quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

HOMENAGEM A NUNO FERRAND NO DIA DO RÓMULO EM COIMBRA


 Minha alocução no Dia do Rómulo, 24 de de Novembro, no RÓMULO,  na Universidade de Coimbra, na homenagem a Nuno Ferrand, biólogo e divulgador de ciência.

Sejam bem vindos a esta casa de cultura científica. O RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra abriu as suas portas no dia de 24 de Novembro de 2008, dia de aniversario de Rómulo de Carvalho, no edifício do Departamento de Física daquela Universidade. Hoje assinalam-se, portanto, os treze anos de funcionamento contínuo e em crescimento constante como centro de difusão da cultura científica na sociedade. Obrigado a todos os que o tornaram possível a  enorme ascensão do RÓMULO, em particular à Manuela, à Helena, à Joana e à Maria João, que trabalham aqui todos os dias, Muito obrigado ao Instituto de Investigação Interdisciplinar, III, aqui representado pela sua Directora e Vice-Reitora Prof.ª Dr.ª Cláudia Cavadas, onde o RÒMULO está integrado. 

 A Biblioteca do RÓMULO passou dos cerca de 3000 títulos iniciais para cerca de 40 000, sendo hoje, graças a importantes doações, a maior e mais notável colecção de livros, revistas, CD e DVD sobre  cultura científica, contemplando os mais variados tópicos da múltipla relação entre ciência e sociedade. Essa  colecção está à disposição de todos os interessados. O RÓMULO é vosso! 

 O RÓMULO, que integra com muita honra a rede de centros Ciência Viva espalhados pelo país, tem sido palco de numerosas actividades de divulgação da cultura científica e o seu labor, apesar dos tempos de pandemia, tem-se mantido muito viva, dirigindo-se a vários públicos, incluindo uma ampla colaboração com escolas de todo o tipo. Destaco a parceria da Universidade de Coimbra, no quadro da Escola Ciência Viva, com o município de Cantanhede, uma iniciativa consolidada que está a decorrer esta semana, tal como nas anteriores e vai decorrer nas próximas. 

Abriu hoje a exposição Posters com Ciência, uma exposição que resultou de uma colaboração entre o Centro Ciência Viva do Lousal - Mina de Ciência e o artista gráfico Edgar Ascensão e que propõe, cruzar o olhar único da arte com as grandes conquistas da ciência. Neste trabalho, para cada filme foi escolhido um acontecimento científico, contemporâneo com a mesma data, ao longo de sete décadas, mostrando o modo como a arte pode imitar a realidade e vice-versa. Desde O Marciano, passando por Parque Jurássico até A Guerra das Estrelas, são cerca de 25 filmes que contam uma história ímpar do conhecimento e desenvolvimento tecnológico. Cada poster, é uma visão acrescida ao mundo da sétima arte. Edgar Ascensão, licenciado em Artes da Imagem e repórter de imagem na SIC, encontrou no desenho de posters alternativos um modo de exprimir o seu amor pelo cinema. Tem um blogue e uma plataforma online onde publica os seus trabalhos, muitos dos quais já com reconhecimento mundial. 

Hoje, e porque o dia 24 de Novembro é o dia de Darwin -  o seu livro a Origem das Espécies foi publicado em 24 de Novembro de 1859, em Londres, pretendemos homenagear  um naturalista notável, o professor Nuno Miguel Ferrand, da Universidade do Porto. Ele é hoje o nosso convidado especial, indo brindar-nos com uma palestra intitulada “Reflexões de um Naturalista na era da genómica.” Depois, com um magusto no intervalo, terá lugar a palestra “Desenhar no Escuro” pelo artista António Jorge Gonçalves a que se seguirá o debate “Ciência e Arte”, moderado por mim próprio. 

O Professor Doutor Nuno Miguel dos Santos Ferrand de Almeida (Ferrand de Almeida é aliás um nome bem conhecidos em Coimbra, de académicos ilustres) é Coordenador Científico do CIBIO-Inbio,  Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, situado em Vairão, perto do Porto. ´É Professor Catedrático do Departamento de Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, onde lecciona genética e evolução. Ferrand interessa-se por biologia evolutiva, particularmente por padrões de diversidade genética de populações naturais, ecologia, conservação, domesticação e especiação. Tem desenvolvido numerosos projectos de investigação nestas áreas utilizando o coelho como principal espécie modelo. Ele já aqui nos encantou uma vez com a história dos coelhos de Porto Santo, sobre a qual ele poderá contar mais, porque como todas as boas histórias de ciência esta é uma história em evolução. Também estudou a evolução de muitas espécies de anfíbios e répteis na Península Ibérica e no Norte da África. Alcançou há pouco tempo o maior financiamento da investigação portuguesa, num concurso europeu: no total são quase cem milhões de euros. Esse financiamento permitirá dar escala internacional à investigação sobre biodiversidae e genómica que se faz em Portugal.

Ferrand publicou mais de 150 artigos, nomeadamente na Science, Nature Genetics, Molecular Biology and Evolution, PloS Genetics, Evolution, Biological Journal of the Linnean Society, Genetics, Molecular Ecology, Molecular Phylogenetics, e Evolution Heredity. Repare-se que h´+a aqui títulos de primeira linha, como a Science e a Nature. É autor de três livros e de onze capítulos de livros, e editor de quatro. É o Director do Programa de Doutoramento em Biodiversidade, Genética e Evolução organizado pelas Universidades do Porto e de Lisboa, financiado pela FCT. Orientou 19 teses de doutoramento, 21 teses de mestrado e 15 pós-doutorados. Actualmente, orienta 4 alunos de doutoramento e 11 pós-doutorandos. 

Mas quero também enfatizar o seu trabalho como Director do Museu de História Natural e Ciências da Universidade do Porto, onde tem liderado uma profunda reestruturação para a criação de um novo museu focado numa filosofia museográfica inovadora. Organizou aí várias exposições, incluindo a a muito concorrida «Evolução de Darwin», que tive a oportunidade de apreciar aquando da inauguração. Depois disso gostei sempre de volta à Casa Andresen, onde a par de uma mostra permanente onde se cruzam ciência e arte de um modo muito original, há sempre novidades, desde exposições da National Geographic até palestras e concertos. Louvo, em particular, a colecção de livros que tem feito sair, alguns deles do famoso naturalista britânico Desmond Morris. E louvo também o facto de ter conseguido trazer para Portugal a biblioteca e arquivo desse autor.  Neste momento, um dos projectos a que dedica mais atenção é a do pólo da Reitoria do Museu da Ciência da Universidade do Porto, que é um modelo de respeito pelo património e sua valorização. A Universidade de Coimbra bem pode aprender com exemplos como esse. E há ainda um belo projecto que valoriza o Aquário Dr. Augusto Nobre, na foz do Porto.

O Nuno sabe, tal como Rómulo-Gedeão, que «o sonho comanda a vida» e que «sempre que o homem sonha o mundo pula e avança». Conheço-o há muitos anos. Tendo trabalhado com ele no âmbito da Fundação Francisco Manuel dos Santos  (FFMS) conheço bem as suas capacidades do que podemos chamar   empreendedorismo científico. Pedi-lhe uma vez para organizar um projecto que produzisse  um relatório sobre o estado da ciência em Portugal ele, ao fim de algum tempo, completou um extraordinário trabalho, cujo resultado está à disposição de todos no site da FFMS. É o maior e melhor retrato até hoje realizado sobre a ciência em Portugal. Seria bom que os nossos gestores planeassem a nossa ciência com base em informação tão rica e pormenorizada como essa.

Eterno insatisfeito e sempre optimista e  generoso para com os outros, o Nuno tem sempre procurado fazer mais e melhor. Ainda há pouco tive conhecimento directo do seu projeto em Mértola com o estabelecimento de um novo polo científico num antigo silo cerealífero, bem no centro do  Parque Natural de Mértola, que será também de um novo espaço museológico e artístico. É uma iniciativa absolutamente notável que valorizara uma vila e uma região do interior profundo, que o poder central tem ignorado. Verifiquei, ao vivo, a sua alegria quando encontrava pássaros do qual sabia os nomes  e a sua ânsia quando procurava, no meio de um montado, a árvore mais bonita de Portugal. Sei que ele também tem outro projecto muito interessante em Arco de Valdevez, na Serra do Gerês. Assim os laboratórios do CIBIO cobrirão quer o norte atlântico quer o sul mediterrânico, tanto a grande pluviosidade como a grande seca.

Ele é também um cientista no mundo, uma espécie de David Attenborough português, só lhe faltando as câmaras de televisão atrás. Tem andado por África, sendo notável o seu trabalho de ajuda no campo da ciência  à comunidade de povos de língua portuguesa. Sendo o mundo  hoje global,  o Nuno tinha de ser cientista global. De facto, já andou com câmaras atrasos: o documentário «Viagens Filosóficas» passou na televisão e foi distribuído com o Público. Mas, na minha opinião, a televisão portuguesa poderia fazer muito mais pela ciência.

O RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra presta hoje, no Dia Nacional da Cultura Científica, uma homenagem a um dos melhores cientistas portugueses e também a um dos nossos melhores comunicadores de ciência. Sei que ele tem recebido outras distinções, das quais a m ais recente é a de membro da Legião de Honra concedida pelo  governo francês, mas espero que o Nuno Ferrand aceite adicionar a essas esta modesta homenagem do RÓMULO, que mais não é do que  a expressão do nosso reconhecimento e do nosso afecto. 

Muito obrigado, Nuno, por todo o teu trabalho e pela tua presença hoje aqui no RÒMULO, no dia do Rómulo de Carvalho, para o partilhares connosco!

CENTENÁRIOS


Novo texto de Eugénio Lisboa (na foto Carlos de Oliveira, o grande escritor nascido há 100 anos):

Recordar: Do latim “re-cordis”.

voltar a passar pelo coração.

Eduardo Galeano

 

O que foi perdido pode, entretanto,

                                                                                                               viver na nossa memória.

Christopher Paolini, EREGON

 

Notámos já, neste mesmo espaço, a gulosa precipitação com que se está a começar a celebrar um centenário que só se consuma de aqui a um ano. Provincianamente, pomos os trunfos todos no cesto de um Prémio Nobel, idolatrando, deslumbrados, como selvagens, um ídolo com pés de barro: o galardão sueco, alvo de uma luta parola em que, durante anos, se engalfinharam dois escritores portugueses. Para gáudio e alimento de uma comunicação social que tanto alento tem dado à fofoquice, mesmo pacóvia.

Entretanto, ignorou-se quase por completo e, em muitos casos, por completo, centenários que passam neste ano quase findo, de figuras da nossa cultura, com notoriedade suficiente para serem lembradas, nem que fosse discretamente. A idade intelectualmente adulta de um povo mede-se também pela sua capacidade de não esquecer quem, com muita dignidade, contribuiu para acrescentar o nosso património cultural. As envergonhadamente discretíssimas sinalizações que tiveram lugar dentro dos muros de uma ou outra universidade nada têm que ver com uma chamada a público nos grandes periódicos de referência ou mesmo nas televisões. Lembrarei, por ordem cronológica, alguns nomes que teria sido bonito não esquecer, fugindo àquele jogo muito mundano e radical, que consiste em afirmar que, num século, só ficarão dois ou três nomes. É muito “chic” dizê-lo, mas até não costuma ser verdade. Como disse, num ou noutro caso, o nome aqui lembrado teve um aceno envergonhado e quase pedindo desculpa, mas o público, em geral, não deu por nada.

1) – MÁRIO BRAGA (1921 – 2016) – Foi Director-Geral da Secretaria de Estado da Comunicação Social, Membro do Conselho Consultivo das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Gulbenkian. Foi dramaturgo e, sobretudo, um apreciadíssimo contista, autor, por exemplo, destas colectâneas: SERRANOS, QUATRO REIS, LIVRO DAS SOMBRAS, CORPO AUSENTE. Como Director-Geral da Secretaria de Estado da Comunicação social, fez, no início da nossa democracia, um porfiadíssimo trabalho, propiciando aos promotores da nossa diplomacia cultural, inestimáveis ferramentas.

2) – JORGE BORGES DE MACEDO (1921 – 1996) – Historiador e Professor, deixou vasta e importante bibliografia. Só alguns poucos títulos: A SITUAÇÃO ECONÓMICA NO TEMPO  DE POMBAL (1951); HISTÓRIA DIPLOMÁTICA PORTUGUESA. CONSTANTES E LINHAS DE FORÇA. ESTUDO DE GEOPOLÍTICA; OS LUSÍADAS E A HISTÓRA; CONSTANTES DA HISTÓRIA DE PORTUGAL.

3) – LEONEL NEVES (1921 – 1996) – Meteorologista e escritor, discretíssimo e não frequentador da feira literária, deixou-nos belíssimas adições ao nosso cânone lírico: JANELA ABERTA (1940); NATURAL DO ALGARVE (1968); ONTEM À NOITE (1989); MEMÓRIA DE TIMOR-LESTE (1990). Deixou também livros para crianças e para jovens. Como poeta, merece bem ser lembrado, pela autenticidade de uma fina sensibilidade veiculada por uma notável oficina poética.

4) AMÉRICO DA COSTA RAMALHO (1921 – 2013) – Grande humanista, distinguiu-se como latinista, helenista e lusitanista. Foi Professor Catedrático da Universidade de Coimbra. Deixou uma vasta e importante bibliografia, de que assinalamos apenas alguns títulos: ALGUNS ASPECTOS DO CÓMICO VICENTINO (1973); ESTUDOS SOBRE O SÉCULO XVI (1980); ALGUNS ASPECTOS DA LEITURA CAMONEANA DE VIRGÍLIO (1986); ESTUDOS SOBRE A ÉPOCA DO REBASCIMENTO (1987); PARA A FISTÓRIA DO HUMANISMO EM PORTUGAL (1988); CAMÕES   NO SEU TEMPO E NO NOSSO (1992); LATIM RENASCENTISTA EM PORTUGAL (1994).

5) VÍTOR DE SÁ (1921 – 2004) – Foi historiador, Professor universitário e activista político contra o Estado Novo, de formação marxista. Doutorou-se em Paris, na Sorbonne, em 1969, com uma tese sobre A CRISE DO LIBERALISMO E AS PRIMEIRAS MANIFESTAÇÕES DAS IDEIAS SOCIALISTAS.

6) ARQUIMESES DA SILVA SANTOS (1921 - 2019) – Figura importante do movimento neorrealista, formou-se em medicina, fez o curso de Ciências Pedagógicas e especializou-se em neuropsiquiatria infantil. Obras: POESIA: VOZ VELADA (1958); CANTOS CATIVOS (1967), ENSAIO CIENTÍFICO:  LE VOL CHEZ LE GARÇON: CONTRIBUTION À L’ÉTUDEDE LA DÉLINQUANCE JUVÉNILE, Paris (1963).

7) ANTUNES DA SILVA (1921 – 1997) – Nasceu e faleceu em Évora. Escritor neorrealista, deixou várias obras, entre as quais: VILA ADORMECIDA (1948); O APRENDIZ DE LADRÃO (1954); O AMIGO DAS TEMPESTADES (1958); SUÃO (1960); DIÁRIO I (1987); DIÁRIO II (1990).

8) ERNESTO DE SOUSA (1921 – 1988) - Fotógrafo, cineasta, crítico de arte, foi fundador do movimento cineclubista. Foi, com o filme DOM ROBERTO (1962), um dos fundadores do chamado NOVO CINEMA.

9) NEVES E SOUSA (1021 – 1995) – Poeta e pintor português, foi muito cedo viver para Angola, de onde só saiu para o Brasil, em 1975. A sua obra reflecte muito a temática africana, tendo-se tornado conhecidas as suas abundantes QUEIMADAS. POESIA: MOTIVOS ANGOLANOS (1946); MOHAMBA.

10) FRANCISCO JOSÉ TENREIRO (1921 – 1963) – Poeta e geógrafo. Foi aluno excepcional do Professor Orlando Ribeiro, que o estimulou a doutorar-se com uma dissertação sobre a Ilha de S. Tomé, de onde era original e onde veio a falecer. POESIA: ILHA DO NOME SANTO (1942); CORAÇÂO EM ÁFRICA (1962).

11) CARLOS DE OLIVEIRA (1921 – 1971) – Ligado inicialmente ao neorrealismo, este escritor notabilizou-se na poesia e na ficção. Nesta última, com o romance FINISTERRA (1978), desviar-se-ia determinadamente do protocolo neorrealista, visando, malavisadamente, um público universitário, mais interessado, frequentemente, em “estudar” obras do que em fruí-las. O romance é de uma opacidade visada, conseguida e desnecessária. Mas deixou um acervo de romances notáveis: CASA NA DUNA (1943); ALCATEIA (1944); PEQUENOS BURGUESES (1948); UMA ABELHA NA CHUVA (1953). POESIA: MÃE POBRE (1945); COLHEITA PERDIDA (1948); TERRA HARMONIOSA (1960); CANTATA (1960); MICROPAISAGEM (1968); SOBRE O OMBRO ESQUERDO (1968); ENTRE DUAS MEMÓRIAS (1971); PASTORAL (1977).

12) NATÁLIA NUNES (1921 – 2018) – Notável romancista, feminista e corajosa antifascista, esta lindíssima mulher foi casada com o poeta António Gedeão e deixou-nos, entre outras, as seguintes obras, nas áreas do memorialismo e da ficção: AUTOBIOGRAFIA DE UMA MULHER ROMÂNTICA (1955); A MOSCA VERDE E OUTROS CONTOS (1957); ASSEMBLEIA DE MULHERES (1964); O CASO ZULMIRA L. (1967); AS VELHAS SENHORAS E OUTROS CONTOS (1992).

Eugénio Lisboa

 

A floresta e a cultura


COMENTÁRIO DE: CARLOS FIOLHAIS EM FLORESTAS.PT

Quando penso em florestas, para além evidentemente de pensar em  ambiente e em saúde, penso também em cultura. Exponho aqui a  relação entre floresta e cultura. [AM2] .

 A relação entre a floresta e a cultura nem sempre é reconhecida, mas ela é inequívoca. Começo por recordar o astrofísico norte-americano Carl Sagan, um dos maiores divulgadores de ciência de sempre, que escreveu no capítulo “A Persistência da Memória" do seu livro Cosmos, publicado no original em 1982 (Gradiva, 2001): “O livro é feito de uma árvore. É um conjunto de partes lisas e flexíveis (ainda chamadas folhas) impressas em caracteres de pigmentação escura. Dá-se uma vista de olhos e ouve-se a voz de outra pessoa, talvez alguém que já tenha morrido há milhares de anos. Através dos milénios, o autor está a falar, clara e silenciosamente, dentro da nossa cabeça, directamente para nós. A escrita foi talvez a maior das invenções humanas, ligando as pessoas, cidadãos de épocas distantes que nunca se conheceram. Os livros quebram as cadeias do tempo, provam que os seres humanos são capazes de exercer magia.”

É, de facto, verdade: quando leio o Cosmos estou a ligar-me a um físico já falecido, oficial do meu ofício que deixou de o exercer. Mas a sua mensagem passou inteiramente para mim.


Quando penso em árvores, penso na possibilidade de delas surgirem livros e na capacidade prodigiosa que esse meio tem de ligar seres humanos de todos os tempos da história. Uma árvore dá, de facto,  mais do que um livro. Usando as ordens de grandeza de que os físicos tanto gostam corresponde a cerca de cem livros. Dez árvores dão uma edição de mil exemplares e mil árvores dão uma edição de dez mil exemplares: um best-seller entre nós, nos tempos que correm.

Poder-se-ia pensar que os livros – e o papel em geral, porque há também as revistas e os jornais, para não falar já nos cadernos onde gostamos de escrever – são inimigos das florestas e da Natureza. Nada de mais falso: em primeiro lugar, o papel não se faz a partir da Natureza selvagem, mas a partir de árvores que são plantadas precisamente com esse fim. O tempo médio de uma árvore antes de se converter em livro varia entre dez e vinte anos e essas plantações são permanentemente renovadas. Colhe-se e semeia-se logo a seguir. Além disso, os valores atrás indicados pecam por excesso uma vez que não incluem a recomendável reciclagem, que pode ser feita cerca de uma meia dúzia de vezes. A reciclagem, que tem obviamente custos, é mais viável nas revistas, nos jornais e no papel usado do que nos livros, os quais têm em geral leitores que os guardam.

Não falta quem pense que os livros electrónicos vieram para substituir os livros em papel, com vantagens ecológicas. Apesar do rápido avanço desse tipo de livros quando a sua comercialização se iniciou, ele cessou nos últimos anos: o Amazon Kindle, surgido em 2007, prometia uma revolução, mas, passados mais de dez anos, ela não aconteceu na medida do que se previa: os ebooks só constituem 20 por cento das vendas, continuando a grande maioria dos livros a ser em papel.

Os jovens usam constantemente o telemóvel não só para chamadas como também para participarem em redes sociais e para jogos, mas não para lerem livros. Os que os lêem, por exemplo as obras de J. K. Rowling e de John Green, ainda os lêem em papel. Estou convencido que esse formato nunca será substituído, uma vez que um livro é um objecto afectivo com o design perfeito para as funções que cumpre. Falta também provar que a renovação dos aparelhos electrónicos assegura aos ebooks a mesma duração que tem tido o livro em papel (vários séculos!) e ainda que a substituição do material eléctrico e electrónico não origina problemas ambientais.

Portugal tem uma impressionante mancha florestal com conhecidos problemas, que vão desde a ameaça pelos incêndios, que as mudanças climáticas favorecem, até às dificuldades de gestão associadas à repartição por inúmeros proprietários privados, muitos deles sem dar às terras a necessária atenção. As florestas de produção, apenas em parte para o fabrico de papel, têm entre nós um problema de imagem, porque muita gente, a maior parte residente nos centros urbanos, não conhece bem a realidade florestal, e também porque alguma gente não se apercebe da relação estreita entre as árvores, o papel, os livros e, em geral, a cultura.

Cultivar floretas é, portanto, ajudar a fazer cultura. A palavra “cultura”, do latim “culturae”, tem a ver com “tratar”, “cuidar”. “acarinhar”. Originalmente o conceito era tratar as plantas: desenvolver trabalhos agrícolas. Mas depois ele foi transferido para o cuidado com as pessoas: desenvolver capacidades intelectuais nos seres humanos desde a mais tenra idade. Parece-me claro não só que as duas aplicações do conceito são compatíveis – a origem é afinal comum  – , mas também que estão muito mais perto do que normalmente se julga. Não há cultura sem livros, não há livros sem papel e não há papel sem árvores.  A cultura e a silvicultura podem caminhar a par, sendo naturalmente preciso que a silvicultura seja sustentável. A chave será sempre plantar e cuidar.

A respeito do plantio de árvores, é curioso referir que uma das obras pioneiras em Portugal foi escrita pelo brasileiro José Bonifácio de Andrada e Silva: Memória sobre a necessidade e utilidade do plantio de novos bosques, particularmente os pinhais nos areais de beira-mar; e seu método de sementeira, costeação e administração (Tipografia da Academia Real das Ciências de Lisboa, 1815). Nesse livro, o professor da Universidade de Coimbra fala várias vezes da “economia da Natureza”, que é o significado de  “ecologia”, o   neologismo que o naturalista alemão Ernest Haeckel introduziria 51 anos depois. Haeckel nunca terá imaginado que a palavra que criou viria a ter tão ampla difusão.

Se sei estas coisas é porque elas estão nos livros. Volto a Carl Sagan, que um pouco mais adiante no mesmo capítulo de Cosmos, escreveu:

“Os livros permitem-nos viajar através do tempo, beber na própria fonte o saber dos nossos antepassados. A biblioteca põe-nos em contacto com as concepções e o saber, a custo extraídos da natureza, das maiores mentes até agora existentes, com os melhores professores, provindos de todo o planeta e de toda a nossa história, para nos instruírem sem nos fatigarem e para nos inspirarem a dar nossa contribuição ao saber colectivo da espécie humana. As bibliotecas públicas dependem de contribuições voluntárias. Considero que a saúde da nossa civilização, a profundidade da percepção que temos das bases de apoio à nossa cultura e o nosso cuidado relativamente ao futuro podem ser medidos pelo tipo de apoio que damos às nossas bibliotecas.”

Eu não diria melhor do que Sagan escreveu em papel e depois sofisticadas máquinas rotativas gravaram ainda em papel para, ficando nas bibliotecas, chegar até nós e aos séculos vindouros.

 


NOVIDADES DA GRADIVA

 Informação recebida da Gradiva:


É OK querer ser rico
Jason Brennan

16,00€  12,80€


Uma análise provocadora e desafiante sobre as vantagens de querer ser rico.
Jason Brennan desmonta de forma directa e sustentada de que modo as sociedades baseadas no dinheiro criam melhores cidadãos e argumenta que as nações ricas se tornaram ricas devido às suas instituições saudáveis e não às suas horríveis histórias de escravidão ou colonialismo.
Não só é ok tornar‑se rico, como o é gostar de ser rico.

Do mesmo autor de
Contra a Democracia e Capitalismo. Porque não?


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O Mundo e a Igreja - Que futuro?
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18,00€ 14,40€


A voz vibrante do Padre e do filósofo numa igreja que quase não se ouve.

«A profunda e sólida formação do Autor em filosofia, teologia, antropologia e cultura clássica e contemporânea permite-lhe uma análise dos problemas a 360º e a sua escalpelização ao pormenor para ir em busca da sua raiz, e daí partir para a construção certeira de uma solução.» - Maria de Belém Roseira, in Prefácio

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Está a brincar Sr. Feynman - Aventuras de um personagem curioso
Richard P. Feynman
17,00€ 13,60€


Uma reedição há muito aguardada.

Um sucesso mundial absolutamente ímpar que relata os casos mais engraçados e excêntricos da vida de  Richard Feynman, desde a sua infância até à atribuição do prémio Nobel da Física. Um livro revela porque é que Richard Feynman foi e é um dos cientistas mais adorados da sua geração e a razão pela qual ainda fascina os leitores que com ele têm a sorte de se cruzar.

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Cérebrocomix
O cérebro explicado em BD
Jean-François Marmion, Monsieur B

15,00€ 12,00€


«Uma leitura educativa sobre o cérebro, as suas funções e componentes. De uma forma bem-humorada, atualizada e compreensível, Jean-François Marmion diverte-nos nesta BD, enquanto aprendemos as teorias da plasticidade cerebral, da consciência e das emoções, e enquadrando o papel de neurocientistas notáveis, incluindo António Damásio, nesta lição formidável. Para miúdos e graúdos, curiosos ou especialistas, uma viagem a não perder. Afinal o cérebro também se ri de si próprio.»

LUÍSA LOPES, Neurocientista

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Tango - vol. 3 - À sombra do Panamá
Philippe Xavier, Matz
16,50€ 13,20€

O Panamá, com o seu canal, as suas florestas primordiais, as suas ilhas paradisíacas, os seus bancos, as suas leis de extradição…
Um sítio onde se cruzam, desde sempre, todo o tipo de indivíduos: homens de negócios, mafiosos, agentes secretos, políticos corruptos, fugitivos…
Um sítio onde se pode facilmente ter maus encontros. E os maus encontros são de algum modo a especialidade de Tango…


Leia aqui as primeiras páginas.

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E NOVAS REEDIÇÕES  |  já à venda

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29,00€  23,20€


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Há milénios que o prazer da música se encontra profundamente enraizado no homem. A música é uma necessidade espiritual primordial do ser humano. E, se não é possível explicar a percepção e a universalidade do sentimento da beleza musical, «[...] um fenómeno, como Mozart continuará para sempre um milagre sem explicação satisfatória», dizia Goethe -, tanto a forma como a técnica musicais requerem e são passíveis de explicação e de aprendizagem.

Este atlas oferece uma visão panorâmica dos fundamentos da música explicando as suas regras e teorias e apresentando a sua história. Destinado aos especialistas, estudantes e público em geral, cobre, detalhadamente, todos os temas da música, a sua sistemática e a sua história, incluindo exemplos musicais e esquemas explicativos, tabelas e gráficos a cores.

O Atlas de Música foi publicado pela primeira vez em 1977 e tem sido sucessivamente reeditado na Alemanha e em inúmeros países, tornando-se a grande obra de referência na especialidade.


Vol. II TAMBÉM DISPONÍVEL AQUI.

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MAIS UM «NOVA ATLANTIS»

 Informação recebida da  Imprensa da Universidade de Coimbra:

A “Atlantís” disponibilizou o seu número mais recente (em acesso aberto). Convidamos a navegar pelo sumário da revista para aceder à informação.

Atlantís - review

v. 42 (2021)

Sumário

https://impactum-journals.uc.pt/atlantis/index

[Recensão a] BARATTA, Giulia, Benest, malest: Archeologia di un gioco tardo-repubblicano, Edicions de la Universitat de Barcelona, Barcelona, 2019. 290 pp. ISBN 978-84-9168-317-9.

José D'Encarnação

[Recensão a] GAZZANO, Francesca, TRAINA, Giusto & COUVENHES, Jean-Christophe (Dirs.), Plutarque et la guerre / Plutarco e la guerra, Institut des Sciences et Techniques de l’Antiquité, Besançon, Presses Universitaires de Franche-Comté 2019, 327 pp. ISBN: 978-2-84867-720-0

José Vela Tejada

[Recensão a] ROHDEN, Luiz, Filosofar com Gadamer e Platão: Hermenêutica filosófica a partir da Carta Sétima, São Paulo, Annablume Clássica, 2018. 244 pp. ISBN: 978-85-391-0867-1

Leonardo Marques Kussler

[Recensão a] CASERTANO, Giovanni, Venticinque studi sui preplatonici, Petite Plaisance, Pistoia, 2019. 488 p. ISBN: 978-88-7588-251-8

José Gabriel Trindade Santos

[Recensão a] QUINÁLIA, Rineu, O Belo em Platão, LiberArs, São Paulo, 2019. ISBN: 978-8594591814

Aldo Lopes Dinucci

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Atlantís
http://impactum-journals.uc.pt/atlantis

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Classicadigitalia_pt mailing list
Classicadigitalia_pt@uc.pt
http://ml.ci.uc.pt/mailman/listinfo/classicadigitalia_pt

"QUERER SABER, DAR A SABER"

 Minha entrevista ao «Pilão», revista dos estudantes de Farmácia da Universidade de Coimbra:

P- Nasceu em Lisboa e, posteriormente, foi estudar para a Escola dos Olivais, em Coimbra, e para o Liceu D. João III, onde ganhou alguns prémios de Pintura. Mais tarde, enveredou pela área das Ciências, uma área completamente distinta. Quando se apercebeu da sua paixão pelas Ciências? 

CF- Ao fim do antigo 5.º ano dos liceus (actual 9.º ano de escolaridade) tínhamos de escolher entre Letras e Ciências. Embora tivesse algum jeito para Letras, não tive dúvidas em ir para Ciências. Uma razão forte é que gostava de Física e de Matemática. Passei a ter a disciplina de Filosofia, que era uma ponte para as Letras, na qual tive boas notas… Sempre achei essa divisão entre Letras e Ciências um bocadinho forçada. As duas áreas deviam estar mais balanceadas no ensino pré-universitário. 

P-  Licenciou-se em Física na Universidade de Coimbra e doutorou-se em Física Teórica pela Universidade de Goethe, em Frankfurt, na Alemanha. O que o motivou a seguir esta área? Quais eram as suas perspetivas para o futuro? 

CF- A minha escolha do curso de Física, no final  do 7.º ano dos liceus (hoje 11.º ano, não havia o 12.º ano), foi-se formando pouco a pouco no liceu muito com base nas minhas leituras de livros de divulgação científica. Investi logo alguns proventos de prémios de artes na aquisição de livros de divulgação de ciência, como os livros da colecção “Saber” das Publicações Europa-América, e da colecção “Ciência para Gente Nova” da Atlântida, estes últimos escritos por esse grande vulto da cultura que foi Rómulo de Carvalho. Nos livros de divulgação descobri que a ciência era uma aventura, que estava muito longe de estar acabada, e que eu próprio poderia participar nessa aventura. Não pensei no futuro profissional. Depois logo se veria. E o que é certo é que, mal tinha acabado o curso, já me estavam a propor um contrato para assistente universitário. E, passado um ano, tive a possibilidade de ir para a Alemanha, com uma bolsa da Fundação Gulbenkian, fazer o doutoramento. Beneficiei das oportunidades que me foram dadas, pelas quais estou muito grato. 

P-  Criou o Centro de Física Computacional em Coimbra, no qual realiza Investigação. Em que consiste o seu trabalho? 

CF- Eu e outros colegas pertencíamos a um Centro de Física Teórica, onde pontificava o Doutor João da Providência. Mas o meu regresso da Alemanha no final de 1982 aconteceu numa altura em que os computadores se começavam a democratizar com o aparecimento dos primeiros computadores pessoais. Os computadores foram-se tornando cada vez mais potentes. A certa altura estávamos a associar computadores individuais em paralelo para fazer um supercomputador – chamámos-lhe Centopeia, porque tinha cerca de cem “patas” - e depois um supercomputador já feito- a Milipeia. O novo centro de investigação apareceu nesse enquadramento, numa altura em que a ciência estava a crescer muito em Portugal, sob o impulso do ministro José Mariano Gago. O nosso trabalho no Centro consistia em fazer simulações computacionais, isto é, preparar e executar algoritmos que concretizem numericamente as leis ad natureza. Começámos, por exemplo, a juntar virtualmente átomos para fazer agregados atómicos. As grandes empresas farmacêuticas preparam hoje novas moléculas recorrendo também a simulações computacionais… Um artigo em que colaborei teve mais de 20 000 citações: foi citado, por exemplo, em artigos de bioquímica e de farmácia, pois era usado na construção virtual de moléculas. Nos últimos anos, quando dirigia a Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, passei a interessar-me pela História da Ciência em Portugal. os meus últimos artigos científicos – assim como livros – têm sido escritos nesse âmbito.

P-  Foi Diretor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra durante sete anos. Em 2012, lançou o livro “Pipocas com Telemóvel e outras Histórias de Falsa Ciência” em coautoria com David Marçal, no qual pretendeu desmistificar a “Falsa Ciência”, dando a conhecer a verdadeira Ciência. Quais as razões que o levaram a escrever este livro e porque recomenda a sua leitura?

CF  O David já tinha alguma experiência de lidar com os “inimigos da ciência”, alguns dos quais tentam imitar a ciência de modo a ter algum reconhecimento. Muita gente – os pseudocientistas – “macaqueiam” a ciência ao fazer actividades que nada têm de científico para além do aspecto. Nesse livro cotámos um série de histórias de pseudociência, tentando distinguir o que é a ciência e o que não é. Por exemplo, a homeopatia não é ciência, pelo que os produtos homeopáticos não têm qualquer base científica. No lançamento desse livro na FNAC do Colombo em Lisboa eu e o David engolimos uma embalagem inteira de um pseudo-medicamento para mostrar que aquilo era apenas água e açúcar. Ainda estamos vivos, o que não aconteceria se tivéssemos engolido uma embalagem de um medicamento real. Recomendamos a leitura porque achamos que ela pode ser esclarecedora para os leitores que não gostem de ser enganados. 

P- A atual situação pandémica trouxe uma visão diferente da Ciência. Na sua opinião, o que é que a mesma trouxe de positivo? 

CF-  Sim, a sociedade percebeu o valor da ciência quando assistiu, em tempo real, à resposta da ciência ao novo coronavírus. Em dez meses foram preparadas vacinas, algumas das quais, as de RNA, revolucionárias. Os seus resultados estão à vista de todos. A pandemia teria sido um problema muito maior não tivesse sido o engenho dos investigadores científicos, que aproveitaram muito trabalho de ciência básica que veio de trás. Não sendo apenas a ciência que nos salva, sem a ciência estaríamos perdidos. Contudo, ao mesmo tempo que o êxito da ciência estava à vista (não só nas vacinas, mas também nos testes e nos tratamentos), verificámos erupções de pseudociência, usando muitas vezes a Internet, que é, paradoxalmente, um resultado da ciência. Além da pandemia, há uma infodemia, uma difusão de notícias falsas. Eu e o David tratámos o tema no nosso mais recente livro “Apanhados pelo vírus - Factos e mitos sobre a COVID-19”, saído como os anteriores na Gradiva. Existe na humanidade tanto um lado racional como um lado irracional e estes dois lados estarão sempre em conflito. Esperamos apenas que o primeiro prevaleça.

P - A 12 de julho do presente ano despediu-se do ensino com uma palestra “História da Ciência na Universidade de Coimbra”. O que sentiu nesse momento? 

CF-  Tudo tem o seu tempo. Completados os 65 anos e com 44 anos de serviço, era tempo de passar o lugar a outros, mais jovens e mais activos. Gostava que eles tivessem as oportunidades que eu tive. Agora vou continuar o meu trabalho em prol da ciência em Portugal, embora em “aulas” deslocalizadas e à distância, que por vezes assumem a forma de artigos e livros. Vou também ter mais tempo para me dedicar a estudar e transmitir a História da Ciência. Senti nessa “última aula” o conforto, o carinho, proporcionado pela proximidade de muitos meus colegas, alunos e ex-alunos. Estou muito grato a todos. 

P- Existe algum avanço que poderá surgir nas próximas décadas na área da Ciência, que outrora considerou pouco provável de acontecer? 

CF- Em geral e também na ciência, é muito temporário fazer previsões. Ninguém, por exemplo, o impacto que ia ter no mundo a World Wide Web, que surgiu num quadro de investigação fundamental. Houve grandes avanços na computação nas últimas décadas, que levaram a um manancial de conhecimento novo. Os novos instrumentos sempre proporcionaram nova ciência, mas a amplitude que os computadores alcançaram na ciência e na sociedade era difícil de prever. Os desenvolvimentos no hardware e software levaram a avanços na genética como a sequenciação completa do genoma humano e também a avanços na “imitação” do cérebro, naquilo que hoje se chama inteligência artificial. Todos esses desenvolvimentos – e ainda outros – continuam em curso… 

P- Se pudesse descrever o seu percurso de renome numa frase, qual seria? 

CF-  Ninguém é bom a falar de si próprio. Mas diria, num esforço de síntese: “querer saber, dar a saber”. 

P- Para concluir, que conselhos gostaria de deixar aos nossos leitores, na sua maioria estudantes da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra.

CF-  Sendo a actividade de farmácia muito antiga – estou-me a lembrar do “Colóquio dos Simples”, o livro sobre propriedades medicinais das plantas da Índia publicado em 1563 em Goa por Garcia da Orta - ela continua a ser muito necessária. Com base na modelização computacional, tenta-se hoje produzir novos medicamentos para doenças que têm particular incidência. Vivemos hoje muito mais tempo do que no passado, em boa parte graças aos avanços da Biologia, da Medicina e da Farmácia. Vamos previsivelmente viver ainda mais. Para isso é necessário o trabalho das pessoas da Farmácia. Confio que os estudantes queiram estudar mais e que queiram proporcionar o seu saber ao maior número de pessoas.

EINSTEIN, ÍCONE DO SÉCULO XX


Meu artigo na Visão - Biografias dedicado a Einstein:

Em 1905, Albert Einstein (1879-1955), um modesto funcionário de uma pequena repartição de patentes na cidade suíça de Berna enviou para publicação cinco artigos científico, que mudaram o nosso conhecimento do mundo.

Dois desses artigos, um deles a sua tese de doutoramento, tratavam das dimensões e o movimento das moléculas. Quando ainda não era clara a constituição atómica da matéria, o diplomado pela Escola Politécnica de Zurique, então com 26 anos, ajudou a quantificar a noção de molécula. Os átomos e as moléculas deixaram então de ser meras hipóteses para se tornarem, a nossos olhos, realidade.

Um terceiro artigo sobre o efeito fotoeléctrico foi talvez o mais revolucionário. Einstein explicou esse efeito, conhecido experimentalmente, que consistia na expulsão de electrões de uma superfície metálica quando nela incidia luz. Einstein «fez luz» sobre a luz: prosseguindo na senda iniciada em 1900 por Max Planck, sustentou que a luz era formada por pequenas unidades, os quanta (plural de quantum, termo latino para quantidade). Havia um paradoxo, já que corpúsculo é um conceito oposto ao de onda, que era na altura assumido para a luz. Einstein, que por este trabalho recebeu em 1921 (faz este ano cem anos) o Nobel da Física, tornou-se assim um dos fundadores da teoria quântica, a teoria que anula o paradoxo, ao conjugar ondas com corpúsculos. Mas ele não conseguiu acompanhar os novos desenvolvimentos da teoria. A sua frase «Deus não joga aos dados» significa a sua rejeição das ideias probabilísticas que estão no cerne na teoria quântica. Foi um pai que a certa altura deixou de compreender a filha...

Os dois outros artigos desse «ano milagroso» fundaram a teoria da relatividade. Na física há coisas relativas, isto é, que dependem do observador, e outras invariantes, isto é, que são as mesmas para os vários observadores. A noção de relatividade. que remonta a Galileu, tem a ver com a universalidade das leis físicas: as leis da mecânica são as mesmas para todos os observadores, quer estes estejam imóveis quer viajem com velocidade constante. O princípio da relatividade de Einstein alargou o de Galileu: não só as experiências mecânicas são as mesmas para todos os observadores, mas também todas as leis da física, incluindo as do electromagnetismo. Einstein acrescentou a este princípio um outro, o da invariância da velocidade da luz. As conclusões dessas premissas foram imperiosas: a mecânica de Galileu e Newton tinha de ser modificada, enquanto a teoria electromagnética de Faraday e Maxwell (que inclui a óptica) podia permanecer incólume. As modificações têm implicações profundas: o espaço e o tempo são inseparáveis, integrando o espaço-tempo, dependendo as medições do espaço e do tempo de cada observador. Uma outra consequência expressa-se na mais famosa equação da física: E= mc2. Energia e massa são equivalentes, podendo converter-se uma na outra. Esta equação explodiu na «cara da humanidade» com as bombas atómicas de 1945. Einstein que teve um papel distante no processo sentiu a culpa («Fui eu que carreguei no botão») e intensificou o seu pacifismo. Mas a equação tem aplicações benfazejas no nosso quotidiano: quando um doente é submetido a um exame de PET, electrões colidem com positrões, desaparecendo matéria para dar lugar a energia.

Einstein não se ficou por aqui. Uma década volvida generalizou a sua teoria da relatividade para o caso de observadores acelerados. O ponto de partida foi uma experiência pensada por Galileu: todos os corpos, pesados ou leves, caem da mesma maneira à superfície da Terra, se se desprezar a resistência do ar. O resultado foi uma epifania: a força de gravitação universal, que Newton tinha descrito por uma fórmula matemática, passou a ser vista como uma deformação geométrica do espaço-tempo à volta de algum corpo com massa e energia. A matéria-energia modifica o espaço-tempo, numa visão esteticamente atraente. A teoria da relatividade geral não só tem uma enorme elegância como é fonte de um grande número de previsões, que foram até agora confirmadas, como a existência de buracos negros. E há aplicações práticas no nosso dia-a-dia, como o GPS.

Observações cruciais para decidir a validade da teoria foram realizadas em 1919 na ilha do Príncipe e em Sobral, no Brasil, durante um eclipse total do Sol. A luz de estrelas por detrás do Sol devia, segunda a relatividade geral, encurvar-se ao passar perto dos bordos da nossa estrela. Ele não tinha dúvidas que ia ser assim: «Deus não dispôs de outra escolha na criação do mundo» (Deus era a sua metáfora preferida para a «harmonia do Universo.») As chapas fotográficas deram razão a Einstein, eclipsando as dúvidas.

Como em todas as revoluções científicas, Einstein baseou-se no que já se sabia,  mudando o que era preciso mudar. Em cada revolução, há sempre elementos de continuidade. Newton tinha compreendido bem o modo como a ciência progride: «Se consegui ver mais longe é porque estava aos ombros de gigantes». O sábio queria realçar os que viveram antes dele, preparando-lhe o caminho. Einstein conseguiu subir para cima dos ombros de Newton, elevando a pirâmide humana do saber. Se conseguiu ver mais longe foi porque tinha uma sólida base de apoio. Hoje não falta quem tente subir aos ombros de Einstein, tentando conciliar a teoria da relatividade geral com a teoria quântica. Mas a tarefa não se tem revelado fácil: Um novo Einstein precisa-se!

Einstein teria ficado famoso por qualquer um dos referidos trabalhos. Mas ele foi o autor de todos eles... e de mais alguns: deve-se também a ele a ideia do laser (que está hoje em qualquer impressora ou leitor de DVD), baseada em saltos quânticos. Não admira, por isso, que a revista Time, no ano 2000, o tenha elegido a «pessoa do século». Einstein é um ícone do nosso tempo, marcado pelo saber e pelo poder que só o saber pode dar.