terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Hospitais da CUF e Grupo Saúde terminam acordo com a ADSE

Meu artigo de opinião publicado ontem no "Jornal as Beiras" (será que "água mole em pedra dura tanto dá até que fura" a malvadez da ADSE?):

 “Como se morre de velhice / Ou de acidente ou doença / Morro, Senhor, de indiferença / 
Da indiferença deste mundo / Onde o que se sente e se pensa / Não tem eco, na ausência imensa.” 
(Cecília Meireles). 

Tempos atrás, depois de ter estado em banho-maria desde1983, os cônjuges de beneficiários titulares da ADSE foram expulsos por usufruírem de magérrimas reformas do Centro Nacional de Pensões, ainda que mesmo doentes crónicos com elevada invalidez sendo recambiados para um Sistema Nacional de Saúde a rebentar pelas costuras por as actuais intervenções cirúrgicas estarem ainda mais sujeitas a uma demora porque desamparadas, em seu trôpego caminhar, pelo bastão da presidente da Ordem dos Enfermeiros.

Esta insólita situação mereceu, da minha parte, doze artigos críticos publicados neste jornal e por mim transcritos no blogue “De Rerum Natura”, de que sou um dos seus co-autores. De permeio, escrevi uma “Carta Aberta ao Presidente da República” (“Diário as Beiras”, 26/10/2007) por entender, com respaldo em Victor Hugo, que “os velhos têm tanta necessidade de afecto como de sol”.

Nela reportei-me a uma exposição que fiz à ADSE (02/12/2016) em que apresentei um relatório médico emanado do Centro de Reabilitação Rovisco Pais atestando a necessidade de minha mulher “continuar de vigilância médica e tratamentos constantes por tetraplegia incompleta secundária e mielomalacia”, solicitando esclarecimento se a legislação sobre as restrições levantadas à continuação de acesso à ADSE se aplicava apenas a futuras inscrições, nunca em prejuízo de antigas inscrições, ou seja sem efeitos retroactivos, numa questão controversa, em que os próprios juristas divergem, atingindo minha mulher nela inscrita há decénios na sua qualidade de cônjuge de beneficiário.

 A ADSE, fazendo fé abusiva da minha hipotética condição de ignaro, endossou-me para a leitura da legislação que suportava essa medida draconiana fazendo-o sem tomar em linha de conta, como escreveu João Miguel Tavares, de que “o Direito pode ser a lixívia que se utiliza para remover as nódoas mais difíceis” (“Público”, 10/07/2018).

E se, por ouro lado, como escreveu Garcia Marquez, “nada acontece por acaso” há que encarar a etiologia desta crise e as causas que, porventura, a motivaram como seja a destruição da ADSE em benefício de entidades privadas no domínio da saúde - o bem mais precioso da condição humana. Indo mais ao fundo da questão, seria uma ocasião soberana para os beneficiários serem esclarecidos sobre os motivos que possam tornar, “à la longue”” este organismo insustentável!

Segundo uma auditoria do Tribunal de Contas, a ADSE chegou a financiar o Orçamento do Estado por os funcionários públicos estarem a pagar mais 228 milhões de euros do que seria necessário (“Expresso”, 17/07/2015). Ou seja, de uma situação para a outra pode a ADSE passar de arlequim de ricas vestes a histrião pobretana.

Os professores têm de ser professores, não têm de ser missionários!

Extracto do texto "Do colégio dos betinhos à escola dos coitadinhos" da autoria de António Duarte e publicado no blogue "Escola Portuguesa". Vem ele a propósito do novo "ranking de sucesso".
"(...) temos o fado triste da escola dos meninos pobres, que aí vão em busca da comida e do afecto que muitos não têm em casa, e dos professores-missionários dedicados a uma causa que, embora podendo somar todos os dias pequenas vitórias está, no seu todo, invariavelmente perdida. Porque a luta contra a pobreza, a fome, o desemprego, a marginalidade, a violência doméstica e outras realidades que enchem o quotidiano destes alunos não se combate na escola. As refeições escolares, os apoios sociais e psicológicos, os programas de tutoria, os mediadores culturais, tudo isto são paliativos que tentam remediar, mas não resolvem os problemas de fundo. 
Claro que este fadinho do professor-missionário encaixa bem na lógica economicista e neoliberal do “menos Estado”: para quê ambiciosas políticas sociais, se podemos resolver os problemas todos através da escola, com professores faz-tudo, que tanto dão a sopa como tentam ensinar a tabuada e, com sorte, ainda vão a casa saber do menino quando ele não aparece na escola? 
Afinal de contas, estes miúdos pobres não têm os “sonhos”, as “ambições” dos outros, os dos colégios da Linha, pelo que alimentá-los e entretê-los na escola já parece um programa satisfatório – pelo menos será melhor do que o ambiente que têm em casa 
Em boa verdade, os professores não têm de ser missionários, muito menos de fazer de pais ou mães dos alunos carenciados. Tal como todas as crianças têm direito a uma família que as ame e que cuide delas, e se demasiados miúdos a não têm, crescendo negligenciados e desamparados, então são o Estado e a sociedade que estão a falhar. E o desemprego, a doença, as dificuldades das famílias monoparentais com baixos rendimentos, as carências habitacionais nas grandes cidades, tudo isto são problemas sociais que requerem respostas prontas e adequadas – mas não é a escola que as pode dar. 
Os professores destas escolas – cujo trabalho é incomparavelmente mais difícil do que o das que lutam pelos primeiros lugares dos rankings – fazem o que podem pelos seus alunos. E fazem bastante. Mas o muito que fazem fica muito aquém daquilo que são as exigências de um currículo nacional a que estes alunos não conseguem aceder. Como as médias negativas dos resultados dos exames claramente demonstram. 
A escola convertida em centro de assistência social não cumpre a sua verdadeira missão com estes alunos – limita-se a tentar fazer, de forma insuficiente e limitada, a intervenção que caberia a outras entidades. 
E não, ao contrário do que afirma João André Costa, esta não é a melhor escola do país. Mas poderá sê-lo – no dia em que se puder dedicar realmente a educar e instruir os seus alunos, em vez de se preocupar em saber se passaram bem a noite ou tomaram o pequeno-almoço."

A nova orientação do PISA: medir as competências de cidadania

Neste momento já avançado do século, não podemos deixar de conhecer o poder (absoluto) que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) tem na determinação e gestão do currículo escolar à escala global. É um poder que, tendo sido progressivamente delineado e consolidado depois da Segunda Grande Guerra, chegou a um estado de expressão plena. É um poder que avança sem debate intelectual de relevo, que é aceite e legitimado pelos países, regiões e escolas, e que as populações acolhem com entusiasmo.

Ora, a OCDE decidiu que, de tudo o que a escola ensina, o que deveria ser avaliado com fins de comparação de países, regiões e escolas, seriam as competências funcionais para o mercado de trabalho em três áreas disciplinares: língua materna, matemática e ciências. E, assim, nasceu o Programa Internacional de Avaliação dos Estudantes (PISA), que, estrategicamente, fez mudar os currículos nesse sentido.

Imagem recolhida aqui
Mais recentemente, a OCDE vem dizendo que, estando todo o conhecimento no google, na internet, a função da escola deve ser outra: levar os alunos a desenvolverem "competências de cidadania". Nesta sua nova cruzada, começou por dar atenção às competências financeiras.

Está claro que criou os documentos necessários para que cada país pudesse assumir esse "superior desígnio", sempre, evidentemente, em colaboração com "parceiros credenciados". O documento "Financial Education in Schools", publicado em 2012, é a base.

Criou também um portal intitulado "International Gateway for Financial Education" que constitui um banco centralizado de dados de educação financeira, recolhidos à escala global que acompanha e dá sustentação à "International Network on Financial Education" (INFE). Esse portal proporciona, a quem interessar, "acesso a uma ampla gama de informações, recursos, pesquisas e notícias sobre questões e programas de educação financeira em todo o mundo."

A ordem natural das coisas era que a educação financeira passasse a ser objecto de avaliação internacional, no âmbito do PISA. E já o foi por duas vezes: em 2012 e em 2015 (ver aquiaqui e aqui).

Imagem encontrada aqui
Portugal ainda não entrou na avaliação, mas não demorará, até porque o empenho luso nesta matéria tem sido inexcedível.

O "Plano Nacional de Educação Financeira", acolhido pela Direcção-Geral da Educação, e a criação de um "Plano de Educação Financeira"
têm sido devidamente concretizado em referenciais de ensino, materiais de apoio, programas de formação de professores, instrumentos de avaliação, actividades "pedagógicas", etc. Os resultados estão à vista: para grande alegria de todos, os nossos alunos têm ganhado concursos internacionais.

Mais: temos, agora, não uma, mas duas entidades, lideradas por bancos, a "trabalhar" em pleno nas escolas. E, o mais importante, com a reforma curricular em curso, a "Literacia financeira" encontra-se assegurada no ensino básico, tornando-se obrigatória em pelo menos dois ciclos de escolaridade (ver aqui).

A nossa vizinha Espanha está à nossa frente em termos de voluntarismo nesta avaliação, mas ficou abaixo da média dos catorze países participantes. Isto significa que os seus adolescentes são pouco educados em termos financeiros, uma das coisas que não sabem explicar é, precisamente, o "ba-a-ba" do Banco Mundial: a diferença entre "necessidades e desejos" (ver aqui). Solicitado a comentar este dado, o filósofo José Antonio Marina disse o que, parecendo óbvio, precisa de ser entendido e consciencializado:
"... puede tratarse de una manera de trasladar la responsabilidad desde el sistema financiero hasta los consumidores. De ahí que los detractores recuerden que el aprendizaje de los mecanismos del mundo financiero debe ser, ante todo, crítico".

"Do Inventor de Aldoar à Busca de Vida no Universo" de Manuel Paiva


Extracto de pré-publicação do livro de memórias do físico Manuel Paiva (na foto), Grande Prémio Ciência Viva, que está a sair em português depois de ter saído em edição de autor em francês. O  livro será apresentado a 14 de Março às 18,30h Sede da União de Freguesias de Aldoar, Foz do Douro e Nevogilde Rua da Vilarinha, 1090 4100-513 Porto.  A  apresentação será de Pedro Guedes de Oliveira Professor Emérito da U.Porto. É  um livro concebido para a família e alguns amigos, e que estes, dado o seu evidente interesse, empurraram para a publicação. Entre o relato íntimo da juventude, avivado com memórias da Vilarinha (Aldoar), e a conquista espacial, de que o autor foi e é também actor, colorido com o céu dos Estorninhos, um relato apaixonante que se lê dum fôlego.  (Edição portuguesa de "Des Châteaux en Espagne de mon Père à mon Pays des Rêves Bleus" traduzida por Joaquim Pinto da Silva).


A casa da noiva 


 A mais antiga recordação que retenho do meu pai foi quando o vi montar o cavalo da carroça da Cooperativa de Aldoar, era eu mais novo que Basile. O cavalo atrelado cumpria a mesma função das camionetas de hoje. Essa Cooperativa foi fundada pelo irmão da minha avó materna, Germano Lopes Martins, nascido na casa de meus bisavós, a 7 de janeiro de 1871, na Rua da Vilarinha, em frente daquela onde passei a minha infância. Participou no advento da República, da qual foi Ministro, era progressista, anticlerical, franco-mação… participou na elaboração das leis de separação da Igreja do Estado, um enorme passo para a democracia. É extraordinário que apenas tenha sabido disto ao percorrer uma enciclopédia, em Celorico da Beira, quando terminava, com a coautora, a redação de “Diálogos sobre Portugal”[1]. O meu tio-avô não tem descendência direta (das duas filhas, uma teve um filho que também já morreu) e conservou uma certa nomeada. Aqueles que queiram saber um pouco mais sobre este membro da família, pelo qual tenho uma grande admiração, bastará escreverem o seu nome no Google!

 O meu pai, tema central deste livro, provinha de uma família de comerciantes muito católicos que não podia ser senão conservadora. O meu avô materno, também ele mação, e a minha avó materna já tinham falecido quando os meus pais se casaram, a 21 de julho de 1930. A Bélgica festejava o seu centenário. Nesse dia, tornei-me uma possibilidade, mas com uma probabilidade inferior a 1 a dividir por 1 seguido de, pelo menos, trinta zeros e, se não posso dizer que foi da minha vontade, pelo menos, agarrei a oportunidade! As condições estavam assim reunidas para que a minha educação beneficiasse das reuniões familiares onde as discussões políticas eram tudo menos harmoniosas... Como nasci durante a derrota nazi em Estalinegrado não pude seguir os debates familiares nesse ano. No entanto, sei que o meu pai, como aliás a maior parte da família, era anglófila, contrastando com o ditador Salazar que não escondia a sua admiração por Mussolini, o fascista italiano, cuja foto com dedicatória podia ver-se na sua secretária. De Hitler, Salazar tinha recebido uma viatura blindada que ficou célebre quando, em 1961, seis prisioneiros políticos a utilizaram para se evadir da prisão de “alta segurança” de Caxias. Esse é também o ano do início da guerra colonial, que durou treze anos e que marcou profundamente a sociedade portuguesa… mas tudo isso me desvia da intenção deste livro.

 Tive muita sorte na vida. Felizes ocorrências associaram-se a probabilidades bem maiores que aquela de que vos falei atrás. Uma dentre elas está ligada ao momento do meu nascimento, que coincidiu com o curto período da vida de meu pai em que os negócios lhe correram de feição. Para se compreender o que se segue, preciso de vos falar um pouco da sua personalidade e do pouco que conheço da sua infância. O meu pai tinha três irmãs e uma meia-irmã. A esta chamávamos-lhe Dindinha. Foi fruto de um primeiro e curto casamento da minha avó, conhecida como Dona Constança. No dia em que quis saber um pouco mais da nossa família, soube que Dindinha tinha incendiado todas as fotografias que possuía.

 As três irmãs eram mais novas que ele, todas muito boas pessoas e que eu conheci bem. O pai dele, de quem me falava sem particular afecto, era gordo e um inveterado fumador que tinha o mau hábito de acender os cigarros na pirisca do cigarro que tinha acabado de fumar. Logo que o meu pai chegou à idade de experimentar os prazeres do fumador, Dona Constança, que ele adorava, obrigava-o a abrir a boca onde ela introduzia o seu nariz, transformado em detector de fumo. Aos 94 anos, o meu pai orgulhava-se ainda de nunca ter fumado. A sua família paterna era oriunda de Braga. Não sei onde nasceu o seu pai, dono de uma casa de ferragens, no Porto, na Rua do Almada. Conheci o seu irmão, o meu tio-avô paterno, o Tio Paiva, que era proprietário da Casa da Noiva, na Rua dos Clérigos, no centro do Porto, que creio ainda existe. Essa Casa da Noiva teve um papel importante na formação de meu pai. Como o Tio Paiva não tinha filhos e ainda por cima era o padrinho do meu pai, pareceu a Dona Constança que seria um bom investimento a prazo se o seu filho único começasse a preparar a sua herança indo trabalhar com o Tio Paiva. Foi uma muito má aposta.

Tinha já contado no meu outro livro, de tiragem muito limitada, “Voyages dans l’Espace-temps d’Estorninhos”[2] (“Viagens no Espaço-Tempo dos Estorninhos”) que, aos 14 anos, eu não ligava nada à escola. Recordo-me de ter visto o boletim escolar do meu pai quando ele tinha a mesma idade que eu e reparei que não era melhor que o meu! Tive então a boa ideia de confidenciar isto à minha mãe que me desaconselhou de o repetir a quem quer que seja. Felizmente isso agora prescreveu… não sei se um melhor boletim teria mudado a vida de meu pai, mas o que é um facto é que Dona Constança decidiu retirá-lo da escola e mandá-lo trabalhar na loja do seu padrinho. Pelas descrições do meu pai, morava num sótão húmido e sem aquecimento, e, muito cedo de manhã, começava a jornada a varrer o passeio à frente da Casa da Noiva. Enquanto varria e tossia, era motivo de risota dos seus camaradas a caminho do liceu ali perto. Foi por essa altura que Dona Constança disse ao seu filho: “o teu padrinho vai certamente perguntar-te o que queres receber como prenda de Páscoa. Vais responder que gostarias que fosse umas calças”. Dona Constança tinha acertado na previsão da pergunta do Tio Paiva mas não na possibilidade de meu pai, audaciosamente, a modificar, visto que ele disse ao seu padrinho: “gostava de ter uma raqueta de ténis”. E a sua vontade foi respeitada, chegando a casa com uma bela raqueta de ténis. Imaginam a indignação de Dona Constança, pois, para além de ter levado uns fortes raspanetes, o meu pai teve de explicar ao seu padrinho que tinha mudado de ideias e que preferia umas calças, tendo sido efectuada a troca. Termino este triste parêntese referindo que, pouco tempo depois, o Tio Paiva vendeu a sua loja e passou a viver dos seus rendimentos. Conheci bem a sua mulher, a quem chamávamos Tia Maricas, que pesava mais de 100 kg e que morreu aos 99 anos, tendo assim tempo suficiente para gastar toda a herança.

 Os 400 pintainhos holandeses 

 Tendo falhado o cálculo de Dona Constança, desconheço o percurso escolar do meu pai até ao seu primeiro emprego. Deveria ter seguido o da Escola de Comércio do Porto, visto que ele aprendeu inglês e francês, que, aliás, escrevia particularmente bem. Além disso, pagou do seu bolso aulas de alemão. Da sua vida de jovem adulto antes de casar, não conheço quase nada, a não ser que gostava muito de cinema, na altura, mudo, e que sonhava vir a ser ator. O seu ídolo era Harold Lloyd, considerado, com Charlie Chaplin, a quintessência do cinema cómico. Harold Lloyd foi o homem dos óculos de tartaruga e das lentes redondas e uma das suas cenas mais conhecidas é a do relógio em cujos ponteiros ele ficou pendurado. Lembro-me de uma foto do meu pai pendurado nos ramos da grande nespereira a imitar o grande ator, com o qual fisicamente se assemelhava.

 Quando nasci, o meu pai era o chefe-contabilista da casa Ferreirinha, onde a sua probidade era apreciada (Ferreirinha é ainda uma das grandes casas produtoras de Vinho do Porto). O meu pai poderia ali ter ficado até à reforma, mas quis antes montar a sua própria empresa. Quando a Irina veio pela primeira vez a Portugal, tivemos o privilégio extraordinário de beber um Porto centenário que o meu pai tinha recebido aquando da sua despedida. Pelo que sei, foi a partir desse momento que iniciou uma série de tentativas de enriquecimento através da criação de empresas, que altura não chamávamos ainda de “start-up’s”. Foram alguns destes episódios que fizeram sorrir Jorge e Eeva e que aqui vos vou contar, enquanto que a ExoMars 2016 se aproxima do seu destino.

 Não conheço a data exata da sua saída da Ferreirinha, mas sei que foi durante a guerra. As garrafas de Porto, individualmente protegidas por uma embalagem de palha, partiam de barco para os EUA. O meu pai decidiu deixar a Ferreirinha e criar uma sociedade para produzir essas embalagens. Suponho que, depois de Dona Constança ter morrido de pneumonia, em 1942, uma boa parte da herança tenha sido transformada em embalagens de palha. A versão do meu pai é que, devido a um defeito de fabrico das garrafas, algumas chegaram partidas aos EUA, as importações foram suspensas e a sua empresa à falência. Entretanto, o dinheiro ganho foi utilizado nalgumas transformações na casa onde nasci, que pertencia à minha mãe e às suas duas irmãs, que moraram sempre connosco. Elas tinham também um irmão mais novo, casado, mas sem filhos, que teve um papel importante na família. Ao mesmo tempo que o meu pai estava desempregado, o meu tio tornava-se uma pessoa conhecida na cidade. Possuía, por exemplo, um dos carros mais caros da época, um Jaguar. Foi graças a ele que o meu pai encontrou emprego, como contabilista numa empresa onde ele trabalharia até à sua reforma. O meu tio sempre foi uma pessoa encantadora, muito complacente, nem sempre sério, mas de uma grande generosidade para com os seus sobrinhos. Beneficiei muitas vezes dessa generosidade. Sem ele, nunca teria obtido o passaporte que me permitiu, como turista, sair de Portugal.

 A primeira vez que ouvi falar de um negócio do meu pai, devia ter cinco anos. Foi na Praia da Circunvalação, uma praia muito conhecida junto ao Castelo do Queijo, no Porto, onde muitas famílias alugavam barracas por todo o mês de agosto. Estendiam-se umas ao lado das outras, pelo que nós tínhamos duas pegadas. Tinham-me prevenido que não podia falar com a família da barraca do lado esquerdo. Foi muito mais tarde que soube que era a família de um sócio de meu pai num negócio de produtos de tinturaria; o sócio em questão estava preso pois tinha roubado o meu pai. Não resisto a fazer uma divagação sobre a barraca da direita: essa era ocupada pela família de um cirurgião, cujas relações com a nossa eram, para uma criança, das mais confusas. Os acasos da vida fizeram com que a minha mãe e a mulher do cirurgião tenham estado grávidas ao mesmo tempo, de mim e daquele que haveria de ser o meu único amigo de infância. Foi aí também que vi, numa das barracas vizinhas, uma rapariga da nossa idade toda nua, tendo ficado espantado por ela não ter pilinha. O meu amigo disse-me: “as raparigas são assim”. Ainda mantivemos o contacto durante a nossa adolescência e não fiquei muito surpreendido quando ele foi morar para uma casa da Opus Dei. A última vez que o vi foi durante as férias grandes, no Verão de 1974. Os meus pais convidaram-no lá para casa e meu pai foi direito ao assunto: “não será mais fácil respeitar os votos de pobreza e obediência que o de castidade?”. Por todos passou um sorriso amarelo, nuns mais que noutros. Ao escrever estas linhas não resisti a fazer uma procura com o seu nome no Google. Logo à primeira entrada encontrei o seu nome, podendo mesmo ler a sua data de nascimento, a da sua ordenação (suponho que padre), o seu número de telemóvel e a sua morada na Rua da Vilarinha. O número da porta leva-me a pensar que ele deve morar perto da casa onde morou Manoel de Oliveira[3], o maior cineasta português de sempre, falecido há pouco, com mais de 100 anos de idade. Pequeno mundo este da paróquia de Aldoar!

O primeiro negócio de meu pai, do qual posso esboçar verdadeiramente as grandes linhas foi aquele conhecido por Aviário da Vilarinha. Para percebermos a atmosfera torna-se necessário descrever o cenário. Vilarinha é ainda o nome da rua onde se encontra a casa da minha infância assim como duas outras belas mansões que o meu bisavô materno contruiu em meados do século XIX. A nossa casa tinha todas as características de casa agrícola, com animais, uma horta, um pomar e um grande terreno à volta. Isabelle et Nathalie conheceram-no bem tal como ao seu enorme galinheiro que, durante as férias grandes, os sete primos transformavam em sala de espetáculos para as peças de teatro, fruto da sua imaginação. Era também no galinheiro que estava o grande baú com as roupas velhas que inspiravam os prometedores cenaristas, servindo ao mesmo tempo de disfarces para os jovens atores. O público, composto por todos os moradores, incluindo a cozinheira, demonstrava sempre admiração e entusiasmo. Agora é a minha irmã que ali mora, uma pequena maravilha de quadro luxuriante de verdura e flores.

 Nos anos 50 não havia senão campos entre a nossa casa e o mar, onde agora se encontra o Parque da Cidade. Para ir ao centro da cidade, era necessário chegar à paragem do eléctrico que passava na Avenida da Boavista, no fim da Rua de António Aroso (nome também da paragem). Entre a casa da família Aroso (que era quem cultivava as terras ali à volta) e a nossa, não havia rigorosamente mais nada. Aos oito anos, quando fui pela primeira vez à escola, percorria sozinho o caminho, em terra batida, lamacento no Inverno e poeirento no Verão, onde raramente nos cruzávamos com alguém. O meu pai percorria-o também duas vezes por dia, nos dois sentidos, e contavam-se pelos dedos os outros passantes. Curiosamente, não me recordo de alguma vez ter sentido medo, mesmo tendo por ali passado pouco tempo depois de um marido ciumento ter ali assassinado a mulher à facada. Durante os dias seguintes, ainda se viam traços de sangue no chão e nos muros. A mulher assassinada era filha dos agricultores que viviam entre a igreja e a casa dos meus bisavós e onde todos os dias íamos comprar leite. O que me sossegou foi saber que o padre tinha ainda chegado a tempo de administrar a extrema-unção à moribunda. Antes de ir à escola, tinha já seguido a catequese para a minha primeira (e quase última) comunhão, e deduzi que, após passar um quarto de hora doloroso, a jovem assassinada se encontrava agora no Purgatório, a sala de espera do Paraíso. Voltemos ao Aviário da Vilarinha: não creio que o meu pai tenha feito um “business plan” para o seu negócio. Durante o Verão de 1950, seguiu de perto a construção do edifício, apoiado nas suas intuições de engenheiro e arquiteto. Tenho lembrança de ter ouvido que o galinheiro iria acolher 400 pintainhos da raça Leghorn que chegariam da Holanda, vindos de avião. Tornar-se-iam galinhas brancas excelentes poedeiras, de tipo galinhas dos ovos d’ouro. Aquilo que me impressionou mais foi elas chegarem de avião, e eu que tanto sonhava já em voar. Recentemente não resisti a ir verificar a pertinência da escolha da raça, consultando a Wikipédia. Ali pode ler-se que “as Leghorns são boas poedeiras, com uma média de 280 ovos por ano”. Ainda segundo a Wikipédia, o nome Leghorn provém da deformação, pelos americanos, do nome da cidade de Livorno, na Itália, de onde provinham as galinhas, em geral brancas, exportadas para os EUA.

As futuras galinhas do meu pai chegaram a Lisboa e, como o tio que tinha um Jaguar tinha também um pequeno Fiat, transformou este último em transporte avícola e foi, com meu pai, buscar os 400 pintainhos. Evidentemente que o meu pai pensou que à volta de metade dos pintainhos não poria ovos e apenas ao escrever estas linhas me dou conta que a razão pela qual ele frequentou um curso elementar de ciências veterinárias foi para aprender a castrar os frangos machos ou, pelo menos, a maioria deles. Sei também que ele pretendia enviar a minha irmã para a Dinamarca, para se formar em avicultura, o que teria comprometido a sua carreira de linguista. Apenas hoje, 67 anos mais tarde, é que compreendo o sentido de uma história que ele me contou e que ficou esquecida nos confins da minha memória: durante os trabalhos práticos do seu curso de castração aviária, o veterinário pediu um voluntário para pôr em prática os seus ensinamentos. Evidentemente que o meu pai se ofereceu e, quando orgulhosamente exibia o par de órgãos retirado, o veterinário felicitou-o pela sua participação, mas explicando à audiência que meu pai acabava de retirar os rins ao frango. Não se justificando um tratamento de diálise, o recentemente nomeado capão viu terminar prematuramente a sua curta vida numa panela em vez de gozar o estatuto de eunuco, bem alimentado e espectador tranquilo das aventuras dos seus confrades.


 Essas lições não se limitaram apenas à castração e os “dons” de cirurgião veterinário de meu pai poderiam ter tido uma influência na minha carreira. Com efeito, alguém notou que uma das galinhas tinha a moela inchada. O meu pai diagnosticou corretamente uma obstrução digestiva e decidiu que se impunha uma intervenção cirúrgica. Pediu à minha mãe o seu estojo de costura e, depois da refeição, a sala de jantar transformou-se em bloco operatório. Todas as potenciais enfermeiras abandonaram discretamente o local e eu fui designado assistente. Meu pai anestesiou a galinha, provavelmente com éter, pegou num par de tesouras de costura e abriu o que se assemelhava a um pequeno saco completamente cheio de milho, que cuidadosamente esvaziou, enquanto que eu segurava vigorosamente a galinha para o caso de ela acordar, e recoseu-a também cuidadosamente. Após alguns dias de quarentena, a galinha recuperada juntava-se aos seus consortes. A história ressoou pela família e eu era o mais surpreso pelo espanto familiar, pois isto tinha sido muito menos impressionante que a matança anual do porco, ou o também anual e pascal sacrifício do peru, que a minha frágil tia Rosinha embebedava com Vinho do Porto, antes de lhe cortar a garganta, em menos de um segundo. Lembro-me muito bem de ouvir o meu pai dizer que eu iria ser cirurgião e não advogado, como ele o imaginou antes, apoiando-se na minha reputação de grande mentiroso. Quase setenta anos depois, reconheço que as suas previsões sobre os meus futuros estudos universitários, antes mesmo de frequentar a escola, foram uma fonte de autoconfiança, mas também me fizeram subestimar o esforço necessário para obter esses diplomas!

Por uma razão que ignoro, mas que suponho ter sido uma má avaliação do mercado e a consequente dificuldade em escoar o produto, meu pai decidiu substituir a produção de galinhas pela de pintainhos, que seriam forçosamente fáceis de vender, pois tinha-os comprado na longínqua Holanda. Vendê-los em Portugal deveria necessariamente reduzir os custos. Adivinham desde já que o estudo do mercado dos pintainhos Leghorn era inconsistente e que provavelmente foi sozinho que concebeu o negócio. Entretanto, antes de falar das consequências da mudança de produto, está na hora de ir dar uma vista de olhos ao que se passa em Marte, ou melhor, à volta de Marte.




[1] “Diálogos sobre Portugal”, de Manuel Paiva e Mariana Pereira, edição de Livros &Leituras, 1998.

[2] “Voyages dans l’Espace-temps d’Estorninhos”, de Manuel Paiva; edição do autor, limitada a 10 exemplares, agosto de 2012.

[3] A Casa de Manoel de Oliveira corresponde aos números 431 a 475 daquela rua e foi classificada como Monumento de Interesse Público, em 2015.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

MAIS IMAGENS ESPECTACULARES DE VULCÕES

Vindas de Victor Hugo-Forjaz:







NOVOS CLASSICA DIGITALIA

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações, com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Todos os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em acesso aberto.

Além do usual circuito de distribuição da IUC, a versão impressa das novas publicações encontra-se disponível em todas as lojas Amazon.

NOVIDADES EDITORIAIS

Série “Humanitas Supplementum" [Estudos]

- Delfim Leão, José Augusto Ramos, Nuno Simões Rodrigues (coords.), Arqueologias de Império (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2018). 381 p.

[Este contributo português para a discussão da ideia de «Império» consiste num conjunto de estudos que abrangem as várias áreas de investigação da Antiguidade: as fontes bíblicas; o caso egípcio; os impérios antigos da Mesopotâmia; o espaço da Anatólia e do território fenício/siro palestinense; as civilizações e sociedades neomesopotâmicas; a Pérsia; o período helenístico. Nos últimos quatro estudos deste conjunto de ensaios, propõe-se uma genealogia conceptual para a ideia de imperium no mundo romano.]

 - Isabella Tardin Cardoso, Marcos Martinho (eds.), Cícero: obra e recepção (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2019). 239 p.

[O livro reúne sete ensaios acerca de Cícero compostos por uma equipa internacional de especialistas neste Autor. Os ensaios distribuem-se entre duas seções: na primeira, estudos de obras de Cícero (os diálogos: Lucullus, De finibus, De oratore, De officiis); na segunda, estudos da recepção antiga e também tardia de Cícero (em Sêneca, em Petrarca, em Erasmo).]

Votos de boas leituras.
Delfim Leão
(Classica Digitalia)
Visite o catálogo completo dos Classica Digitalia.  

RENCONTRES RECHERCHE ET CRÉATION

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Ces Rencontres internationales seront suivies d'un
 
Forum organisé par l'ANR, le Festival d'Avignon et le CNRS
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"Percursos Paralelos, Ciência, Fotografia e História no Conhecimento"

Apresentação do livro CIENTISTAS PORTUGUESES

O meu novo livro «Cientistas portugueses», vai ser apresentado na próxima quarta-feira em Coimbra. Inscreva-se para assistir: www.ffms.pt/cientistasportugueses.






domingo, 17 de fevereiro de 2019

LANÇAMENTO DO “COLÓQUIO DOS SIMPLES” DE GARCIA DE ORTA



Na próxima terça-feira, dia 19 de Fevereiro, pelas 18 horas, no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, situado no piso 0 do Departamento de Física da FCTUC, Alexandre Quintanilha, professor jubilado de Biologia da Universidade do Porto e deputado virá apresentar o livro “Colóquio dos Simples” de Garcia da Orta, que é considerado o primeiro tratado de botânica escrito de raiz em Portugal (saiu em Goa em 1563).  Este livro insere-se na colecção em 30 volumes “Obras  Pioneiras da Cultura Portuguesa”,   que tem vindo a ser publicada pelo Círculo de Leitores, um projecto dirigido por José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais, sob a égide da Universidades de Coimbra e da Universidade Aberta, que se destina a divulgar ao público de hoje as obras que foram escritas pela primeira vez em português nas mais variadas disciplinas e temas.  Estarão presentes, para além dos coordenadores gerais do projecto, o botânico Jorge Paiva, que foi,  com Carlos Fiolhais, coordenador científico da obra e que escreveu o seu prefácio. E estará também presente Paulo Ferrão, presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia, que foi um dos mecenas principais da obra.  

Trata-se de um grande acontecimento editorial, pois esta obra, absolutamente pioneira  no seu tempo por revelar na Europa plantas do Oriente e suas propriedades medicinais, e que é uma das obras principais da ciência nacional, não conhecia edição em português desde o século XIX, uma edição que a Imprensa Nacional – Casa da Moeda reproduziu. O volume, como os restantes das “Obras Pioneiras”, foi transcrito do exemplar existente na Biblioteca Nacional de Portugal, e o seu texto foi tratado por especialistas de modo a ser acessível ao leitor de hoje. Numerosas notas ajudam esse leitor a entender e espaço e o tempo em eu o livro foi escrito. O “Colóquio dos Simples” tem uma introdução em verso por Luís de Camões, que são os primeiros versos do poeta nacional que foram impressos (os Lusíadas só sairiam em 1572).
A sessão é destinada ao público geral.


Biografias do apresentador da obra e do coordenador científico (segundo a Wikipedia):

Alexandre Quintanilha nasceu no Maputo, em 1945, filho do biólogo Aurélio Quintanilha e de mãe alemã. Trabalhou durante vários anos na Universidade da Califórnia, Berkeley, nos Estados Unidos, onde foi director do Centro de Estudos Ambientais. Entre 1983 e 1990, foi director assistente no Laboratório Nacional Lawrence, secção de Energia e Ambiente, e, entre 1987 e 1990, foi director do Centro de Estudo de Tecnologia da Biosfera. Em 1991 foi nomeado director do Centro de Citologia Experimental e professor no Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto. É professor catedrático, director do Centro de Citologia Experimental e coordenador do Instituto de Biologia Molecular e Celular, também no Porto.
Publicou cerca de 100 artigos em revistas científicas internacionais, foi editor e autor de seis volumes em áreas da Biologia e Ambiente, foi consultor redatorial da Enciclopédia de Física Aplicada e escreveu dezenas de artigos e relatórios em livros, revistas e jornais de divulgação, sendo ainda coordenador e autor de vários trabalhos nas áreas da Biologia, do Ambiente e da Física Aplicada. Em 1993 foi feito Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada. Entrou na vida política após a reforma como docente e investigador universitário, em 2015, como cabeça-de-lista do PS pelo círculo do Porto nas Eleições legislativas de 2015.

Jorge Paiva obteve una licenciatura em Ciências Biológicas na Universidade  de Coimbra e um doutoramento em Biologia pela Universidade de VigoRealizou identificações e classificações de novas espécies, publicando-as nas revistas Fontqueria, Anales Jard. Bot. Madrid, Bol. Soc. Portug. Cienc. Nat. e en Bol. Soc. Brot. Realizou extensas explorações botânicas no sul de África (Angola, Malawi, Moçambique), Àsia Ocidental (Azerbeijão), Brasil, ilhas africanas (Canárias, Cabo Verde, Madeira), Europa (Portugal, Espanha), África tropical (Santo Tomé e Príncipe). Recebeu o Grande Prémio Ciência Viva - Montepio.  É um conhecido e incansável ecologista e comunicador de ciência

SOMOS FILHOS DAS ESTRELAS

Artigo meu publicado no "Ciência na Imprensa Regional":





Por decisão da Organização das Nações Unidas estamos no Ano Internacional da Tabela Periódica, celebrando os 150 anos da sua proposta pelo químico russo Dmitri Mendeleiev. Aquela Tabela sumaria numa simples folha A4 todos os 118 elementos químicos conhecidos até hoje, dispondo-os de acordo com as suas propriedades.  Toda a matéria conhecida – o Universo, o Sistema Solar, a Terra, o corpo humano – é feita desses 118 elementos, naturalmente em abundâncias muito diferentes. São como peças de Lego para o jogo da  construção cósmica. E só precisamos de uma caixa com 118 peças diferentes para obter, ligando-as, as infinitas possibilidades do mundo químico.

 Os elementos da mesma coluna da Tabela Periódica são semelhantes porque os átomos que os constituem também o são, mas, no tempo de Mendeleiev, não havia sequer a certeza da existência de átomos, desconhecendo-se em absoluto a sua estrutura: não se conhecia nem o núcleo atómico, nem os electrões que circulam à volta dele. Hoje sabemos da teoria quântica, estabelecida só no início do século XX, que as ocupações por electrões de estados quânticos do mesmo tipo explicam as semelhanças no comportamento químico dos átomos. Alguns átomos ligam-se facilmente, como os da primeira coluna (os chamados metais alcalinos), ao passo que os da última coluna se ligam com dificuldade (chamam-se gases raros). A visão unificadora do criador da Tabela foi extraordinária, tal como o foi a visão do naturalista inglês Charles Darwin ao descobrir em 1859 uma ordem universal na extrema diversidade do mundo vivo, que só mais tarde a moderna genética veio a explicar.
O Universo é feito essencialmente pelos dois elementos químicos mais leves, que ocupam as duas primeiras casas na horizontal da Tabela Periódica e que encabeçam também a primeira e a última colunas: o hidrogénio (que perfaz 75% da massa total de matéria do universo) e o hélio (que perfaz 23% da massa total). Foram os dois formados no Big Bang, há 14 mil milhões de anos, mas algum do hélio hoje existente foi produzido nas estrelas a partir do hidrogénio. De facto, as estrelas como o Sol não são mais do que centrais nucleares nas quais o hidrogénio é permanentemente transformado em hélio. Em todo o Universo, os elementos que aparecem a seguir são muito menos abundantes: logo a seguir surge o oxigénio (1%), que é formado em  certas estrelas que compõem as galáxias, espalhadas pelo Universo. O Sol vai conseguir fazer carbono no final da sua vida a partir do hélio, mas, para fazer oxigénio em quantidades significativas, já são precisas estrelas maiores.

O hidrogénio e o hélio foram descobertos em datas e por meios muito diferentes. O hidrogénio foi identificado pelo físico e químico inglês Henry Cavendish em 1766, estudando reacções químicas de ácidos com metais, ao passo que o hélio só apareceu em 1868, quando os astrónomos Jules Jansen, francês, e Norman Lockyer, inglês, analisaram a luz do Sol (hélio significa Sol em grego). Foi o primeiro e o único elemento a ser descoberto fora da Terra.  Já o oxigénio é contemporâneo da emergência da Química, descoberto que foi em 1772-1774 pelos químicos Carl Scheele, sueco, e Joseph Priestley, inglês (o químico francês Antoine-Laurent Lavoisier, também reclamou a descoberta do oxigénio).  

Na Terra, a abundância de elementos é muito diferente da que ocorre no Universo em geral, que é praticamente a mesma que ocorre no sistema solar (cuja massa é dominada pela do Sol). Os elementos mais abundantes da crusta terrestre são, em percentagem de massa, o oxigénio (46%), o silício 28% e o alumínio (8%).  Tal como acontece para o oxigénio, o silício e o alumínio só podem ser feito em estrelas pesadas. Foram todos os três espalhados no espaço por supernovas, que são grandes explosões de estrelas de grande massa que ocorrem quando estas  chegam ao fim do seu tempo de vida. Isso significa que houve uma estrela anterior ao Sol que explodiu violentamente espalhando a sua matéria no espaço. O Sol é, portanto, uma estrela de segunda geração. Tal como o hélio, o silício e o alumínio foram identificados no século XIX, e quase ao mesmo tempo: o silício foi descoberto em 1824 pelo químico sueco Jöns Jacob Berzelius e o alumínio em 1825 pelo físico dinamarquês Hans-Christian Oersted.

Finalmente o homem. A maior parte do corpo humano é água (H2O), sendo o resto dominado por moléculas orgânicas, que contêm o carbono. Em percentagem de massa, no corpo humano é formado maioritariamente pelo oxigénio (65%), seguido do carbono (19%) e do hidrogénio (10%). O resto (azoto, cálcio, potássio, etc.) não passa de umas minúsculas migalhas. Dos 118 elementos da Tabela só 17 são necessários ao funcionamento do nosso corpo. O mais extraordinário é que, exceptuando o hidrogénio, que veio do Big Bang, todos esses 17 vieram das estrelas: somos, portanto, “filhos” das estrelas. Não conhecendo nós outros seres vivos inteligentes, somos os únicos “filhos” das estrelas que conseguem perceber de onde vieram.

Fracas ferramentas para conseguirmos o sucesso dos nossos alunos

Encontrei neste endereço da Direcção-Geral da Educação um sítio intitulado "Guia Europeu para as Escolas". Eis a sua apresentação:
"O Conjunto de Ferramentas europeias para as escolas oferece ideias concretas destinadas a melhorar a colaboração dentro, entre e fora das escolas, com o intuito de permitir que todas as crianças e jovens alcancem o sucesso escolar. Os dirigentes escolares, os pais e outras pessoas envolvidas em diferentes aspetos da vida escolar podem encontrar informações úteis, exemplos de medidas e materiais de consulta para inspirar os seus esforços de prestação de uma educação pré-escolar e escolar eficaz e de elevada qualidade".
Fui ver que ferramentas, ou seja, que "informações úteis, exemplos de medidas e materiais" são essas, capazes de  "permitir que todas as crianças e jovens alcancem o sucesso escolar".

São, então, cinco às áreas de ferramentas disponibilizadas: Governação escolar; Professores; Apoio aos alunos; Participação dos pais; Envolvimento dos intervenientes.

 Abri a área que se refere aos professores. Aí se diz:
Um volume significativo de estudos de investigação evidenciou que o apoio que os alunos recebem dos professores é o indicador mais importante do envolvimento escolar. Esta forte relação está ligada ao bem-estar social, emocional e comportamental e às atitudes. Espera-se, cada vez mais, que os professores se tornem facilitadores da aprendizagem. Ao motivar, orientar e apoiar continuamente todos os alunos, os professores podem ajudá-los a controlar a sua própria aprendizagem. Esta abordagem exige que os professores desenvolvam uma relação forte e baseada na confiança com os alunos e os seus pais.
Detive-me no apoio aos alunos. Ai se diz:
As necessidades dos alunos devem constituir o foco central da educação. Todos os alunos têm direito a um ensino de elevada qualidade, a um programa curricular pertinente, a avaliações adequadas e a oportunidades de aprendizagem «equivalentes» e valorizadas. As escolas devem proporcionar um ambiente que contemple a diversidade dos alunos, designadamente as várias necessidades de aprendizagem, a fim de maximizar o potencial de cada jovem. Deve ser delineado um ensino de qualidade e ajustado aos alunos, ao invés de os forçar a ajustarem-se a um sistema vigente. Esta abordagem deverá garantir a sua participação no processo de aprendizagem, bem como a perceção de um propósito claro para os seus estudos. Trata-se de incentivos importantes para a sua permanência no sistema escolar.
Continuei a abrir link atrás de link... Sempre a mesma narrativa, a retórica "educativa" oca e doutrinal, mais do que estafada. Aquela que se lê nos documentos produzida pelo Banco Mundial, pela OCDE, pela União Europeia, pelo Ministério da Educação, e, claro, que dá corpo a trabalhos académicos!

Não vi, portanto, qualquer indicio de inovação ou de consistência. Não é por aqui, por certo, que conduziremos (a maior parte d)os alunos ao sucesso académico.

O "ranking clássico" e o "ranking do sucesso"

"Este indicador não premeia a retenção e 
ao mesmo tempo não premeia a seleção de alunos, 
porque estamos a comparar alunos comparáveis. 
Uma escola que recebe alunos de nível dez e os leva a 17 
é uma escola muito melhor do que 
uma que recebe alunos de 15 e os leva a 17, 
porque o resultado daquela escola é muito mais rico, 
comparar apenas médias é muito pobre".
João Costa, Secretário de Estado da Educação, 2016. 


O ranking "clássico" das escolas, ou seja o posicionamento hierarquizado das escolas com base nos resultados obtidos pelos estudantes em exames nacionais, tornou-se um anacronismo por referência à última reforma curricular, de 2016 em diante. De facto, essa reforma:
- minimiza o conhecimento disciplinar e desvaloriza as capacidades cognitivas, precisamente as duas componentes curriculares que são objecto de medição nos exames nacionais;
- insiste na contextualização do conhecimento em função das especificidades locais e dos alunos, incentivando o tratamento de problemas/temas que lhe "digam respeito";
- faz sobressair a importância das capacidades pessoais e sociais (afectivas e, sobretudo, emocionais), destacando, em tempos mais recentes esse grande ideal que é "felicidade";
- destaca como finalidade última que todos alcancem as ininteligíveis "competências transversais", prescritas pela OCDE, que dão corpo ao "Perfil de aluno".
Precisamente por isso, a actual equipa do Ministério da Educação, criou um outro ranking, mais compatível com a sua "política de sucesso": é o "ranking do sucesso". Quando, há três anos, o secretário de Estado da Educação o deu a conhecer destacou que se tratava de uma medida que superava em muito a que se baseava nos exames por ser mais"justa, robusta e consistente".

Mas, em que é que se baseia este novo e revolucionário ranking? Baseia-se na percentagem de alunos que terminaram o ensino secundário sem reprovações e com classificações positivas nos exames das disciplinas trienais.

Não se trata de comparar os resultados dos alunos, considerados na sua totalidade, por escola, mas de comparar a evolução de grupos semelhantes de alunos de diversas escolas. Parte-se do princípio que a sua evolução depende do trabalho, em termos de percursos de sucesso, que ela proporcionar.

O que passou a acontecer, bem visível neste ano, é uma dissonância entre os indicadores dos dois rankings. Escolas com lugares cimeiros no "ranking clássico" tendem a situar-se abaixo de meio da tabela no "ranking do sucesso".

Confesso a minha grande indiferença em relação a estas tentativas nacionais, muito esgrimadas de medir os desempenhos dos alunos, mais para aqui e menos para ali, mais isto e menos aquilo. Na verdade, elas parecem-me igualmente distractoras do essencial:
e o essencial é a recuperação do sistema educativo na sua função estrita de ensinar e de aprender conhecimentos disciplinares que permitem desenvolver capacidades humanas estimáveis.
Enquanto tivermos um sistema que se propõe transformar os alunos em "capital humano" sobretudo nas/em certas escolas públicas, onde, por principio, se acantonam os que têm mais dificuldades culturais e económicas, tudo o resto é secundário.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Efemérides científicas: 15 de Fevereiro


Informação recebida de Adriano Simões da Silva, BPMP, Porto:

15 de fevereiro de 1564 – Nasce em Pisa  Galileu Galilei, o famoso astrónomo e físico italiano (na figura).

15 de fevereiro de 1786 –  O astrónomo inglês de origem alemã William Herschel descobre a misteriosa nebulosa "Olho de gato"


15 de fevereiro de 2001 – Publicado o 1.º esboço completo do genoma humano, na revista Nature. 
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"O que são células?" - Uma lição para crianças do 4.º ano no Rómulo em Coimbra

(Ep. 48) "O primeiro homem : a vida de Neil Armstrong"

INTRODUÇÃO


Este livro é a continuação de “Açordas, Migas e Conversas”, Âncora Editora, 2018. Como então escrevi, mais de dois anos de convivência virtual, praticamente diária, com os meus, agora, cerca de 9000 (actualmente já são 10 250) seguidores no Facebook, e a insistências frequentes e empenhadas de muitos deles, me encorajou no dever, quase na obrigação, de passar a livro uma selecção dos textos aqui editados (mais de um milhar) num conjunto tanto quanto possível harmónico, intercalando conversas que vão do trivial à divulgação científica e cultural com receitas culinárias de imensa simplicidade, na maioria, marcadas por sabores e modos de vida alentejanos.

Durante séculos, como o faz notar Monarca Pinheiro (1999), o alentejano viveu de «frustração sublimada em invenção. Com as migalhas que lhe couberam, soube inventar uma cultura de eleição, e esta é, talvez, a sua maior glória. Do pouco fez muito e bem». E entre esse muito e bem, nascido da alma deste povo, salienta-se a sua capacidade inventiva nos cozinhados, a que o autor se refere como «arte dos comeres», a par da «arte de musicar», internacionalmente reconhecida, em especial, através dos seus cantares.

Repetindo, por me parecer necessário, partes do que então escrevi, explicitarei que, além de tudo o que aprendi no imenso mundo da cozinha alentejana, desde criança, com a minha mãe e a minha avó, e do que fui modificando e criando de novo, reuni neste outro livro tudo o que pareceu interessante entre relatos ou crónicas de situações vividas e presenciadas, experiências de profissão, intervenções cívicas, ensaios, reflexões que vão da política à filosofia, passando pela divulgação científica e pela arte. A esta aprendizagem culinária juntou-se a outra recebida dos camponeses, em ocasiões do campismo selvagem que fiz, com o meu irmão Mário e outros companheiros, nas herdades rurais do concelho, petiscando e confraternizando, onde os saberes próprios das vidas deles se misturaram com os nossos, adolescentes a estudarmos na cidade.

Como no livro anterior, “COM COENTROS E CONVERSAS À MISTURA” não tem a preocupação de ensinar a cozinhar. Concebido para os que sabem movimentar-se na cozinha, permite-lhes encontrar nele informação suficiente para confecionar, “à sua maneira”, alguns dos “comeres” que foram e ainda são os meus. Esses “comeres” estão muito, pouco ou nada transformados, dos que vi fazer na grande chaminé da casa da minha avó, em lume de chão, com lenha de sobro ou azinho e em loiça de barro vermelho e de esmalte, e muitos dos que a minha mãe, cozinhando em lume de carvão, há mais de setenta anos, nos pôs no prato. São os cozinhados que me ajudaram a crescer, imensamente simples, à medida do orçamento disponível, e de confecção rápida, posto que a mãe, nesse tempo e numa família numerosa, tinha muito mais que fazer. A este património familiar acrescentei, como disse, um conjunto de receitas criadas de raiz ou transformadas, mas sempre dentro do que poderíamos qualificar de sabor alentejano.

As confecções que aqui se apresentam são, insisto em dizer, particularmente simples, tanto no que diz respeito aos diversos ingredientes usados, como no modo de operar. São acessíveis em termos de procura e de custo, rápidas de preparar, saudáveis, nutritivas, perfumadas e agradáveis ao paladar. E nelas, os “cheiros” têm lugar de destaque. Naquelas em que, tradicionalmente se pisam os coentros e os alhos no gral (almofariz), prefiro batê-los em azeite no copo com a varinha ou no liquificador, com a vantagem de lhes intensificar os respectivos aromas.

Faça, pois, querida leitora ou querido leitor, desta obra e por uns tempos, também o seu livro de cozinha e verifique como isso se reflecte positivamente no seu dia-a-dia em termos de alegria à mesa, facilidade e rapidez de confecção, saúde e economia, o que é um aspecto a considerar nos tempos que correm. E aproveite, com a leitura dos curtos textos associados a cada receita, para recordar o que já esqueceu ou aprender o que não sabia.
A. Galopim de Carvalho

IMAGENS ESPECTACULARES DE VULCÕES

Recebidas do vulcanólogo Víctor Hugo Forjaz:









LANÇAMENTO DE CIENTISTAS PORTUGUESES" DE DAVID MARÇAL

Vai ser no Rómulo, em Coimbra, no dia 20, pelas 18 horas:





LANÇAMENTO DA NOVA EDIÇÂO DOS "COLÓQUIOS DOS SIMPLES"


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

"A Ciência e os seus inimigos" em Lousada

Informação publicada pelo jornal "VERDADEIRO OLHAR":
O professor universitário e ensaísta português Carlos Fiolhais vai estar, no dia 16 de Fevereiro, na Casa das Videiras, numa palestra intitulada “A ciência e os seus inimigos”, curiosamente o título de um dos seus livros, editado pela Gradiva.
Refira-se que o Centro de Educação Ambiental está instalado na Casa das Videiras, tendo entrado em funcionamento no passado dia 5 de Dezembro, junto ao Parque Urbano Dr. Mário Fonseca.
Este espaço tem uma vocação lúdico-didática orientada para a realização de actividades de educação ambiental formal e informal, com o intuito de promover a protecção do meio ambiente e a sua valorização junto da comunidade.
É, também objectivo do centro proporcionar formação em matéria de ambiente e conservação da natureza a agentes educativos e aos estudantes.
A Casa das Videiras – Centro de Educação Ambiental, resulta de um investimento de 180 mil euros financiado em 85% pelo Norte2020 e FEDER.
Carlos Fiolhais é, também, um reconhecido físico e divulgador da cultura científica.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

UMA CONVERSA COM DONA MARIA II, NO PALÁCIO DE PENA

Do meu livro “Conversas com os Reis de Portugal, História de Terra e da Vida”, publicado pela Âncora Editora, em 2012.

O capítulo acima anunciado versa um dos mais interessantes períodos da História de Portugal, dos pontos de vista social, político, científico e cultural, numa conversa com uma rainha particularmente culta e, imagine-se, interessada em conhecer a história geológica da Serra de Sintra. O texto é longo, o que, habitualmente, afasta muitos dos potenciais leitores.
Mas ele aqui fica à atenção dos interessados.
A todos, um feliz Domingo.

“Os ingleses residentes em Portugal, no século XIX, deram provas de saber escolher ao preferirem a região de Sintra para edificarem as suas vivendas e mansões de Verão. Lord Byron definira-a como “Éden Glorioso”, tendo-a, ao mesmo tempo, considerado, diz-se, uma ”pérola lançada a porcos”. Tinha razão o poeta inglês do romantismo, certamente que sim na primeira daquelas suas apreciações, talvez, embora isso nos custe admiti-lo, na segunda. A classificação desta relíquia, pela Unesco, em 1995, como Património Mundial, na categoria Paisagem (a que fiquei ligado como elemento do grupo promotor), foi o culminar do sentir de todos quantos ali vivem e dos milhões que por ali têm passado, visitando-a nos seus múltiplos recantos. Deve dizer-se, porque a grande maioria dos cidadãos ignora, que o substrato desta paisagem agora classificada é uma unidade geológica pequena na extensão mas de imensa variedade, não só nos aspectos estruturais como nos tipos de rochas que a constituem.

Estávamos em Agosto. O Palácio da Pena e os demais cimos da Serra permaneciam envoltos numa nebulosidade fresca, a contrastar com o azul celeste e o calor estival da planura que se estende a Sul. Comodamente instalado num do belos recantos do parque anexo ao palácio, contemplando espécies arbóreas exóticas, diferentes de tudo o que é característico da nossa flora, reparo que, a meu lado, se senta uma jovem senhora, muito branca, de belos olhos azuis, em trajes ricos da primeira metade do século XIX. Penteada ao alto, em grossos caracóis, trazia na cabeça uma tiara que se me afigurou cravejada de diamantes, tal o resplendor das pedras. Perante a minha estranheza, sorriu e identificou-se.

- Chamo-me Maria da Glória de Bragança. O meu nome de baptismo é muito mais comprido, em obediência a uma tradição da linhagem dos Braganças, a que pertenci. Nasci no Rio de Janeiro, no Palácio de São Cristóvão, no ano da graça de 1819. Na sequência da primeira invasão francesa, uma dúzia de anos antes, o meu avô, então príncipe regente, D. João de Bragança, transferiu a corte e a administração do Estado para o Brasil, levando consigo a mãe, a esposa e os filhos. A mãe era a rainha Dona Maria I, minha bisavó, então afectada por grave situação de demência que a impedia de reinar. A esposa e minha avó, Dona Carlota Joaquina de Bourbon, era castelhana de nascimento, tendo ficado para a História como a “Megera de Queluz” pelo seu comportamento pessoal e por ter conspirado constantemente contra o marido e contra todos os liberais, a favor dos absolutistas.

- Um dos filhos era o vosso pai, o infante D. Pedro de Bragança, que foi o primeiro imperador do Brasil e, ao mesmo tempo, por muito pouco tempo, Pedro IV, rei de Portugal.

- O outro filho era o meu tio, o infante D. Miguel de Bragança, também ele, durante meia dúzia de anos, rei de Portugal. Dois irmãos muito diferentes. O meu pai era um homem extremamente simples, um tanto popular, honesto, desprendido de bens pessoais, de grande bravura e com um constante desejo de fazer o bem. No Brasil, foi um governante muito avançado face às elites locais. Sentia-se feliz entre as pessoas comuns e gostava de fazer coisas com as mãos. Experimentou marcenaria e serralharia. Escovava o seu próprio cavalo. O meu tio era o inverso disso.

- O vosso tempo foi especialmente marcado pelos caminhos abertos pela Revolução Francesa.

- Com alegrias e sofrimentos, vitórias e derrotas, como sempre acontece nos tempos de grandes transformações da sociedade. Vivemos dominados, primeiro, pelos invasores às ordens de Napoleão e, depois, pelos ingleses que, a pretexto de nos virem libertar, aqui se instalaram em seu próprio benefício. Na memória de muitos portugueses estava bem viva a lembrança do enforcamento do general e grão-mestre maçónico, Gomes Freire de Andrade.

- Creio que a mando de Beresford.

- Sim. Era esse inglês quem realmente governava o país, e fazia-o em regime totalitário. Esse meu tempo foi, ainda e muito, marcado pelas convulsões ideológicas que se seguiram e pelas guerras civis que conduziram à nova ordem política e social. Após a revolução do Porto, de 1820, foi promulgada a Constituição da Monarquia Portuguesa de 1822.

- Lisboa, entre outras cidades do País, está cheia de uma toponímia urbana que evoca esse tempo. No país culturalmente atrasado que somos, temos praças, avenidas e ruas cujos nomes, infelizmente, pouco ou nada dizem à grande maioria dos que nela circulam. Duques de Saldanha, de Palmela, e da Terceira, Gomes Freire de Andrade, Sá da Bandeira, Ferreira Borges, Mouzinho da Silveira, Passos Manuel, Fontes Pereira de Melo, José Estêvão, Joaquim António de Aguiar e António Augusto de Aguiar são alguns dos nomes mais sonantes da vida política do vosso tempo e poucos são os alunos das nossas escolas que sabem quem foram estes portugueses.

- Nas artes, foi a época do pintor Domingos Sequeira e, nas letras, o de Almeida Garrett e de Alexandre Herculano.

- Sem esquecer Camilo Castelo Branco. Mas gostaria que me falásseis agora um pouco de vós.

- Saí do Brasil com nove anos de idade, já casada com o meu tio Miguel, mas não fui levada para Lisboa. Fui para Londres. Entretanto o meu casamento foi dissolvido, tinha eu 15 anos, para, logo a seguir, me casarem, com Augusto Carlos Beauharnais, visando, uma vez mais, os superiores interesses do Estado.

- Mas essa união, diz-se, foi muito efémera.

- É verdade. Este simpático e infeliz príncipe faleceu vítima de difteria pouco mais de um mês depois dos esponsais. Ainda menina, tornei-me viúva.

- Mas voltemos à Carta Constitucional.

- Com este documento, outorgado a partir do Brasil por meu pai, pretendia-se um maior consenso político entre as várias sensibilidades com capacidade de intervenção na sociedade portuguesa e, sobretudo, agradar à grande burguesia e às classes nobres, tradicionalmente mais privilegiadas, duas forças opositoras à letra da Constituição de 1822.

- Saiba, então, que essa Carta concedida por vosso pai foi o texto constitucional que mais tempo resistiu em Portugal. Vigorou entre 1826 e 1828, ano em que foi abolida por D. Miguel. Foi recuperada de 1834 a 1836, ano em que, de novo, caiu para ser reposta, em 1842, após o fim da guerra civil, tendo depois vigorado ininterruptamente até ao final da monarquia, em 1910.

- Não. Isso, de facto, eu não sabia e orgulha-me sabê-lo. – respondeu a rainha, com visível satisfação.

- Mas voltemos ao meu tempo. Em 1831 o meu pai abdicou no meu irmão Pedro a coroa do Brasil e veio para a Europa, via Londres, decidido a lutar contra o irmão e repor os meus direitos como sua sucessora. Seguiu-se uma guerra civil entre liberais e absolutistas que durou até 1834. Mas façamos aqui uma pausa na história, pois eu gostava de vos colocar uma questão.

- Terei todo gosto em poder satisfazer a vossa curiosidade. Assim eu tenha saber para tal.

- Como sabeis, vivi parte da minha vida neste palácio e nesta frondosa e fresca Serra de Sintra. Passeei por muitos dos seus recantos e sempre me intrigou como é que esta elevação surgiu aqui no meio da planura que a cerca.

- Elevação, dizeis bem, pois é mesmo de uma elevação do terreno que se trata.

- O meu esposo, D. Fernando, tinha na sua biblioteca a grande enciclopédia francesa de Diderot e D’Alambert e, que eu me lembre, um livro de Geologia da autoria de um tal Charles Lyell que, por diversas vezes, folheei e me despertou grande curiosidade para este tipo de assuntos. E foi essa curiosidade que me motivou a estar aqui ao vosso lado com uma série de dúvidas por esclarecer. Vagueava por entre esta vaga de turistas que nos invadem a tranquilidade, quando vos reconheci.

- O interesse pelo conhecimento geológico desta Serra – comecei por dizer – vem, exactamente, do vosso tempo. A geologia começou a ganhar o estatuto de uma ciência até então cultivada pelos chamados naturalistas. Um dos estudiosos que, nessa época, procurou abordar esse conhecimento foi o barão prussiano Ludwig von Eschwege, engenheiro e mineralogista, residente em Portugal.

- Eu conheci-o pessoalmente. – interrompeu a minha interlocutora, entusiasmada. – Foi quem o meu marido convidou para conceber o projecto de arquitectura deste palácio em que vivi algum tempo da minha curta vida.

- Como sabeis, havia aqui um convento.

- Sei perfeitamente. Era o antigo Convento da Pena, destruído pelo grande terramoto de Lisboa. E chamava-se assim porque a palavra pena era outra maneira de dizer penha e penhasco, e a verdade é que foi sobre este penhasco que o rei D. Manuel I o mandou edificar para alojar os monges da Ordem de São Jerónimo.

- E foi sobre as suas ruínas que haveis construído este belo exemplo da arquitectura romântica do vosso tempo.

- Na minha opinião, este palácio testemunha não só a competência profissional do barão, mas também, é preciso dizê-lo, a sensibilidade artística de D. Fernando. Foi, de facto, Eschwege quem projectou a obra, mas apenas nas suas linhas gerais. O meu esposo chamou a si as ideias e a traça da maioria das incorporações de elementos exóticos, todos eles de notada inspiração romântica. Do neo-islâmico ao neo-manuelino, passando pelo neo-gótico e por outros elementos com sugestões indianas, tudo ele concebeu e desenhou.

- Não sei se é do vosso conhecimento, este vosso palácio foi eleito, em 2007, como uma das sete maravilhas de Portugal.

- Com certeza que sei. Nós, as almas, ou seja, as memórias daquilo que fomos, temos a capacidade de estar em toda a parte e, se for preciso, ao mesmo tempo. Estamos libertas dos condicionalismos das leis da física. Espaço e tempo não conceitos inerentes ao mundo material, não ao nosso. Sem que ninguém se aperceba disso, presenciamos tudo o que desejamos. Falamos com quem queremos quando e onde isso nos interessa. Mas voltemos a D. Fernando. O meu esposo era um homem culto, de muito saber e um artista de grande sensibilidade e valor. As suas gravuras são bem conhecidas dos estudiosos das artes plásticas. Empregou bem o poder que tinha. Promoveu a criação da Academia das Belas Artes de Lisboa e tornou-se o seu protector. A Academia Real das Ciências de Lisboa fê-lo seu presidente.

- E com o vosso nome foi criado o grande Teatro Nacional de Lisboa. A memória que tenho de vosso esposo, fundamentada no que acerca dele me foi dado ler, é exactamente essa que haveis descrito. Falando agora de Eschwege e como certamente sabeis, ele foi Intendente Geral de Minas, tendo sucedido no cargo ao nosso Andrada e Silva. Por essa altura, a velha mina de ouro da Adiça, perto da Fonte da Telha, no concelho de Almada, também conhecida por mina do Príncipe Regente, ainda estava em exploração. Essa lavra, que deu lucro, embora modesto, no tempo do Intendente Andrada e Silva, diziam as más-línguas, passou a dar prejuízo sob a tutela do alemão, ao mesmo tempo que ele ia enriquecendo.

- Ontem como hoje. Não mudou nada. – comentou Dona Maria. - Veja o que se passa no Portugal democrático de hoje. A corrupção grassa em todos os níveis sociais. O crime de colarinho branco, com destaque para o enriquecimento ilícito, cresce face a uma justiça que fecha os olhos, funciona mal ou não funciona. Veja só os fumos que pairam sobre a licenciatura do Primeiro-Ministro, sobre os casos Bragaparque, Freeport, “Face Oculta”, Banco Português de Negócios e outros. Uma vergonha que faz com que Portugal esteja entre os países mais corruptos da Zona Euro.

- Estamos a atravessar horas muito difíceis, Senhora.

- Reparo com tristeza que as desigualdades são imensas. Cada vez há mais portugueses pobres e os ricos são cada vez mais ricos. Por este caminho, a instabilidade social vai crescer e a criminalidade aumentar.

- As manifestações de rua vão ser cada vez maiores e mais frequentes e receio que comece a haver confrontações violentas.

- Não creio. Como escreveu Guerra Junqueiro, há mais de um século, temos “um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia de um coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas…”

- Mas lá virá um dia...

- Na minha opinião, - comentou a rainha - a revolução dos cravos abriu-vos a esperança de melhores dias. E isso aconteceu de facto, goste-se ou não se goste de o admitir. Vive-se hoje muito melhor do que no antigamente. Acontece, porém, que, ultimamente, uma geração de políticos hábeis no debate político, sem experiência de vida profissional, na maioria falhos de cultura humanística e científica, tomou conta da democracia inovada no seio de um povo amordaçado por séculos de repressão religiosa e política, subserviente e mantido inculto. O conluio dos governantes com a alta finança e com o poder económico está a atingir níveis nunca vistos.

- Estou a gostar de vos ouvir. Nesse texto de Guerra Junqueiro que haveis citado, escrito, mais precisamente em, 1896, ele diz algo de enorme actualidade relativamente aos dois partidos políticos que, há mais de três décadas, nos desgovernam.

- O Partido Socialista e o Partido Social Democrata?!

- Exacto. Dizia o poeta: “Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como as duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar”

- Deslumbrados pelo poder, pelas vénias submissas de secretários e secretárias, de motoristas, de contínuos e de senhoras da limpeza, estes rapazes responsáveis pelos vossos destinos são cada vez mais frequentadores dos salões, tu cá tu lá com os ricos e poderosos e, consequentemente, cada vez mais alheados do povo.

- Reparo que haveis assimilado bem a ideologia dos liberais do vosso tempo.

- Não fui uma verdadeira liberal, mas interiorizei muitas das suas ideias. Na nossa biblioteca tínhamos as principais obras de pensadores como Rousseau, Montesquieu, Voltaire, John Locke, Adam Smith, Diderot e outros. Eu e o meu marido lemos muito sobre o iluminismo, o liberalismo e sobre a realidade da vida burguesa da França do meu tempo, na bela escrita realista de Honoré de Balzac, e acho que assimilámos algo do pensamento de Auguste Comte.

- Vossos contemporâneos.

- Sim. Balzac foi um dos mais prestigiados romancistas franceses de sempre, introdutor do realismo na literatura, mas sem perda de uma certa marca do romantismo, numa obra vastíssima.

- Auguste Comte foi o filósofo francês do positivismo.

- A ideia de que o conhecimento científico é a única forma de conhecimento verdadeiro martelava o meu cérebro estruturado por uma educação católica com grande prevalência do mundo espiritual. Apesar de hoje não ser mais do que um espírito, defendo que todas as formas do conhecimento humano têm de ser comprovadas cientificamente. Defendo o positivismo para a condução da vida terrena e para o caminhar do mundo e da sociedade. Sou contra os dogmas da Fé, contra as crendices e superstições. Para mim, o progresso da sociedade humana depende, em simultâneo, da ética e dos avanços da ciência e da tecnologia. E, é preciso não esquecer, do bom senso dos políticos.
Muitas das vossas medidas revelam que haveis assimilado, pelo menos, uma parte dessas ideias renovadoras.

- Essa assimilação está, de facto, patente nas reformas que promulguei. Por exemplo, o Reitor da Universidade de Coimbra deixou, definitivamente, de ser um eclesiástico. Esse distinto cargo passou a ser ocupado por um lente leigo. Foi decretado o combate ao tráfico de escravos e a obrigatoriedade do ensino para as crianças a partir dos 7 anos. Procedi à novíssima reforma do sistema judiciário e promovi o sistema de pesos e medidas. Ao mesmo tempo, em Coimbra, nascia um embrião da Carbonária, uma sociedade secreta de ideias republicanas e fortemente anticlericais, muito inspirada nos revolucionários franceses. Eu sabia-o através dos meus serviços de informação, também eles secretos e, de certa forma, compreendia os ideais dos seus membros.

- Falai-me da chamada lei das rolhas.

- Esse foi o nome dado à lei de 3 de Agosto de 1850 que visava restabelecer a liberdade de imprensa. Porém, a opinião pública considerou que não respeitava o espírito da Carta Constitucional, uma vez que restringia muita da liberdade de escritores e jornalistas. Entre os que se rebelaram contra este diploma, lembro, entre outros, Alexandre Herculano, Almeida Garrett, José Estêvão de Magalhães, Latino Coelho. Mas, pouco depois de subir ao poder, o Duque de Saldanha revogou-a, substituindo-a pela Carta de Lei de 17 de Maio de 1866, que levou à abolição de quaisquer "cauções e restrições para a imprensa periódica". Este outro diploma abriu um período conhecido por Regeneração, particularmente bem recebido pelos jornalistas. Mas voltemos à Serra de Sintra.

- A primeira abordagem ao estudo verdadeiramente científico do maciço de Sintra surgiu em finais do século XIX, da autoria do geólogo suíço Paul Choffat, também ele um residente em Portugal. A partir de então o relevo, a estrutura, as rochas e minerais e a génese deste maciço não pararam de ser investigadas pelos mais diversos cientistas nacionais e estrangeiros. Tanta é a variedade de tipos petrográficos, que esta pequena montanha foi referida pelo geólogo e mineralogista francês, Alfred Lacroix, como uma “jóia de petrografia”.

- Petrografia? O que é isso? – Interrogou Dona Maria.

- É pura e simplesmente a disciplina científica que estuda as pedras, ou as rochas, como se tornou mais erudito dizer.

- Muito bem. Prossigamos, então.

- Com cerca de dez quilómetros de comprimento por mais ou menos três de largura e um perfil acidentado, este maciço sobressai da planura envolvente como uma elevação que ultrapassa os quinhentos metros de altitude. Um dos cimos desta bela serra é este penhasco onde se ergue o vosso palácio. Para explicar a sua formação temos de recuar no tempo cerca de noventa e cinco milhões de anos.

- Isso é uma enormidade! – admirou-se a rainha.

- Tendo em conta a idade do nosso planeta, qualquer coisa como quatro mil, quinhentos e setenta milhões de anos, podemos considerar esta serra como um relevo bastante jovem, como veremos mais adiante. Mas eu estou a falar da história da sua formação, e é aí que preciso recuar os tais cerca de noventa e cinco milhões de anos. Nesse tempo, o local onde nos encontramos, toda esta região e grande parte do território a Oeste do país, a que chamamos Orla Mesocenozóica Ocidental, não existiam como terras emersas. Tudo era mar. Um mar pouco profundo, de águas límpidas e mais quentes do que as actuais. O litoral do continente norte-americano estava ainda bem perto do nosso. O Oceano Atlântico era ainda, por assim dizer, embrionário. Algo que podemos imaginar semelhante ao actual Mar Vermelho, entre a África e a Arábia.

- Estou a imaginar o interesse que D. Fernando teria em poder ouvir um relato assim, para ele, certamente, apaixonante. – comentou, saudosa, a minha interlocutora.

- Estou em crer que sim, - anuí - tanto mais que esta reconstituição, que vos estou a transcrever, assenta em conceitos geológicos ainda inexistentes no vosso tempo. Mas é de justiça acrescentar que foram os geólogos pioneiros, vossos contemporâneos, como o tal Lyell, que haveis referido, que abriram o caminho da modernidade a esta ciência.

- Muito interessante, aliás!

- Voltando ao assunto, sabemos que o substrato rochoso deste nosso antigo mar era constituído por uma muito espessa série de camadas de rochas sedimentares incluindo calcários, arenitos, argilitos e conglomerados que, no conjunto, testemunham uma história mais antiga que não vamos abordar por agora. Nesta série, com cerca de três mil metros de espessura, os calcários mais modernos representam os depósitos acumulados no referido mar. Falamos aqui de Jurássico e de Cretácico, os nomes dos dois períodos geológicos representados na citada série. Mas só a parte superior do Jurássico e a primeira metade do Cretácico estão envolvidos na génese do maciço.

- Falastes de três mil metros de espessura?

- Exactamente.

- Mas como é possível uma tão grande acumulação?

- Primeiro, é um facto que o leito marinho se ia afundando ao longo de milhões de anos e que, à medida que tal acontecia, os sedimentos iam-se depositando lenta e continuadamente. Uma taxa de sedimentação de escassas centésimas de milímetro, em média, por ano, durante o intervalo de tempo considerado, é suficiente para acumular os três mil metros de espessura que referi. Depois, é preciso acrescentar que por baixo desta série de camadas sedimentares estavam, e estão, as rochas antigas com mais de 280 milhões de anos, maioritariamente granitos e xistos do soco rígido, que formam a ossatura de Portugal e de toda a Península Ibérica, e que completam os 35 quilómetros de espessura da crosta terrestre nesta região.

- Crosta terrestre?

- Para vos explicar o que é a crosta terrestre, começo por dizer que, em linhas muitíssimo gerais, o nosso planeta está dividido em geosferas concêntricas, como as capas de uma cebola. A geosfera central, ou seja, o núcleo, muito densa e muito quente, é essencialmente constituída por ferro. A esta sucede-se uma capa muitíssimo espessa que, por envolver o núcleo, tomou o nome de manto. É a parte superior do manto, ainda muito quente, que fornece não só a energia inerente às erupções vulcânicas, mas também a lava, as cinzas e todos os materiais que trazem à superfície. Finalmente, a capa mais externa é, como o nome indica, a crosta. A crosta sob os continentes é essencialmente formada por rochas antigas e muito antigas, com destaque para os granitos e os xistos. Elas são sempre o substrato das rochas sedimentares muito mais recentes, como são, entre muitas outras, os calcários. A espessura média da crosta continental é da ordem do 30 a 35 quilómetros, com excepção das áreas montanhosas onde aumenta para valores que rodam os 70 quilómetros, formando como que raízes das respectivas montanhas. Sob os oceanos, a crosta oceânica não excede a meia dúzia de quilómetros e é, toda ela, formada por basaltos e rochas afins.

- Entendi perfeitamente e estou cada vez mais curiosa em conhecer a história do chão que estamos a pisar.

- Há cerca de noventa e cinco milhões de anos, - retomei a minha narrativa - uns 30 a 35 quilómetros abaixo dos nossos pés, na fronteira entre a crosta e o manto, concentrou-se um importante foco de calor vindo da profundidade, que começou a derreter as rochas da crosta, transformando-as num magma ascendente, tal como uma bolha de azeite a subir no seio da água, mas a uma velocidade extremamente lenta, imperceptível, que só a imensidão do tempo geológico permite entender. Acontece que havia aqui uma falha geológica, ou seja, uma grande fractura que atravessava a crosta, criando uma zona de fraqueza favorável à subida do referido magma.

- Uma fractura? Numa espessura tão grande e com rochas tão sólidas? Como é isso possível? – Interrompeu, incrédula, a rainha.

- Sim, uma fractura! Se pensardes que a Terra é uma bola com um diâmetro de cerca de 12 000 quilómetros, e que a espessura da crosta se limita a escassas dezenas, esta capinha externa torna-se tão vulnerável e frágil como uma casca de ovo, face às constantes e poderosas convulsões de um corpo tão volumoso e muito quente no seu interior. Portanto, não vos admireis de ter aqui, bem próximo, uma falha que desce a muitos quilómetros de profundidade e que, na opinião de alguns, pode voltar a mexer.

- E se mexer?

- Se mexer haverá um tremor de terra ou um sismo, como nós dizemos.

- E o que é, afinal, um sismo?

- Um sismo resulta sempre de um deslocamento brusco entre dois compartimentos de crosta separados por uma falha.

- Então foi o que aconteceu com o terramoto que destruiu Lisboa em 1755?

- Sim, mas não foi por causa desta falha. Foi causado por uma outra bem mais importante, situada no mar a sudoeste do Algarve. Mas, continuando, devo dizer que, na sequência da ascensão do referido magma, as camadas sedimentares suprajacentes foram sendo dobradas e elevadas, formando uma abóbada em cúpula, no interior da qual o magma foi subindo, arrefecendo e solidificando. Durante a sua formação e subida, este magma foi engolindo e digerindo parte das rochas com as quais ia ficando em contacto, modificando a sua composição. Geraram-se, assim, vários tipos de fracções magmáticas que originaram outros tantos tipos de rochas, com destaque para o granito que estamos a pisar, solidificado há cerca de 85 milhões de anos.

- E as outras rochas? – quis saber Dona Maria, que acrescentou. - D. Fernando, nos vários passeios que fazia na Serra, alguns na companhia de von Eschwege, apanhava e trazia para casa muitas pedras, diferentes umas das outras.

- As outras são rochas que fazem parte do léxico habitual dos geólogos, mas que, creio, vos dirão muito pouco ou, mesmo, nada. Mas cito-vos as mais frequentes entre as várias que ocorrem associadas a este maciço. São elas o sienito, o diorito, o gabro, o mafraíto, e algumas brechas ígneas. Isto sem falar de rochas filonianas tais como traquitos, microssienitos, microdioritos, microgranitos, riolitos, doleritos e diversos tipos de lamprófiros.

- É claro que não vou querer saber o que são todas essas rochas. Deduzo que interessam, sobretudo, aos especialistas, porque cada uma delas deve ter o seu significado próprio.

- Exacto. Cada uma delas fala do ambiente e das condições em que foi gerada e, no conjunto, permitem-nos reconstituir episódios do passado geológico, como este que vos estou a tentar relatar.

- Mas continuai, por favor. Desculpai a interrupção.

- Como é regra da natureza, em qualquer latitude, sempre que uma porção de terreno se eleva, a erosão começa a desgastá-lo. E foi isso, precisamente, o que aconteceu aqui. A dita cúpula de camadas sedimentares, na maioria, calcários, trazendo consigo, escondido no seu interior, o miolo das ditas rochas magmáticas, elevou-se acima do mar, seguramente, mais de três mil metros. Muito provavelmente tivemos aqui uma ilha formada por uma montanha tanto ou mais imponente do que os Alpes e, como tal, sujeita a intensa erosão. Ao longo dos milhões de anos que se seguiram a montanha foi desgastada até à dimensão que hoje apresenta, e o seu miolo magmático ficou a descoberto. Quem conhece a Serra, sabe que pisa, sobretudo, granito e, mais para ocidente, na zona da Peninha, sienito. Sabe que os calcários e as outras rochas sedimentares da cobertura jurássica e cretácica estão confinadas à periferia.

- E para onde foram os materiais que a erosão arrancou à montanha?

- Esses materiais, em particular, calhaus, areias e argila, desceram e espalharam-se pelas terras envolventes. A maioria já desapareceu, arrastada pelos rios, a caminho do mar. Mas uma pequena parte desses materiais permanece aqui, no sopé e nesta plataforma a norte da Serra, como testemunhos susceptíveis de reconstituir os últimos milhões de anos da história deste relevo.

- Meu esposo gostava de geologia e tinha razão. É uma ciência muito interessante.

- Eis, pois, senhora, o que me é possível dizer, assim de memória e de forma muito geral e básica, acerca da geologia desta pequena Serra, um assunto que os especialistas sabem que é complexo. É esta história que está na base desta extraordinária paisagem, agora classificada como património mundial, e da ocupação humana que, ao longo dos séculos, atraiu. Mas voltemos ao vosso tempo. É agora a vossa vez de falar.

- Então, retomando o fio à conversa, devo começar por lembrar que, tinha eu 15 anos, faleceu-me o pai e eu fiquei rainha. Mais uma vez tive de casar e, desta feita, como já disse, com o infeliz príncipe de Beauharnais.

- Por essa altura houve uma grande epidemia, julgo que de cólera?

- É verdade. A falta de higiene era o quadro geral da nossa sociedade, e a medicina não tinha os recursos que tem actualmente. Morreram mais de quarenta mil portugueses.

- Mas na vida política as coisas estavam a correr a contento dos liberais?

- Assim foi, de facto. As tropas miguelistas sofreram sucessivas derrotas impostas pelas forças ao serviço da causa liberal, tendo-se destacado nos seus comandos, e ficado para a história, os nomes dos duques de Saldanha e da Terceira. A paz foi assinada na Convenção de Evoramonte e, uma vez mais, o meu tio Miguel partiu para o exílio, desta segunda vez, em Itália.

- Mas D. Miguel não se sentia derrotado?

- De modo nenhum! Eram muitos e poderosos os que estavam a perder privilégios com os ventos da revolução e o meu tio, apoiado pela mãe, a minha avó Carlota Joaquina, era o braço direito e o rosto dessa classe. Eram, pois, muitas as pressões sobre ele para que não desistisse, e ele honrava essa responsabilidade. Uma vez no exílio, não tardou em renegar o texto do tratado a que se submetera e, até ao fim da vida, não parou de tentar encontrar condições que lhe permitissem reconquistar o trono de Portugal.

- Com o fim da guerra civil que, segundo reza a História, foi sangrenta, algo começou a mudar?

- Uma vez reconquistado o poder liberal, e reposta a ordem social e política consignada na dita Carta, promulgámos a lei da liberdade de imprensa, extinguimos as ordens religiosas masculinas e confiscámos os seus bens, cabendo aqui realçar o papel desempenhado por Joaquim António de Aguiar. E tão eficazmente o desempenhou que ficou conhecido pelo “Mata-Frades”.

- Ainda hoje esse vosso ministro é uma figura conhecida e muito querida nos meios operários portugueses.

- Continuando, devo lembrar que a estabilidade decorrente da vitória liberal não durou muito. Dois anos depois recomeçaram as desavenças, não com os absolutistas, mas entre os vitoriosos. De um lado, os cartistas, que eu apoiava, mais moderados, defensores da Carta Constitucional de 1826, e, do outro, os setembristas, mais radicais, com destaque para Passos Manuel, interessados em repor o texto da Constituição de 1822. Foram mais vinte e cinco anos de lutas fratricidas, mas foram muitas as conquistas nelas alcançadas.

- Dessas lutas ficou na memória colectiva a Revolução da Maria da Fonte.

- Também chamada Revolução do Minho, foi uma revolta popular que eclodiu na Primavera de 1846, na região de Póvoa de Lanhoso e se estendeu, progressivamente, a todo o país. Dizia-se que a instigadora desta revolta era uma tal Maria, natural da freguesia de Fontarcada e, por isso, conhecida por Maria da Fonte.

- A insurreição, diz-se, terá resultado do grande descontentamento popular gerado pela proibição de realizar enterros dentro de igrejas.

- E também pelas novas leis de recrutamento militar e de agravamento dos impostos decretadas pelo meu ministro Costa Cabral. Em resultado dessa revolta caiu o governo cabralista. Pouco tempo depois, ainda nesse ano, houve um golpe militar conhecido por Emboscada, o que fez reacender os motins e dar começo a uma nova guerra civil que se prolongou por mais de meio ano e que ficou na História com o nome de Patuleia.

- Diz a História que esse conflito fratricida foi travado entre uma coligação contra-natura de miguelistas e setembristas contra os cartistas.

- Cartistas que eu apoiei e que puderam contar com o apoio de forças militares estrangeiras ao abrigo da Quádrupla Aliança. E esse apoio pôs fim à guerra e deu-nos a vitória, reconhecida pouco depois pela assinatura da Convenção de Gramido, um pequeno lugar na região de Gondomar

- Já não me lembro do que foi essa Quádrupla Aliança.

- Foi um tratado assinado em Londres, em 1834 entre Guilherme IV de Inglaterra, Luís Filipe de França, a regente de Espanha D. Maria Cristina de Bourbon e meu pai enquanto regente de Portugal. Este tratado visou defender os regimes liberais nas monarquias ibéricas, mesmo que tal implicasse a entrada de tropas estrangeiras nos nossos territórios.

- Não obstante essa instabilidade, o país andou para a frente. Sei que são dessa altura os nossos velhos e saudosos Liceus e que, entre outras iniciativas, foram criados os Conservatórios de Artes e Ofícios de Lisboa e do Porto.

- Isso e muito mais. – anuiu a rainha. – Criámos a Faculdade de Direito de Coimbra, as Escolas Médico-Cirúrgicas de Lisboa e do Porto, o Conservatório Real de Lisboa e as Academias de Belas Artes de Lisboa e do Porto. Promulgámos o Código Comercial Português, documento essencial à vida económica do país, da autoria de Ferreira Borges. Procedemos à estruturação administrativa do território, dividindo-o em distritos e estes, por sua vez, em concelhos, uma medida de vanguarda que veio a ter futuro. Não menos importante foi toda a legislação de Mouzinho da Silveira, no propósito de construir um Portugal moderno, liberto das amarras políticas e religiosas do antigo regime.

- Sem esquecer a criação da Escola Politécnica de Lisboa e a da Academia Politécnica do Porto. Mas, entretanto, voltastes a casar.

- E uma vez mais em nome dos altos interesses do Estado. Os vários pretendentes surgiram das mais nobres famílias europeias e o escolhido foi o príncipe austríaco D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha que, pelo casamento e após o nascimento do nosso primeiro filho, o infante D. Pedro, foi aceite como rei-consorte, com o título de D. Fernando II de Portugal.

- Eram os dois muito jovens.

- Eu com 17 anos e ele com 20. D. Fernando foi um homem bom. Muito amado pelos portugueses, com excepção da nobreza e do clero mais conservadores. Fomos felizes. Essa felicidade não durou muito tempo. Queríamos ter muitos filhos e tivemos.

- Diz-se que, segundo a opinião de alguns entendidos, foi esse excesso a causa da vossa morte tão prematura, aos 34 anos.

- É possível. Com todas estas recordações ia-me esquecendo de vos falar de uma medida tomada no meu reinado, com o grande apoio de D. Fernando, e que tem a ver com a vossa área científica. Estou a referir-me à criação, em 1849, da Comissão Geológica do Reino, na dependência da Real Academia das Ciências.

- Eu conheço razoavelmente bem a história dessa prestigiada instituição.

- Se não estiverdes fatigado, gostava de a conhecer, pois não lhe acompanhei os passos nos anos que se seguiram à minha passagem para a eternidade.

- Com todo o gosto. Já a contei várias vezes e não me canso de contá-la, tal é a minha indignação pelo que ali se tem passado nos últimos tempos. Começo por dizer que, ao longo dos seus cento e sessenta anos, teve várias designações a que corresponderam, no geral, mudanças de orientação e de propósitos, mas sempre centrados em torno da Geologia. Comissão Geológica, Secção dos Trabalhos Geológicos, Direcção dos Serviços Geológicos, Comissão dos Serviços Geológicos, Serviços Geológicos de Portugal, já depois da República, entre 1917 e 1993, e Instituto Geológico e Mineiro, logo a seguir. Reparai, Senhora, que a adjectivação usada nos diversos nomes desta instituição sempre respeitaram o domínio da ciência que esteve na base da sua existência. Mas a chegada ao poder da jovem classe política que referi atrás, falha de sentido histórico e de cultura científica, entendeu sacrificar esta casa pioneira e dinamizadora de Geologia portuguesa em nome do saneamento das contas públicas, ao mesmo tempo que se encheu de assessores e de consultores a quem paga fortunas. Apagaram-lhe o nome e diluíram-na numa outra instituição cuja designação, Instituto Nacional de Engenharia, Tecnologia e Inovação, se coaduna melhor com o pendor tecnocrático desta gente. Ultimamente, crio que em resultado das muitas vozes descontentes, mudaram-lhe o nome para Laboratório Nacional de Energia e Geologia.

- Pelos vistos, - comentou a rainha - estais bem informado sobre um assunto tão específico, desconhecido da maioria do público.

- Eu tenho vivido os últimos tempos desta evolução porque conheço muitos dos que ali trabalham. Pesando bem as minhas palavras, deixai que vos explicite o meu pensamento acerca deste caso. A extinção, pelo governo do Primeiro Ministro Durão Barroso, em 2003, do Instituto Geológico e Mineiro, com século e meio de volumoso, notável e valioso trabalho realizado, onde laboraram e laboram geólogos de grande prestígio nacional e internacional, reflecte o grave desinteresse por este domínio do conhecimento científico, por parte dos responsáveis por esta infeliz, triste e lamentável decisão. Por outro lado, a não reparação desta indignidade causada à geologia portuguesa e aos seus cultores, pelo governo do Primeiro Ministro José Sócrates, mantendo aquela decisão, mostra que a mesma nada tem a ver com a orientação política destes rapazes, antes sim com a sua falta de cultura neste domínio do saber e, daí, desconhecerem a sua verdadeira importância e o respeito que lhe é devido. Muito recentemente, penso eu que, em virtude da contestação da comunidade dos geólogos portugueses, o governo mudou o nome desta instituição para Laboratório Nacional de Energia e Geologia, com todas as despesas inerentes a este tipo de mudanças na administração do Estado. E é tudo o que me ocorre dizer. Vamos ficar por aqui.

- Tendes toda a razão. Vamos ficar por aqui. Estou a ver ali, ao fundo, o professor Fernando Catarino, e tenho uma quantidade de questões a colocar-lhe acerca de algumas das árvores que aqui plantámos.

- Ele foi meu professor, Um esplêndido professor!

- Gostei de falar convosco.

- O gosto foi todo meu, Senhora.
A. Galopim de Carvalho