domingo, 18 de fevereiro de 2024

"Nós, professores, já não lemos. Nem sequer estudamos."

O artigo que aqui traduzimos, assinado por Diego Garrocho, não traz nada de novo, mas o que traz é importante, fundamental, precisa de ser repetido até à exaustão. O colapso da Universidade, que está em curso e de modo acelerado, é o colapso da civilização, tal como a conhecemos. É também o reflexo desse mesmo colapso. Maria Helena Damião e Isaltina Martins

"Nós, professores, já não lemos. Nem sequer estudamos. Estamos demasiado ocupados em escrever e em explicar o que supostamente deveríamos ter lido, mas as horas de enriquecimento cultural e de reflexão foram praticamente desterradas do trabalho universitário (...).

A culpa não é dos professores que simplesmente adaptam os seus esforços para sobreviver num contexto absurdamente darwiniano, mas dos gestores de ciência que desde há alguns anos decidiram não só destruir as humanidades, mas também minar as condições vitais e materiais que as tornaram possíveis.

Deitemos um olhar ao jargão que compõe a política científica e poderemos perceber a dimensão do suicídio cultural e civilizacional em que nos encontramos. Se um investigador, por exemplo um filólogo, quiser pedir um financiamento para um projecto, o primeiro obstáculo que encontra é um muro de palavras absurdas: sinergias, interdisciplinaridade, disrupção... (...) pressupostos que na sua origem parecem provir das ciências experimentais ou aplicadas, mas que, no entanto, traduzem mais a verborreia alucinada do fundador de uma 'startup'. Tudo são 'desafios', 'talentos' das 'sociedades inclusivas´ e outros títulos que demonstram preocupação, e que alternam, com tons contraditórios, entre o messiânico e o apocalíptico, ainda que coincidam sempre em tomar o futuro como ideologia.

Um bom investigador em humanidades deveria estudar (...) em paz porque o que deve, prioritariamente, é dominar a sua matéria. Isto significa que tem de contar com horas de silêncio e de retiro sem que se lhe seja exigido que pormenorize numa folha de excel qual é o resultado da sua leitura, em que medida a sua investigação será útil para deter as mudanças climáticas ou a xenofobia. Porque às vezes as formas mais cultivadas do espírito não geram um rendimento imediato para a agenda política (...)

Desde há demasiado tempo que temos querido converter a universidade num absurdo que conjuga os piores delírios do activismo simplório com os abusos da produção capitalista. A prestação de contas que, até certo ponto, é razoável, tornou-se na única prioridade, até converter-nos em peritos em prestar contas do que nunca aconteceu. A nossa obsessão pela eficácia acabou por nos condenar à pior ineficácia. Investimos milhões a criar redes de conhecimento internacional, congressos e publicações ao mesmo tempo que somos incapazes de conseguir o mais imprescindível: tempo. Tempo para o silêncio, o estudo e a leitura. Tudo o que não seja isso é fumaça."

NA MORTE DE NAVALNY

À coragem e aos 
conscientemente corajosos
Nero recomendava o suicídio
ou mandava a guarda pretoriana
ou também usava o matricídio,
querendo livrar-se de algum sacana.

O melhor modo de fazer calar
um adversário muito eloquente
é, sem mais, fazê-lo assassinar,
de modo rápido e eficiente.

Navalny foi agora “afastado”,
porque incomodava muita gente.
Putine, naturalmente agastado,

disse: “Quem me livra deste demente?”
Os seus assessores compreenderam
e, muito prestamente, procederam.
Eugénio Lisboa

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

ABSOLUTAMENTE PERNICIOSO

 Por Eugénio Lisboa

O texto que se segue foi publicado há muitos anos e constituiu um de vários com os quais quis avisar para os riscos que envolvia o futebol profissional e todo o desporto profissional. O aviso vinha de muito longe, dos gregos antigos, pelo menos, e era um aviso saudável. Infelizmente foi um aviso que caiu em saco roto e o resultado está à vista, na vergonhosa paisagem que agora se desvela, nos bastidores do Futebol Clube do Porto. Em vez de se aceitar decentemente a opinião divergente, oferece-se “porrada” a quem diverge, abusando obscenamente de uma impunidade que existiu tempo demais. Quando se vê o actual Ministro da Saúde como “padrinho” de Pinto da Costa, há que perguntar se ainda se pode descer mais, pela escadaria que leva ao inferno. Achei que valia a pena repescá-lo no momento que passa. Será por certo aquilo a que Montherlant chamava “serviço inútil”.
Não há muito tempo, publiquei dois artigos relacionados com o futebol. Entre outras coisas, afirmava – é uma convicção que tenho há largos anos – ser o desporto profissional uma fonte inevitável de corrupção e outras formas de degradação moral. Assim como as utopias levam direitinho à opressão totalitária, o profissionalismo, no desporto, obriga a uma “machine infernale” de financiamentos megalómanos que só param ou na bancarrota ou na cadeia (ou nas duas, simultaneamente). 
 
Dizia Oscar Wilde, no seu leito de morte, que estava a morrer além dos seus meios (completamente destituído, dava-se ao luxo de beber uma garrafa de champanhe). Os clubes de futebol profissional nascem, vivem e morrem além dos seus meios. Como chegam cedo a não ter com que pagar jogadores e treinadores milionários, acaba por se instalar um conluio torpe e inevitável entre os clubes, os dinheiros públicos e a construção civil. O caso de Felgueiras configura um alegado financiamento clandestino de um clube de futebol com dinheiros públicos não votados para esse fim. É, como já se sugeriu, apenas a ponta de um monstruoso iceberg.

O mais grave é a emergência de uma cultura futebolística, com os seus tenores convictos e tonitruantes, que não hesitam em ameaçar, impunes, os poderes públicos que se atrevem a investigá-los. O futebol passa a ser o assunto, o tema, que a tudo se sobrepõe. Dizia o “football manager” britânico Bill Shanky que “o futebol não é assunto de vida ou de morte – é muito mais importante do que isso.” De facto, ouvindo-se as orgias verbais dos Valentim Loureiro, dos Pinto da Costa e atentando-se na atenção obscena que ao futebol profissional dão a imprensa, as televisões (incluindo a pública) e os representantes acreditados do governo (dos governos), fica-se com a certeza de que o futebol tem muito mais importância do que um mero assunto de vida ou de morte.
 
O verdadeiro espírito do desporto não rima com este concerto grotesco de bravatas, de gritaria, de agressões públicas, de trafulhices com impostos, de dinheiros, dinheiros, dinheiros… O desporto é esforço desinteressado e elegante, é exemplo de autodomínio e beleza. O grande “sage” Samuel Johnson desculpava-se por não jogar cartas, nestes termos: “É muito útil na vida: origina afabilidade e ajuda a consolidar a sociedade.” Note-se que não passava pela cabeça do grande sábio que as cartas pudessem ser um modo de ganhar dinheiro. Tratava-se, isso sim, de gerar bondade e uma sociedade mais bem consolidada e solidária. 
 
O desporto, tal como os grandes filósofos gregos o viam, também não tinha que ver com ganhos materiais. Perguntaram um dia a George Mallory por que é que ele tinha querido trepar o Monte Everest. Respondeu, com aquela “formidável infância” de Caeiro: “Porque ele estava ali.” Eis o verdadeiro desporto: vou bater um record, porque o desafio está ali à minha frente. Vou ver se um esforço de disciplina e concentração consegue que eu faça um pouco mais do que o meu antecessor ou do que o meu actual competidor. O desporto – o verdadeiro, o limpo - é isto. Não é: vou bater este record, a ver se me pagam mais e me isentam dos impostos sobre aquilo que irei ganhar. 
 
O futebol deve ser muita coisa: esforço coordenado e disciplinado de uma equipa, com elegância e arte, para se obter um efeito bonito e um resultado gratificante – e encorajar os outros a jogarem também. Mas o futebol profissional, infelizmente, não é nada disto. “O futebol, segundo me parecia,” observava Orwell, “não é realmente jogado pelo prazer de chutar a bola de um lado para o outro, mas é antes uma espécie de combate.” De combate e de profissão milionária.
 
Quando escrevi os dois artigos que acima refiro, ainda alguns escândalos não tinham estalado: Felgueiras, Pimenta Machado… Nem era preciso. Era fácil de antever que o futebol profissional, nos termos em que tem estado a desenvolver-se, só podia ter fundações de lodo. A aritmética não vive de milagres. A megalomania tem custos. Acreditar em milagres de Dona Branca dá sempre com os burrinhos na água.

O desporto é energia e uso controlado – se possível, artístico – dessa energia. “A energia é Eterno Deleite”, dizia o poeta William Blake. O verdadeiro desportista não procura gratificação para além da satisfação que lhe dá um trabalho bem feito, um esforço bem orientado, um elegante resultado conseguido: “A gratificação para uma coisa feita é termo-la feito”, dizia o filósofo americano Ralph Waldo Emerson. 
 
Nada disto tem que ver com o futebol que para aí se promove, degradando moralmente crianças e adolescentes, num ambiente de bravata balofa, de gritaria oca, de competição mal compreendida. Se o Estado quer gastar dinheiro com o desporto – e deve fazê-lo! – não é a financiar, clandestina ou descaradamente, clubes de desporto profissional, nem a construir estádios megalómanos e desnecessários, desbaratando insensatamente o dinheiro dos contribuintes. É, isso sim, a construir boas estruturas gimnodesportivas, nas escolas e universidades. Não é a isentar de impostos metade do salário milionário de indivíduos que nunca entenderam a sério o que seja o espírito do desporto. 
 
Vem-se muitas vezes com a falácia de que o desporto internacional ajuda o entendimento entre os povos… O que se tem visto dá pouca cobertura a isto: “É o desporto internacional”, observava o romancista E. M. Forster, “que tem atirado com o mundo pela ladeira abaixo. Iniciado por atletas tontos, que pensavam que iria promover ‘compreensão’, é hoje sustentado pelo desejo de prestígio político e pelos interesses ligados à bilheteira. É absolutamente pernicioso.” É realmente esta mistura de política com futebol profissional, com o medo concomitante que os políticos têm da influência dos barões da bola e do imenso público que os segue, que tem ajudado a envenenar e a prostituir o verdadeiro desporto – aquele que tem sido desprezado, que se não protege, que se não acarinha, porque não dá votos. Uma juventude sem desporto por ela praticado desinteressadamente é uma juventude sem saúde. Retirar fundos a este desporto para os dar àquele é roubar os pobres para dar aos que nem chegam a ser ricos – porque são apenas corruptos: que gastam milionariamente o que não têm (e quem paga?)

O petardo lançado para o relvado, no jogo entre o Benfica e o Vitória de Guimarães e a bárbara agressão de jogadores do Porto, no prélio com o Sporting são o resultado previsível de uma cultura futebolística com características sonoras e comportamentais do mais obsceno e desprezível fascismo. O Sr. Secretário de Estado dos Desportos faz o voto pio de que cenas destas se não repitam… É óbvio que vão repetir-se, em pior. Deitou as culpas aos dirigentes desportivos e ao discurso aquecido dos media. Mas esqueceu-se de que estes são apenas parte de toda uma cultura que desencadeou uma reacção em cadeia, que pode e deve levar ao seu próprio aniquilamento. 
 
Por mim, só desejo que a explosão venha depressa – e engula estes jogadores, estes treinadores, estes dirigentes desportivos, estes governantes que pactuam com tudo isto, e, já agora, estes comentaristas desportivos que de tudo falam menos de desporto e do seu espírito verdadeiro. 
 
Eugénio Lisboa

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

“UMA REFLEXÃO EM TORNO DA POESIA”

Por Eugénio Lisboa
 
O Professor Galopim de Carvalho, pessoa que muito respeitamos e admiramos, publicou, no De Rerum Natura, uma reflexão sobre a poesia, fundamentada na sua experiência de leitor. Trata-se de um texto despretensioso, de uma exemplar humildade, franqueza e, mesmo candura, de algum modo, solicitando que o esclareçam. Como sério e esforçado cientista, sabe que a melhor estratégia, perante um problema, é questionar. O conhecimento foi produzido à custa de perguntar. Há os que já sabem tudo e há os que questionam tudo. Os sabichões pertencem à primeira categoria, os cientistas, à segunda. O cientista Niels Bohr gostava de esclarecer que, quando dizia alguma coisa, não estava a afirmar, mas sim a perguntar.

É um facto que a pintura no tempo de Delacroix era muito mais popular, porque acessível, do que é hoje. Como é um facto que a poesia de Victor Hugo era, no seu tempo, muito mais popular do que é hoje a poesia de um T. S. Eliot, de um Ezra Pound ou de um Herberto Hélder. Note-se, de passagem, que a poesia nunca teve muitos leitores, como já foi observado por ensaístas atentos, mas, hoje em dia, corre o risco de ter mais poetas do que leitores. 
 
Por outras palavras, a arte e a poesia tornaram-se menos acessíveis, mais difíceis de ler, por vezes, quase indecifráveis. Sobre as razões deste decréscimo de popularidade da pintura, do romantismo para cá, o grande pensador espanhol Ortega y Gasset escreveu um livro admirável – A DESUMANIZAÇÃO DA ARTE - que, estou certo, o Professor Galopim de Carvalho achará interessante ler.

Quanto a grande parte da poesia de hoje, a dificuldade que oferece pode ter várias explicações. Por um lado, frequentemente, o discurso poético dispensa nexos lógicos, por outro lado, usa um luxo de metáforas ousadas (e arriscadas), herdadas do surrealismo, nas quais aproxima, à beira do abismo, o aparentemente não aproximável. Caindo, não raro, num subjectivismo tão assanhado, que roça o arbitrário. 
 
De aí a dificuldade que sentiu o Professor Galopim de Carvalho, diante das metáforas ousadas de Eugénio de Andrade e não sentiu diante das de Sophia, mais “legíveis”, mais domesticadas… Sobre este assunto da “dificuldade” que oferece alguma poesia, recomendaria ao Professor Galopim de Carvalho, se mo permite, a leitura do livro – ON DIFFICULTY AND OTHER ESSAYS – do grande ensaísta George Steiner. Talvez ai encontre algumas pistas interessantes, no sentido de esclarecer as suas perplexidades.

Peço-lhe me releve o atrevimento desta minha intervenção, mas faço-o com a mesma boa fé e candura que pôs no seu texto. 
Eugénio Lisboa

terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

À ATENÇÃO DO MINISTRO DA ADMINISTRAÇÃO INTERNA, O ACTUAL E O VINDOURO, DAS AUTORIDADES DE SEGURANÇA, DA POLÍCIA E DA GUARDA REPUBLICANA

Por Eugénio Lisboa

Vai por aí um grande reboliço, da parte das forças de segurança, acompanhado do brouhaha dos comentadores, com as ditas forças, cheias de muita razão, por um lado, mas completamente cegas, para outros seus interesses vitais. Tudo anda à volta de se ter dado aos da Polícia Judiciária um aumento do “subsídio de risco” e aos da Polícia de Segurança não.

Vejamos o famoso “subsídio de risco”, de que toda a gente fala, como se fosse uma evidência. Cobrir o risco de vida (real), de agentes de uma profissão perigosa, com um subsídio mensal é uma total inépcia, que deveria saltar aos olhos do mais desprevenido, mas, aparentemente, não salta. 
 
Vou dar só um exemplo: ao fim de dois meses de ter entrado nas forças de segurança, um agente, enviado para uma missão perigosa, é baleado e morre. Terá, então, recebido dois subsídios de risco, respeitantes aos dois meses de serviço. Pergunto: é com isso que a sua viúva vai sobreviver? Mas, em vez de dois meses, ponham dois, três, cinco anos, a minha pergunta vale na mesma. Até porque o subsídio de risco, que não passa de um disfarçado aumento de salário, não terá sido cautelosamente posto de lado, mas consumido, nas despesas correntes do mês, por ser necessário. E com uma agravante: trata-se de um disfarçado aumento de salário, que não contará para a reforma: outra péssima consequência. 
 
O risco de vida, que, repito, é muito real, só poderá ser eficazmente coberto, por meio de um seguro colectivo, garantindo à família do agente morto ou incapacitado, em serviço, uma reparação muito mais decente, seja qual for o seu tempo de serviço. Por outro lado, se o subsídio de risco apenas representa, como sucede, que há uma insuficiência salarial, dê-se aos agentes um verdadeiro aumento salarial e não um inepto “subsídio de risco”… 
 
É preciso dar às forças armadas condições de trabalho e de vida decentes, mas é também necessário acautelá-las, a sério, contra a perigosidade das suas funções. O “subsídio de risco” não cobre coisa nenhuma, apenas finge de aumento salarial, sem repercussão na reforma. 
 
Os nossos abundantes comentadores encartados ainda não viram isto?
Acham que o problema se resolve com equiparações de inépcias?
Eugénio Lisboa

UMA REFLEXÃO EM TORNO DA POESIA

Por Galopim de Carvalho
 
Dei por mim, há dias, a folhear uma antologia com obras dos mais distintos poetas portugueses deparei-me, com este “Entre os teus lábios” de Eugénio de Andrade, figura maior da poesia portuguesa contemporânea, de entre os mais lidos e traduzidos, de entre os mais premiados, mas, ignorância minha, não a sei apreciar. Que me desculpem os entendidos. Não me diz nada. Eis o poema que li:
Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.
No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.
Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.
Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.
Li, depois, ”Em todos os jardins”, da grande Sophia de Mello Breyner, outra figura maior da poesia portuguesa contemporânea e, não obstante, a minha atrás confessada ignorância, digo que é desta poesia que realmente gosto. Não me permito qualificar, digo apenas que esta me diz muito, que me enche a alma, enquanto que a outra pouco ou nada me diz. Eis o poema de Sofia.
Em todos os jardins hei de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.
Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há de abrir.
Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.
Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.
Comecemos, então, por dizer que a palava “poesia”, com raiz no termo grego poíesis, alude à acção de fazer alguma coisa, nos chegou através do italiano, poesia. Na minha ignorância sobre tão importante e delicado tema, atrevo-me a dizer que aprecio, sobretudo, a poesia entendida como um género literário caracterizado pela composição em versos estruturados de forma harmoniosa, que eu diria, musical.
 
À falta de competência para caracterizar a poesia de que estou a falar, exemplifico com a de Camões, de Bocage, a de muitos poetas do século XIX, como Cesário, Antero e Garret, e alguns do século que passou, como Torga, Gedeão, Florbela, Aleixo e Ary. Estas e muitas outras que ficam por citar, são, para o meu gosto, manifestações de beleza e estética, criadas com palavras.

É a que mais fácil e belamente entra na minha sensibilidade. Fiquei amarrado a um tipo de poesia marcada por elementos formais, como a rima, o ritmo, em versos e estrofes que lhe definem a métrica. É, porque a entendo, a susceptível de me despertar os mais variados sentimentos.

Ao longo da História, a poesia, seja ela a que, na minha ignorância, chamarei de antiga, seja a que se diz moderna, que não me atrai, tem sido usada como uma forma literária de expressar os mais variados sentimentos, como o amor, a felicidade, a dor, a solidão, a tristeza, a saudade, entre muitos outros. 

Não acompanhei o desenvolvimento ou, melhor dizendo, a transformação da poesia ao longo do século XX. Fala-se de poesia moderna, na qual, se destacam elementos do modernismo e do chamado pós-modernismo. Trata-se de uma matéria que não domino. Só sei que, na poesia, o autor tem liberdade para definir o seu próprio ritmo e criar as suas próprias normas. Só sei que nela os versos não têm de ter rima obrigatória, nem seguem nenhuma métrica. 

É senso geral que só se gosta daquilo que se conhece e é, talvez, só por isso que a não sei apreciar. 
 
Galopim de Carvalho

domingo, 11 de fevereiro de 2024

NADA DE NOVO NA EDUCAÇÃO ESCOLAR... APENAS E SÓ O REFORÇO DA RETÓRICA TECNOLÓGICA DO FUTURO

Foi divulgado há muito pouco tempo um relatório, proveniente de um tal USC Center for Generative AI and Society, com o título Critical thinking and ethics in the age of generative ai in education. A critical look into the future of learning
 
Reforçando a necessidade de inovação na educação e tocando a questão ética, nada de substancial acrescenta à "narrativa da educação do futuro".
 
Eis uma síntese da introdução, assinada por Pedro Noguera.

No mundo de hoje, em rápida evolução, o papel da tecnologia no cenário educacional está a evoluir rapidamente. A era digital forneceu aos educadores e aos alunos inúmeras ferramentas, projetadas para tornar o ensino mais envolvente e a aprendizagem mais acessível. É de considerar o potencial da IA para produzir mudanças profundas na educação.

O sistema tradicional de educação, em que o professor transmite conhecimento e os alunos recebem-no passivamente não é adequado para equipar as gerações futuras para agirem num mundo com enormes desafios e incertezas. A educação deve deixar de ser meramente transacional para ser transformadora e fortalecedora. Deve liberar a criatividade e imaginação dos alunos, ao mesmo tempo que lhes proporciona o conhecimento e as habilidades académicas e técnicas necessárias para resolver problemas complexos. A IA generativa pode oferecer um meio para tornar possível esta transformação.

Imagine uma sala de aula onde a IA, não substituindo o professor, apoia-o na geraçãoo de planos de aprendizagem personalizados para cada aluno, com base nos estudos académicos e nos desempenhos e interesses individuais.

Existem evidências de que a IA generativa pode ser usada para criar novos meios para os professores colaborarem e apoiarem os seus alunos, possibilitando-lhes que partilhem ideias com colegas de todo o mundo.

A IA pode ajudar os alunos a tornarem-se criadores de conhecimento e não apenas consumidores, e os professores podem realmente tornar-se facilitadores da aprendizagem, em vez de transmissores de conhecimento. Imagine-se um sistema onde a linha entre professores e alunos se confunde à medida que ambas as partes se envolvem num processo dinâmico e em constante evolução, impulsionado por inteligência colaborativa e aumentada – humana e artificial.

Embora alguns estejam fixados nas potenciais possibilidades de plágio e de violação de direitos autorais, deveríamos concentrar-nos nas possibilidades do seu uso para enfrentarmos problemas que provavelmente se tornarão mais complexos e intratáveis nos próximos anos. Os problemas que enfrentamos hoje – alterações climáticas, desigualdade, saúde global, a guerra e a atual crise de refugiados – não estão isolados, mas interligados e exigem que as nossas instituições educacionais e indústrias produzam uma geração capaz de resolver problemas, através do pensamento crítico, da adaptação criativa a cenários facetados e em constante mudança

O desenvolvimento de soluções deve evoluir em sofisticação e adaptabilidade. A IA generativa pode servir como uma ferramenta potente para apoiar pensadores holísticos, equipando-os não apenas com conhecimento, mas também com as ferramentas para gerar novas ideias e soluções.

No entanto, à medida que avançamos, tomamos maior consciência da necessidade de abordar a transformação responsável com fundamentação numa ética que coloque o interesse da sociedade humana em primeiro lugar.

Embora a tecnologia tenha o poder de revolucionar a educação, ela também acarreta o risco de amplificar as desigualdades existentes e criar novas formas de exclusão. Aspectos como a privacidade de dados, preconceitos algorítmicos e exclusão digital, devem ser tidos em conta na implementação de IA generativa em ambientes educacionais

Além disso, devemos garantir que tais tecnologias sejam usadas para aumentar as capacidades humanas, e não para substituí-las, para preservar os aspectos inerentemente relacionais e emocionais do ensino e da aprendizagem.

Este relatório é um convite para educadores, formuladores de políticas, tecnólogos e alunos considerarem a contribuição da IA generativa para o futuro da educação. Estabelecer uma base sobre a qual possamos começar a construir um ecossistema educacional que seja dinâmico, inclusivo e profundamente humano, apesar de ser significativamente auxiliado por tecnologias É um dos muitos que serão escritos por especialistas da USC Rossier Escola Superior de Educação, em colaboração com o Instituto de Tecnologias Criativas, e outros. Vamos embarcar nesta viagem com abertura para romper com o tradicional, mas com uma reverência pelos aspectos inerentemente humanos da educação que nenhuma tecnologia deveria alguma vez substituir.

OUTRAS CITAÇÕES DE VOLTAIRE

Às citações anteriormente aqui trazidas, desse espírito fecundo, ágil e cintilante, que foi Voltaire, não resistimos a juntar aqui mais algumas, tal é a profusão delas, na vastidão da sua obra variada e sempre aliciante. Apetece perguntar: “Como se pode ser Voltaire?” Valéry era de opinião que o génio se aprende. Se assim é, pergunto: “Quem mo ensina?”
Eugénio Lisboa 
 
 A tolerância nunca provocou uma guerra civil, a intolerância cobriu a terra de carnificina.

A escrita é a pintura da voz.

Quando se trata de dinheiro, toda a gente é da mesma religião.

Como o despotismo é o abuso da realeza, a anarquia é o abuso da democracia.

É sempre obrigatório aquilo que é grande ser atacado pelos espíritos pequenos.

A pátria é onde se vive feliz.

Todas as grandezas deste mundo não valem um bom amigo.

Aquele que sustenta a sua loucura pelo assassinato é um fanático.

Ama a verdade mas perdoa o erro.

É próprio da censura violenta acreditar nas opiniões que ataca.

Cartas curtas e longas amizades, eis a minha divisa.

sábado, 10 de fevereiro de 2024

15 CITAÇÕES DE VOLTAIRE, O CAMPIÃO DA ACUTILÂNCIA E DO SEMPRE A PROPÓSITO

Voltaire (1694 – 1778), foi um dos ilustres fundadores do iluminismo, um aguerrido defensor de causas e o manejador de uma das mais vivas e acutilantes penas que jamais existiram em França ou algures. Prolífico escritor, filósofo, contista, poeta, dramaturgo, ensaísta, historiador, epistológrafo que nos legou um admirável acervo de correspondência inimitável, certeira, escorreita, sempre ladina e instrutiva (cerca de 20 000 espécies, de que possuo apenas 1000…), este incansável promotor e agitador de ideias, que não hesitou em opor-se ao Rei e à Igreja Católica, pagou a sua temeridade com a Bastilha (duas vezes) e o exílio em Ferney, perto de Genebra. O que não o impediu de ser eleito para a Academia Francesa e de, no final da vida, ter beneficiado de um cortejo triunfal até Paris. Frederico da Prússia fez tudo para o ter como hóspede, na sua corte, e Ferney tornou-se a corte intelectual de toda a Europa.

Deixou-nos várias obras de valor perene, mas bastaria o seu inigualável CANDIDE, para ficar, para sempre na história da literatura universal. E, já agora, a sua novela ZADIG OU O DESTINO, é um magnífico precursor do romance policial.

Dou, a seguir, de entre as centenas de aforismos insertos na sua obra, 15 que escolhi e traduzi. 
 
Eugénio Lisboa

O melhor governo é aquele onde há o mínimo de homens inúteis.

A felicidade é frequentemente a única coisa que se pode dar sem se possuir e é, dando-a, que ela se obtém.

Fala-se sempre mal quando nada se tem a dizer.

Revelar o segredo de outro é traição, revelar o seu próprio é tolice.

Decidi ser feliz porque é bom para a saúde.

O fanático é um monstro que ousa dizer-se filho da religião.

A beleza agrada aos olhos, a doçura encanta a alma.

A política é a arte de mentir a propósito.

Aquilo a que chamamos acaso é talvez, apenas, a causa ignorada de um efeito conhecido.

Não estou de acordo com o que V. diz, mas bater-me-ei até ao fim para que o possa dizer.

Achou-se, em boa política, o segredo de fazer morrer de fome aqueles que, cultivando a terra, fazem viver os outros.

A dúvida é um estado mental desagradável, mas a certeza é ridícula.

Não foi Deus quem inventou o homem, mas o homem quem inventou Deus.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

A TERRA ULTRAJADA — MODESTA CONTRIBUIÇÃO PARA UM NOVO APOCALIPSE

Com uma desolada accolade a T. S. Eliot

Oceanos outrora maltratados,
envenenados, sujos, poluídos,
invadem, furiosos, assanhados,
os terrenos longamente corrompidos.
Os ventos devastadores vomitam
destruição, morte e porcaria:
medonhos terramotos dinamitam
grandes obras de arte e fancaria.
Morre-se à toa, sem dignidade,
homens, bichos e merda misturados,
os confortos da antiga cidade,
transformados em lixos despejados.
É uma lufa-lufa só de gritos,
gestos desastrados de quem se afunda,
ao encontro de corpos e detritos,
naquela epopeia nauseabunda.
Ninguém concebera tal desconcerto,
em dias de gozo descabelado:
logo se pervertia o descoberto,
com fero apetite de esfaimado.
Os horrores do clima anunciados,
mas nunca ou quase nunca ouvidos,
juntaram aos gritos dos afogados
a gritaria dos corpos ardidos.
O rei da selva por fim acossado,
encarando, impotente, vento e fogo;
o ofídio fugido e enrolado,
com o seu veneno fora de jogo.
Baleias na praia, desactivadas,
pássaros fugindo do ar ardente,
gentes, empurrando-se, desvairadas,
tentando evitar o inferno fulgente.
A razão subitamente anulada,
a emoção descontrolada, ao rubro:
a memória a desfazer-se, apagada,
ignorando se é Maio ou Outubro.
Portentoso fim, em cinemascópio,
do qual não vai ficar sequer memória:
tudo terá sido um caleidoscópio,
um breve e final momento sem história.

Eugénio Lisboa

domingo, 4 de fevereiro de 2024

JUDEUS DE COIMBRA


 

METAMORFOSE

Transformei-me finalmente num gato,
isto é, aprendi a bem viver:
trabalho e chatices não acato
e porreiríssimo é o lazer!

Viver com gatos ajuda a ser sábio,
e a descobrir tesouros escondidos:
em vez de frequentar o alfarrábio,
observar o felino bem flectido.

Os olhos do gato inculcam mistérios,
que muito importa desvendar:
antes isso que conquistar impérios,

que apenas servem para devastar.
O gato é o melhor instrutor
e, do bom viver, o melhor gestor!

                                                        Eugénio Lisboa

sábado, 3 de fevereiro de 2024

MITOS QUE PERSISTEM SOBRE O ENSINO E A APRENDIZAGEM

O jornalista Nacho Menese entrevistou Héctor Ruiz Martín, investigador em neurociências e psicologia cognitiva, a propósito da publicação do seu livro Edumitos (International Science Teaching Foundation, 2023) onde analisa várias concepções de aprendizagem e ensino que, apesar de comummente aceites, são incorretas ou, pelo menos, não colhem apoio científico. O artigo saiu no jornal El País, no passado dia 25 de Janeiro (aqui). Reproduzo, abaixo, o essencial dessa entrevista.
P. Muitas das concepções de que fala gozam quase de um estatuto de verdade inquestionável. Porque é que têm tanta aceitação se carecem de base científica?
R. Porque são muito intuitivas e a nossa experiência leva-nos a validá-las e também porque encaixam nas nossas expectativas (…). Contudo, a ciência permite-nos superar a experiência, facultando-nos provas. Por exemplo, a ciência moderna mostrou que uma das intuições mais evidentes, que o sol gira à volta da terra, está errada. Para que uma ideia seja popular tem de ser coerente com as experiências e conhecimentos que possuímos. De facto, tendemos a aceitar as ideias se elas encaixam nessas experiências e conhecimentos; quando não encaixam tendemos a ignorá-las.
 
P. Uma das concepções mais aceites refere-se aos estilos de aprendizagem, no sentido de que cada pessoa tem uma forma própria de aprender (…).
R. Esta concepção tem muitos elementos que parecem estar certos. Em inquéritos realizadas em dezenas de países, cerca de 90 % dos docentes e dos estudantes creem que uma pessoa aprende melhor quando lhe é proporcionada informação de acordo com o estilo de aprendizagem que julgam ter (…). Claro que há diferenças entre os alunos, mas elas respeitam sobretudo aos conhecimentos prévios, capacidades cognitivas, motivação… Foi muitas vezes posta à prova a relação entre o modo de receber a informação e a manifestação da aprendizagem e não foi possível confirmar a concepção. Claro que também confundimos o modo como mais nos agrada estudar com aquele que mais benefícios tem.
 
P. Mas sempre se falou de memória visual e auditiva. Isso é incorrecto?
R. É verdade que há pessoas com melhor memória visual e outras com melhor memória auditiva. O que sucede é que ter boa memória visual não significa que recordemos ou entendamos melhor a informação, o que recordamos melhor é o aspecto físico dos estímulos. 

P. Porque é que ouvir música não é bom para aprender?
R. (…) Devemos perceber que temos recursos cognitivos limitados para aprender. Há a memória de trabalho, que é o espaço mental em que retemos a informação a que prestamos atenção. É a partir dela que pensamos, imaginamos, que escutamos a voz interior quando lemos... Acontece que a quantidade de informação que podemos reter e manipular ao mesmo tempo nessa memória é muito limitada. Então, de que depende a informação que chega a esse espaço? Da nossa atenção. Quando digo “estou a prestar atenção a algo”, significa que estou a reter informação na memória de trabalho. Para aprender, quando estou a estudar, tenho de aproveitar esses recursos escassos e optimizá-los, sendo que qualquer outro estímulo externo vai ocupar espaço na memória de trabalho e reduzir os recursos cognitivos. Há quem diga: “Já me habituei e consigo concentrar-me”. Mas essa inibição implica um consumo de recursos cognitivos, que tem o seu custo. Claro que, se a alternativa é o ruído de muita gente a falar, é melhor a música. 
 
P. Põe também em causa a eficácia do learning by doing. Porquê?
R. Confunde-se o aprender fazendo com aprendizagem activa. Os dois conceitos são mal interpretados. Não é necessário estar fisicamente activo, fazer coisas, mas estar cognitivamente activo, ou seja, tentado entender e atribuir significado ao que se está a aprender. Isso implica uma conexão dos conhecimentos prévios à nova informação. Ler, por exemplo, pode ser uma aprendizagem activa se, enquanto lermos formos parando e interrogando o que lemos, explicando com as nossas próprias palavras. Por outro lado, podemos fazer experiências laboratoriais seguindo um guião e não aprendermos o que se pretende.
 
P. Sublinhar e copiar são técnicas de estudo que já pouco se usam, mas também elas não se afiguram tão eficazes como poderíamos pensar?
R. Essa é a palavra: eficácia. Tudo o que fazemos para aprender funciona mais os menos, mas a questão é o que se revela mais produtivo. Estratégias como copiar, sublinhar, ler e reler, fazer resumos dão-nos a impressão de que estamos a aprender, mas produzem aprendizagens de muito curto prazo. Há métodos mais eficazes, por exemplo: pormo-nos à prova, autoavaliarmo-nos... o que se chama “praticar a evocação”. Em vez de voltarmos a ler, procuramos na memória e explicamos. Isto para não comprovarmos apenas o que sabemos mas também para consolidarmos na memória o que sabemos, ficando com mais probabilidade de podermos recuperar, no futuro, o que lemos.

P. E fazer resumos é uma boa estratégia?
R. Depende. Se os fizermos bem, sim; mas se os fizermos como as investigações nos dizem que a maioria dos alunos os fazem (copiando e colando fragmentos do texto original), então não. Para que um resumo ajude a aprender tem de haver um processamento, tem de haver uma explicação por palavras próprias, que é uma maneira de dar significado.

P. E o que se passa com as emoções? Há quem defenda que uma actividade que apela às emoções faz com que se aprenda melhor. 
R. Aí há muitos mal-entendidos. É verdade que as emoções interferem na aprendizagem e que o factor emocional mais relevante é a motivação. Mas não porque se estivermos motivados recordamos melhor algo; a motivação ajuda a aprender mais e melhor porque nos empurra para realizarmos as actividades e a dedicarmos-lhe mais tempo e esforço (…). Cuidado, é verdade que as emoções tornam os acontecimentos da nossa vida memoráveis mas aqui estamos na memória episódica, que nos permite recordar os acontecimentos. A memória semântica, que contem os nossos conhecimentos, não precisa propriamente da activação para que aprendamos melhor, precisa de dar significado àquilo que pensamos. Quando se faz um apelo profundo às emoções na aula o que se consegue é que os alunos recordem o que se passou na aula mas não necessariamente o que se pretendia que aprendessem.

ESCLARECIMENTOS SOBRE O FUTEBOL

Por Eugénio Lisboa
 
Publiquei neste prestigioso DE RERUM NATURA um texto sobre o futebol, que gostaria não fosse mal compreendido.

Nada tenho contra o futebol, em si, como nada tenho contra a maior parte dos desportos, que todos, nos seus melhores momentos, relevam da grande arte. Nunca me esquecerei da funda admiração que de mim se apoderou, ao ver alguns momentos geniais de Pelé, Eusébio ou outros. Esses momentos são o cúmulo da arte e ficam para sempre na nossa memória. Além disso, na minha juventude, pratiquei futebol, e, na minha modesta categoria, fui um razoável guarda-redes… 
 
Dito o que acima fica dito, quero, mais uma vez, esclarecer que estabeleço uma grande diferença entre desporto, com o seu espírito próprio, qual no-lo legaram os gregos antigos, e desporto profissional, que constitui uma infame perversão do desinteressado e não mercantilista espírito desportivo, próprio dos Jogos Olímpicos.

A minha saga tem sido contra o futebol profissional e o pântano ético e estético em que inevitavelmente se afunda essa nobre arte, ao acolher-se a mercados milionários e mesmo obscenos, onde o verdadeiro amor à camisola fica para melhores dias e o talento se prostitui em leilões vergonhosos. Por alguma razão os gregos antigos davam, como prémio, aos campeões olímpicos, uma coroa de louros, sem qualquer valor material.

Nos seus memoráveis ensaios, o Professor de Filosofia, Sílvio Lima, previu, já há muitas décadas, que o desporto profissionalizado, além de trair o verdadeiro espírito do desporto, viria a desaguar no triste espectáculo que está actualmente a dar o Futebol Clube do Porto e outros clubes já deram no passado recente. 
 
Este pântano gigantesco, que alguns advogados tentam minimizar, está implícito na profissionalização megalómana a que temos assistido. E a qual produz coisas cómicas como esta: o salário mensal de um prémio Nobel da Física deve ser, mais ou menos, igual à gorjeta que um Ronaldo deixa à mesa de um restaurante…

Para terminar, deixo aqui uma útil informação: a obra completa de Sílvio Lima encontra-se disponível, em dois volumes, na Fundação Calouste Gulbenkian. Além dos ensaios sobre desportismo profissional, lá encontrarão o nunca assaz louvado ENSAIO SOBRE A ESSÊNCIA DO ENSAIO, tão útil para amansar o perigoso dogmatismo que infecta tantos nossos intelectuais.
Eugénio Lisboa

ESTE NÃO É UM DISCURSO EDUCATIVO

Eis abaixo os destaques de dois podcasts da SIC inscritos na rubrica "A próxima vaga", com a qual se pretende indagar "como a tecnologia está a moldar o século XXI?". Inclui "debates sobre o impacto atual e futuro da Inteligência Artificial (IA) em diversas áreas da nossa vida em sociedade" e, portanto, a educação não poderia ser excepção (ver aqui e aqui).


Num dos debates sobre os "grandes desafios da Educação na era da IA", participou uma professora catedrática de IA e a presidente da Associação Portuguesa para a Inteligência Artificial. No outro participou um professor catedrático de engenharia electrotécnica e de computadores e um médico cardiologista.
 
Sobressai no primeiro debate a ideia de que a IA "vai ter um impacto significativo no ensino do futuro", sobretudo na "personalização da aprendizagem", que passará a ser adequada ao ritmo, necessidade e capacidades de cada aluno. Temos aqui a antiquíssima retórica beneficente, bem assenta em qualquer declaração...
 
Mais nova - apesar de surgida antes da explosão da IA - e preocupante é a recolha de dados dos alunos em suportes informáticos com vista, alega-se, a conseguir-se essa personalização (leia-se "eficácia pedagógica" desligada de sentido formativo): "modelos de linguagem de larga escala podem analisar os dados dos alunos e adaptar o conteúdo e as estratégias de ensino...", disse uma das convidadas.

Combina-se aqui o "dataísmo" (Byung-Chul Han) com o "solucionismo tecnológico" (Evgeny Morozov), ambos normalizados nos discursos sobre educação. Isto é bem evidente na segunda frase destacada
 
Deixam-se, como é habitual nesses discursos, duas notas complementares sobre a necessidade de:
- "garantir que a implementação desta tecnologia no ensino seja feita de forma ética e responsável";
- "manter uma presença humana" (os professores?) "nos processos de educação (...) para garantir a interação e o desenvolvimento do espírito crítico dos alunos".
 
A ética e o humano são, percebe-se, secundários e funcionais: incluem-se na equação educativa para que a tecnologia, essa sim fundamental à aprendizagem, seja usada dentro dos limites do aceitável e seja feito o que a máquina ainda não pode fazer.

Este não é um discurso educativo. E é lamentável que tente passar por tal. Não é menos lamentável que quem se pronuncia publicamente sobre a educação escolar não tenha o cuidado de procurar compreender o que significa educar e a responsabilidade que o acto de educar envolve.
 
Referências:
Han B-C (2022). Infocracia: A digitalização e a crise da democracia. Relógio D`Água.

Morozov, E. (2015). La locura del solucionismo tecnológico. Katz-Clave Editorial.

 

Nota: Não, não sou contra as tecnologias, portanto, não sou contra as tecnologias digitais; apenas entendo que o uso de qualquer tecnologia não é um fim em si mesmo, é um meio que permite concretizar fins edificantes.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

DESPORTO E CULTURA ou A DOENÇA INFANTIL DO FUTEBOL

Por Eugénio Lisboa
 
A propósito da infame balbúrdia que vai pelo FCP, gostaria de republicar este meu texto já antigo (entre muitos outros sobre este mesmo tema), precedido das seguintes palavras:
Este texto, que faz parte de uma campanha que, de há muito, venho fazendo, contra os desmandos do futebol profissional, parece-me merecer ser revisitado, por ocasião da sulfurosa balbúrdia que vai pelo Futebol Clube do Porto. Seja dito de passagem que o FCP não está sozinho, neste infame e prolongado atentado ao verdadeiro espírito do desporto. Atentado que tem sido carinhosamente apoiado pelos vários governos desta nossa democracia, que ainda não achou maneira de verificar que este culto histérico do futebol profissional é a pior das pedagogias para a juventude
A cultura do futebol actualmente em vigor infecta as mentalidades e os lugares públicos, fanatiza e estupidifica as pessoas e acobarda aflitivamente os políticos. Quase nenhum político, intelectual ou artista em evidência se atreve a dizer que não gosta de futebol ou, mais simplesmente, que lhe repugna toda esta horrorosa atmosfera e cultura futebolísticas que nos submergem e nos sufocam, onde quer que nos encontremos. Ressalvo um político português que, um dia, interrogado sobre por quem torcia, num qualquer desafio de futebol, que se ia disputar, teve a coragem de responder, com corajoso e saboroso acinte, que o assunto não lhe interessava minimamente. Refiro-me a Manuel Maria Carrilho.

Hoje, como no tempo cinzento do salazarismo pelintra e acomodatício, “ser do futebol”, “interessar-se” pelo futebol – é estar do lado seguro, é ser “da malta”, é ser de confiança, é…merecer o voto das maiorias. Quanto mais boçal, quanto mais futeboleiro, quanto mais primário, em termos de se “aquecer” fanaticamente por um clube qualquer, tanto mais simpático e “porreiro”, tanto mais merecedor de uma carreira política ascendente e bem recheada.

O futebol infecta os lugares públicos (por altura do mundial, não se conseguia entrar num café, restaurante ou pastelaria, para fins de um cavaco pacífico e apetecido, sem se ter os ouvidos trespassados pelos orgasmos histéricos de um relator de futebol), devora fracções pantagruélicas de jornais, revistas e noticiários de televisão, promove a mega-construção de estádios obscenamente desnecessários à realização de um Euro 2004, estádios, repito, de que nem o país nem a competição precisam e que são pagos, injustificadamente, com o dinheiro do contribuinte. O futebol faz tudo isto e muito mais: polui ruas, estradas, praias, aldeias e cidades, devora orçamentos, gera o fanatismo, a competição mais doentia e até o ódio e a violência. 
 
Dizia Orwell, que dominou como um mestre a arte da objectividade fria, que “o desporto à séria nada tem que ver com o fair-play: está intimamente relacionado com o ódio, o ciúme, a gabarolice, o desprezo por todas as regras e o prazer sádico de ser espectador da violência – por outras palavras, é a guerra, menos o tiroteio.” Apetecer-me-ia corrigir: menos o tiroteio, mas com acréscimo de uma ou outra facada e de um ou outro murro violento a comporem o quadro. Não o desporto sério, mas o desporto à séria (o contrário de sério), perpetrado pelos que, ao profissionalizá-lo, o corromperam nas próprias raízes. O futebol profissional arrasa tudo, corrompe tudo: praticantes e espectadores: “O futebol é como a guerra nuclear”, dizia Frank Guifford, “ – não há vencedores, há apenas sobreviventes.”

No tempo de Salazar e parafraseando uma proclamação célebre dos marxistas, dizia-se que o futebol era o ópio das massas. Salazar não passava afinal de um “dinky toy”, de um inepto aprendiz de feiticeiro, ao lado dos promotores do opiário de hoje. Dizia Leibnitz, um filósofo que provavelmente não gostava de desporto violento, que a educação pode tudo – até faz dançar os ursos. O futebol, tal como hoje existe e é promovido e venerado (do mais baixo trabalhador ou funcionário ao mais alto dirigente) não faz dançar os ursos mas transforma seguramente os homens em ursos. 
 
O verdadeiro desporto não deve ser convertido em “espectáculo” porque não foi concebido como tal: não é para se ver, é para se praticar. Lembrava Sílvio Lima que as épocas de ouro do desporto foram aquelas em que o espectador foi banido do estádio – ou só lá ia, em raríssimas ocasiões, para ser encorajado a praticar sempre o que vira uma vez. O futebol profissional é a corrupção deste verdadeiro espírito do desporto.

O futebol é hoje uma das mais eficazes e mais sinistras fábricas de fanáticos. E observava Huxley que, “definido em termos psicológicos, um fanático é um homem que sobrecompensa conscientemente as suas dúvidas secretas.” O futebol é pois essa fábrica de fanáticos que, aquecidos à mais elevada temperatura e gritando em excesso, duvidam, no fundo e secretamente, de si, do seu clube, da sua selecção nacional e do seu país. Por isso se compensam, se sobrecompensam, obscenamente, afirmando, até à caricatura (e ao ódio), a excelência de tudo em que, afinal, não sabem bem se acreditam. Quem se lhes opõe ou duvida de tais certezas é inimigo – porque lhes abala o edifício de (in)certezas.

A proeminência histérica e obsessiva deste “desporto-rei” imposta aos jovens desde a mais tenra idade infecta-os no que há de mais delicado e sensível: a sua capacidade de definirem valores. O que o futebol – a cultura futebolística em vigor – promove é a maior inversão de valores que a toda uma juventude se pode infligir. A competição violenta e parcial, a inveja, o ódio, a gabarolice vácua e projectada em intoleráveis decibéis, a grosseria triunfalista não são valores que uma sociedade civilizada apadrinhe e promova. Mas é ver o ar de babadice cúmplice e carinhosa que os políticos adoptam e os pivots televisivos promovem (com um sorriso doce, anunciando que o noticiário chega, por fim, ao futebol…) 
 
O tempo televisivo, sempre tão precioso e tão caro, dizem eles, passa a ficar infinitamente disponível, quando se trata de futebol. Nem a Grande Informação (mais a Judite de Sousa) acharam que fosse demais consagrar uma edição inteira aos altos e baixos da equipa portuguesa na Coreia do Sul – com minúcias, com requintes de análise quase proustiana, quase bizantina, quase rendilhada, sobre o nascimento, vida e morte de jogadores, treinadores e árbitros. Quando achará a Grande Informação ser importante projectar, num momento nobre do seu canal, nomes grandes da arte, da literatura, da ciência, da música, da filosofia…(que os temos!), assim enriquecendo o leque de preocupações de um programa que se não deve confinar nem à política do futebol nem ao futebol da política?

Julgo que, se o futebol tudo tem infectado e corrompido, de poucos espaços se tem abusivamente apoderado tanto como do espaço televisivo. Chegou-se ao ponto grotesco, por altura do mundial, de se montar, televisivamente, todo um dispositivo que referendasse o espectador quanto às alterações a fazer na equipa do mundial… A esta estranha concepção de democracia (em que se pede aos ignaros atrevidos decisões sobre assuntos de especialidade) chamou o inesquecível Ortega y Gasset “democracia morbosa”. 
 
É contra este morbo sinistro do futebol, corruptor, em acelerado, das mentalidades e do futuro da democracia, que importa insurgirmo-nos todos – os que insistem em pensar com autonomia e cabeça fria. Sim, é importante conservar o segundo canal da televisão pública, mas como plataforma onde se respire um ar não demasiado poluído pelos ruídos extremistas, invasores e intolerantes desta histérica cultura do futebol – e não como canal em que se gaste quase metade do noticiário (ou mesmo mais do que metade) a falar do Mundial e a entrevistar gente palradora e debitadora de minúcias sobre o ex-Mundial… 
 
Um Mundial que se saldou por uma catadupa de revelações vergonhosas, todas elas a confirmarem o enterro definitivo (e não só entre nós) do verdadeiro “espírito desportivo” (um treinador a quem se pagava 3500 contos por mês, a pedir mais, em véspera de jogo, jogadores opiparamente pagos a pedirem isenção de impostos sobre os prémios, em tempo de austeridade fiscal, um Secretário de Estado a tomar, para si, as dores de um jogador que se drogava e a quem se ofereceu, “para conforto”, uma placa, etc., até à náusea). 
 
São estes exemplos que se doam a uma juventude que, de dia para dia, se afunda mais num pântano ou num vazio de valores, onde se não vê sombra nem de cultura nem de ética nem de gosto: num país onde o afundamento ético é tal que uma maioria parlamentar acha modo de violentar afrontosamente a Constituição, congeminando uma vergonhosa “lei de excepção”, para Barrancos, passando por cima do facto de que está aqui em jogo o princípio constitucional da igualdade de todos os cidadãos perante a lei…e permitindo assim aos que violam a lei há mais de 50 anos o que se não permite aos que a tenham violado apenas há poucos meses! Por outras palavras, o crime longamente repetido compensa, por se ter tornado tradição!

Observava esse grande “clerc” que dava pelo nome de Romain Rolland, que ”por toda a sua educação, por tudo o que vê e ouve à sua volta, a criança absorve uma tal soma de mentiras e de parvoíces, misturadas com verdades essenciais, que o primeiro dever do adolescente que vise ser um homem são é vomitar tudo isso.” O nosso dever – o dos educadores – é, pois, propiciar à juventude – e aos outros… - esse vomitório fundamental, que os purgue de toda essa infame cultura futebolística. Este meu texto pretendeu ser isso mesmo: um saudável vomitório.
NOTA: este texto foi escrito em 2014, mas é, cada vez, mais actual. Neste preciso momento, em que uma pandemia mortífera não dá sinais de recuar, pelo contrário, o estimável Presidente da Assembleia da República, Ferro Rodrigues, incentiva os portugueses a irem em massa a Sevilha para apoiarem a selecção nacional de futebol, no jogo contra a Bélgica. Sevilha está classificada com o grau máximo da infecção viral e a ida de uns milhares de portugueses a essa cidade andaluza só pode ser altamente pernicioso. Parece incrível que um probo político, como Ferro Rodrigues, não resista a usar o mafioso futebol profissional como meio de aliciar mais alguns votos para eleições que se aproximam. 
O futebol profissional é um dos maiores cancros da nossa sociedade e quem nos governa devia preferentemente cuidar da prática do desporto nas escolas e universidades e perseguir severamente os clubes profissionais que corrompem moralmente a juventude, não pagam o que devem e procuram fugir a pagar impostos por todos os meios ao seu alcance. Nem no tempo de Salazar a loucura futebolística foi tão longe, digo-o com grande tristeza.

"Nós, professores, já não lemos. Nem sequer estudamos."

O artigo que aqui traduzimos, assinado por Diego Garrocho, não traz nada de novo, mas o que traz é importante, fundamental, precisa de ser r...