De Rerum Natura
A natureza das coisas
quarta-feira, 4 de novembro de 2026
"A SOLIDÃO DOS PROFESSORES É INFINITA"
terça-feira, 3 de novembro de 2026
EDUCAÇÃO, JUSTIÇA E DEMOCRACIA
Livro que publiquei recentemente com dois colegas e que se encontra em acesso livre. Eis o seu resumo:
"Os atuais contextos globais indagam-nos sobre a formação do ser humano para agir em defesa dos modos de vida democráticos e de salvaguarda da justiça. Logo, apontam um desafio aos educadores: encontrar um sentido e reunir condições para promover a justiça e a democracia.
Se o nosso objetivo for preparar as futuras gerações para o exercício do bem-viver, do bem-comum teremos de pugnar para que a liberdade, a igualdade e a fraternidade, cimento da democracia, não sejam uma miragem. Esta declaração, que se quer real, conduz forçosamente ao compromisso ético, do que devemos – e podemos – fazer para conseguirmos maior aproximação àquilo que designamos por humanismo.
O sentido do presente livro é este mesmo: assumido a responsabilidade que nos cabe como educadores, nas escolhas que fazemos não podemos perder de vista a democracia e a justiça como modus vivendi na polis.
Os oito textos que o compõem, assinados por investigadores de diversos países – Brasil, Portugal, Espanha, Austrália e Reino Unido – oferecem uma variedade de pontos de vista, ora mais conceptuais, ora cruzando teses com aspetos concretos da escola contemporânea. De um modo ou de outro, assinalam a necessidade de assumirmos um compromisso com a educação, que será também um compromisso civilizacional".
Referência: Farinon, M.J; Damião, M.H. & Umbelino, L. A. (Coord.) (2026). Educação, justiça e democracia. A responsabilidade da educação escolar. Imprensa da Universidade de Coimbra. (ISBN: 978-989-26-2896-7; ISBN DIGITAL: 978-989-26-2897-4) (DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2897-4
"POUPAR": A NOVA PALAVRA DE ORDEM DA EDUCAÇÃO NACIONAL
Se ouvirem a rubrica matinal de hoje da TSF que dá pela designação de Pais e Filhos perceberão que é para explicar às crianças desde pequeninas que não devem esperar por ter reformas de jeito. Falam em aprender a poupar, só faltando dizer o nome das empresas que patrocinam a publicidade aos melhores PPR onde colocar as poupanças.
E nada como ter uma disciplina de “Cidadania” para formar cidadãos que orgulhariam um qualquer vetusto salazar financeiro...
domingo, 1 de novembro de 2026
PASSAPORTE DE CIDADANIA PARA IR ONDE? FAZER O QUÊ?
Produto inédito, pensei. Não era: logo de seguida encontrei outro de igual teor mas mais sofisticado, com efectivo ar de passaporte. O seu objectivo é (ver aqui): "incentivar os alunos a serem melhores cidadãos e a serem reconhecidas as suas ações cívicas. Criada para Cidadãos do Século XXI esta ferramenta tem carimbadas e registadas as ações, os projetos, as campanhas e as atitudes de valor, de cada aluno, ao longo de todo o ensino secundário."
Perguntas que o significado da palavra "passaporte" não pode deixar de suscitar: um aluno que mostre um "desempenho" cidadão exemplar (o que será isso?) pode ir para onde? Tem licença para fazer o quê? Pode aceder a quê? E o que acontece a um aluno que demonstre um "desempenho" contrário? Fica retido, impedido daquilo que a outro é permitido?
Estas perguntas não parecem, no entanto, ter a menor pertinência, nem mesmo em terreno universitário. Digo isto porque uma universidade pública nacional recuperou a ideia do "passaporte" a fim de promover o "espírito empreendedor" dos alunos. A ela juntaram-se mais quatro.
No vídeo promocional, os alunos são desafiados a participar em workshops, networking, bootcamps, concursos de ideias, sessões com mentores. Assim, vão colecionando carimbos e quando completarem 50 horas de "capacitação", podem obter Certificado de Aluno Empreendedor, que atesta as suas "competências" e o "envolvimento em iniciativas de empreendedorismo e inovação. (ver aqui).
O ensino superior em Portugal demorou um pouco mais do que outros níveis de escolaridade e outros países a chegar à literacia empreendedora (bem como à sua cara-metade, a literacia financeira), mas já lá chegou. Os entusiastas desta (indevidamente designada) educação para a cidadania têm razões para se alegrar.
LITERACIAL FINANCEIRA: ESTÁ CRIADO UM ESTADO DE NECESSIDADE
Talvez alguns leitores estejam lembrados de, há uns doze, quinze anos, ser celebrada a nossa superioridade em termos de literacia financeira. Os alunos portugueses foram campeões da Europa! Repetiu-se que éramos uma referência mundial nessa matéria. Veja-se a notícia abaixo (e um texto aqui).

Em 2023, A Associação Portuguesa de Bancos dava a notícia que identifico de seguida, sendo que na sua página constam outros feitos gloriosos dos nossos alunos em matéria de literacia financeira (ver aqui).
Mas, eis que, ainda em 2023, se viu declarado num relatório do Conselho Europeu, com base nos dados do Eurobarómetro - 2023, o baixo nível de literacia financeira dos europeus e, em especial, dos portugueses, que ficaram na segunda pior posição da União Europeia: (ver aqui). Pelas minhas contas, foi por essa altura que se espelhou consistentemente a ideia de que a nossa capacidade, como nação, para gerir finanças era nada mais nada menos do que uma desgraça.
Veja-se a notícia abaixo, saída muito recentemente no jornal As Beiras. Uma desgraça, sem dúvida, quando nem os licenciados são educados em matéria financeira!
- produzirem-se documentos e recursos, bem como actividades que respondem a todas as necessidades das escolas, as que têm ou podem vir a ter. Isto sem esquecer a formação de professores;
- levarem-se bancos e outros stakeholders que lhes estão associados à escola, mas também autarcas, secretários de estado e ministros, presidentes e vice-presidentes e, até o Governador do Banco de Portugal;
- e, claro, envolver-se a academia, que, na sua boa vontade, espalha a palavra com a bênção científica.
Está criado um autêntico "estado de necessidade", o que justifica a vontade colectiva para lhe acudir e em todas as frentes. Só que este "estado de necessidade" não é dos alunos, pois a literacia financeira não cabe na educação escolar, é um pretexto construído (diria, bem construído) para quem tem interesse em chegar aos alunos, chegar efectivamente aos alunos.
As escolas, que deveriam perceber o "jogo", abrem-lhes as portas; os professores aceitam ser secundarizados na sua tarefa de ensinar quando quem não tem habilitações para tal quer assumi-la. E as instituições de ensino superior, que deveriam analisar o "jogo" de modo esclarecido, participam nele.
Tem de haver uma saída para esta cerrada campanha ideológica...
sexta-feira, 30 de outubro de 2026
"POUPAR: UM COMPROMISSO COM O FUTURO" QUE AGREGA A NAÇÃO
- Aulas (palavra que convém colocar entre aspas) dadas pelo Ministro da Educação, pelo Governador do Banco de Portugal (aqui, aqui) e por líderes empresariais e autárquicos (ver aqui);
Este acontecimento é promovido por quatro parceiros de longa data que também encontramos nas outras iniciativas: Ministério (MECI), Banco de Portugal (BP), Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM), Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões (ASF).
domingo, 25 de outubro de 2026
A EDUCAÇÃO DURANTE O ESTADO NOVO (2)
Apesar de algumas campanhas contra o analfabetismo, muitas crianças abandonavam cedo a escola, especialmente nas zonas rurais e o acesso ao ensino secundário e superior estava, sobretudo, ao alcance das famílias com mais recursos.
Durante o Estado Novo o ensino foi fortemente controlado pelo Estado e usado, não só para exercer a aprendizagem das matérias estabelecidas nos programas curriculares como também para transmitirem os valores sociais, políticos e morais caros ao regime. O sistema educativo era centralizado. Os programas, os manuais escolares, a formação e o trabalho dos professores eram supervisionados pelo governo. A religião e a moral católicas faziam parte da educação, sobretudo depois da Concordata de 1940, numa demonstração da forte influência da Igreja Católica.
Visando banir os projectos educacionais da Primeira República, o Estado Novo alterou a formação de professores, substituiu os programas, adaptando-os à nova ideologia, separou os sexos, nas localidades onde isso foi possível, além de que reduziu a escolaridade obrigatória de 4 para 3 anos.
O papel da escola foi reforçado na orientação política e religiosa dos alunos, no culto das virtudes nacionalistas, no elogio da vida modesta e rural e na secundarização da mulher face ao homem. O fervor patriótico e o cunho religioso enquadrados na ideologia oficial do Estado Novo estavam diluídos nas matérias curriculares, nomeadamente, na Leitura, na História e na Geografia, no propósito de, a partir dos bancos da escola, então com início aos sete anos de idade, estimular estas virtudes nos homens e mulheres do futuro. Este ensino terminava por volta dos 10 ou 11 anos, idade em que muitas crianças abandonavam a escola para, em especial no mundo rural e agrícola, ingressarem no trabalho infantil. Nas cidades era frequente vê-los como aprendizes em diversos ofícios ou como marçanos, geralmente, de mercearias e drogarias.
Na segunda metade dos anos de 1930, quando eu a frequentei, o ensino obrigatório terminava com o exame da 3.ª classe (3.º ano, como agora se diz), certificado pelo então “Diploma do Primeiro Grau”, exigível, por exemplo, para ingresso nos lugares mais humildes da função pública, no comércio, como caixeiro, nos correios, como carteiro ou boletineiro e, até, para ser eleitor. Ler, escrever e contar era tudo o que o cidadão comum necessitava para fugir à vida do campo, ao aprendizado artesanal ou oficinal e a outros trabalhos que apenas fizessem uso da força braçal. No discurso proferido em 12 de maio de 1935, na sede da Liga 28 de Maio, Salazar disse:
A partir de 1956, o Decreto-Lei n.º 40 964 alargou a escolaridade obrigatória à 4.ª classe (o 2.º Grau), mas apenas para os rapazes. Só em 1960 essa obrigação foi estendida às raparigas, revelando a desigualdade de género existente na política educativa do regime.
Em 1964, o Decreto-Lei n.º 45 810 aumentou formalmente a escolaridade obrigatória para seis anos e até aos 14 anos de idade, aplicando-se a rapazes e raparigas. Contudo, faltavam escolas, professores, transportes e condições económicas, sobretudo nas áreas rurais, havia pobreza e trabalho realizado por menores de idade, pelo que muitas crianças continuaram sem completar os seis anos previstos na Lei. Em 1973, a reforma Veiga Simão previa o aumento para 8 anos, mas não chegou a ser plenamente aplicada antes do 25 de Abril de 1974.
Durante os seis anos do governo de Marcelo Caetano ocorreram algumas tentativas de modernização. A economia portuguesa precisava de trabalhadores mais qualificados, o que aumentou a preocupação com a expansão do ensino. Mas só depois da Revolução de 1974 o sistema educativo se tornou mais democrático e acessível.
A ideologia nos manuais de ensino
Os livros, seguiam o modelo pedagógico conservador, com textos curtos, simples e moralizadores e ilustrações simbólicas, como bandeiras, heróis nacionais e outras. Tinham três funções centrais: alfabetizar e dar noções básicas; incutir valores de disciplina e obediência; promover o culto da Pátria, da História de Portugal e do “Chefe”. Nos livros de História, a narrativa reforçava valores, como patriotismo, disciplina, fé cristã e sacrifício pela Pátria, e exaltava os nossos feitos e os nossos heróis. O passado negativo era omitido ou suavizado. Os conteúdos, expostos de forma linear, heróica e sem espírito crítico, valorizavam sobremaneira a cruzada contra os infiéis, na reconquista cristã, as lutas contra os castelhanos, na defesa da independência nacional, e os Descobrimentos, conjunto de glórias apresentadas como exemplos do destino ou vocação nacionais e alcançadas sob protecção divina. Recorde-se as Batalha de Ourique (1139) e de Aljubarrota (1385) e toda a epopeia marítima, reforçando a ideia de que Portugal tinha uma missão civilizadora no mundo. Destacavam a grandeza de Portugal como “nação, pluricontinental e multirracial” e davam ênfase a figuras, como D. Afonso Henriques, Nuno Álvares Pereira e Infante Dom Henrique.
Os livros de Geografia reforçavam o orgulho nacional. Incluíam descrições elogiosas do território e mostravam imagens idealizadas do meio rural, considerado o coração moral da Pátria. A vida no campo era frequentemente descrita como o ideal português, saudável e moralmente pura. O mundo urbano, industrial e moderno não tinha esse tratamento. Os livros transmitiam os valores da expansão territorial de Portugal e a missão civilizacional no Império. Os territórios ultramarinos eram apresentados como parte inseparável da nação. O discurso salientava as riquezas naturais, a bondade da presença portuguesa nesses territórios e a ausência de conflitos. Os povos colonizados eram representados de forma paternalista. O objectivo era legitimar o Império português e a ideia de Portugal como “país pluricontinental”. O mapa do Império Colonial Português, pendurado na parede da sala de aula, realçava toda a extensão territorial do Portugal do Minho a Timor.
Em síntese, os manuais escolares do Estado Novo, em particular os do ensino primário, foram instrumentos fundamentais para a manutenção e reprodução da ideologia do regime. Ao controlar o conteúdo ensinado nas escolas, o governo procurou moldar mentalidades e assegurar a continuidade de um sistema baseado na ordem e na exaltação nacionalista, numa imagem de Portugal ajustada aos valores do Estado Novo católico, rural, disciplinado, hierárquico e imperial.
sábado, 24 de outubro de 2026
PENSAR E VIVER SEM TRINCHEIRA
Texto do meu colega e amigo Andrés Palma Valenzuela, professor na Faculdade de Ciências da Educação da Universidade de Granada. Foi recentemente publicado no jornal abaixo identificado e pode ser consultado aqui.
A Espanha atravessa um momento em que a diversidade já não é uma riqueza, mas sim motivo de alarme. Há mais desarmonia do que harmonia, mais trincheiras do que pontes.
O que antes associávamos à vida universitária — um clima de debate vivo, de contraste fundamentado e de busca partilhada da verdade — foi-se diluindo até se tornar uma sombra que cobre grande parte da nossa vida pública. Onde antes se discutia, agora suspeita-se. Onde antes se ouvia, agora rotula-se.
E o que deveria ser um espaço de conversa madura tornou-se um espaço onde proliferam as lealdades incondicionais e as narrativas fechadas. O que inquieta não é apenas a falta de coincidências, mas a crescente dificuldade em encontrar pontos de encontro.
Em muitos âmbitos — política, universidade, meios de comunicação e relações familiares —, impõe-se uma obediência silenciosa à narrativa própria. Discordar é interpretado como uma forma de traição. E muitos, por medo ou por comodidade, optam por submeter-se a essa narrativa, renunciando à liberdade crítica que qualquer comunidade adulta deveria sustentar.
Convém recordar algo que é básico: ninguém apreende a realidade na sua totalidade. Cada pessoa observa o mundo a partir da sua própria janela, e é a soma dos diversos olhares que permite intuir a verdade.
O problema surge quando confundimos a nossa janela com toda a paisagem e deixamos de admitir que o outro pode estar a ver aquilo que nós não conseguimos perceber. Em Espanha, esta confusão tornou-se demasiado comum. Cada grupo político ou círculo ideológico, cada bolha digital, está convencida que o seu ponto de vista é o único legítimo.
Mesmo na universidade — e isto é algo que me custa aceitar — esquece-se frequentemente uma ideia essencial que Karl Popper formulou há décadas: a possibilidade de um estar errado e o outro ter razão, e de o diálogo permitir que nos aproximemos juntos da verdade.
A política, e com ela grande parte da vida pública, deixou de ser um exercício de razão para se tornar um ato de fé. Proliferam dogmas, ortodoxias, hereges e excomunhões. O adversário deixa de ser um interlocutor para se tornar um inimigo. É facilmente descartado com rótulos como «fascista», «comunista», «progressista», «de extrema-direita», sem que se ouçam os seus argumentos. O insulto substitui a razão porque desacreditar é mais cómodo do que compreender.
Eu próprio vivi esta deriva. Num debate científico na minha Faculdade, alguém decidiu excluir os meus argumentos com uma frase que não admitia réplica: «Essa voz vem do século XIX». Não houve discussão, apenas uma desqualificação que fechava a porta a qualquer matiz. Não se tratava de debater, mas de silenciar.
E, no entanto, no meio desta atmosfera tensa, há um empenho que mantenho há mais de três décadas: educar e formar as novas gerações de professores e educadores para um diálogo aberto, respeitoso e sereno. É uma tarefa estimulante, mas nem sempre fácil. Há dias em que é difícil manter o ânimo e a esperança viva, sobretudo quando o vento social parece soprar na direção contrária.
Nesses momentos, recorro a duas máximas do catedrático da Universidade de Granada Andrés Manjón, talvez o maior educador desta instituição com cinco séculos de história. Manjón repetia que a chave está em educar ensinando e ensinar educando, e que quem não sabe amar não sabe educar. Não são frases retóricas, mas princípios que sustentam uma forma de estar no mundo. Quando o ruído exterior ameaça inundar tudo, essas palavras orientam e lembram que a educação é, acima de tudo, um ato de cuidado.
Uma metáfora clínica ajuda a compreender o fenómeno que nos afeta. Na hemiplegia, metade do corpo perde a sua capacidade funcional e o doente tem de se desembaraçar com a outra metade. Algo semelhante acontece com o pensamento sectário, não porque quem o apresenta seja menos inteligente, mas porque reduziu voluntariamente o seu campo de visão. Atribui valor aos factos que confirmam as suas convicções e rejeita aqueles que as contradizem.
A realidade deixa de ser complexa para se tornar um relato simples, em que os bons estão sempre do nosso lado e os maus habitam invariavelmente o lado oposto.
Mas o mais inquietante é a incapacidade de reconhecer a redução do campo de visão. O perigo do fanatismo não reside apenas em contemplar metade da realidade, mas em perder a consciência de que se está apenas a contemplar metade da realidade. Em Espanha, diagnosticamos rapidamente a hemiplegia intelectual do adversário, enquanto estamos cegos para a nossa. Reconhecemos o fanatismo alheio com a precisão de especialista e justificamos o nosso com a indulgência de um advogado de defesa.
Se queremos reconstruir pontes, precisamos de algo mais do que análise: precisamos de coragem. A autocrítica e a reconciliação, inclusive a intelectual, exigem a coragem de quebrar as correntes do ressentimento e do preconceito. E isso requer força e um equilíbrio interior capaz de impedir que o mal, ou a memória do mal, nos arraste, sobretudo quando as feridas são profundas e ainda doem.
Reconciliação não é esquecer nem justificar, é assumir a responsabilidade pelo outro, mesmo quando os seus comportamentos são difíceis de aceitar. É assumir que o futuro da nossa sociedade não está na uniformidade, mas na convivência das diferenças, em transformar a ferida do passado numa fenda por onde a luz possa filtrar-se.
A literatura, os meios de comunicação e as redes sociais, com os seus inevitáveis algoritmos, oferecem uma lição útil para este tempo.
Há uma forma de ler, de nos informarmos, de ouvir, que consiste em procurar testemunhas a nosso favor: escolhemos autores com quem concordamos, comentadores previsíveis, jornalistas que confirmam aquilo que já pensamos. Sublinhamos o que nos dá razão e reunimos informação sem sairmos de nós próprios. Os algoritmos fazem o resto, selecionando aquilo que se encaixa nas nossas preferências e eliminando o que nos possa incomodar.
Mas existe outra forma: a leitura autêntica e a informação completa obrigam-nos a entrar na vida de alguém a quem talvez nunca tivéssemos dado ouvidos. Obrigam-nos a rever os nossos juízos, a compreender antes de julgar, a dar tempo ao outro para se explicar. Essa é a escola da humildade intelectual, a única capaz de nos devolver um olhar mais amplo do que as nossas próprias certezas e mais generoso do que os nossos preconceitos.
Toda a hemiplegia precisa de reabilitação. Também esta. O seu tratamento não passa por convencer o adversário, mas sim por recuperar uma virtude rara: aceitar que ninguém — nem um partido, nem um líder, nem um académico, nem um cidadão — detém o monopólio da verdade. Por vezes, convém deixar sobre a mesa o livro que íamos abrir, a estação de rádio ou o canal de televisão que pensávamos ouvir, ou o jornal que tínhamos previsto ler, e escolher outro diferente. E fazê-lo devagar. Permitir que uma frase nos acompanhe até à rua, até a uma conversa pendente, até ao rosto de alguém que pensávamos conhecer.
Não me resigno a uma sociedade amordaçada, com cidadãos que praticam a autocensura e se deixam convencer sem qualquer análise prévia. Recuso-me a aceitar que a polarização seja uma lesão irreversível. Mas sei que, se não for tratada a tempo, pode deixar sequelas permanentes.
Porque no dia em que uma comunidade deixa de procurar a verdade e se contenta com a metade que confirma os seus preconceitos, deixa também de precisar de argumentos: só precisa de inimigos.
E quando o adversário se torna inimigo, a verdade deixa de ter duas metades; começa a não ter nenhuma. José Cobo Cano, de Madrid, recordava-o há alguns dias: «é bom discutir ideias, mas, por vezes, queremos aniquilar as pessoas».
A EDUCAÇÃO DURANTE O ESTADO NOVO (1)
Primeiro texto de uma série de doze, retirados do livro Antes dos Cravos que o Professor António Galopim de Carvalho teve a amabilidade de nos enviar.
A Reforma Carneiro Pacheco, de 1936
Falar da Educação em Portugal durante o Estado Novo tem, obrigatoriamente, de começar por apresentar António Faria de Carneiro Pacheco (1887-1957) e a sua Lei de Bases da Educação.
Este político, com obra capital na sociedade portuguesa, na medida em que, como alguém disse, a educação é a estrada por onde passam todas as profissões. António Faria de Carneiro Pacheco foi professor de Direito na Universidade de Lisboa e, entre outras funções, foi deputado à Assembleia Nacional, entre 1934 e 1938, e procurador à Câmara Corporativa, por designação do Conselho Corporativo. Profundamente católico e ligado ao sector conservador e fascizante do Estado Novo, foi designado, em 1934, vogal e depois presidente da Comissão Executiva da União Nacional. Posteriormente, exerceu funções diplomáticas, como embaixador de Portugal junto da Santa Sé, entre 1940 e 1945, tendo participado na negociação da Concordata de 1940.
Germanófilo convicto e ostensivo, distinguiu-se na concretização dos fundamentos da política de educação do Estado Novo, estampada na chamada Reforma Carneiro Pacheco, 1936, concretizada na Lei de Bases da Educação do Estado Novo (Lei n.º 1941, de 11 de abril de 1936), diploma que estruturou as políticas educativa, cultural e de investigação científica do regime, que concebeu e pôs em prática.
Nomeado Ministro da Instrução Pública, em 1936, transformou o Ministério da Instrução Pública em Ministério da Educação Nacional, levou a cabo uma profunda reforma da política educacional, cultural, científica e de juventude promovida pelo regime. Fundou a Mocidade Portuguesa, a Mocidade Portuguesa Feminina e a Obra das Mães pela Educação Nacional, criou a Junta Nacional da Educação, o Instituto para a Alta Cultura, a Academia Portuguesa da História e o Instituto Nacional de Educação Física. A sua grande reforma do sistema educativo deixou um legado que marcou decisivamente a educação portuguesa até à Revolução dos Cravos, sendo ainda possível encontrar muitos dos seus traços na actualidade. Carneiro Pacheco introduziu a obrigatoriedade de afixação do crucifixo nas salas de aula e sujeitou o casamento das professoras à autorização do Estado.
A Junta Nacional da Educação (JNE) foi incumbida de “estudar todos os problemas inerentes à formação do carácter, ao ensino e à cultura”. Organizada em várias secções, ocupou-se dos ensinos primário, secundário, superior, técnico e de Belas Artes. Ocupou-se, ainda da investigação científica e das relações culturais. Extinguiu, entre outros, o Conselho Superior de Instrução Pública e o Conselho Superior de Belas Artes.
Estabeleceu um novo quadro para o ensino liceal, com organização e currículos pensados como espaço de formação das “elites”, de modo a servir os objectivos do regime. A sua lei procurou estruturar não só o sistema formal de ensino, mas também a ideologia cultural e moral do Estado Novo, estabelecendo ligação explícita entre educação, cultura, ciência, juventude e desporto.
O regime pretendia e esta lei procurou formar cidadãos moral e civicamente segundo os valores do regime e de assumida lealdade ao Estado. O ensino não era visto apenas como meio de instrução técnica ou intelectual, mas como instrumento de “formação moral e cívica”, de coesão nacional e de legitimação cultural do regime. A centralização e o controlo estatal da educação ficavam, assim, reforçados e a uniformidade e direcção ideológica, por parte do Estado, garantida.
A Lei de 1936 é um marco na institucionalização da educação nacional sob o regime autoritário, não apenas como uma reforma de ensino, mas como um instrumento de controlo ideológico, cultural e social. Demonstra como o Estado Novo procurou fazer da escola um agente de uniformização cultural e moral, de formação de elites alinhadas com o regime.
terça-feira, 20 de outubro de 2026
UMA CONSULTA PÚBLICA QUE INCLUI A OCDE
Convido o leitor a explorar:
1) O comunicado do Ministério da Educação, Ciência e Inovação (aqui).
2) A página do Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação (EduQA) que dá acesso aos quatro os documentos em apreciação (aqui):
- Orientações para a utilização da IA na Educação (aqui);
- Instrumentos de apoio (aqui);
- Glossário de conceitos e enquadramento jurídico (aqui);
- Folheto de orientações essenciais (aqui).
E ao formulário para submissão de contributos (aqui).
domingo, 18 de outubro de 2026
O "HOMEM COMUM" E O "CIDADÃO"
"Foram (...) os ideais do liberalismo político, do romantismo, do marxismo e do pensamento libertário, associados ao crescimento dos direitos do trabalho, ao alargamento da classe média, à emergência do Estado-Providência e da educação pública, e à afirmação do intelectual como agente da mudança, a dar consistência a sociedades onde saber, pensar, ler, escrever ou criar passaram a ser reconhecidos como fatores decisivos do progresso social, agora acessíveis a um volume crescente de pessoas (...).
A partir dos anos noventa esse panorama começou a alterar-se rapidamente (...) com a afirmação de uma era pautada pelo individualismo e pelo egoísmo associada à expansão da economia neoliberal, apresentada como etapa definitiva da evolução da humanidade. Continuou com a mercantilização consumista e a naturalização da desigualdade social. E culminou com a afirmação, imposta pela nova extrema-direita populista, de um interesse geral pautado pela valorização das emoções mais básicas, pelo destaque dado à ignorância como «direito» e por um primarismo comunicacional que hipervaloriza o comportamento instintivo e a linguagem do ódio, desdenhando o saber como motor do progresso humano.
Neste processo tem lugar central a afirmação, potenciada pelas redes sociais, da figura do «homem comum» (...). Este representa o sujeito-padrão, anónimo, moldado pelas rotinas do trabalho, pela hierarquia, pela insciência e pela tirania do hábito, esse «sistema de disposições duráveis» do qual falou Pierre Bourdieu. O que não se distingue por uma qualidade peculiar, nem pela prática regular da cidadania, mas por uma «mediania» ancorada no simples e no banal. É em seu nome que ousam falar os líderes populistas, incentivando junto dele, com a intervenção da informação manipulada, a desconfiança e o ódio perante quem está «acima» apenas porque sabe mais ou tem algum poder.
Este padrão de «homem comum» não é o cidadão que se bate pela igualdade e pelos seus direitos, mas aquele que adota o nível mais baixo de exigência, formação, intelecto, gosto ou moralidade, capaz de se juntar a muitos outros sob um projeto político que não entende na plenitude, mas reconhece como «seu» e jamais questiona. Um padrão que configura um enorme recuo da consciência política, da sensibilidade e da cultura, contra o qual é imperativo erguer uma forte mobilização cívica. Só desta forma será possível impedir a instalação da animosidade contra «o outro» e contra o saber (...)".
A MORTE EM DIRECTO: SEGUNDA ADENDA
Nota na sequência do texto.
O presidente do país que aprovou a transmissão pela internet da execução de um condenado à morte, voltou atrás na decisão (ver aqui um texto de Inês Prazeres Reis, editado por Mafalda Ganhão).
Por razões morais? Parece que não: por razões estratégicas.
Terão sido os resultados de uma sondagem conjunta (The Washington Post, ABC News e Ipsos) que o fizeram vacilar: 80% dos inquiridos disse-se contra a transmissão e alguns membros do governo fizeram o mesmo, incluindo o vice-presidente.
Provavelmente o que mais pesou na segunda decisão foi a manifesta falta de apoio popular pois, ao que se vê, membros do governo são fáceis de descartar. Se a sondagem fosse favorável, era quase certo que a transmissão aconteceria.
Julgo que este caso não é apenas um caso, daqueles que desaparecem da nossa lembrança tão depressa como apareceram. Há nele um sério desequilíbrio (mais um) para o lado da barbárie, mas há também um descendimento alargado de que esse lado é demasiado negro e tem lastro.
Gente bem colocada no sistema político disse: "uma civilização entra em decadência quando cultiva o gosto pelas execuções como forma de entretenimento"; e a transmissão “está abaixo da dignidade e da decência”.
Não sou capaz, neste caso, de dizer como Sygmund Bauman que “tenho esperança na razão e na consciência humana, na decência”, mas admito que alguma coisa tocou muitas pessoas de um país, de um mundo, que parece andar à deriva.
domingo, 11 de outubro de 2026
A MORTE EM DIRECTO — ADENDA
2) divulgar o registo do acontecimento para todo o mundo e para sempre, o que obrigaria à sua revisitação.
ANTES DOS CRAVOS. UMA HOMENAGEM
Informação que nos foi enviada pelo Professor Galopim de Carvalho e que muito agradecemos.
"ANTES DOS CRAVOS" surge num momento em que o panorama político de Portugal deixa muito a desejar, por culpa dos políticos (a quem o poder lhes foi entregue, "de mão beijada", pelos honrados "Capitães") que não souberam entender-se para que se cumprissem as "promessas de Abril". Tudo isto trouxe-me ao presente as minhas memórias como cidadão consciente do mundo à minha volta, digamos a partir dos 15 anos (em 1947).
Até 1974, foram 28 anos de privação da liberdade, de vigilância e repressão políticas, receios de tudo e mais alguma coisa. Foi com este conjunto de lembranças de situações vividas e presenciadas a que acrescentei um manancial de elementos retirados criteriosamente da internet, que me sentei frente ao monitor.
Todos os meus leitores e amigos sabem que não sou historiador e que, portanto, me limito a abordar, com o rigor possível, as generalidades. Por outro lado, todos sabemos que conhecer as generalidades é melhor do que passar pelo mundo "de olhos fechados". Foi isso que me motivou a escrever este livro. Todos os meus leitores e amigos sabem que gosto de ler, aprender e, sobretudo, comunicar o que vou aprendendo.
Fui professor durante muitos anos, continuo a sê-lo, à distância, através da internet, e ficou-me o gosto compulsivo de aprender e ensinar. Dizem-me que comunico bem e com simplicidade, que torno fácil o que, à primeira vista, parece difícil, e eu sei que o faço com o mesmo cuidado e atenção com que, como académico, também fiz investigação científica numa área específica da Geologia.

Este estabelecimento, inaugurado a 25 de Abril de 1973, festejava, nesse dia, um ano de abertura, pelo que a gerência planeara oferecer cravos às habituais muitas clientes. Em virtude do golpe de militar, o restaurante não abriu e o gerente disse às empregadas que levassem consigo os cravos, já que não poderiam ser distribuídos pelas ditas clientes.
Ao regressar a casa, com um braçado de flores, Celeste deparou-se, na Rua do Carmo, com uma imensa coluna de militares armados, envolvidos numa multidão de povo, em êxtase de alegria, que, lenta e festivamente, iam abrindo caminho no sentido do Largo do Carmo. Impressionada e curiosa, perguntou a um dos soldados, o que se estava ali a passar, ao que o militar terá respondido, sorridente,
Isto é uma revolução!
Celeste pôs-lhe um cravo no cano da espingarda, operação que repetiu até esgotar todos os que tinha consigo.
Já está disponível no site da Âncora Editora,
ISTO FAZ UM AUTOR
De um lado, esforço, autenticidade, sacrifício e treino; do outro, tecno-chico-espertice. É difícil compreender onde está a necessidade, sobretudo se estes textos são produzidos por gente crescida e com provas dadas. Gente que até pode já nem ter necessidade de sucumbir ao 'publicar ou perecer' que se impõe tanto na academia como na opinião publicada.
Admiro aqueles que têm de superar os anos-luz que distam entre o aparecimento de uma ideia e o gesto que a transporta até à sua forma escrita definitiva. Que, em boa verdade, nunca o é. Que se deparam com a fricção e a sinuosidade, a incerteza e a dúvida. Sem atalhos nem facilitismos.
Antecipo a crítica: poderei ser um lírico inveterado que vai ser devorado pela vertigem do progresso. Aceito. Mas estou cansado dos tecnocratas impolutos que navegam as águas plácidas da hegemonia tecnológica e só se deixam ver quando o vento sopra de feição (...). Sem rasgo nem audácia. Gente que sabe estar sempre na crista da onda. Para quem a preguiça metacognitiva e a atrofia intelectual são problemas menores num mundo em que o cérebro com que se nasce parece começar a ser lastro indesejável. Afinal, está tudo na IA (...).
A todos os autores de carne e osso que não cedem ao facilitismo, o meu eterno reconhecimento e gratidão. Aos mestres da dissimulação powered by AI, reitero o apelo: porque não revelam o chatbot que têm na manga?
E lembrei-me do quadro A paixão da criação de Leonid Pasternak, pintor e professor de pintura, próximo de escritores: pai de Boris Pasternak e amigo de Leo Tolstoi.
Percebo a paixão de escrever assim descrita e assim pintada; não consigo de maneira nenhuma perceber como pode alguém dispensá-la, fazendo crer que escreve ou, despudoradamente, explicando como treina a máquina para escrever por si.
A MORTE EM DIRECTO
Em 2001, Paulo Moura entrevistou, para o jornal Público, a primeira apresentadora do programa de televisão Big Brother (aqui). Todos os anos revisito esta entrevista nas aulas e, à medida que o tempo passa, vejo maior aproximação entre aquilo que a apresentadora disse e a realidade.
Em certo passo, perguntou-lhe Paulo Moura: "E a morte em directo? Se as pessoas quisessem ver alguém a morrer num programa?"
Resposta: "Vamos acabar por ver isso, acho eu."
Pergunta mais adiante: "Teremos então a morte em directo, mal os estudos digam que as pessoas querem."
Resposta mais adiante: Se a pessoa que está a morrer concordasse..."
Passados catorze anos, Henrique Monteiro publicava no jornal Expresso uma crónica (aqui) onde dizia:
“Toda a ética da comunicação tinha mudado para o lado do recetor, absolvendo o emissor de qualquer ato menos próprio. E, no fundo (…) quem não concordava com isso? Não seria isso a liberdade? (...) Sem qualquer tecido social que una e, simultaneamente, hierarquize os valores, ser assim ou assado passou a ser uma questão de preferência e – como se passou a dizer – desde que não incomode ninguém, nada se tem a ver com isso.”
A turbulência que este reality show causou ao início, neste e noutros países, depressa desapareceu e coisas piores, bem piores, se lhe seguiram. A morte em directo, o último bastião da dignidade que Paulo Moura conseguiu imaginar, já se concretizou e a internet permite voltar à cena quantas vezes se quiser. Tudo às claras, não estou a falar da dark net.
O que talvez não estejamos (ainda) preparados para aceitar são as execuções em directo. Por agora, parece-nos demais. Daí a assinalável indignação que está a causar a notícia, divulgada nesta semana pela agência de notícias Reuters, de que o fuzilamento de um condenado, marcado para o final deste ano, vai ser transmitido online.
A determinação não vem de um grupo terrorista ou de um país classificado como totalitário, autocrático; vem dos Estados Unidos da América, que, desde há várias décadas, a Europa toma como referência. "Vai ser fuzilado por soldados, como deve ser, e faremos com que o público possa assistir", anunciou o Secretário da Defesa numa rede social (sublinho, "numa rede social").
Determinações congéneres foram tomadas antes desta, mas o tribunal conseguiu barrá-las. Pessoas individuais, algumas delas bem colocadas na hierarquia política, grupos e organizações, incluindo o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, tentam travar mais este passo de uma nova barbárie.
Há poucos minutos, o jornalista Mário Crespo, em entrevista a um canal de televisão (a partir do minuto 4), dizia que este acto, a concretizar-se, indicia que o país, ou uma parte do mesmo, terá perdido a alma. Sim, concordo, mas não é apenas este país; a alma do mundo não está bem nem se recomenda. Outra vez...
O que podemos fazer? Em última instância, neste caso, aquilo que o vice-presidente do país, em estranha dissidência com o presidente, disse: "Se for transmitida em directo, não vou assistir".
Pragmaticamente, e deixando de lado questões ético-morais, há um raciocínio muito simples que precisamos de ter em conta: quantos mais visionamentos, maior o lucro e, logo, maior a probabilidade de as execuções em directo se repetirem e... normalizarem, como se tem normalizado o que não é, o que não pode ser normal!
sábado, 10 de outubro de 2026
NÃO PODEMOS PERDER DE VISTA QUE A ESCOLA PÚBLICA É LAICA, NÃO CONFESSIONAL
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| Fotografia de Tiago Miranda publicada no jornal Expresso |
A fotografia acima reproduzida não pode deixar de ser estranha quando situada no terreno laico e público em que foi tirada: o Presidente da República, o Primeiro-ministro e o Ministro responsável pela pasta da Educação de um país laico benzem-se, sob a égide do Patriarca, na cerimónia de inauguração das novas instalações de uma escola pública, patrocinada pela Câmara Municipal. Na placa consta que a escola foi “benzida por Sua Eminência Reverendíssima o Patriarca de Lisboa”.
Esta e outras fotografias aproximadas, que enquadram as mais altas figuras do Estado e da Igreja do país, circularam nos jornais que deram a notícia do evento, mas num jornal oficial do patriarcado podemos ver outras não menos desconcertantes. Ainda que não tenham legenda a acompanhá-las é de supor que algumas pessoas que nelas ficaram registadas sejam professoras (talvez membros da direcção e de departamentos, directores de turma) e, como tal, responsáveis por quem entra na escola e nas salas de aula. Não vejo na postura dos fotografados qualquer sinal de constrangimento, o cenário parece festivo, agradável.
Numa escola religiosa o evento seria absolutamente normal, nada haveria a dizer. Acontece que, como lembrei aqui, a escola pública é laica.
O que quer tal dizer? Seguindo a letra inequívoca da lei, quer dizer que o ensino público não é confessional, ou seja, não se pode programar a educação em função de princípios, preceitos ou tradições afectas a religiões concretas.
[Nota: com isto estou muito longe de defender que o fenómeno religioso e as suas expressões não devem constar no currículo escolar. Tal como outras pessoas da Educação, defendo essa presença e disso já deixei registo neste blogue. O ensino deveria ficar a cargo de professores com formação sólida na área, num registo estritamente instrutivo-formativo, como acontece com as disciplinas comuns, e não ideológico. Não me refiro, evidentemente, à "Educação Moral e Religiosa", seja de orientação católica, evangélica, budista ou outra, afectas, como se deduz, a grupos particulares e doutrinais].

O caso do evento não se esfumou.
Por exemplo, o jornal Público seguiu-o e na sua edição de 3 de Outubro colocava em título: "é aceitável benzer uma escola pública numa república laica?"
Álvaro Vieira, que assina a notícia, dá conta de posições e depoimentos importantes. Destaco o seguinte:
O Presidente da República não respondeu às perguntas do jornalista; o Patriarcado, nas respostas que deu, considera não existir qualquer problema; a Câmara apelou, enigmaticamente, à inclusão, à tolerância e a outros valores estimáveis.
Uma constitucionalista, Teresa Violante, católica praticante, disse: “aplicando os princípios com rigidez, não tenho dúvidas em afirmar que há ali uma violação do princípio da neutralidade do Estado (...) imaginemos que, em vez de ser uma cerimónia católica, tinha sido uma cerimónia muçulmana. Se houver uma sensação de choque ou constrangimento, é porque não houve ali verdadeira neutralidade”.
- na alínea 4 do artigo 41.º da Constituição da República Portuguesa: “as igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização e no exercício das suas funções e do culto”.
- na Lei da Liberdade Religiosa (Lei n.º 16/2001, de 22 de Junho) se estabelece que o Estado não privilegia qualquer confissão nem obriga ninguém a professar ou a assistir a actos de culto de qualquer crença, prescrevendo-se no seu artigo 4.º (Princípio da não confessionalidade), na sua alínea 2 que “nos actos oficiais e no protocolo de Estado será respeitado o princípio da não confessionalidade”.
Em suma, este caso, tal como outros que têm vindo a lume, deve levar-nos a pensar no seguinte:
- que "agentes" da sociedade podem, com legitimidade, entrar na escola pública (múltiplos são aqueles que o fazem por iniciativa própria ou que são convidados a fazê-lo);
- com que intenções entram lá (só as intenções educativas são válidas, nunca as ideológicas, doutrinais);
- quem solicita ou autoriza essa entrada (até ver, são os directores, professores e outros educadores que têm a última palavra).
segunda-feira, 5 de outubro de 2026
CRISTIANISMO, HUMANISMO, POSITIVISMO E MARXISMO, PONTOS DE APROXIMAÇÃO E DE AFASTAMENTO
Texto do Professor A. Galopim de Carvalho
O elitismo académico já teve o seu tempo. Agora é tempo de abordar “todos os saberes” “com toda a humildade e todo o rigor científico”, mas nos níveis de apresentação compatíveis com a generalidade média dos que me seguem, ou seja, “em trajes populares”. Aos mais sabedores, peço que nos ensinem através dos seus comentários.
Falemos agora de religiões como importantes sistemas socioculturais, através das quais e de um modo geral, o ser humano tem procurado compreender: a origem e o destino da vida, o sentido da existência, o significado da morte e o que está para além dela; distinguir o bem e o mal e meditar sobre aquilo que considera sagrado ou transcendente.
As religiões apresentam uma grande diversidade de crenças e práticas. Algumas, como as antigas grega e latina, nas respectivas mitologias, reconhecem várias divindades, outras afirmam a existência de um único Deus e outras, ainda, não colocam um Deus criador no centro da sua tradição.
Entre as principais religiões destacam-se o Cristianismo, o Judaísmo e o Islamismo, ditas abraâmicas, que partilham uma origem comum baseada na figura bíblica do patriarca Abraão, reconhecido por todas elas como um patriarca, profeta ou mensageiro de Deus, servindo como o elo espiritual e histórico fundador destas crenças. Destacam-se, ainda, como religiões importantes, o Hinduísmo e o Budismo, sobre as quais poderemos, eventualmente, abordar, mais tarde. Apesar das diferenças profundas entre elas, todas procuram responder a algumas das questões mais profundas do pensamento humano, havendo, em todas, comunidades religiosas, princípios e práticas destinados a orientar a conduta dos respectivos seguidores.
De momento, como anunciei, o meu propósito é debruçar-me sobre o Cristianismo e, em especial, na figura de Jesus Cristo, com particular atenção à tida por verdade histórica, sem, contudo, menosprezar o relato dos textos ditos sagrados, nos seus aspectos culturais. No Cristianismo, o essencial encontra-se na narrativa oficial sobre a pessoa e a mensagem de Jesus Cristo, na relação com Deus e no apelo ao amor a Deus e ao próximo, tendo a morte e a ressurreição de Jesus como acontecimentos centrais da fé cristã.
São livros sagrados do Cristianismo, o conjunto de todos conhecido como a Bíblia, dividido em Antigo Testamento, profundamente ligado à tradição judaica, contendo textos anteriores ao Cristianismo, e Novo Testamento, que inclui os quatro Evangelhos, os de Mateus, Marcos, Lucas e João, outros escritos sobre as primeiras comunidades cristãs e textos como as cartas atribuídas a Paulo e a outros autores cristãos. Recordemos que o Cristianismo surgiu no século I e tem como figura central Jesus de Nazaré, um precursor do Humanismo.
Jesus nasceu em Belém, por volta do ano 3 d.C., no contexto do Judaísmo. Em adulto, com cerca de 30 anos era pregador em Nazaré e, a partir dos primeiros discípulos, depois apóstolos, difundiu a sua doutrina, progressivamente pelo Império Romano, onde se afirmou a partir do século IV, durante o reinado do imperador Constantino, que concedeu liberdade de culto aos cristãos através do Édito de Milão, em 313, tendo-se consolidado como religião oficial do Império durante o reinado do imperador Teodósio I, em 380.
O núcleo da fé cristã é a crença em Deus e em Jesus Cristo como Filho de Deus e Salvador. Segundo a fé cristã, Jesus anunciou o Reino de Deus, ensinou o amor a Deus e ao próximo, o perdão, a misericórdia e a justiça. A sua morte por crucificação e, sobretudo, a crença na sua ressurreição constituem o centro da mensagem cristã.
Há pontos de aproximação e de afastamento entre o Cristianismo e três outras importantes doutrinas sociais: o Humanismo, o Positivismo e o Marxismo, um tema a desenvolver.
Cristianismo versus Humanismo
Começando pela relação do Cristianismo com o Humanismo, ambos defendem a dignidade humana, princípios como a igualdade, o respeito pela vida e a preocupação com os mais vulneráveis.
O Humanismo valoriza a autonomia e a liberdade humanas, o Cristianismo também reconhece o livre-arbítrio e a responsabilidade de cada um pelas escolhas que faz. Ambos defendem solidariedade e ajuda ao próximo, justiça e preocupação com os outros.
Um e outro valorizam o desenvolvimento integral da pessoa humana, procurando, embora por vias e propósitos diferentes, contribuir para o respectivo aperfeiçoamento moral e pessoal.
Uma ideia particularmente importante no Cristianismo é o amor. Nos Evangelhos, Jesus associa o amor a Deus ao amor ao próximo. Daí decorrem valores como a dignidade da pessoa, a compaixão, o perdão, a solidariedade e o cuidado pelos mais vulneráveis. O Cristianismo ensina que a relação entre Deus e o ser humano envolve esperança numa vida que ultrapassa a morte.
A principal diferença está nos fundamentos. Enquanto para o Cristianismo Deus ocupa o centro de, praticamente tudo (Teocentrismo), o Humanismo, sobretudo nas suas formas seculares (não religiosas), dá maior importância ao ser humano, colocando-o no citado centro (Antropocentrismo), investindo na sua capacidade de construir valores e de dar sentido à vida, deixando Deus e as transcendências para um plano secundário.
O Cristianismo baseia-se, principalmente, na fé e nos ensinamentos religiosos, tendo como referência central a Bíblia e a tradição cristã, ao passo que o Humanismo valoriza mais a razão, o pensamento crítico e o conhecimento. O Cristianismo dá grande importância à relação com Deus e à salvação da alma, o Humanismo destaca as capacidades, realizações e desenvolvimento do ser humano na vida terrena. Nesta doutrina ou filosofia pode existir um Humanismo cristão, no qual a dignidade humana é fundamentada em Deus, mas também um Humanismo secular, que prescinde de Deus.
Cristianismo versus Marxismo
Entre o Cristianismo e o Marxismo, ambos dão importância às condições de vida dos mais desfavorecidas, embora partam de fundamentos diferentes. Um e outro destacam a solidariedade e a preocupação com o bem comum, criticando e denunciando injustiças sociais, desigualdades, exploração e situações de pobreza. Um e outro podem desenvolver acções destinadas a melhorar as condições de vida das pessoas.
No que se refere às diferenças, o Cristianismo baseia-se na fé em Deus e nos ensinamentos de Jesus Cristo, o Marxismo critica, frontalmente a religião. Um pode abordar os problemas sociais, mas relaciona-os com questões morais e espirituais, o outro concentra-se sobretudo nas relações económicas, nas classes sociais e na exploração. O Cristianismo dá relevo a princípios como amor ao próximo, caridade e justiça, o Marxismo defende a luta de classes e a transformação das estruturas económicas e sociais.
Em poucas palavras, a principal aproximação encontra-se no plano social, nomeadamente, a preocupação com os pobres, a justiça e a partilha, enquanto o principal afastamento está no plano religioso e filosófico, em que a transcendência e espiritualidade cristãs se opõem ao materialismo do Marxismo.
Cristianismo versus Positivismo
Entre o Cristianismo e o Positivismo há, igualmente, semelhanças e diferenças. Ambos procuram contribuir para uma sociedade mais organizada e harmoniosa. Uma e outra dão importância à união e à cooperação entre as pessoas e consideram importantes certos princípios morais para orientar o comportamento humano.
Relativamente às diferenças, o Cristianismo fundamenta-se na fé em Deus e em Jesus Cristo, o Positivismo rejeita explicações sobrenaturais como fundamento do conhecimento científico. O Cristianismo aceita a fé e a revelação religiosa, o Positivismo considera que o conhecimento válido sobre o mundo deve basear-se na observação, nos factos e no método científico. Um admite uma realidade espiritual e divina, o outro procura explicar os fenómenos através de leis científicas. Finalmente, o Cristianismo procura orientar a relação do ser humano com Deus e a salvação da alma, o Positivismo procura, sobretudo, compreender e organizar a sociedade em termos racionais.
NOTAS:
Humanismo foi um movimento intelectual e cultural que marcou a transição da Idade Média para a Idade Moderna, com início formal em meados do século XIV, tendo o seu auge durante o Renascimento. Nasceu em Itália, na região da Toscana, no pensamento do poeta e filólogo italiano Francesco Petrarca (1304-1374), considerado o "Pai do Humanismo". A sua principal característica foi colocar o ser humano e a razão no centro das decisões (Antropocentrismo), rompendo com o Teocentrismo medieval. Inspirados pela Antiguidade Clássica, os humanistas valorizavam o estudo da filosofia, das artes e das ciências gregas e romanas. O Humanismo promoveu o pensamento crítico e o livre-arbítrio, defendendo que o homem é capaz de moldar o seu próprio destino. Além disso, impulsionou uma grande renovação literária e educacional, espalhada rapidamente pela Europa graças à invenção da imprensa.
Marxismo é uma doutrina filosófica, económica e política desenvolvida no século XIX, tendo por principais protagonistas os alemães Karl Marx (1818-1883) e Friedrich Engels (1820-1895), principalmente, entre 1845 e 1846, na obra A Ideologia Alemã. Defende que a história das sociedades é marcada pela luta entre classes sociais, com interesses económicos diferentes. Marx criticava o capitalismo por considerar que os trabalhadores produzem riqueza, mas recebem apenas parte do valor que criam. O marxismo propõe a superação da propriedade privada, dos meios de produção e das divisões de classe. Teve grande influência em movimentos operários, partidos políticos e revoluções ao longo dos séculos XIX e XX.
Materialismo é uma corrente filosófica que afirma que a matéria é a realidade primeira e o fundamento de tudo o que existe no Universo, rejeitando princípios espirituais ou imateriais. Tem raízes na Grécia Antiga no século V a.C. com os filósofos Demócrito e Leucipo (teoria do atomismo). O termo "materialismo" foi introduzido, em 1702, filósofo matemático alemão Gottfried Leibniz (1646-1716).
Positivismo é uma corrente filosófica surgida no século XIX, no pensamento do francês Auguste Comte (1798-1867). Defende que o conhecimento verdadeiro deve basear-se na observação e experimentação científicas. Rejeita as narrativas religiosas e metafísicas. Para os seus seguidores, a sociedade pode ser estudada através de métodos científicos. O positivismo contribuiu para o desenvolvimento da Sociologia como ciência. Teve grande influência no pensamento científico, político e social dos séculos XIX e XX.
A. Galopim de Carvalho
sábado, 3 de outubro de 2026
ENSINAR A CURIOSIDADE
Quando somos crianças, acontece, por vezes, sermos repreendidos, com uma frase: "não sejas curioso!". Parece que "ser curioso" é mau, é falta de educação, é um defeito a ser corrigido.
Será sempre assim?
Vejamos:
Curiosidade do latim curiositas, curiositatis (do acusativo curiositatem com a queda do -m final e a passagem da consoante dental t a d — curiosidade ).
Da raiz de cura, que significa "cuidado", e do verbo curare "cuidar / ocupar-se de" aplica-se também aos cuidados do corpo, por isso, "tratar uma doença", "cuidar de alguém", curar.
Assim, o adjectivo curiosus significa "cuidadoso", "dedicado", "atento".
Daí ser usado também para o trabalho do espírito, o trabalho intelectual; o curiosus é o que se dedica à investigação, o que tem desejo de saber.
Então, se a palavra curiosidade, em sentido pejorativo, significa "bisbilhotice", "indiscrição", ela é também sinónimo de desejo de saber, de conhecer, de gosto pela investigação, de procura do conhecimento.
Logo, podemos perguntar:
Não será esse o papel da escola, do professor? Despertar o gosto pelo conhecimento, pelo saber, pela investigação, ensinar a curiosidade?
Porque a curiosidade não nasce connosco, aprende-se, por isso se pode, e deve, ensinar.
Ensinemos a curiosidade — é o título de um artigo de opinião da autoria de Pedro Norton, no jornal Público do passado dia 14 de Julho de 2026 (aqui).
Pretende o autor mostrar como a curiosidade é o motor do conhecimento, é a
"... vontade de tudo aprender ... o saber pelo saber ... o aprender pelo aprender ... o trabalho infinito de perseguir meadas sem fio ... a vontade tão maravilhosa como quimérica de buscar o saber universal e de o capturar num livro, numa enciclopédia ou numa biblioteca.
Dir-se-á que este tipo de curiosidade irrefreada é uma forma de loucura mansa. Pois eu ouso discordar. A curiosidade é, de certa forma, a fundação de todos os saberes. A curiosidade é a linha improvável que une o fascínio pela Arte ao fascínio pela História, o fascínio pela Astronomia ao fascínio pela Literatura. A curiosidade é a pré-condição para o conhecimento."
E apresenta exemplos:
"Plínio, o Velho, almirante da frota de Miseno, morreu de curiosidade no ano 79 da nossa era. Talvez seja útil explicar melhor. Autor, filósofo, comandante militar, naturalista, Plínio vivia a uma distância razoável de Pompeia quando se iniciou a erupção do Vesúvio. E não terá pensado duas vezes. Mandou preparar uma pequena embarcação de nove homens e fez-se ao mar com a intenção de estudar e registar de perto e com todo o rigor científico um fenómeno natural a todos os títulos excecional. Para um naturalista, a tentação era irresistível. Irresistível e fatal, acrescento. Segundo nos conta Plínio, o Jovem, seu sobrinho, terá sido surpreendido por uma gigantesca nuvem de cinzas e gases vulcânicos que acabariam por ditar a sua morte. Não sei se a curiosidade matou o gato, mas parece facto assente que terá sido responsável pela morte de Plínio.
Paradoxalmente, se é certo que Plínio deve a morte à sua insaciável curiosidade, também parece inegável que foi graças a esta que ganhou a imortalidade. Ou não fosse ele o autor da Naturalis Historia, uma enorme enciclopédia de 37 volumes, que sobreviveu até hoje e que tinha a ambição, nada mais, nada menos, do que reunir numa única obra todo o conhecimento até então disponível. Da astronomia à arte, passando pela zoologia, pela botânica, pela geologia ou pela mineralogia.
E a verdade é que é difícil menorizar a influência desta História Natural, filha dileta da insaciável curiosidade de Plínio.
Dela se diz, por exemplo, ter servido de inspiração às Vidas dos Mais Excelentes Pintores, Escultores e Arquitetos, que Vasari haveria de escrever 15 séculos depois.
... dois séculos depois de Vasari, 17 passados depois da curiosa morte de Plínio, Diderot e D’Alembert, igualmente insaciáveis de curiosidade, almejaram também reunir todo o conhecimento do Mundo. A sua celebrada Encyclopédie não é senão a materialização dessa imensa voragem e desse gigantesco desejo de tudo saber.
Sob a batuta dos dois editores trabalharam mais de uma centena de autores, entre os quais se destacam, pasme-se, Voltaire, Rousseau e Montesquieu.
Através da sua correspondência com livreiros ingleses, William Chester Minor* terá tido conhecimento de um pequeno anúncio que fazia apelo a voluntários para colaborar na feitura do Oxford English Dictionary, então dirigido pelo filólogo James Murray. Foi nessa altura que, precisamente movido pela curiosidade, Minor ganhou um lugar neste meu muito singular e discutível panteão. Com acesso irrestrito à sua vasta biblioteca pessoal, ajudado pela viúva do homem que tinha assassinado (que o visitava com frequência para o abastecer de livros), Minor mergulhou de cabeça. Ao longo de dezenas de anos tornar-se-ia um dos principais contribuidores para o Oxford English Dictionary, enviando muitos milhares de citações e exemplos de usos de palavras extraídos do seu espólio de livros antigos.
E termina deste modo:
Numa altura em que a escola parece por vezes perdida num labirinto burocrático e processual, numa altura em que, malgrado os esforços bem-intencionados de muitos, parece bloqueada por forças contraditórias que se anulam e ameaçam fazer perder o sentido último do seu propósito, talvez não seja má ideia regressar a esta ideia simples: ensinemos a curiosidade.
Plínio, Diderot, D’Alembert e Chester Minor, uns mais loucos do que outros é certo, foram tocados, cada um à sua maneira, pelo vírus da curiosidade.
______________________
*Médico cirurgião (1834-1920). Formado na Escola de Medicina de Yale em 1863, foi cirurgião do exército americano durante a Guerra Civil Americana; tendo ficado perturbado pelos horrores a que assistiu, foi internado num hospital psiquiátrico. Num acesso de delírio tinha disparado contra um homem, mas foi considerado inocente devido à sua insanidade. A sua história está documentada no filme de 2019, O Professor e o Louco.
Isaltina Martins
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