terça-feira, 24 de maio de 2022

Várzea

Daqui a algumas horas, há de ser noite e um filamento iluminará o mar e lerei até um livro tombar no meu peito. Entretanto, os choupos rejuvenesceram de um dia para o outro. À beira do caixote do lixo, um sofá, pútrido e esburacado, está à espera de alguma alma, e só pela vindima sou feliz, quando as uvas e as almas sobem pelos taludes dos vinhateiros. Na minha meninice, as uvas sabiam-me melhor, depois de atravessar o longo carreiro para casa, entre tojo, arbustos, silvas, pinheiros bravos e carvalhos; depois de pernoitar, com os meus primos, e, com um sacho, as mãos e uma lanterna, fazermos terreiros rente aos sulcos de água nos milheirais e voltados para as oliveiras, para as figueiras gigantescas, cobertas de musgos, e para os vergueiros rente à vala da várzea; depois de armarmos os costelos e de vermos as lagartas do milho a rabiarem, de um lado para o outro, para se desprenderem. Naquele tempo, a terra era amanhada e havia muitos taralhões saltitando, sôfregos, nas oliveiras, melros corricando entre canoulos, piscos-de-peito-ruivo e cartaxos nas moiteiras; havia muitos pássaros e muitos homens a rabiarem na terra, lado a lado.

...

Há dias em que uma rapariga sussurra: – Isto é uma pessoa!? Há dias em que a fadiga dos nervos em mim ressoa. Há dias em que ninguém me responde, quando indago a estrela ou a giesta. O telhado do curro vive no chão, porque as bátegas minaram os esteios, e não me resolvo a chamar o porvir. Permaneço no passado. É aí que nós estamos. É aí que o cabo elétrico se estende, até às vigas, e uma lâmpada guia os bácoros para as tetas úberes da mãe. É aí que colhes, pai, o pão da aurora, que a bicicleta-pasteleira bate na escada de argamassa e franqueia prudentemente as pedras. É aí que, enorme e inexpugnável, vergastas os ramos da oliveira mais alta do olival da várzea, A Torre, dizias com espanto, perdendo o olhar no azul do céu. É aí que, com um serrão, traçamos os toros de pinheiro, assentes em um xis e noutro xis, e vemos a lâmina ensaboada, puxada pelos braços para cá e para lá, e a serradura a cair para cá e para lá. É aí que nos aquecemos ao borralho adusto, nas noites gélidas, onde o fogo se ergue e a cinza se amontoa da cor do lápis de grafite que vai e volta, entre linhas, até à extinção.

domingo, 22 de maio de 2022

Cosmos em Português

MEU ARTIGO NO ÚLTIMO JL: 

 São muitos e alguns deles muito bons os livros de divulgação científica sobre o Cosmos em português. Podemos hoje chamar clássicos aos que saíram nos anos de 1980 na Gradiva, como Cosmos, de Carl Sagan, e Os Primeiros Três Minutos, de Steven Weinberg, dois autores que já não estão entre nós. Continuam a sair livros sobre o mesmo tema, devidamente actualizados, já que a ciência está como o Universo em expansão: acaba de ser publicado, nas Edições 70, Uma Breve História do Universo, de Neil deGrasse Tyson, Michael Strauss e J. Richard Gott, e não tardará a surgir, na Gradiva, O Pequeno Livro da Cosmologia, de Lyman Page. 

 Como a ciência conheceu também entre nós um período de expansão acelerada (graças sobretudo a clarividência de José Mariano Gago, que faria agora 74 anos, não fora o seu falecimento prematuro), é natural que apareçam obras de divulgação da cosmologia e astrofísica escritos por cientistas portugueses. Acabam de sair dois excelentes livros de autores nacionais: um incidindo mais sobre cosmologia – isto é, o início, a dinâmica e a estrutura geral do Cosmos – e o outro mais sobre astrofísica – isto é, o seu enchimento com estrelas de vários tipos, agrupadas em galáxias. O primeiro, que se intitula simplesmente O Universo, com o subtítulo mais longo Do Big Bang aos Buracos Negros, é o n.º 121 da colecção de ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, dirigida por António Araújo. É seu autor o cosmólogo Paulo Crawford, professor aposentado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Curiosamente, Crawford, que escreveu a primeira tese doutoral sobre cosmologia no nosso país foi, quando era mais jovem (ainda é!), o autor do prefácio e notas da tradução portuguesa de Os Primeiros Três Minutos. O segundo dos novos volumes tem por título Qual é o Nosso Lugar no Universo?, com o subtítulo mais comprido Uma viagem pelo mundo da astronomia e das nossas origens pela mão de um astrofísico, saiu do prelo da Planeta. O seu autor é David Sobral, mais jovem que Paulo Crawford, doutorado na Universidade de Edimburgo e hoje professor de Astrofísica na Universidade de Lancaster (no Reino Unido) depois de ter sido investigador no Observatório de Leiden (na Holanda) e no Observatório Astronómico de Lisboa, associado à referida Faculdade de Ciências. Crawford é físico teórico, especialista na Teoria da Relatividade Geral de Einstein, na qual assenta a cosmologia, ao passo que Sobral é um astrónomo observacional que tem usado os maiores telescópios do mundo, incluindo o Telescópio Espacial Hubble. Ficou justamente famoso em 2015 pela sua descoberta de uma galáxia brilhante, nos confins do Universo, a que deu o nome de CR7: não, o CR não significa Cristiano Ronaldo 7, mas sim Cosmos Redshift 7, uma medida da posição no tempo cósmico. Os dois autores têm evidente talento para divulgarem a ciência que tão bem conhecem e fazem. 

O Universo, com 121 páginas, depois de um prefácio e uma introdução, tem cinco capítulos em prosa clara, que são seguidos por uma curta bibliografia. Começa pela Via Láctea, contando como se descobriram outras galáxias para além da nossa, continua com a teoria de Einstein e os modelos cosmológicos nela baseados, conta a seguir como as observações do afastamento das galáxias e da radiação cósmica do fundo tornou verosímil uma das soluções das equações de Einstein, fala na sequência dos constituintes mais exóticos do Universo (incluindo buracos negros e as ondas gravitacionais que as suas colisões originam), e, finalmente, discute questões em aberto como a expansão acelerada do Universo (que obriga a postular a energia escura) e a possibilidade de universos paralelos.

 Por sua vez, a pergunta Qual é o Nosso Lugar no Universo? é respondida, depois de um preâmbulo e antes de uma bibliografia, num total de 245 páginas, que se repartem por 14 capítulos, numa prosa que por vezes tem ressonância literária (ou não tivesse o autor escrito no DN Jovem e publicado ficção). Alguns tópicos são os mesmos que no livro de Crawford, como a descoberta do universo extra-galáctico e do afastamento das galáxias por Hubble, num movimento que hoje sabemos ser acelerado, mas Sobral debruça-se também sobre a vida e a morte das estrelas, a matéria escura (que existe nos halos de todas as galáxias), os buracos negros supermaciços (que estão nos centros das galáxias, desde logo a nossa), o que ele chama a «crise cósmica» (que significa o actual declínio da formação de estrelas), e, quase no fim, a sua descoberta da CR7. Sobral, que invoca Álvaro de Campos logo no inicio («Não sou nada,/ Nunca serei nada./ Não posso querer ser nada./ À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo»), fala da influência que teve na sua vida a oferta da Poesia Completa desse poeta quando andava na escola secundária, o triunfo num concurso juvenil de ciência e a aventura que foi para um rapaz do Barreiro fazer a primeira viagem aérea a Dublin para representar Portugal. Haveria de ir mais longe ao Havai e ao Chile, para ver o céu. No capítulo final fala não daquilo que se sabe, mas daquilo que falta saber e que talvez se venha a saber, usando novos instrumentos, nos quais sobressai o Telescópio Espacial James Webb . 

Recomendo vivamente os dois livros. Deixo um pouco do «sabor» da prosa dos dois autores. Escreve Crawford, no início: «Ao admitir que o mais simples é considerar a organização autónoma da natureza, direi que, no caso de um cientista que não seja crente o mais natural é ignorar a pergunta sobre a origem das leis físicas e supor simplesmente a existência do universo». Por seu lado, Sobral, quase no fim, revela o que é a ciência em acção, impregnada pelas reacções humanas, ao insurgir-se contra as invectivas que um investigador japonês fez, a ele e à sua equipa, a propósito da descoberta da CR7: «Quando uns putos da Europa, sem recursos, sem dinheiro, e por isso vulneráveis a ataques descobriram galáxias e obtiveram resultados que acabariam por transformar o campo de investigação, deu-se uma reacção emocional quase imparável.» 

 Os dois livros mostram que o Cosmos não só pode ser contado em português, como pode ser descoberto na língua de Álvaro de Campos. Basta sonhar e perseguir o sonho.

 CARLOS FIOLHAIS

quarta-feira, 11 de maio de 2022

JÁ LÁ VÃO TREZE ANOS, VENHAM MAIS TREZE

Meu depoimento no número de aniversário da revista «As Artes entre as Letras»:

O tempo é um grande mistério. Passa inexoravelmente e nós com ele. Sempre do passado para o futuro: fazemos história com o passado e não podemos fazer história do futuro (o padre António Vieira foi a excepção que confirmou a regra). A fundação da revista «As Artes entre as Letras» pela jornalista Nassalete Miranda no ano de 2009 já faz parte da nossa história cultura e, pese embora todas as incertezas, está-lhe destinado um bom futuro. Desaparecidos os suplementos literários dos jornais, fazia e faz falta uma revista no Norte que plasmasse a riqueza e variedade cultura que abunda nessa região do país.

Orgulho-me de ter estado desde o início do empreendimento, participando em tudo o que me foi pedido. Hoje e desde há já algum tempo (nem me lembra quando) participo com uma coluna mensal em que falo de livros e temas de ciência – e não só, porque a ciência não é uma ilha e comunica com imensos territórios. Colaborei sempre com o maior gosto. Sinto-me parte de uma comunidade que aprecia e defende as artes e as letras (e também, como mostra a minha coluna, a ciência, pois esta, sendo parte da cultura, gosta de estar no meio das artes e as letras). É-me grato verificar que existe um público interessado na cultura, que amiúde colabora na revista com as suas próprias produções. A cultura – na forma de letras, artes ou ciências - é um bem comum.

2009 foi ontem, mas parece que foi há muito tempo. Foi o ano em que Barack Obama começou o seu primeiro mandato de presidente dos Estados Unidos (nesse mesmo ano ganhou o Prémio Nobel da Paz). Foi o ano em que ainda se sentia no mundo a grave crise económica de 2008 (em Portugal chegaria de forma violenta em 2011). Foi o ano em que a Rússia cortou o fornecimento e gás natural à Europa através da  Ucrânia. Foi o ano em que entrou formalmente em vigor o tratado e Lisboa. Foi o ano da gripe suína, uma pandemia global que assustou muita gente. Foi o Ano Internacional da Astronomia, comemorando os 400 anos das primeiras observações com o telescópio realizadas por Galileu. Foi o ano em que um piloto americano fez uma bem-sucedida aterragem de emergência no rio Hudson, em Nova Iorque. Foi o ano em que foi reparado o telescópio Hubble. Foi o ano em que o filme mais popular – e um dos mais populares de sempre – foi o «Avatar», de James Cameron (que tem formação em Física).  Foi o ano em que morreu Michael Jackson. Ainda se lembram?

Em Portugal, o ano de 2009 foi dominado por eleições europeias ganhas com alguma surpresa pelo PSD e pela vitória muito clara nas eleições  legislativas do PS, encabeçado por José Sócrates, embora perdendo a maioria absoluta que tinha ganho quatro anos antes (o CDS de Paulo Portas teve 10,4% dos votos…).

Em 2022, no fim de uma pandemia, estamos a assistir a uma guerra assustadora entre a Rússia e a Ucrânia. Na economia internacional cresce a inflação. E estamos confrontados com um dos maiores problemas da humanidade -  as alterações climáticas – que nos desafiam a todos. Em Portugal começou o seu mandato de um governo de  maioria absoluta, que dispõe de mundos e fundos vindos da União Europeia.

Não é apenas a cultura, incluindo nela a ciência, que nos vai valer, abrindo-nos as luzes do futuro. É preciso, nestes tempos incertos, encontrar em nós a esperança necessária. A esperança é, de resto, um dos alicerces da cultura. Longa vida ao «As Artes entre as Letras»!

Carlos Fiolhais


 

O CLIMA E O HOMO SAPIENS

 Minha contribuição para o livro «1001 Vozes pela Sustentabilidae» (Oficina do Livro/ISCTE):

A Humanidade está confrontada com um dos maiores desafios da sua história. Graças à acumulação de inúmeros trabalhos científicos, compilados e analisados pelo IPCC, o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas da Organização das Nações Unidas - ONU, não restam hoje dúvidas de que:

1)      O nosso planeta está a aquecer. A temperatura média à sua superfície é de 1,2 graus Celsius (ºC) acima do nível pré-industrial.

2)      Esse aumento deve-se à acção humana, designadamente à emissão maciça dos gases de efeito estufa, dos quais os mais importantes são o dióxido de carbono, o metano e o óxido nitroso.

Os registos são seguros e a física das alterações climáticas está bem estabelecida: o japonês Syukuro Manabe e o alemão Klaus Hasselmann, autores de modelos computacionais suficientemente realistas para sustentar as conclusões atrás formuladas, foram justamente premiados com o Nobel da Física de 2021.

Os chamados negacionistas das alterações climáticas, aos quais de vez em quando os média continuam a dar voz, ignoram tanto os dados, que estão à disposição de todos, como o método científico, que infelizmente só uma minoria compreende. O consenso na comunidade científica é, nesta altura, bastante sólido, apesar de haver uma ou outra «ovelha tresmalhada». E esse consenso tem sido transmitido à sociedade, apesar de haver, fora da ciência, quem persista quer em rejeitar a ciência quer em invocar a ciência em defesa das suas desrazoáveis posições. Nesta como em tantas outras questões da nossa vida, há interesses instalados que fazem tudo o que podem para se manterem. Na comunidade científica e na larga faixa da população que nela confia, a questão não é, neste momento, nem a realidade das alterações climáticas nem a sua origem, mas apenas as melhores medidas a tomar e o grau de otimismo ou pessimismo que se pode ter a respeito da sua boa e rápida execução.

Estamos ainda a tempo impedir o que pode ser uma catástrofe: se a temperatura do planeta subir 3 ºC  acima do referido nível, prevê-se que haja uma razia de cerca de 70 por cento da actual biodiversidade. Muito provavelmente, nesse cenário a espécie humana não perecerá, dada a sua enorme capacidade de adaptação, mas teria de viver de um modo muito diferente de hoje, já que estamos absolutamente dependentes do nosso meio ambiente, em particular dos seres vivos que partilham esse meio connosco.

No Acordo de Paris, assinado em 2015, tinha ficado estabelecido que o acréscimo da temperatura média do planeta não deveria em caso algum subir acima do limiar de 2 ºC, não indo desejavelmente além de 1,5 ºC acima do nível pré-industrial. Ora, actualmente esse acréscimo de temperatura é 1,2 ºC e, segundo o relatório divulgado em Agosto passado pelo grupo de Ciências Físicas do IPCC, que servirá de base ao próximo relatório deste organismo, o sexto, a sair em 2022, o objectivo de 1,5 ºC encontra-se seriamente comprometido.

Sabendo o que sabemos, porque é os países não reduzem as suas emissões de gases de efeito estufa, em particular as de dióxido de carbono? Há tentativas mais ou menos generalizadas para abrandar essas emissões, caminhando em direção ao chamado «net zero» de dióxido de carbono (situação em que as emissões para a atmosfera compensam as absorções). Mas, no conjunto do planeta, essas emissões continuam a subir, sendo difícil prever quando começará a imprescindível descida. Esse pico depende de medidas que têm necessariamente de ser tomadas à escala global. Vimos, em 2021, na COP26, realizada em Glasgow, as grandes dificuldades de entendimento entre os vários países. O acordo foi mínimo, embora tivesse sido positiva a referência explícita à redução do uso de carvão, um combustível fóssil na base de boa parte do dióxido de carbono libertado, e a lembrança de ajudas financeiras aos países menos desenvolvidos. Desenvolvimento significa consumo de energia. Com efeito, o nosso bem estar depende do funcionamento de centrais de energia, da disponibilidade de combustíveis para veículos de vários tipos e da prática de processos agrícolas e industriais de larga escala: todas essas actividades implicam emissões de gases de efeito de estufa. Os países menos desenvolvidos aspiram naturalmente a desenvolver-se, como outros já fizeram, e, por isso, têm protelado os seus prazos de net zero. Por seu lado, os países mais desenvolvidas já em Paris tinham prometido aos outros ajudas, que ainda não concretizaram.

Apesar de todos os avanços com a disponibilização de energias alternativas, veículos «amigos» do ambiente e de processo agrícolas industriais sustentáveis, não há que ter ilusões: ainda não dispomos de meios que nos permitam substituir completamente os processos tradicionais que têm provocado o aquecimento global. Mas é lícita a confiança no aprofundamento de um caminho comum no sentido da mitigação das alterações climáticas, um caminho que poderá ser ajudado por soluções inovadoras que entretanto surjam. A necessidade sempre aguçou o engenho.

Por muitas iniciativas individuais, locais ou regionais que possam ser tomadas – e elas são e serão sempre louváveis – medidas à escola global afiguram-se imperiosas. Por muito difícil que seja, é preciso celebrar um acordo como o de Paris, mas de conteúdo mais pormenorizado e de execução mais monitorizada. É preciso que a Humanidade, composta por mais de sete mil milhões de indivíduos divididos em cerca de 200 países, actue de uma forma mais concertada e eficaz. As dificuldades que a ONU enfrenta são o natural reflexo da fragmentação política do mundo. Será preciso, contrariando todas as divergências regionais e locais, unirmo-nos para responder a um desafio que diz afinal respeito a todos. Como não há outro planeta para onde ir no futuro previsível, temos de cuidar daquilo que o papa Francisco chamou «casa comum». A ciência fornece conhecimentos, a tecnologia instrumentos, mas o governo da «casa comum» é um assunto de política e não de ciência nem de tecnologia.

O problema das alterações climáticas é mais grave em Portugal em comparação com outros países europeus, por nos situarmos no Sul da Europa, uma região muito vulnerável a períodos de seca (que estão associados a maior risco de incêndios florestais), e por possuirmos uma extensa zona costeira, exposta a tempestades e sujeita ao aumento dos nível das águas do mar. Se é certo que temos algumas condições naturais para substituir energias convencionais por energias alternativas (hídricas, eólicas e solares), não é menos verdade que só demos alguns passos num longo caminho. Os problemas são múltiplos e complexos. De resto, não dependemos só de nós: os países ou se salvam em conjunto ou pura e simplesmente não se salvam, pois o sistema climático não conhece fronteiras.

O sector da ciência, tecnologia e ensino superior, ao qual estou mais ligado, tem dado valiosos contributos para o reconhecimento e resolução do problema das alterações climáticas, mobilizando-se tanto para fazer diagnósticos como para propor soluções. Esse sector deve continuar a fazer o que faz melhor, isto é, deve continuar a fazer ciência e tecnologia, transmitindo-a não só às gerações mais novas, mas também a todos os cidadãos, fazendo com que o conhecimento seja apropriado pela sociedade em geral. Mais do que medidas voluntaristas – como deixar de oferecer carne nas cantinas – o mais importante será conceber e concretizar políticas científicas em cada instituição que levem em conta as alterações climáticas, dando especial atenção ao alargamento da cultura científica. Tão importante como fazer ciência é transmiti-la a uma sociedade que depende criticamente dela, embora nem todos tenham consciência disso.

As instituições portuguesas podem, claramente, fazer mais. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, que tem a tutela das unidades de investigação e das escolas de ensino superior, tem andado bastante alheado do problema, deixando-o principalmente entregue a dois outros Ministérios, o do Ambiente e Acção Climática e o da Economia e Transição Digital. Os governos têm enchido a boca de ciência e tecnologia, mas, de facto, não têm feito muito por elas. Basta reparar na posição baixa de Portugal no ranking das nações europeias no que respeita ao investimento em ciência e tecnologia: segundo os números mais recentes, Portugal investe apenas 1,6 por cento do PIB, ao passo que a União Europeia investe em média 2,3 por cento. Há em Portugal um discurso oficial, oriundo da União Europeia, que mantém a questão climática na agenda pública, mas não há o correspondente investimento na ciência e tecnologia. O que é preciso fazer?  Investir mais em ciência e tecnologia, usando para isso os fundos comunitários que estão à nossa disposição, e definir uma política nacional de ciência e tecnologia que contemple as alterações climáticas como uma área prioritária. Esse investimento tem de ser público, mas tem também de ser privado, pois a contribuição em investigação e desenvolvimento do nosso sector empresarial ainda deixa a desejar no cotejo com o quadro europeu.

Concluo com uma nota optimista, tentando contrariar algum alarmismo excessivo que por vezes se ouve. Os cientistas tendem a ser optimistas porque sabem que o conhecimento se acumula e que surge amiúde conhecimento disruptivo com consequências sociais de grande alcance (é isso precisamente o que significa «inovação»). Como morei na Hölderlinstrasse em Frankfurt am Main, na Alemanha, quando fiz o doutoramento em Física no início dos anos 1980, prefiro dar voz ao poeta romântico alemão, Friedrich Hölderlin, que disse: «Onde cresce o perigo surge também a salvação». Esse é precisamente o título de um livro do astrofísico e ecologista franco-canadense Hubert Reeves (Gradiva, 2020), que alerta para a falta de «saúde» da Terra. Temos a obrigação de ser fiéis ao nome da nossa espécie, homo sapiens. Não se entenderia se não usássemos a nossa inteligência em nossa defesa… O mundo está um sítio perigoso? Sim, mas se formos sábios, poderemos salvá-lo, salvando-nos.

 

Carlos Fiolhais

Carlos Fiolhais (n. 1956) licenciou-se em Física na Universidade de Coimbra, UC (1978) e doutorou-se em Física Teórica na Universidade Goethe, Frankfurt (1982). É professor catedrático aposentado de Física da UC. É autor de mais de 60 livros pedagógicos e de divulgação científica e de centenas de artigos científicos, pedagógicos e de divulgação. Foi director da Biblioteca Geral da UC e Coordenador da Área do Conhecimento da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Dirige o Rómulo - Centro Ciência Viva da UC e a colecção Ciência Aberta da Gradiva. Ganhou, entre outros, os prémios: José Mariano Gago da SPA (2018), Ciência Viva-Montepio (2017), o Globo de Ouro de Mérito e Excelência em Ciência da SIC (2005) e a Ordem do Infante D. Henrique (2005).

NOVA ATLANTIS

 “Atlantís” disponibilizou o seu número mais recente (em acesso aberto). Convidamos a navegar pelo sumário da revista para aceder à informação.

Imprensa da Universidade de Coimbra

Atlantís - review

v. 45 (2022)

Sumário

https://impactum-journals.uc.pt/atlantis/index

[Recensão a] MONTERO, Santiago: Prodigios en la Hispania romana, Madrid, Edição de Guillermo Escolar, 2020, 350 pp. ISBN: 978-84-18093-58-6

José d'Encarnação

[Recensão a] CURRÁS REFOJOS, Brais Xosé: Las sociedades de los castros entre la Edad del Hierro y la dominación de Roma. Estudio del Paisaje del baixo Miño, Bibliotheca Praehistorica Hispana, Vol. XXXV, Madrid, Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2019, 541 pp. ilustradas, ISBN: 978-84-00-10592-1

João Pimenta

[Recensão a] DJURSLEV, Christian Thrue: Alexander the Great in the Early Christian Tradition. Classical Reception and Patristic Literature, London, Bloomsbury Publishing, 2020, X + 232 pp. ISBN: 978-1788311649

Aurelio Pérez Jiménez

[Recensão a] ROBERTS, Julia, SHEPPARD, Kathleen, HANSSON, Ulf R. & TRIGG, Jonathan R. (eds.): Communities and Knowledge Production in Archaeology, Manchester University Press, 2020. 272 p. ISBN: 978-152-613-45-54

Sérgio Alexandre da Rocha Gomes

Renato Pereira Brandão - Expansão Ultramarina Portuguesa

domingo, 8 de maio de 2022

Retorno do Mar

Retorno do mar e subo a ladeira da Fonte, com a mãe a gritar na lomba: Devia estar um dia de calor...! e o pai todo teso e cheio de nove horas a responder-lhe: – És uma isolada! Não sabes o que é mundo! Um dia em cheio de praia! Até a areia queimava nos pés! Subimos para a aldeia à ilharga da cidade, cansados e ignorando o porvir. Subimos para o céu azul-escuro, com o sol perecendo atrás de nós num vermelho-papoila. Neste alto, o que parte e se perde volta assiduamente: a este, uma torre branca sobre uma outra colina; no poente, o sol, e, na estrada sinuosa, os homens. Neste alto, o sol foge-nos, ao fundo, do rosto, os ventos vergam os cedros e os ciprestes, e, teimosamente, fustigam os estores e são temidos pelo peito. Na aldeia, há um homem imaculado que está vivo e desce, agora, a escada exterior para a serventia da casa. É levado, nos ombros dos conterrâneos, para a eternidade. Um homem que quis a vida, que escondeu dos meus olhos os gritos e as lágrimas. Esse homem iletrado é o poeta que sussurrava à mãe que antes queria andar a cavar ao sol mais ardente, que me reprimia com um sorriso, enquanto, agonizante, eu lhe fazia a barba na sala do hospital de Chão de Peniscos: Não tremas, rapaz! Ó tremeliques… O passado é esta oliveira que vejo permanentemente sob o céu; esta oliveira, centenária e buliçosa, com um manto de flores miúdas ao redor; esta oliveira, amanhã azeitona...Chorei tanto, em novembro, depois de morreres! No reboque do trator, carregado de sacos de azeitona e folhas, pelos caminhos enlameados e pelo frio cortante do ocaso, chorei tanto! Com os braços moídos, abatidos pelas varas de eucalipto, chorei tanto! Deitado, sobre os sacos e de olhos fechados, chorei tanto para dentro de mim! Por vezes, abria os olhos e via, de soslaio, a tristeza da mãe. A poesia és tu, pai, são os teus passos. Eu escrevo para que a chuva me leve às nuvens, a escuma do mar me leve para lá da linha do horizonte, o sol-pôr no mar me leve à serra e as flores dos jacarandás me levem ao fundo da terra. É para Deus que me volto nas injustiças e na imperfeição do mundo, procurando, inutilmente, respostas. Um dia, um professor contou-me que, no seu estágio, deu aulas ao sétimo ano de escolaridade. Nesse ano, teve um aluno que padecera de um tromboembolismo, durante o parto, e ficara com uma parte do corpo paralisado. Como era ansioso, escrevia e apagava logo o que escrevia, no quadro, enquanto o menino se lamentava, numa voz arrastada: Ó professor, não apague o quadro! O professor disse-lhe, então, para passar pelo seu colega do lado. No final da aula, o menino virou-se às murraças e às palmadas à mesa, quase até lhe faltar o fôlego, e a gemer:Ó professor, qualquer dia parto-o todo… O professor ficou siderado, impassível e nada fez. Quando a atmosfera da sala de aula amainou, dirigiu-se ao menino e perguntou-lhe: Porque fizeste isto? Com as lágrimas a caírem-lhe dos olhos, sob os óculos graduados, a soluçar e apontando para o olho, ele disse:Eu sou quase cego de um olho! Eu escrevo só com uma mão!, enquanto na palma da mão esquerda e próximo do dedo mindinho, mostrava uma escoriação que ia inchando. Quando o professor saiu da escola, era de noite, as lágrimas caíam-lhe pelo rosto, e, como um cego, questionava, em vão, Deus. Estava no início do ano letivo...Volto à frondosidade das oliveiras perenes, aos campos, em baixo, ao barro que é o leito das ondas de luz, o peito com a cruz cinérea, o manto da névoa do alvor e o canto da pedra à chuva. 

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Figueira da Foz

Tremi o queixo, depois de sair dos lavabos municipais da Figueira da Foz, de me olhar, demoradamente, no espelho e de me pentear. Com a toalha, um livro de J. D. Salinger, o creme, um jornal diário, os pedúnculos dos morangos, os caroços das nectarinas e uma garrafa de água, caminho, de fresco, de camisola preta de manga curta, calção azul e com as baianas a criarem-me foles nos pés, pela avenida do Brasil, evitando as sereias, pétreas e concupiscentes, espalmadas na calçada, perdendo-me no silêncio sigiloso dos patos, prostrados no lago, glauco e artificial, do areal, nos braços ébrios das palmeiras às revoadas de vento e no tropel, no ir e vir, demoníaco. Vou tamborilando os dedos no parapeito da parede da marginal, ainda com o rosto a arder do sol que apanhei durante o fim da manhã e a tarde. A marginal é longa e adumbrada aqui e ali por choupos. Antes de visitar a feira do livro, nos fundos do porto, por detrás dos guinchos das gaivotas e dos escolhos negros, compro um gelado, desço uma escada de madeira e entro numa barraca com um toldo de lona. Com a temperatura ainda altíssima, rodopio, entre os livros expostos nas bancas, gotas caem-me dos cabelos pela face e esparramam-se no chão de terra batida. Abro e fecho livros. Hesito nos livros de Nietzsche, comparo preços e acabo por levar Beloved de Toni Morrison por apenas dois euros. Pergunto a hora à senhora da caixa, uma mulher roliça com sardas nas faces, dentes grandes, nariz de narinas bem abertas, como se estivessem a inspirar o ar todo da barraca enquanto arfo e suo, cabelos castanhos, soltos e espigados, e voz aveludada de senhora ínclita, munificente: – Olhe, são seis e meia. e, como se eu não ouvisse bem: – Falta meia hora para as sete. Tresandando a suor, volto a subir a escada e lajeio o estuário do rio: as asas refulgentes e os barcos ancorados em limos, a tinta estalada e os mastros, as velas, brancas e azuis, no céu etéreo, os cabeços ferruginosos, os pescadores arriscando os ossos, pescando por detrás dos escolhos onde o mar bate, veementemente e ensurdecedor, e os gritos irascíveis de advertência e, concomitantemente, de ameaça entre marujos. Sigo as águas, cada vez mais intemeratas, até ver uma ponte parda com pilares, descomunais e vermelhos, cortar o azul do céu. O pai vai comigo e diz-me a sorrir, com a boina basca pendente na mão endurecida, a perna direita tensa e a esquerda tenuemente dobrada, que isto é tudo maravilhoso, que ainda virá mais uma vez este ano. Eu oiço-o na corrente impercetível e um espasmo corre-me o corpo todo.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

FREI BENTO DOMINGUES


Novo texto de Eugénio Lisboa:

Frei Bento Domingues é uma figura rara: misto improvável de bonomia, grande cultura, inteligência acutilante, límpida intrepidez e aliciante conversa, mesmo para quem não bebe nas mesmas fontes de religião e fé. Porque não preciso para nada de acreditar que Jesus Cristo ressuscitou ao terceiro dia, para me alimentar da conversa culta e de alcance universal, que Frei Bento Domingues nos serve, aos domingos, no Público. A sua conversa é rica e sedutora e tem o encanto adicional daquele “franc parler” que Stendhal tanto prezava, mas não é exibicionista: a sua coragem é limpa e não afrontosa, o seu saber roça quase sempre a sua asa pela sabedoria do mais alto quilate. 

Frei Bento Domingues é um católico cuja serventia vai muito para além de uma clientela católica. É um católico que nunca se deixou ficar refém de nenhum poder, nem mesmo do poder da Igreja que professa. Espírito luminoso, de uma bondade alegre e destemida, ele não teme o exame nem os resultados deste. 

Dizia G. K. Chesterton que quem acende uma luz é o primeiro a beneficiar dela. Ao longo da sua vida de discreto mas grande estudioso, Frei Bento Domingues tem acendido muitas luzes.

Há já muitos anos, tive o privilégio de estar com ele, por mais de uma vez, em mesas redondas: o cristão e o ateu. Demo-nos muito bem. Fiquei a tê-lo como amigo, mesmo que nunca mais nos tivéssemos visto. Há amigos assim: considero Montaigne meu amigo e nunca nos vimos e nem sequer vivemos no mesmo século. 

A luz que a candeia deste frade emite dá para todos, não apenas para os residentes de uma paróquia de reduzida dimensão. É a luz universal dos sábios e dos bons. 

 Eugénio Lisboa

Várzea

Daqui a algumas horas, há de ser noite e um filamento iluminará o mar e lerei até um livro tombar no meu peito. Entretanto, os choupos rejuv...