quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Congresso SciCom 2017

O Museu da Ciência da Universidade de Coimbra organizará, pela primeira vez na cidade de Coimbra, o Congresso da Rede de Comunicação de Ciência e Tecnologia de Portugal. O congresso decorrerá nos dias 12-13 de Outubro de 2017 no Pólo I da Universidade com a sessão de encerramento no Museu da Ciência.

O 5º congresso SciComPT tem como tema principal os OBJECTOS DA CIÊNCIA: que questões se levantam na sua relação com o público, quais as possíveis interações com áreas da comunicação científica não museológicas, e como promovem a comunicação da ciência.

Uma lupa, uma rocha, um teorema, um para-raios, um fóssil, um acelerador de partículas, uma semente, uma lâmpada, um livro: os objetos da ciência são usados pelos cientistas e servem a ciência. Os museus colecionam e organizam estes objetos, preservando a memória, revelando a história da ciência, e integrando os objetos e a própria ciência na cultura das sociedades.

O Congresso ocorre em sessões com diversos formatos como painéis de debate, sessões práticas e sessões inversas, comunicações orais e posters digitais. Este congresso com um número crescente de participantes conta com a presença dos comunicadores de ciência que actuam a nível nacional nas mais variadas plataformas e áreas de produção de ciência.

Este ano será disponibilizado um espaço para uma “Mostra de Ciência” onde os grupos de investigação interessados poderão apresentar e divulgar os seus trabalhos de comunicação de ciência. A Mostra irá acontecer nos dias do congresso (durante os intervalos da manhã e da tarde) no átrio do R/C do Departamento de Física da Universidade de Coimbra. As instituições que quiserem participar nesta mostra devem manifestar interesse junto de António Piedade através do email antoniopiedade2011@gmail.com.

As inscrições para o congresso encontram-se abertas através do sitehttp://scicom.pt/index.php/scicompt-2017/


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VISTO DE COIMBRA: OS JESUÍTAS ENTRE PORTUGAL E O MUNDO


PORTUGAL CATÓLICO




OBRA ESPECIAL oferecida dia 20 de setembro, em Roma, ao Papa Francisco

Portugal Católico: A Beleza na Diversidade

No próximo dia 20 de setembro, uma obra concebida para assinalar a visita do Papa Francisco a Portugal, editada com especial cuidado gráfico e com a participação de especialistas, investigadores e intelectuais de vários quadrantes, a obra Portugal Católico, vai ser oferecida em audiência, em Roma, ao Sumo Pontífice. O Senhor Reitor da Universidade Aberta preparou uma mensagem especial que acompanhará esta obra, a ser entregue ao Papa Francisco, na manhã de quarta-feira. Na véspera, dia 19, às 18h00, no Instituto Português de Santo António, em Roma, decorrerá uma sessão especial de apresentação à comunidade portuguesa, sessão que conta com o apoio da Embaixada Portuguesa junto da Santa Sé. 

O exemplar único e especial desta obra, editada pelo Círculo de Leitores/Temas e Debates, que alguns já consideraram a “Capela Sistina da Edição Portuguesa”,  foi preparada no âmbito da Cátedra Infante Dom Henrique para os Estudos Insulares Atlânticos e a Globalização (CIDH-Universidade Aberta/CLEPUL-Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa) e do Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes (IECCPMA), em cooperação com professores de vários centros de investigação da Universidade de Coimbra, bem como de outras universidades portuguesas. É de assinalar o facto de a obra se constituir como o primeiro resultado do projeto intitulado Portugal Religioso e Espiritual (Cultura, Arte e Património), também promovido pela CIDH (da Universidade Aberta), o qual terá uma sequência de outros volumes, dedicados, nomeadamente, ao Portugal Judeu, ao Portugal Islâmico, ao Portugal Protestante, etc.

Portugal Católico: A Beleza na Diversidade, que teve o mecenato especial e pessoal de Alexandre Soares dos Santos, e o apoio da Conferência Episcopal Portuguesa, da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal, da Fundação Calouste Gulbenkian, da União das Misericórdias Portuguesas e da Santa Casa da Misericórdia do Porto, foi uma obra elaborada de forma intensa e em tempo recorde (em sete meses, sensivelmente). Reúne 204 textos-síntese, de 190 autores, intercalados com uma forte componente imagética, constituída por fotografias (aéreas e terrestres) e gravuras, e um conjunto de poemas de grandes autores portugueses, distribuídos por 14 capítulos.Simbolicamente, o número 14 representa as 14 estações da Via Sacra e as 14 Obras de Misericórdia.

Esta obra de dimensão monumental é inaugurada com textos do Secretário-Geral da ONU, António Guterres, do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e do Cardeal Patriarca de Lisboa e Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Manuel Clemente, e conta com a participação das mais diversas figuras da cultura, da ciência e da sociedade portuguesas, tais como Eduardo Lourenço, Guilherme d’Oliveira Martins, Pedro Mexia, Adriano Moreira, José Manuel Pureza, José Mattoso, Artur Santos Silva, Carlos Fiolhais, João César das Neves, Rui Vieira Nery, Manuel Barbosa, José Pedro Paiva, José Leite Abreu, Henrique Manuel Pereira, José Cordeiro, José Carlos Miranda, Daniel Serrão, Henrique Leitão, Francisco Senra Coelho, Vasco Pinto Magalhães, João Relvão Caetano, José Porfírio, Manuel Braga da Cruz, José Carlos Seabra Pereira, Gonçalo Portocarrero, Leonor Xavier, Jaime Nogueira Pinto, Jorge Wemans, João Seabra, Manuela Silva, Vítor Serrão, entre outras.

O projeto inicial teve por referência um recente livro francês intitulado La France Catholique (Paris, Éditions Michel Lafon, 2015), de Jean Sévilla. Ao longo de sete meses, a obra portuguesa, sob a direção de José Eduardo Franco e José Carlos Seabra Pereira, ganhou uma identidade própria, afirmando um âmbito muito mais amplo e profundo em relação à obra francesa, apostando mais no conteúdo e na diversidade de temas, e incluindo uma publicação infanto-juvenil e um spot de divulgação. O resultado de cerca de 800 páginas acaba por apresentar uma radiografia abrangente da Igreja Católica e constituir-se como uma espécie de dicionário enciclopédico do catolicismo contemporâneo português.

Não estamos perante uma obra que pretenda ser a voz oficial da instituição eclesial na linha da clássica expressão apologética. Esta obra traduz-se, isso sim, num fundamentado e aliciante quadro da condição do catolicismo em Portugal, pondo em evidência as múltiplas óticas, facetas e dinâmicas da comunidade católica e da sua Igreja.

Optou-se, neste projeto, pela leitura da diversidade encontrada no panorama do catolicismo português, perpassando a história, e, sempre que possível, evidenciando o contexto atual de cada uma das temáticas tratadas. Abordam-se temas do âmbito da teologia, da pastoral, do eclesial, da medicina, da política, da justiça, da sociedade, do ambiente, da música, da arte, da comunicação social, do turismo, da educação, da solidariedade, do desporto, entre outros. Salienta-se ainda um aspeto de particular significado: a participação das comunidades judaica e islâmica. Na tela de fundo, esteve sempre a opção pela evidência da Beleza na Diversidade, que sustenta todas as temáticas. A beleza na diversidade, além de estar presente nos múltiplos assuntos considerados, está patente na multiplicidade de pensamento dos autores que colaboraram na obra.

Desde a sua origem, este projeto privilegiou dois públicos: Sua Santidade, o Papa Francisco, que receberá um exemplar único da obra, no marco importante da sua vinda a Portugal, e o grande público, dos mais variados quadrantes socioculturais, crentes e não crentes. Para o público em geral, a obra será lançada numa edição especial do Círculo de Leitores, em novembro de 2017, e, posteriormente, numa edição corrente, em abril de 2018.

A Obra Portugal Católico em apresentação no youtube:


Fonte: Instituto Europeu de Ciências da Cultura Padre Manuel Antunes (IECCPMA)
Praceta João XXI, 17, 1.º esq. - 2775-711 Carcavelos
Contactos - tlm.: 969 977 702 - 961 088 814 / email: ieccpma@gmail.com

REFLEXÕES SOBRE O ENSINO DA GEOLOGIA NOS ENSINOS BÁSICO E SECUNDÁRIO

Novo post de Galopim de Carvalho:

Num país, como Portugal, onde a investigação científica e o ensino superior da Geologia estão ao nível dos que caracterizam os países mais avançados, é confrangedor assistir:

- à total iliteracia neste domínio do conhecimento da quase totalidade dos portugueses, incluindo os das classes sociais ditas cultas;

- à mesma iliteracia na generalidade dos governantes e demais decisores políticos;

- à pouquíssima importância, nos ensinos básico e secundário, deste mesmo domínio científico, essencial como motor de desenvolvimento, mas também como componente da formação cultural do cidadão.


De há muito que venho alertando, em textos escritos e em conversas públicas, para a pouca importância dada ao ensino da Geologia nas nossas escolas dos ensinos básico e secundário. Isto porque, em minha opinião, quem decide sobre o maior ou menor interesse das matérias curriculares, parece desconhecer que a geologia e as tecnologias com ela relacionadas estão entre os principais pilares sobre os quais assentam a sociedade moderna, o progresso social e o bem-estar da humanidade.

As minhas repetidas e insistentes diligências junto dos sucessivos governantes, no sentido de inverter esta deplorável situação, a última das quais dirigida ao actual Sectário de Estado da Educação, Prof. João Marques da Costa (Doutorado em Linguística), continuam sem resposta. O que é desesperante e lamentável.

Exceptuando aqueles que, por formação académica e profissional, possuem os indispensáveis conhecimentos deste interessante e útil ramo da ciência, a generalidade dos nossos ministros, secretários de estado, deputados e presidentes de autarquias não conhecem nem a natureza, nem a história do chão que pisam e no qual assentam as fundações dos edifícios onde vivem e trabalham. Uns mais, outros menos, sabem o que neste território se passou desde o tempo em que o primeiro humano o pisou, milhares de anos atrás, mas muitíssimo pouco ou nada sabem sobre os milhões de anos de história deste torrão que é o nosso.

Não sabem que o lioz, ou seja, a pedra calcária usada na cantaria e na estatuária de Lisboa e arredores, nasceu num mar de há cerca de 95 milhões de anos (Ma), muito pouco profundo e de águas mais quentes do que as que hoje banham as nossas praias no pino do verão. Não sabem que o basalto das velhas calçadas da capital brotou, como lava incandescente, de vulcões que aqui existiram há uns 70 Ma, nem que o granito, a pedra que integra o belo barroco da cidade invicta, tem mais de 300 Ma. Não imaginam que o Tejo já desaguou mais a Sul, por uma série de canais entrançados, numa larga planura entre a Caparica e a Aldeia do Meco. Não sabem que a serra de Sintra é o que resta de uma montanha bem mais imponente e ignoram que, por pouco, não rebentou ali, há uns 85 Ma, um grande vulcão.

Marcados por um ensino livresco, tantas vezes desinteressante e fastidioso, são muitos os que, enquanto estudantes, frequentaram Geologia e que, terminada esta fase das suas vidas, atiraram para o caixote do esquecimento o pouco que lhes foi ministrado sem entusiasmo nem beleza.

É o que se passou com a generalidade dos nossos adultos, sejam eles juristas, economistas, militares ou marinheiros, poetas, romancistas ou jornalistas, vendedores de automóveis ou jogadores de futebol. Não sabem que grande parte do Ribatejo e do Alto Alentejo foi uma área lacustre e pantanosa há poucas dezenas de milhões de anos, que tivemos aqui períodos de frio glacial, como, por exemplo, o da Islândia, e de calor  húmido tropical, como o das Caraíbas. Ninguém lhes explicou o que significam, quando e como surgiram e evoluíram as serras de Portugal. Ignoram porque é que há mármores em Estremoz, sienitos nefelínicos em Monchique, areias brancas em Coina e em Rio Maior, pirites em Aljustrel, volfrâmio na Panasqueira, urânio na Urgeiriça, lítio em Montalegre e caulino na Senhora da Hora. Desconhecem porque é que se fala do Barrocal algarvio, das Rias Formosa e de Aveiro, das Portas de Ródão, do estuário e do gargalo do Tejo, dos barros de Beja, da livraria do Mondego, da Arriba Fóssil da Caparica, da “planície alentejana” ou do “Norte montanhoso”.

Sabem dizer granito, basalto, mármore, calcário, xisto, barro, quartzo, mica, feldspato, petróleo, gás natural e carvão-de-pedra, mas ignoram a origem, a natureza e o significado destes materiais como  “palavras”  do “livro” que conta a longa história da Terra.

Para além do seu interesse utilitário na procura, exploração e gestão racional de matérias-primas minerais metálicas e não metálicas indispensáveis no mundo actual, a Geologia ensina-nos, ainda, a encontrar águas subterrâneas e recursos energéticos, como são o carvão, o petróleo, o gás natural e o calor geotérmico.

Essencial no estudo da natureza dos terrenos sobre os quais temos de implantar grandes obras de engenharia (pontes, barragens, aeroportos), ou desenvolvemos a agricultura, a Geologia dispõe ainda dos conhecimentos necessários à prevenção face aos riscos vulcânico e sísmico, à defesa do ambiente natural numa política de desenvolvimento sustentado, à preservação do nosso património mais antigo, além de nos dar resposta a muitas preocupações de carácter filosófico.


É, pois, preciso e urgente olhar para esta realidade do nosso ensino. É preciso e urgente que o Ministério da Educação chame a si meia dúzia de professores desta disciplina capazes de proceder à necessária e profunda revisão de tudo o que se relacione com o ensino desta área curricular, a começar nos programas, passando pelos livros e outros manuais adoptados, pela formulação dos questionários nos chamados pontos de exame e, a terminar, na conveniente formação dos respectivos professores.

Importantes páginas da longuíssima e complexa história da Terra, conservadas nas rochas, estão à disposição dos professores e dos alunos nos terrenos que rodeiam as suas escolas. Conhecer esses terrenos e os processos geológicos aí envolvidos, desperta a curiosidade dos alunos, abrindo-lhes as portas não só ao conhecimento da sua região, como aos da geologia em geral. Tais conhecimentos, mais sentidos e interiorizados do que, simplesmente, decorados para debitar em provas de avaliação, conferem dimensão cultural a esta disciplina, formam cidadãos mais conscientes da sua posição na sociedade e defensores activos do nosso património natural.

À semelhança de um velho pergaminho, de um achado arqueológico, ou de uma ruína, as rochas, com os seus minerais e os seus fósseis, são documentos que a geologia ensina a ler e a interpretar.

Se há matérias que têm características passíveis de serem ministradas numa política de regionalização do ensino e que muito conviria considerar, a Geologia satisfaz esta condição.

Portugal, de Norte a Sul e nas Ilhas, dispõe de uma variedade de terrenos que cobrem uma grande parte do tempo geológico, desde o Pré-câmbrico, com mil milhões de anos, aos tempos recentes. No que se refere à diversidade litológica, o território nacional exibe uma variedade imensa de tipos de rochas, entre ígneas, metamórficas e sedimentares e, no que diz respeito aos minerais, o número de espécies aqui representadas é, igualmente, muito grande, e o número de minas espalhadas pelo território e hoje abandonadas ultrapassa a centena.

Temos, muito bem documentadas, as duas últimas grandes convulsões orogénicas. A Orogenia Hercínica ou Varisca, que aqui edificou parte da vasta e imponente cadeia de montanhas de há mais de 300 Ma e hoje quase completamente arrasada pela erosão, e a Orogenia Alpina que, nas últimas dezenas de milhões de anos, entre outras manifestações, elevou o maciço da Serra da Estrela, à semelhança de uma tecla de piano que se levanta acima das outras, e dobrou o espectacular anticlinal tombado para Sul, representado pela serra da Arrábida.

Podemos mostrar aos nossos alunos muitas e variadas estruturas tectónicas, como dobras, falhas, cavalgamentos e carreamentos. Temos à nossa disposição múltiplos aspectos de vulcanismo activo e adormecido (nos Açores) e extinto, de um passado recente (na Madeira, há 7 Ma, e Porto Santo, há 14 Ma) e antigo de cerca de 70 Ma, entre Lisboa e Mafra. Temos fósseis de todos os grandes grupos sistemáticos e de todas épocas. Temos dinossáurios em quantidade e algumas das pistas com pegadas destes animais entre as mais importantes da Europa e do mundo.

Tudo isto para dizer que, no ensino da Geologia, para além de um conjunto de bases gerais consideradas essenciais e comuns a todas as escolas do país, as do ensino secundário, deveriam ministrar um complemento criteriosamente escolhido sobre a geologia da região onde se inserem.

Assim e a título de exemplo, as escolas das regiões autónomas, aproveitando as condições especiais que a natureza lhes oferece, deveriam privilegiar o ensino da geologia própria das regiões vulcânicas, incluindo a geomorfologia, a petrografia, a mineralogia, a geotermia  e a sismicidade (estas duas, nos Açores). Do mesmo modo, o citado vulcanismo extinto, entre Lisboa e Mafra, o maciço subvulcânico de Sintra (possivelmente um lacólito), o mar tropical pouco profundo que aqui existiu, durante uma parte do período Cretácico, deveriam ser objecto de estudo dos alunos da “Grande Lisboa”.

Os exemplos são muitos e cobrem todo o território. O termalismo em Chaves, São Pedro do Sul e em muitas outras localidades, os vestígios de glaciações deixados nas serras da Estrela e do Gerês, o complexo metamórfico e os granitos da foz do Douro, os “grés” de Silves, os quartzitos da Livraria do Mondego e a discordância angular da Praia do Telheiro (Vila do Bispo) deveriam constar dos programas das escolas das redondezas.

Estes e muitos outros exemplos reforçam a ideia da possibilidade de uma adequada informação sobre a geologia regional a complementar um bem pensado programa de base comum a todas as escolas.

Imenso e tido por inabarcável, ao tempo dos descobrimentos marítimos, o nosso Planeta começa a dar preocupantes sinais de agressão já evidentes na poluição do ar que respiramos, da água dos mares e da que bebemos e, ainda, dos solos onde, é bom não esquecer, radica toda a cadeia alimentar que nos sustenta.

Apesar de ínfima no contexto da biodiversidade, esta criatura, a última de uma linhagem evolutiva de milhares de milhões de anos, a que foi dado o nome de Homo sapiens, só por si e desde o advento da Revolução Industrial (finais do século XVIII, começos do XIX), tem vindo a atentar, a ritmo exponencial, contra o meio físico que a todos rodeia, atingindo, no presente, níveis alarmantes que justificam, entre outras reuniões internacionais, a COP 21 que, em 2015, teve lugar em Paris.

Na sociedade de desenvolvimento, tantas vezes descurando os bem conhecidos preceitos de sustentabilidade, privatizam-se os benefícios da produção e distribui-se pelos cidadãos a subsequente poluição. À desenfreada procura de lucro de uns poucos, tem de opor-se a necessária cultura científica por parte dos restantes cidadãos. E a Escola tem, forçosamente, que fornecer essa cultura em articulação harmoniosa e inteligente com os saberes de outras disciplinas. Não o molho de definições que (salvo honrosas excepções) tem sido a sua praxis.

Sendo certo que a capacidade de intervenção de cada indivíduo, como elemento consciente da Sociedade, está na razão directa das suas convenientes informação e formação científicas, importa, pois, incrementá-las. E incrementá-las é facultar-lhe correctamente o acesso aos conhecimentos que, constantemente, a ciência nos revela. Sendo a geologia a disciplina científica que nos fornece todos conhecimentos atrás apontados, é fulcral atribuir-lhe, ao nível da Escola, a importância que, realmente, tem.

Galopim de Carvalho


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

OBRAS PIONEIRAS SERÃO TAMBÉM LANÇADAS EM COIMBRA

«Editar e conhecer as obras pioneiras da nossa cultura é uma maneira excelente de tomarmos consciência do nosso passado extraordinariamente rico e de nos apercebermos de que a nossa língua esteve a par de grandes línguas europeias, antecipando-se até, por vezes, a algumas delas no processo de autonomização do tronco da língua latina de onde emergiu.»

Excerto da Apresentação da obra
Marcelo Rebelo de Sousa
Presidente da República Portuguesa
  
Convite


O Círculo de Leitores, a Reitoria da Universidade de Coimbra e a Reitoria da Universidade Aberta têm a honra de convidar V.ª Ex.ª para a sessão de lançamento de Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa, com a direção de José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais.

A apresentação da obra estará a cargo de José Pedro Paiva e Nicolau Santos.

A sessão realizar-se-á na Sala de São Pedro do Edifício da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, pelas 18h30 do dia 28 de setembro de 2017.

AUTÁRQUICAS DE COIMBRA: UMA ANÁLISE POLÍTICA


O PS é o partido que tem governado a Câmara Municipal de Coimbra. Ou melhor, um membro do PS chamado Manuel Machado, uma vez que como nos três mandatos anteriores o Presidente tem feito um mandato unipessoal. Desta vez zangou-se com a sua número dois, Rosa Reis Marques. O PS de Manuel Machado obteve em 2013 um resultado relativamente escasso (35,5%), praticamente o mesmo que tinha obtido quatro anos antes, que se revela tanto mais escasso se olharmos para o número de votos: 22631, num eleitorado de 129060 cidadãos. Beneficiou da abstenção - as pessoas estavam cansadas e descrentes e do facto de os seus principais opositores se terem partido (PSD-PPM-MPT 29,7 % e CDS-PP 3,9%, os dois em conjunto 33,6%, que teriam sido decerto mais se tivesse havido uma coligação de centro-direita). Nos pequenos partidos, a CDU teve 11,1% e os Cidadãos por Coimbra, apoiados pelo Bloco de Esquerda, 9,3%. Como o PS não tinha a maioria dos vereadores serviu-se como "muleta" de um vereador da CDU. Os partidos da oposição e, por vezes, a própria CDU queixaram-se do autoritarismo de Machado. A Câmara de Manuel Machado foi, de facto, muito fraca, muito mais fraca até do que em mandatos anteriores. Pouco pôde apresentar de trabalho feito. Os problemas que se propôs resolver - basta ler o seu programa  de 2013 - ficaram por resolver. Um dos seus maiores fracassos foi o parque industrial i-Parque, que está falido. Outro foi o Centro de Congressos do Convento de S. Francisco, que não conseguiu atrair congressos relevantes, limitando-se, com uma gestão paroquial da própria Câmara, a alguns espectáculos sem grande poder de atracção. Os dois vultuosos equipamentos, resultantes de fundos europeus,  foram  caríssimos e estão desaproveitados. Outros grandes investimentos como o Parque Verde - do programa Polis - e o Convento de Santa Clara-a-Velha foram inundados pelas águas, sem que tenha havido nem prevenção nem reparação pronta. A Universidade conseguiu ser Património Mundial da UNESCO, mas a cidade não tem aproveitado essa circunstância: os turistas vêm só à Alta. A Baixa, incluindo a rua da Sofia, continuou a definhar. Um dos maiores escândalos da cidade - o Metro Mondego - deixou um buraco enorme de ruína e devastação na Baixa que não foi resolvido (para além de ter deixado um buraco no orçamento). Não houve o prometido metro nem se construiu a prometida Via Central. Outro escândalo da cidade foi a continuação da Estação Velha e da Rodoviária em condições lamentáveis. Não se fez novo Tribunal. A velhinha Penitenciária não saiu do sítio. O Hospital continuou sem estacionamento. Nada disto tem razão de ser porque o presidente devia conhecer os problemas, tinha experiência autárquica e era da mesma cor do governo, um governo que defende a descentralização. Machado diz que a Câmara teve 30 milhões de euros de lucro: isso significa que não teve a capacidade de investir para suprir algumas das graves carências da cidade, como por exemplo a reabilitação do centro histórico.

A situação da cidade é tão deficitária que o próprio PS tentou muito antes das eleições ver se existia alguma solução sem Machado, tendo testado alguns nomes alternativos. Ainda em Maio passado PS admitia que a Câmara de Coimbra era uma daquelas em risco de mudar de mãos.

Não tendo quase nada a oferecer Manuel Machado veio à última hora prometer um Aeroporto Internacional de Coimbra. A ideia não faz qualquer sentido. Não há um estudo, não há um plano, não há um orçamento. É uma ideia megalómana ao melhor estilo de Sócrates, só faltando saber s eo grupo Lena tem alguma coisa a ver com ela. Machado sabe que está a enganar - não há sequer dimensão no planalto de Antanhol para uma pista mínima -  mas tem uma razão para o fazer: quer lançar uma "cortina de fumo" para que, ocupando o espaço mediático, não se discuta os verdadeiros problemas: porque continua a cidade  a cair? porque não há investimento? porque não há empregos? Além da ideia risível do aeroporto a única estratégia que resta ao presidente-candidato é fazer-se de vítima. Após um debate na RTP3, respondeu às críticas dos seus opositores dizendo que eles tinham atacado os conimbricenses. Quer dizer, Machado, que representa uma parte pequena de Coimbra, toma-se por Coimbra toda. Só se pode queixar de si rio e queixa-se dos outros.

Nas próximas eleições autárquicas a liderança de Manuel Machado na Câmara de Coimbra está em risco. Muitos eleitores do PS não se sentem representados pelo continuado líder coimbrão, que não conseguiu nenhum protagonismo nacional e muito menos internacional. Ao PS não fará grande diferença que Machado perca (António Costa estava ao lado de Machado quando ele anunciou o aeroporto internacional de Coimbra e não o apoiou nessa pretensão, nem nessa altura nem depois) pois vai ganhar no todo nacional. Vai ganhar, por exemplo, em Lisboa, onde tem uma gestão moderna e eficaz, que conseguiu fazer da capital uma cidade global.

O normal seria agora, dado o histórico de alternância entre PS e PSD (por vezes coligado com o CDS), que a Câmara passasse para o segundo partido. O PSD e o CDS uniram-se (juntando outras forças sem grande significado, como o PPM) mas não conseguiram nem escolher um candidato convincente nem formar uma equipa renovada, preparada para os grandes desafios da cidade. Jaime Ramos o candidato do PSD-CDS, veio de Miranda do Corvo, onde reside, trabalha e vota. Tem um histórico de quatro mandatos, o último interrompido antes de uma decisão judicial desfavorável. Reconhecendo que tem um conjunto de interesses económico-sociais a defender em Miranda do Corvo, que está de resto a estender a Coimbra (onde adquiriu recentemente um colégio  para o explorar), já declarou que não fica na Câmara de Coimbra se não ganhar.  Entrou em campanha cedo mas cedo esgotou as suas "munições" com tiros para o ar. Cada dia anunciava uma coisa, mas percebeu-se logo que era tudo desgarrado, que não havia um plano coerente e, muito menos, havia pessoas minimamente capazes de realizar um plano desse tipo. A sua lista inclui as pessoas do costume, que nunca no governo da Cãmara ou fora dele tiveram soluções para a cidade. Contra Jaime Ramos joga o facto de um voto nele ser um voto em Passos Coelho. Ora muitos social-democratas, por exemplo Carlos Encarnação, querem discutir a liderança do PSD logo após as autárquicas. Se Passos Coelho vier a Coimbra, Ramos perderá uma boa parte dos votos com que conta. Além disso, a coligação com o CDS está absolutamente fora do prazo. Não se vai reeditar tão cedo no país, dada a má memória dos tempos de Passos Coelho -  Portas. Não veremos Passos Coelho de mãos dadas com Assunção Cristas no Penedo da Saudade. Percebe-se que, à semelhança do que se  passa no PS, o caso de Coimbra não interessa ao directório do PSD na sede da S. Caetano à Lapa. O PSD vai perder no país (vai ser curioso ver a votação de André Ventura em Loures, de cujo discurso Ramos não se distanciou), E com grande probabilidade, vai perder também em Coimbra. O CDS não tem expressão local nem em Coimbra nem, em geral, no país.

A CDU, honra lhe seja, não muda. Mas, poecisamente porque não muda há muitos anos vai decaindo de eleição em eleição, embora lentamente. Tem trabalho e competência em muitos concelhos do país, mas esse não é o caso em Coimbra. Não ajuda nada o facto de o seu actual candidato, Francisco Queiroz, ser o vereador que ajuda Manuel Machado.  A CDU pode fazer críticas ao governo de Machado mas é evidentemente  parte dele. A CDU vai tentar no país - e talvez consiga- não cair muito em luta com o PS, mas Coimbra não passa de uma minúscula parte desse esforço de resistência à erosão. A erosão em Coimbra vai continuar.

Embora contenha alguns independentes, os Cidadãos de Coimbra são a expressão em Coimbra do Bloco de Esquerda (BE), como mostra, entre outros, o facto de a sua mandatária ser Marisa Matias, deputada europeia do BE e de a lista incluir muitos filiados do BE.  É um grupo pequeno que não vai crescer, até porque houve uma cisão no seu interior que levou ao afastamento de alguns dos seus dirigentes. O seu líder, arranjado à última hora (vindo directamente da CDU, o  que explica algumas picardias recíprocas), Jorge Gouveia Monteiro, um político voluntarioso e conhecedor de alguns dossiers da autarquia mas que não tem nem carisma nem discurso para levar o seu grupo a um patamar de alguma ambição. Na melhor das hipóteses os Cidadãos de Coimbra / BE pode aspirar a eleger um vereador. O sonho, que chegou a ser declarado pelo responsável pelo movimento (que não coincide com o candidato), seria fazer uma "geringonça" em Coimbra com o PS e a CDU. Mas isso é não perceber a lógica da "geringonça nacional", que não tem nem terá expressão local (veja-se o caso de Lisboa). Além disso, seria um pouco patético para os Cidadãos criticarem, como fazem e bem, Machado e depois  servirem de suporte a ele, Em boa verdade, o BE, que não tem expressão autárquica no país (ganharam em Salvaterra de Magos, mas houve aí casos mal esclarecidos), quer apenas ser oposição em Coimbra. O poder não lhe interessa, quer apenas ser contrapoder.

Nestas eleições, dada a manifesta  incapacidade de tirar Coimbra do marasmo, surgiu uma lista inteiramente independente, Somos Coimbra, liderada por José Manuel Silva, ex-bastonário da Ordem dos Médicos, que pretende ganhar para operar uma mudança efectiva, que leve à  reafirmação do concelho de Coimbra no país. É uma novidade e uma alternativa para os muitos cidadãos desiludidos com alguns líderes partidários. Indicando que havia um espaço para novos actores, o Somos Coimbra foi a primeira candidatura a entregar as listas, a apresentar publicamente o seu programa de regeneração da cidade e a abrir a sua sede de campanha na Baixa da cidade. Faço parte dessa lista, na qualidade de suplente da candidatura à  Câmara Municipal, e partilho com muitos independentes e cidadãos com partido ou simpatizantes de um  partido a ideia de que existe agora uma oportunidade de relançar Coimbra. O momento surgiu com o claro objectivo de ganhar e vários indicadores confirmam essa hipótese. A probabilidade de vitória existe, embora seja difícil nesta altura de quantificar. Muito vai depender do crescendo da campanha. Uma coisa é neste momento já certa: o panorama da governação da autarquia de Coimbra vai-se modificar porque o Somos Coimbra irá buscar muitos votos à abstenção e aos votos brancos e nulos (a percentagem enorme da abstenção em Coimbra, 51%,  faz com que o resultado possa ser inesperado) assim como votos ao eleitorado de todos os partidos, desde o PS aos BE, passando pelo PSD, CDS e CDU. O Somos Coimbra diz que os problemas da cidade  não podem ser resolvidos pelos mesmos  partidos que até agora se revelaram incapazes de os resolver. É a hora de dar a oportunidade a novos protagonistas, de  unir esforços para resolver os problemas da cidade que estão - ou deviam estar - para além das divisões partidárias e dos interesses das clientelas associadas aos partidos. Como mostra o caso do Porto (onde Rui Moreira vai de novo ganhar), os partidos são necessários em democracia mas não esgotam de maneira nenhum a  participação democrática. A democracia contém sempre em si a possibilidade de uma solução.

domingo, 17 de setembro de 2017

ÚLTIMA TERTÚLIA DO CICLO CIÊNCIA AO LUAR EM COIMBRA


No próximo dia 18 de Setembro, segunda - feira, das 21h00 às 22h00, no Café Santa Cruz, o Prof. Doutor Carlos Brás Saraiva, médico psiquiatra no Centro Hospitalar da Universidade de Coimbra e Professor da Faculdade de Medicina da mesma Universidade e o Prof. Doutor Luiz Miguel Santiago, médico de Medicina Geral e Familiar e Professor Associado da Faculdade de Medicina da UC terão uma conversa sobre medicina e saúde, moderada por Carlos Fiolhais, Director do RÓMULO – Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra.

Esta tertúlia fecha o ciclo “Ciência ao Luar”, do programa Ciência Viva no Verão em Rede 2017, em Coimbra, que se realizou no Café Santa Cruz. Estando prevista para o dia 11 de Setembro, foi adiada por motivo de força maior. A tertúlia é aberta às intervenções dos cidadãos.

BIOGRAFIAS:

Carlos Manuel Braz Saraiva, nascido em Coimbra em 1950, é médico psiquiatra do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Professor de Psiquiatria na Faculdade de Medicina e membro do Conselho Médico-Legal. Desde o início da década de 80 tem desenvolvido trabalhos de investigação, a par de intensa actividade clínica, principalmente na área dos comportamentos suicidários. As suas principais áreas de interesse, para além da suicidologia, são as doenças do humor, os distúrbios da personalidade e do impulso, a psiquiatria forense e o psicodrama. Para além de centenas de comunicações orais e posters, tem mais de 100 trabalhos publicados em Portugal e no estrangeiro. É autor dos livros “Para-Suicídio” (Quarteto, 1999), “Estudos sobre o Para-Suicídio – O que Leva os Jovens a Espreitar a Morte” (EA, 2006). No âmbito literário, publicou “Turbulências” (Audimprensa, 1995) e “Janela de Almas” (reedição, Lidel, 2015).

Luiz Miguel Santiago é licenciado em Medicina pela Universidade de Coimbra desde 1979, Mestre em Saúde Pública pela Universidade de Coimbra (UC) em 2006 e Doutorado, pela UC, na Especialidade de Sociologia Médica, ramo de Medicina Preventiva e Comunitária, em 2009.  Desde 2017 é Professor Associado da Faculdade de Medicina da UC.  Na carreira médica de Medicina Geral e Familiar é Consultor com o Grau de Assistente Graduado Sénior desde 2002, sendo orientador no Internato Complementar de Medicina Geral e Familiar desde 2006.  Foi Professor Associado Convidado da Universidade da Beira Interior e Professor Adjunto Convidado da Coimbra Health School.  É membro da Academia Europeia de Professores em Medicina Geral e Familiar na qual é formador e orientador de Teses de Mestrado e de Doutoramento, na UC e na UBI. É membro da Comissão de Ética da ARS do Centro e na Ordem dos Médicos, Secção do Centro, do Gabinete de Ética. Tem vasta bibliografia em livros e revistas especializadas.

Para mais informações:

RÓMULOCentro Ciência Viva da Universidade de Coimbra 
                     Maria Manuela Serra e Silva
                     Telefone – 239 410 699
                     E-Mail – ccvromulocarvalho@gmail.com
                     Facebook: http://www.facebook.com/profile.php?id=100002912006773

Educação: o fim anunciado de uma era de grandes sucessos



Artigo de Filipe Oliveira no Observador:
Após os catastróficos resultados obtidos durante a década de 1990, os estudos internacionais têm revelado uma extraordinária evolução dos alunos portugueses. Portugal foi o país que, no TIMSS (Trends in International Mathematics and Science Studies), maiores progressos fez a Matemática durante os últimos 20 anos, evidenciando até, em 2015, desempenhos superiores aos da Finlândia, vista tradicionalmente como tendo um dos melhores sistemas de ensino do mundo. Também no PISA 2015 (Programme for International Student Assessment), pela primeira vez, os alunos portugueses situaram-se acima da média da OCDE em cada uma das três componentes em avaliação: Literacia Científica, Matemática e Leitura. O ano letivo de 2014/2015 fica igualmente marcado por uma prodigiosa melhoria do sucesso escolar, traduzida numa redução drástica das taxas de retenção em todos os anos de escolaridade, do 1.º ao 12.º, redução essa confirmada no ano seguinte (dados disponíveis no sítio da Direção Geral de Estatísticas da Educação e Ciência).
Estes resultados muito positivos foram obtidos graças à implementação, por parte de diferentes governos, de políticas educativas com alguma coerência global, que transformaram o país num verdadeiro exemplo para a comunidade internacional: entre 2000 e 2015, sempre num espírito de relativa continuidade, introduziram-se provas no final de cada ciclo do ensino básico, apostou-se na formação de professores, enriqueceram-se currículos, estabeleceram-se objetivos claros para o ensino e exigiu-se qualidade aos manuais escolares através do processo de certificação.
Em contra-corrente, o atual Ministério da Educação parece empenhado em romper drasticamente com este rumo de sucesso, tão firmemente mantido pela mão de governantes dos mais diversos estilos e cores políticas. Para o efeito, tem apresentado medidas radicais desprovidas de qualquer suporte técnico ou científico, que visam apenas liquidar esta continuidade e comprometer os pilares em que assenta o tão duramente conquistado sucesso dos alunos portugueses.
Em 2015, sem qualquer explicação, a atual maioria aboliu as provas finais do 1.º e do 2.º ciclo, pondo assim fim a uma preciosa série temporal que permitia a monitorização da evolução do sistema de ensino de ano para ano, identificando pontos positivos e eventuais fragilidades a corrigir. Não existe, atualmente, qualquer instrumento que permita medir o que os alunos efetivamente aprenderam no final destes dois ciclos cruciais, tornando impossível a deteção atempada de eventuais degradações da qualidade do ensino que possam vir a comprometer o sucesso futuro dos jovens. Note-se que a redução recente das taxas de retenção foi sancionada por exames nacionais. Como interpretar, a partir de agora, a evolução dessas taxas? De seguida, no caso da Matemática, o Ministério da Educação decidiu de forma totalmente gratuita liquidar a certificação de manuais escolares. É consensual que este processo levou, nos últimos dez anos, a uma melhoria muito significativa dos livros utilizados pelos alunos portugueses. Hoje, e tal como acontecia nos anos noventa, qualquer pessoa pode elaborar um manual e colocá-lo no mercado, não ficando de forma alguma salvaguardada a respetiva qualidade científica e pedagógica. Trata-se, na prática, de um grande retrocesso: este processo sustentava o trabalho dos professores, que outrora eram frequentemente confrontados com erros científicos nos manuais.
Se tudo isto é já suficientemente gravoso, eis que o Ministério da Educação publica, durante o mês de agosto e a escassos dias do arranque do ano letivo, uma profundíssima revisão curricular que rompe abruptamente com tudo o que tem sido o ensino em Portugal. Jorge Buescu apelida-a, na edição do Público do passado dia 12 de setembro, de «Processo de Revolução Educativa em Curso» (PREC). E, de facto, merece bem a designação. Para evitar este tipo de guinadas súbitas, a lei portuguesa estabelece prazos mínimos para a implementação de orientações oficiais que rompam com as vigentes (20 meses). Há assim tempo para efetuar consultas públicas, promover debates, ouvir especialistas, informar as famílias dos contornos das reformas e preparar novos materiais adequados aos novos programas. Sobretudo, deve ser dado tempo aos professores para tomarem conhecimento das alterações preconizadas e assim poderem idealizar as melhores estratégias para as colocar em prática: em última instância, é o trabalho dos professores que permite conduzir os alunos ao sucesso.
Para contornar esta imposição, decidiu o Ministério da Educação apelidar esta substituição dos currículos de «flexibilidade curricular», reduzindo os 20 meses a 20 dias. Vai aplicar desde já – e sem qualquer consentimento dos encarregados de educação dos alunos envolvidos – os novos programas a “turmas experimentais” dos 1.º, 5.º, 7.º e 10.º anos de escolaridade, abrangendo cerca de 20% das escolas do país e generalizando estas disposições a todos os alunos no próximo ano letivo. Tudo isto sem ouvir os professores, com exceção de escassos dirigentes de associações profissionais já em si com muito pouca representatividade no meio escolar. Por maior que seja a sua dedicação, temos neste momento nas escolas professores desorientados e perplexos com estas diretivas súbitas.
Pretende-se promover nas escolas um ensino assente em «projetos interdisciplinares». A interdisciplinaridade e a integração de conhecimentos oriundos de áreas diversas são fundamentais no desenvolvimento cognitivo das crianças e jovens. Contudo, colocar o “interdisciplinar” a montante do “disciplinar” é um erro há muito identificado: é como atirar uma criança com uma raquete na mão para dentro de uma piscina e esperar que aprenda a nadar e a jogar ténis em simultâneo. As disciplinas têm especificidades próprias e necessitam de um estudo dedicado, sério e exigente. E onde se encontra o tempo para realizar esses projetos? É simples: cortam-se até 25% dos conteúdos de todas as disciplinas e em todos os níveis. Sim, leu bem: 25% de todas as disciplinas e em todos os níveis. Por exemplo, em Matemática, os alunos abrangidos vão aprender menos do que o que era determinado pelo Programa do Secundário de 1998, menos do que o que se encontrava previsto no Programa do Ensino Básico de 2007, e, sobretudo, muito menos do que os colegas que, este ano, não integrarão este projeto. Os documentos que regem os cortes a aplicar, ditos Aprendizagens Essenciais, para além de extremamente vagos e inúteis enquanto orientadores do ensino, são de uma qualidade que em nada dignifica o país, apresentando erros técnicos e científicos de grande gravidade (veja-se, a este propósito, o comunicado da Sociedade Portuguesa de Matemática).
Se é Encarregado de Educação, é importante que determine o mais depressa possível se o seu educando se encontra numa turma experimental e, se for o caso, exigir junto da escola que lhe sejam ministrados todos os conteúdos previstos nos programas efetivamente em vigor, o que lhe permitirá ficar em igualdade de circunstâncias com os colegas que frequentam uma turma regular, em termos de conhecimentos que irá adquirir e de capacidades que irá desenvolver. Os danos provocados por este experimentalismo selvagem, que durará um ano letivo completo (ainda para mais o primeiro do ciclo), serão difíceis, senão impossíveis, de reverter.
Filipe Oliveira
Filipe Oliveira é Coordenador do Programa e Metas Curriculares de Matemática de 2013 e Professor no ISEG – Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa

sábado, 16 de setembro de 2017

O Partido Socialista, a ADSE e a "praga cinzenta"


Porque “tudo deve ser discutido; sobre isso não há discussão possível” (Pitigrilli), mais um meu artigo de opinião sobre esta temática, desta feita publicado no passado dia 14 deste mês, in “Diário as Beiras”:

“A não retroactividade das leis é o que distingue a civilização da barbárie”
(Augusto Santos Silva, actual ministro do Partido Socialista).

Circunstâncias várias levam-me a escrever novo artigo de opinião sobre a ADSE porque no Portugal d’hoje tardam em serem solucionados pelo poder político os problemas de Saúde Pública.

Para situar o leitor sobre a repescagem pelo Partido Socialista de uma legislação do tempo dos sociais-democratas (1983) em banho-maria desde então possivelmente para evitar possíveis danos eleitorais foram nesta legislatura levadas a efeito alterações pela ADSE em maré alta de popularidade de António Costa (antes do fatídico incêndio de Pedrógão Grande).

Desta forma, foram despejados no caixote do lixo direitos adquiridos que pudessem onerar em cêntimos a discussão de um orçamento de Estado comprometido com casos de corrupção e prejuízo de milhões de bancos falidos por gestão dos seus responsáveis.

Pondo água na fervura surge agora, tarde e a más horas, a ADSE, em genuflexão ao Rei Midas, de forma aparentemente menos draconiana, mas não menos desumana, passando a permitir apenas a inscrição de cônjuges de beneficiários titulares desde que passem a fazer descontos de uma (in)determinada quantia e não tenham mais de 65 anos de idade.

Essas benesses, trazem-me à memoria um amigo que me dizia que favores destes também os espanhóis me fazem sem me conhecerem de lado nenhum. Como corolário desta exigência, falta, apenas, a ADSE exigir aos novos cônjuges dos beneficiários titulares a apresentação de um atestado de junta médica que comprove uma saúde ferro e preveja a sua continuação por muitos e bons anos. E este statu quo é tanto mais escandaloso por uma Auditoria do Tribunal de Contas denunciar que o Governo está a financiar o Orçamento do Estado à custa da ADSE por os funcionários públicos estarem a pagar mais 228 milhões do que seria necessário (Expresso, 17/07/2015).

Sem necessidade de exemplificar com o caso de doentes que morrem por cirurgias adiadas para as calendas gregas nos hospitais públicos ou de doentes obrigados a recorrer a consultas privadas em Dermatologia “que podem levar anos no SNS” (Semanário Sol, 29/10/2015), trata-se esta medida altamente penalizadora para a “ praga cinzenta” (expressão escandalosa de Carlos Peixoto) por discriminar idosos em sofrimento por doenças graves, atirados de supetão, por vezes, de madrugada e em dias invernosos, para as urgências dos hospitais públicos de um Serviço Nacional de Saúde a rebentar pelas costuras ainda que mesmo sem esta nova e inesperada “clientela” que usufrui de reformas, por vezes, correspondentes a menos de metade do ordenado mínimo nacional quer tenham ou não descontado para a Segurança Social, em desrespeito por princípios constitucionais em que situações desiguais não devem ser tratadas igualmente.

Caro leitor, estas são breves pinceladas de um lamentável quadro socioeconómico que deveria preocupar o anónimo cidadão tornando pública a sua voz, em dever de cidadania para que estas questões fossem atendidas no palácio ardiloso de governantes de um país avesso aos princípios humanísticos e doutrinários defendidos por António Bagão Félix, antigo ministro da Segurança Social do XV Governo de Portugal: “O Estado social discute-se porque é a parte do Estado que tem mais a ver com as pessoas velhas, reformadas, desempregadas, estão sós, têm incapacidades, pessoas que não têm voz, não têm ‘lobbies’, não abrem telejornais, não têm escritórios de advogados, não têm banqueiros” (Jornal de Negócios, 30/11/2012).

Finalmente, se para esta minha posição de repúdio pessoal plasmada em inúmeros artigos de opinião por mim assinados, encontro razão, muito mais razão encontro para que partidos políticos, actuais compagnons de route do Partido Socialista, manifestem a sua posição institucional num assunto que lhes diz directamente respeito em defesa de um estado social que não seja simples slogan de campanha eleitoral para captar votos e pretexto para a nomeação de comissões sem qualquer poder decisório. Ou seja, como sói dizer-se, unicamente para inglês ver!

A Constituição não fala em "género", sim em "sexo"

Dou, abaixo, destaque ao comentário de um leitor anónimo. Tomo a liberdade de acrescentar, entre parêntesis rectos, alguns elementos que completam o texto.
Queria chamar a sua atenção para estes factos:  
Segundo a Constituição [da República Portuguesa] a notícia [Igualdade de género vai ser um tema obrigatório no ensino básico e secundário] refere-se a algo que é uma inconstitucionalidade. 
A Constituição não fala em género, sim em sexo. O Estado, a cumprir o noticiado vai estar a infringir claramente o Artigo 43, alínea 2. O Artigo 13, alínea 2 também será infringida. 
Artigo 13.º- Princípio da igualdade (...) 
2. Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual. 
Artigo 43.º - Liberdade de aprender e ensinar (...) 
2. O Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer directrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas. 
[Nota]. Neste ano lectivo a nova Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania será apenas desenvolvida nas escolas que integram o projecto-piloto de flexibilidade curricular. 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

“O AVÔ E OS NETOS FALAM DE GEOLOGIA”

Novo post de Galopim  de Carvalho:

“O AVÔ E OS NETOS FALAM DE GEOLOGIA”
Vai sair em 2ª edição
Ponto 1 - Vivo perfeitamente, feliz e em paz com a minha reforma, o que nunca me impediu de, no meu exercício de cidadania, me situar do lado da “barricada” dos explorados.
Ponto 2 - Como autor, que sou, de mais de uma vintena de livros, nunca actuei nem não actuo a pensar nos direitos de autor. Direi, mesmo, que me basta a sorte de ter um editor que dê à estampa o produto do meu trabalho.
Ponto 3 – Já vivi muito, já trabalhei muito e já tive as homenagens que tive. Não procuro mais, não preciso, como se diz, de me “pôr nos bicos dos pés”. Apenas procuro servir no domínio em que adquiri alguma competência – o ensino da disciplina em que fui profissional, quer no terreno e no laboratório, como geólogo, quer na sala de aula, a todos os níveis de escolaridade.
Ponto 4 – Se insisto em publicitar aqui, no Facebook, este meu novo livro, é apenas, repito, é apenas porque entendo (e já dei sobejas provas de que tenho autoridade para tal) que ele deve ser lido, em especial, pelos Professores que ensinam Geologia e Geografia nas nossas Escolas.
Ponto 5 - Entendo, mas não insisto em afirmá-lo, que ele oferece ao leitor jovem ou adulto uma informação, a nível geral e básico, sobre a história do nosso Planeta, indispensável à sua condição de cidadania.

Este livro é uma ideia tão feliz quanto necessária e útil. O seu valor pedagógico é comparável aos cadernos de iniciação científica de Rómulo de Carvalho. Com uma diferença que lhe acentua a utilidade: é que me parece que precisam tanto dele os jovens alunos como os professores do ensino básico e secundário que temos e em que me incluo. Recomendá-lo-ei aos meus alunos do secundário, assim como tomarei a iniciativa de o recomendar aos colegas de grupo disciplinar e ainda solicitarei à direcção da Escola que adquira meia dúzia deles para a biblioteca”.
José Batista da Ascenção

Professor de Biologia e Geologia da Escola Secundária Carlos Amarante, Braga