quarta-feira, 8 de abril de 2020

E, ASSIM, O TEMPO SE FOI TRANSFORMANDO EM PALAVRAS, SEM QUE O TIVESSE VISTO PASSAR.

São muitos os idosos em que o cérebro, repleto de informação e de experiência acumuladas ao longo de uma vida, assiste, consciente e impotente, à degradação física do respectivo corpo, o que, convenhamos, não é agradável. Como resposta, busca e adopta comportamentos e actividades compatíveis com essa realidade incontornável.

Os idosos que, profissionalmente, exerceram intensa actividade intelectual e que o chamado limite de idade arrumou na irremediável condição de pensionistas, continuam, por muitos anos, intelectualmente activos. 

É, pois, nesta classe de cidadãos que procuro situar-me, fruindo o dia-a-dia, com alegria de viver, fazendo por esquecer ou minimizando, com recurso à medicina, as artrites, as deficiências coronárias e demais mazelas próprias da chamada terceira idade.

Divulgar a ciência que cultivei, como geólogo e professor de geologia, foi a opção que tomei no sentido de tornar útil o meu tempo de pensionista. Sem horário de trabalho fixado, o que aconteceu com a minha jubilação em 2001, sou dono de todo o meu próprio tempo, que reparto a meu belo prazer, e dele fazem parte, entre outras ocupações, transmitir, pela palavra escrita e falada, o que a vida em sociedade e a profissão me ensinaram, a par de uma intervenção cívica que entendo dever ter como cidadão atento.

É voz corrente ouvir-se dizer que “sempre que morre um velho, é uma «biblioteca» que se perde”. Importa, pois, que essa «biblioteca», enquanto viva, se abra aos que dela possam beneficiar. 

Os textos que, com propósitos científicos e pedagógicos, de há muito venho divulgando, têm como destinatários preferenciais os professores que, nas nossas escolas básicas e secundárias, se debatem com falta de elementos que complementem os tradicionais e repetidamente estereotipados manuais de ensino. Visam, ainda, o cidadão comum, interessado em conhecer o chão que pisa e lhe dá o pão. 

Não pretendo, longe disso, ensinar algo de novo aos meus pares, alguns deles bem mais entendidos do que eu nestas matérias. A esses, muitos deles meus ex-alunos, recorro, sempre que necessário, para que me esclareçam dúvidas, me aconselhem ou ensinem algo do muito que já sabem, estimulando-os a que, com o mesmo espírito de missão, a mesma simplicidade e igual humildade no que procuro transmitir, se disponham a divulgar a ciência que cultivaram.

Dei-me da minha condição idoso, há mais de vinte anos, em Drumheller, uma cidadezinha no despovoado território a norte do estado de Alberta, no Canadá, que vive, em parte, do suporte que presta às importantes escavações ali levadas a efeito por paleontólogos de todo o mundo, interessados em dinossáurios, e aos cerca de 250 000 visitantes/ano do mundialmente conhecido “Royal Tyrrel Museum”, detentor de uma das mais numerosas e variadas colecções de fósseis completos destes belos animais do nosso passado geológico.

Foi aqui, numa loja como aquelas que sempre aparecem nos filmes do Far West americano, que vende de tudo, dos alfinetes aos electrodomésticos, que a senhora que me atendeu e, ao fazer a conta, me perguntou a idade. Dada a resposta, abateu 10% no preço a pagar e, simpaticamente, acrescentou: "it‘s an old people privilege". 

“Velhos são os trapos” diz muito boa gente, preferindo usar o termo idoso que, assim, se generalizou. Mas pior do que ser velho ou idoso é ser pensionista contra vontade, como no meu caso, estupidamente afastado do serviço activo e colocado na “prateleira” por imposição do “limite de idade”.

A solução foi continuar a escrever muitas horas por dia, indiferente a sábados, domingos, períodos de férias ou dias feriados. Isto porque os reformados estão sempre em férias e porque as férias servem para se fazer aquilo de que se gosta. Pude, assim, por ter mais tempo, produzir mais do que quando estava no activo. A verdade é que, quando estou frente ao monitor, seguindo as palavras que, letra a letra, os dois indicadores vão dedilhando, num esforço de acompanhar e não deixar perder as ideias que fluem velozes, a verdade é que, dizia eu, não tenho idade, não tenho corpo nem coronárias entupidas e consigo esquecer os problemas que a todos afligem, em particular os que estamos a viver graças a um punhado de espertalhões a quem, ingénua e descuidadamente, fomos entregando a condução do nosso destino.

E, assim, o tempo se foi transformando em palavras sem que o tivesse visto passar.

A. Galopim de Carvalho

MINHA ENTREVISTA SOBRE A COLECÇÃO CIÊNCIA ABERTA


Outra parte da longa entrevista que dei a Inês Navalhas (IN), que está a preparar uma tese sobre a comunicação de ciência através dos livros:

IN: Como autor e professor, gostaria de saber como é que surgiu o seu interesse pela ciência e em particular pela sua área especifica. Lembra-se?

CF: O meu primeiro livro saiu em 1991 na Gradiva, embora não na coleção Ciência Aberta. Foi numa colecção que já não existe intitulada Aprender, Fazer Ciência. Era uma colecção de índole experimental, bastante dirigida aos jovens. O livro – intitulado Física Divertida - teve um êxito muito grande, inesperado para mim. Vendeu bastante bem nas suas várias edições. Actualmente está na 8.ª edição, julgo. E teve edições no estrangeiro, uma brasileira, outra espanhola, outra italiana… Teve bom acolhimento no mundo latino, portanto. Calculo que deve ter vendido, em Portugal, isto nas suas várias edições, cerca de 20.000 exemplares, o que é notável. Nos anos 90 as edições eram muito maiores do que são hoje. Hoje é muito difícil de conseguir fazer isso.

Esse livro não veio do nada. Surgiu de um conjunto de palestras que fiz em escolas nos anos 80. Foi uma actividade em que me empenhei quando regressei do doutoramento na Alemanha no Natal de 1982. Demorou um pouco a adaptação, o regresso ao lar, mas na segunda metade dos anos 80 realizei numerosas sessões de divulgação científica, a maior parte delas a pedido de escolas. As histórias que eu conto na Física Divertida têm por base as “experiências orais” que realizei com jovens entre os 13 e os 17 anos. Era esse, na altura, o público-alvo da colecção Aprender, Fazer Ciência. O livro tinha desenhos do José Bandeira, hoje cartoonista no Diário de Notícias que eu conheci na época porque dois dos capítulos foram pré-impressos numa revista que havia de ficção científica intitulada Omnia. O editor era João Paulo Cotrim que hoje tem as editoras Abysmo e Arranha-Céus, onde publiquei a minha História da Ciência em Portugal. Na revista saíram os desenhos a cores, muito engraçados. Portanto, o meu primeiro livro parte de uma experiência de falar para o público escolar, de uma experiência de publicação em revistas e jornais. Eu tinha 35 anos, já colaborava com a Gradiva sendo, pelo que é natural que o livro saísse nessa editora.

Eu conhecia a editora através da colecção Ciência Aberta e já tinha uma relação com ela. Comecei por fazer para a Gradiva traduções bem antes de publicar esse livro. Conheci o editor Guilherme Valente pouco depois de vir da Alemanha, portanto, nos anos 83/84. A editora é um pouco anterior, de 1980. O primeiro livro que traduzi para a Ciência Aberta foi do alemão. Eu tinha vindo da Alemanha e escrevi uma carta ao editor onde lhe propunha um livro de Manfred Eigen, um Prémio Nobel da Química que, entretanto, já faleceu e que eu vim mais tarde a conhecer pessoalmente. O livro, intitulado O Jogo, é o número 28 da colecção. É coautora uma colaboradora de Eigen, Ruthild Winkler. Eigen, quando veio mais tarde a Portugal a um congresso de Química, entrou em contacto comigo. Foi muito curioso o encontro, dei-lhe o livro assinado em português e ele retorquiu com um CD com música de piano tocado por ele, porque ele era um pianista amador mas com discos gravados. Era um Nobel com grande cultura artística. O número 28 seguiu-se, curiosamente, a um dos maiores êxitos de sempre da colecção, que é o 27, Breve História do Tempo, de Stephen Hawking. A minha participação na Gradiva começa aí, a colecção ia nas duas dezenas e já devia ter uns cinco ou seis anos. 

A sua criação e desenvolvimento são mérito do editor, que foi muito clarividente numa época em que a cultura cientifica em Portugal reduzida. Ele teve esta visão de lançar autores muito bons de cultura científica. O número 2 é um livro de Hubert Reeves, o número 5 é o Cosmos, de Carl Sagan, que teve enorme impacto, quer o 2 quer o 5 foram livros que lançaram a colecção, porque venderam bastante. Aliás  Cosmos ainda hoje vende. Não esqueçamos que, quando eu estava na Alemanha foi a época da série Cosmos, que surgiu na televisão em 1980. A edição portuguesa não demorou muito tempo, embora não tenha sido de início a edição ilustrada. 

O primeiro autor português que apareceu na colecção foi o Jorge Dias de Deus, com o número 11.  Depois apareceu o Stephen Jay Gould, no número 12, e voltou o Hubert Reeves, com o número 13. Um livro que me marcou muito como leitor foi o número 14, de Ilya Prigogine, outro Prémio Nobel da Química, intitulado A Nova Aliança, em co-autoria com a sua colaboradora Isabelle Stengers. Aliás, o meu primeiro artigo na imprensa nacional -  já tinha escrito nos tempos do liceu na imprensa regional -  foi no jornal Expresso, a convite do jornalista José Vitor Malheiros e foi precisamente uma recensão deste livro que saiu no Expresso Revista. Ainda me lembro muito bem porque uma pessoa lembra-se sempre bem da primeira vez… E entrei logo pelo jornal de maior audiência que era, como hoje continua a ser, o Expresso. A equipa que fazia o Expresso Revista foi a mesma que mais tarde fundou o Público, mais ou menos na altura em que saiu o meu primeiro livro. Essa equipa convidou-me a mim, que já tinha outros textos de recensão no Expresso, a ser colaborador regular do Público, o que aceitei, começando a fazer recensões de muitos livros precisamente da Gradiva e de outras, não muitas, que lhe faziam concorrência na divulgação científica. Havia outras colecções de ciência na época, na Europa-América, nas Edições 70, na Presença, etc. e eu escrevia sobre ciência, em particular livros e actualidades da ciência. O Público tinha no início um suplemento semanal chamado Hoje e Amanhã, que era um magazine de ciência e tecnologia, e tinha também um suplemento literário, Leituras, igualmente semanal. Praticamente não havia semana nenhuma, nos primeiros tempos do Público, em que não escrevesse. Depois o jornal diminuiu de tamanho, era um grande investimento. Conservo ainda no meu computador os textos que escrevi, apesar de a informática ter evoluído muito.

Escrevi ao editor Guilherme Valente sugerindo vários livros, entre os quais O Jogo de Eigen e Winkler e o Guilherme disse-me imediatamente que traduzisse. Ainda me lembro que ganhei um dinheirito com a tradução, não tenho a certeza, mas acho que foram 200 contos. Foi assim que entrei na área editorial, na Gradiva como conselheiro e tradutor e nos jornais nacionais, o Expresso e o Público, como recenseador e comentador na área da ciência. O primeiro autor português da colecção Ciência Aberta foi, como já disse, Jorge Dias de Deus, professor do Instituto Superior Técnico; depois seguiu-se um antigo professor meu, o químico Sebastião Formosinho, da Universidade de Coimbra, infelizmente já faleceido, que escreveu o número 22. A seguir a O Jogo traduzi um livro do inglês e outro do francês. Do inglês traduzi uma obra que é o número 35, O que é uma Lei Física, de Richard Feynman, e depois traduzi do francês, com um colaborador (José Luís Malaquias), uma obra de Benoît Mandelbrot, que é o número 59, Objetos Fractais. Esse livro obteve uma menção honrosa num concurso nacional de tradução científica. Entrei durante a tradução em contacto com o  autor. E foi algo muito interessante. Mandelbrot que também já morreu, tinha fama de ser um cientista arrogante. Mas não era nada, pelo menos do meu ponto de vista! Mandei-lhe algumas emendas ao livro e ele agradeceu muito. Uma nova edição em França teve um novo prefácio e logo nas primeiras linhas o autor começava por me agradecer. Foi muito simpático! Com essa obra fechei as minhas traduções para a Gradiva, que como disse foram do alemão, do inglês e do francês, tendo passado a fazer apenas revisões científicas. 

A partir daí também escrevi os meus próprios livros. O meu segundo livro na Gradiva saiu na colecção Ciência Aberta. De algum modo resulta do êxito que tinha tido a Física Divertida, que apareceu nos tops de vendas dos livros. Havia na época uma cientista bastante popular que era escritora de ficção, a Clara Pinto Correia, autora de Adeus Princesa, que também estava nos tops. Na não ficção estava a Física Divertida e na ficção estava o romance da Clara Pinto Correia,  que na altura era uma promissora escritora. O meu segundo livro já não teve o mesmo êxito do primeiro. O que se percebe... Eu tinha simplesmente pegado nalguns textos que tinha de conferências, juntei-os e revi-os. Os livros que são conjunto de texto avulsos, sei-o hoje como coeditor, não têm sucesso. O livro chama-se Computadores, Universo e Tudo o Resto inspirado o livro de ficção científica de Douglas Adam. O título desse número 64 da Ciência Aberta era talvez demasiado grande. O livro, que é fininho, vendeu pouco, ainda haverá exemplares em armazém. Foi o meu primeiro livro na colecção Ciência Aberta (fui o terceiro autor português depois do Dias de Deus e do Formosinho Simões), mas não teve êxito comercial. Para além do tamanho (os livros pequenos não vendem muito) era uma colecção de ensaios dirigidos a um público culturalmente mais evoluído. Tinha feito algumas conferências convidadas, entretanto, sobre isto e sobre aquilo… Os livros para um público juvenil têm em princípio maior potencial de vendas. Publiquei depois outros livros na Ciência Aberta, Esses estão esgotados, mas também as edições foram mais pequenas.

IN: A seguir foi A Coisa mais Preciosa que Temos, que é o número 120, não foi?

CF: Sim e o Curiosidade Apaixonada, os dois esgotaram. Foram livros que venderam bem. A Coisa mais Preciosa saiu no ano 2005, o ano em que comemorámos os cem anos dos trabalhos seminais de Einstein com a celebração do Ano Mundial da Física.  Depois publiquei um outro livro na mesma colecção Aprender, Fazer Ciência, que foi uma sequela do primeiro, embora tendo saído muito mais tarde, cerca de dez anos: Nova Física Divertida. Também vendeu bastante bem, em várias edições.
Só para terminar esta parte histórica sobre a Gradiva: quero repetir que o grande mérito é, de facto, do editor Guilherme Valente, que conseguiu reunir um conjunto de nomes da ciência internacional que são singulares, aos quais juntou nomes nacionais. Eu acho que é muito difícil encontrar coleções desta índole… e existem várias no mundo, que sejam tão antigas e que tenham tal qualidade de edição. O nome Ciência Aberta vem do francês: as Éditions du Seuil, têm a Science Ouverte, criada em 1966b e dirigida desde 1972 pelo físico Jean-Marc Lévy-Leblond Mas com esta qualidade, com esta intensidade, com esta persistência, acho que é um caso único no mundo. Hoje sou responsável da colecção e tenho muito orgulho nisso: quando começo a dizer a alguém de fora quem são os autores da colecção e que ela tem 40 anos, os meus interlocutores ficam completamente admiradas e seduzidas. Às vezes até nem acreditam que há uma editora que consegue reunir toda esta gente… Devíamos estar gratos ao editor que,  tenho dito isto várias vezes, fez cultura científica em Portugal, ao lançar uma colecção de livros de cultura científica em Portugal que deixou lastro. Com certeza havia antecedentes, alguns muito primitivos, nos anos 40 de Bento Jesus Caraça, a colecção Cosmos, que é também uma iniciativa muito interessante e com grande êxito na época. Mas. nos anos 80/90 do século passado e continuando até aos tempos, a colecção Ciência Aberta marca a cultura científica em Portugal. 

Há muita gente hoje que se diz descendente dessa colecção, que leu esses livros e dele ficou devedora! Para dar um exemplo muito recente, tive a visita há dias de um técnico de informática, formado em Matemática, que veio instalar um supercomputador à universidade, que pediu para falar comigo porque tinha lido algumas traduções e obras minhas, como os Objectos Fractais. Ora ele era muito jovem na altura, tinha 14 ou 15 anos. Mas confirmou-me coisas incríveis de que eu me lembrava: a novidade e o entusiasmo que estes livros transmitiam na época. Eram lidos por professores, numa época em que os professores gastavam mais dinheiro em livros do que gastam hoje, até porque dispunham de mais meios para isso. E eram lidos por alunos. Os alunos também liam mais do que hoje. Na universidade, os alunos liam este tipo de livros. Infelizmente esses hábitos de leitura perderam-se um pouco. Portanto, não tenho dúvidas nenhumas em dizer que esta colecção teve impacto na cultura científica portuguesa.

Eu, o Jorge Buescu, o Nuno Crato e outros autores portugueses, dávamos sugestões. O Guilherme  soube-se rodear de pessoas que tinham interesse na cultura científica. Na altura éramos muito mais jovens do que somos todos hoje. Hoje já estamos nos 50 e 60 e estou a falar de há 30 anos, quando tínhamos 30 ou 40 anos. Dávamos sugestões e o editor procurava imediatamente pôr essas sugestões em prática, embora nem sempre estivesse presente fisicamente, porque esteve boa parte da vida em Macau. Na altura escreviam-se cartas, não havia e-mail  Havia uma coeditora, Maria do Rosário Pedreira, que hoje é uma grande editora num grande grupo editorial e também escritora, mas que começou na Gradiva e eu contactei muito por cartas e pessoalmente em Lisboa. Ainda guardo as cópias das cartas que recebia. Era a maneira de comunicar na altura, pois não havia as comunicações electrónicas que há hoje. Era um tempo muito diferente.

O mérito do Guilherme foi também de se saber rodear de um conjunto de pessoas que estavam atentas ao que aparecia lá fora e que lhe davam sugestões. Ele imediatamente respondia, sempre com grande atenção e amabilidade. Foi essa rede de contactos permitiu erguer e manter a colecção. Também merece ser referido um outro nome que não é da área das ciências: Onésimo Teotónio de Almeida, um professor e escritor português que vive nos Estados Unidos há muitos anos, que era também amigo do Guilherme e que também lhe mandava informações: “Saiu agora um livro muito interessante sobre isto, saiu um outro sobre aquilo…” O Onésimo ensina na Universidade de Brown, na área da filosofia e da cultura portuguesa. Alguns dos títulos da Ciência Aberta têm a marca, de pessoas da comunidade portuguesa lá fora. Portanto, o editor tinha uma rede em Portugal e lá fora. E era uma rede muito eficaz, se olharmos para o conjunto de autores e títulos reunidos. Enfim, eu continuei sempre a dar sugestões, mas tive outro tipo de colaborações, por exemplo o número 129, que é um livro intitulado Fronteiras da Ciência, em que apareço como como editor. Foi uma conferência que se fez para assinalar o aniversário da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, onde trabalho. Convidámos alguns autores estrangeiros e portugueses, autores de renome e o livro é uma espécie de actas desse encontro em Coimbra. Nesse encontro esteve o Mandelbrot e outros autores da coleção. Tenho uma fotografia em que apareço eu, o Jorge Dias de Deus, o João Queiró, o Benoît Mandelbrot, o João Caraça, da Fundação Gulbenkian. O número 128 foi um livro do Einstein, O Significado da Relatividade, O 127 um livro do João Magueijo, um cientista português que estava e está no Reino Unido, que vendeu bastante bem, Mais rápido que a luz.

A Gradiva publicou livros de cientistas portugueses dentro e fora do país, embora esses livros de inicio fossem pouco numerosos. Há um outro professor que dava sugestões e que depois foi autor, que é António Manuel Baptista, um físico e uma personagem que teve muita importância na cultura científica audiovisual, na rádio e na televisão, antes de aparecer a Gradiva. Lembro-me dos seus programas dos meus tempos de jovem do liceu… Só há três autores portugueses até ao número 64, o meu Universo, Computadores e Tudo o Resto, o que significa que eram uma minoria e assim continuou até porque a ciência estava em desenvolvimento. É preciso integrar tudo na época… Foi só em 1995 só que surgiu o Ministério da Ciência e Tecnologia com o José Mariano Gago à frente, ele tinha estado na Junta Nacional de Investigação Científica e Tecnológica - JNICT e tinha organizado em 1987  umas Jornadas Nacionais de Investigação Científica e Tecnológica  e sempre teve atenção à cultura científica, que ele apoiou… Também deu sugestões ao editor, porque era amigo do Guilherme Valente, que publicou em 1990 o seu Manifesto pela Ciência em Portugal.” Esta colecção mais tarde ganhou o Grande Prémio Ciência Viva: o primeiro premiado do Ciência Viva é precisamente o Guilherme Valente, como editor da Ciência Aberta.

Portanto a colecção teve desde o início não só um pai, mas também vários padrinhos, vários amigos da ciência, juntaram-se para fazer crescer e encaminhar a “criança”. O primeiro livro do Nuno Crato, acho que vendeu bem, é o número 166, Passeio Aleatório, mas antes dele houve outros portugueses. Luís Bigotte de Almeida, neurologista, Teresa Lago, astrónoma que preparo uma coleção de textos sobre o Universo, Joaquim Marques de Sá e Maria Paula Oliveira, matemáticos, o próprio António Manuel Baptista como autor e não apenas conselheiro editorial e tradutor, Jorge Buescu, que haveria de publicar vários livros de crónicas matemáticas (sendo o autor português até agora com mais títulos na Ciência Aberta). A partir do número 100, a presença de autores portugueses intensificou-se… Por exemplo, Margarida Telo da Gama, física, foi editora de uma colectânea de textos. Foi um tempo em que a ciência portuguesa crescia a olhos vistos com a visão de José Mariano Gago, com o aumento dos institutos de investigação, dos centros de ciência Ciência Viva, etc. Portanto a partir do número 100 vamos ver uma participação nacional mais forte, reflectindo o incremento da ciência em Portugal. Mesmo depois, quando o Mariano Gago saiu do governo, o Presidente da Fundação para a Ciência e Tecnologia - FCT, Fernando Ramoa Ribeiro, que era professor de Química no Instituto Superior Técnico, organizou umas conferências intituladas Despertar para a Ciência, que deram lugar a vários volumes na Ciência Aberta. Eram conferências públicas com muitos nomes portugueses, tendo os textos ficado na colecção para a posteridade. Eu escrevi um precisamente com o mesmo título Despertar para a Ciência, sobre a iniciação na ciência dos mais novos Se formos ver os nomes  das pessoas que derem palestras no Despertar para a ciência , verificamos que é uma espécie de who’who da ciência em Portugal. Tinha-se estabelecido uma comunidade de pessoas interessadas e activas na divulgação de ciência.

Não há dúvida nenhuma de que o Guilherme Valente foi o “pai” da colecção, mas eu, quando adquiri consciência da relevância da colecção, passei a colaborar de perto. Conto até uma pequena história, que revela a afectividade com que a colaboração se iniciou e depois continuou. Eu quando propus o livro que referi, O Jogo, fi-lo por meio de uma carta ao editor. Escrevi-lhe num tom muito formal -  “Ex.mo. Sr. Dr.”, etc. - pois não o conhecia de lado nenhum e, para lhe mostrar que sabia muita coisa, para além de lhe elogiar os livros publicados, também o criticava em pequenos aspectos: “olhe que está uma falha ali naquela tradução, a palavra cientificamente correcta não é aquela…” Portanto, armava-me em “bom”, como convinha a um professor de 30 anos que se quer afirmar… O Guilherme, e eu nunca mais me esqueço da atitude dele, podia ter-me respondido por carta, podia ter esperado, mas não. Descobriu o meu número de telefone, era uma altura em que havia listas telefónicas, e ligou-me para casa. “Queria falar consigo…”. A resposta inicial dele foi bastante calorosa e a nossa conversa durou mais de uma hora. Entendemo-nos logo bem ao telefone, tão bem que combinámos encontrar-nos pessoalmente. Disse-me “Olhe, eu sou de Leiria, tenho lá uma casa de família, temos que nos conhecer pessoalmente, eu vou muitas vezes a Leiria, você está em Coimbra e talvez possa ir lá…”, Combinámos para breve um encontro, que teve lugar na praça principal de Leiria. E a partir daí a nossa amizade perdurou porque basicamente partilhamos o mesmo interesse pela cultura científica e pela cultura em geral. O Guilherme é um homem com uma cultura extraordinária e com uma visão muito arguta. É muito atento ao mundo, ao que os outros dizem, mas pensa como poucos pela sua própria cabeça. E essa é uma grande qualidade num editor. Um editor tem que saber ler o mundo, saber interagir com as pessoas, saber, como é o caso comigo, acarinhar os escritores, os colaboradores, mas tem de decidir o que publicar. Sou-lhe muito devedor. Alguns livros meus, como disse, foram traduzidos lá fora, num esforço que ele empreendeu de promoção de autores nacionais no estrangeiro. A Gradiva tem um grande prestígio lá fora… O Guilherme ia e ainda vai à Feira do Livro de Frankfurt. Eu fui um dia com ele, uma oportunidade que apreciei pois pude assim regressar à cidade onde fiz o doutoramento. E, enfim, a Feira do Livro é um evento extraordinário, é simplesmente a maior feira do livro do mundo. Andámos a ver livros juntos…

É natural, por isso, que ele, a certa altura, a partir do número 200, me tenha perguntado se eu não queria tomar conta da colecção. Eu já estava próximo dela, já conhecia o que se editava, já tinha dado muitas sugestões, mas ele passou a partir dessa altura a confiar mais em mim, a dizer “Agora escolhes tu!”, com certeza dentro das disponibilidades e constrangimentos da editora, que é pequena e independente. Ele dizia: “Não podemos publicar todos os livros bons, mas todos os livros que nós publicamos têm de ser bons”. Não me pôs pressão nenhuma, confiando absolutamente nos meus critérios. Desde o número 200 já saíram 34 volumes. O número de livros publicados diminuiu, o que tem a ver com o mercado, assim como diminuíram as tiragens das edições. Livros como o Cosmos, do Sagan, ou Um Pouco Mais de Azul, do Reeves ou, com certeza, ou Breve História do Tempo, do Hawking, venderam muitíssimo. O mesmo se passou com autores de biologia, como o Richard Dawkins, autor de O Gene Egoísta, que tem uma reedição recente (de facto, já tinha vendido bem, mas continua a vender) e o Stephen Jay Gould. Há livros que têm caminho longo, são os long-sellers, vendem desde há mais de 30 anos e continuam a sair. Há um público novo para O Gene Egoísta que não conheceu o livro quando ele apareceu. O Richard Feynman, que eu traduzi quando era mais novo, se não é deveria também ser um long-seller. O número de livros publicados diminuiu e a tiragem de cada um deles também diminuiu. Existem hoje graves problemas da edição em Portugal. Há um artigo muito recente do Observador, que eu recomendo, sobre os números da edição em Portugal, que não são famosos. São vários os problemas. Um é a concorrência do digital. Não é bem apenas livros electrónicos, é a leitura electrónica, qualquer que ela seja, incluindo a de livros pirateados. As pessoas hoje olham para ecrãs, não olham para livros. Depois há a questão económica: tivemos crise económica em 2011, um bocadinho atrasada pois no mundo foi em 2008, e as pessoas passaram a ter menos dinheiro e deixaram de  gastar tanto em livros. Em Portugal a classe média, os professores, que são, digamos, classe média, não gastam hoje tanto em livros como gastavam. E depois é preciso reconhecer, e esse é um problema que interessa muito ao Guilherme Valente, ele tem escrito sobre isso e eu acompanho-o em boa medida, que a nossa escola não tem formado leitores em número suficiente. A escola forma pessoas que a, dada altura, deixam de ler, os rapazes antes das raparigas. As raparigas, até porque lêem mais, conseguem com mais facilidade entrar no ensino superior...

IN: Houve algum programa de televisão, alguma colecção de livros, brinquedos científicos de ciência e tecnologia que tenham influenciado o seu interesse pela Física?

CF: A minha infância ocorreu antes da chegada da televisão. Em 1969, tinha eu 13 anos, não havia televisão em casa. Fui ver não me lembro bem onde a chegada do homem à lua. Havia televisão em poucos lares nessa época e era a preto e branco. Portanto a televisão não foi para mim um meio importante... talvez mais a rádio. Ouvia o António Manuel Baptista, eu lembro-me dos programas dele de ciência. Não terão sido decisivo na escolha da vocação científica, mas lembro-me de o ter ouvido a falar, ele tinha uma bela voz. Coisa curiosa: eu estou neste momento a fazer um programa cultural na SIC intitulado Original é a Cultura na companhia de uma escritora, Dulce Maria Cardoso, e de um musicólogo, Rui Vieira Nery, e a pivô do programa, que trabalhou em várias editoras, a Cristina Ovídio, é filha do António Manuel Baptista. Portanto, estou a fazer um programa com a filha de um físico, que contribuiu muito, principalmente no área do audiovisual, na rádio e na televisão, para a divulgação da ciência.

Mas a minha principal influência não foi audiovisual, nunca fui uma pessoa muito audiovisual. Foi antes através da leitura, através dos livros. Não que em minha casa houvesse muitos livros. Com o dinheiro dos primeiros prémios escolares que recebi, concursos de arte, etc., comecei a comprar livros e escolhia livros não necessariamente de ciência, pois me interessava bastante também por arte nessa época. Comecei a fazer a minha própria colecção de livros e hoje tenho uma biblioteca imensa. Tornei-me um leitor omnívoro, oferecem-me muitos livros, mas ainda hoje gasto muito dinheiro em livros. Ao contrário do cidadão comum que deixou de comprar livros, eu cada vez compro mais, para equilibrar… (risos). Eu criei de raiz uma biblioteca de cultura científica a que dei o nome de “Rómulo”, à qual estou a dar muitos dos livros que recebo ou que compro. A minha principal influência para entrar no mundo da ciência veio dos livros. Como disse, o primeiro dinheiro que ganhei foi para livros, depois comecei a ganhar dinheiro como monitor na Universidade de Coimbra e depois como bolseiro, na Alemanha, e comprava muitos livros. Fazia actividades para além de investigação científica: traduções, dava aulas de português, era intérprete, várias coisas... Sempre fui de gastar em livros. É muito simples: eu ganho dinheiro a fazer livros e gasto-o depois a comprar livros.

Já agora, um aparte: sou autor de cerca de 60 livros, não estou a falar de prefácios nem capítulos nem secções nem edições. Estou a falar de livros escritos por mim sozinho ou em coautoria. Pode-se perguntar como é que se atinge esse número de 60 livros. Bem, não foi apenas na Gradiva, tenho, por exemplo, cerca de uma dezena de livros infantis numa colecção intitulada Ciência a Brincar, na Bizâncio, já falei da História da Ciência em Portugal na Arranha-Céus, tenho livros na Imprensa da Universidade de Coimbra, na Fundação Calouste Gulbenkian (estes mais académicos), na Fundação Francisco Manuel dos Santos, instituição com a qual tenho colaborado. Mas cerca de metade dos meus livros, 30, não são de divulgação de ciência, são livros pedagógicos para os ensinos básico e secundário, são livros escolares. Há toda uma geração que beneficiou de livros que ajudei a fazer de Física e Química, livros que estão aliás no mercado. Uma parte do mercado de livros escolares de ciências é de uma equipa em que integro, na Texto Editores, no grupo Leya. De resto, é impossível fazer algo nessa área sozinho. O livro não são é só o texto, são as figuras, o design, os materiais complementares para professores e alunos, muitos deles audiovisuais. Os direitos de autor que recebo desses livros são gastos em parte a alargar a minha biblioteca.

O meu interesse pela leitura, nos anos do liceu, não tendo muitos livros em casa, proveio da frequência de bibliotecas. Li muitos livros da Biblioteca Municipal de Coimbra. A área que comecei a ler nessa altura era precisamente a área que a Gradiva depois veio ocupar, a da divulgação científica. Embora não existisse a mesma variedade e qualidade que hoje há, havia alguns, incluindo de autores portugueses. Eu chamei Rómulo ao centro que fundei porque alguns dos livros que li na época eram livros de Rómulo de Carvalho, que foi um grande professor de Físico-Química e também um grande poeta e prosador sob o nome de António Gedeão. E, além disso, um historiador da ciência, um pedagogo, um divulgador. Enfim, era um homem dos sete instrumentos, um professor e uma pessoa que admiro muito. Conheci-o pessoalmente. Se me é permitido, considero-me devedor da herança que ele deixou. Mas a dívida não é apenas dos livros dele. Lembro-me de ler várias biografias de Einstein, publicadas por várias editoras, e textos de introdução à teoria da relatividade. Havia pequenos livros de bolso, por exemplo de Bertrand Russell o ABC da Relatividade, e eu aprendi a teoria da relatividade e a teoria quântica por minha própria conta, isto porque a física moderna praticamente não se dava no liceu (tirando um bocadinho que se dava na Química). Infelizmente hoje ainda quase não se dá no ensino secundário… Poderia ter um espaço maior. A mim interessava-me a ciência em construção, a aventura da ciência, não tanto a ciência antiga do Arquimedes e do Galileu, que e reconheço que são coisas necessárias e úteis, mas a ciência moderna, a ciência mais perto da actualidade. Fui muito influenciado pelos livros de divulgação de ciência moderna que pude ler, naquela altura em que se lê mais, entre os 12 e os 20 anos, quando tinha grande avidez da leitura e muito tempo para ler. Lembro-me do tempo em que as férias de Verão eram muito grandes: uma pessoa tinha aqueles três ou quatro meses no Verão para leituras prolongadas. Mais tarde fui fazer o doutoramento para a Alemanha com uma bolsa da Fundação Gulbenkian e, durante o doutoramento de três anos e meio também tive muito tempo. Não podia estar só a fazer o trabalho de investigação. Na biblioteca universitária de Frankfurt am Main havia livros sobre todos os assuntos: muitos livros em português, incluindo ficção. Lembro-me de ler não só em português europeu mas também em português do Brasil, até porque eu dava aulas de línguas e literatura portuguesa, para estrangeiros e para filhos de emigrantes. Li lá quase todo o Eça de Queirós, li lá os primeiros livros de um autor então desconhecido, mas hoje famosíssimo, o António Lobo Antunes, que apareceu numa editora que não era mainstream, li o Memorial do Convento do José Saramago, quando a fama dele começava a despontar. Lembro que a Memória de Elefante é de 1979 e o Memorial do Convento de 1982. Tinha tempo para ler e lia. No tempo de formação quer na escola secundária, quer na Universidade de Coimbra, quer depois na Universidade Goethe em Frankfurt tinha mais tempo para ler do que tenho hoje. Hoje acumulo livros, com a esperança de os vir a ler um dia. Gostava de me reformar para ler alguns dos livros que tenho, pois hoje tenho pouco tempo. Tenho que ver exames, os alunos querem as notas... (risos)

SAIU "COSMOS. MUNDOS POSSÍVEIS" DE ANN DRUYAN


Informação recebida da Gradiva:
GRADIVA LANÇA COSMOS: MUNDOS POSSÍVEIS de Ann Druyan
A viagem empolgante pelo universo prossegue contada por quem viveu com Carl Sagan a odisseia de Cosmos

  • Cosmos: Mundos Possíveis de Ann Druyan está já disponível para venda nas livrarias virtuais e no site da Gradiva - www.gradiva.pt -  e é a continuação da emocionante odisseia que Carl Sagan e Ann Druyan começaram juntos com a série e o livro Cosmos editado pela Gradiva na década de 80. Cosmos: Mundos Possíveis é publicado internacionalmente em simultâneo com a exibição da série homónima desde dia 9 de Março (à segunda-feira, às 22h10m) no canal National Geographic.
Em Cosmos: Mundos Possíveis, Ann Druyan prossegue a aventura electrizante que iniciou há 40 anos com Carl Sagan transportando o espaço para as salas de estar de milhares de famílias  e inspirando uma geração de futuros cientistas. Baseado na série de televisão homónima actualmente em exibição e apresentada pelo astrofísico Neil deGrasse Tyson, este livro inovador e visualmente deslumbrante mostra como a ciência e a civilização cresceram juntas. Desde o surgimento da vida no fundo do mar até à construção de naves espaciais movidas a energia solar, passando pelo Big Bang e pelos meandros da inteligência em muitas e diversificadas formas de vida. Ao longo de 13 capítulos Ann Druyan documenta o percurso da humanidade até ao presente e antecipa o futuro que nos está reservado através do seu talento ímpar em simplificar a explicação de conceitos científicos complexos.

Através de fotografias evocativas e de um vasto leque de ilustrações Ann Druyan relata descobertas importantes para o progresso da humanidade, desde as missões Voyager nas quais participou com o seu marido, Carl Sagan, até às mais recentes descobertas da missão Cassini-Huygens sobre as luas de Saturno. Este contagiante Cosmos: Mundos Possíveis, numa narrativa de tirar o fôlego, sublinha, como o havia feito Carl Sagan na edição de Cosmos dos anos 80, como nós, humanos, podemos ser portadores de uma nova consciência da nossa existência na Terra e no cosmos - lembrando novamente que o nosso planeta é um ponto azul claro num imenso universo de possibilidades.

Numa entrevista dada recentemente ao canal National Geographic e à Gradiva, Ann Druyan afirmou ter esperança que o cenário de pandemia que vivemos «seja o momento para despertarmos» e «começarmos a viver de acordo com a escala de tempo dos cientistas».

Tenho imensos sonhos interestelares. Primeiro, tenho sorte. Este pode parecer um tempo vazio e sombrio em que a nossa auto-estima nunca esteve tão baixa como está agora, mas penso quão afortunados somos por vivermos numa época em que a ciência afastou a densa cortina da noite, permitindo-nos ver e compreender as estrelas e tudo o que nos rodeia. Os inputs das descobertas científicas são tão poderosos como as quedas de água, trazem-nos tanto conhecimento. E, no entanto, ao mesmo tempo, assemelhamo-nos a uma civilização de zombies que parece não querer acordar para que possamos salvar-nos, salvar o nosso futuro, proteger os nossos filhos e netos... Neste período de quarentena devida ao vírus COVID19, as pessoas começaram subitamente a ouvir os cientistas e a levar finalmente a sério aquilo que eles dizem. E a minha esperança é que façam o mesmo com os avisos que andam a fazer há cerca de 20 anos relativamente ao aquecimento global, ao aumento da temperatura média do planeta e acerca dos danos que estamos a provocar ao nosso habitat, ao ambiente de todo o planeta e às outras espécies... Que este seja o momento para despertarmos, para começarmos a pensar seriamente e para começarmos a viver de acordo com a escala de tempo dos cientistas, não apenas até às próximas eleições ou de acordo com os mais poderosos interesses corporativos, mas tendo em mente de forma muito séria o futuro dos nossos descendentes.

Leia aqui na íntegra a entrevista com a autora dada em exclusivo para Portugal num trabalho conjunto entre a Gradiva, através do actual director da colecção Ciência Aberta, Carlos Fiolhais, e o canal National Geographic.

A AUTORA

Ann Druyan foi directora criativa do Voyager Interstellar Message Project da NASA e directora do programa da primeira missão espacial a vela solar, lançada num míssil balístico intercontinental russo em 2005. Com Carl Sagan, seu falecido marido, foi co-autora de Cosmos: Uma Viagem Pessoal, e de seis êxitos de vendas do New York Times. Foi a principal produtora executiva, directora e co-autora de Cosmos: Odisseia no Espaço, com que ganhou os prémios Peabody, Producers Guild e Emmy em 2014. Druyan é produtora executiva, escritora, directora e criadora de Cosmos: Mundos Possíveis, transmitido pela primeira vez em 2020.


LEMBRANDO A TUBERCULOSE


Recupero aqui um post meu antigo sobre a tuberculose ou tísica. Julgo que vem a propósito não só porque também agora estão a morrer pessoas da cultura como por o caso da tuberculose ilustrar bem quão salvífica pode ser uma vacina (o BCG diminuiu drasticamente a epidemia):

http://dererummundi.blogspot.com/2007/03/o-porto-e-tsica.html

LIDERANÇAS EM TEMPO DE CRISE


Santana-Maia Leonardo escreve sempre com muita inteligência e graça (as duas coisas combinam!) sobre a falta de liderança em tempos como a da actual crise. Transcrevo este passo da crónica dele nas Beiras de hoje:
"(...) Os medíocres são invencíveis porque são a maioria. Disso ninguém duvida. Em todo o caso, os medíocres, apesar de serem a maioria, dividem-se em dois grandes grupos: os inteligentes e os carapau-decorrida. Qual a diferença? É que os medíocres inteligentes valorizam as pessoas que são mais inteligentes do que eles, enquanto os carapaus-de-corrida têm-lhes um ódio de morte, desenvolvendo uma inveja doentia, ao ponto de ficarem mais satisfeitos com o mal dos outros do que com o bem próprio. Por esta razão, dizia Bernard Shaw, com uma certa graça, que “a democracia é um mecanismo que garante que nunca seremos governados melhor do que aquilo que merecemos.”  
E, se há alturas onde é essencial ser liderado pelos melhores (os dotados da sabedoria da coruja e da visão do falcão), é precisamente nas épocas de guerra, de grandes calamidades e de pandemias. Nem populares, nem populistas, precisamente os dois tipos de políticos que os carapau-de-corrida mais apreciam: os primeiros porque lhes dão palmadinhas nas costas e os carapaus-de-corrida tornam-se todos dengosos, quando algum senhor presidente do que quer que seja lhe dá uma palmadinha nas costas ou os elogia; os segundos porque têm a desfaçatez de dizer do alto do seu púlpito as atoardas que os carapaus-de-corrida dizem nas redes sociais e nas mesas de café. "
Conclui dizendo que dos líderes actuais só confia em Angela Merkel. Bem o percebo, pois, mostrando a formação científica que tem (é doutorada em Química Teórica), foi das poucas a avisar da possibilidade real de a epidemia apanhar milhões de pessoas. Certo é que a Alemanha realizou a devida preparação e deve ser em boa parte por isso que apresenta tão baixa taxa de letalidade.

Nem vale a pena falar de Trump e Bolsonaro: são ambos casos perdidos. São dois líderes profundamente ignorantes, que não se tornam credíveis por ir emendando a mão à medida que a epidemia avança. Nos EUA está a ser uma tragédia que podia ter ser sido em parte evitada e no Brasil ainda não é uma tragédia, mas pode vir a ser. O gesto da Casa Branca de encerrar o tráfego aéreo com a Europa sem dizer nada a Europa diz tudo sobre a má criação, que acresce à atrevida ignorãncia. Nem falo de Boris Johnson, que é um pouco diferente (por ter alguma formação), acima de tudo porque está agora numa situação pessoal difícil.

Mas falo da Europa e é óbvio que falta liderança na Europa. E essa falta não se revela apenas no caso das "coronabonds", que não sei se são a melhor solução, por pouco saber dos mecanismos da economia (parece-me claro que não há ponto sem nó, pelo que uma dívida mutualizada obrigaria,  bem ou mal, à perda da margem de autonomia dos estados). Mário Centeno à frente do Eurogrupo revela-se incapaz de obter uma solução concertada e rápida. É acima de tudo a incapacidade ou falta de vontade de solidariedade no terreno, a  de colaboração prática nas situações mais críticas na Itália e em Espanha. Esta crise está a por à prova a Europa e não sei - ninguém sabe - qual via ser o resultado do ponto de vista político.

E em Portugal como vai a liderança? Perguntou-me outro dia um jornalista e eu respondi que confiava minimamente no governo e gostaria de confiar mais, pois estou muito longe de confiar ao máximo. Não falo do Presidente da República, que de início se revelou atrapalhado por ter falhado o grande meio de comunicação que ele tinha - os afectos - e que está ainda à procura do seu lugar na nova situação. Falo do governo, que é quem tem responsabilidades executivas. É natural que António Costa tenha subido nas sondagens depois de ter usado a palavra "repugnante" sobre a atitude de um ministro holandês. E subiu também, à custa dessa única  palavra, a sua cotação na Europa do Sul (na Europa toda, não sei). Como o discurso manda na política, essa palavra anulou internamente a sua boutade que no SNS não faltava nada e nunca faltaria, uma rotunda inverdade.  Mas o governo esteve bem no lockdown atempado - algumas Universidades como a minha foram nisso pioneiras (nisso o Reitor de Coimbra tomou a atitude certa)  e ainda bem. E esteve muito bem na medida que tomou de acolher com plenos direitos os estrangeiros que já que estavam (teve um tremendo azar e da medida ter sido quase contemporânea do putativo assassinato no aeroporto de um ucraniano por inspectores do SEF, um acto que devia ter tido uma reacção mais enérgica do ministro respectivo). A pandemia em Portugal tem tido menor impacto devido às medidas preventivas, para além de factores naturais como a nossa posição periférica: temos 18 dias de atraso de Itália e 10 de Espanha, pelo que podemos aprender com eles e fazer os devidos preparativos.

Mas o governo não está bem em tudo. O estado de emergência não impede de modo nenhum a liberdade de opinião. É óbvio para praticamente todos que a ministra da Saúde marta temido não incute confiança. Já não incutia antes e agora muito menos. Vai dizendo umas coisas num tom que não leva minimamente  à empatia e adesão. O seu discurso, particularmente em entrevistas, é bastante frouxo para não dizer pobre. O  secretário de Estado da Saúde, que é médico, faz melhor serviço, pelo menos fala com maior conhecimento de causa, embora sempre com excessivo tacto político. A Directora Geral de Saúde  Graça Freitas também tem algum conhecimento de causa, mas percebe-se que fala com cuidados políticos: o seu discurso, sempre cuidadoso, foi evoluindo a partir de uma quase minimização do problema. Os boletins de situação deveriam ser mais claros. Deveria haver recomendação de máscaras para toda a gente, ainda que estas fossem improvisadas: mais vale alguma protecção que nenhuma. É curioso como o discurso das autoridades de saúde chame a atenção para umas coisas e ignore outras, bem mais evidentes.

E é também curioso que quase nunca ninguém responsável admita falhas e peça desculpas.  E houve falhas graves, como a da duplicação dos números do Porto. Não percebo porque é que os participantes em conferências de imprensa não respondem cabalmente às questões dos jornalistas. Por que é que eles não replicam quando as perguntas objectivas ficam objectivamente por responder ?

Os outros ministros estão mais ou menos desaparecidos. A estrela das finanças Mário Centeno está internamente decadente, pois o seu sonho de um superavit desvaneceu-se da noite para o dia assim como provavelmente o seu sonho de ir para o banco de Portugal, O ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, que já andava apagado, agora apagou-se ainda mais. Vai a reboque dos acontecimentos, desde o fecho das universidades até à realização de testes por uma rede da comunidade científica e ao fabrico por impressoras 3D dos necessários equipamentos de segurança. Ninguém percebe o que o ministro anda a fazer: há uma comunidade científica em Portugal que não está a ser devidamente aproveitada. Os cientistas pediram dados sobre as vítimas do COVID, depois de devidamente anonimizados, e ainda hoje estão à espera.

Quanto a lideranças locais: sobressai o Presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, que ajudou na logística da testagem, preparou rapidamente um hospital de campanha no pavilhão Rosa Mota e falou forte quando a DGS colocou espuriamente a necessidade de um cordão sanitário no Porto (que, embora muito diferente, fez lembrar a reacção popular aos cordões sanitários na peste bubónica  no Porto em 1899).  Mal, muito mal, tem estado o Presidente da Câmara Municipal de Coimbra, Manuel Machado, que impede a participação por teleconferências nas reuniões municipais. O executivo de Coimbra, uma geringonça mal amanhada entre o PS e o PCP, está ainda na Idade da Pedra quando à sua volta o mundo já vai na Sociedade do Conhecimento. A Câmara de Coimbra tentou montar um centro de  testagem junto ao rio Mondego e falhou rotundamente: existe um sítio sinalizado, mas nem funciona nem se sabe ao certo quando vai funcionar. A incompetência da Câmara é tanta que ela, pela voz dos seus dois maiores responsáveis, sacode a água do seu capote, dizendo que a culpa da falta de testes é do ministério da Saúde, curiosamente da sua própria área política (mais, a ministra da Saúde é de Coimbra!). Quer dizer o PS de Coimbra diz que o PS nacional é incompetente, sendo claro para todos que a sua incompetência é a maior de todas. Em Coimbra existe conhecimento na  Universidade (e também no Politécnico), mas a cidade revela-se, por falta de liderança política, incapaz de o levar às populações.

Razão tem Santana-Maia Leonardo. O mundo está cheio de medíocres, uns minimamente inteligentes -  que reconhecem que são medíocres - e outros carapaus-de-corrida. Em Portugal vemos, infelizmente, demasiados medíocres e demasiados carapaus-de corrida. Salvador Dali dizia aos jovens pintores:
"Se sois medíocres, mesmo que vos esforceis por pintar muito, muito mal, notar-se-á que sois medíocres". 

terça-feira, 7 de abril de 2020

Carta Aberta ao Professor A. Galopim de Carvalho

Por esta Carta Aberta poder ser tida por ousada, só depois de ter consultado o meu travesseiro, lha endosso, Professor A. Galopim de Carvalho, tendo como leitmotiv o vosso post, publicado ontem no DRN, intitulado: “18 anos depois de Abril”. 
Pelo contrário, tem ela fundamento no respeito que voto ao vosso estatuto académico de professor catedrático e pela leitura atenta, com grande proveito meu, dos textos de divulgação cientifica de inspiração pedagógica aqui publicados. 
A minha ousadia, a ter, porventura, havido, não foi, de forma alguma, intencional, residindo, apenas, na minha condição de "retornado" de Moçambique tão pobre de fortuna quando lá cheguei e tanto quanto rumei a Portugal, após 18 aos de docência no ensino técnico-profissional de Lourenço Marques, passando a leccionar, neste rectângulo mais ocidental da Europa, nos ensinos secundário e universitário. 
Devo esclarecer, outrossim, o respeito que me merecem os oficiais oriundos da Academia Militar de que fui camarada e amigo de alguns deles como oficial miliciano. 
Passo, agora, para um assunto discutível e, possivelmente, melindroso: a chamada "Revolução dos Cravos" que quanto a mim foi um golpe de Estado ensaiado um mês antes por uma coluna de militares, comandada por um capitão, cujo nome não passou à história, saída do Quartel das Caldas que avançou sobre Lisboa tendo os seus intervenientes sido interceptados e presos pelo caminho. 
Foi esta acção como que um balão de ensaio para o vitorioso 25 de Abril em que o probo e valente capitão Salgueiro Maia assumiu um papel destacado no seu êxito sem, por vontade própria, ter colhido quaisquer benesses tidas por outros camaradas seus na ocasião. Mas esta é uma questão que só encontrará resposta no provir porque, fazendo fé em Gertrude Stein, “a História leva o seu tempo; a História faz memória”. 
Perdoe-me ter eu saído, porventura, dos trilhos da minha intenção que foi inspirada em conversas havidas entre mim e um colega em que a determinada altura damos connosco a dizer um para o outro: “Você é que parece de esquerda e eu de direita ou vice-versa", quando se diluem as fronteiras que delimitam aquilo que é justo ou injusto na actual política portuguesa! 
A vossa isenção, frontalidade e hombridade, Professor Galopim de Carvalho, levou-o ao desabafo de se referir ao caos que se instalou no ensino depois de 25 de Abril quando desalentado escreve a determinada altura: “Mais de quatro décadas em que o ‘gosto pelo saber’ foi institucionalmente substituído pela preocupação pelas estatísticas visando o ‘sucesso escolar’ Recuámos, mesmo em relação ao tempo de Salazar e Caetano. Neste quadro decepcionante todos perdemos. Perdem os professores amarrados que estão a ditames que não controlam, perdem os alunos e, em consequência, perdemos todos e perde Portugal”. 
Que bela lição de anti-maniqueísmo a vossa que leva a ver o bem onde está o bem e a ver o mal onde está o mal. 
Obrigado Professor por me levar a ansiar ter a vossa isenção de opinião pela qual também tenho pugnado, não sei se o conseguindo ou não, naquilo que escrevo em defesa do que que tenho por justo e verdadeiro, apesar de ser sabido, como nos avisa Fernando Pádua, "haver sempre um modo diferente de ver os problema dependente 'del cristal com que se mira´". 
Reside aqui a riqueza da controvérsia civilizada que não admite dogmas! 
Respeitosos cumprimentos com votos de boa saúde, 
Rui Baptista

O conhecimento visto por Rafael

Convido os leitores do De Rerum Natura a ler o excelente texto que o professor António Duarte publicou no seu blogue "Escola Portuguesa" com o título que se pode ver abaixo e que pode ser encontrado aqui. Permito-me mudar o título...


segunda-feira, 6 de abril de 2020

46 ANOS DEPOIS DE ABRIL

Passada que seja esta pandemia, que a todos assusta e que a muitos de nós calará para sempre, se não mudarmos grande número dos paradigmas que têm sido os nossos, não merecemos os cravos que os militares de Abril nos ofereceram.

Pergunto muitas vezes que infelicidade caiu sobre uma significativa parcela do nosso povo, que rejeita, com o sorriso da ingenuidade ou da iliteracia, tudo o que convide a pensar, a reflectir, com verdadeiro conhecimento de causa, sobre o mundo que o rodeia. 

Um mundo, tantas vezes, nas mãos de políticos incompetentes e oportunistas de que a nossa sociedade está cheia, onde, de há muito, impera o vírus do futebol profissional e, agora, o dos admiráveis, tentadores e universalíssimos smartphones. Uma parcela que bebe toda a alienação que lhe é servida de bandeja por uma comunicação social, em grande parte, prisioneira de interesses ligados ao grande capital.

No que respeita o nível e exigência de ensino nas nossas escolas, não aprendemos nada com o ideal da Instrução Pública posto em prática na primeira República. No preâmbulo do Decreto de 29 de Março de 1911, lê-se:
“Portugal precisa de fazer cidadãos, essa matéria-prima de todas as pátrias”.
Cidadãos, diga-se, no verdadeiro sentido da palavra, tal como os gregos antigos a criaram nas suas “polis” (as cidade-estado, como Antenas, Tebas, Esparta e outras) para referir os “polítikoi”, ou seja, os homens livres e iguais, verdadeiros protagonistas da “demokratia” (palavra construída a partir dos elementos “demós”, povo, e “kratós”, poder) que ali se viveu e onde a fomos buscar.

Foi, ainda, na Grécia antiga que, por volta do século VI a.C., nasceu “philosophia”, outra palavra que anda na boca de toda a gente, mas que nem todos sabem que quer dizer “gosto ou amor pelo saber”, e que foi criada com base nos elementos “philo“ (amor, gosto, interesse) e “sophia” (saber, conhecimento).

Não são, pois, “polítikoi”, isto é, cidadãos no verdadeiro sentido da palavra, os mais de 50% de portugueses que de abstêm de exercer o dever cívico de votar, um acto elementar em “demokratia”.

Não aproveitámos nada da verdadeira liberdade, em democracia, que nos foi oferecida, de mão beijada, pelos capitães de Abril. Mais de quatro décadas, em que o “gosto pelo saber” foi institucionalmente substituído pela preocupação das estatísticas, visando o “sucesso escolar”. Recuámos, mesmo, em relação ao tempo de Salazar e Caetano.

Neste quadro decepcionante todos perdemos. Perdem os professores, amarrados que estão a ditames que não controlam, perdem os alunos e, em consequência, perdemos todos e perde Portugal.

A. Galopim de Carvalho

Minha participação na Sociedade Civil: E depois da pandemia?

Programa Sociedade Civil de hoje, da RTP 2, com o tema "E depois da pandemia?", no qual participei via Skype:

https://www.rtp.pt/play/p6714/e465618/sociedade-civil


domingo, 5 de abril de 2020

A "vulnerabilidade como característica essencial da vida humana"

Pascale Seys, doutorada em Filosofia, professora na Universidade Católica de Louvaine, colabora, há mais de vinte anos, no programs Musiq3 com o apontamento La cronique de Pascale Seys.  faz reviver nomes da Filosofia, muitas vezes para dar sentido ao que se passa no mundo presente.

O apontamento de dia 1 de Abril - Sac de peau - foi sobre o vírus que nos ameaça. É como uma "picadela de aviso", disse: "aprendemos cada dia à cabeceira do mundo doente", como se tivéssemos esquecido, que "a vulnerabilidade constituiu a característica essencial da vida humana". 

Retomou o Livro IX de A República, de Platão, lembrando a questão que atormentou o filósofo e que ele formula assim:
Quem somos nós?, Quem é o homem? É um montão de carne? É um corpo dotado de alma?
Responde (as palavras são de Pascale em tradução/adaptação nossa) que àquele "Quem somos nós", Platão responde:
"somos seres complexos e em permanente conflito. E, recorrendo a uma imagem, adianta, seres semelhantes a um "saco de pele".
Nesse ensaio político, ele:
afirma esta coisa um pouco estranha, com efeito, que somos, ao mesmo tempo, ventre, coração e espírito. 
A noção grega de "epithumia" (o ventre) é a nossa parte animal, agitada pela voracidade, pela impaciência e pelas paixões monstruosamente egoístas; simbolizado pelo leão, o "thumos" é o coração, sede dos desejos movido pela ambição, pela honra e pela coragem. O "nõus" refere-se ao uso da nossa cabeça quando fazemos o esforço de compreender o mundo e de trabalhar sobre nós mesmos para sermos melhores. 
Dito de outro modo, somos ladrões de grande superfícies, por medo da privação, é verdade; somos estúpidos, predadores compulsivos de papel higiénico, é verdade, e é verdade também que rivalizamos entre nós. Mas somos igualmente pessoas sociáveis, capazes de nos ligarmos aos  outros,  de proteger e de cuidar. E perguntamos, no meio de tudo isto, para onde vai o planeta e nós com ele.

No fundo, Platão quer dizer que o ser humano não é da ordem da natureza, mas a qualidade de uma conquista: a conquista por si do animal que ruge em si. Uma conquista tornada possível por um esforço que se chama a "vida do espírito". 
 Se retomarmos, com Platão, a questão de saber o que é o homem, podemos responder com ele
"um saco de pele", ou ainda, um ser constantemente em conflito entre forças contraditórias "cosidas" juntamente. A nossa alma visa altas exigências, quer a justiça, em primeiro lugar, protecção, cuidados para cada um. Aspira a elevar-se além da loucura da besta selvagem e da ambição do leão. Quer alcançar, pelo esforço do espírito, num mundo que sabe ser movediço e caótico, o lugar onde se torna a justa medida das coisas e onde estão aqueles a quem cabe governar, com sabedoria e prevenção. E também, Platão o diz algures, a alma quer alegrar-se."
Pascale lembra que Platão tem o seus contestatários e dá como exemplo o escritor Tristan Bernard, que, pessimista, considera o nosso "saco de pele" como 
"um recém-nascido que não aprende nada com as lições da História que frequentemente se esquece dos ensinamentos que herdou do passado:"
E, contudo, acontece também isto: porque considera ter tido "uma bela vida" Suzanne, uma senhora de 90 anos, contaminada pelo "coronavírus", recusou o ventilador que teria podido salvá-la para o ceder a uma pessoa mais jovem.

Então, podemos imaginar Albert Camus, o clarividente, observando também cada dia a coragem dos filhos de Hipócrates (os médicos) e os trabalhadores que se afadigam e enfrentam riscos para assegurar a sobrevivência dos outros. Lembremos isto cada dia
"a verdadeira generosidade para com o futuro consiste em dar ao presente" (Albert Camus, in O homem revoltado)
Maria Helena Damião e Isaltina Martins

Elucubrações num país futebolizado


Num país, no extremo mais ocidental da Europa, antes da pandemia do "coronavírus” que mudou por completo o “modus vivendi” da população do mundo, os jornais desportivos (e o próprio jornalismo generalista) dedicavam numerosas páginas ao chamado desporto-rei liderando a venda de jornais de todos os géneros pelo maior número dos seus  compradores..
Num país em que as “coisas do espírito” eram escravizadas pelo ser e endeusadas pelo ter, seria bem vinda uma brisa de esperança que arejasse certas mentalidades, numa linguagem sem freio na língua, que pensavam com os pés enredados numa teia de transferências faraónicas, de casarões, de bólides, das namoradas dos craques (qual delas a mais bela entre as belas). 
Num país, hoje, em época de defeso forçado sem “sine die” marcado para o seu término, e em que, ainda sobrevive uma matéria arrogante que diz a um espírito submisso: “Aqui estou, arreda-te para o lado!”   
Num país em que o pensamento reflexivo da Filosofia se debate na escuridão e a ignorância se ilumina com archotes.  
Num país herdeiro de uma época de decadência desportiva romana, sem sequer ter conhecido o apogeu de uma educação helénica integral. 
Num país futebolizado em que, porventura, corro risco de todo o apóstata de ser havido como um renegado, por estas minhas elucubrações, ao correr da pena, contra um clubismo exagerado e o ódio entre as claques, apoiando-me na máxima latina “ridendo castigat mores”, faço apelo final ao dito jocoso, de que o homem pode mudar de mulher, de partido, de clube isso é que não jamais em tempo algum. 
Neste “statu quo” encontro parte de justificação, para as disciplinas de Humanidades continuarem parentes pobres dos currículos escolares, centrados num mundo cientificado que se encontra, apesar do seu inegável avanço, tolhido de pés e mãos, tal como há milénios atrás, incapaz de combater um vírus que atacou a Humanidade ceifando milhões de vida. 

Daqui, retiro razão, em momentos de reflexão gerados por me encontrar em clausura entre quatro paredes, qual monge tibetano, para a reprodução de um meu artigo de opinião crítico sobre a desvalorização da Filosofia no âmbito do ensino secundário (Diário de Coimbra, 13/02/2006). Trancrevo-o: 
“Vai para um ano, publiquei neste jornal (13/02/2006) um artigo de opinião em que criticava veementemente a desvalorização da Filosofia no âmbito do ensino secundário. Duas notícias de jornal trouxeram para os media esta temática: Primeira: Um artigo do professor universitário de que ressalto: «Se a filosofia deixar de ensinar nas escolas, a comunidade científica no seu todo fica mais pobre» (Diogo Pires Aurélio, Jornal de Notícias, 19/12/2006). Segunda: Algumas empresas norte-americanas decidiram recrutar para os conselhos de administração quadros com formação superior em filosofia” (Mário Bettencourt Resendes, Diário de Notícias, 04/01/2007). 
Na Grécia Antiga, através da máxima “primum vivere deinde philosophari”, zombavam dos que só sabiam filosofar não sendo capazes de ganhar meios de subsistência. Em nosso tempo, assiste-se à guerrilha institucional entre gigantes do conhecimento científico e luminares de saberes humanísticos. 

Como escreveu Georges Gusdorf, professor da Universidade de Estrasburgo, festejado autor da bem documentada obra “Da História das Ciências à História do Pensamento” (Pensamento - Editores Livreiros, Lisboa 1988), em meados de 60 do século das luzes, docentes da Faculdade de Medicina e da Faculdade de Ciências de Paris, preveniam, “ex cathedra”, a família e os interessados que a passagem por um estágio na classe de filosofia representava para os futuros médicos “uma deplorável perda de tempo e de inteligência”.

Em testemunho, ainda, de Georges Gusdorf, um jornalista da radiodifusão foi então perguntar a estudantes de Medicina, escolhidos ao acaso, o que pensavam desta declaração. Com lúcida maturidade cultural, foi-lhe por eles respondido que lhes parecia, pelo menos, impensada.

Ainda segundo este mesmo autor, “os estudantes tinham cem por cento de razão em denunciar esta forma particularmente nociva de obscurantismo contemporâneo que existe entre os potentados universitários como no homem da rua”.
Ora, este descabido ataque à própria matriz de todas as ciências é tanto mais insólito porquanto nomes maiores da Ciência contemporânea se têm distinguido no deambular de uma Sabedoria sem fronteiras, v.g. Bertrand Russel e Albert Einstein. Razão de sobra para Georges Gusdorf sentenciar: “O fascínio tecnicista e cientista é um sinal dos tempos, cujas repercussões se fazem sentir na organização ou antes, desorganização do ensino a todos os níveis. Esta desorganização com espaldar no sistema educativo português, em que as reformas curriculares se sucedem em vertiginoso carrossel, tem conduzido à desvalorização da Filosofia e, “ipso facto”, ao desprezo por um importante legado da antiga civilização grega: a do Homem que se questionar e ao mundo que o rodeia, tornando-se, simultaneamente, num processo de realização ética. Desta forma, pondo em causa o generoso papel do conhecimento filosófico como personagem de um processo cultural que abriria espaçosas fronteiras à Ciência hodierna”.
Regressando ao filósofo acima citado, Platão, encontro numa das sua máximas o conselho judicioso, diria mesmo profético: 
“Não espere por uma crise para descobrir o que é realmente importante na sua vida”!

Modo como a universidade reagiu à pandemia

Aisha Ahmad, professora de “Ciência política” da Universidade de Toronto escreveu, na passada semana, um texto sobre o ensino superior e a investigação neste tempo de pandemia provocada pelo Covid-19 (ver aqui). Faço, abaixo, um breve resumo dele.

Na sua universidade, diz, o corpo docente reagiu à crise com um estranho sentido de normalidade: mudou, de imediato, a leccionação para o regime online e continuou a produzir o seus artigos. Percebe-se que espera, dentro em breve, o regresso à normalidade. Mas estão enganados: a pandemia vai demorar a passar. 

Mesmo que seja contida nos meses mais próximos, o seu legado acompanhar-nos-á durante anos, talvez décadas. E será impossível recomeçarmos as nossas vidas como se ela nunca tivesse acontecido: mudará a maneira como nos movimentamos, aprendemos e comunicamos. 

Assim, de momento, não faz qualquer sentido o frenesim com a leccionação ou a obsessão com a produtividade académica, ambas derivadas da negação e da ilusão. 

Recorrendo à sua experiência diz:
“trabalhei e vivi em situações de guerra, de conflitos violentos, de pobreza e desastres em vários lugares do mundo. Experimentei escassez de alimentos, surtos de doenças, isolamento social, movimento restrito e confinamento. Em condições físicas e psicológicas muito difíceis realizei investigação que acabou por ser premiada. Por isso partilho os seguintes pensamentos na esperança de que eles ajudem outros académicos"

Vejamos quais são eles:
1. Segurança. Os primeiros dias e semanas são marcados pela desorientação, precisamos de nos ajustar mentalmente. Na verdade, uma pessoa equilibrada não se sente bem numa crise global; estranho é que se mantenha a produção anterior, como se nada estivesse a acontecer. É preciso ignorar as pessoas que fazem questão de mostrar que estão a escrever muitos artigos e também as que reclamam não poder fazer isso. O melhor é redireccionar a atenção, mantendo conversas razoáveis com as pessoas próximas.  
2. Mudança. As pessoas conseguem estudar e trabalhar mesmo em condições extremas. Conseguiremos alcançar estabilidade e acabaremos por encontrar desafios exigentes.  Mas importa abandonar o que é performativo e imediato em favor do que é autêntico e relevante. 
3: Adoptar uma nova rotina. O nosso cérebro mantém-se criativo e resiliente, por isso, haverá um momento em que tudo parecerá mais normal, passando o trabalho a fazer sentido. Mas deve ser mantido em condições sustentáveis, a produtividade não pode ser desligada da serenidade. 
E finaliza dizendo: esta crise há-de terminar e voltaremos às salas de aula, mas, por agora, estamos no começo de uma pandemia que, com todas as contrariedades, pode ser uma óptima professora.

A análise de Aisha Ahmad vai muito além das fronteiras da sua universidade: implantado que está um modelo universal uniformizado de "prestação de contas" e de "obrigação de publicar", diria que a reacção inicial não podia deixar de ser a que foi (ou talvez pudesse...), mas não tem de ser a reacção final.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Um Gabinete de Salvação Nacional (2)


Ontem
, publiquei aqui o post: “Um Gabinete de Salvação Nacional, uma utopia?”. Escrevi-o em oposição a uma opinião - segundo Goethe, "qualquer ideia proferida desperta outra ideia contrária -  que tinha lido,  e vi estes dias repetida, defendendo a criação de “Um Governo de Salvação Nacional”.

Estou em crer que a criação de um Governo de Salvação Nacional, numa altura em que  a humanidade  corre o risco de submergir afogada pelo coronavírus,  impõe que a orquestra de uma espécie de  Titanic a afundar-se  não continue a tocar com os passageiros a rodopiar  aos seus acordes,   retardando, assim,  o  respectivo embarque em baleeiras salva-vidas, contribuindo, desta forma, , com raras excepções, para a sua morte em águas geladas por um navio, tido por inafundável,  ter embatido contra um gigantesco icebergue 

Foi o actual Partido Socialista referendado e eleito pelos portugueses, propor a sua substituição, agora, por um Partido de Salvação Nacional seria plena loucura pelo vazio que se iria criar entre uma  situação e outra, por mais breve que fosse, numa altura em que todos os portugueses, em obediência a um desígnio nacional devem dar tréguas a divisões e quezílias entrelaçando as mãos em união de esforços, na defesa da sua sobrevivência à pandemia do coronavírus.

São ondas do passado que morrem chegadas à praia, em nada comparáveis ao tsunami em que vagalhões ameaçam varrer grande   parte da população do globo terrestre.  Para além disso,  quem fez  uma cama em desalinho é nela que se deve deitar, pese  embora as declarações posteriores, em alijar de culpas,  do primeiro-ministro   como que puxando as orelhas do edredom para cima.

Bem eu sei haver  uma tendência para apesentar questões sem buscar soluções,  aquilo que na gíria se diz “mandar bitaites”! Jugo não o ter feito, quando muito admito  ser acusado de  viver num mundo utópico de medidas nada consentâneo com a realidade que vivemos, sujeitando-me que me demonstrem estar eu errado ou mesmo a delirar, ao propor, em revisão de matéria dada no meu post anterior:

1. "Continuação do exercício em funções do actual  governo do Partido Socialista.
2. Demissão da actual ministra da Saúde.
3. Nomeação de um Gabinete  de Salvação Nacional”.

Este gabinete,  constituído por um só elemento indicado pelos partidos com maior representação nacional (PS, PSD,  BE,  PC e CDS)  seria da nomeação do Presidente da República. A sua acção abrangeria as áreas da Saúde, da  Economia e das Finanças restringindo-se ao tempo que durasse a pandemia. Terminada ela,  os actuais ministérios da Economia e das Finanças retomariam as suas actuais funções, com excepção do ministério da Saúde pela hipotética demissão da respectiva ministra.   

Para evitar um possível silêncio cúmplice à actual situação ou aos meus possíveis delírios motivados  pelo confinamento  obrigatório à paredes do domicílio,  apelo veementemente aos homens de boa-vontade, de ideias e de ideais deste país que digam da minha razão ou sem-razão, escrevendo comentários a denunciar o meu possível disparate (criação de um Gabinete de Salvação Nacional)  apresentando alternativas que nos dêem a garantia de um futuro menos negro e mais promissor na hora que passa.

“Alea jacta est!" , nunca deixar tudo na mesma  por silêncio cúmplice,  porque como escreveu Sophia de Mello Breyner, “calar-se equivale a deixar crer que não se julga e que nada se deseja, e em certos casos, isso equivale, com efeito, a não desejar coisa alguma”. Ora, eu não  acredito haver alguém que não deseje uma solução que tente minimizar o horror de um mundo  em pesadelo  comparável aos terríficos guiões  dos filmes de ficção científica.