Mostrar mensagens com a etiqueta Nutrição. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Nutrição. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 25 de junho de 2013

PSEUDOCIÊNCIA HOJE

Está, desde ontem, com grande destaque no sítio Ciência Hoje um texto acerca de intolerâncias alimentares. Não é uma notícia (não cruza fontes, não tem actualidade, não é objectiva) e também não está claramente identificado como opinião. Considerando que a autora, Paula Henriques, “especialista em nutrição” e responsável de uma clínica que oferece o serviço que é o tema do artigo, somos levados a concluir que é publicidade. Um verdadeiro “product placement” no meio dos artigos do Ciência Hoje.

O texto apregoa os benefícios de um inovador teste (a inovação tem costas largas) que alegadamente permite detectar intolerâncias alimentares. Esta detecção é feita através da colocação de dois eléctrodos nas pontas dos dedos e é designada por biorressonância:
“Esta é uma inovadora técnica através de bioressonância. São enviados estímulos ao cérebro através de dois meridianos ou terminais nervosos situados na ponta de dois dedos e na consequente quantificação da energia de cada alimento, também chamada de frequência vibracional. A análise é repetida da mesma forma, até serem “visitados” os 32 grupos de diagnóstico que englobam os 520 alimentos testados.”
Não há outra maneira de o dizer: isto não significa absolutamente nada. A energia de cada alimento é a contida nas suas ligações químicas, ou seja nos electrões que ligam os vários átomos entre si. É a quebra dessas ligações químicas e a transferência dos respectivos electrões para o oxigénio que permite às células obterem energia para os seus processos. Mas nada disto tem alguma coisa a ver com intolerâncias alimentares. Um electrão é um electrão! Quanto à frequência vibracional também não é para aqui chamada. É verdade que as moléculas podem vibrar se forem sujeitas a radiação de uma determinada frequência. Por exemplo, a molécula de dióxido de carbono vibra quando é irradiada com raios infra-vermelhos de uma determinada frequência. E isso permite quantificar o dióxido de carbono na atmosfera. É até verdade que poderíamos identificar, através de espectroscopia de infra-vermelhos, alguns tipos de alimentos, como por exemplo o álcool ou o vinagre. Agora, frequência vibracional de alimentos, medida na ponta dos dedos, que vai ao cérebro através de meridianos (o que é isso?) não significa absolutamente nada. É simplesmente jargão científico usado para fazer parecer ciência uma coisa que nada tem de científico. Mas, para nos convencer mesmo que a coisa é mesmo séria, até nem falta um gráfico com os resultados de um “teste”:


Como é que sabemos que isto nada tem de científico? Quais são as características da ciência? A ciência assenta nas provas. E quando há provas, demonstrações de que um determinado método de diagnóstico é valido, elas são publicadas em revistas científicas. Outros grupos de investigação podem repetir as experiências e confirmar ou não os resultados obtidos. Tudo isto pode ter falhas, mas se são encontrados erros, corrigem-se. Só depois deste processo é que podemos ter confiança num determinado método de diagnóstico. Que provas a autora do texto do Ciência Hoje apresenta em abono da validação do teste? Artigos científicos publicados de demonstração da validade do método, que se possam encontrar em bases de dados da literatura médica, como o PubMed? Nenhuns. O que apresenta em vez disso? O habitual da pseudociência: argumentos de autoridade.

O primeiro argumento de autoridade é a identificação da própria autora como “especialista em nutrição”. É natural que em determinados contextos as pessoas se apresentem com a sua designação profissional. Como, “olá, eu sou o João e sou pescador”. Já “olá, eu sou o João e sou especialista em pesca” é mais suspeito, já que a designação “especialista” contem em si uma força de autoridade que vai muito para além da mera identificação de actividade profissional ou área de formação. Outra designação deste tipo, muito na moda, é “guru”. Mas estas denominações de autoridade não bastam para validar cientificamente o que se diz. Aliás, não só não bastam como são absolutamente irrelevantes.

A ciência não assenta em figuras de autoridade. Assenta em provas. É uma marca da falsa ciência evocar figuras de autoridade, tais como cientistas da NASA, especialistas ou gurus, em vez de provas. Neste caso, tal como em muitos outros, a figura de autoridade é reforçada pela utilização de linguagem com uma aparente sofisticação científica que, como já vimos, não significa nada. Mas o que seria desta aparente sofisticação científica sem um bonito gráfico? Fazer um gráfico é fácil. Eu por exemplo, apliquei a técnica de biorresonância à detecção de aldrabices pseudo-científicas. Um resultado típico de banha da cobra segue em baixo:
À volta disto, das figuras de autoridade e de linguagem aparentemente científica, podem-se formar grandes comunidades de pessoas que agem como se isto tudo fizesse sentido, o que também serve de argumento de autoridade. Podem-se organizar conferências, encontros, formações, passar certificados e ganhar dinheiro à volta do sexo dos anjos. Nunca faltam testemunhos de clientes satisfeitos e de pessoas a quem a descoberta desta nova coisa mudou a vida. Só que testemunhos, por si só, de nada adiantam. Do ponto de vista científico, para demonstrar a validade de um tratamento ou de um método de diagnóstico, é necessário realizar experiências em condições controladas e que elas sejam confirmadas por grupos independentes. Sem isto, podemos ter o circo que se quiser, que não torna o tratamento ou método de diagnóstico válido.

Infelizmente os testes para detectarem intolerâncias alimentares são um pouco mais complicados do que dois eléctrodos na ponta dos dedos. Normalmente são necessárias análises do sangue para detectar a presença de quantidades anormais de determinadas imunoglobulinas ou testes genéticos para estudar os genes relacionados com intolerâncias alimentares habituais. 

No final do texto, é apresentada uma ligação para uma clínica que comercializa o teste de biorressonância, de cuja equipa a autora faz parte. Se dúvidas havia de que se trata de um texto publicitário, ficam esclarecidas.

Segundo o seu estatuto editorial o “CIÊNCIA HOJE é uma publicação on-line que visa oferecer uma informação completa sobre toda a actividade científica desenvolvida em Portugal e no estrangeiro. Pretende ser um meio de contribuir para a cultura científica nacional, divulgando a investigação de qualidade que se produz no País.”

Este texto não faz nada disso. Promove a ignorância e o obscurantismo e não há nenhum principio de pluralidade jornalística que o justifique. Aliás, do ponto vista jornalístico também falha em toda a linha. Publicar um texto publicitário não identificado como tal é um péssimo principio.

****
NOTA: Entretanto o texto do Ciência Hoje que é aqui referenciado deixou de estar disponível. Seria óptimo que isso significasse que irá haver um melhor critério científico e jornalístico em futuras publicações do Ciência Hoje. As justificações delirantes acerca da bioressonancia podem ser encontradas em muitos outros sítios, como aqui ou aqui.

terça-feira, 1 de março de 2011

APANHADO NA REDE: COMER BEM EM TEMPO DE CRISE


Vale a pena ler os conselhos para uma alimentação em tempo de crise que são dados pela nutricionista Ana Carvalhas no seu blogue: aqui.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

IOGURTEGATE


A Danone acordou pagar 21 milhões de dolares no âmbito de acordo com os reguladores norte-americanos, por causa do "activia challenge", uma charlatanice pseudo-científica que consiste em convidar pessoas (jornalistas, de preferência) a comer iogurtes num hotel de luxo durante quinze dias e a olhar para as próprias fezes, para concluir que o activia "regula o trânsito intestinal" ou que cura uma treta qualquer que passa sozinha.

A Danone reconheceu ainda no âmbito do acordo que não há qualquer evidência que os iogurtes com pro-bióticos façam aquilo que eles dizem que fazem. Não sem acrescentar que "milhões de pessoas acreditam firmemente nos benefícios para a saúde dos iogurtes da danone" e que lhes vão continuar a vender iogurtes.

Não sei quantos iogurtes são 21 milhões de dolares, mas dá-me ideia que isto não afecta o trânsito intestinal dos marketeers da Danone.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

domingo, 31 de outubro de 2010

Medicamentos para emagrecer: sim ou não?


Do livro "Emagrecer é...", de Ana Carvalhas, que acaba de sair na Gradiva, publicamos um pequeno excerto sobre medicamentos para emagrecer:

"Algumas pessoas que sofrem de excesso de peso chegam à minha consulta com a esperança de que lhes prescreva não só uma “dieta” mas também mais "qualquer coisa" que ajude a alcançar o pretendido objectivo de emagrecer. A ideia de perder peso de um modo fácil e rápido está geralmente associada ao recurso a medicamentos, embora as complicações resultantes da administração de vários medicamentos dietéticos, verificadas ao longo de décadas, coloque em dúvida a boa relação benefícios/riscos desta prática. Nos anos 30 do século passado, o fármaco da moda para emagrecer era o dinitrofenol, um produto que ajudava o corpo a queimar as gorduras. Infelizmente, também provocava cegueira e morte. Nas décadas de 50 e 60, quem queria emagrecer tomava anfetaminas para suprimir o apetite e acelerar o metabolismo, até se ter concluído que essas pessoas ficavam paranóicas e, quando paravam de as tomar, sentiam-se deprimidas e ficavam em risco de criar dependência do medicamento e de ter problemas cardíacos. Perante tal situação, e para minimizar estas reacções adversas, a Food and Drug Administration (FDA), organismo que detém a responsabilidade da supervisão da qualidade dos produtos de consumo nos Estados Unidos, exigiu que o período de ingestão destes medicamentos não fosse suferior a três meses.

Entre nós e, recentemente, fizeram furor dois médicos que faziam a prescrição de medicamentos manipulados. O tempo veio mostrar que, por um lado, a utilização de alguns dos ingredientes dos comprimidos (todos nos lembramos da polémica da utilização do pó de tiróide e de hipófise dos comprimidos do Doutor Tallon) prejudicou a saúde dos seus utilizadores e, por outro lado, os doentes, quando deixaram de tomar os medicamentos, não só recuperaram os quilos perdidos mas também ganharam mais alguns como bónus indesejado. As pessoas gastaram tempo, dinheiro e saúde totalmente em vão.

Por sua vez, a sibutramina, de nome comercial Reductil, ajudava a controlar o apetite por ser um inibidor de recaptação de serotonina e norepinefrina que actuava aumentando os níveis desses dois neurotransmissores. Foi suspensa a sua venda no início do ano de 2010 porque se provou que aumentava o risco de eventos cardiovasculares graves.

O único medicamento, actualmente no mercado, considerado suficientemente seguro (tanto quanto se pode dizer hoje) para ser utilizado num tratamento com o máximo de um ano é o orlistato, que funciona como inibidor da lipase, uma enzima produzida no pâncreas. Este medicamento, comercializado em Portugal com os nomes Xenical e Alli, impede que cerca de 30 por cento da gordura alimentar seja digerida e absorvida no intestino. Os efeitos indesejáveis são a produção de fezes oleosas, o descontrolo das dejecções e a má absorção de vitaminas lipossolúveis (vitaminas A, D, E e K). Aconselha-se, por isso, quem esteja a tomar orlistato que compense essa falta com suplementos destas vitaminas. Deve ainda ter em atenção a falta de vitamina B12 e de ferro.

A prescrição de qualquer medicamento para emagrecer implica sempre a recomendação de uma dieta baixa em calorias e o aumento do exercício físico. O medicamento por si só, sem uma orientação alimentar adequada, não permite mais do que uma pequeníssima redução de peso. E o peso perdido será recuperado imediatamente logo que se termine a medicação.

Por seu lado, as infusões e outros produtos, à venda em farmácias e ervanárias, anunciados insistentemente como “devoradores de gordura” com “efeito super-adelgaçante”, principalmente nas vésperas da época balnear, não são mais do que pura charlatanice. Acha a leitora ou leitor que, se acaso houvesse um produto milagroso que devorasse gorduras, que os Estados Unidos e os outros países desenvolvidos continuavam a ter o problema da obesidade que hoje têm?

A lipoaspiração, um método também muito procurado por pessoas que pretendem perder peso de um modo fácil e rápido, não é propriamente um método de emagrecimento. Apesar dessa cirurgia ser a campeã das cirurgias plásticas, ela envolve grandes riscos para a saúde e de vida. A lipoaspiração servirá apenas e quando muito para remover gordura localizada que o exercício físico e as dietas não conseguiram eliminar. E o que dizer da tão apregoada “lipo não invasiva”, uma técnica que promete reduzir o número de células de gordura no organismo sem os inconvenientes da cirurgia? O processo utiliza ultra-sons que rompem as membranas dos adipócitos (células gordas) libertando a gordura no sistema linfático para ser posteriormente eliminada pela urina. Este método apesar de ser utilizado em mais de 50 países não foi ainda aprovado pela FDA, nos Estados Unidos. Tenho muitas dúvidas acerca da segurança da sua utilização. A ver vamos!

Emagrecer completamente sem esforço é uma utopia. A mudança de hábitos exige força de vontade e determinação. Este é o primeiro passo de um programa de perda de peso consistente e eficaz. O segundo passo será procurar uma ou um nutricionista, o profissional de saúde mais habilitado para acompanhar uma pessoa decidida a emagrecer, primeiro, durante todo o processo de emagrecimento e, depois, durante o processo de manutenção do peso, que é tão importante como o anterior. O terceiro passo será, obviamente, seguir aquilo que o nutricionista prescrever para o caso individual.

A conclusão é esta: não há, de facto, medicamentos ou quaisquer outros produtos que sejam milagrosos para o emagrecimento. Sabendo isto, pergunto: Valerá a pena tomar medicamentos para emagrecer?"

Ana Carvalhas

sábado, 30 de outubro de 2010

PREFIRA A DIETA DA FÍSICA

Destaque para a coluna do físico Robert Park "What's New":

DIET PILLS: SORRY, WE’RE BACK TO THE "PHYSICS DIET."

During our first 200,000 years or so, Homo sapiens ate food like plump grubs from beneath rotting logs, and turtle eggs buried on the beach. Although not as convenient as McDonald's fare, it was least as tasty, and obesity was never a problem. Obesity raises concerns about heart attacks and strokes. Earlier this month, after 13 years on the market, the FDA forced the withdrawal of Meridia citing the risk of – heart attacks and strokes. Go figure! According to a story by Andrew Pollack on the front page of this morning's New York Times, the FDA has now rejected Qnexa, aother diet pill, because of concerns about birth defects and heart problems. Just last week the FDA declined to approve a drug because it caused tumors in rats. Use the Physics Plan: "Burn more calories than you consume."

Robert Park

sábado, 9 de janeiro de 2010

HUMOR: Defensores dos direitos animais querem acabar com o conceito de predação e outros anacronismos desanimais


"Mal posso esperar por um bom naco de tecido muscular estruturado com sistema vascular na brasa", revelou ao IP um vegetariano desejoso que os próximos cinco anos (o tempo previsto para que a carne in vitro possa chegar às prateleiras dos supermercado) passem a correr. Mas as organizações de defesa dos direitos dos animais querem que o tecido muscular estruturado produzido in vitro chegue a todo o reino animal: "que justificação há para o morticínio das zebras e toda essa violência da cadeia alimentar? Porque não podem todos os animais viver em paz, comendo carne artificial?", questiona o responsável pela organização ambientalista PETA, que confessou no entanto não saber o significado da palavra "anacronismo", situação em que o repórter IP também não pôde ajudar.

David Marçal, no Inimigo Público (IP)

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

DIA MUNDIAL DA ALIMENTAÇÃO


Hoje é Dia Mundial da Alimentação. Para ver melhor o mapa da fome no mundo clique sobre a imagem. Para ler um comentário a propósito do dia clique aqui.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Sítios 3: Comer bem até aos 100


Já aqui referimos o blpgue "Comer bem até aos 100" sobre alimentos, nutrição, saúde e longevidade. A última notícia interessante é sobre as propriedades do vinagre, mas há lá outras...

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Magalhães e Obesidade


Sobre a distribuição massiva de computadores às crianças, novo post de Rui Baptista (ele foi o autor do post publicado aqui no ano passado sobre a distribuição de computadores nas escolas, que mereceu 36 comentários e 4 links):

"É preferível que as crianças joguem mal a verem jogar bem" (Bertrand Russel)

Numa altura em que o tempo passado em frente do computador já superioriza para muitos jovens as largas horas diárias frente aos ecrãs de televisão, o post “Livros e Magalhães”, aqui publicado, da autoria de J. Norberto Pires, mereceu este oportuno comentário de Fernando Martins: [O Magalhães] “vai ser levado para casa, para sedentarizar e embrutecer a esmagadora maioria dos nossos alunos. E gordos e burros já temos que chegue na nossa sociedade”.

O assunto merece atenção. E esse merecimento não é de agora... Em 1960, o futuro presidente dos Estados Unidos, John F. Kennedy (1961-1963), escreveu na revista Sports Illustrated, com o título “The Soft American” (“O Americano Mole”), um artigo que ganhou um prémio da American National Recreation Association. Dele transcrevo este excerto: “O facto desagradável do problema é que também se regista um grande e crescente aumento de jovens americanos que estão a descuidar do seu corpo – cuja aptidão física não é aquela que devia ser – e que se estão a tornar moles. E este amolecimento dos cidadãos pode ajudar a enfraquecer e a destruir a vitalidade da nação”.

O que está hoje em debate entre nós é a distribuição entre nós de computadores a alunos do primeiro ciclo do ensino básico que fazem perigar a saúde física dessas crianças por ser actualmente atribuído ao sedentarismo uma larga quota de responsabilidade no desencadear do que a Organização Mundial de Saúde considera como “a epidemia do século XXI” – a obesidade.

É bem verdade que o computador ajuda não só os cientistas e técnicos como os cidadãos comuns, que passam muito tempo sozinhos frente ao ecrã. Mas será bom fomentar a “solidão informática” em crianças de tenra idade cortando-lhes o cordão umbilical de uma sociabilização tão necessária ao seu desenvolvimento individual?

Na Europa, segundo Carla Pedrosa e Isabel Albuquerque, nutricionistas do Serviço de Endocrinologia, Diabetes e Nutrição do Hospital Infante Dom Pedro, em Aveiro, ocupamos o terceiro lugar no ranking das crianças entre os sete e os nove anos de idade com maior prevalência de obesidade. Essas idades correspondem a um período essencial para o crescimento das crianças através de brincadeiras, permitindo que as nossas crianças, quando chegarem à idade adulta, venham a fazer eco da amargura de John Locke (1632-1704): “Eu nunca fui criança porque nunca brinquei”.

As questões associadas à obesidade vão muito para além de aspectos meramente estéticos já que têm implicações psicológicas numa idade em que os companheiros de escola são de uma crueldade tremenda para todos quantos saiam da norma (os versos de Ribeiro Couto (1898-1963) glosam o tema: “Que gorda esta menina, que feia! /Que gorda esta menina, que feia!/ E ela chora de infelicidade!...”).

Mas há pior. Segundo dados apresntados no VIII Congresso Mundial de Adolescência, realizado em 2005, mais de 90 por cento dos jovens obesos portugueses têm factores de risco cardiovascular associados. Pelo menos 44 por cento apresentam associadas a esta patologia tensão arterial elevada e níveis de colesterol acima do normal sendo candidatos a um enfarto do miocárdio na meia-idade.

Porque, na poesia pessoana, “o melhor do mundo são as crianças”, entendo que não se trata de uma questão de somenos importância. Trata-se de um grave assunto de saúde pública!

domingo, 12 de outubro de 2008

UM FÍSICO DAS LUZES E O AZEITE PORTUGUÊS


O italiano João António Dalla Bella (1730 - c. 1823) foi o professor de Pádua que foi contratado pelo Marquês de Pombal para reger a cadeira de Física Experimental na Universidade de Coimbra em 1772 (o seu manual "Physices Elementa" está em forma digital disponível aqui). Mas ele, um espírito das luzes, não se interessou apenas por Física, mas também por assuntos mais prosaicos como o "modo de aperfeiçoar a manufactura do azeite de Oliveira em Portugal". O editor Arquimedes Livros, antiquário do Chiado, Lisboa, editou há pouco em fac-simile e em tiragem muito limitada (só 80 exemplares) o livro "Memórias e Observações sobre o modo de aperfeiçoar a manufactura do azeite...", publicado originalmente em Lisboa em 1784, pela Oficina da Academia Real das Ciências (com a devida licença da Real Mesa Censória). Poucos anos depois, em 1786, Dalla Bella, publicaria sobre o mesmo assunto a "Memoria sobre a cultura das oliveiras em Portugal".

Dalla Bella (que era um homem prático, como também mostra outro livro, este de 1773, sobre pára-raios também publicado em fac-simile pela Arquimedes) expõe no prefácio qual era a sua motivação para melhorar a qualidade do azeite português. Com palavras duras disse que os portugueses, apesar de terem boas oliveiras, não sabiam fazer azeite. Não só eram preguiçosos como não queriam saber do que antes se sabia. Eis um extracto, onde se actualizou a ortografia, mas se conservou a sintaxe:

"Quantas Artes utilíssimas, por uma humilhante causa se perderão, e quantas outras têm declinado da sua perfeição com gravíssimo dano da felicidade humana?

Entre todos os exemplos, que se podem alegar para prova desta verdade, basta o da manufactura do Azeite de Oliveira em Portugal. Pelo descuido de se não examinarem com diligência os preceitos recolhidos por uma vasta experiência precedente, que deixaram os antigos Gregos e Romanos sobre as regras, que se devem observar na preparação de um tão precioso licor, ela está reduzida neste Reino a um estado tão deplorável, que n
ão só deixa perder uma grande cópia dessa produção interessante, que com grande facilidade se poderia aproveitar, mas reduz o mesmo Azeite a uma qualidade muito inferior à do que se prepara nos climas mais frios, e por consequência menos favoráveis (...)

Mas por uma fatalidade, que nasce da inércia da matéria, observa-se constantemente, que onde a Natureza é liberalíssima na produção de qualquer género necessário
à vida dos homens, satisfeitos eles com a abundância do que naturalmente, e sem trabalhos lhes subministra a terra, ficam pela maior parte indolentes, e preguiçosos, mas não se achando na necessidade de esquadrinhar o melhor modo de o conseguir, e aperfeiçoar: antes pelo contrário inclinados pela sua preguiça a diminuir o trabalho, introduzem, sem reflectir, liberdades e abusos na prática. Pelo que (falando mais particularmente) o Azeite, que poderia ser o mais esquisito, e excelente em Portugal sobre outro qualquer, vem a ser o menos estimável entre todos os Azeites que se produzem na Provença, e em Itália; e isto não sucede por outro motivo, senão porque as regras da boa cultura das Oliveiras, e a maneira de tirar o Azeite, são absolutamente diversas das que usavam os Antigos".

Eu que, sendo físico, pouco sei sobre azeite. Mas sei que a sua qualidade evoluiu muito: em 1889 já ganhou um prémio na Exposição Mundial de Paris. Julgo que o azeite português, graças aos esforços de Dalla Bella e de tantos outros, já é hoje competitivo com o da Provença e da Itália...

terça-feira, 5 de agosto de 2008

TOO THIN TO WIN?

O blogue "Comer bem até aos 100..." analisa a corrida presidencial norte-americana do ponto de vista da nutrição: aqui.

domingo, 8 de junho de 2008

Hitler e os Elefantes


O blogue "Comer bem até aos 100" informa aqui que Hitler não comia carne porque o animal mais forte da selva - o elefante - também não o fazia. É o que se pode chamar pseudo-ciência da nutrição...

terça-feira, 29 de abril de 2008

Crise alimentar internacional



A Ministra dos Negócios Estrangeiros da Serra Leoa chama a atenção para o problema da crise alimentar internacional. Eis uma lista de artigos recentes sobre o assunto na imprensa mundial:

1. BBC: "How to stop the global food crisis": http://news.bbc.co.uk/1/hi/world/south_asia/7365798.stm

2. "The New Economics of Hunger", Washington Post, 27 April 2008 http://www.washingtonpost.com/wp-dyn/content/article/2008/04/26/AR2008042602041_pf.html

3. Chinese news citing World Bank figures: http://www.cctv.com/english/20080426/102406.shtml

4. Reuters: "Rising food prices to top UN agenda" http://www.reuters.com/article/gc08/idUSL1890947220080424

5. "Rising Food Prices" by Alex Evans (Chatham House report) http://www.chathamhouse.org.uk/files/11422_bp0408food.pdf

6. UN scientific report on fixing the world food system: http://news.bbc.co.uk/1/hi/sci/tech/7347239.stm

7. The Guardian: "Credit crunch? The real crisis is global hunger", George Monbiot http://www.guardian.co.uk/commentisfree/2008/apr/15/food.biofuels

sexta-feira, 25 de abril de 2008

SEPARAR O TRIGO DO DIESEL


Minha crónica do "Público" de hoje:

É impossível separar o trigo do diesel uma vez que, para cultivar cereais, são precisos combustíveis. Assim como são precisos combustíveis para transportar os cereais e transformá-los em alimentos.

Ora, os preços dos cereais aumentaram muito no último ano (muitíssimo nos últimos meses!), pelo que os alimentos estão, pelo planeta fora, a faltar. Nos Estados Unidos o diesel nas bombas subiu, no último ano, de 129 por cento. Mas isso não chega para explicar o aumento do preço do trigo, que no mesmo país, ascendeu 90 por cento só no último mês. O preço do trigo nunca esteve tão alto. As reservas de trigo nunca, desde a Segunda Guerra Mundial, estiveram tão baixas. O mesmo ou algo semelhante se passa com outros cereais. E passa-se em todo o mundo e não só na América. Começa a haver a ameaça de fome generalizada, que já tem originado rebeliões populares, no Bangladesh, no Egipto, na Indonésia, etc. No Haiti até já caiu o governo por causa do preço da comida. A globalização faz com que uma borboleta que bata as asas no Brasil cause uma tempestade no Texas, para usar a imagem de Edward Lorenz, o teórico do caos.

Que outros factores inflenciam a subida vertiginosa dos preços dos cereais? Há um aumento da procura, o que tem a ver com a subida dos padrões de vida, nomeadamente em países como a China e a Índia. E há questões climáticas, como, por exemplo, uma seca prolongada num país grande exportador de cereais como a Austrália. Claro que também há especulação. Mas há um factor essencial que está a ser cada vez mais discutido: a redução das áreas cultivadas para fins alimentares em benefício dos biocombustíveis. Deixou-se de se plantar trigo para se plantar soja, que dá biodiesel, para misturar no diesel, ou para se plantar milho, que dá bioetanol, para misturar na gasolina. As novas plantações de soja e de milho não são para abastecer os supermercados, mas sim para fazerem andar os carros e os camiões. Quer dizer: o trigo e o diesel estão mais ligados do que poderia parecer.

Tem havido uma enorme pressão internacional para incorporar produtos de origem vegetal nos combustíveis. A União Europeia fixou para 2020 a incorporação de dez por cento de produtos de origem vegetal nos combustíveis para transporte. Portugal, como “bom aluno”, apesar de estar bastante atrasado, quer antecipar essa meta para 2010. A Galp, além de ter participação no petróleo do Brasil, tem participação em grandes plantações nesse país e em África (as empresas mais sujas querem limpar a imagem, aparecendo com o look de empresas verdes). O argumento é que a emissão de dióxido de carbono devida à queima dos combustíveis pelos veículos seria compensada pela absorção de dióxido de carbono que as plantas fazem quando crescem. Mas saber-se-á isso de ciência certa?

Não. A revista Science publicou em Fevereiro passado dois estudos que contestam esse pressuposto. Acontece que a produção agrícola para criar biocombustíveis, feitas bem as contas, produz dióxido de carbono que, juntamente com o que surge com a queima do combustível “bioaditivado”, é muito mais do que o que é absorvido pelas plantas. E há mais críticas aos biocombustíveis. Para atingir as metas impostas será preciso reconverter extensas áreas de solos, com graves prejuízos ambientais. Além disso, o norte-americano David Pimentel, professor de Ecologia na Universidade de Cornell (de origem portuguesa), tem defendido desde há muitos anos que os biocombustíveis nem sequer são energeticamente eficientes, isto é, gasta-se mais energia a fazê-los do que se obtém no final à custa deles.

A continuar assim, a Terra poderá estar à beira do abismo. Mas, em vez de dar o proverbial passo em frente, pode ainda recuar. Organismos mundiais como as Nações Unidas estão a lançar um forte SOS. O governo britânico já vai de marcha atrás e a União Europeia irá provavelmente rever os seus planos. E há males que vêm por bem: o “bom aluno” Portugal ainda bem que se atrasou no trabalho de casa, pois esse trabalho agora vai ser outro.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

A depuralina depurada


O "Viver bem até aos 1OO", blog de alimentação, nutrição, saúde e longevidade, comenta aqui o recente caso da depuralina, o suplemento alimentar de origem espanhola que parece ter contraindicações.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

O GORDO NÃO JANTA


Já não é só a proibição de fumar nos restaurantes, é a proibição de comer. O blogue "Comer bem até aos 100", sempre muito útil para quem queira saber sobre nutrição e longevidade, informa-nos que o que alguns receavam já começou a acontecer. No estado norte-americano do Mississipi está a ser considerada uma proposta de lei que impede os restaurantes de servirem gordos, isto é, pessoas com Índice de Massa Corporal superior a 30. Para saber mais clique aqui. O Jô que evite o Mississipi!

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

CEM ANOS DE VINHOS DO DÃO

A vida está-nos sempre a surpreender. Estava eu aqui há meses “posto em sossego” nas margens do Mondego quando recebi uma chamada do Dr. Luís Canavarro, médico psiquiatra, escritor (“Infância em Terra Pequena”, da Minerva Coimbra) e sei lá eu que mais, do interior profundo da Beira, o “coração de Portugal”, a perguntar-me o que eu achava de homenagear o vinho do Dão entrando como convidado para uma confraria de degustadores do vinho do Dão, a Ordem Soberana dos Cavaleiros de S. Urbano e S. Vicente. Pois eu achava bem não só pela oportunidade de provar um bom Dão (um? vários!) como pela honra do inesperado convite. Depois de provadas as várias colheitas de Dão num memorável jantar em Viseu servido pelo Chef Hélio Loureiro, só posso dizer que o Dão ficou não só provado e aprovado, como aprovado, como se diz na gíria académica, com louvor e distinção. Agradeço muito a gentileza dele e dos seus confrades, que confirmaram um velho provérbio português: “Quem tem bom vinho tem bom amigo.

Eu sei pouco de vinhos (ao pé de verdadeiros sábios que tenho conhecido, sou um ignorante no assunto). Para escrever um dia no “Público” sobre as tabernas de Coimbra tive de me documentar bem. Não sei por isso que qualidades tive para justificar a chamada para a confraria. Contudo, as qualidades dos bons vinhos que me foram servidos são indiscutíveis. O físico norte-americano do século XVIII Benjamin Franklin afirmou: “O vinho é uma prova constante de que Deus nos ama e deseja ver-nos felizes”. Lá terá as suas razões, mas eu não sei como é que ele conseguiu dizer isso sem ter provado os vinhos do Dão! Não foi, de resto, o único cientista a elogiar o vinho. Na mesma linha, e já no século XX, o médico inglês Alexander Fleming afirmou: “A penicilina cura os homens, mas é o vinho que os torna felizes”.

O vinho tem, desde sempre, inspirado os grandes criadores. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche fez uma defesa (não sei se apenas metafórica) da embriaguez ao declarar: "A fim de haver arte, para que existam um fazer e um olhar estético, é indispensável uma condição biológica: a embriaguez; primeiro que tudo a embriaguez deve intensificar a excitabilidade de toda a máquina humana". Muitos artistas louvaram o vinho, em prosa e poesia, em tela e em pedra. Não será pois de estranhar que um dos vinhos mais conhecidos do Dão tenha associado o nome de um dos melhores artistas da região: Vasco Fernandes, Grão Vasco, que dá o nome ao Museu ao lado da Sé de Viseu.

É sabido que o vinho, em doses moderadas, faz bem. O bioquímico francês Louis Pasteur não teve dúvidas, no século XIX, em dizer que: “O vinho é a mais pura e higiénica das bebidas”. Os químicos dizem-nos que o vinho tem polifenóis e taninos, substâncias muito úteis para o nosso bem-estar. Hoje, no século XXI os estudos abundam em defesa dos bons efeitos dos bons vinhos. Está hoje bem identificado o chamado “paradoxo francês”, que consiste nos resultados de um estudo comparativo realizado no início dos 90 sobre aincidência de ataques cardíacos entre os americanos e os franceses. Os franceses são mais saudáveis precisamente porque a sua dieta inclui o vinho tinto. O álcool eleva os níveis de HDL ou “bom colesterol”, no sangue. Um estudo realizado em 1995 por cientistas dinamarqueses mostrou que as taxas de mortalidade diminuem mais entre pessoas que bebem vinho do que naquelas que tomam cerveja ou bebidas destiladas.

Os vinhos do Dão, em geral de sabor aveludado devido à selecção das castas, ao solo granítico e ao clima interior, são cultivados numa região demarcada que faz exactamente cem anos no corrente ano (foi criada em 1908). A região demarcada tem sabido modernizar-se, como provam as novas colheitas que todos os anos vários agricultores e cooperativas nos fornecem. A Dão Sul, por exemplo, é uma empresa que conseguiu até internacionalizar a sua produção, criando vinhos no Brasil. Brindemos para comemorar o centenário!

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

A Ciência de Faca e Garfo


Informação recebida do "Ciência Viva":

Caro (a) amigo (a):

Já leu com atenção o rótulo de uma embalagem alimentar? Sabe o lugar a que pertence cada alimento segundo a nova roda de alimentos? E será que o momento que escolhe para temperar a carne lhe permite retirar o maior partido das suas propriedades?

Durante o mês de Janeiro, no rescaldo dos fritos e dos doces da época natalícia, o Pavilhão do Conhecimento - Ciência Viva convida-o a descobrir a ciência que está por trás daquilo que come. Um programa diversificado de ateliês, workshops e debates vão fazê-lo olhar com outros olhos para os alimentos que sempre fizeram parte da sua rotina diária.

No dia 9, os alimentos modificados em laboratório serão o prato forte de um debate. No dia 16, descubra como educar os mais novos para uma alimentação saudável, prevenindo assim a obesidade infantil. Numa edição especial da Cozinha é um Laboratório, no dia 27, vamos mostrar-lhe de que forma a ciência e a tecnologia estão presentes na cozinha lá de casa. E no dia 30, venha connosco às compras e aprenda a "ler" o rótulo dos alimentos que ingere.

Estes são apenas alguns exemplos das actividades que durante o mês de Janeiro esperam a sua participação no Pavilhão do Conhecimento. Confira o calendário completo em www.pavconhecimento.pt e venha descobrir a Ciência de Faca e Garfo.