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quinta-feira, 22 de abril de 2010

Revista "Filosofia e Ciência"

Informação recebida do Centro de Filosofia da Ciência da Universidade de Lisboa:

O Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa tem o prazer de anunciar a criação da Kairos. Revista de Filosofia & Ciência.

Trata-se de uma revista, com arbitragem científica, orientada para a publicação e difusão de textos (artigos, recensões, traduções…) que problematizem, reflictam e esclareçam as diversas relações entre a filosofia e as ciências.

A data limite das candidaturas de textos para o primeiro número é: 15 Maio 2010

O endereço de recepção de candidaturas de textos é: cfcul@fc.ul.pt

Informação mais detalhada sobre a revista – condições de submissão, estilo, etc. – está disponível em http://kairos.fc.ul.pt

domingo, 22 de fevereiro de 2009

A actualidade do Darwinismo

O António Bracinha Vieira, um dos primeiros investigadores a procurar desenvolver o estudo das bases biológicas do comportamento entre nós, escreveu um belissimo texto de homenagem a Darwin para o Expresso. Publicamos no De Rerum Natura a versão integral, por gentileza do autor.

"No dia 24 de Novembro de 1859 foi lançada a primeira edição do livro de Charles Darwin A origem das espécies por selecção natural. Nele, Darwin formulava a teoria – chamada ‘darwinismo’ por Alfred Russel Wallace, que de modo independente também a descobrira – segundo a qual as espécies evoluem a partir de um antepassado comum por efeito da selecção exercida pelo ambiente favorecendo reprodutivamente os indivíduos melhor adaptados. Construíra esta teoria após longa e atenta reflexão, a partir de factos observados durante a sua viagem a bordo do Beagle. Grande parte da comunidade científica reconheceu desde logo os fundamentos sólidos do darwinismo e Darwin obteve a consagração em vida.


Hoje, os que se opõem à teoria da evolução não se baseiam em fundamentos científicos mas em preconceitos. O que mais fortifica a teoria selectiva é a sucessiva refutação de todas as teorias competidoras: mesmo os trabalhos de ilustres investigadores anti-evolucionistas (Pasteur, von Baer, von Uexküll, T.H. Morgan, entre outros) acabaram por lhe trazer firmes e renovados argumentos. Mas a posição do Homem na natureza sempre provocou um campo de forças deformante da realidade, propício a manipulações ideológicas e religiosas da ciência, suscitando assaltos premeditados à lógica da investigação e da interpretação dos dados. O sistema de crenças interfere então com o de provas, espalhando uma atmosfera de obscuridade. Na última página da Origem das espécies, Darwin escrevera: «Muita luz será lançada sobre a origem do Homem e a sua história». Esta frase foi suprimida na primeira edição alemã da obra!

Decorrido um século e meio sobre o aparecimento deste livro, o preconceito continua a guiar os que recusam a evolução. Posto que os argumentos inúmeros e convergentes que a comprovam lhe conferem o mesmo grau de credibilidade que à órbita heliocêntrica da Terra, só por ignorância ou má fé é possível hoje rejeitá-la. A evolução não é mais uma simples teoria, mas um imenso programa de investigação que unifica todas as disciplinas da biologia e ciências da natureza: geologia, tectónica de placas, paleoclimatologia, biogeografia, genética, sistemática, anatomia e fisiologia comparadas, embriologia, paleontologia, etologia, biologia molecular, recebem da perspectiva evolucionista justificação mútua dos seus saberes. Estas disciplinas, que tinham crescido em separado, encontraram na teoria sintética da evolução (assim chamada pelo seu poder integrador dos conhecimentos) um eixo organizador que as reuniu, como aos ramos de uma árvore, numa totalidade coerente. Desde Darwin, não houve em biologia nem ruptura nem crise científica (no sentido do célebre filósofo da ciência Thomas Kuhn), antes clarificação de uma imensa constelação de fenómenos através da mesma matriz disciplinar.

Supusera Leibniz que a manus emmendatrix (a mão providencial) de Deus resolvia os erros que surgissem na construção do mundo. Oposta é a natureza do processo evolutivo: a partir de erros de replicação genética chamados mutações aumenta a diversidade sobre a qual vai operar a selecção natural. O processo evolutivo joga-se em dois tempos: a recombinação genética, aleatória; e a triagem dos organismos (fenótipos) resultantes. A estes dois lances encadeados chamou Jacques Monod «o acaso e a necessidade». Do seu resultado, obtido em interacção com o meio, provêm os indivíduos, sempre diferentes, de cada espécie. A teoria sintética da evolução, proposta em 1942 por Julian Huxley, a que se seguiram os contributos de Mayr e Dobzhanski, incorporou a genética no processo evolutivo e clarificou vastos domínios de todas as ciências geográfico-naturais. Decerto que alguns importantes fenómenos permanecem em parte inexplicados (mas não inexplicáveis) pelo darwinismo e aguardam futura investigação: essa é a condição da ciência.


A biologia molecular, última das disciplinas biológicas a entrar em cena, completou a demonstração da homologia (origem a partir de um antepassado comum) de todos os seres vivos. Desde as formas mais elementares às mais complexas, todas têm um código genético nos mesmos moldes do dos vertebrados, provando a unidade da frondosa árvore dos seres viventes. A engenharia genética permitiu passar genes de uns organismos para outros, p. ex. genes humanos para bactérias de modo a que produzam insulina humana. E os níveis de homologia (incluindo os cérebros) de todos os vertebrados, mamíferos e, mais intimamente ainda, primatas, levam a que se ensaiem com eficácia os medicamentos destinados a seres humanos – incluindo os psicofármacos – em ratos e chimpanzés (hoje felizmente protegidos por legislação da UE), provando-se o que é óbvio: no primeiro caso, a estrutura semelhante e permutável dos genomas entre espécies tão distantes como homens e bactérias; no segundo, a semelhança biológica profunda entre os mamíferos.

No limite, é possível obter embriões híbridos, por exemplo humanos e não-humanos. Como, sendo assim, excluir uma comum matriz de origem? Encontramo-nos inseridos na radiação da vida, sendo parentes mais ou menos próximos de todos os seres vivos, actuais ou extintos. A nossa presença na biosfera é casual e recente, puro acidente decorrendo do ‘oportunismo insensível da evolução’ de que falava Dobzhanski. O ‘relógio molecular’, hoje minuciosamente calibrado, mostrou que a origem de Homo sapiens ascende a cerca de 200.000 anos, tempo breve em termos de idade geológica. Por isso, a espécie humana actual (porque houve outras que a precederam, hoje extintas) mantém grande homogeneidade genética, não tendo decorrido tempo suficiente para a formação de raças humanas, conceito hoje destituído de valor operacional em ciência (apesar das variações exteriores de aspecto fenotípico). Não temos o monopólio da inteligência, do uso intencional de ferramentas, nem sequer da linguagem.

O desenvolvimento embrionário, provou August Weismann, repete em traços gerais a história natural dos antepassados. Assim se retêm traços e características que perderam função mas, não sendo contra-adaptativos, persistem. É o caso da cauda, funcional em muitos primatas não-humanos e ausente nos antropóides, genética e evolutivamente muito afins conosco. Estes animais (gibões, siamang, orangotangos, gorila, chimpanzés, bonobo) e o Homem não têm cauda livre: mas as vértebras caudais fundiram-se num órgão residual, o cóccix, onde a configuração vertebral é bem visível. Pertence à categoria dos órgãos vestigiais que, persistindo por inércia filogenética, revelam estruturas do passado evolutivo. De longe em longe nascem mesmo crianças com cauda livre, rara e interessante anomalia reversiva que uma redundância genética actualiza. Também o núcleo inato do comportamento, que evolui por selecção natural, conserva traços arcaicos: um recém-nascido humano prematuro agarra-se firmemente com mãos e pés a um fio horizontal do qual pode suspender o peso do próprio corpo, num reflexo de preensão provindo de antepassados arborícolas.

Críticos mal avisados afirmaram não ser possível presenciar a selecção natural em acção. Enganam-se. Não poderão ver o que decorre nos tempos geológicos (como não verão o movimento dos ponteiros dos minutos e horas nos relógios, sem duvidarem de que se movem). Mas podem testemunhar, no tempo das suas vidas, efeitos selectivos. No caso da malária, grave doença humana, o vector (mosquito) transporta o agente (plasmódio) ao hospedeiro (Homem). Em cada um dos três vértices deste triângulo se exerce a selecção. Os plasmódios seleccionam sucessivamente estirpes resistentes aos novos anti-maláricos descobertos; os mosquitos seleccionam estirpes imunes a renovados insecticidas; e as populações humanas nas áreas endémicas seleccionam e fixam formas de hemoglobina (como a hemoglobina s, regida por um só par de alelos) que o plasmódio não digere e por isso protegem da doença. A área de distribuição da hemoglobina s coincide rigorosamente com a faixa de repartição da malária em África, na Ásia, Insulíndia e Américas Central e do Sul. Mas, sendo a heterozigose adaptativa nestas regiões, a homozigose comporta riscos, e nos EUA, país ao qual os descendentes de escravos negros levaram os genes mutantes, a percentagem destes reduz-se a cada geração, por não haver já malária e os custos da hemoglobina s serem ali superiores aos benefícios.

Enquanto os detractores religiosos do pensamento evolucionista tentam denegá-lo, voltando ao que parece inconcebível – um cenário criacionista para os seres vivos! – no domínio das ‘ideologias progressistas’ permanece uma nostalgia das ideias de Lamarck, de uma evolução orientada tendo o Homem por alvo e objectivo final e pressupondo a hereditariedade de traços adquiridos. Assim, através de endoutrinação as ‘vanguardas revolucionárias’ imprimiriam o seu cunho a um ‘processo histórico’, mudando a sociedade em poucas gerações e conduzindo-a a um destino optimista. Por seu lado, correntes cristãs de obediência papal tentam reabilitar modelos evolutivos vitalistas e finalistas, como o do jesuíta Teilhard de Chardin. Num hemiciclo imaginário onde as convicções ideológicas fossem cotejadas com as ideias sobre a origem das espécies, a extrema direita seria hoje ocupada por cristãos fundamentalistas de convicção fixista e neocriacionista, por um grupo menos radical de orientação vitalista, e também por alguns evolucionistas ateus, eventualmente racistas, defendendo um determinismo genético da evolução; enquanto a chamada ala esquerda se repartiria entre evolucionistas variacionais sem crença religiosa (darwinistas) e evolucionistas transformacionais (neo-lamarckistas) ligados ainda ao marxismo histórico.

Ideólogos e fanáticos religiosos procuram na natureza caução para os seus dogmas: por isso censuram, deformam ou manipulam a teoria da evolução. Num momento em que o preconceito se eleva como uma tempestade e uma vaga de irracionalidade desaba a contagiar a multidão, justifica-se um comentário sobre o alcance da obra de Darwin e suas consequências. Se nalguns países o ensino do darwinismo fosse nivelado com o de modelos obscurantistas (fixistas, neo-creacionistas, vitalistas), então a História seria uma aventura falhada, negando as ideias que lhe serviram de fundamento. E Homo sapiens, assim denominado por Carl von Linné (que ao arrumá-lo junto com os outros antropóides já acedia à ideia implícita de evolução), antes mereceria o nome específico de Homo stupidus (espécie conjectural proposta e assim denominada por Ernst Haeckel, poucos anos após o aparecimento da Origem das espécies).

Porque evoluem as formas vivas? Porque a Terra não é estática: o meio-ambiente está em modificação contínua – deriva continental, clima, solos, vegetação, recursos alimentares, predadores e presas, parasitas e simbiontes – e, sem evolução, a breve prazo os elementos de cada população de cada espécie estariam inadaptados. Assim, encontramos Darwin como a figura decisiva que divide a história da biologia em duas épocas e em duas vertentes, uma de sombra e outra de luz. Ernst Mayr, grande teórico da evolução, escreveu recentemente: «Os argumentos [contra o darwinismo] baseiam-se numa tal ignorância da biologia evolucionista que não vale sequer a pena referir os escritos que os contêm. (...) Os princípios básicos do darwinismo estão mais firmemente estabelecidos do que nunca.» Eis como a biologia, após a síntese evolucionista – e ao contrário da física, dividida ainda entre as teorias da relatividade geral e da mecânica quântica – se tornou numa ciência exemplar, integrada em torno de uma teoria central unificadora capaz de dirigir e aprofundar a investigação em todas as frentes. "

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

CAFÉ COM FILOSOFIA: DARWIN E A ILUSÃO DO HUMANO


Informação recebida da Associação de Professores de Filosofia:

A Associação de Professores Filosofia (APF) tem realizado nos últimos anos várias séries de Cafés com Filosofia que pretenderam, de modo informal e convivial, debater temas filosóficos sortidos e que, em cada momento e circunstância, considerámos pertinentes.

Dando continuidade a esta iniciativa, e associando-nos modestamente às comemorações do bicentenário do nascimento de Charles Darwin e dos 150 anos da publicação da obra A Origem das Espécies, a APF irá promover na livraria Almedina Estádio Cidade de Coimbra, dia 12 de Fevereiro pelas 21.00, um Café com Filosofia intitulado Darwin e a Ilusão do Humano. Serão nossos convidados Ana Leonor Pereira, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Manuela Alvarez, professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Coimbra e Pedro Ricardo Fonseca, bolseiro da Fundação para a Ciência e Tecnologia.

Texto para motivar a discussão:
"No seu livro A Ideia Perigosa de Darwin, o filósofo Daniel Dennett escreveu que «se tivesse de atribuir um prémio à melhor ideia de sempre, o vencedor seria Darwin, à frente de Newton, de Einstein e de todos os demais». Em boa verdade, alguns exaltam os seus valores epistémicos intrínsecos – eficácia preditiva, coerência e consistência, generatividade, poder unificador –, que consagraram o sucesso evolutivo da sua teoria na luta competitiva da «selecção natural das hipóteses» e das teorias (Popper). Outros, porém, fascinados narcisicamente pela singularidade do humano, demasiado humano, ressentiram-se da perda do protagonismo antropoteológico na história da vida contada pela Teoria da Evolução e clamam por justiça – humana, divina, epistemológica. A Ideia Perigosa de Darwin: o que vale? Que futuro?"

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

O PROGRESSO SEGUNDO SPENCER


Uma vez que há uma vida real para além da vida virtual é-me praticamente impossível comentar os comentários, embora alguns sejam bons e mereçam comentários. Perguntou-me o leitor Américo Tavares, a propósito de um post sobre uma frase do naturalista oitocentista português Francisco de Arruda Furtado, qual era o significado de progresso. Também não tive tempo de ir cotejar a fonte original com outros escritos do mesmo autor. Mas um autor extraordinariamente influente na época, o filósofo inglês Herbert Spencer (na imagem), tem um pequeno livro precisamente sobre esse tema ("Do Progresso. Sua Lei e Sua Causa", Editorial Inquérito, Lisboa, 1939, tradução e prefácio de Eduardo Salgueiro) onde logo de início define progresso. Deste modo:
"Está fora de qualquer discussão o facto de o progresso orgânico consistir na passagem do homogéneo para o heterogéneo.

Assim, propomo-nos demonstrar, em primeiro lugar, que esta lei do progresso orgânico é a lei de todo o progresso; quer se trate das transformações da terra, do desenvolvimento da vida à sua superfície ou do desenvolvimento das instituições políticas, da indústria, do comércio, da língua, da literatura, da ciência, da arte, dá-se sempre a mesma evolução do simples para o complexo, mediante sucessivas diferenciações. Desde as mais remotas transformações cósmicas, de que ainda existem sinais, até aos mais recentes resultados da civilização, vê-se que o progresso consiste essencialmente na passagem do homogéneo para o heterogéneo."
O sublinhado é meu. Dado o facto de o evolucionismo ter entrado na esfera cultural em Portugal graças a Haeckel e a Spencer, talvez fosse esta a ideia de progresso para Arruda Furtado (o ensaio de Spencer, que ainda se apanha barato numa feira do livro e que está em texto integral na Net, incluindo a tradução portuguesa, data de 1857, portanto dois anos antes da "Origem das Espécies"). A generalização de Spencer do orgânico para o social é perigosa. Como é bem sabido, Spencer é o responsável por alguns "desvios" do darwinismo como o darwinismo social, com a ideia da "sobrevivência dos mais aptos".

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Teoria e observação na SEP

A Stanford Encyclopedia of Philosophy acaba de publicar um novo artigo sobre teoria e observação na ciência, de Jim Bogen. Poderá ser do interesse de alguns leitores deste blog, tanto cientistas quanto outros leitores interessados em ciência.

O problema filosófico fundamental é saber qual é exactamente a relação entre a observação e a teoria, em ciências como a física ou a biologia. Ao contrário do verificacionismo ingénuo que muitas pessoas sustentam, não há uma relação directa, pois praticamente qualquer teoria pode ser sustentada face a quaisquer observações que aparentemente a refutam, mudando ligeiramente certos aspectos inessenciais da teoria.

Esta banalidade lógica gera muita parvoíce, como a que constantemente nos infecta este blog: o nosso criacionista de serviço, que raia a loucura e cujos comentários tenho tido o gozo de apagar nos últimos dias, argumenta sistematicamente com base na ideia de que é possível compatibilizar o criacionismo judaico-medieval com as observações aparentemente recalcitrantes. E é. Só que isso não basta para ser racional sustentar uma dada teoria. Saber o que basta ou não é o tema do artigo. 

domingo, 7 de dezembro de 2008

CONSENSO EM CIÊNCIA

Com a devida vénia, publicamos o texto de João Miranda que saiu no "Diário de Notícias" de sábado passado:

O aquecimento global tornou-se numa questão política incontornável. Os ambientalistas alegam que existe um consenso científico sobre o assunto. No entanto, "consenso" não é um critério científico mas sim um critério político. O método científico não é um processo democrático em que a voz da maioria conta mais que a voz da minoria. O processo científico é um processo adversarial de descoberta da verdade em que o que conta é a qualidade dos argumentos e dos resultados experimentais.

David Hume mostrou que não é possível provar teorias gerais sobre a realidade por métodos empíricos. Esta ideia de Hume limita aquilo que o método científico pode fazer. O método científico não permite confirmar as teorias que são verdadeiras. Permite apenas rejeitar as teorias que são falsas. Como Karl Popper explicou, o método científico é uma sucessão de conjecturas e refutações. A fiabilidade de uma teoria é tanto maior quanto maior for o esforço para a refutar.

A fiabilidade do processo científico depende da integridade dos processos sociais que produzem ciência. Estes processos sociais são frequentemente deturpados pelas preferências políticas das agências de financiamento e dos próprios cientistas. Os ambientalistas tentam condicionar o processo científico através da alegação de que existe um consenso científico sobre aquecimento global. Na realidade, esta alegação pode ser um indício de que o processo científico está bloqueado. Quando existe consenso, ninguém está a participar no processo de refutação. O processo científico está morto.

Nos últimos anos, os ambientalistas mais radicais têm centrado a sua atenção nos cientistas que contestam as ideias dominantes sobre o aquecimento global. Chamam-lhes "negacionistas", por analogia com os neonazis que negam o Holocausto. Trata-se de um termo ofensivo que visa denegrir o cepticismo. Os cépticos são os heróis do processo científico. Apesar dos custos pessoais e profissionais, asseguram o processo de refutação sem o qual não existe actividade científica.

João Miranda

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Orgasmo feminino, evolução e política

Stephen Crowley publicou na NDPR uma recensão do prometedor livro de Elisabeth A. Lloyd, uma das principais filósofas da ciência e da biologia, intitulado Science, Politics, and Evolution (Cambridge University Press, 2008, 301 pp.)

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Filosofia das artes e das ciências


O Carlos chamou a atenção para um livro apetitoso de Maria Helena Santana, e citou passagens que me parecem muito interessantes, por duas razões.

Primeiro, porque a autora parece identificar a ciência com a verificação. Efectivamente, muitas pessoas têm uma noção verificacionista da ciência; não sei se é o caso da Helena. Esta concepção de ciência, penso, está errada e quem o demonstrou foram precisamente os verificacionistas: os positivistas lógicos. Uma concepção diferente da natureza da ciência encontra-se no capítulo com o mesmo título do livro A Última Palavra, de Thomas Nagel. Concordo com o autor que o que conta na ciência e faz dela ciência não é a verificação, mas a justificação — e a justificação por via da verificação é apenas uma das modalidades da justificação.

Segundo, a Helena parece defender que a literatura ou as artes são contribuições significativas para o nosso conhecimento das coisas. Discordo desta ideia; a literatura e as artes dão-nos apenas um conhecimento aprofundado de coisas como estruturas narrativas, cores, formas, estruturas sonoras, etc. Não encontro na arte quaisquer ideias sofisticadas sobre assuntos como o sentido da vida, a natureza da realidade ou do pensamento, a existência de Deus, etc. A ideia de que há insights fundamentais nas artes sobre estes temas parece-me insustentável.

A posição da Helena parece exprimir uma concepção filosófica interessante da arte: a ideia de que o valor da arte tem de residir no seu contributo cognitivo geral. Isto parece-me insustentável. A arte pode ter valor por outras razões que não as estritamente cognitivas, e mesmo que tenha valor cognitivo, pode ser sobre aspectos muito delimitados da realidade, com os que referi. Ninguém verdadeiramente interessado num qualquer problema relativo à realidade ou ao nosso conhecimento dela fica a saber grande coisa lendo literatura, poesia ou vendo pinturas ou ouvindo música. E por que haveriam as artes de ter de dizer coisas interessantes sobre estes temas?

Note-se que seria na verdade muitíssimo surpreendente que um romancista, um pintor ou um músico pudesse realmente ter qualquer coisa de sofisticado para dizer sobre estes temas, dado que não os estuda sistematicamente como um filósofo ou um cientista. Só a ideia romântica de que os artistas têm um acesso privilegiado à verdade porque foram tocados pelos deuses pode sustentar a ideia de que se encontra na poesia ou na pintura algo de sofisticado sobre a natureza da realidade ou do conhecimento ou qualquer outro tema cognitivamente alheio aos próprios materiais da arte (cores, formas, sons, ritmos, narrativas, etc.). Isto parece concordar aliás com a prática das pessoas, que aparentemente não vão ler romances, ouvir música ou ver pinturas para descobrir se há deuses, qual é a origem do universo ou qual é o caminho da felicidade, mas fundamentalmente para terem um certo tipo de fruição estética que parece ter valor em si, independentemente de as artes terem ou não qualquer papel cognitivo amplo. Penso que esta fruição estética envolve aspectos cognitivos relacionados com o conhecimento de formas, sons, narrativas, etc., mas apenas nesse aspecto há cognição na fruição da arte. 

Sobre este e outros temas da filosofia da arte, vale a pena ler este livro.

sábado, 4 de outubro de 2008

Filosofia da ciência


The Routledge Companion to the Philosophy of Science, org. por Stathis Psillos e Martin Curd. Routledge, 2008, 656 pp.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Ciência e pseudociência

Um dos problemas da filosofia da ciência é a demarcação entre ciência e pseudociência. A SEP acaba de publicar um novo artigo sobre o tema, de Sven Oven Hansson. Aqui.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

"A Natureza e os Gregos"


Erwin Rudolf Josef Alexander Schrödinger, prémio Nobel da Física em 1933 é, como se sabe, um dos maiores representantes da Teoria Quântica.

À semelhança de outros grandes físicos, matemáticos e químicos do século vinte, com a passagem dos anos, e a par do intenso trabalho científico que desenvolvia, interessou-se progressiva e genuinamente pela origem do conhecimento, pela sua validade e implicações, pela sua evolução… Assim, com a cautela de um jovem estudante, revisitou os Gregos, onde tudo começou.

Dessa incursão decorreram duas conferências que proferiu em finais dos anos quarenta e que estão reunidas num livro intitulado A Natureza e os Gregos, publicado no início dos anos cinquenta, a que a Palmira já se referiu neste blogue.

Apesar de seis décadas nos separarem dessas conferências, a sua actualidade permanece, no que respeita às questões que Schrödinger levantou, à maneira como explicou a sua origem e as discutiu, à referência deferente a outros pensadores... Por todas essa razões aqui deixo um extracto da primeira:

“Quando, no início de 1948, realizei uma série de conferências públicas sobre o assunto que aqui abordo, sentia ainda a necessidade premente de as anteceder com vastas explicações e desculpas. O que eu expunha naquela altura e naquele local (isto é, no University College, em Dublin) viria a constituir uma parte do livro que têm à sua frente. Foram acrescentados alguns comentários do ponto de vista da ciência moderna e uma exposição breve daquelas que considero serem as características fundamentais e peculiares da actual perspectiva científica mundial. Provar que essas características são produzidas historicamente e traçar o seu percurso até à fase primitiva do pensamento filosófico ocidental, era o meu verdadeiro objectivo ao abordar e discutir esta última fase. Contudo (…) sentia-me pouco à vontade, particularmente porque essas conferências surgiram como resultado dos meus deveres oficiais como professor de física teórica. Havia a necessidade de explicar (apesar de eu próprio não estar convencido disso) que ao dedicar-me aos relatos sobre os antigos pensadores gregos e aos comentários acerca das suas opiniões eu não estava simplesmente a desenvolver um passatempo pessoal, recentemente adquirido; isto não significava do ponto de vista profissional, uma perda de tempo, que deveria ser relegada para as horas de lazer; que isso se justificava pela esperança de conseguir vir a ganhar algo mais para a compreensão da ciência moderna, e assim, inter alia, também para a compreensão da física moderna.

Alguns meses mais tarde, em Maio, quando discorria acerca do mesmo tópico no University College, em Londres (Conferências Shearman, 1948), já me sentia bastante mais seguro. Apesar de no princípio me sentir apoiado principalmente por académicos eminentes e dedicados ao estudo da Antiguidade, como Theodor Gomperz, John Burnet, Cyril Bailey, Benjamim Farrington (…), depressa tomei consciência de que não foram o acaso nem a predilecção pessoal que me fizeram mergulhar na história do pensamento de há vinte séculos mais profundamente do que outros cientistas tinham feito, mas sim a reacção ao exemplo e à exortação de Ernst Mach. Longe de seguir um estranho interesse pessoal, eu tinha sido involuntariamente arrastado, como por vezes acontece, por uma tendência de pensamento enraizado, de alguma forma, na situação intelectual da nossa época. De facto, durante o curto período de um a dois anos tinham sido publicadas várias obras, cujos autores não eram estudiosos dos clássicos, mas pessoas interessadas prioritariamente no conhecimento científico e filosófico da actualidade; todavia todos eles tinham dedicado uma parte bastante substancial do trabalho académico (…) à exposição e à descoberta das raízes primitivas do pensamento moderno em obras da Antiguidade.

Havia a póstuma Growth of Physical Science, do falecido Sir James Jeans, astrónomo e físico eminente (…). Havia a maravilhosa Histpry of Western Philosophy, de Bertrand Russell, cujos méritos não necessito, nem aqui posso, referir como merece: permitam-me que recorde simplesmente que Bertrand Russell regista na sua brilhante carreira o facto de ser o filósofo da matemática moderna e da lógica matemática. Cerca de um terço de cada uma destas obras trata de aspectos de Antiguidade. Uma obra agradável e de âmbito semelhante, intitulada The Birth of Science, foi-me enviada praticamente pela mesma altura de Innsbruck, pelo seu autor Anton von Morl, que não é um estudioso da Antiguidade, nem da ciência ou da filosofia; teve a infelicidade de ocupar o cargo de Chefe da Polícia do Tirol, na altura em que Hitler invadiu a Áustria (…)

Ora, se tenho razão ao dizer que esta é uma tendência geral da nossa época, podem naturalmente levantar-se algumas questões: como é que surgiu, quais foram as suas causas e o que é que significa realmente? Essas questões dificilmente podem ser respondidas de forma exaustiva, mesmo quando a tendência de pensamento que se analisa remonta a um período da história que já nos permitiu adquirir uma perspectiva equilibrada da globalidade da situação humana dessa época (…)

Acredito que (…) existem duas circunstâncias que poderão servir como explicação parcial para a tendência fortemente retrospectiva dos que se preocupam com a história das ideias: uma refere-se à fase intelectual e emocional em que a humanidade, em geral, entrou nos nossos dias; a outra é a situação invulgarmente crítica em que quase todas as ciências fundamentais se encontram envolvidas de uma forma cada vez mais desconcertante.”

Obra referida:
- Erwin Schrödinger (1999). A Natureza e os Gregos e Ciência e Humanismo. Lisboa: Edições 70.

Imagem retirada de:
http://www.tcd.ie/Physics/Surfaces/images/large_pictures/Schroedinger.jpg

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Filosofia e história da ciência no século XX


Informação recebida da Biblioteca Pública de Évora:

Lançamento do livro: "Filosofia e História da Ciência em Portugal no século XX" de Augusto Fitas, Marcial Rodrigues e Maria de Fátima Nunes.

Dia 19 de Junho de 2008, pelas 18 horas, na Biblioteca Pública de Évora.

A apresentação do livro, edição da Editora Caleidoscópio, estará a cargo do Prof. Doutor Pedro Calafate.

Contactos:
Caleidoscópio - Edição e Artes Gráficas
Rua de Estrasburgo, n.º 26 - R/C Dto.
2605-756 Casal de Cambra
Tel.: 219 817 960 Fax: 219 817 955
www.caleidoscopio.pt

terça-feira, 6 de maio de 2008

Mais um prémio

aqui falei do prémio "Santilli - Galileu" atribuído pela "Santilli - Galilei Association on Scientific Truth" a José Croca, do Centro de Filosofia da Ciência na Universidade de Lisboa. Descobri agora pelo Google que aquela associação publicou aqui uma carta aberta a este blogue, onde, entre outras coisas espantosas, diz que "as to Dr. Croca, I can say that Portugal should be celebrating his birth with a public holiday". Com certeza que não saberão da abundância de feriados e respectivas pontes que há em Portugal... Não vale a pena fazer mais comentários sobre uma associação que, pelo menos ao nível do discurso, parece mais uma seita do que uma organização científica ou, no mínimo, de defesa da ciência.

Desta vez chegou a notícia da atribuição do prémio "FIR 2008" ao mesmo pensador português, atribuído por uma "Federação Internacional Racionalista". Confesso que, como nunca tinha ouvido falar desta associação, tive a curiosidade de ver o que era. Perguntei ao Google, colocando o nome em português. O curioso é que o Google, que costuma saber muita coisa, só dá conta da associação com esse nome para o efeito deste prémio. Nem uma palavra sobre a delegação portuguesa, a sua sede, os seus protagonistas e as suas actividades. Não desistindo pensei que, como o próprio nome indica, se tratava de uma associação internacional, devendo escrever o nome em inglês. Não encontrei nenhuma "International Rationalist Federation" ou variantes. Encontrei, isso sim, aqui a "Rationalist Association", uma associação britânica que tem por objectivo "establishing a system of philosophy and ethics verifiable by experience and independent of all arbitrary assumptions or authority". Descobri finalmente aqui o nome mais parecido com o que procurava: a "Rationalist International", uma associação dirigida pelo indiano Sanal Edamaruku, cujo objectivo é precisamente o indicado. O sítio esclarece que "rationalists counter superstition, aim to promote an open and just society, endorse scientific method". Muito bem! Entre os seus sócios honorários encontram-se personalidades como Richard Dawkins, James Randi, Lewis Wolpert, Richard Leakey, Colin Blakemore, etc., alguns deles também membros da congénere britânica e várias vezes referidos neste blogue. Esta organização tem combatido o obscurantismo e a pseudo-ciência, defendendo a cultura científica. Se se confirmar que foi essa associação que atribuiu o prémio em causa (a dúvida é legítima pois tal não consta do respectivo sítio), José Croca encontra-se desta vez em boa companhia e não podem deixar de lhe ser dados os parabéns.

quarta-feira, 5 de março de 2008

O Cérebro em Lisboa


Informação recebida do Ciência Viva:


Qual o aspecto de um cérebro saudável? Será que mulheres e homens têm cérebros iguais? E haverá diferenças no cérebro de um canhoto? O cérebro está envolvido em processos como o raciocínio, a aprendizagem, a memória e a percepção mas, sob muitos aspectos, continua a ser uma caixinha de surpresas.

De 9 a 16 de Março terá lugar a Semana Internacional do Cérebro, uma iniciativa para divulgar junto do público os progressos e os benefícios da investigação científica na área das neurociências.

Em Portugal, o programa de actividades é organizado pela Sociedade Portuguesa de Neurociências (SPN) em colaboração com a Ciência Viva desde 2005, e conta com a participação de instituições científicas, museus e Centros Ciência Viva, escolas, universidades, unidades de saúde e associações profissionais.

A sessão de abertura da Semana do Cérebro decorre no próximo domingo, dia 9 de Março, a partir das 15h30, no Pavilhão do Conhecimento - Ciência Viva. Neurocientistas e neurologistas debatem com o público o impacto das doenças do cérebro na sociedade. Às 16h00, Ian Regan, do European Brain Council, apresenta o colóquio The Impact of Brain Diseases in Europe.

Durante esta semana, as escolas e o público do Pavilhão do Conhecimento são desafiados a participar no jogo DeCiDe, discutindo questões relevantes sobre neurociências.

Esperamos a sua visita.

Mais informações em www.cienciaviva.pt e www.spn.org.pt

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Algumas grandes ideias por provar

Acredito, mas não posso provar, que a realidade existe independentemente das construções humanas e sociais que dela se fazem. A ciência, como método, e o naturalismo, como filosofia, formam, juntos, a melhor ferramenta de que dispomos para compreender essa realidade”.
(
Michael Shermer, escritor norte-americano e director da revista “Skeptic”)

“É possível viver feliz e respeitando os princípios morais sem acreditar no livre arbítrio. Como disse Samuel Johnson: ‘Toda a teoria está contra a liberdade de vontade; toda a experiência está a seu favor’ ”.
(Susan Blackmore, neurocientista e escritora norte-americana)

“Aquilo em que eu acredito, ambora não possa ainda prová-lo, é que a crença é um processo independemente do conteúdo. Ou seja, as crenças sobre Deus – até ao ponto em que são, de facto, genuínas – são iguais às crenças sobre números, pinguins, tofu ou outra coisa qualquer”.
(Sam Harris, filósofo e escritor norte-americano)

“Acredito, mas não posso provar, que o nosso universo é infinito em tamanho, finito em idade e apenas um entre muitos. Não somente não posso prová-lo, como também acredito que estas afirmações virão a mostrar-se impossíveis de provar, em princípio, e com o tempo acabaremos por considerar que esse princípio é inerentemente evidente”.
(John Barrow, matemático e físico inglês)

“Acredito na crença -. Ou melhor tenho fé em ter fé. No entanto, sou ateu - ou ‘bright’, designação actualmente preferida por alguns. Então como é isto possível? É importante ter fé, mas não necessariamente em Deus. A fé é importante muito para além do mundo da religião: termos fé em nós próprios, noutras pessoas, na existência da verdade e da justiça.”
(Tor Norretranders, escritor dinamarquês)

“Acredito que o universo não é acidental, mas não posso prová-lo”.
(Paul J. Steinhardt, físico norte-americano)

“Aquilo que acredito mas não posso provar é que a física quântica exige que abandonemos a distinção entre informação e realidade”.
(Anton Zeilinger, físico austríaco)

Extractos do livro: John Brockman (coordenação), “Grandes ideias impossíveis de provar”, Tinta da China, Lisboa, 2008, com prefácio de Ian McEwan.

GRANDES IDEIAS IMPOSSÍVEIS DE PROVAR

A expressão “terceira cultura” tem sido muito publicitada pelo empresário cultural e literário norte-americano John Brockman. De facto, a expressão remonta a Lord Snow, o homem de “As duas culturas”, que numa edição posterior do livro com esse título, preconizou o desenvolvimento de uma terceira cultura, que conseguisse precisamente cruzar as culturas literárias e científicas. Mas John Brockman pegou na ideia em 1991. Foi ele quem disse que "Os intelectuais tradicionais norte-americanos são, num certo sentido, cada vez mais reaccionários, e muito frequentemente orgulhosamente (e perversamente) ignorantes de muitas das realizações intelectuais verdadeiramente significativas dos nossos dias”. De então para cá, através da edição de vários livros e de um sítio na Web (“Edge”, activo há mais de dez anos), tem procurado que a voz de vários cientistas contemporâneos – porta-vozes da tal “terceira cultura” - se espalhe, contribuindo para o debate público. Embora perceba e ache louvável a sua intenção – tirar o pensamento científico do “guetto” em que possa estar - tenho alguma dificuldade em concordar com a filosofia desse projecto de uma "terceira via" reservada quase só a cientistas. Estou em crer que cultura há só uma e que, quanto mais diversificada e cruzada ela for, incluindo naturalmente as contribuições da ciência, mais rica e fértil será. Mas é sempre bom ler o resultado dos esforços de Brockman de congregar pensadores de várias disciplinas em volta de temas actuais e de questões desafiadoras.

Com a autoria ou a coordenação de John Brokman foram publicados nos Estados Unidos livros comoBy the Late John Brockman”, Doing Science: The Reality Club”, “Digerati: Encounters with the Cyber Elite”, “The New Humanists: Science at the Edge”, Intelligent Thought: Science Versus the Intelligent Design Movement” e What is your Dangerous Idea?” (este último saído no ano passado). Já tínhamos traduzidos em português europeu “A Terceira Cultura” (um livro seminal do movimento com o mesmo nome, publicado pela Temas e Debates), “Espíritos Curiosos” (na Gradiva, sobre a iniciação na ciência feita por grandes cientistas) e “Os Próximos 50 Anos” (na Esfera do Caos, antecipações do futuro cientificamente fundamentadas), embora haja outros em português do Brasil. Saiu agora em português, numa cuidada edição da Tinta da China, um outro livro coordenado por John Brockman dando mais uma vez voz a cientistas de várias áreas, que aparecem como os “novos intelectuais” portadores das “novas ideias” (receio que haja alguma arrogância aqui, correndo o risco de se manter a ciência no “guetto”). O livro é muito curioso: Brockman pôs cientistas, que andam em geral à procura de provas, a assumir e a falar das suas crenças, precisamente aquilo que aceitam sem provas. A questão concreta, lançada em 2005 pela “Edge” foi:

Por vezes, grandes mentes podem adivinhar a verdade antes de term as provas ou os argumentos para sustentá-la. (Diderot chamava a isso possuior o ‘esprit de divination’). O que é que acredita ser verdade, mesmo sem poder prová-lo?”

Responderam, entre muitos outros, cientistas como o astrónomo real britânico Sir Martin Rees (só há vida inteligente na Terra, mas ela expandir-se-á para longe), o biólogo inglês Richard Dawkins (a evolução funciona aqui e em todo o Universo), o geneticista e empresário norte-americano Craig Venter (a vida é omnipresente no Universo e chegou à Terra vinda de fora), o escritor inglês e prefaciador da obra Ian McEwan (nenhuma parte da consciência sobrevive à morte) e o filósofo norte-americano Daniel Dennett (não há consciência sem linguagem). No post seguinte incluem-se, em discurso directo, outras afirmações de cientistas tão “thought-provoking” como estas.

Do mosaico muito variado de respostas resulta a ideia de uma ciência plural e confrontada com as suas dúvidas e as suas limitações. As dúvidas e os limites sempre foram características da ciência, percebidas e aceites pelos próprios cientistas, mas talvez não sejam marcas bem claras para o grande público. Livros como este ajudam a a interiorizar essas marcas no seio da sociedade. E ajudam a fazer cultura científica, isto é, no meu ponto de vista, a tornar a ciência uma parte cada vez mais relevante da vasta cultura humana. Não interessa tanto que se fale de uma “segunda” ou “terceira” cultura”, mas sim que se fale de cultura.

- John Brockman (coordenação), “Grandes ideias impossíveis de provar”, Tinta da China, Lisboa.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Alguns aforismos do astrofísico Michel Cassé



“O Sol e o olho são feitos da mesma substância. Os átomos do Sol falam aos átomos dos olhos a linguagem da luz e a razão por que vemos reside nesta identidade da natureza entre o detector e o receptor.”

“Os átomos são como violinos. Emitem notas de luz como os instrumentos emitem notas de música.”

“As estrelas desempenham na economia geral do universo o papel de artesão consciente e, além desta obra, a sua própria existência é condição necessária para a diversidade dos átomos.”

“A explosão de uma estrela não é de lastimar, as futuras humanidades sustentam-se nos seus estilhaços e detritos.”

“A morte de uma estrela é a passagem de uma ‘perfeição luminosa’ para uma ‘perfeição obscura’.”

“A criação no sentido teológico é absoluta e para mim o que é absoluto não existe absolutamente.”

“A realidade é essencialmente invisível, e o visível, de alguma forma, irrealista de tão excepcional que é.”

“Nós, os físicos, trepamos uma encosta muito escarpada, cujo cume já está ocupado pelos poetas e pelos matemáticos.”

“A desordem é uma ordem escondida.”

“Existe uma poesia e uma poesia profunda da matemática.”

“A física vai para além da metafísica.”

Fonte: "Filhos do Céu" (com Edgar Morin, Piaget, 2007)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

100 LIVROS DE CULTURA CIENTÍFICA


Em 2003 pediram-me para uma biblioteca uma selecção de 100 livros (cerca de) de cultura científica de autores portugueses. Aqui fica para memória futura. É claro que nos últimos cinco anos se publicaram muitas obras que se poderiam acrescentar.

Critérios de selecção:
- Só há obras de autores portuguesas publicadas em Portugal embora possam ser traduções de obras publicadas no estrangeiro por esses autores
- Procurou-se incluir apenas obras que estejam disponíveis no mercado
- Não se incluem manuais técnicos ou escolares nem livros infantis
- Há um limite de 5 para o número de obras de um só autor (excepção Rómulo de Carvalho)
- Procurou-se contemplar de forma equilibrada as várias ciências. Inclui-se com algum destaque a história, a filosofia e a sociologia da ciência em Portugal.
- A ordem é alfabética da editora, mas não há ordem dentro de cada editora.

AFRONTAMENTO

1. - Maria Manuel Borges, “Da Epistemologia à Biologia”
2. - Maria Manuel Borges, ”As Ciências e Nós”
3 - Eduardo Veloso e José Paulo Viana, “Desafios, Problemas e Histórias da Matemática no Público”, 6 vols.

ALMEDINA

1 - Ana Leonor Pereira, “Darwin em Portugal”

ASA

1. - Luis Portela, “Para Além da Evolução Tecnológica”

BERTRAND

1. - Maria Eduarda Gonçalves (coord.), “Ciência e Democracia”

BIBLIOTECA NACIONAL

1. Pedro Nunes (1502-1578)

CAMPO DAS LETRAS

1- Daniel Duarte de Carvalho, “Albert Einstein e a Experiência do Conhecimento em Física”
2 - João Caraça, “Entre a Ciência e a Consciência”
3- Jorge Massada, “É Difícil ser Cientista?”

CELTA

1- Maria Eduarda Gonçalves (org.), “Cultura Científica e Participação Pública”

COIMBRA EDITORA

1- Sebastião J. Formosinho, “O Imprimatur da Ciência, Das Razões dos Homens e da Natureza na Mudança Científica”

COSMOS

1. - J. Furtado Coelho (coord.), “Matemática e Cultura I”.

CTT

1 - António Estácio dos Reis, “Medir Estrelas”
2 – Máximo Ferreira, “Para a História da Astronomia em Portugal”

DIFEL

1. - J. Moura Ramos e Maria Isabel Barreno, “Sinos do Universo - A Evolução Antes da Vida”

DIFUSÃO CULTURAL

1. - João Joanaz de Melo e Carlos Pimenta, “Ecologia”
2. - João Caraça, “Ciência”

DOM QUIXOTE

1. - Maria Eduarda Gonçalves (org.), “Os Portugueses e a Ciência”
2. - José Mariano Gago, “O Estado das Ciências em Portugal”

EDIÇÕES 70

1. - Maria Eduarda Gonçalves (org.), “Comunidade Científica e Poder”

ESTUDOS CULTURAIS DE MACAU

1. - Francisco Rodrigues, “Jesuitas Portugueses Astrónomos na China”

EUROPA-AMÉRICA

1. - Fernando Carvalho Rodrigues, “As Novas Tecnologias, o Futuro do Império e os Quatro Cavaleiros do Apocalipse”
2. - Fernando Carvalho Rodrigues, “Ontem, um Anjo Disse-me – Diálogos para o Século XXI”
3. - António Damásio, “O Erro de Descartes” (original em inglês)
4. - António Damásio, “O Sentimento de Si” (original em inglês)
5. - Germano da Fonseca Sacarrão, Adaptação e a Invenção do Futuro”,
6. - Germano da Fonseca Sacarrão, “A Biologia do Egoísmo”
7. - Germano da Fonseca Sacarrão, “Biologia e Sociedade”, 2 vols.
8. - Germano da Fonseca Sacarrão, “Ecologia e Biologia do Ambiente”, 2 vols.
9. - A. Amorim da Costa, “Introdução à História e Filosofia das Ciências”

FUNDAÇÃO GLAXO-SMITH-KLINE

1 - Maria Augusta Silva, “Corino de Andrade”.

FUNDAÇÃO GULBENKIAN

1. - João Caraça e J. Moreira Araújo, “Biblioteca Cosmos: um Projecto Cultural do Prof. Bento de Jesus Caraça”
2. - Maria Manuel Jorge, “Biologia, Informação e Conhecimento”
3. - Armando Gibert, “Origens Históricas da Física Moderna”
4. –Pedro Nunes, “Obras. Vol. 1 Tratado da Sphera” (com Academia das Ciências de Lisboa)

GRADIVA

1. - Jorge Dias de Deus, “Ciência, Curiosidade e Maldição”
2. - Sebastião Formosinho, “Nos bastidores da ciência”
3. - Carlos Fiolhais, “Universo, Computadores e Tudo o Resto”
4. - João Lobo Antunes, “Um modo de ser”
5. - João Varela , “O século dos quanta”
6. - António Manuel Baptista, “A Primeira Idade da Ciência
7. - António Manuel Baptista ,”A Ciência no Grande Teatro do Mundo”
8. - Bento de Jesus caraça, “Conceitos Fundamentais de Matemática”
9. - Jorge Dias de Deus, “Viagens no Espaço-tempo”
10. - Jorge Buescu, “O Mistério do Bilhete de Identidade e Outras Histórias”
11. - Carlos Fiolhais, “A Coisa mais Preciosa que Temos”
12. - Jorge Buescu, “Da Falsificação dos Euros aos Pequenos Mundos”
13. - António Amorim, “A Espécie das Origens”
14. - João Magueijo, “Mais Rápido do que a Luz” (original em inglês)
15. - António Manuel Baptista, “Um Discurso Pós-moderno Contra a Ciência”
16. - António Firmino da Costa et al., “Públicos da Ciência em Portugal”
17. - Natália Bebiano da Providência, “Matemática ou Mesas, Cadeiras e Canecas de Cerveja”
18. - Natália Bebiano da Providência, “2 + 2 = 11”
19. - Carlos Roque e Luísa Cruz, “Matemática ao Virar da Esquina”
20. - Carlos Fiolhais, “Física Divertida”
21. - José Mariano Gago, “Manifesto para a Ciência em Portugal”
22. - Nuno Crato et al., “Eclipses”
23. - Nuno Crato, “Zodíaco”
24. - João Lobo Antunes, “Numa Cidade Feliz”
25. - António José Veloso, “Medicina, a Arte e o Ofício”
26. - Jaime Celestino Costa, “Um Certo Conceito de Medicina”
27. - João Lobo Antunes, “Memórias de Nova Iorque e Outros Ensaios”

IMPRENSA NACIONAL

1. - Vários, “Anastácio da Cunha (1744/1787). O Matemático e o Poeta”
2. - Fernando Gil (organização), “Balanço do Século, Ciclo de Conferências Promovido pelo Presidente da República”
3. - Pedro Calafate, “A Ideia da Natureza no Século XVIII em Portugal”
4. - Fernando Gil, “Provas”
5. - António Bracinha Vieira, “Etologia e Ciências Humanas”
6. - Edmund Leach e outros, “A Ciência como Cultura, Colóquio Promovido pelo Presidente da República”
7. - António Brotas, “O Essencial sobre a Teoria da Relatividade”
8. - J. Tiago de Oliveira, “O Essencial sobre a História das Matemáticas em Portugal”

INSTITUTO DE CULTURA E LÍNGUA PORTUGUESA

1. - Rómulo de Carvalho, “A Física Experimental em Portugal no Século XVIII”
2. - Barahona Fernandes, “Egas Moniz, Pioneiro de Descobrimentos Médicos”
3. - Luís de Albuquerque, “Ciência e Experiências nos Descobrimentos Portugueses”
4. - A. M. Amorim da Costa, “Primórdios da Ciência Química em Portugal”
5. - Manuel Sousa Ventura, “Da Vida e Obra de Pedro Nunes”
6. - Rómulo de Carvalho, “A Astronomia em Portugal no Século XVIII,
7. - A.J. Andrade de Gouveia, “Garcia d'Orta e Amado Lusitano na Ciência do seu Tempo”
8. - Rómulo de Carvalho, “A História Natural em Portugal no Século XVIII”

INSTITUTO DAS NOVAS PROFISSÕES

1. - J. Andrade e Silva e G. Lochak, “Quanta , Grãos e Campos” (original francês)

JNICT

1.- “A Ciência e os Descobrimentos”

LIVRARIA LOPES DA SILVA

1. - Franklin Guerra, “História da Engenharia em Portugal”

LIVROS DO BRASIL

1 - Eurico da Fonseca, “A Sociedade do Futuro”

LIVROS HORIZONTE

1. - Luís de Albuquerque, “Para a História da Ciência em Portugal”,
2. - Amilcar Coelho, “Desafio e Reputação, Controvérsia entre António Sérgio e Jesus Caraça sobre a Natureza e Valor da Ciência”

MINERVA-COIMBRA

1- Ana Leonor Pereira e João Rui Pita, “Egas Moniz em Livre Exame”

PLÁTANO

1. - Guilherme de Almeida, “Roteiro do Céu”,
2. - Máximo Ferreira e Guilherme de Almeida, “Introdução à Astronomia e às Observações Astronómicas”

PORTO EDITORA

1- Ana Simões et al. (coord.), “Itinerários Histórico Naturais. José Correia da Serra”
2- José Luís Cardoso (coord.), “Memórias de História Natural”

PRESENÇA

1. - Manuel Maria Carrilho, “A Filosofia das Ciências - De Bacon a Feyeraband”,

QUARTETO

1. - José Manuel Canavarro, “Ciência e Sociedade”
2. - José Manuel Canavarro, “O que se Pensa sobre a ciência”
3. - Alfredo Rasteiro, “O Ensino Médico em Coimbra (1131-2000)”

RELÓGIO D’ÁGUA

1. - Rómulo de Carvalho, “História dos Balões”
2. - Rómulo de Carvalho, “A Física no Dia-a-Dia”
3. - Clara Pinto Correia, “O Ovário de Eva”
4. - Clara Pinto Correia, “Histórias Naturais”
5. - Clara Pinto Correia, “Dodologia”
6. – Hélder Coelho, “Sonho e Razão”

SALAMANDRA

1. - Ana Luísa Janeira, “Fazer-ver para Fazer-saber. Os Museus das Ciências”

TERRAMAR

1. - Raquel Gonçalves, “Ciência, Pós-ciência e Meta-ciência”
2. - Raquel Gonçalves, “Diálogo sobre os Dois Principais Sistemas do Mundo”
3. - Raquel Gonçalves, “Histórias com Sentidos”

UNIVERSIDADE CATÓLICA

1. - Sebastião Formosinho e José Oliveira Branco, “O Brotar da Criação – um Olhar Dinâmico pela Ciência, a Filosofia e a Teologia”

UNIVERSIDADE DO ALGARVE

1. - José Pinto Peixoto, “Entropia e Ainda Entropia”
2. - José Pinto Peixoto, “Alguns Aspectos da Termodinâmica e da Energética dos Seres Vivos”

UNIVERSIDADE AUTÓNOMA DE LISBOA

1. – Miguel Figueira de Faria, “A Imagem Útil”

UNIVERSIDADE DE COIMBRA

1. Rómulo de Carvalho, “História do Gabinete de Física da Universidade de Coimbra”

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

“Ciência” na acepção ampla

O interessante debate que mantive com o professor Ludwig sobre a natureza da ciência produziu frutos. Permitiu esclarecer as coisas. Penso agora que percebo o que tem o Ludwig em mente. Há duas ideias importantes que o Ludwig defende no último post do debate, "Demarcações", com as quais concordo.

A primeira é que há uma acepção de “ciência”, que é até prévia à revolução científica e que corresponde ao sentido de “episteme” usado pelos gregos, segundo a qual a filosofia, a história e outras disciplinas deste género são tão científicas quanto a física ou a matemática.

A segunda ideia, mais importante, todavia, surge no final do post "Demarcações", de Ludwig: segundo ele, nesta acepção lata de ciência, não há métodos pré-definidos que caracterizem a ciência, nem realidade alguma que escape à ciência. A ciência é o estudo epistemicamente virtuoso de tudo. Bom, ele não usa esta expressão, “epistemicamente virtuoso”. Esta expressão quer dizer apenas que se procura realmente a verdade, e não a vindicação das nossas ideias preferidas ou esperanças ou anseios profundos; que se procura evitar o erro; que se estimula a discussão crítica das ideias; que se procura refutá-las. Para realidades diferentes usamos metodologias diferentes. Basicamente, deitamos mão de tudo o que nos puder ajudar a compreender melhor a realidade. Concordo com esta ideia — já a tinha defendido no post “Ciência e Banha da Cobra”.

Não concordo com a ideia de que isto invalide distinções iluminantes entre diferentes ciências (e talvez Ludwig não queira dizer exactamente isto, apesar de o parecer). A matemática ou a lógica, assim como a filosofia, ocupam-se daquela parte (talvez irritante) da realidade que não parece poder ser estudada pela observação, pela medição, pelos métodos empíricos, enfim, que muitas pessoas identificam com a ciência. Isto porque, como no caso do post da Palmira, "Ciência, Pseudociência e Religião", se usa algo enganadoramente o termo “ciência” como abreviatura de “ciência empírica” — o que inclui a física e a biologia, mas também a história e a arqueologia, mas exclui a lógica e a matemática. Um dos traços do cientismo é desconsiderar sistematicamente toda e qualquer estudo da realidade que não seja um estudo empírico, baseado mais ou menos nos mesmos métodos da física, que é tomada como a rainha das ciências. Isto é um disparate; é tomar um aspecto particular dos métodos da física, que funcionam apenas porque se está a estudar determinados aspectos da realidade, como se tal aspecto fosse definidor da ciência, na sua acepção mais ampla.

O aspecto em que ambos concordamos, Ludwig e eu, é muito importante para o debate sobre o obscurantismo, as pseudociências e as formas supersticiosas e mágicas de viver e entender a religião, como é o caso do criacionismo (saber se há formas sofisticadas e intelectualmente defensáveis de viver e entender a religião é em si outro debate — eu penso que não, mas isso é disputável). Isto porque é muito comum os vendedores de banha da cobra defenderem dois tipos de ideias.

Primeiro, que há “outras realidades” que estão para lá dos métodos da ciência. Tomando o termo “ciência” na acepção ampla, não há tal coisa.

Segundo, que há outras metodologias menos “redutoras” do que as da ciência. Uma vez mais, tomando o termo “ciência” na sua acepção ampla não há tal coisa. Porque nessa acepção ampla, “ciência” é apenas a investigação cuidadosa da realidade, nada mais, deitando mão a tudo o que puder ajudar-nos a compreender melhor a realidade. A única razão pela qual não aceitamos videntes, por exemplo, na previsão meteorológica, ou livros sagrados em filosofia, é porque tais coisas não nos permitem compreender melhor a realidade, dado não terem um índice maior de acerto do que dizer a primeira tolice que nos vier à tola.

Daqui segue-se uma regra simples para detectar a banha da cobra intelectual. Se alguém defende uma ideia e começa logo a arranjar conversas complicadas sobre os limites da "racionalidade lógica" ou da "racionalidade científica" ou qualquer outro comentário sobre os termos da discussão que ponha em causa o carácter limitativo de imaginadas "regras" que nós estamos a impor, é porque é uma fraude. Na ciência, na filosofia, na história, na matemática, ninguém impõe regras arbitrárias de argumentação ou prova. Apenas pedimos provas ou argumentos, sejam lá eles quais forem, e a possibilidade de os estudarmos e discutirmos livremente. Nada mais. E isso, na acepção ampla, é a ciência. Só que este é um uso grego do termo, e não moderno -- se falarmos desta maneira, as pessoas vão pensar que estamos a falar apenas de física, biologia e coisas afins, excluindo a história ou a filosofia.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

O que é a ciência?

Respondendo a uma resposta de uma resposta, o Ludwig define assim a ciência:

“Ciência é usar informação para obter descrições correctas e detalhadas.”

Esta definição não parece funcionar por ser demasiado restrita e demasiado lata. Ou seja, por parecer incluir na ciência o que claramente não é ciência e por excluir da ciência o que claramente é ciência. É como definir ser humano como animal racional: há seres humanos que não são racionais porque nascem sem cérebro e se houver seres racionais noutros planetas, eles não serão seres humanos.

É demasiado restrita porque coloca fora da ciência todas as teorias... ah... científicas erradas. A física de Newton não seria ciência, por exemplo, dado não ser uma descrição correcta, apesar de ser uma descrição detalhada. E é demasiado lata porque muitas descrições detalhadas e correctas não são claramente ciência: qualquer armazém de peúgas tem nos seus inventários uma descrição correcta e detalhada das peúgas que tem em armazém, mas não dizemos que o armazenista é um peugólogo.

Além disso, grande parte do que queremos que a ciência nos faça não são meras descrições correctas e detalhadas — são explicações. Na verdade, é com base nas explicações que depois podemos fazer previsões, que são descrições do porvir.

E, finalmente, podemos dizer que a matemática pura é uma descrição correcta e detalhada — mas a diferença crucial é que tais descrições correctas e detalhadas não são descrições correctas e detalhadas do universo espaciotemporal, apesar de podermos usar algumas para descrever o universo espaciotemporal; e não são descrições obtidas empiricamente, por observação, medição, etc.

A ciência não se pode confundir com os resultados da ciência. E seja como for que definamos a ciência, qualquer definição que exclua a matemática do domínio da ciência é o resultado de se estar a definir “ciência empírica” apenas.

Mas posso estar a ser injusto com o Ludwig. Há alguma maneira de fazer a ciência esgotar o domínio da racionalidade, como ele quer? Sim. Vejamos como. Se tivermos uma noção epistémica, e não metafísica de justificação, como sugeri no post “O que é a justificação?”, e se tivermos uma noção igualmente epistémica de ciência, como sugeri no post “Ciência e erro”, podemos conceber a ciência, entendida amplamente, como um conjunto de procedimentos epistemicamente virtuosos, sobre determinados aspectos da realidade. Dito assim, isto incluirá a física, mas também a matemática ou a história. Ou a filosofia, já agora. Neste sentido, o termo “ciência” seria sinónimo de “investigação séria das coisas”. Mas o Ludwig rejeita isto explicitamente.

Mas se aceitarmos isto, podemos depois podemos distinguir as diferentes maneiras de investigar seriamente a natureza das coisas. Há ciências empíricas fortemente matematizadas, como a física; outras que trabalham fortemente com modelos matemáticos, que é apenas uma forma particular de “matematizar o real”, para usar uma expressão estúpida dos historiadores da ciência. Há outras ciências que não são empíricas, como a matemática. E há coisas como a história ou a filosofia.

Pessoalmente, parece-me bizarro chamar “ciência” à história ou à filosofia. Por isso, defendo que a ciência não esgota os modos epistemicamente virtuosos de investigar a natureza das coisas, e restrinjo a palavra “ciência” ao que em qualquer caso é realmente reconhecido como ciência: física, biologia, matemática e outras ciências deste jaez, excluindo a filosofia e a história, por exemplo.

E pronto. Agora o Ludwig vai dizer que está tudo errado, e foi para isso mesmo que escrevi este post — pois como Fernando Pessoa, “Concordo e cedo sempre que me falam com argumentos. Tenho prazer em ser vencido quando quem me vence é a Razão, seja quem for o seu procurador.” Força, Ludi!