ele para aguçar o bico), e não lhe regateio a minha gratidão. (A Matilde de la Mole, por algumas semanas, perturbou-me os berlindes: caí na esparrela de achar que valia a pena esbanjar talento e manha a ver se a “dobrava”. Mas fartei-me e regressei, para sempre e contente, à Senhora de Rênal. Bem está o que bem acaba!).

Tudo isto em Lourenço Marques. E também a guerra. A nossa guerra, a guerra vista dali. Éramos quase todos pelos aliados, excepto um ou outro nazi que odiávamos meticulosamente e com intensidade. Líamos o Neptuno e A Guerra Ilustrada que íamos buscar aos escritórios dos agentes de navegação, muito em especial a Parry Leon & Hayhoe, onde, quase diariamente, pescávamos vários exemplares da mesma edição, que eu guardava em caixas de cartão debaixo da cama. Coleccionava Neptunos como outros coleccionam selos ou botões. Ali aprendi a amar Churchill, a quem fiquei para sempre fiel, apesar de ele ser conservador e eu não. A verdade é que nenhum cidadão que se preze poderá jamais trair os bons tempos do Neptuno. Ganhámos a guerra juntos e essas coisas, parecendo que não, ficam. Fiz a Guerra do Deserto no Scala, às matinées, e estive em Casablanca com a Ingrid e o Bogey, muito antes de os lisboetas poderem estar (há censuras e censuras e, em Lourenço Marques a liberdade era maior...). E, à fisgada, com os meus irmãos, rebentei a vitrine de uma loja de fotografia que pertencia a um tal Bonk, alemão, igualzinho ao Himler. Que era espião, era. E por isso pagou. Eis como ajudei os aliados a ganharem a segunda guerra mundial. Os submarinos alemães torpedeavam navios aliados à entrada da baía, e os náufragos vinham para Lourenço Marques e, alguns, para a África do Sul; os submarinos aliados, por sua vez, torpedeavam barcos alemães e italianos, e os náufragos vinham também para Lourenço Marques. 

A malta, em vista disto, ia para a praia ou para o topo da rampa para cocar os longes da baía, para os lados da Inhaca. Fazíamos tanta força para ver, que acabávamos por ver os submarinos que, naquele momento, não estavam lá ou, estando, não se viam. Quando, muitos anos depois, vi miudos a fazerem o mesmo num filme do Woody Allen, achei que era plágio. Quem tinha visto primeiro os submarinos que não estavam lá tínhamos sido nós, na Lourenço Marques que naquela altura estava lá e agora já só está dentro de mim. O Woody que se vá lixar. A guerra, ou antes, o fim dela, trouxe-me outras coisas. Quando a Alemanha se rendeu incondicionalmente (como esta palavra brilhava com toda a sua força vingativa!), como o feriado não veio de seguida (o governador aguardava ordens de Lisboa), entrámos em greve, no liceu (a ordem de feriado veio logo a seguir). O dia de greve mais o feriado “oficial” fez dois dias, o que deu para uma data de cavaco. 

Foi nessa altura que, reunido subversivamente, em minha casa, com um colega, falámos de coisas deliciosamente proibidas: os movimentos democráticos em Portugal, o assassinato do Lorca e um sujeito francês que se chamava Sartre e era escritor e filósofo. Tudo aquilo em voz baixa, de catacumba, para “eles” não ouvirem. O Lorca ficou comigo e mais tarde, já em Lisboa, li-lhe as peças e vi a Bernarda Alba, com a Maria Barroso a fazer de Adela, a mesma Maria Barroso que encarnou a Benilde do Régio. Devo confessar que, ao ver a Maria Barroso na Benilde, a Senhora de Rênal esteve quase a correr o risco de ser substituída. Mas não tive coragem: essas coisas não se fazem e, ao fim e ao cabo, ela estava disposta a morrer por mim, beijando os filhos. São coisas que marcam. O Sartre captou-me com alguns contos, um romance e algum teatro. Mas o filósofo é de se ir ali e já vir. Que trapalhada! O Bertie Russell é que tinha razão em dizer, apesar de ser amigo e, em certa fase, correligionário político dele: “Tudo aquilo não passa de extravagâncias linguísticas”. Bem sei que o Vergílio Ferreira chamava ao Sartre a “locomotiva de pensar”. Mas o Vergílio sempre teve aquele feitio e sempre confundiu pensar com uma certa forma oracular de ejacular palavras.

Ponho-me a falar e não sei que fio leva a história. Isto de começar com a Maria de Lourdes Cortez e acabar com o Vergílio Ferreira não augura nada de bom. E o pior é que esta crónica já vai comprida. E pouco ou nada pesquei do tempo perdido. Perdido? Enfim, fica para outra vez, se me der para aí.

Eugénio Lisboa

terça-feira, 21 de setembro de 2021

O prestígio desprestigiante

Novo texto de João Boavida

Coimbra não deve puxar pelos galões, e se alguns o fizeram, no passado, já ninguém de bom gosto o faz hoje. Mas uma vez que a maior parte dos membros do Tribunal Constitucional acha “desprestigiante” a hipótese de transferência do dito tribunal para Coimbra, somos obrigados a lembrar-lhes algumas coisas. Tenham paciência, têm que ouvir. 

Coimbra foi a 1ª capital de Portugal. Ali nasceu a maior parte dos reis da 1ª dinastia. Ao território do Condado Portugalense se juntou, para dar consistência a um país, o Condado de Coimbra - tudo o que ia da margem esquerda do Douro até quase Leiria. Ali jazem, e não por acaso, os dois primeiros reis de Portugal. 

Santa Cruz de Coimbra foi, desde o século XII, juntamente com Alcobaça, o maior centro intelectual de Portugal. 

Ali se estudou e ensinou o Trivium e o Quadrivium, expoentes da cultura medieval, além de se copiarem, traduzirem e interpretarem os grandes autores clássicos e da tradição cristã. De Santa Cruz de Coimbra, onde estudou e se formou Santo António, saiu o melhor da elite intelectual que apoiou D. Afonso Henriques nos seus esforços diplomáticos junto da Santa Sé; e, não esquecer, ainda Lisboa era uma cidade estrangeira. 

Ali se reuniram as Cortes de Coimbra (1385), que elegeram D. João I e fundamentaram juridicamente o seu direito ao trono. E é curioso que andando o futuro rei já por terras mais a sul, tenha vindo a Coimbra respaldar-se nos juristas que cá havia.

Ali se estabeleceu, por diversas vezes e definitivamente a partir de 1537, e não foi por acaso mas em grande parte pela tradição e irradiação cultural de Santa Cruz, a única Universidade Portuguesa até ao século XX. Ali floresceram dezenas de colégios de estudos médios, jesuítas e de outras congregações, tanto da Rua da Sofia, a que deram o nome, como na Alta.

Ali floresceram os célebres “Conimbricenses”, responsáveis por um monumento de sabedoria e erudição filosófica, teológica e científica do Renascimento, e pelo qual estudou a Europa culta do tempo.

Ali empreendeu e levou a cabo o Marquês de Pombal a mais sólida reforma iluminista de Portugal, e deu à Universidade e, portanto, a Portugal um património científico e museológico talvez único. 

Ali funciona, há séculos, uma Faculdade de Direito que tem dado inúmeros juristas da mais elevada qualidade, e donde saiu a elite de juristas que estruturou o edifício jurídico brasileiro, na linha de Coimbra, além da proeza inaudita que é o Brasil de hoje, unido e imenso.

Ali existe, desde há décadas, a maior editora jurídica de Portugal – A Almedina – onde se publicaram e publicam a maioria dos estudos e dos tratados jurídicos em Português, não só dos professores da sua Faculdade, mas de outras que sabem do prestígio jurídico das referidas edições. Foi a dois professores da Faculdade de Direito de Coimbra – Barbosa de Melo e Cardoso da Costa – que, no âmbito da revisão constitucional de 1982, foi dada a tarefa de articular e fundamentar o futuro Tribunal Constitucional. É interessante recordar que este chamado “Grupo de Coimbra”, logo na altura considerou que não convinha ao referido tribunal a proximidade do poder político. E um dos problemas que se colocou, e que na altura foi debatido, foi o da sua independência; coisa eventualmente mais difícil de manter quando a proximidade ao referido poder é grande.

Ora bem, 

apesar disto tudo, talvez por ignorância ou por um acinte subconsciente e provinciano, ou por simples comodidade e egoísmo, a maioria dos juízes do Tribunal Constitucional deu parecer negativo à sua transferência para Coimbra, num esboço do que poderia ser alguma descentralização. Isso seria “desprestigiante” para a Instituição, disseram dez dos treze juízes. Depois, face à indignação geral, emendaram dizendo que o desprestígio não era por ser Coimbra mas por sair de Lisboa. Pior ainda. Como se não houvesse exemplos disso na Europa, não fossem até sinal de maturidade institucional e política e não tivesse Coimbra razões culturais e jurídicas suficientes, o que é inaceitável por muitas das razões apresentas.

E mesmo quanto ao presente, Coimbra é boa para ter no Instituto Pedro Nunes uma das melhores incubadoras de empresas do Mundo, é boa por inúmeras empresas de ponta como a Critical, a Feedzai, a Bleupharma, etc. mas não pode ter o Tribunal Constitucional nem o Supremo Tribunal Administrativo.

É claro que o Partido Socialista, que sabe ter em Coimbra uma coutada reverente e obrigada, absteve-se na votação na Assembleia da República. Embora seja o grande responsável por um poder autárquico que há décadas atrofia a cidade, veio com as habituais explicações palavrosas, hipócritas e cobardes.

Sim, porque a Universidade de Coimbra tem feito um notável esforço de modernização e internacionalização, como o referido Instituto Pedro Nunes, o Aibili e o Biocant são exemplos, tal como a grande percentagem de alunos estrangeiros que atualmente a procuram. 

Mas esse esforço não tem sido acompanhado, nem de perto nem de longe, pelas sucessivas autarquias socialistas que têm anestesiado a cidade. Basta recordar os mais de trinta anos que demorou a licenciar o Polo II. Portante, era melhor que o Partido Socialista e os seus deputados assumissem que, para eles, todo o resto do país, por muitos pergaminhos que tenha e moderno que seja, é desprezível. 

Será que, como já alguém disse, o Tribunal Constitucional se sente mais dignamente instalado no Bairro Alto que junto aos Antigos Paços dos reis de Portugal?

João Boavida

“INSTITUTO DE CONSERVAÇÃO DA BIODIVERSIDADE (ICB)”

Novo texto do Professor Galopim de Carvalho.


Devia ser esta a designação oficial da instituição que agora dá pelo nome de INSTITUTO DE CONSERVAÇÃO DA NATUREZA E DAS FLORESTAS (ICMF), que antes deste se chamou INSTITUTO DE CONSERVAÇÃO DA NATUREZA E DA BIODIVERSIDADE (ICNB) e que começou, lógica e simplesmente, por ter o nome de INSTITUTO DE CONSERVAÇÃO DA NATUREZA. 

Tudo começa, e bem, com a criação, em 1984, do Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza (Decreto-lei 107/84, de 2 de Abril), ao tempo do Primeiro-ministro Mário Soares.

É por demais sabido que, entre nós, quando mudam os protagonistas da coisa pública, mudam-se os nomes de ministérios, de secretarias de estado, de direcções-gerais, de institutos, laboratórios e outros organismos públicos, ao sabor das novas políticas e dos novos governantes, o que sempre acarreta perturbações no trabalho e custos desnecessários. Mas é assim. Sempre assim foi e continuará a ser. Foi o que aconteceu, nove anos mais tarde, em Maio de 1993, ao tempo do governo de Cavaco Silva, mudando-lhe o nome para Instituto de Conservação da Natureza (ICN), um nome bem escolhido, que abarcava todo o universo do anterior Serviço Nacional, dito em apenas três palavras.

Conheci bem e trabalhei em estreita colaboração com este Instituto nos anos de 1995 a 2002, durante os governos de António Guterres, era Ministra do Ambiente e, depois, do Planeamento a economista Elisa Ferreira.

Quando, em 2007, sabe-se lá por que iluminada inspiração, o governo de José Sócrates entendeu mudar o nome deste Instituto bem conhecido por todos pela sigla ICN, para “Instituto de Conservação da Natureza e da Biodiversidade” (ICNB) (Decreto-Lei 136/2007, de 27 de Abril), lá longe, no reino das almas, Aristóteles, o pai da lógica, terá comentado: «Estes rapazes acabam de cometer um erro grave, posto que, logicamente, a nova designação pressupõe que a biodiversidade não pertence à natureza. E a verdade é que pertence». E terá acrescentado: «O antigo nome deste departamento do Estado estava correcto, dizia tudo, o necessário e o suficiente».

Como já afirmei noutros locais, esta nova designação do citado organismo foi, pois, redundante, desnecessária, logicamente absurda e cientificamente ridícula. 

Não obstante as vozes que se levantaram contra este dislate, eis que, cinco anos depois, outros “rapazes”, agora no governo de Passos Coelho, cometeram o mesmo disparate, ao rebaptizá-lo de “Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas” (ICNF) (Decreto-Lei n.º 135/2012, de 29 de Junho), numa aceitação igualmente implícita de que as florestas não fazem parte da mãe natureza.

Os que tiveram o privilégio de estudar, aprenderam que a lógica é o ramo da filosofia que ensina a pensar correctamente na busca séria do conhecimento. Aprendemos ainda que foi Aristóteles, no século IV a. C., o introdutor desta metodologia do pensamento da Grécia Antiga, o mesmo que ainda regula as nossas vidas. A lógica é, pois, como que a ferramenta do pensador. Conta-se que um jovem curioso de saber se dirigiu a este que foi discípulo de Platão, e mestre de Teofrasto e de Alexandre, o Grande, dizendo-lhe que queria aprender com ele coisas sobre animais e invertebrados. Como resposta, Aristóteles (que também foi naturalista e quem primeiro dividiu os animais em vertebrados e invertebrados) ter-lhe-á dito, complacente: «Meu jovem, a tua frase conduz a um erro grave, posto que, logicamente, pressupõe que os invertebrados não são animais. E a verdade é que são. As formigas ou os mosquitos são tão animais como os cavalos ou as galinhas».

As duas infelizes designações oficiais (ICNB e ICNF) que responsáveis da administração, falhos de cultura científica, resolveram atribuir a esta instituição, revelam-se tão absurdas como as que, entre outras barbaridades, poriam em evidência esta negação do pensamento lógico:

“Sindicato dos médicos e dos cardiologistas”
“Confraternização de militares e sargentos”
“Dia mundial dos monumentos e dos castelos”
“Acção metropolitana de apoio à família e aos filhos”
“Observatório para o estudo dos pequenos mamíferos e dos morcegos”
“Liga de defesa e valorização das árvores e dos sobreiros”
“Comissão reguladora da venda do peixe e do bacalhau”
“Sociedade exportadora de frutas e de laranjas”
“Fundo de apoio à comunicação social e aos jornais”
“Governantes e ministros em férias no Algarve”

etc., etc., num nunca mais acabar de disparates alheios ao pensamento do imortal estagirita e criador do Liceu de Atenas.

São dez violentas pedradas na lógica. Proferir ou escrever estas frases seria subentender que os filhos não pertencem à família, que os morcegos não são mamíferos, que os sobreiros podem ser tudo menos árvores e que o bacalhau não é peixe, nem as laranjas, frutos. Seria afirmar que os jornais estão fora da comunicação social e que os senhores ministros não são governantes, o que, nalguns casos, até faz algum sentido.

Se é verdade que o Instituto em causa tem obra feita e bem feita na conservação da natureza viva, ou seja, na biodiversidade, também é verdade que, tirando a burocrática e minuciosa prosa constante dos documentos oficias que classificaram os sete Monumentos Naturais existentes em Portugal (não por sua iniciativa, mas por pressões exteriores de outras entidades), nada fez pela conservação da geodiversidade, em geral, nem, sequer, pela dos Monumento Naturais que foi levado a classificar. O Monumento Natural referente à jazida de icnofósseis (as pegadas de dinossáurios) da Pedreira de Santa Luzia em Pego Longo (Carenque) é um deles.

Lembremos que esta importante Jazida foi classificada como Monumento Natural, em 1997 (Decreto n.º 19/97 de 5 de Maio), durante o governo de António Guterres. São seus objectivos fundamentais “a preservação e conservação da jazida de icnofósseis da Pedreira de Santa Luzia, bem como o seu estudo científico e divulgação numa perspectiva de educação ambiental”.

Não obstante as sucessivas e insistentes diligências que empreendi, ao longo destes 24 anos, o abandono a que foi votado este Monumento Natural é uma vergonha e um manifesto incumprimento de uma obrigação legal, bem expressa no Artigo 7.º do referido Decreto n.º 19/97. onde se lê: “A fiscalização do disposto no presente diploma compete ao ICN, em colaboração com as autarquias locais e demais entidades competentes, nos termos da legislação em vigor”.

Este Monumento Natural voltou a ser lixeira e é hoje um matagal com ervas e arbustos, tudo nascido e enraizado na própria laje que contém as pegadas. Uma vergonha para a Câmara Municipal de Sintra e uma vergonha ainda maior para o dito Instituto, a quem, como se leu atrás, compete fiscalizar e zelar por este valioso património.

Em Julho deste ano o Tribunal Administrativo e Fiscal de Sintra deu-nos razão, no seguimento de uma Providência Cautelar que havíamos interposto, condenando o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas e a Câmara Municipal de Sintra, a cumprirem, exactamente, aquilo a que a lei, expressamente, os obriga, constante no atrás Artigo 7.º do referido Decreto n.º 19/97. Não satisfeitos com esta decisão da primeira instância, estes dois organismos recorrem para a instância imediatamente superior. Se, de certa maneira, mais tolerante, se pode compreender a ignorância e a insensibilidade da autarquia para este tipo de problemas, cujas preocupações abarcam um sem número de outros, próprios de um dos maiores concelhos do país, não se pode, de maneira nenhuma, aceitar esta irresponsabilidade de um organismo do Estado que tem por estatuto conservar a natureza e a natureza, como todos sabemos começou pela geodiversidade e só centenas de milhões de anos depois surgiu a biodiversidade.

Esta irresponsabilidade que visa arrastar o problema por um tempo ao limite do possível, está a permitir a contínua degradação e eventual destruição da jazida é, afinal, um crime contra o património geológico impensável por parte do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas.

Este desinteresse pela natureza não viva leva-me a pensar que este Instituto devia fixar-se na natureza viva e, daí, o nome “Instituto de Conservação da Biodiversidade”, deixando as preocupações da geodiversidade e as da geoconservação às instituições que já mostraram muito e bom trabalho nestes domínios como são o Laboratório Nacional de Energia e Geologia e as Universidades.

Galopim de Carvalho

Lira Neto - Os Judeus no Brasil

sexta-feira, 17 de setembro de 2021

Lançamento da Coleção Ciência, Tecnologia e Medicina na Construção de Po...

PIO ABREU E A HISTÓRIA DA PSIQUIATRIA

José Luís Pio Abreu (n. 1944 em Santarém) é um psiquiatra com actividade em Coimbra, onde foi professor na Faculdade de Medicina e médico nos Hospitais da Universidade (hoje Centro Hospitalar Universitário de Coimbra). Tornou-se conhecido do público pelos seus livros sucessivamente reeditados – destaca-se o best-seller Como Tornar-se Doente Mental (Quarteto, 2001; 24.ª ed., Dom Quixote, 2016) – e pela sua intervenção cívica, que passou por crónicas na imprensa (o livro Estranho Quotidiano, saído na Dom Quixote em 2010, com prefácio de Maria Filomena Mónica, reúne as curiosas crónicas que publicou no jornal Destak).

Acaba de sair na Dom Quixote o seu último livro Pequena História da Psiquiatria. Os desafios das doenças mentais, que é um resumo, naturalmente na óptica do autor, da evolução da ciência psiquiátrica. Em 192 páginas o autor passa em revista os marcos mais importantes da psiquiatria. Isso é feito na primeira parte (intitulada “O Passado”), que ocupa dois terços do livro, a começar com o alemão Franz Mesmer, o médico criador da teoria do magnetismo animal no final do século XVIII, e com o francês Philippe Pinel, representado na bela capa a libertar os alienados do asilo de La Salpêtrière, em Paris, no ano de 1795 (numa pintura muito posterior). Pinel é considerado o «pai da psiquiatria», por ter passado a tratar humanamente as pessoas com perturbações mentais e a classificar estas perturbações, depois de ter sabido do suicídio de um amigo. Como não podia deixar de ser, Pio Abreu dedica espaço ao francês Jean-Martin Charcot, fundador da neurologia moderna, e ao austríaco de origem judaica Sigmund Freud, criador da psicanálise. Pio Abreu não esconde as críticas que a ciência hoje faz a Freud, mas aponta também os seus méritos, entre os quais o de fazer passar os tratamentos psiquiátricos para consultórios privados. Explica que o êxito de Freud se deve, em grande medida, aos seus continuadores judeus nos Estados Unidos depois do Holocausto no Velho Continente. É também destacado o alemão Emil Kraepelin, o fundador da psiquiatria científica moderna, ao defender que as doenças mentais são causadas por transtornos biológicos, tendo algumas delas base genética.

Pio Abreu dá grande atenção ao uso de drogas para tratar de doenças mentais, começando no século XIX com a morfina e continuado ao longo do século XX com a insulina, o lítio, a clorpromazina e a levodopa. E dá também o devido realce aos manuais norte-americanos de classificação de doenças mentais, os DSM – Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders. A primeira versão foi o DSM-1, de 1952 e a última o DSM-5, de 2013. Para que se veja a evolução face à homossexualidade: esta só deixou de ser considerada doença no DSM em 1974!

O autor historia a evolução em Portugal da psiquiatria, desde o Abade Faria, nascido em Goa e com actividade em França, um dos primeiros estudiosos da hipnose. Uma personagem inspirada por ele aparece no romance O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas. Pio Abreu discute o papel de António Egas Moniz, o nosso único Prémio Nobel na área das Ciências (de Fisiologia ou Medicina, em 1949): ele foi o autor de uma tese doutoral intitulada A Vida Sexual (1901), onde a homossexualidade é considerada uma doença curável por psicoterapia e hipnose, e o precursor de uma técnica de psicocirurgia assaz criticada, a leucotomia pré-frontal, que deixou de ser usada graças aos avanços dos psicofármacos. Egas Moniz foi também pioneiro na recepção de Freud entre nós, o que passou por uma biografia de Júlio Dinis (de cuja morte passam este ano 150 anos), onde há uma leitura psicanalítica de Uma Família Inglesa. No livro de Pio Abreu não está, mas Egas Moniz foi médico de Fernando Pessoa e de Mário de Sá Carneiro. O autor descreve também em traços gerais o trabalho de grandes médicos como Miguel Bombarda, António de Magalhães Lemos, Júlio de Matos e José Sobral Cid, cujos nomes estão associados a hospitais psiquiátricos respectivamente em Lisboa, Porto, Lisboa e Coimbra. Quem quiser saber mais sobre a história da psiquiatria ganha em consultar a tese defendida em 2015 na Universidade de Coimbra pelo médico José Morgado Pereira A Psiquiatria em Portugal. Protagonistas e história conceptual (1884-1924), que se encontra on-line.

Na segunda parte (intitulado «Presente Contínuo»), que ocupa o terço final do livro, o autor apresenta um ponto da situação da psiquiatria hoje, enumerando questões que permanecem em aberto, apesar dos grandes avanços na imagiologia cerebral e na sequenciação genética. Conclui: «A mente está para o cérebro como a vida está para o corpo. Corpo e cérebro são estruturas espaciais. Mas a vida e a mente são o corpo e o cérebro ao longo do tempo.» O livro tem no fim um útil índice onomástico, algo que não é muito usual nos livros portugueses. Encontramos lá, na letra C, o nome de Arsélio Pato de Carvalho, o biólogo que fundou em Coimbra em 1989 o primeiro centro de neurociências português.

Aprendi muito neste livro. Por exemplo, não sabia que Freud começou a sua carreira num laboratório de fisiologia a comparar cérebros humanos com os das enguias, que ele dissecava (mais tarde haveria de as considerar símbolos fálicos). E não tinha a noção de que o filósofo alemão Karl Jaspers, com formação em medicina e expulso pelos nazis da Universidade de Heidelberg, teve uma actividade tão determinante na área da psiquiatria. Para já não falar da curta ideia que tinha da influência da indústria farmacêutica no desenvolvimento da ciência psiquiátrica, que permitiu substituir tratamentos violentos como os que aparecem no filme Voando Sobre um Ninho de Cucos, de Miloš Forman (dos tratamentos antigos quase que só resta o electrochoque, eficaz em certos casos).

Na Pequena História da Psiquiatria fica demonstrado o bom poder de síntese do autor, que está alicerçada na sua longa carreira médica, ao longo de cinco décadas, e na sua bibliografia tanto científica como pedagógica e de divulgação. De vez em quando, em caixas sombreadas, ele remete para obras suas anteriores. O primeiro livro de Pio Abreu, sobre quadros clínicos de depressão, foi publicado em 1973, em colaboração com o psiquiatra Adriano Vaz Serra, catedrático de Psiquiatria em Coimbra e director desse serviço no hospital. Seguiu-se O Modelo do Psicodrama Moreniano (HUC, 1992; Climepsi, 2019), uma terapia criada por um médico romeno, emigrado para os Estados Unidos devido à perseguição aos judeus. Pio Abreu é também autor de manuais universitários bem-sucedidos do prelo da Fundação Gulbenkian: Introdução à Psicopatologia Compreensiva (2004; 7.ª ed., 2015) e Elementos de Psicopatologia Explicativa (2012; 2.ª ed., 2014). Para a mesma Fundação traduziu Neurofisiologia Sem Lágrimas, de William MacKay (1999; 6.ª ed., 2016).

Antes do marco bibliográfico que foi Como Tornar-se Doente Mental, Pio Abreu publicou Comunicação e Medicina (Virtualidade, 1998) e O Tempo Aprisionado (Quarteto, 2000). Depois passou para a Dom Quixote, onde saíram, para além do já referido Estranho Quotidiano, os livros Quem Nos Faz Quem Somos: Genes, signos, identidades (2007), para o qual escrevi um prefácio, O Bailado da Alma (2014), sendo a mente o novo nome da alma, e A Queda dos Machos: Cartas às minhas amigas (2016, 2.ª ed., 2019), sobre questões de género.

É ainda autor de prefácios para livros polémicos: Anti-Freud, de Michel Onfray (Objectiva, 2012), onde o filósofo francês critica abertamente Freud; Maníacos de Qualidade: Portugueses célebres na consulta com uma psicóloga, de Joana Amaral Dias (Esfera do Caos, 2010), filha do psiquiatra conimbricense Carlos Amaral Dias; e Amor e Sexo no Tempo de Salazar, de Isabel Freire (A Esfera dos Livros, 2010).

Como Tornar-se Doente Mental é um título muito original. O seu êxito não será alheio ao título. A partir da 13.ª edição passou a sair na Dom Quixote, tendo os direitos sido vendidos para o Brasil, Espanha e Itália (o autor ganhou em 2016 o prémio italiano Cittá delle Rose). Pio Abreu pega em doenças do DSM e descreve os seus sintomas, para que ironicamente, o leitor possa «escolher» essas formas de loucura.

Devo dizer que o conheço pessoalmente, tendo por ele admiração e estima. Fiquei com a ideia do contacto com ele e com outros psiquiatras (em Coimbra, conheço também o Carlos Braz Saraiva, especialista em suicídio; no Porto, conheço Rui Coelho, para cuja Revista Portuguesa de Psicanálise, já escrevi) que os psiquiatras são das classes profissionais mais interessantes para se ter uma conversa…

A minha experiência com a classe é, até agora, apenas fora do consultório. Diz o povo que «de médico e louco todos temos um pouco». De médico, eu tenho muito pouco, pois nem posso ver sangue. De louco, tenho, como toda a gente, ocasiões. Em entrevista recente à jornalista Clara Soares da Visão, Pio Abreu respondeu assim à pergunta «como não ser doente mental?»:

«Todos podemos ter problemas mentais: ficar fóbico depois de ter um acidente de viação, maníaco quando se tem uma paixão, ou um pouco obsessivo após ter feito qualquer coisa e não poder pensar nela. São crises passageiras, mas é preciso estar atento porque a partir de certo ponto podem tornar-se patológicas. As pessoas podem reinventar-se, experimentar outras formas de estar. Grandes artistas tinham patologias e sempre houve uma relação entre criação artística e doença mental. Costumo dizer que um génio é um louco com sucesso e um louco é um génio sem sucesso.»

CIÊNCIA ÀS SEIS! no RÓMULO: O Deus das Moscas Tem Fome: Conversa com Luís Corte Real

 


CIÊNCIA ÀS SEIS! no RÓMULO:

O Deus das Moscas Tem Fome: Conversa com Luís Corte Real

O RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra organiza mais uma sessão no próximo dia 21 de Setembro de 2021, terça-feira, pelas 18 horas. Será convidado Luís Corte Real, autor de O Deus das Moscas Tem Fome, editor da Saída de Emergência, que tem editado livros de literatura fantástica, ficção científica e divulgação da ciência. Apresentará o  livro e será moderador do diálogo com o autor o físico Carlos Fiolhais.

O evento online destina-se ao público em geral, em especial os que gostam de literaturav fantástica, de ficção científica e de divulgação científica. Haverá oportunidade para colocar questões e comentários.

Acesso à sessão no Zoomhttps://videoconf-colibri.zoom.us/j/81292925978
ou ID da reunião: 812 9292 5978

 

Sinopse do livro:

“O Deus das Moscas” tem fome é uma aventura de Benjamin Tiormenta. Quem é Benjamim Tormenta, o famoso detetive do oculto que se move na Lisboa do século XIX?

Benjamim Tormenta é uma figura elegante e misteriosa: tanto é avistada nos salões luxuosos da capital como nas ruelas decadentes de Alfama, em palacetes de Sintra ou casas de ópio de Macau. Cruzando-se com figuras como o rei D. Luís, Fontes Pereira de Melo ou Eça de Queiroz, ele usa as suas habilidades na Lisboa secreta: a dos deuses negros convocados por burgueses ociosos, das aberrações vindas do outro lado do Cosmos, dos livros amaldiçoados e da mais perigosa sociedade secreta do império português: a Irmandade da Serpente Verde.

O que poucos sabem é que também Tormenta esconde um segredo tenebroso. Preso no seu corpo pela magia de muitas tatuagens está um demónio milenar que se quer soltar e espalhar a destruição, primeiro em Lisboa e depois no mundo.

Biografia do autor:

Luís Corte Real fundou a editora Saída de Emergência em 2003. Desde então criou a Coleção Bang! (que lança em Portugal os melhores autores de fantástico da atualidade e muitos clássicos) e a Revista Bang! (uma publicação semestral e gratuita dedicada à fantasia, ficção científica e horror). Também editou autores como a Nora Roberts e Mark Manson As paredes de sua casa estão ocupadas por todo o tipo de livros, banda desenhada, manuais de Dungeons & Dragons e Call of Cthulhu, jogos de tabuleiro, action figures e mais caixas de Lego do que aquelas que consegue montar. O Deus das Moscas Tem Fome é a sua primeira obra — uma espécie de X-Files na Lisboa de Eça de Queiroz, com influências que vão de H. P. Lovecraft e Arthur Conan Doyle a Mike Mignola.


Para mais informações:

RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

Maria Manuela Serra e Silva

Telefone – 239 410 699

E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com

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