sexta-feira, 27 de maio de 2022

A Prima Bette de Honoré de Balzac

[A Prima Bette é o último romance de Honoré de Balzac. Aproveitando que tinha começado a ler uma versão muito elegante do livro publicada recentemente que estava na Casa da Cultura na pilha dos "livros que foram proibidos" e que eu próprio estava de quarentena dei um grande avanço à obra. Devo dizer que esta é de domínio público e pode ser encontrada como audiobook gratuito aqui (ouvi uma parte na versão inglesa). e refiro mais uma vez que em Coimbra temos duas bibliotecas com depósito legal, ou seja tudo o que é publicado em Portugal vai lá parar no espaço de um ou dois anos.]

Trata-se de uma história de uma grande complexidade, cheia de voltas e reviravoltas, personagens fascinantes e profundas e frases fantásticas sobre a natureza humana e o mundo. Não vou aqui fazer um resumo da história nem fazer uma análise desta sociedade que já não existe. Leiam o livro que vale a pena. Mas deixo aqui algumas notas: há um momento em que é dito “o amor na minha idade custa 30 mil francos” ou noutro em que se filosofa sobre uma “jovem bonita casar sem dote assustar os maridos”. Há bastantes passagens racistas, antissemitas e misoginas, para não falar das que seriam consideradas imorais ainda hoje ou ilegais. Mas é preciso lembrar que o livro foi escrito em 1846. Era uma altura em que havia muito poucos trabalhos decentes para mulheres, mas um artista já era um “príncipe não coroado”, em era um mundo muito mais inseguro e cruel, em que a prostituição se podia iniciar aos quinze anos, mas havia, apesar de tudo, já alguma liberdade feminina e da população em geral. Curiosamente, uma das personagens femininas tem como emprego bordar a ouro em ornamentos de uniformes. Esse é outro aspeto interessante do livro. Na sociedade pós-napoleónica, toda uma economia social baseada em monges, freiras e padres é substituída por uma sociedade de funcionários e soldados. A natureza humana não muda muito apesar de tudo, mas o sociedade sim. Balzac, numa das suas muitas frases fantásticas diz que a propósito da bondade e do perdão que Napoleão foi coroado imperador por metralhar o povo, mesmo ao lado do sítio onde Luís XVI perdeu a cabeça por querer fazer algo parecido. Claro que as frases nunca são absolutas, há muitos contextos, mas é interessante esta reflexão. Proponho-me aqui referir alguma da ciência, em particular da química, presente (ou não) no livro.   

Nas muitas reviravoltas da história, há um momento em que uma personagem tem um marido, dois amantes mais velhos, rivais, um amante mais novo que acabou de chegar do Brasil e um amante ocasional. Todos são informados que são pais. E em passagens muito cómicas estão todos juntos num jantar. O marido (que sabia não ser o pai) refere em privado que são os cinco pais (padres) da igreja deles. Hoje em dia esse problema seria facilmente resolvido fazendo uma análise de paternidade. Parece haver já algum tipo de contraceção pois a ideia da gravidez desaparece mais tarde. De qualquer forma, a pílula que permitirá uma muito maior liberdade feminina só foi inventada mais de um século depois nos anos 1950 e só começou a ser comercializada nos anos 1960. De forma paralela, o preservativo como o conhecemos hoje só apareceu no início do século XX. Bem, e os estes de paternidade fiáveis só surgem com a descoberta do DNA nos anos 1950 e só se tornam comuns muito mais tarde.   

Outra coisa interessante, é a doença de que são acometidas duas das personagens. É dito que é uma doença desaparecida que existia na Idade Média, que tem cura em zonas mais quentes e nos negros e americanos por terem peles diferentes, sendo transmitida por um brasileiro. Esta doença faz pensar na peste negra e na sífilis, mas estas não tinham cura também nos trópicos. Não é com certeza sífilis que é de evolução muito mais lenta e raramente mortal, embora muito dos sintomas descritos sejam da fase final da doença. Nesta altura não era ainda conhecida a teoria dos micróbios nem havia antibióticos que só irão aparecer nos anos 1940. Mas existe essa espécie de religião perante a ciência. “Um verdadeiro médico apaixona-se pela ciência” diz um médico que procura ajuda junto do seu amigo, o famoso químico, professor Duval. É curioso que quase não haja referência à sífilis no livro, mas há um momento em que uma das personagens refere de forma metafórica que alguém entre dois metais escolheu o mercúrio (o outro deveria ser o ouro ou a prata).

Há um momento em que é referido que uma das personagens pintou os cabelos louros com um líquido que lhes deu um tom cinzento (no original francês “cheveux cendrés”) pois não queria parecer loura como a mulher de outro. Mesmo as personagens femininas mais recatadas pintam os cabelos. 

Na versão portuguesa não se nota tanto, mas na inglesa são referidas muitas cores que evocam materiais (cor de limão, enxofre, laranja, ouro, cereja, cobre, chocolate, entre outras). Várias cartas e bilhetes são escritos a lápis. Nesta altura ainda não havia canetas de tinta permanente e os escritos a tinta precisavam de penas e aparos. O lápis era assim muito mais prático.

Há muitas referências às roupas e rendas caras. Estas eram complexas, difíceis de elaborar. Não havia tecidos sintéticos nem fios elásticos. Também a iluminação que usam (essencialmente velas e grupos de velas) é interessante. Parece que não se tinha popularizado ainda aqui o candeeiro de Argand, mas a luz elétrica está ainda muito longe de aparecer.

Em resumo, um livro pode levar-nos a enredos, ambientes e mundos passados. Permite-nos refletir sobre a natureza humana e sobre o mundo, mas também sobre como ele era e como se modificou com a ciência.         

    

quinta-feira, 26 de maio de 2022

NOVOS CLASSICA DIGITALIA

 
Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em Acesso Aberto.

 
NOVIDADES EDITORIAIS


Série “Autores Gregos e Latinos” [textos]

- Maria de Fátima Silva, Pausânias. Descrição da Grécia. Livro II. Introdução, tradução do grego e notas (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2022). 236 p.

DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2271-2

[Pausânias é o nosso único testemunho de literatura periegética e o autor de um relato precioso sobre a Grécia da época de ocupação romana (séc. II d.C.). A sua descrição é a de alguém que viajou e sintetiza o que ‘viu’, com um olhar que não é só o de um turista curioso, mas de um intelectual que dispõe de uma sólida formação cultural e de uma informação ampla, em resultado de uma recolha criteriosa de todo o tipo de fontes, orais e escritas. Para com Pausânias mantemos em aberto uma enorme dívida: a de ter salvado um lastro de monumentos, de acontecimentos históricos, de figuras e de tradições que, sem ele, se teriam em definitivo apagado da memória dos homens.]

Série “Portugaliae Monumenta Neolatina” [texto latino, tradução e comentário]


 - Maria da Conceição Camps, Mário Santiago de Carvalho & Sebastião Pinho, O Curso Aristotélico Jesuíta Conimbricense: Tomo IV: De Anima. Parte I [Manuel de Góis]. Fixação do texto latino, introdução, tradução, notas (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2022) 722 p.

DOI:  https://doi.org/10.14195/978-989-26-2217-0  

[Este volume inclui o comentário aos Livros I e II da obra aristotélica Acerca da Alma (Peri Psychés/De Anima).]

 

O GÉNIO NA CIÊNCIA E NA ARTE

 


Meu artigo no n.1 da revista ÁRVORE DAS VIRTUDES da Cooperativa Árvore do Porto:

O que é um génio? Uma pessoa com uma mente excepcional, que, graças a ela, consegue criar obras radicalmente inovadoras. Não sendo fácil distinguir o excepcional do normal, ninguém objectará que, na ciência, Galileu, Newton, Maxwell e Einstein são génios. Também ninguém objectará que, na literatura, Dante, Cervantes, Shakespeare e Goethe o são. Ordenei-os, em cada área, por ordem cronológica de nascimento, por ser impossível construir uma escala de genialidade em cada área ou de âmbito universal. Não faltou quem tentasse realizar essa tarefa, baseado numa avaliação quantitativa da capacidade mental, mas todos esses ensaios são muito discutíveis e os seus resultados largamente insatisfatórios. 

Falarei aqui das marcas qualitativas da genialidade, com foco na ciência, mas não esquecendo a arte. Procurarei explicitar características comuns que se podem encontrar nessas duas dimensões do espírito humano, contribuindo para aproximar as “duas culturas” cuja separação Charles Snow sublinhou. 

Na Antiga Roma genius era um espírito que tutelava uma pessoa, uma família ou um lugar. Portanto, o génio começa por estar ligado à magia e ao mistério: manifestando-se no mundo, um génio vinha de fora dele. A palavra, que se relaciona com os verbos latinos gignere e generare deriva do radical indo-europeu ǵenh (gerar, nascer, procriar). A palavra “gene”, que designa a unidade física da hereditariedade, veio no início do séc. XX do alemão Gen, também com origem em ǵenh. Os indivíduos excepcionais que pareciam ter uma aura inata passaram, na modernidade, a ser conhecidos por génios. Eram pessoas com um talento extraordinário e não demiurgos por trás deles. Mas resultará o génio humano de uma herança ou de um trabalho? 

 A resposta que hoje a psicologia e as neurociências fornecem é que ele resulta da combinação dos dois factores, com predomínio do segundo: a pessoa tem, à partida, uma capacidade mental fora do comum, mas esta terá de ser desenvolvida na interacção com o ambiente. A capacidade de trabalho afigura-se essencial já que sem ela qualquer talento perece. Há decerto factores genéticos na construção da mente – a genética é acaso e necessidade – mas é preciso saber aproveitar as condições externas disponíveis num certo espaço e tempo –e aí volta a haver acaso e necessidade. 

 Vejamos, na ciência, o que um génio faz de genial. Galileu propôs o método científico que exercitou através da observação (o telescópio), da experiência (o plano inclinado) e da matemática (a lei da queda dos graves). Mas foi Newton quem ligou a física da terra e a física do céu, que para Galileu estavam disjuntas, com a lei da gravitação universal. Maxwell, por sua vez, uniu as leis da electricidade e do magnetismo, alcançando uma descrição unificada num conjunto de quatro equações. Apercebeu-se que da sua combinação resultava a existência de uma onda: era a luz, cuja natureza foi assim revelada. Einstein, por sua vez, ao procurar conciliar as leis do movimento de Galileu e Newton com as leis do electromagnetismo de Maxwell, teve de modificar as primeiras. Mas fez mais: explicou a lei da gravidade com base na deformação do espaço, que obriga a luz a curvar-se. A novidade inesperada foi: “A luz pesa.” 

O trabalho destes génios ilustra bem o processo cumulativo na ciência. Conforme disse Newton: “Se consegui ver mais longe foi porque estava aos ombros de gigantes.” Na arte essa passagem de testemunho, existindo, não é tão evidente. Goethe leu Shakespeare, mas este não leu Dante nem Cervantes, seu contemporâneo (tal como Galileu). O mais notável é que todos os referidos génios científicos revelaram relações ocultas. Duas partes do mundo, que pareciam a priori diferentes, passaram a estar associadas: por exemplo, a maçã de Newton e a Lua eram atraídas pela Terra segundo uma mesma lei. A Natureza compraz-se em apresentar-se de múltiplas formas e feitios, mas algumas mentes obtiveram unificações simples e elegantes. 

O paralelo entre arte e ciência é claro: nas duas, ligam-se coisas que pareciam estranhas uma à outra. Um cientista procura ligar coisas diversas e um artista, à sua maneira, faz o mesmo. Por exemplo, um escritor, ao criar uma metáfora está a associar dois conceitos que pareciam arredados. A Divina Comédia está recheada de metáforas e é toda ela uma metáfora sobre a vida. A frase “O mundo é um palco” em Como vos Aprouver associa sociedade e teatro de um modo lapidar. A luta contra os moinhos de vento no Dom Quixote é uma metáfora da loucura. O Fausto é uma denúncia metafórica dos riscos da ciência. Escreveu Jacob Bronowski, matemático e literato, num artigo da Scientific American (1958): “Um ser humano torna-se criativo, seja ele um artista ou um cientista, quando encontra uma nova unidade na variedade da natureza. Faz isso encontrando uma semelhança entre coisas que antes não eram pensadas como semelhantes, e isso dá-lhe um sentimento de enriquecimento e de compreensão. A mente criativa procura a semelhança inesperada.” Ele já tinha expresso essa ideia no seu ensaio Science and Human Values (1956): “Quando Coleridge tenta definir beleza, regressa sempre a um pensamento simples e profundo: a beleza é ‘unidade na diversidade’. A ciência não é mais do que a busca da unidade na variedade desordenada da Natureza – ou, mais exactamente, na diversidade da nossa própria experiência. A poesia, a pintura, as artes em geral, são o mesmo”. 

 Fala-se muito da beleza na arte, mas fala-se pouco dela na ciência. E, no entanto, a beleza está omnipresente no trabalho científico. O físico David Bohm, no seu livro On Creativity (1996), explicou: “Em ciência, vemos e sentimos a beleza de uma teoria apenas se esta for ordenada, coerente, harmoniosa com todas as partes a surgirem naturalmente de princípios simples e com todas as partes concertadas para formar uma estrutura total unificada. Mas estas propriedade são necessárias não só por causa da beleza de uma teoria, mas também da sua verdade… Para o cientista tanto o Universo como uma teoria que ele faz dele são belos no mesmo sentido em que uma obra de arte é bela – esta também deve ser um todo coerente.“ 

A identidade da verdade e beleza foi assinalada por John Keats num seu poema (“A beleza é a verdade, a verdade é a beleza”). Talvez ele conhecesse o lema latino Pulchritudo splendor veritatis (“A beleza é o esplendor da verdade”). De facto, é muitas vezes o brilho de belo que permite reconhecer o verdadeiro. A beleza, nesses casos, não é uma resposta arbitrária de um espectador, mas uma realidade que se impõe. O matemático Henri Poincaré enfatizou o princípio estético que move os cientistas em Le Valeur de la Science (1905): "O cientista não estuda a Natureza porque tal é útil. Estuda-a porque tem prazer nisso; e tem prazer nisso porque ela é bela." 

 Ao contrário do que normalmente se julga, a imaginação é um recurso indispensável tanto aos cientistas como aos artistas. Einstein louvou-a: "A imaginação é mais importante do que o conhecimento. O conhecimento é limitado. A imaginação dá a volta ao mundo." É usando a imaginação que os cientistas colocam hipóteses a respeito do mundo. E só os génios têm as grandes epifanias que alargam e aprimoram a nossa visão do mundo. Poder-se-á pensar que a imaginação científica, confinada como está pela adequação à realidade física, é bem mais limitada do que a imaginação artística, designadamente a literária. Porém, o nosso mundo tem desafiado e continua a desafiar a imaginação humana. A imaginação da Natureza é bem maior do que a nossa. No futuro, haverá decerto mais génios.

terça-feira, 24 de maio de 2022

Várzea

Daqui a algumas horas, há de ser noite e um filamento iluminará o mar e lerei até um livro tombar no meu peito. Entretanto, os choupos rejuvenesceram de um dia para o outro. À beira do caixote do lixo, um sofá, pútrido e esburacado, está à espera de alguma alma, e só pela vindima sou feliz, quando as uvas e as almas sobem pelos taludes dos vinhateiros. Na minha meninice, as uvas sabiam-me melhor, depois de atravessar o longo carreiro para casa, entre tojo, arbustos, silvas, pinheiros bravos e carvalhos; depois de pernoitar, com os meus primos, e, com um sacho, as mãos e uma lanterna, fazermos terreiros rente aos sulcos de água nos milheirais e voltados para as oliveiras, para as figueiras gigantescas, cobertas de musgos, e para os vergueiros rente à vala da várzea; depois de armarmos os costelos e de vermos as lagartas do milho a rabiarem, de um lado para o outro, para se desprenderem. Naquele tempo, a terra era amanhada e havia muitos taralhões saltitando, sôfregos, nas oliveiras, melros corricando entre canoulos, piscos-de-peito-ruivo e cartaxos nas moiteiras; havia muitos pássaros e muitos homens a rabiarem na terra, lado a lado.

...

Há dias em que uma rapariga sussurra: – Isto é uma pessoa!? Há dias em que a fadiga dos nervos em mim ressoa. Há dias em que ninguém me responde, quando indago a estrela ou a giesta. O telhado do curro vive no chão, porque as bátegas minaram os esteios, e não me resolvo a chamar o porvir. Permaneço no passado. É aí que nós estamos. É aí que o cabo elétrico se estende, até às vigas, e uma lâmpada guia os bácoros para as tetas úberes da mãe. É aí que colhes, pai, o pão da aurora, que a bicicleta-pasteleira bate na escada de argamassa e franqueia prudentemente as pedras. É aí que, enorme e inexpugnável, vergastas os ramos da oliveira mais alta do olival da várzea, A Torre, dizias com espanto, perdendo o olhar no azul do céu. É aí que, com um serrão, traçamos os toros de pinheiro, assentes em um xis e noutro xis, e vemos a lâmina ensaboada, puxada pelos braços para cá e para lá, e a serradura a cair para cá e para lá. É aí que nos aquecemos ao borralho adusto, nas noites gélidas, onde o fogo se ergue e a cinza se amontoa da cor do lápis de grafite que vai e volta, entre linhas, até à extinção.

domingo, 22 de maio de 2022

Cosmos em Português

MEU ARTIGO NO ÚLTIMO JL: 

 São muitos e alguns deles muito bons os livros de divulgação científica sobre o Cosmos em português. Podemos hoje chamar clássicos aos que saíram nos anos de 1980 na Gradiva, como Cosmos, de Carl Sagan, e Os Primeiros Três Minutos, de Steven Weinberg, dois autores que já não estão entre nós. Continuam a sair livros sobre o mesmo tema, devidamente actualizados, já que a ciência está como o Universo em expansão: acaba de ser publicado, nas Edições 70, Uma Breve História do Universo, de Neil deGrasse Tyson, Michael Strauss e J. Richard Gott, e não tardará a surgir, na Gradiva, O Pequeno Livro da Cosmologia, de Lyman Page. 

 Como a ciência conheceu também entre nós um período de expansão acelerada (graças sobretudo a clarividência de José Mariano Gago, que faria agora 74 anos, não fora o seu falecimento prematuro), é natural que apareçam obras de divulgação da cosmologia e astrofísica escritos por cientistas portugueses. Acabam de sair dois excelentes livros de autores nacionais: um incidindo mais sobre cosmologia – isto é, o início, a dinâmica e a estrutura geral do Cosmos – e o outro mais sobre astrofísica – isto é, o seu enchimento com estrelas de vários tipos, agrupadas em galáxias. O primeiro, que se intitula simplesmente O Universo, com o subtítulo mais longo Do Big Bang aos Buracos Negros, é o n.º 121 da colecção de ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, dirigida por António Araújo. É seu autor o cosmólogo Paulo Crawford, professor aposentado da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Curiosamente, Crawford, que escreveu a primeira tese doutoral sobre cosmologia no nosso país foi, quando era mais jovem (ainda é!), o autor do prefácio e notas da tradução portuguesa de Os Primeiros Três Minutos. O segundo dos novos volumes tem por título Qual é o Nosso Lugar no Universo?, com o subtítulo mais comprido Uma viagem pelo mundo da astronomia e das nossas origens pela mão de um astrofísico, saiu do prelo da Planeta. O seu autor é David Sobral, mais jovem que Paulo Crawford, doutorado na Universidade de Edimburgo e hoje professor de Astrofísica na Universidade de Lancaster (no Reino Unido) depois de ter sido investigador no Observatório de Leiden (na Holanda) e no Observatório Astronómico de Lisboa, associado à referida Faculdade de Ciências. Crawford é físico teórico, especialista na Teoria da Relatividade Geral de Einstein, na qual assenta a cosmologia, ao passo que Sobral é um astrónomo observacional que tem usado os maiores telescópios do mundo, incluindo o Telescópio Espacial Hubble. Ficou justamente famoso em 2015 pela sua descoberta de uma galáxia brilhante, nos confins do Universo, a que deu o nome de CR7: não, o CR não significa Cristiano Ronaldo 7, mas sim Cosmos Redshift 7, uma medida da posição no tempo cósmico. Os dois autores têm evidente talento para divulgarem a ciência que tão bem conhecem e fazem. 

O Universo, com 121 páginas, depois de um prefácio e uma introdução, tem cinco capítulos em prosa clara, que são seguidos por uma curta bibliografia. Começa pela Via Láctea, contando como se descobriram outras galáxias para além da nossa, continua com a teoria de Einstein e os modelos cosmológicos nela baseados, conta a seguir como as observações do afastamento das galáxias e da radiação cósmica do fundo tornou verosímil uma das soluções das equações de Einstein, fala na sequência dos constituintes mais exóticos do Universo (incluindo buracos negros e as ondas gravitacionais que as suas colisões originam), e, finalmente, discute questões em aberto como a expansão acelerada do Universo (que obriga a postular a energia escura) e a possibilidade de universos paralelos.

 Por sua vez, a pergunta Qual é o Nosso Lugar no Universo? é respondida, depois de um preâmbulo e antes de uma bibliografia, num total de 245 páginas, que se repartem por 14 capítulos, numa prosa que por vezes tem ressonância literária (ou não tivesse o autor escrito no DN Jovem e publicado ficção). Alguns tópicos são os mesmos que no livro de Crawford, como a descoberta do universo extra-galáctico e do afastamento das galáxias por Hubble, num movimento que hoje sabemos ser acelerado, mas Sobral debruça-se também sobre a vida e a morte das estrelas, a matéria escura (que existe nos halos de todas as galáxias), os buracos negros supermaciços (que estão nos centros das galáxias, desde logo a nossa), o que ele chama a «crise cósmica» (que significa o actual declínio da formação de estrelas), e, quase no fim, a sua descoberta da CR7. Sobral, que invoca Álvaro de Campos logo no inicio («Não sou nada,/ Nunca serei nada./ Não posso querer ser nada./ À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo»), fala da influência que teve na sua vida a oferta da Poesia Completa desse poeta quando andava na escola secundária, o triunfo num concurso juvenil de ciência e a aventura que foi para um rapaz do Barreiro fazer a primeira viagem aérea a Dublin para representar Portugal. Haveria de ir mais longe ao Havai e ao Chile, para ver o céu. No capítulo final fala não daquilo que se sabe, mas daquilo que falta saber e que talvez se venha a saber, usando novos instrumentos, nos quais sobressai o Telescópio Espacial James Webb . 

Recomendo vivamente os dois livros. Deixo um pouco do «sabor» da prosa dos dois autores. Escreve Crawford, no início: «Ao admitir que o mais simples é considerar a organização autónoma da natureza, direi que, no caso de um cientista que não seja crente o mais natural é ignorar a pergunta sobre a origem das leis físicas e supor simplesmente a existência do universo». Por seu lado, Sobral, quase no fim, revela o que é a ciência em acção, impregnada pelas reacções humanas, ao insurgir-se contra as invectivas que um investigador japonês fez, a ele e à sua equipa, a propósito da descoberta da CR7: «Quando uns putos da Europa, sem recursos, sem dinheiro, e por isso vulneráveis a ataques descobriram galáxias e obtiveram resultados que acabariam por transformar o campo de investigação, deu-se uma reacção emocional quase imparável.» 

 Os dois livros mostram que o Cosmos não só pode ser contado em português, como pode ser descoberto na língua de Álvaro de Campos. Basta sonhar e perseguir o sonho.

 CARLOS FIOLHAIS

quarta-feira, 11 de maio de 2022

JÁ LÁ VÃO TREZE ANOS, VENHAM MAIS TREZE

Meu depoimento no número de aniversário da revista «As Artes entre as Letras»:

O tempo é um grande mistério. Passa inexoravelmente e nós com ele. Sempre do passado para o futuro: fazemos história com o passado e não podemos fazer história do futuro (o padre António Vieira foi a excepção que confirmou a regra). A fundação da revista «As Artes entre as Letras» pela jornalista Nassalete Miranda no ano de 2009 já faz parte da nossa história cultura e, pese embora todas as incertezas, está-lhe destinado um bom futuro. Desaparecidos os suplementos literários dos jornais, fazia e faz falta uma revista no Norte que plasmasse a riqueza e variedade cultura que abunda nessa região do país.

Orgulho-me de ter estado desde o início do empreendimento, participando em tudo o que me foi pedido. Hoje e desde há já algum tempo (nem me lembra quando) participo com uma coluna mensal em que falo de livros e temas de ciência – e não só, porque a ciência não é uma ilha e comunica com imensos territórios. Colaborei sempre com o maior gosto. Sinto-me parte de uma comunidade que aprecia e defende as artes e as letras (e também, como mostra a minha coluna, a ciência, pois esta, sendo parte da cultura, gosta de estar no meio das artes e as letras). É-me grato verificar que existe um público interessado na cultura, que amiúde colabora na revista com as suas próprias produções. A cultura – na forma de letras, artes ou ciências - é um bem comum.

2009 foi ontem, mas parece que foi há muito tempo. Foi o ano em que Barack Obama começou o seu primeiro mandato de presidente dos Estados Unidos (nesse mesmo ano ganhou o Prémio Nobel da Paz). Foi o ano em que ainda se sentia no mundo a grave crise económica de 2008 (em Portugal chegaria de forma violenta em 2011). Foi o ano em que a Rússia cortou o fornecimento e gás natural à Europa através da  Ucrânia. Foi o ano em que entrou formalmente em vigor o tratado e Lisboa. Foi o ano da gripe suína, uma pandemia global que assustou muita gente. Foi o Ano Internacional da Astronomia, comemorando os 400 anos das primeiras observações com o telescópio realizadas por Galileu. Foi o ano em que um piloto americano fez uma bem-sucedida aterragem de emergência no rio Hudson, em Nova Iorque. Foi o ano em que foi reparado o telescópio Hubble. Foi o ano em que o filme mais popular – e um dos mais populares de sempre – foi o «Avatar», de James Cameron (que tem formação em Física).  Foi o ano em que morreu Michael Jackson. Ainda se lembram?

Em Portugal, o ano de 2009 foi dominado por eleições europeias ganhas com alguma surpresa pelo PSD e pela vitória muito clara nas eleições  legislativas do PS, encabeçado por José Sócrates, embora perdendo a maioria absoluta que tinha ganho quatro anos antes (o CDS de Paulo Portas teve 10,4% dos votos…).

Em 2022, no fim de uma pandemia, estamos a assistir a uma guerra assustadora entre a Rússia e a Ucrânia. Na economia internacional cresce a inflação. E estamos confrontados com um dos maiores problemas da humanidade -  as alterações climáticas – que nos desafiam a todos. Em Portugal começou o seu mandato de um governo de  maioria absoluta, que dispõe de mundos e fundos vindos da União Europeia.

Não é apenas a cultura, incluindo nela a ciência, que nos vai valer, abrindo-nos as luzes do futuro. É preciso, nestes tempos incertos, encontrar em nós a esperança necessária. A esperança é, de resto, um dos alicerces da cultura. Longa vida ao «As Artes entre as Letras»!

Carlos Fiolhais


 

O CLIMA E O HOMO SAPIENS

 Minha contribuição para o livro «1001 Vozes pela Sustentabilidae» (Oficina do Livro/ISCTE):

A Humanidade está confrontada com um dos maiores desafios da sua história. Graças à acumulação de inúmeros trabalhos científicos, compilados e analisados pelo IPCC, o Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas da Organização das Nações Unidas - ONU, não restam hoje dúvidas de que:

1)      O nosso planeta está a aquecer. A temperatura média à sua superfície é de 1,2 graus Celsius (ºC) acima do nível pré-industrial.

2)      Esse aumento deve-se à acção humana, designadamente à emissão maciça dos gases de efeito estufa, dos quais os mais importantes são o dióxido de carbono, o metano e o óxido nitroso.

Os registos são seguros e a física das alterações climáticas está bem estabelecida: o japonês Syukuro Manabe e o alemão Klaus Hasselmann, autores de modelos computacionais suficientemente realistas para sustentar as conclusões atrás formuladas, foram justamente premiados com o Nobel da Física de 2021.

Os chamados negacionistas das alterações climáticas, aos quais de vez em quando os média continuam a dar voz, ignoram tanto os dados, que estão à disposição de todos, como o método científico, que infelizmente só uma minoria compreende. O consenso na comunidade científica é, nesta altura, bastante sólido, apesar de haver uma ou outra «ovelha tresmalhada». E esse consenso tem sido transmitido à sociedade, apesar de haver, fora da ciência, quem persista quer em rejeitar a ciência quer em invocar a ciência em defesa das suas desrazoáveis posições. Nesta como em tantas outras questões da nossa vida, há interesses instalados que fazem tudo o que podem para se manterem. Na comunidade científica e na larga faixa da população que nela confia, a questão não é, neste momento, nem a realidade das alterações climáticas nem a sua origem, mas apenas as melhores medidas a tomar e o grau de otimismo ou pessimismo que se pode ter a respeito da sua boa e rápida execução.

Estamos ainda a tempo impedir o que pode ser uma catástrofe: se a temperatura do planeta subir 3 ºC  acima do referido nível, prevê-se que haja uma razia de cerca de 70 por cento da actual biodiversidade. Muito provavelmente, nesse cenário a espécie humana não perecerá, dada a sua enorme capacidade de adaptação, mas teria de viver de um modo muito diferente de hoje, já que estamos absolutamente dependentes do nosso meio ambiente, em particular dos seres vivos que partilham esse meio connosco.

No Acordo de Paris, assinado em 2015, tinha ficado estabelecido que o acréscimo da temperatura média do planeta não deveria em caso algum subir acima do limiar de 2 ºC, não indo desejavelmente além de 1,5 ºC acima do nível pré-industrial. Ora, actualmente esse acréscimo de temperatura é 1,2 ºC e, segundo o relatório divulgado em Agosto passado pelo grupo de Ciências Físicas do IPCC, que servirá de base ao próximo relatório deste organismo, o sexto, a sair em 2022, o objectivo de 1,5 ºC encontra-se seriamente comprometido.

Sabendo o que sabemos, porque é os países não reduzem as suas emissões de gases de efeito estufa, em particular as de dióxido de carbono? Há tentativas mais ou menos generalizadas para abrandar essas emissões, caminhando em direção ao chamado «net zero» de dióxido de carbono (situação em que as emissões para a atmosfera compensam as absorções). Mas, no conjunto do planeta, essas emissões continuam a subir, sendo difícil prever quando começará a imprescindível descida. Esse pico depende de medidas que têm necessariamente de ser tomadas à escala global. Vimos, em 2021, na COP26, realizada em Glasgow, as grandes dificuldades de entendimento entre os vários países. O acordo foi mínimo, embora tivesse sido positiva a referência explícita à redução do uso de carvão, um combustível fóssil na base de boa parte do dióxido de carbono libertado, e a lembrança de ajudas financeiras aos países menos desenvolvidos. Desenvolvimento significa consumo de energia. Com efeito, o nosso bem estar depende do funcionamento de centrais de energia, da disponibilidade de combustíveis para veículos de vários tipos e da prática de processos agrícolas e industriais de larga escala: todas essas actividades implicam emissões de gases de efeito de estufa. Os países menos desenvolvidos aspiram naturalmente a desenvolver-se, como outros já fizeram, e, por isso, têm protelado os seus prazos de net zero. Por seu lado, os países mais desenvolvidas já em Paris tinham prometido aos outros ajudas, que ainda não concretizaram.

Apesar de todos os avanços com a disponibilização de energias alternativas, veículos «amigos» do ambiente e de processo agrícolas industriais sustentáveis, não há que ter ilusões: ainda não dispomos de meios que nos permitam substituir completamente os processos tradicionais que têm provocado o aquecimento global. Mas é lícita a confiança no aprofundamento de um caminho comum no sentido da mitigação das alterações climáticas, um caminho que poderá ser ajudado por soluções inovadoras que entretanto surjam. A necessidade sempre aguçou o engenho.

Por muitas iniciativas individuais, locais ou regionais que possam ser tomadas – e elas são e serão sempre louváveis – medidas à escola global afiguram-se imperiosas. Por muito difícil que seja, é preciso celebrar um acordo como o de Paris, mas de conteúdo mais pormenorizado e de execução mais monitorizada. É preciso que a Humanidade, composta por mais de sete mil milhões de indivíduos divididos em cerca de 200 países, actue de uma forma mais concertada e eficaz. As dificuldades que a ONU enfrenta são o natural reflexo da fragmentação política do mundo. Será preciso, contrariando todas as divergências regionais e locais, unirmo-nos para responder a um desafio que diz afinal respeito a todos. Como não há outro planeta para onde ir no futuro previsível, temos de cuidar daquilo que o papa Francisco chamou «casa comum». A ciência fornece conhecimentos, a tecnologia instrumentos, mas o governo da «casa comum» é um assunto de política e não de ciência nem de tecnologia.

O problema das alterações climáticas é mais grave em Portugal em comparação com outros países europeus, por nos situarmos no Sul da Europa, uma região muito vulnerável a períodos de seca (que estão associados a maior risco de incêndios florestais), e por possuirmos uma extensa zona costeira, exposta a tempestades e sujeita ao aumento dos nível das águas do mar. Se é certo que temos algumas condições naturais para substituir energias convencionais por energias alternativas (hídricas, eólicas e solares), não é menos verdade que só demos alguns passos num longo caminho. Os problemas são múltiplos e complexos. De resto, não dependemos só de nós: os países ou se salvam em conjunto ou pura e simplesmente não se salvam, pois o sistema climático não conhece fronteiras.

O sector da ciência, tecnologia e ensino superior, ao qual estou mais ligado, tem dado valiosos contributos para o reconhecimento e resolução do problema das alterações climáticas, mobilizando-se tanto para fazer diagnósticos como para propor soluções. Esse sector deve continuar a fazer o que faz melhor, isto é, deve continuar a fazer ciência e tecnologia, transmitindo-a não só às gerações mais novas, mas também a todos os cidadãos, fazendo com que o conhecimento seja apropriado pela sociedade em geral. Mais do que medidas voluntaristas – como deixar de oferecer carne nas cantinas – o mais importante será conceber e concretizar políticas científicas em cada instituição que levem em conta as alterações climáticas, dando especial atenção ao alargamento da cultura científica. Tão importante como fazer ciência é transmiti-la a uma sociedade que depende criticamente dela, embora nem todos tenham consciência disso.

As instituições portuguesas podem, claramente, fazer mais. O Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, que tem a tutela das unidades de investigação e das escolas de ensino superior, tem andado bastante alheado do problema, deixando-o principalmente entregue a dois outros Ministérios, o do Ambiente e Acção Climática e o da Economia e Transição Digital. Os governos têm enchido a boca de ciência e tecnologia, mas, de facto, não têm feito muito por elas. Basta reparar na posição baixa de Portugal no ranking das nações europeias no que respeita ao investimento em ciência e tecnologia: segundo os números mais recentes, Portugal investe apenas 1,6 por cento do PIB, ao passo que a União Europeia investe em média 2,3 por cento. Há em Portugal um discurso oficial, oriundo da União Europeia, que mantém a questão climática na agenda pública, mas não há o correspondente investimento na ciência e tecnologia. O que é preciso fazer?  Investir mais em ciência e tecnologia, usando para isso os fundos comunitários que estão à nossa disposição, e definir uma política nacional de ciência e tecnologia que contemple as alterações climáticas como uma área prioritária. Esse investimento tem de ser público, mas tem também de ser privado, pois a contribuição em investigação e desenvolvimento do nosso sector empresarial ainda deixa a desejar no cotejo com o quadro europeu.

Concluo com uma nota optimista, tentando contrariar algum alarmismo excessivo que por vezes se ouve. Os cientistas tendem a ser optimistas porque sabem que o conhecimento se acumula e que surge amiúde conhecimento disruptivo com consequências sociais de grande alcance (é isso precisamente o que significa «inovação»). Como morei na Hölderlinstrasse em Frankfurt am Main, na Alemanha, quando fiz o doutoramento em Física no início dos anos 1980, prefiro dar voz ao poeta romântico alemão, Friedrich Hölderlin, que disse: «Onde cresce o perigo surge também a salvação». Esse é precisamente o título de um livro do astrofísico e ecologista franco-canadense Hubert Reeves (Gradiva, 2020), que alerta para a falta de «saúde» da Terra. Temos a obrigação de ser fiéis ao nome da nossa espécie, homo sapiens. Não se entenderia se não usássemos a nossa inteligência em nossa defesa… O mundo está um sítio perigoso? Sim, mas se formos sábios, poderemos salvá-lo, salvando-nos.

 

Carlos Fiolhais

Carlos Fiolhais (n. 1956) licenciou-se em Física na Universidade de Coimbra, UC (1978) e doutorou-se em Física Teórica na Universidade Goethe, Frankfurt (1982). É professor catedrático aposentado de Física da UC. É autor de mais de 60 livros pedagógicos e de divulgação científica e de centenas de artigos científicos, pedagógicos e de divulgação. Foi director da Biblioteca Geral da UC e Coordenador da Área do Conhecimento da Fundação Francisco Manuel dos Santos. Dirige o Rómulo - Centro Ciência Viva da UC e a colecção Ciência Aberta da Gradiva. Ganhou, entre outros, os prémios: José Mariano Gago da SPA (2018), Ciência Viva-Montepio (2017), o Globo de Ouro de Mérito e Excelência em Ciência da SIC (2005) e a Ordem do Infante D. Henrique (2005).

NOVA ATLANTIS

 “Atlantís” disponibilizou o seu número mais recente (em acesso aberto). Convidamos a navegar pelo sumário da revista para aceder à informação.

Imprensa da Universidade de Coimbra

Atlantís - review

v. 45 (2022)

Sumário

https://impactum-journals.uc.pt/atlantis/index

[Recensão a] MONTERO, Santiago: Prodigios en la Hispania romana, Madrid, Edição de Guillermo Escolar, 2020, 350 pp. ISBN: 978-84-18093-58-6

José d'Encarnação

[Recensão a] CURRÁS REFOJOS, Brais Xosé: Las sociedades de los castros entre la Edad del Hierro y la dominación de Roma. Estudio del Paisaje del baixo Miño, Bibliotheca Praehistorica Hispana, Vol. XXXV, Madrid, Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 2019, 541 pp. ilustradas, ISBN: 978-84-00-10592-1

João Pimenta

[Recensão a] DJURSLEV, Christian Thrue: Alexander the Great in the Early Christian Tradition. Classical Reception and Patristic Literature, London, Bloomsbury Publishing, 2020, X + 232 pp. ISBN: 978-1788311649

Aurelio Pérez Jiménez

[Recensão a] ROBERTS, Julia, SHEPPARD, Kathleen, HANSSON, Ulf R. & TRIGG, Jonathan R. (eds.): Communities and Knowledge Production in Archaeology, Manchester University Press, 2020. 272 p. ISBN: 978-152-613-45-54

Sérgio Alexandre da Rocha Gomes

Renato Pereira Brandão - Expansão Ultramarina Portuguesa

domingo, 8 de maio de 2022

Retorno do Mar

Retorno do mar e subo a ladeira da Fonte, com a mãe a gritar na lomba: Devia estar um dia de calor...! e o pai todo teso e cheio de nove horas a responder-lhe: – És uma isolada! Não sabes o que é mundo! Um dia em cheio de praia! Até a areia queimava nos pés! Subimos para a aldeia à ilharga da cidade, cansados e ignorando o porvir. Subimos para o céu azul-escuro, com o sol perecendo atrás de nós num vermelho-papoila. Neste alto, o que parte e se perde volta assiduamente: a este, uma torre branca sobre uma outra colina; no poente, o sol, e, na estrada sinuosa, os homens. Neste alto, o sol foge-nos, ao fundo, do rosto, os ventos vergam os cedros e os ciprestes, e, teimosamente, fustigam os estores e são temidos pelo peito. Na aldeia, há um homem imaculado que está vivo e desce, agora, a escada exterior para a serventia da casa. É levado, nos ombros dos conterrâneos, para a eternidade. Um homem que quis a vida, que escondeu dos meus olhos os gritos e as lágrimas. Esse homem iletrado é o poeta que sussurrava à mãe que antes queria andar a cavar ao sol mais ardente, que me reprimia com um sorriso, enquanto, agonizante, eu lhe fazia a barba na sala do hospital de Chão de Peniscos: Não tremas, rapaz! Ó tremeliques… O passado é esta oliveira que vejo permanentemente sob o céu; esta oliveira, centenária e buliçosa, com um manto de flores miúdas ao redor; esta oliveira, amanhã azeitona...Chorei tanto, em novembro, depois de morreres! No reboque do trator, carregado de sacos de azeitona e folhas, pelos caminhos enlameados e pelo frio cortante do ocaso, chorei tanto! Com os braços moídos, abatidos pelas varas de eucalipto, chorei tanto! Deitado, sobre os sacos e de olhos fechados, chorei tanto para dentro de mim! Por vezes, abria os olhos e via, de soslaio, a tristeza da mãe. A poesia és tu, pai, são os teus passos. Eu escrevo para que a chuva me leve às nuvens, a escuma do mar me leve para lá da linha do horizonte, o sol-pôr no mar me leve à serra e as flores dos jacarandás me levem ao fundo da terra. É para Deus que me volto nas injustiças e na imperfeição do mundo, procurando, inutilmente, respostas. Um dia, um professor contou-me que, no seu estágio, deu aulas ao sétimo ano de escolaridade. Nesse ano, teve um aluno que padecera de um tromboembolismo, durante o parto, e ficara com uma parte do corpo paralisado. Como era ansioso, escrevia e apagava logo o que escrevia, no quadro, enquanto o menino se lamentava, numa voz arrastada: Ó professor, não apague o quadro! O professor disse-lhe, então, para passar pelo seu colega do lado. No final da aula, o menino virou-se às murraças e às palmadas à mesa, quase até lhe faltar o fôlego, e a gemer:Ó professor, qualquer dia parto-o todo… O professor ficou siderado, impassível e nada fez. Quando a atmosfera da sala de aula amainou, dirigiu-se ao menino e perguntou-lhe: Porque fizeste isto? Com as lágrimas a caírem-lhe dos olhos, sob os óculos graduados, a soluçar e apontando para o olho, ele disse:Eu sou quase cego de um olho! Eu escrevo só com uma mão!, enquanto na palma da mão esquerda e próximo do dedo mindinho, mostrava uma escoriação que ia inchando. Quando o professor saiu da escola, era de noite, as lágrimas caíam-lhe pelo rosto, e, como um cego, questionava, em vão, Deus. Estava no início do ano letivo...Volto à frondosidade das oliveiras perenes, aos campos, em baixo, ao barro que é o leito das ondas de luz, o peito com a cruz cinérea, o manto da névoa do alvor e o canto da pedra à chuva. 

A Prima Bette de Honoré de Balzac

[A Prima Bette é o último romance de Honoré de Balzac. Aproveitando que tinha começado a ler uma versão muito elegante do livro publicada re...