sexta-feira, 7 de maio de 2021

Dia do ICBAS 2021: Sessão de homenagem a Maria de Sousa

Ciência às Seis (on-line) com Tiago Fleming Outeiro: sobre as origens da doença de Parkinson


Na próxima terça-feira, dia
11 de Maio às 18h, via plataforma Zoom, realiza-se a palestra intitulada "Por mares nunca dantes navegados: à descoberta das origens da doença de Parkinson" com Tiago Fleming Outeiro, Professor Catedrático, Director do Departamento de Neurodegeneração Experimental, no Centro Médico Universitário da Universidade de Goettingen, Alemanha.

Sessão inserida no ciclo Ciência às Seis, iniciativa do RÓMULO com a coordenação de Carlos Fiolhais e colaboração de António Piedade, em formato Digital 💻📱Destinada ao público em geral, a sessão é de participação livre e não necessita de inscrição.

Aceda à sessão no Zoom através do link: https://videoconf-colibri.zoom.us/j/83537248708
ou ID da reunião: 835 3724 8708


Resumo da Palestra:

A pandemia, o tema dominante da atualidade, mudou as nossas vidas. Mudou a forma como nos relacionamos, como vivemos, e como viajamos. Mudou a percepção que temos do mundo, e agudizou problemas sociais, económicos, e sanitários.

Mudou as manifestações artísticas e culturais, e mudou também a forma como fazemos ciência. Mas mostrou que, quando as sociedades se unem e investem, a ciência e o conhecimento ajudam a achar soluções para os problemas.

As doenças neurodegenerativas, como Parkinson, Alzheimer, ou esclerose lateral amiotrófica, são problemas sérios, afetando milhões de pessoas em todo o mundo, e continuam sem tratamentos eficazes. Assim, importa estudar a base molecular dessas doenças, no sentido de achar novos mecanismos e alvos para possíveis intervenções terapêuticas.

Como escreveu Fernando Pessoa, "O homem é do tamanho do seu sonho". Devemos alimentar aqueles que ousam sonhar, para que possam voar e fazer o mundo avançar.

 

Biografia do Orador:

Tiago Outeiro é licenciado em Bioquímica pela Universidade do Porto, em Portugal. Realizou a sua tese de doutoramento no Whitehead Institute for Biomedical research – MIT, em Boston, nos Estados Unidos. Foi depois investigador postdoc na MGH-Harvard Medical School, na mesma cidade. Em 2007, iniciou o seu grupo de investigação no Instituto de Medicina Molecular em Lisboa, que liderou até 2014. Desde Outubro de 2010, é Professor Catedrático e Director do Departamento de Neurodegeneração Experimental do Centro Médico Universitário em Goettingen, na Alemanha. Desde Novembro de 2017 é também Professor Catedrático de Neurociências na Universidade de Newcastle no Reino Unido. Desde Novembro de 2019, é Professor Visitante do Instituto de Química na Universidade Federal do Rio de Janeiro no Brasil. É também Professor Convidado da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

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RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra

COMO BIBLIOTEQUEI EM TOMAR


Minha contribuição para uma ovra sobre o Bibliotecando em Tomar, que amanhã é apresentada naquela cidade:

“Bibliotequei” em Tomar duas vezes. Uma em 2014, no encontro sobre “Leituras de lendas e mitos,”  no qual  falei sobre “Mitos da ciência”, e outra em 2018, no encontro sobre “Ética e estética: leituras possíveis”, no qual falei sobre “Estética da Ciência,” no Complexo Cultural da Levada (o sítio foi uma agradável surpresa!).

Sei que houve mais “Bibliotecandos em Tomar”, no total de dez edições entre 2010 e 2019, uma série que só a pandemia interrompeu. O evento cultural soube crescer e ganhar reconhecimento, a partir de uma iniciativa de uma escola secundária, da rede de bibliotecas escolares e do Instituto Politécnico de Tomar, ao agregar vários agrupamentos escolares, o Centro de Formação de Professores e o Centro Nacional de  Cultura. Os “Bibliotecandos”  são a prova de que, na cultura, uma semente pode crescer para dar uma árvore e rapidamente  apetecíveis frutos, se vários forem os cuidadores.

Com que impressões fiquei desses encontros na cidade que, pelo menos em parte, inspirou Umberto Eco na escrita de “O Pêndulo de Foucault”? Pois recordo a qualidade da organização, a pluridisciplinaridade do programa, a variedade e qualidade dos oradores, e a boa afluência e participação do público, principalmente professores. Lembro-me da feira do livro, dos almoços (saudades dos tempos de antes da pandemia!) e de visitas nas redondezas, como a da Casa dos Cubos. Não me esqueci de um simpático convite que recebi para fazer uma visita mais demorada a essa cidade que é cada vez mais uma cidade de cultura. E os livros e as bibliotecas são a melhor porta de entrada na cultura.

 Link de acesso ao evento, a decorrer dia 8 de maio de 2021, às 10h00.

https://bit.ly/Bibliotecando

À ESPERA DA BAZUCA

 


Início do meu artigo de opinião saído na quinta-feira no Público:

Ninguém sabe como vai ser o tempo pós-pandemia, mas o governo está ansiosamente à espera da “bazuca.” O nome, que vem da arma antitanque (e antes disso de um instrumento musical), mas, no presente contexto, significa a entrada de muito dinheiro, a maior parte a fundo perdido, da União Europeia. Não gosto da metáfora bélica, que tem subjacente a ideia de um grande poder financeiro para vencer a crise que atravessamos.

Usando uma outra famosa metáfora trata-se de uma “pipa de massa”: cerca de 17 mil milhões (14 mil milhões de subvenções e 3 mil milhões em empréstimo, aos quais poderão acrescer 2 mil milhões) para seis anos. Não foi fácil encontrar a versão revista do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) recentemente entregue na Comissão Europeia, apesar de existir um “portal da transparência.” Encontrada, foi penosa a releitura das 343 páginas do documento, pois está escrito em “tecnocratês”, polvilhado dos termos da moda e sem grande cuidado com a língua portuguesa. Por exemplo, a palavra “resiliência” aparece 181 vezes, “transição” 364 vezes, “clima” e seus derivados 218 vezes, e “digital” e seus derivados 553 vezes. Bem sei que o guião foi escrito em Bruxelas e havia só que o traduzir do inglês, mas podiam ter arranjado uns sinónimos e, além disso, ter pedido a ajuda de um revisor linguístico.

(...)

Ver o resto em https://www.publico.pt/2021/05/06/opiniao/noticia/espera-bazuca-1961292

SAFO POR EUGÉNIO


Minha recensão no Inevitável de ontem:

Estamos num tempo, em que para compensar uma injustiça histórica, estão a ser lembradas, nalguns casos mesmo descobertas, notáveis contribuições das mulheres para a cultura. Por exemplo na música, a alemã Hildergarda Bingen (1098-1179), monja, mística e compositora, foi homenageada há poucos anos quando o seu nome foi dado a uma cratera lunar.  Na pintura,a italiana Artemisia Gentileschi (1593-1656) teve uma grande exposição na National Gallery de Londres. Na ciência, a naturalista e artista alemã Maria Sibylla Merian (1647-1717), que trabalhou na América do Sul,  foi há poucos anos homenageada na sua terra natal, Frankfurt am Main, com o nome de um centro de investigação em biodiversidade.

Na poesia a autoria feminina consegue ir muito mais atrás no tempo. A autora mais antiga foi Enheduanna (2285-2250 a.C), uma princesa, sacerdotisa e poetisa  suméria. Porém, a autora mais conhecida da Antiguidade é, sem dúvida, Safo de Lesbos (c. 630 – c. 570 a.C.), que escreveu poesia lírica, isto é, poesia para ser cantada ao som da lira, que embora só parcialmente e de modo muito fragmentado, chegou até aos nossos dias.  Acaba de sair na Assírio & Alvim o livro “Poemas e Fragmentos” de Safo, que essencialmente encerra toda a sua obra conhecida. Foi seu tradutor o grande poeta português Eugénio de Andrade (1923-2005), cuja obra completa “Poesia e Prosa (1940-1986)”, em três volumes, foi publicada em 1987 pelo Círculo de Leitores. Apaixonado pela escrita de Safo, resolveu, como explica na Introdução (“Amada voz, rouxinol”) traduzi-la, apesar de não saber grego: valeu-se de traduções em inglês, francês, espanhol e italiano, que lista na bibliografia. E valeu-se  acima de tudo da sua enorme sensibilidade poética para além do seu imenso domínio da língua de Camões. Além da obra de Safo, Eugénio traduziu a poesia do espanhol Garcia Lorca e o grego Yiannis Ritsos, para além das cartas em francês da freira de Beja, Mariana Alcoforado, que, sendo prosa, não deixam de ter um tom poético,

A edição original do livro agora saído veio a lume na editora Limitar do Porto em 1974. Mas, dada a procura, tem, havido outras edições. A que tenho em mãos, com bela capa, capa dura e bom papel, é a reimpressão da segunda edição, de 1982, também na Limiar (saiu em 1995, portanto, ainda em vida do tradutor). uma quinta edição, do prelo da Fundação Eugénio de Andrade. Escreve Eugénio na sua Introdução: “Não é a primeira vez que o afirmo: esta mulher é uma das minhas fascinações mais antigas. Não admira, portanto, que aolongo da vida tenha ido coleccionando traduções da sua obra. E um dia não resisto: meti-me também eu a traduzi-la. A traduzi-la é uma maneira de falar. O que aí está, dada a minha ignorância do grego, foi-me dado a saber por outros olhos (…) foram duas ou três semanas febris, como de criação pessoal se tratasse, e nunca um outro trabalho me deu prazer semelhante.” Conclui assim a sua introdução: “Tenho esperança que o perfume a violetas das tranças de Safo não esteja de todo ausente destes versos.” Não está, de todo.

Sabe-se muito pouco sobre Safo. Segundo um epigrama atribuído a Platão ela foi a décima das musas (tradicionalmente eram só nove). A sua vida está envolta em mistério e lenda. A  sua obra perdeu-se quase por completo. Safo foi uma poetisa prolixa: terá escrito cerca de 10 000 linhas de poesia, mas só 650 sobreviveram De facto só há dois poemas que chegaram até nós na íntegra: “Ode a Afrodite”, que nos foi transmitido por Dionísio de Halicarnasso, o poema que abre o livro da Assírio & Alvim, e “Titónio”, que não está incluído pois só foram descobertos no Egipto já neste século papiros que permitiram completá-lo. É uma pena que o tempo, esse “grande destruidor”, tenha corroído o seu testemunho poético. Contudo, a sua fama ficou: se Homero, personagem inexistente, era “o poeta”, Safo era “a poetisa”. Pouco se sabendo da sua vida, o facto mais notável é ter dirigido uma escola para raparigas, em Mitilene, na sua ilha de Lesbos, a terceira maior ilha grega, onde se aprendia não só poesia e filosofia como música e dança. Na Antiguidade grega a educação era só para homens (os Jogos Olímpicos também eram só para homens). As “companheiras” de Safo vinham de todo o lado da Grécia para aprenderem com ela. Há varias reminiscências dessa companhia feminina nos fragmentos, que Eugénio dedicadamente traduziu.

É  curioso verificar as diferenças entre as versões eugenianas  e  as  versões da grande classicista da Universidade de Coimbra Maria Helena Rocha Pereira, que talvez seja mais fiel ao original, mas que talvez não será tão fiel às musas. Eugénio informa-nos que a sábia gostou das suas traduções, embora tenha feito alguns reparos. Mas vejamos alguns fragmentos de Safo  segundo a pena de Eugénio. Uns falam apenas do grupo de mulheres em festas ou celebrações:

“(…) Vem, Cípris, a fronte cingida, e nas taças/ de oiro voluptuosamente entorna/ o caro vinho e a alegria.”

  “Com os pés ligeiros, assim dançavam/ noutro tempo as raparigas de Creta/
à roda do altar; frescas eram/ e frágeis as flores de relva que pisavam”.

“Cheia brilha a lua, e as raparigas/ de pé como a vida de um altar…”

“Para alegria das minhas companheiras/ quero cantar agora uma canção.”

Mas outros vão um pouco mais longe no que diz respeito à proximidade entre as mulheres:

“Ah, pudesses tu dormir/ no peito da mais terna amiga” (talvez o poema mais homoerótico) .

 “Pudesse esta noite durar/ não uma mas duas noites inteiras…”

“… abrasas-me…” (o poema mais curto)

“ ‘Virgindade, virgindade, para onde vais?’/  ‘A ti não voltarei, não voltarei jamais.’ ”

“De novo me torturas e quebras os membros, Eros, doce-amarga indomável serpente.”

 “Eros me afecta o coração – assim nos montes / o vento sacode os carvalhos” (escolhido para a contracapa do livro).

“Desejo e ardo.”

“… Na noite, em vigília, cantam as raparigas, cantam a tua amada, de violetas tingida”

 “… pegai na lira,/ cantai um seio de violetas.”

O nome lésbica vem da ilha de Lesbos e está associado a Safo (talvez também a palavra “safado”). Mas, de facto, não bá a certeza de que Safo tenha sido lésbica. Como se vê, os poemas não são sexualmente explícitos, mas apenas sugestivos. Segundo os relatos da Antiguidade, Safo seria uma mulher heterossexual, a quem é atribuída alguma licenciosidade. Teria tido um filho. Há quem a considere amante de Alceu de Mitilene, (c. 630 -  c. 580 a. C., portanto seu conterrâneo e contemporâneo). Por vezes as obras dos dois estão reunidas, como    na  tradução que fez o poeta Albano Martins para a Imprensa Naciona l- Casa da Moeda,  na colecção “O essencial”, “Alceu e Safo” (1986), que se pode descarregar gratuitamente do site daquela editora. Só no período helenístico é que a suspeita de ligações eróticas de Safo a  mulheres se começou a adensar. Na Idade Média a poetisa foi quase esquecida, embora Bocaccio lhe tenha feito referência. No romantismo, o inglês Alfred Tennyson foi influenciado por ela, em especial pela “Ode a Afrodite”. Mas foi no final do século XIX, no período dito decadentista, que Safo passou a ser considerada lésbica. Um dos autores que o fez foi o francês Charles  Baudelaire (1821 - 1867, portanto nascido há 200 anos). Hoje Safo entrou na cultura popular,  sendo uma figura de referência dos movimentos LGBT. Mas a controvérsia continua, entre os especialistas, sobre a sua sexualidade.

Há um livro curioso de um autor português pouco conhecido, Visconde de Vila Moura (1877-1935), de seu nome completo Bento de Oliveira Cardoso e Castro Guedes de Carvalho,  publicado em Lisboa na Livraria Ferreira, em 1912, que se intitula “Nova Safo”. Há duas edições mais recentes, uma com o subtítulo “Tragédia estranha” com apresentação de Aníbal Fernandes e publicada pela Sistema Solar em 2017. E outra uma edição apenas em forma de livro electrónico (INDEX e-books), disponível na Amazon.  A personagem principal é Maria Peregrina, uma minhota rica que vai estudar para Londres, onde descobre o amor sensual. Na introdução, a professora norte-americana de Literatura Portuguesa Ana M. Koblucka diz que é  “a primeira e, de longe, a mais ambiciosa obra literária de Vila Moura (...) uma obra literária quase esquecida, considerada como o único romance decadente da literatura portuguesa (…) que merece ser resgatada do esquecimento por uma grande variedade de razões, não sendo uma das menores, a figura inédita (e única, mesmo no século seguinte da literatura lusófona) da sua protagonista, uma lésbica intelectualmente e sexualmente assertiva e uma poetisa genial.” O Visconde de Vila Moura  teve  uma vida política durante a monarquia, mas abandonou-a com a implantação da República, para se dedicar por inteiro à vida literária: pertenceu à Renascença Portuguesa, embora pouco tenha a ver com este movimento. Como não podia deixar de ser as suas referências à homossexualidade originaram polémica na época.

Termino com um dos poemas que mais gosto do livro: “No ramo alto, alta no ramo/ mais alto, a maçã/ vermelha/ ali ficou esquecida. Esquecida? Não, em vão tentaram colhê-la.”

 

 

 

 

 

 

 

A LÍNGUA PORTUGUESA

Novo texto de Eugénio Lisboa:

Ao Nuno Pacheco, persistente e corajoso campeão, na aguerrida luta contra o Acordo Ortográfico, que tanto tem desfigurado a ortografia da língua portuguesa. 

 Passou em 5 de Maio o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Fui, com prazer, participar numa sessão de gravação de um programa que a Câmara de Oeiras em boa hora promoveu, para assinalar esse Dia. Tive o prazer de aí ter tido, como parceiro de conversa, o Dr. Rui Soares, grande autoridade internacional na área do Provérbio, e, como moderador inteligente, culto e dinâmico, o Dr. Mário José Silva. Tinha pensado em ali ler algumas homenagens prestadas à língua de Camões, ao longo dos séculos, por alguns poetas de Portugal e do Brasil. Porém o rumo que tomou a conversa não o proporcionou e quero, portanto, fazê-lo aqui.

A língua portuguesa, como todas as línguas vivas, tem evoluído, enriquecendo-se de novos vocábulos a que o progresso obriga e de novos enfoques e conotações que um novo contexto sugere. Os escritores, sobretudo os poetas, mas não só, acrescentam-na, com imaginação e com vigor, não só criando novo léxico como, também, como acima dissemos, usando palavras conhecidas, em contexto diferente e com sentido um pouco distante do usual, com efeitos inesperados. O poeta Paul Claudel dizia isto mesmo, numa formulação inconfundível: “Ce sont les mots de tous les jours et ce ne sont pas les mêmes” (“São as palavras de todos os dias e não são as mesmas.”) Quando Cesário Verde, num poema, se mostra embevecido por uma mulher “aromática e normal”, o adjectivo “normal” parece aqui um pouco frágil e deslocado para significar o que uma mulher possa ter de particularmente atraente: ninguém se lembraria de incluir, entre as seduções de uma mulher, a sua cinzenta “normalidade”. Simplesmente, para o Cesário tuberculoso e condenado a uma morte prematura, a mulher “normal”, isto é, saudável, isto é, “vigorosa”, reveste-se de suprema sedução. Ela era a vitalidade, a força que ele já não tinha e que, da força dela, se alimentava. Nada atrai tanto o frágil e vulnerável como o forte e saudável: o normal. Quem as leu, nunca esquecerá as páginas extraordinárias de Tolstoi, na sua pequena novela, A Morte de Ivan Ilitch, nas quais nos dá o protagonista, um idoso juiz, a morrer de cancro, já muito debilitado, mas a sentir-se todos os dias revigorado, quando um forte mujique lhe dava banho e o ajudava a cuidar-se, com os seus braços possantes: era como se a energia rude mujique se transmitisse, por milagre, ao pobre moribundo. A palavra “normal”, no verso célebre de Cesário, foi ali colocada com sábia pontaria, adquirindo um poderoso significado que não é o significado corrente e baço que lhe é dado por quem a usa.

Os poetas, os escritores em geral, em suma: os autores, são aqueles que aumentam a língua. Auctor era o título que os antigos romanos davam aos seus generais que acrescentavam o território, por conquista. Os verdadeiros escritores também aumentam o território da língua, de várias maneiras. Os três grandes acrescentadores da língua são o povo, as crianças e os escritores. Não os filólogos. O grande Anatole France, que merecidamente herdou o manto de Voltaire, escreveu estas belas palavras sobre os fazedores das línguas: “O povo faz bem as línguas. Fá-las imaginosas e claras, vivas e expressivas. Se fossem os sábios a fazê-las, seriam baças e pesadas.” O que é bem verdade. Conta-se que um dia no Porto, Camilo Castelo Branco ia por uma rua e viu uma vendedora, que era guapa de cima a baixo. Não resistiu a fazer-lhe um piropo. Camilo tinha, como se sabe, a cara picada das bexigas. A vendedora, ao ouvir o piropo atrevido, virou-se para ele e, fitando-o, disparou: “Cale-se, aí, seu cara de areia mijada!” Se isto não é fazer um uso criativo da língua, criando espontaneamente uma imagem inesquecível, vou ali e já venho. E são inúmeros os dizeres populares magnificamente expressivos e contundentes: “Meter o Rossio na Rua da Betesga”; “Diz o roto ao nu”; “Chove a potes”; “Nunca mais é sábado”; “Ficar a ver navios”; “Tirar o cavalinho da chuva”; “Quem tem boca vai a Roma”; “À sombra da bananeira”; “Engolir sapos”; “Dor de cotovelo”, etc. Poderia citar para cima de uma centena de expressões populares tão vivas e imaginosas como estas.

 Por fim, as crianças: há quem tenha coleccionado dizeres espontâneos de crianças, revelando uma imaginação associativa prodigiosa e invejável. Dizia um poeta que todas as crianças têm génio, mas que os adultos acabam por fazê-lo embotar, por não o reconhecerem e até o travarem. Um só exemplo: uma criança a quem o pai deu, pela primeira vez, uma bebida gasosa, reagiu com estas palavras: “Sabe a pé dormente…”, assim construindo uma sinestesia não indigna da que fez Rimbaud, no célebre soneto das vogais coloridas. 

A língua é, muitas vezes, a única pátria possível para os que já não têm a sua pátria de origem. O escritor francês Antoine de Rivarol (1753 – 1801), monárquico em tempos de revolução, teve de fugir de França, para salvar a vida. Como tantos outros escritores, andou por vários países, mas nunca mais regressou à sua pátria, que se afundara no Terror. Sem pátria, agarrou-se à única que lhe restava e gravou, para a posteridade, esta cintilante medalha: “A minha pátria é a língua francesa.” Rivarol foi um notável pensador aforista: embora conotado à direita, deixou aforismos que qualquer aforista de esquerda teria reivindicado. Por exemplo: “É preciso haver fome de pobreza para se gozar bem de riqueza.” A sua intensa assunção da língua, como pátria substituta, teve herdeiros: Fernando Pessoa (“A minha pátria é a língua portuguesa”); Hermann Hesse (1877 – 1962), grande escritor alemão fugido ao nazismo e tendo-se fixado na Suíça, escreveu: “A minha pátria é a língua alemã”; e Albert Camus (1913 – 1960), tendo perdido a sua Argélia sem completamente ter ganho a França, assim resumiu a solução para o conflito que o dilacerava: “Tenho uma pátria: a língua francesa.”

 Fernando Pessoa viveu sempre em Portugal, depois de ter crescido linguística e culturalmente na inglesa Durban, o que o levaria a sentir-se sempre um pouco estranho, no meio de portugueses, que não eram bem como ele: caracterizou-os com acutilância de quem os via de fora, chegando mesmo a achá-los cómicos. Sem pátria que se dissesse, agarrou-se ao português deslumbrante de Vieira e tornou-se poeta português. Mas Pessoa dominava de facto duas línguas e foi o conhecimento profundo do inglês que o ajudou a melhor aprofundar o português. A comparação de duas línguas fomenta o melhor conhecimento de ambas. Já o grande Goethe o dissera: “Quem não conhece línguas estrangeiras, não sabe nada sobre a própria.” Os escritores portugueses que mais contribuíram para a modernização do português foram os que andaram lá por fora: Garrett, , Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Jorge de Sena. 

Darei agora alguns exemplos de homenagens prestadas por autores de língua portuguesa à língua que lhes foi pátria e casa. Darei, por agora, alguns, deixando para o meu próximo “post” o resto-

 ANTÓNIO FERREIRA (1528 – 1569) 

 Floresça, fale, cante, ouça-se e viva

A Portuguesa Língua e já onde for 

Senhora vá de si soberba e altiva. 

Se téqui esteve baixa e sem louvor 

Culpa é dos que mal a executaram. 

Carta a Pedro de Andrade Caminha (Excerto) 


OLAVO BILAC (1865 – 1918) 

 LÍNGUA PORTUGUESA


 ´´Ultima flor do Lácio, inculta e bela, 

És, a um tempo, flor e sepultura: 

Ouro nativo que, na ganga impura 

A bruta mina entre os cascalhos vela…


 Amo-te assim, desconhecida e obscura, 

Tuba de alto clangor, lira singela, 

Que tens o trom e o silvo da procela 

E o arrolo da saudade e da ternura. 

 Amo o teu viço agreste e o teu aroma 

De virgens selvas e de oceano largo! 

Amo-te ó rude e doloroso idioma, 

 Em que da voz materna ouvi: “meu filho”! 

E em que Camões chorou, no exílio amargo, 

O génio sem ventura e o amor sem brilho. 


 TERESA RITA LOPES (1937 - ) 

 PALAVRAR 

 As crianças começam a chilrear palavras

 antes de saber falar. 

Saboreiam-nas como a mama das mães. 

 Ficou-me na língua desde então 

 o gosto das palavras. 

 O dicionário não regista o termo 

 - ignorância sua! 

 O neologismo é do Pessoa. 

 Palavrar faz crescer, dilatar as papilas,

 apetecer comer o mundo,

 apura o paladar do ser que somos.

 Sempre os homens, através dos tempos,

 precisaram de palavras 

 a falar ou a cantar, 

 às vezes a rimar, 

 para pôr as palavras a namorar 

 umas com as outras! 

 A Natália exclamou que “a poesia é para se comer!” 

 É verdade que a poesia é o modo mais cristalino 

 ou mais em fogo 

 de palavrar! 

O Miguel Torga elogiou a pobreza franciscana 

 da nossa língua: 

 “Para pedir pão serve às maravilhas!”

 P’ró que lhe havia de dar 

 a sua mania do parco e do pouco! 

 A nossa língua é o mais suculento manjar imaginável! 

 Por mais pobres que nos façam ser 

 os ricos que nos roubam 

 podemo-nos gabar de ter para falar e escrever 

 e comer

 e até amar 

 uma das mais esplêndidas línguas do mundo!

 (Inédito) 


 FERNANDO PESSOA (1888 – 1935) 

 O português é (1) a mais rica e mais complexa das línguas românicas, (2) uma das cinco línguas imperiais, (3) é falada, senão por muita gente, pelo menos do Oriente ao Ocidente, ao contrário de todas as línguas menos o inglês, e, até certo ponto o francês, (4) é fácil de aprender a quem saiba já espanhol (castelhano) e, em certo modo, italiano – isto é, não é uma língua isolada, (5) é a língua falada num grande país crescente – o Brasil (podia ser falada de Oriente a Ocidente e não ser assim falada por uma grande nação).

 (in A Língua Portuguesa) 

 Nota: no próximo post, incluiremos testemunhos de Afonso Lopes Vieira, David Mourão- Ferreira, Teresa Rita Lopes (outro inédito) e Eugénio Lisboa.

 Eugénio Lisboa

segunda-feira, 3 de maio de 2021

CLASSICA DIGITALIA: NOVIDADES EDITORIAIS

Novas edições:

Série “DIAITA - Scripta & Realia” [estudos]

 - Carmen Soares, Anny Jackeline Torres Silveira & Bruno Laurioux, Mesa dos Sentidos & Sentidos da Mesa. Vol. II (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2021). 492 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2060-2 

[Na sua mais ampla aceção, a “mesa” remete para universos onde interagem produtos, pessoas e ideias. Espaço de sobrevivência, mas também de deleite, de formação, de culto e de sociabilidade, cada “mesa” retrata mentalidades, serve de metáfora de valores, abre lugar à transformação de quem nela interage e participa. Da experiência sinestésica proporcionada pelos bens alimentares e ambientes que os envolvem nasce a “Mesa dos Sentidos”. Os 21 capítulos que compõem o volume II estruturam-se em torno de três temáticas centrais. O papel dos códigos de valores de âmbito religioso ou laico (militar) nas dinâmicas alimentares são tratados na Parte I (Mesas sagradas e mesas profanas). A “mesa” como espaço e instrumento de poder(es) social, político, económico e cultural é a temática abordada na Parte II (Mesas de poder e poderes da mesa). A reflexão sobre a “mesa” como expressão da identidade cultural coletiva e veículo de afirmação de saberes/sabores alimentares recebidos ou legados discute-se na Parte III (Identidade e património alimentar).]

Fora de Série [estudos]

- António Manuel Lopes Andrade & Maria Cristina Carrington (Coords.), Do manuscrito ao livro impresso II (Aveiro/Coimbra, UA Editora – Universidade de Aveiro, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2020). 394 p.

DOI:  https://doi.org/10.14195/978-989-26-2074-9

[Este livro vem dar continuidade ao projeto de publicar as contribuições decorrentes do Ciclo de Conferências “Do manuscrito ao livro impresso”, reunindo agora, num segundo volume, os estudos da terceira e quarta edições (2017/18 e 2018/19), que tiveram lugar no Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro, no âmbito da Licenciatura em Línguas e Estudos Editoriais e do Mestrado em Estudos Editoriais. A realização desta iniciativa tem o propósito de fomentar e aprofundar a articulação entre investigação e ensino, proporcionando aos estudantes um contacto privilegiado com os múltiplos aspetos da História do Livro e da Edição. Os estudos do presente volume versam sobre temas vários da História do Livro e da Edição e constituem um dos resultados mais visíveis de um projeto que se vem renovando, e que se propõe contribuir para a propagação das Artes do Livro.]

sábado, 1 de maio de 2021

Victor Torres: "Na morte de um Amigo e Actor"

Victor Torres, com tudo o que fazia, repartindo-se pelo cumprimento de funcionário e pela dedicação ao teatro, teve tempo e disponibilidade para, mais do que uma vez, colaborar em trabalhos de educação, que orientei. Lembro-me, em particular, de um seminário organizado por Mónica Duarte Vieira e realizado em Maio de 2006 na Universidade de Coimbra. A partilha do que sabia estava nele, não fazia notar isso, sequer. Num momento em que a educação é declaradamente um produto vendável, em que se faz crer que a dádiva pela dádiva perturba o espírito empreendedor, o exemplo discreto de Victor Torres deveria ficar. E fica, por certo, em alguns.

Republico o texto de José Barata, Na morte de um Amigo e Actor, escrito há dois dias, e agradeço a Isaltina Martins tê-lo partilhado comigo.
Dizem-me que morreste. De repente. Como viveste, acho eu. Conheci-te atrás de um estirador de arquitecto, a desenhares mapas, a fazer capas; zangado com a vida rotineira; a resmungar... Mas sempre disponível. Trabalhavas na Geografia e o mapa que procuravas era também o teu; a bússola nunca foi bem afinada, porque o que em ti havia de criativo outros o recalcavam e tu precisavas que os vales, as linhas de água, os montes ‘falassem’; saíssem do papel; dos acetatos. E fomos sendo cúmplices. Acabaste no palco. Aí a cartografia podia ser subvertida; podias sempre ‘resmungar criativamente’... E não quero – dói-me muito a tua perda! – recordar tudo. O Esopo que me ajudaste a fazer; um livro que escrevi e tu ‘fizeste’ para lucro de outros; recordo as nossas idas loucas ao Porto, ao TEP; as noites inenarráveis com o Viegas; a minha/tua casa na Nicolau Chanterenne; o Samuel e a Eunice. A tua ida para o teatro profissional; a Barraca; o Baile que fomos a Lisboa ver (-te). E tudo o mais que fizeste... O I’m not rapapport... Nunca lidaste bem com a ‘vidinha’, e sei como isso te custou. Agora estavas no Espinhal, no merecido sossego dos guerreiros de causas pouco visíveis... Falávamos com aquela pureza de quem queria o mesmo; com a cumplicidade de quem parece que sempre se conheceu... A notícia que me chegou não pode ser verdadeira, Victor! Se pensar um pouco és capaz de ter sido o meu melhor ‘colega’ na Faculdade de Letras... E por isso me dói tanto a tua partida, pela amizade que construímos ‘rindo-nos’ do balofo que se tomava a sério... Olha, meu tonto, abraço-te com um choro reprimido de puto que perde o colega do berlinde! Adeus!"

PLUCKROSE, LINDSAY E AS TRETAS PÓS-MODERNAS COM SELO ACADÉMICO

Um dos escândalos maiores da cultura contemporânea ocorreu há 25 anos: o físico norte-americano Alan Sokal (n. 1955), professor de Física na New York University e abalou a cultura pós-moderna quando publicou um artigo na revista Social Text, com o título ”Transpondo as Fronteiras: para uma Hermenêutica Transformativa da Gravidade Quântica”, que não passava de um amontoado de disparates, designadamente que a gravidade quântica era uma construção social e linguística. O truque de Sokal foi discutir conceitos da Física de um modo que fosse ao encontro das ideias pós-modernas. Em Maio de 1996, o físico revelou o embuste. Começou aí uma polémica que ficou conhecida por “guerra das ciências”.

Sokal, que escreveu com o físico belga Jean Bricmont (n. 1952) o livro Imposturas Intelectuais, saído na Gradiva em 1999, visitou por essa altura Portugal e, quando o convidei para dar uma palestra no Departamento de Física da Universidade de Coimbra, aceitou logo. Mas não quis falar do livro, mas sim dar um seminário da sua área de especialidade. Pediu para estar sozinho quinze minutos antes para se concentrar e depois deu a palestra sem slides, escrevendo no quadro e falando em português (que tinha aprendido no Brasil). Se já tinha grande admiração por ele, fiquei ainda com mais.

Lembrei-me de Sokal, porque acabo de ler um livro de Helen Pluckrose, uma crítica cultural britânica, e James Lindsay (n. 1979), um físico-matemático norte-americano, intitulado Teorias Cínicas, acabado de sair na Guerra & Paz, a editora de Manuel Fonseca que agora está a fazer 15 anos (muitos parabéns!). Os autores citam o referido livro de Sokal e Bricmont e agradecem a Sokal uma revisão da obra. Acontece que Pluckrose, Lindsay e Peter Boghossian (n. 1966), filósofo e pedagogo norte-americano, resolveram em 2017-2018 multiplicar o “embuste de Sokal”. O caso ficou conhecido como “Sokal squared” (“Sokal ao quadrado”), ou “Grievance studies affair” (“Caso dos estudos de agravo”). Decidiram escrever 20 artigos com ideias  absurdas, tal como o de Sokal, mas agora abordando vários assuntos – sobre raça, sexo, género, colonialismo, obesidade,  etc. - e submeteram-nos a revistas especializadas em diferentes áreas e, em geral, com um sistema de revisão pelos pares. Estava planeado continuarem até 2019, mas em Outubro de 2018 confessaram a sua brincadeira, depois de jornalistas do Wall Street Journal terem descoberto que a suposta autora desses artigos, Helen Wilson, era um nome  inventado. Quando o embuste foi admitido pelos próprios – que disseram como Sokal que queriam testar a seriedade intelectual das revistas  – dos 20 artigos, quatro tinham sido publicados , três tinham sido aceites para publicação, mas ainda mão estavam publicados, seis tinham sido rejeitados e sete estavam ainda em fase de apreciação. Quer dizer, dos 13 artigos sobre os quais havia decisão editorial a maioria tinham sido aceites!

Os artigos eram um chorrilho de dislates, uns mais delirantes do que outros, mas muitos editoes e revisores não repararam.  Um dos artigos defendia que os cães tinham um cultura de violação, outro sustentava que a fobia contra pessoas transgénero podia ser ultrapassada com técnicas de penetração anal usando brinquedos sexuais e outro ainda ensaiava reescrever o Mein Kampf,  em linguagem feminista. Os autores explicaram que a sua intenção era expor a falta de seriedade intelectual dessas revistas associadas, todas elas, a ideias pós-modernas. Nelas a verdade e o rigor eram sacrificados em favor de “agravos sociais”. Desencadeou-se então uma polémica tal como antes tinha acontecido com Sokal: alguns acharam muito divertida sua denúncia com exemplos práticos da falta de racionalidade em jornais académicos, ao passo que outros condenaram o acto, por ter havido abuso da “boa-fé” do editores e revisores.

Os autores do “Sokal ao quadrado”, que se auto-classificam como “liberais de esquerda com uma atitude céptica” queriam afinal denunciar a “corrupção ideológica” da academia, em particular nalguns meios de esquerda, os quais, levados pelas boas intenções de ataque ao racismo, ao sexismo, ao colonialismo, etc., não mostravam qualquer espírito crítico, uma atitude necessária à ciência e à filosofia. Segundo eles, essas falhas eram filhas do pós-modernismo, uma corrente filosófica associada a nomes como os franceses Michel Foucault, Jacques Derrida e Jean-François Lyotard, que campearam entre os anos 70 e 90. Essa atitude, que é contrária ao  à racionalidade, assenta num cepticismo radical perante a possibilidade de conhecer seja o que for. Não há sequer uma realidade comum, podendo qualquer pessoa emitir qualquer opinião sem poder reclamar maior validade. A ciência era apenas uma construção de um grupo social – os cientistas -  que teria a mesma validade que a construção social de qualquer outro grupo - como os feiticeiros. Para Pluckrose e Lindsay, as agendas pós-modernas nos estudos de raça, sexo, género, etc.  não passam de “pós-modernismo aplicado”. Elas são filhas daquilo, que de um modo simples, gosto de chamar “tretas pós-modernas”. Tendo o pós-modernismo estagnado como filosofia, deixou como herança uma agenda política, uma agenda totalitária, pois os defensores dessas causas não admitem ser contrariados. Claro que os autores de Teorias Cínicas aceitam que existe racismo, machismo, colonialismo, etc.., isto é, há preconceito e opressão, mas pensam também que, nos seres humanos, há um balanço entre a realidade biológica e a construção social, não podendo a primeira ser ignorada.

Em Teorias Cínicas (o título é um jogo de palavras com “teorias críticas”, uma expressão muito usada pelos pós-modernos), dois dos autores do “Sokal squared” explicam  muito bem, em 331 densas páginas, os erros do pós-modernismo. O subtítulo elucida: “Como activistas académicos reduziram tudo a raça, género e identidade – e como isso nos prejudica a todos”.  O leitor português, na boa tradução de João Luís Zamith, tem agora à sua disposição um manual de desmontagem das tretas “pós-modernas”. O primeiro capítulo explica o que é o pós-modernismo. O segundo explica a “viragem aplicada do pós-modernismo”. Os capítulos seguintes trazem a análise de casos particulares: a Teoria  Pós-colonial (“Desconstruindo o Ocidente para salvar o outro”), a Teoria Queer (“Liberdade do normal”), a Teoria Crítica da Raça e Interseccionalidade (“Acabar com o racismo vendo-o em todo o lado”), os Feminismos e Estudos de Género (“Simplificação como sofisticação”) e os Estudos de Deficiência e de Gordura (“Teoria da identidade dos grupos de apoio”). Para concluir, discute-se a “Justiça Social”. Os autores distinguem a “Justiça Social” (em maiúsculas) que os pós-modernos aplicados defendem da “justiça social” (em minúsculas), que defendem  num quadro da democracia liberal. Os últimos capítulos são: “Pensamento e Estudos em Justiça Social, “A Justiça Social de Acção” e, para que não se diga que os autores são nada propõem:  Uma alternativa à Ideologia da Justiça Social” (“Liberalismo sem política de identidade”). Acrescem muitas notas e uma bibliografia seleccionada. Os autores escreveram, com conhe4cimento e rigor, um livro que fazia falta neste mundo (incluindo Portugal), onde os autores distinguem a “Justiça Social (em maiúsculas) que os pós-modernos aplicados defendem, colocando-a em maiúscula, com a justiça social em mino osculas, que os atuir-se defendem a irracionalidade e a confusão campeiam.  O volume, saído em Agosto de 2020 nos Estados Unidos,  entrou logo para algumas listas de best-sellers, como as do Wall Street Journal e do USA Today. Foi, para o Times, o melhor livro político e social de 2020 e, para o Financial Times, um dos melhores livros desse ano. Steven Pinker, professor de Psicologia em Harvard (o autor de O Iluminismo Agora. Em defesa da razão, ciência, iluminismo e progresso, Presença, 2018), elogiou-o: “Este livro expõe as raízes intelectuais profundamente superficiais dos movimentos que parecem estar a engolir a nossa cultura.” A obra está, em todo o mundo, a dar azo a acesas discussões.  Era também bom que desse lugar a elas aqui, pois as correntes pós-modernas estão também infiltradas na nossa cultura, incluindo a política, as universidades e os media. É muito difícil discutir com os pós-modernos, porque eles nunca admitem estarem errados. A cegueira ideológica tolda-lhes o espírito crítico. A leitura deste livro poderá fazer bem a quem, com uma visão obnubilada, não vê mais do que  a “sua“ verdade.

Termino, respigando um excerto elucidativo do estilo do livro, este no quadro da crítica Teorias Pós-Coloniais: “O seu trabalho [dos pós-modernos] é de muito pouca relevância prática para as pessoas que vivem em países anteriormente colonizados e que tentam lidar com as consequências políticas e económicas desse processo. Não há grande motivo para acreditar que povos previamente colonizados tenham utilidade alguma para uma teoria pós-colonial ou descolonializante que argumenta que a matemática é uma ferramenta do imperialismo ocidental, que vê a alfabetização como tecnologia colonial e apropriação pós-colonial, que vê a investigação como mera produção de metatextos totalizantes do conhecimento colonial, ou que se preocupa em confrontar a Franca e os Estados Unidos pela sua apreciação de grandes rabos negros.” Os autores dão referências, pois todas essas tretas estão publicadas em revistas académicas…

 



sexta-feira, 30 de abril de 2021

Evolução, Crenças, Deuses e Teorias da Conspiração | Ciência às Seis (on...

"ORIGINAL É A CULTURA": "LIBERDADE"

Passou na noite passada na SIC:

https://sicnoticias.pt/programas/original-e-a-cultura/2021-04-30-Original-e-a-CulturaLiberdade-df31531e 

PARA QUE SERVE A HISTÓRIA

 Novo texto de Eugénio Lisboa:

 Voltaire, esse gamin sempre irrequieto e produtor de saudável desassossego, dizia, com graça e verdade, que a História serve para provar que tudo pode ser provado com ela. E não posso deixar de lhe dar razão, quando vejo historiadores, como Manuel Loff, no Público de 27 de Abril, aludir ao “papel pioneiro e persistente que os portugueses tiveram no tráfico [de escravos].” 

 Está muito “inclusivo” e apresenta-se muito “chic” este exercício de autoflagelação masoquista, que hoje costumam fazer políticos, comentadores e historiadores, em substituição da obsoleta confissão católica e da quase tão obsoleta conversa no sofá do psicanalista. Com resultados nem melhores nem piores.

 Até aqui, tudo bem. Mas já não está tão bem, quando se usa, para este exercício praticado com algum frenesi, a manipulação dos factos históricos. O falecido Presidente dos Estados Unidos, Ronald Reagan, quando via as suas “visões” confrontadas com a realidade cruel dos factos, respondia com grande desenvoltura: “Os factos são estúpidos.” A citação de Manuel Loff, que acima faço, também se fundamenta na crença de que os factos da história são estúpidos e devem, por isso, ser ignorados. Dizer que os portugueses foram pioneiros no tráfico de escravos não é apenas uma opinião controversa: é uma clamorosa falsidade, inconcebível num historiador. Os portugueses não foram pioneiros, no tráfico de escravos, nem na história do mundo nem na história do continente africano. O uso dos escravos como mão de obra barata, no esteio das mais diversificadas economias, vem dos tempos mais remotos, desde o neolítico, passando pela Mesopotâmia, hebreus, gregos, romanos, continuou na Idade Média e veio por aí fora, só tendo sido abolido no século XIX. 

Atenas, o berço da democracia tinha escravos, embora mais bem tratados do que os de Esparta, que os tratava com grande dureza. Platão tinha, salvo erro, doze escravos, o que o não impediu de escrever os seus não efémeros Diálogos. A civilização romana tinha, como principal esteio da sua economia, a escravatura, isto é, a mão de obra barata. Júlio César vendeu, de uma só vez, 52 000 escravos e Tito não fez a coisa por menos de 90 000 (judeus). Em Roma, o escândalo ia ao ponto de ser maior o número de escravos do que o de homens livres.

 Mas, mesmo em África, dizer que os portugueses foram pioneiros desse negócio é rotundamente falso. Quando os portugueses chegaram a África, a escravatura já se praticava nesse continente havia nove séculos, sendo seus oficiantes tanto negros como árabes. Se alguma coisa os portugueses ali foram fazer foi aprender como se fazia aquele negócio e não introduzi-lo lá, pela primeira vez. Aliás o negócio fazia-se por intermédio de gente local: feiticeiros, sacerdotes e régulos. Como dizia um grande escritor francês do século XX, “ne nous attendrissons pas!. “

Nada do que acima escrevo poderá ser interpretado como uma defesa da escravatura. É, muito lisinhamente, um apelo ao bom senso e a não se interpretar a história como um pretexto para conclusões tendenciosas e autoflageladoras. O ser humano é isto e não há uma grande base de dados que nos levem sequer a crer que somos hoje muito melhores do que fomos ontem. Trump, Bolsonaro, Adolfo Hitler, Franco, Staline, Pol Pot são gente do nosso tempo. Hélas, ne nous attendrissons pas!

Eugénio Lisboa

quarta-feira, 28 de abril de 2021

Não caiam na esparrela!

Texto recebido do Professor Mário Frota

Eis o que acabo de mandar ao Director d’ “as beiras”, diário editado em Coimbra:
Não caiam na esparrela! Salve! Uma nota só: não sejam ingénuos, não se deixem usar. Não propagandeiem graciosamente a Deco-Proteste, como hoje o fizeram na edição d' 'as beiras'. A Deco-Proteste, Limitada (cumpre acrescentar) é uma empresa mercantil, braço armado de uma multinacional belga – a Euroconsumers, S.A. (uma sociedade anónima transnacional), que persegue o lucro e transacciona bens. Só em 2017 a antena portuguesa da multinacional – essa tal Deco-Proteste, Ld.ª –, a que ingenuamente apõem no jornal o símbolo e tudo, como se fora o da tal Deco Centro, arrecadou de proveitos do seu mercadejar 47 Milhões de euros, uma bagatela, em exploração de ingénuos.
Fique o registo, meu Amigo! 
Cordial abraço, 
Mário Frota

DO GRANITO AO GRANITO

Novo texto do Professor Galopim de Carvalho.

Quando, no campo, olhamos para o granito num afloramento ou, na cidade, o pisamos, coeso e duro como pedra da calçada, pensamos que esta rocha sempre foi assim, mas não é essa a realidade. 

Podemos dizer, sem nos enganarmos, que são muitas as rochas que resultaram de outras e que o granito é uma delas. Por exemplo, quem diria que o granito, que se vê e explora em Trás-os-Montes, no Minho ou nas Beiras começou por ser um xisto, o mesmo que, com ele, forma o substrato destas províncias. 

Podemos dizer, no estilo que a linguagem literária consente, que o granito é filho do xisto, mas também não nos enganamos se dissermos o contrário, ou seja, que o granito é o pai (ou a mãe) do xisto. 

A explicação desta realidade é simples se nos fixarmos nos aspectos mais gerais, deixando de parte pormenores, que aos especialistas dizem respeito, e a abordarmos por palavras que toda a gente entenda. 

Como é sabido, os agentes atmosféricos “apodrecem” (alteram) as rochas e é essa alteração que gera a capa superficial do chão que pisamos no campo (de aspecto terroso) que, uma vez invadida pelas raízes das plantas e por toda a componente orgânica (viva e morta) associada, se transforma no solo. 

Continuando a pensar no granito que tomámos como exemplo, são o feldspato e a mica preta (biotite), próprios desta rocha, que sofrem o essencial dessa alteração. O primeiro, parcialmente, em minerais das argilas (barro), a segunda, libertando os óxidos de ferro que dão à rocha alterada, por vezes, o aspecto enferrujado.

O quartzo, praticamente, não sofre qualquer alteração, o mesmo sucedendo à mica branca (moscovite) que apenas se divide em palhetas cada vez mais pequenas e delgadas. A alteração do feldspato permite que a rocha se vá desagregando (dizemos nós, arenizando) libertando os seus minerais. Uns sob a forma de areias (os grãos de quartzo, os de feldspato que resistiram à alteração e a ou as micas) ou de partículas destes mesmos minerais, mas mais finas, a que os geólogos chamam silte (do inglês “silt”) e os pedólogos designam por limo (do latim “limus”) e, ainda, os ditos minerais das argilas.

Em tempo de chuva, as partículas mais finas (areias mais finas, o silte e os minerais das argilas), canalizadas pelos rios até ao mar, acabam por atingir o oceano profundo onde, ao longo de milhões de anos, se acumulam em depósitos sedimentares, alguns com milhares de metros de espessura. 

Sempre que um oceano se fecha, porque dois continentes se aproximam e entram em colisão, toda a “capa” sedimentar acumulada no dito oceano é, por assim dizer, enrugada ou pregueada, gerando uma cadeia de montanhas com a suas raízes profundas (conhecemos raízes que ultrapassam os 70 km de profundidade). Neste processo, os ditos depósitos sedimentares vão ficando submetidos a temperaturas e pressões que aumentam com a profundidade. Começam aqui as transformações próprias do chamado metamorfismo.

De entre os que se afundaram menos e que, portanto, sofreram um metamorfismo menos intenso, surge o xisto argiloso, rocha que qualificamos de metassedimentar porque está na fronteira entre as sedimentares e as metamórficas. Com o aumento da pressão e da temperatura, em profundidade, o xisto argiloso transforma-se noutros xistos de grau de metamorfismo mais elevado, a que os geólogos deram o nome de xistos luzentes ou filádios. No prosseguimento desta descida em profundidade e de transformação em transformação, surgem o micaxisto o gnaisse e o migmatito, rocha esta que se apelida de ultrametamórfica e que exemplifica a fronteira entre o metamorfismo e o magmatismo.

Sem entrarmos em pormenores, podemos simplificar, dizendo que, mais abaixo, a profundidades na ordem das dezenas de quilómetros, a temperatura pode atingir os 800 oC e a pressão ultrapassar as 4000 atmosferas, condições ambientais que promovem a fusão destes materiais, dando nascimento ao magma que, uma vez, arrefecido, regenera o granito.

Dizemos agora que, uma vez o granito aflorado à superfície, o que acontece muitos milhões de anos depois (o tempo necessário para que a erosão arrase quilómetros de espessura de rochas, esventrando as montanhas) a alteração começa aquilo que sabe fazer, repetindo a mesma sucessão de processos, dando início a mais um ciclo.

Dizemos mais um ciclo porque não sabemos exatamente quantos, mas sabemos que houve vários (com a duração de centenas de milhões de anos) desde, pelo menos, há 4000 milhões de anos. 

O exemplo que aqui escrevemos de forma muito simplificada, mas que respeita o que julgamos ser o essencial deste processo, é apenas um daquilo a que os geólogos baptizaram de “Ciclo Petrogenético” ou “Ciclo Geoquímico da Rochas” que envolve todo o geodinamismo do planeta, o externo, envolvendo a alteração das rochas, a erosão, o transporte dos produtos erodidos e a sua sedimentação, e o interno, de que fazem parte o metamorfismo e o magmatismo.

Galopim de Carvalho

segunda-feira, 26 de abril de 2021

Ciência às Seis (online): "Evolução, Crenças, Deuses e Teorias da Conspiração: o que nos diz a ciência?" com Rui Diogo


Na próxima terça-feira, dia 27 de Abril às 18h, via plataforma Zoom, realiza-se a palestra intitulada "Evolução, Crenças, Deuses e Teorias da Conspiração: o que nos diz a ciência?" com Rui Diogo, Professor e Investigador na Howard University em Washington DC nos Estados Unidos.

Sessão inserida no ciclo Ciência às Seis, iniciativa do RÓMULO com a coordenação de Carlos Fiolhais e colaboração de António Piedade, em formato Digital 💻📱Destinada ao público em geral, a sessão é de participação livre e não necessita de inscrição.

Aceda à sessão no Zoom através do link: https://videoconf-colibri.zoom.us/j/82159079173
ou ID da reunião: 821 5907 9173

Resumo da Palestra:

É natural que os humanos perguntem "Por quê?" e, em seguida, apresentem respostas. Se perguntarmos às crianças por que existem rios, elas poder-nos-ão dizer que é para que possamos beber água. Elas desenham o Sol com um rosto sorridente - retratando-o não como um objeto inanimado, mas como um ser com propósito. E, ao contrário do que se pensava até há pouco tempo, outros animais partilham algumas dessas nossas características, incluindo traços morais, como o altruísmo. Nesta palestra vou apresentar informações de diversos campos científicos que mostram que as nossas crenças incluem aspectos presentes em muitas outras espécies, aspectos esses que permitem responder a perguntas como: De onde vêm as nossas crenças do ponto de vista evolutivo? Há algo unicamente humano em pelo menos algumas delas? Existem relações entre saúde, bem-estar e religiosidade? Empiricamente, as pessoas religiosas tendem a ser mais altruístas ou, pelo contrário, mais egoístas? E o que é que as teorias da conspiração têm a ver com a religião? Terão alguma coisa em comum?

Biografia do Orador:

Rui Diogo, biólogo e antropólogo, e professor e investigador na Howard University, Washington DC (a universidade onde estudou a vice-presidente dos EUA Kamala Harris). Apaixonado pela ciência, pela vida, e por viajar e descobrir o planeta, deu palestras e disseminou ciência em mais de 60 países, sendo reconhecido por abordar questões científicas e sociais amplas usando dados empíricos de vários campos da ciência. Autor de mais de 150 artigos, dos seus 20 livros destaca-se "Evolution Driven by Organismal Behavior", que foi listado entre os dez melhores livros sobre evolução de 2017.

Evento no Site | Evento no Facebook

As últimas palestras do Rómulo estão disponíveis no Canal YouTube 
RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra
Divulgação de Eventos
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3004-516 Coimbra
Telefone: 239 410 699
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A ASCENSÃO DA CURIOSIDADE

Texto da minha intervenção no TEDXUniversidade de Coimbra:

Proponho-vos uma breve reflexão sobre a relevância da curiosidade... Como é o mundo? Onde estamos no mundo? Quem somos nós no mundo? Será que estamos no centro ou não passamos de poeira insignificante num mundo infinito?

É famosa a frase do físico inglês Isaac Newton: “Se consegui ver mais longe é porque estava aos ombros de gigantes” (fig. 1). A frase foi escrita numa carta a Robert Hooke, seu rival, apesar de ser colega na Royal Society de Londres, em 1676. A frase inspirava-se num famoso dito em latim atribuído ao filósofo medieval Bernardo de Chartres “somos anões sobre os ombros de gigantes”. A interpretação que tem sido dada por muitos historiadores de ciência é que Newton considerava que o seu trabalho resultava do trabalho anterior de cientistas notáveis, como o italiano Galileu Galilei, na geração logo anterior à dele, que por sua vez estava aos ombros de outros, como o polaco Nicolau Copérnico, mais de um século antes.

A frase, lida de um modo lato, significa que a ciência é uma construção, que o saber é uma acumulação: cada cientista eleva-se por cima dos outros, precisando deles para se apoiar em bases sólidas. De 1543, ano da publicação em Nuremberga do controverso livro de Copérnico Sobre a Revolução dos Orbes Celestes (fig. 2) até 1687, ano de publicação em Londres dos Princípios Matemáticos da Filosofia Natural do “incomparável cavalheiro” Newton (fig. 3), passando por 1632, ano em que saiu em Florença o Diálogo sobre os Dois Maiores Sistemas do Mundo, de Galileu (fig. 4), também os livros se foram acumulando nas bibliotecas, cada um dando lugar a outros, mas não perdendo o seu lugar, até porque o seu conteúdo passava pelo menos em parte para as obras vindouras.

Cada uma dessas obras resultou da inquietação, do desassossego, da insatisfação do seu autor, em tentativas de resposta a grandes perguntas da humanidade: Como é o mundo? Onde estamos no mundo? Quem somos nós no mundo? Qual é a nossa relevância à escala cósmica?

Se com Copérnico surge a hipótese de o centro do sistema do mundo não ser a Terra, mas sim o Sol, com Galileu essa hipótese ganhou ampla publicitação e com Newton ela deixou de suscitar qualquer dúvida.

As sucessivas subidas aos ombros de gigantes, resultado de inquietudes individuais, não se fizeram sem inquietudes colectivas: Copérnico (fig.5) faleceu no ano em que o seu livro saiu não tendo podido conhecer a violenta polémica que desencadeou entre cristãos, tanto católicos como os então muito recentes protestantes, e Galileu  (fig. 6) foi condenado a prisão domiciliária pela Inquisição romana, depois de conveniente abjuração, por sustentar posições que alegadamente contrariavam a Bíblia. Só Newton (fig. 7) pôde gozar de uma vida de maior reconhecimento e glória. Quando ele morre em 1727, o Século das Luzes já ia adiantado: as Luzes tinham em boa parte sido acendidas por ele. Como epitáfio o poeta Alexander Pope escreveu:

A natureza e as suas leis jaziam na noite escondidas.

Disse Deus “Faça-se Newton” e houve luz nas jazidas.

Foi preciso esperar muito tempo, até 1905, para vermos alguém subir mais alto na pirâmide humana. Foi o sábio suíço e norte-americano, nascido na Alemanha (nunca quis ser alemão!), Albert Einstein (fig. 8) quem, em dois momentos de epifania, o da relatividade restrita, de 1905, e o da relatividade geral, de 1915, se conseguiu alcandorar acima de Newton, vislumbrando uma paisagem que os outros nunca tinham visto. A geometria, que já antes tinha iluminado Newton nos seus Principia, foi o seu guia. Mas, se a geometria o orientou, a inquietude foi, tal como nos cientistas que o precederam, o princípio motor. Mais uma vez voltavam as grandes perguntas: Onde estamos no mundo? Como é o mundo? Quem somos nós no mundo?

O astrofísico norte-americano e divulgador de ciência Carl Sagan (fig. 9), no final de Cosmos, livro e série de televisão de 1982, depois de ter procurado condensar o que sabemos sobre as duas primeiras perguntas, respondeu à terceira: Nós somos a consciência do mundo. Somos, tanto quanto sabemos, os únicos seres capazes de compreender o mundo e, portanto, sem nós o mundo permaneceria incompreendido. A nossa obrigação – a nossa ambição – deve ser o conhecimento.

A pergunta impõe-se: Será que o ser humano já atingiu o máximo desta pirâmide humana que faz crescer a ciência? A resposta não é do âmbito da ciência, mas está fundamentada em toda a história da ciência. Estamos convencidos de que não, isto é, que a ciência é um empreendimento sem fim e que um dia alguém subirá aos ombros de Einstein conseguindo ver mais longe. Mas o certo é que já passaram mais de cem anos desde a elevação de Einstein aos ombros de Newton e ainda ninguém conseguiu subir aos ombros do autor da relatividade, vendo uma paisagem nunca vista. Muitos têm tentado, ensaiando o que por vezes se chama uma “teoria de tudo”, mas não é fácil subir acima de Einstein. Não nascem génios como ele todos os dias. Ele foi um novo “incomparável cavalheiro”, ou pelo menos ainda ninguém conseguiu merecer uma comparação com ele. Mas aquilo que Jacob Bronowski, um matemático, poeta e divulgador científico britânico de origem polaca, a cujos ombros Sagan subiu, chamou a ascensão do homem” prossegue. A “ascensão do homem” é a “ascensão da curiosidade”.

Porque subiram estes sábios? Porque é que hoje sem dia não falte quem tente subir ainda mais acima? Porque procura o homem ascender? Talvez a palavra “inquietação”, que já usei, seja a chave da resposta. O homem é um ser inquieto. Não se contenta com o que sabe, mas quer saber mais. Um sábio português do tempo de Copérnico, Garcia da Orta (fig.10), resumiu bem essa ânsia de saber que é ao mesmo tempo uma ânsia de futuro. Escreveu: “O que não sabemos hoje amanhã saberemos”. Copérnico, Galileu e Newton foram mentes inquietas, desassossegadas, insatisfeitas. Quiseram ver mais, saber mais, e conseguiram. Ambicionaram ver mais e tiveram a recompensa da sua ambição. Todos eles nos deixaram a sua visão inquieta, para que sobre ela pudéssemos deixar crescer a nossa inquietação. É bom lembrar que a ciência não é dos cientistas, mas é de todos nós: eles apenas representam a humanidade na sua continuada inquietação da descoberta. Convém lembrar que hoje somos filhos de Copérnico, Galileu, Newton e Einstein.

O que significa ser inquieto? Significa ter a mente desperta para o mundo, alimentada pela chama viva da curiosidade. Uma mente desperta, porque é curiosa, não se contenta com as perguntas que outros colocaram e com as respostas que outros deram: dá outras respostas às mesmas perguntas ou coloca as suas próprias perguntas, procurando as respectivas respostas. Há sempre novas perguntas, há sempre novas respostas.

E vocês? Que perguntas se têm feito ultimamente? Como vai a vossa curiosidade? Já perguntaram, por exemplo, por que razão o mar tem marés, duas em cada dia? Foi Newton o primeiro a responder: a Lua exerce uma atracção sobre a Terra, movendo-se a água mais num certo sítio está mais perto da Lua (fig. 11). É maré alta. Passadas seis horas, a Terra rodou de 90º e a maré é baixa. Mas passadas mais seis horas, a Terra rodou de 180º e volta a haver maré alta. Por dia há duas marés altas e duas marés baixas. E, quem quiser ir ao surf, pode ver na Internet quando é a maré alta ou a maré baixa em cada sítio.

Na praia beneficiamos da luz do Sol. Aliás, estamos sempre a beneficiar do Sol, pois sem Sol não haveria seres vivos e nós não estaríamos aqui. Mas por que razão o Sol emite energia sob a forma de luz? (Fig. 12) Einstein explicou que a matéria se pode converter em energia: E=mc^2 Hoje sabemos que o Sol  é um central de fusão nuclear: transforma hidrogénio e hélio. Quatro protões, que são quatro núcleos do hidrogénio, têm menos mais massa do que o núcleo de hélio. A diferença é a energia emitida. O Sol vai continuar a brilhar, pelo menos mais cinco mil milhões de anos – está a meio da sua vida – porque tem muito hidrogénio para converter em hélio.

Fernando Pessoa chamou desassossego à inquietação humana (Fig.13). Pessoa podia ter-se encontrado com Einstein quando este, em 1925, numa viagem entre Hamburgo e o Rio de Janeiro, fez escala em Lisboa e passeou pela Baixa pombalina. Não fora o desconhecimento um da presença do outro e a timidez dos dois, talvez pudessem ter trocado algumas ideias sobre o mundo. Talvez pudessem ter partilhado a sua inquietação. 

E nós? Já nos encontrámos com Pessoa ou com Einstein? Quando é que nos encontramos com o desassossego, com a curiosidade? Quando é que nos encontramos com o conhecimento?

Vejamos o que Einstein nos revelou sobre a sua própria inquietação que o conduziu, em 1905, à teoria da relatividade, uma teoria sobre o espaço, o tempo, a matéria e a energia.. Na origem da teoria da relatividade restrita ele coloca o pensamento de perseguir um raio de luz (fig. 14):

“E se corrêssemos atrás de um raio de luz?... E se cavalgássemos no feixe luminoso?... Se conseguíssemos correr suficientemente depressa, será que ele deixaria de se mover por completo?» o que é a “velocidade da luz”? Se a velocidade da luz for relativa a alguma coisa, então o seu valor não se mantém relativamente a outra coisa que também esteja em movimento.”

Que homem é esse que pensava? O mesmo, afirmou o próprio, que o homem crente ou o homem apaixonado. Numa palestra sobre o motivo para a investigação, não teve peias em dizer: “O estado de espírito que permite a um homem realizar um trabalho deste tipo… é semelhante ao do crente religioso ou ao de um apaixonado; o esforço diário não vem de qualquer intenção ou esforço deliberado, mas directamente do coração.”

É por isso que Newton fala de “curiosidade apaixonada”. Curiosidade todos temos, mas em Einstein era uma verdadeira paixão.

Recuemos a Newton. É-lhe atribuída esta frase: Não sei como o mundo me vê, mas eu me sinto como uma rapazinho brincando na praia, contente em achar aqui e ali uma pedra mais lisa ou uma concha mais bonita, mas tendo sempre diante de mim, ainda por descobrir, o grande oceano da verdade.” Qual foi a maior pedra mais bonita que Newton encontrou na praia: foi a compreensão de que a lua e a maçã quando cai de uma arvore obedecem as duas à mesma força, a força da atracção universal, isto é, não há leis da física para o céu e leis da física para a terra, mas só há uma física.

Esta ideia que é verdadeiramente brilhante – só há um mundo com uma ordem unificada e não vários mundos com ordens arbitrárias, quer dizer, sem ordem nenhuma, estava já em Galileu. Em 1609 ele observou pela primeira vez o céu com o telescópio. E viu coisas extraordinárias: montanhas na Lua (fig. 15), manchas no Sol, fases em Vénus, e satélites de Júpiter. As sombras das montanhas na Lua permitiram-lhe intuir que as leis da óptica eram as mesmas na Lua e na Terra. E a existência de luas de Júpiter que havia outros corpos no vasto céu com que eram centro de outros. A Terra não podia ser o único centro.

Galileu escreveu no início do Dois Grandes Sistemas do Mundo: “Quem olha mais alto diferencia-se de modo mais elevado; e o voltar-se para o grande livro da Natureza, que é o próprio objeto da filosofia, é o modo de erguer os olhos; nesse livro aparece a obra e o artifício, ainda que tudo o que nela se leia, sendo obra do Artífice omnipotente, seja por isso proporcionadíssimo, o qual é, a nosso ver, o mais expedito, o mais digno, o maior.”

Falei de Fernando Pessoa, o autor do Livro do Desassossego. Num passo desse livro Pessoa fala do sonho, que normalmente opomos à razão e que costumamos associar à imaginação:

“A superioridade do sonhador consiste em que sonhar é muito mais prático que viver, e em que o sonhador extrai da vida um prazer muito mais vasto e muito mais variado do que o homem de acção. Em melhores e mais directas palavras, o sonhador é que é o homem de acção.”

E que tem Einstein a dizer sobre o sonho? Sobre essa actividade em que a nossa imaginação voa livremente? Pois um dia perguntaram-lhe o que era mais importante? Seria o conhecimento ou a imaginação? Pois o grande sábio respondeu, sem hesitar, que era a imaginação. A imaginação é, de facto, um dos maiores meios para chegar ao conhecimento. O físico imagina como é a Natureza e só depois vê como ela é. O fito dele é ter a “imaginação da Natureza”. As seguintes palavras são do autor da teoria da relatividade (fig. 16):

"A imaginação é mais importante que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação envolve o mundo, estimulando o progresso e dando origem à evolução. Ela é, de maneira rigorosa, um factor real na pesquisa científica."

A imaginação é também, como bem sabemos, um factor real nas vidas de todos nós. Não são apenas os cientistas que têm de combinar conhecimento e imaginação. Somos todos nós nas nossas vidas. A imaginação é fonte de conhecimento, mas de entre tudo o que sonhamos temos de reter o que mais e melhor se adequa ao mundo real.

Em 1925, Einstein e Pessoa não se encontraram na Baixa em Lisboa. Mas termino com um diálogo virtual entre os dois (fig. 17). Não houve diálogo, mas podemos imaginar um diálogo, a partir de textos dos dois: Os trechos de Pessoa são do Livro do Desassossego, e de Albert Einstein, usei um livro de citações devidamente verificadas.

Diz Pessoa: “A física sabe bem qual é o coeficiente de dilatação do ferro; não sabe qual é a verdadeira mecânica da constituição do mundo. E quanto mais subimos no que desejaríamos saber, mais descemos no que sabemos. A metafísica, que seria o guia supremo porque é ela e só ela que se dirige aos fins supremos da verdade e da vida — essa nem é teoria científica, senão somente um monte de tijolos formando, nestas mãos ou naquelas, casas de nenhum feitio que nenhuma argamassa liga.”

Sabemos muito pouco, mas isso significa que podemos saber mais. Diz Einstein, nessa mesma linha, sobre a relação entre ciência e realidade:

"Uma coisa que aprendi nessa longa vida: toda a nossa ciência, comparada com a realidade, é primitiva e infantil - mesmo assim é a coisa mais preciosa que nós temos."

Sim, “a ciência é primitiva e infantil”. Mas alguém, inquieto, virá decerto subir aos ombros de Einstein (fig. 18).