sexta-feira, 23 de julho de 2021

Programa de Doutoramento em Estudos Globais da Universidade Aberta


Está a decorrer, até ao dia 25 de julho, o período de candidatura ao Programa de Doutoramento em Estudos Globais: https://candidaturas.uab.pt/cssnet/page


Entre outras atividades, os estudantes deste programa de doutoramento têm acesso privilegiado ao Seminário Internacional de Estudos Globais, que tem contado com a participação de insignes especialistas de diversas áreas do saber.

NOVIDADES DA GRADIVA


Informação recebida da Gradiva:

António José Saraiva: A intimidade de um intelectual indomável
(Fotobiografia)
António Manuel P. Saraiva, José António Saraiva, Pedro António P. Saraiva
29,00€ 

A vida quotidiana de um dos mais estimulantes e criativos intelectuais portugueses do século XX, em fotografias e texto escrito pelos três filhos.

Um livro para ler, ver e… guardar.


Disponível a 24 de Julho.


https://www.gradiva.pt/catalogo/52935/antonio-jose-saraiva:-a-intimidade-de-um-intelectual-indomavel-

As Canções das Árvores
Histórias sobre as grandes redes da natureza
David George Haskell
16,00€ 

VENCEDOR DA MEDALHA JOHN BURROUGHS 2018 PELA EXCELÊNCIA NA ESCRITA DE HISTÓRIA NATURAL.

ESCOLHIDO COMO UM DOS MELHORES LIVROS DE CIÊNCIA DE 2017 POR SCIENCE FRIDAY E BRAIN PICKINGS

«Uma canção de amor às árvores, uma exploração da sua biologia e uma análise filosófica maravilhosa do seu papel na história humana e na cultura moderna.»

Science Friday

Dono de uma escrita eloquente David Haskell reflecte neste seu livro apaixonante em como a história humana, a ecologia, e o bem-estar estão intimamente ligados com a vida das árvores.

Com um prefácio de António Bagão Félix.

https://www.gradiva.pt/catalogo/52927/as-cancoes-das-arvores

Os meus compatriotas
Luís Valente de Oliveira
14,00€

Como são os Portugueses deste século XXI?
Atributos, comportamentos, hábitos, manias…
Reflexão em nome próprio resultante da observação que o autor fez dos portugueses durante os vários cargos públicos que ocupou.

Nota de abertura disponível aqui.

https://www.gradiva.pt/catalogo/52925/os-meus-compatriotas


Alix Senator 2
O Último Faraó

Valérie Mangin, Thierry Démarez
16,50€ 

Roma, ano 12 a. C. O imperador Augusto é todo-poderoso. Alix tem mais de cinquenta anos e é senador. Mas a paz que reina em Itália não é senão aparente. O próprio imperador por pouco não foi morto por um louco que dizia agir em nome de... César! Loucura, logro ou verdadeiro regresso? Alix e os seus filhos vão ter de o descobrir…
A segunda aventura Alix, agora senador de Roma, já disponível.

Primeiras páginas disponíveis aqui.

https://www.gradiva.pt/catalogo/52926/alix-senator-2-

Frankenstein em Bagdade
Ahmed Saadawi
PRÉMIO INTERNACIONAL DO ROMANCE ÁRABE
14,00€ 

Agora em versão papel.

Um romance premiado, que TRANSPORTA o leitor para o IRAQUE DEVASTADO pela guerra.

A tragédia e o absurdo, o horror, o patético e o cómico, num cenário de ruínas e resiliência humana... que  a muitos no Ocidente deve pesar na consciência. Metáfora expressiva de uma realidade que nós ocidentais conhecemos muitos mal. Frankenstein em Bagdade é uma obra extraordinária que retrata com horror e humor negro arrepiantes o mundo surreal de uma cidade aniquilada.

TAMBÉM DISPONÍVEL EM EBOOK.

https://www.gradiva.pt/catalogo/52928/frankenstein-em-bagdade-

Leiria Nocturne
Orlando Ferreira Barros
11,90€ 

O que se conta neste livro é a história de vida – nascimento, agonia e loucura – do credenciado Pierre Bonnechance, aquele que era o único preto da cidade de Leiria. Mas também o mais bem vestido, o mais perfumado, e que fazia dele um preto mais branco que os brancos. Gozou de um estatuto de privilégio, ancorado no seu amor devotado ao Estado Novo, de que se fez, desde a juventude, grande apoiante. O 25 de Abril desbancou-o desde estatuto, levando-o a mergulhar no fel da rejeição. Consegue recuperar quando, no velório de Torcato Bernardes (Os Manuscritos de Leiria, editado pela Gradiva), encontra a viúva Palmira João (Os Manuscritos de Leiria). É ela que o vai ajudar a superar a confusão do vale-tudo, segundo ele, que se instalou no país com o 25 de Abril. Mas a sorte não estava com ele, acabando Pierre Bonnechance num estado de delírio, vagabundeando pela cidade, citando as profecias de Isaías.

Tal como um nocturne de Chopin, pela narrativa perpassa uma aragem de melancolia, tristeza, soturnidade, mas também emoções límpidas e serenas que se desentranham da alma de qualquer ser humano que mantenha a sensibilidade intocada.

TAMBÉM DISPONÍVEL EM EBOOK.

https://www.gradiva.pt/catalogo/49135/leiria-nocturne


REEDIÇÃO

Calvin & Hobbes
Bill Watterson
12,11€ 

«Bill Watterson é um artista de primeira linha. Fascinante. Possuidor de um traço e um ritmo invulgares, tem uma memória de elefante.

Calvin & Hobbes não precisam disso. A alucinação diária quase não lhes dá tempo para olharem para ontem. Estão connosco todos os dias. São uma dupla de verdadeiros cascadeurs domésticos. Cidadãos do mundo, são universais.
Calvin não tem qualquer explicação. Ele é! Tudo o que faz, pensa ou diz corta-nos a respiração. A todos. De resto não é só a nós. Que o digam os pais, a babysitter, Hobbes ou mesmo os inofensivos bonecos de neve.
Hobbes é o melhor amigo da onça. Não é por acaso que é um tigre. Uns dias, é um boneco voyeur impenitente. Outros, um companheiro de todas as horas. O melhor.»

Henrique Cayatte

https://www.gradiva.pt/catalogo/13922/calvin-&-hobbes


VICTOR GIL: UM QUÍMICO ARRUMA A CASA

 


Meu artigo no I de ontem:

Acaba de sair com a chancela da editora Texto, do grupo Leya, um livro autobiográfico da autoria de Victor Gil (1939-2018), professor de Química da Universidade de Coimbra, que também ensinou na Universidade de Aveiro, da qual foi o primeiro reitor em 1973. Foi investigador pioneiro em Portugal na área da Ressonância Magnética Nuclear, com a instalação do primeiro laboratório em 1967, e um notável pedagogo, não só directamente através das suas aulas universitárias, mas também pela autoria de numerosos livros de Química e Física. Foi ainda pioneiro em Portugal dos centros interactivos de ciência com a criação em 1995 do Exploratório Infante D. Henrique, em Coimbra, com base na sua experiência anterior na organização de exposições de ciência para jovens.  É um legado que, no seu conjunto, não pode deixar de ser considerado extraordinário. Poucos professores terão sido tão eclécticos como ele.

O formato do livro póstumo é muito original, pois trata-se de uma entrevista que o autor fez a si próprio, depois de ter dado uma entrevista ao jornalista João Almeida, da Antena 2, (programa “Quinta Essência”), na qual ele achou que tinha ficado muito por dizer. Aproximando-se dos 80 anos - o título Arrumar a Casa Antes dos 80 é elucidativo, como também o é o subtítulo Viagem ao passado em entrevista do próprio – achou boa ideia deixar por escrito a história da sua vida e o essencial das suas ideias sobre a vida e o mundo. Trata-se de um livro de memórias, um estilo insuficientemente cultivado entre nós, com o formato, um tanto espartilhante, de perguntas e respostas. O livro tem um subsubtítulo; As perguntas que já foram feitas e as outras. Um projecto em que o autor se desdobra naquele que pergunta e naquele que responde, aqui identificados por P e R, respectivamente. Começa com o capítulo «Sentimentos conjugados no pretérito recente» e termina com o capítulo «As outras actividades. Vidas e o futuro condicionado», passando por outros sobre a educação, o amor, a profissão e a “relação com os mistério”. No fim a “casa” fica “arrumada”.

Claro que o próprio só pergunta o que quer e, perante as perguntas colocadas, só responde o que quer. Mas, lido o livro de fio e pavio, não pude deixar de me admirar com algumas das perguntas que coloca e com algumas das respostas que dá. A obra, que tem prefácio de Júlio Pedrosa, ex-reitor da Universidade de Aveiro e ministro da Educação, conta a trajectória de vida do autor, num estilo, em certos passos, bastante intimista (lembrei-me do livro O Bilhete de Identidade, de Maria Filomena Mónica, Alêtheia, 2005). Os cientistas costumam ser bastante reservados relativamente à sua vida pessoal, mas o autor, de quem fui amigo e coautor numa dúzia de manuais e meia dúzia de artigos, desnuda-se amiúde, deixando-nos um testemunho pessoal terminado semanas antes de morrer. Houve um certo pressentimento de um final cuja hora não podia adivinhar: morreu de um ataque cardíaco repentino, durante a noite, sozinho em sua casa.

A obra foi publicada agora com a ajuda dos seus dois filhos, a química (quem sai aos seus…) Ana Gil e o engenheiro electrotécnico João Gil, que assinam a introdução. Os filhos cumpriram, assim, a vontade paterna ao divulgarem o projecto, cuja existência conheciam. Este é o segundo livro póstumo de Victor Gil, pois saiu em 2020 o livro de poesia Poréns e Encantos na Sana Editora de Aveiro. O livro mais recente contém alguns poemas desse livro, cuja qualidade literária será só incipiente. Os filhos ficaram admirados perante a quantidade de poemas que encontraram. Os colegas, como eu próprio, não lhe conheciam esse seu culto das musas.

Victor Gil nasceu de origem modestas na aldeia de Santana, perto da Figueira da Foz: a mãe era costureira que vendia em feiras e o pai agricultor, com uma ou duas vacas leiteiras. A criança cedo percebeu que, se não estudasse, não poderia escapar ao destino pobre que o seu berço lhe traçava. Estudou então com afinco, tendo obtido excelentes notas primeiro na escola primária local e depois no Liceu D. João III em Coimbra (uma escola que eu também frequentei, embora bastante mais tarde). Completou a seguir a licenciatura em Ciências Físico-Químicas na Universidade de Coimbra. Escreve o autor: «Lembro-me de algumas vezes o meu pai ter de pedir emprestados 500 escudos a um vizinho para eu poder pagar os encargos de alojamento e refeições e outras despesas, algumas significativas como a capa e batina». Mas, uma vez que Victor Gil continuava a revelar-se aluno brilhante (teve 18 a Matemática dada pelo Doutor Esparteiro, nota que este só tinha dado uma vez… a uma rapariga bonita!), obteve uma bolsa de estudo e foi convidado para ficar como assistente e ir para o estrangeiro estudar a Ressonância Magnética Nuclear – RMN, uma técnica de análise química então nova entre nós. O RMN consiste em sujeitar núcleos atómicos a um campo magnético, de modo a revelar certas características químicas da substância em análise. Victor Gil completou o doutoramento na Universidade de Sheffield, em Inglaterra, em 1965, na altura já casado e com a filha Ana recém-nascida. O Departamento de Química de Sheffield conta com quatro prémios Nobel, um dos quais Harry Kroto, descobridor dos fulerenos, que aparece numa fotografia do livro ao lado de Victor Gil (os fulerenos incluem o futeboleno, molécula parecida a com uma bola de futebol).

O primeiro laboratório de RMN em Portugal foi criado pelo Doutor Victor Gil logo que regressou. Em 1973, no tempo em que José Veiga Simão, catedrático de Física em Coimbra com o doutoramento também feito em Inglaterra, o designou reitor da então criada Universidade de Aveiro. Cumpriu só um mandato, embora tivesse continuado em Aveiro como catedrático. Voltou a Coimbra em 1982, ano em que eu também voltei à cidade, vindo da Alemanha. Conheci-o por essa altura, tendo verificado interesses convergentes quanto ao ensino e divulgação das ciências.

A obra pedagógica de Victor Gil é impressionante: foi coautor de mais de 40 títulos de manuais escolares e universitários, que foram utilizados por mais de 200 000 estudantes. Desatacam-se os seus vários manuais de Química do 12.º ano, os dois manuais universitários da Fundação Gulbenkian, um deles uma obra de referência sobre o RMN, e Orbitals in Chemistry, publicado em 2000 pela prestigiada Cambridge University Press.

Os centros interactivos de ciência têm uma longa história no mundo. O Palais de la Découverte em Paris é de 1937 e o Exploratorium de São Francisco é de 1969. Pois em Portugal, esses centros começaram a ser ensaiados entre nós apenas em 1991 por Victor Gil. O primeiro centro interactivo de ciência entre nós chamou-se «centro de iniciação à ciência», mas, em 1995, tomou o nome de Exploratório Infante D. Henrique. Lembro-me de, em Coimbra, ter apresentado a Victor Gil o meu amigo, então jovem, José Mariano Gago, físico experimental de partículas, que seria, em 1995, a primeira pessoa a ocupar a pasta da Ciência e Tecnologia em Portugal, no primeiro governo de António Guterres. Gago defendia o valor da experimentação na difusão da cultura científica e Gil, então à frente de uma exposição na Casa da Cultura de Coimbra, tinha ideias e know how para construir módulos interactivos de ciência. O Exploratório haveria de se mudar para Santa Clara, para um edifício que foi crescendo, albergando uma actividade também crescente. Porém, o fundador viu-se inopinadamente afastado da direcção, num processo que muito o magoou pela injustiça cometida. Escreve o autor: «Embora considere a ingratidão um dos piores defeitos, superei à custa de me manter activo». Passou a dedicar-se às artes: à poesia e às artes plásticas. Ainda viveu o suficiente para fazer uma exposição individual de arte na Universidade de Aveiro («Criar… na outra margem»), onde presidiu ao Conselho de Ética e Deontologia. Claro que o Exploratório não melhorou com o afastamento do seu criador, limitando-se a manter uma rotina, longe do fulgor de outrora.

Um bom indicador da criatividade de Victor Gil encontra-se num apêndice devotado ao humor químico no livro aqui em apreço. Eis algumas «piadas secas» aí contidas: «Uma solução que não é concentrada é distraída«, “Os electrões de Valência falam espanhol», e «Os metais são bons condutores porque não bebem quando conduzem».

Da extensa produção bibliográfica do autor, elencada apenas em resumo no final, destaco As Minhas Primeiras Investigações Científicas (Almedina, 1984), em colaboração com o filho, na altura ainda infante, e 33 Casos de Acaso em Ciência (Gradiva, 1996).

Aconselho a leitura de Arrumar a Casa Antes dos 80 a quem queira conhecer, compreender e apreciar o cientista, o pedagogo, o divulgador, o poeta, e, acima de tudo, a pessoa de Victor Gil, uma referência nacional na ciência e um ser humano singular. Para que o leitor se aperceba da obra deixo, como é costume nestas colunas, um excerto. Escolhi, do capítulo em que trata a “relação com os mistérios”, a posição do autor sobre a vida depois da morte: «Agora sou mais categórico: a ideia de uma alma e de uma vida depois da morte há muito que me abandonou. Acho que são meras criações da mente humana para compensar ignorâncias, para garantir justiças (segundo os critérios humanos), para perpetuar o instinto de sobrevivência (…) Não tenho medo de morrer, mas tenho pena, pois estou muito agarrado à vida». Agarrado à vida, viveu uma vida cheia, enchendo a vida dos outros. Que descanse em paz!

 

 

quinta-feira, 22 de julho de 2021

Exames que não servem para nada

 Texto de Carlos Portela e Maria João Varela:

O IAVE determinou que as provas de exame nacional de Física e Química A (FQA), aplicadas em 2020, contivessem dois conjuntos diferenciados de itens: um conjunto de 8 itens cujas respostas contribuíam obrigatoriamente para a classificação final da prova, e um outro  conjunto de 18 itens dos quais apenas contribuíam para a classificação final os 12 itens cujas respostas obtivessem melhor pontuação.

Sendo o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória e as Aprendizagens Essenciais da disciplina os documentos de referência na conceção das provas de avaliação externa, não é congruente admitir-se  que as provas incluam itens que não avaliem aprendizagens essenciais. Do ponto de vista das aprendizagens avaliadas, não existiam assim diferenças entre o primeiro e o segundo daqueles conjuntos -  todos os itens, quer se incluíssem no primeiro conjunto ou no segundo, avaliavam aprendizagens significativas e essenciais.

Todos os itens incluídos em qualquer um daqueles conjuntos também não se distinguiam pela sua cotação (todos tinham cotação de 10 pontos).

A opção de um ratio de 1:1 nas cotações dos itens de uma prova foi uma inovação introduzida pelo IAVE nas provas de Física e Química A em 2020, e repetida agora em 2021, que nunca foi explicada. Porque é que todos os itens de uma prova, independentemente do tempo médio esperado de resposta associado a cada um deles (itens cujas respostas são obtidas em 1 ou 2 minutos têm a mesma cotação de itens cujas respostas necessitam de mais de 15 minutos) ou da sua tipologia, têm todos a mesma cotação? Esta opção é tecnicamente muitíssimo discutível, muito raramente utilizada pelos professores na sua prática e nem sequer é utilizada pelo IAVE na generalidade das provas…

Todos os itens de uma prova serão assim, à partida, indistinguíveis, quer do ponto de vista da relevância das aprendizagens que pretendem avaliar, quer do ponto de vista da sua cotação, não parecendo existir qualquer rationale para a inclusão de um determinado item no primeiro conjunto (itens ditos obrigatórios) ou no segundo (itens não obrigatórios).

Com base neste pressuposto, considerem-se dois casos.

Num primeiro caso, um aluno A acerta os 8 itens obrigatórios e acerta ainda os 18 itens não obrigatórios, sendo-lhe contabilizados os 12 melhores deste último conjunto. Um aluno B acerta também os 8 itens obrigatórios  mas, dos não obrigatórios, erra ou não responde a 6.  Ambos os alunos têm 200 pontos.

Num segundo  caso, um aluno A erra 4 itens obrigatórios e acerta os restantes – o aluno A terá obtido 160 pontos. Um aluno B erra ou não responde a 6 itens, mas dos não obrigatórios, acertando os restantes  – o aluno B terá obtido 200 pontos.

Fácil será concluir que, num universo de cerca de 40 mil alunos que realizaram a prova da 1.ª fase do exame nacional de FQA em 2020, foram atribuídas classificações idênticas a provas com desempenhos muito diferentes (em 2020, isso sucedeu num espectro largo que incluiu diferenças de desempenho até cerca de 25% do total de itens da prova), e foram  atribuídas classificações mais baixas a provas com melhores desempenhos (esta situação sucede quando as falhas são, fundamentalmente, nos itens ditos obrigatórios).

Fazendo corresponder desempenhos diferentes a classificações iguais ou, em casos ainda mais absurdos, fazendo corresponder desempenhos melhores a classificações mais baixas, é violado o mais elementar princípio que deve estar na base de uma avaliação justa e séria: a correspondência entre o desempenho do aluno e a respetiva classificação. A validade das provas de exame nacional de FQA de 2020 enquanto instrumento de avaliação que se pretendia rigoroso ficou assim seriamente comprometida.

Acresce ainda que esta solução, na qual a classificação depende da escolha das melhores respostas, é mais penalizadora para os examinandos com mais dificuldades ou que não lecionaram parte do programa, dado que esses examinandos não podem obviamente usufruir dessa escolha por não estarem em condições de responderem a todos os itens.

Para ilustrar a total falta de credibilidade e validade do modelo adotado pelo IAVE, na prova de exame nacional de Física e Química A (1.ª Fase) de 2020, analisam-se os resultados desta prova que foi realizada por 39 444 examinandos (a diferença do número total de alunos que realizaram a prova, em relação a 2019, é inferior a 5%, pelo que o argumento que procura justificar a variação dos resultados com o facto de apenas terem realizado o exame os alunos que necessitavam da prova para acesso ao ensino superior é falso).

Na figura seguinte, apresenta-se num histograma o número de classificações, de 0 a 20 valores, na prova realizada em 2020, e num gráfico de linhas o número de classificações, também de 0 a 20 valores, na prova realizada em 2019.



A distribuição de classificações relativa a 2020, além de completamente anómala quando comparada com a distribuição relativa a 2019 (e também com distribuições de anos anteriores) traduz resultados totalmente implausíveis.

Salientam-se os seguintes aspetos relativos à distribuição de classificações de 2020:

    o número de classificações tende a aumentar no intervalo de 0 a 18 valores;

    42,7% dos examinandos obtiveram 16 ou mais valores;

    10,8% dos examinandos obteve a classificação mais frequente que foi 18 valores (em 2019, apenas 2,9% das provas foram classificadas com 18 valores);

    14,5% das provas foram classificadas com 19 ou 20 valores (um aumento de mais de 10 vezes em relação a 2019, em que 1,4% das provas foram classificadas com 19 ou 20 valores);

    5,2% das provas foram classificadas com 20 valores (um aumento de mais de 10 vezes em relação a 2019, em que 0,46% das provas foram classificadas com 20 valores).

Uma vez que a prova de exame nacional da 1.ª fase de 2020 estava alinhada com as provas de anos anteriores, as completas anomalias e distorções que se verificaram nos resultados só podem ser atribuídas ao modelo adotado pelo IAVE e, em particular, à possibilidade de ter sido possível descartar 6 itens de um total de 26, sem que isso acarretasse, só por si, qualquer penalização - o modelo adotado permitiu que tenha havido provas com classificações de 18, 19 e 20 valores, mas, apesar disso, com falhas que puderam ir até 31%, 27% e 23%, respetivamente, do total de itens da prova.

 

Os resultados do exame final nacional de Física e Química A em 2020 mostram que o modelo adotado pelo IAVE não permitiu a avaliação do mérito relativo (uma análise semelhante poderia ser feita para provas de outras discipinas). Não foi assim cumprido o único objetivo definido em 2020 para o exame nacional de FQA:  seriar os alunos no acesso ao ensino superior.

O completo falhanço do modelo adotado em 2020 nunca foi assumido publicamente pelo IAVE, e também nenhuma entidade exterior ao IAVE quis pôr o dedo na ferida, denunciando o completo atropelo verificado no acesso ao Ensino Superior em 2020 (no qual as provas de exame de FQA assumem importância relevante). O IAVE pretende agora, em 2021, fazer a gestão dos estragos, tendo aumentado drasticamente o número de itens cujas respostas contribuem obrigatoriamente para a classificação final da prova (8 itens em 2020, 16 itens em 2021!).

O aumento do número de itens ditos obrigatórios poderá contribuir para a diminuição da amplitude do enviesamento das classificações subjacente ao modelo adotado em 2020, mas não resolve, de modo algum, o problema estrutural da solução adotada: a ausência de correspondência entre o desempenho do aluno na prova e a classificação obtida.

Ainda em relação ao aumento do número de itens ditos obrigatórios em 2021, é de sublinhar a forte injustiça daqui decorrente para os alunos que fizeram agora exame e que se deparam com regras mais uma vez arbitrariamente modificadas (se correu tudo tão bem em 2020, porque vão mais uma vez alterar as regras?...). Embora estes alunos tenham sido, seguramente, mais penalizados pelas condições excecionais de ensino e de aprendizagem, decorrentes da pandemia de COVID-19,  foram confrontados com um modelo de exame mais desfavorável em termos da probabilidade de obtenção de classificações elevadas.

Se a comparação dos resultados de 2020 com os resultados de 2019 não permite tirar qualquer conclusão sobre a evolução/regressão das aprendizagens dos alunos no domínio da disciplina de FQA, também a comparação dos resultados de 2020 com os de 2021 não terá qualquer significado, não permitindo também obter qualquer conclusão.

Resta a resposta confrangedora a uma pergunta muito simples. Para que servem então estes exames? Para nada.

 

Carlos Portela e Maria José Varela

(professores de física e de química do ensino secundário)

A revogação dos programas irá prejudicar a qualidade das aprendizagens dos alunos

Texto de Carlos Portela, professor de Física e Química na Figueira da Foz:


As Aprendizagens Essenciais pretendem facilitar o desenvolvimento de aprendizagens significativas, em que se desenvolvam competências que requeiram mais tempo (realização de trabalhos que envolvem pesquisa, análise, raciocínios demonstrativos, avaliação, argumentação, metacognição, etc.) e permitir uma efetiva diferenciação pedagógica na sala de aula.

Essas finalidades não têm sido atingidas por motivos de diversa natureza, tais como, a dificuldade de articulação das Aprendizagens Essenciais com o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória, a ausência de um plano de formação de professores bem estruturado, a ausência de condições favoráveis à mudança de práticas dos professores e um excessivo número de alunos por turma.

Na área da Física e da Química, as Aprendizagens Essenciais traduzem as aprendizagens estruturantes nos documentos curriculares que foram agora revogados (que na área da Física e da Química são os seguintes: orientações curriculares e metas curriculares no ensino básico; programas e metas curriculares no ensino secundário).

Do que observo, na prática dos professores, a planificação, a realização e a avaliação do ensino e da aprendizagem exige uma leitura crítica e articulada dos vários documentos curriculares (Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade ObrigatóriaAprendizagens Essenciais, programas e metas curriculares). Nessa leitura crítica, as Aprendizagens Essenciais assumem um papel que é transversal aos vários domínios e, por isso, transferível entre contextos diversificados.

As minhas interações com outros professores de Física e de Química têm mostrado que os professores consideram que não é possível planificar, realizar e avaliar o ensino e as aprendizagens apenas com base nas Aprendizagens Essenciais por serem demasiado genéricas. Por isso, a revogação dos programas e metas curriculares é um erro grave que introduz mais entropia no sistema, o que irá prejudicar a qualidade do ensino e das aprendizagens dos alunos e agravará o fosso existente entre alunos provenientes de contextos socioculturais mais favorecidos e mais desfavorecidos.

Dado que com as Aprendizagens Essenciais se pretende desenvolver aprendizagens significativas (observar, identificar, analisar e dar sentido à informação; argumentar a partir de diferentes premissas e variáveis; interpretar experiências e produzir conhecimento; etc.), o tempo para as desenvolver tem-se revelado manifestamente insuficiente e, a meu ver, tal não se deve à extensão (excesso de “conteúdos”) das Aprendizagens Essenciais, mas, fundamentalmente, ao facto de não terem sido criadas condições para a mudança de práticas dos professores.


Carlos Portela


A Matemática da Pandemia | Ciência às Seis (on-line)

quarta-feira, 21 de julho de 2021

P24: MEU PODCAST NO PÚBLICO COM ALINE FLOR

 https://www.publico.pt/2021/07/19/ciencia/noticia/segunda-ultima-aula-coimbra-carlos-fiolhais-despedese-ate-ja-1970888

"PERGUNTA SIMPLES": MEU PODACAST COM JORGE CORREIA

 https://perguntasimples.com/carlos-fiolhais/

A HISTÓRIA DA BÍBLIA EM PORTUGAL


Meu artigo no último JL:

A palavra Bíblia significa livros: é o plural da palavra grega que designa rolo de papiro, uma forma arcaica de livro, tendo o nome sido tomado da cidade de Byblos, hoje no Líbano, de onde eram exportados esses papiros para outros sítios do Mediterrâneo. A Bíblia é, de longe, o livro mais publicado no mundo. A história da sua publicação é também a história do livro: do papiro a palavra passou ao papel e do papel está a passar para suportes digitais. A sua história é, também, de certo modo, a história do mundo, pois não se pode compreender a evolução da Humanidade, sem considerar o cimento aglutinador que constitui para grande parte dela esse livro. A primeira tradução do Novo Testamento para alemão feita por Martinho Lutero em 1522  é decerto um marco da história da Europa.

Faltava em Portugal uma história da Bíblia, que é também a história do livro em Portugal e é igualmente, vista de um ângulo muito interessante, a história de Portugal. Esse livro já existe e não é apenas um: são seis espessos volumes, A Bíblia em Portugal, um trabalho verdadeiramente enciclopédico de Frei Herculano Alves, um franciscano capuchinho, portanto membro de uma ordem religiosa que se tem distinguido na difusão da Bíblia.

Os volumes foram recentemente apresentados em Gouveia, no quadro da preparação de um congresso sobre escritos sagrados: a “Bíblia na Cultura Ocidental”. Porquê Gouveia? Porque o município nas faldas da Serra da Estrela, planeia erigir um Museu do Livro Sagrado, onde apresente não só a Bíblia como outros livros de teor religioso. Tive o gosto de introduzir o volume V da obra, intitulado A Bíblia em Portugal nos Séculos XVIII-XX, numa sessão que contou com intervenções do bispo da Guarda D. Manuel Felício, do cardeal patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, e, em directo do Vaticano, do cardeal Gianfranco Ravasi, que dirige o Conselho Pontifício para a Cultura.

Quando foi a Bíblia pela primeira vez traduzida em português? Tal aconteceu bastante tarde relativamente a outras línguas vernáculas. Por exemplo, a primeira tradução em castelhano foi publicada em Basileia, em 1569, no quadro da reforma protestante, que preconizava a aproximação directa dos crentes à palavra de Deus através da leitura. O primeiro Novo Testamento em português saiu em 1681 do prelo da viúva Someren, em Amesterdão, sendo seu autor o pastor protestante português João Ferreira Annes d’ Almeida. Natural de Torres de Tavares, uma aldeia perto de Mangualde, Almeida foi em pequeno para a Holanda e daí para Malaca e Jacarta, onde preparou a tradução. O autor não conseguiu terminar a versão portuguesa do Antigo Testamento, mas a Bíblia de Almeida, apesar da sua origem no Extremo Oriente, tornou-se um texto global: é o livro em português mais difundido de sempre com mais de 113 milhões de cópias impressas (o volume IV da Bíblia em Portugal é-lhe inteiramente dedicado, dando difusão acrescida à tese de doutoramento que o autor fez na Universidade de Salamanca). Apesar de ter circulado em todo o mundo, a primeira Bíblia na língua de Camões teve dificuldade de entrar em Portugal – chegou pelas mãos de alguns oficiais ingleses que cá estiveram no tempo das invasões napoleónicas.

A primeira tradução católica saída em território nacional foi o Novo Testamento. Impresso pela Oficina Régia, em Lisboa, em 1778, quase um século depois da Bíblia de Almeida. Foi traduzido da Vulgata latina pelo Padre António Pereira de Figueiredo, o qual, entre 1778 e 1790 fez sair 23 volumes da Bíblia completa em português. Figueiredo, membro da Ordem dos Oratorianos, foi latinista, retórico, teólogo, canonista, historiador, etc. A edição ocorreu já depois da “Viradeira” de 1777, a data em que, com a morte de D. José, o Marquês de Pombal foi afastado do poder. Ora Figueiredo, que já tinha pronta a sua tradução em 1772 (ano da Reforma Pombalina da Universidade de Coimbra, que fará dois séculos e meio no próximo ano), afirmou-se como um dos maiores ideólogos do regime pombalino. Era católico e apostólico, mas não muito romano. Pelo contrário, pode ser considerado um adepto do regalismo, a doutrina que defende o poder do rei sobre as igrejas nacionais em detrimento do poder papa, e que em França teve o nome de galicismo. Nutria simpatias pelo jansenismo, o movimento herético que surgiu em França no século XVII no quadro da Igreja Católica e que se caracterizava pelo rigor adicional em certos temas teológicos (o matemático, físico e filosofo Blaise Pascal foi jansenista).

O Marquês de Pombal atacou, como é sabido, os jesuítas, tendo extinguido a ordem em Portugal, em 1759, e empreendido esforços para que ela fosse também extinta em Espanha e França, o que levou ao breve de supressão universal assinado pelo papa em 1760. O historiador inglês Kenneth Maxwell chamou a Pombal “paradoxo do Iluminismo”. É uma figura controversa: Se por um lado, ele lançou luz própria (como a dita reforma universitária), por outro, para que a sua luz se visse melhor, apagou tanto quanto pôde a luz dos outros. Não é verdade, por exemplo, que os jesuítas fossem totais obscurantistas: só para dar um exemplo, o padre Inácio Monteiro escreveu um bom compêndio de matemática e, expulso de Portugal, foi prefeito da Universidade de Ferrara, em Itália.

Frei Herculano Alves, num trabalho hercúleo que a cultura portuguesa deve agradecer, discute em pormenor, as circunstâncias da tradução de Figueiredo e o impacto que ela alcançou no referido volume V, de 1496 páginas, saído nas Edições Esgotadas, de Viseu. E trata a difusão da Bíblia no nosso século XIX, marcado por novas perseguições religiosas. No seio da Igreja Católica a leitura da Bíblia continuou a não ser considerada uma prioridade da pastoral, pois a instituição considerava necessária a intermediação que os clérigos faziam. Hoje, como conta Frei Herculano Alves no volume VI (A Bíblia em Portugal nos séculos XX-XXI), que foi apresentado em Gouveia por José Eduardo Franco, a situação é bastante diferente. Assim como é diferente a relação entre católicos e protestantes. Como diz Frei Herculano Alves: “Oxalá estes tristes espectáculos entre discípulos do mesmo Cristo e com a mesma Bíblia na mão tenham o seu fim.”