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segunda-feira, 3 de junho de 2019

Trabalho sobre a Escola-Oficina Nº1 em destaque no Público

Em Dezembro publiquei um artigo, na revista de história da ciência Endeavour, sobre uma coleção zoológica encontrada na Escola-Oficina nº1, do Bairro da Graça, em Lisboa. Hoje esse trabalho de investigação mereceu destaque no jornal Público.

Mais informações sobre este trabalho, aqui.

Créditos da imagem: João Monteiro

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

MATEMÁTICOS PORTUGUESES DO SÉCULO XVI: UM RETRATO DE GRUPO




No próximo dia 21 de Fevereiro, terça-feira, pelas 18h00, realiza-se no Rómulo Centro de Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra intitulada "Matemáticos portugueses do século XVI: um retrato de grupo", com o historiador de ciência Henrique Leitão, Prémio Pessoa em 2014.


Henrique leitão - Créditos Nuno ferreira Santos


Esta palestra insere-se no ciclo "Ciência às Seis" coordenado por António Piedade.

Resumo da palestra:
“Esta palestra tem por objectivo olhar as actividades matemáticas em Portugal no século XVI como um todo, procurando identificar tradições, temas, instituições, grupos, contextos sociais, redes de contactos, etc.

O que já se sabe hoje em dia acerca destas actividades permite uma tal visão de conjunto; isto é, permite compreender algo acerca do modo como as disciplinas matemáticas foram ensinadas, utilizadas e cultivadas entre nós nesse período. Um exame atento destes factos permite também pôr em relevo as principais linhas de força dos estudos matemáticos em Portugal no século XVI, os factores que mais contribuíram para o desenvolvimento desses estudos, e as principais dificuldades e elementos reactivos.”

À palestra seguir-se-á um momento de conversa/debate entre o público presente e Henrique Leitão.

Entrada livre. 
Palestra destinada ao público em geral.

Link para este evento no facebook.

segunda-feira, 11 de março de 2013

360 graus. Ciência Descoberta - Na Gulbenkian

Como não se cansa de repetir o comissário da exposição, Henrique Leitão, esta não é uma exposição sobre os descobrimentos! É uma exposição sobre a ciência dos descobrimentos. Tanto a que os tornou possíveis, ou seja os avanços na cartografia, os novos instrumentos náuticos e técnicas de  construção naval, como a que deles emergiu: uma perspectiva global, espécies de animais e plantas até então desconhecidas dos Europeus, a valorização da experiência e da observação e a criação de instituições para a gestão do saber.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

GEOLOGIA ANTES DA ESCRITA

De Rerum Natura agradece ao Professor Galopim de Carvalho a partilha dos seus textos.

Ao alimentarem-se de frutos, raízes e animais que, de início, colectavam e, mais tarde, cultivavam ou apascentavam, os nossos antepassados pré-históricos interagiram de muito perto com a biodiversidade dos ambientes que foram ocupando. Interagiram igualmente com a geodiversidade entendida como o conjunto de todas as ocorrências de natureza geológica, com destaque para rochas, minerais e fósseis, cavernas e grutas, montanhas e vulcões, bem como dos ambientes naturais (mares, lagos e pântanos, rios, geleiras e dunas) e processos que lhe dão origem. Alastrando a todas as latitudes, longitudes e altitudes, a superfície do planeta foi-se abrindo à sua observação e, neste domínio, ainda que de forma muito embrionária, podemos aceitar que se iniciaram na geologia.

Estabeleceram relações de causa-efeito entre os objectos e os mecanismos que lhes foram dado observar, no mundo físico que foi o seu. Experimentaram o que puderam experimentar, deduziram, inferiram e transmitiram, aos descendentes, os conhecimentos que foram acumulando, servindo-se para tal das linguagens de que dispunham, nomeadamente o gesto e, mais tarde e progressivamente, a fala.

Presenciaram a chuva e os seus efeitos como poderoso agente de erosão, desde a simples e inofensiva escorrência às grandes enxurradas, e aluimentos de terras. Assistiram a catastróficas cheias próprias das planícies aluviais dos grandes rios e suportaram secas intermináveis. Andaram sobre as dunas e relacionaram-nas com o vento. Enfrentaram frios imensos e subiram e desceram montanhas, num acumular de experiências que lhes permitiram sobreviver. Procuraram grutas e abrigos para se protegerem das intempéries e das feras e conheceram os pigmentos minerais com que pintaram algumas delas, numa demonstração de criatividade artística da sua condição humana.

Viram a lava incandescente a fluir e transformar-se em rocha e deixaram as suas pegadas sobre as cinzas vulcânicas. Sentiram a terra tremer debaixo dos pés e ouviram o som cavo e assustador dos sismos. Conheceram o sílex e a sua característica fractura conchoidal, aprenderam a encontrá-lo nas suas jazidas e tiraram partido desses conhecimentos para produzir utensílios e armas. Verificaram idênticas características no quartzo macrocristalino (em especial, o hialino e o defumado) e nos vidros vulcânicos (obsidiana, taquilito e outros) e deram-lhes a mesma utilização.

Conheceram a argila, a sua plasticidade quando misturada com a água e o seu endurecimento pelo fogo. Usaram o betume (asfalto) como combustível e, talvez, como fonte de iluminação, e prospectaram o ouro, a prata, os minerais de cobre e os de estanho, milhares de anos antes de a ciência lhes ter prestado atenção e lhes ter dado nomes. Aprenderam a explorá-los e ensaiaram as metalurgias, primeiro, a do bronze, há mais de 5000 anos e, cerca de mil anos depois, a do ferro.

Fizeram tudo isto e muito mais antes dos sumérios, chineses e egípcios terem iniciado a arte de escrever.

Galopim de Carvalho

quarta-feira, 2 de maio de 2012

A história da medicina através dos livros

  • Percursos na História do Livro Médico (1450-1800) Organização: Palmira Fontes da Costa e Adelino Cardoso, Editora Colibri, 2011.

Escolha bibliográfica de Carlos Fiolhais, gravada em video no Centro Ciência Viva Rómulo de Carvalho: http://nautilus.fis.uc.pt/rc/?p=334

Índice

Apresentação, Palmira Fontes da Costa e Adelino Cardoso

1. Os Livros e a Ordem do Saber Médico: Perspectiva Historiográfica, Palmira Fontes da Costa


2. Books, Erudition and Medicine, 1450-1700, Vivian Nutton

3. Reality and Metaphors in the Language of Renaissance Medicine: The Case of Rodrigo de Castro, Guido Giglioni

4. A apropriação de Colóquios dos Simples por dois médicos ibéricos de Quinhentos, Teresa Nobre de Carvalho

5. Prática médica e alimentação nos textos portugueses seiscentistas, Inês de Ornellas e Castro

6. Considerações sobre o Examen de Ingenios para las Sciencias de Juan Huarte , Rui B. Romão

7. Approches iconographiques du corps féminin dans le livre médical (XVIe-XVIIe s.). Essai d’iconogynie historique, Hervé Baudry

8. On the Artful, yet Pernicious Body: Anatomical Books in the Early Modern Dutch Republic, Rina Knoeff

9. O Método de Aprender Medicina, de Boerhaave, Adelino Cardoso

10. A Materia Medica de Jacob de Castro Sarmento, Hélio Pinto

11. O lugar do corpo no espaço público da razão: Livros, Leituras e Sátiras às Artes da Cura no Portugal do Século XVIII, Bruno Barreiros

12. Los fundamentos científicos de un debate ilustrado: cementerios en España y Portugal, Antonio Carreras Panchón

13. José Pinto de Azeredo: a cosmopolitan physician from Rio. Revisiting his Ensaios Sobre Algumas Enfermidades de Angola, Manuel Silvério Marques e António Braz de Oliveira

sábado, 12 de novembro de 2011

O Colégio dos Nobres, Uma oportinudade perdida

Post recebido de António Mota de Aguiar:

É por demais conhecida a revolução profunda que o Marquês de Pombal empreendeu no ensino em Portugal. Um atento historiador do século XIX, escreveu:

“(…) O reinado de D. José marca uma época memorável nos annaes da construção publica em Portugal. A Reforma operada nos estudos universitários foi tão profunda, tão radical, tão vasta, que sem grande exageração póde dar-se-lhe o nome de restauração, e até de creação, como em verdade se lhe deu em alguns diplomas d’aquella época.(…)
(José Silvestre Ribeiro in “História dos Estabelecimentos Scientificos Litterarios e Artísticos de Portugal nos Sucessivos Reinados de Portugal”, 1871, Tomo I, p. 345)

O que Carlos Fiolhais corrobora num recente artigo neste blogue (Cem anos da Faculdade de Ciências de Coimbra, 8.11.2011) :

“A Reforma Pombalina de 1772 foi um verdadeiro “terramoto intelectual”. Inaugurou em Coimbra o ensino fundado na observação e na experiência, tendo os grandes autores da Revolução Científica como Galileu e Newton entrado nos curricula.”

Foi no quadro desta reforma, de se estabelecer um patamar académico de conhecimentos pedagógico-científicos sólido de acesso ao ensino superior, que, por iniciativa do Marquês de Pombal, foi criado, por carta de lei de 7 de Março de 1761, o Real Colégio dos Nobres, estabelecimento de educação pré-universitário, voltado para a formação dos jovens aristocratas. Para fortalecer o quadro de docentes portugueses de então, foram chamados a Portugal professores de renome de Itália e de Irlanda. O Colégio dos Nobres instalou-se no extinto colégio e noviciado jesuíta da Cotovia, onde é hoje o Museu da Ciência em Lisboa.

É muito provável que a ideia da criação do Colégio dos Nobres tenha historicamente raízes na Áustria da Imperatriz Maria Teresa: o futuro Marquês de Pombal chegou a Viena em 1845, onde permaneceu cerca de 5 anos como embaixador, no momento em que este país levava a cabo uma reforma na sociedade, que abrangia a renovação do serviço público, com profundas alterações no sistema do ensino vigente. Pretendia-se seleccionar pessoas jovens com talento e capacidade a fim de serem formadas como funcionários públicos: professores, militares e diplomatas, entre outros, os quais deviam servir o Estado com competência. Todo o sistema de ensino público foi por essa altura renovado. Em 1846 foi criada a “Theresianische Akademie”, a qual se dirigia à educação de jovens aristocratas.

Sebastião de Carvalho deve ter sofrido uma forte influência do Iluminismo austríaco, pois, quando em 1855 assumiu a pasta de 1.º ministro do Reino, lançou “um verdadeiro terramoto intelectual”.

As reformas da “Theresianische Akademie” terão porventura inspirado o Marquês na criação do Real Colégio dos Nobres, edificado na esteira do modelo austríaco: pretendia-se dinamizar a elite aristocrata portuguesa para a aprendizagem das ciências, das letras e das artes, reforçando o ensino com matérias como física e matemática, entre outras.

A ideia fazia sentido, embora só abrangesse jovens aristocratas, deixando de fora jovens oriundos de outras classes sociais. A Instituição foi inaugurada em Março de 1766 com pompa e solenidade na presença da família real portuguesa.

Porém, dez anos depois já a Instituição se tinha degradado, vindo a fechar poucos anos depois “pela improdutividade que a escola dava na formação de alunos.” Os alunos não estavam interessados em estudar as matérias agendadas, preferindo as aulas de dança, esgrima ou equitação às aulas de ciência.

O encerramento do Colégio fez-se uma dezena de anos depois de abrir, embora oficialmente somente a 4 de Janeiro de 1837. O Colégio dos Nobres fechou nos seguintes termos:

"Sendo o Real Colégio dos Nobres uma instituição que não está em harmonia com a constituição política da monarquia, em razão por ser seu instituto uma escola privilegiada (...)" (Obra já citada, tomo VI, 1876, p. 322)

Pelo meios financeiros e energias empregues na altura e as esperanças depositadas, o falhanço desta experiência constituiu um duro golpe para o ensino em Portugal. Ao contrário da “Theresianische Akademie”, cujas consequências positivas da reforma ainda hoje se fazem sentir na Áustria, o Colégio dos Nobres não deixou rastro da sua passagem. Tivesse esta experiência tido sucesso, teria certamente contribuído para o enriquecimento do ensino em Portugal.
António Mota de Aguiar

sábado, 12 de março de 2011

MEDIR O TEMPO (III)




(continuação)


E Galileu observou e identificou a coincidência regular com que o pêndulo oscilava em torno de uma determinada posição e isso permitiu a invenção do relógio com mecanismo de pêndulo. Introduziu uma nova maneira, mais precisa, de domesticar os intervalos de Tempo.


De referir também a necessidade de instrumentação de medição ou contagem do Tempo para a exploração terrestre e, de forma muito crítica, para a navegação marítima. Se a observação solar e de outros astros servia de referência para a deslocação em latitude, a viagem para Este e Oeste, ou seja para longitudes diferentes, obrigava a instrumentação de medição de Tempo que não dependessem do utilizador nem do local. E isso só foi possível no século XVIII com a invenção, em 1737, do cronómetro marítimo pelo relojoeiro britânico John Harrison, o que permitiu medir a Longitude com a precisão necessária.


É agora altura de aqui introduzir duas invenções que estão associadas ao aumento ímpar na nossa capacidade de medir intervalos de tempo: o parafuso e a roda dentada. Sem eles não teríamos hoje instrumentação científica de precisão, nem Harrison teria resolvido o problema da medição da Longitude. Aliás, é difícil hoje encontrar instrumentos, objectos tecnológicos que não tenham pelo menos um parafuso em algum lugar. As engrenagens resultantes das rodas dentadas estão associadas mais ao movimento, por isso só as encontramos em instrumentos ou objectos que produzam ou que participem no movimento de algo. E, movimento significa que algo se deslocou de um ponto a outro durante um certo intervalo de tempo.

Apesar de existirem dúvidas sobre a sua invenção (há algumas referências que a ligam a Arquimedes), a primeira descrição sobre o parafuso foi efectuada pelo matemático grego Arquitas de Tarento (428 - 347 a.C.). Parafusos de madeira tornaram-se rapidamente comuns em todo o mediterrâneo principalmente em tornos de prensas para fazer vinho, azeite e outros óleos.
Em relação às rodas dentadas elementos de engrenagens, as referências mais antigas que se conhecem remontam à Escola Alexandrina durante o 3º século a.C. Há registos de terem sido desenvolvidas e exploradas por Arquimedes (287 - 212 a.C). Contudo, melhor fundamentadas são as referências a engrenagens utilizadas por Hero de Alexandria (10 – 70 d.C) por volta do ano 50 d.C. Diga-se a propósito que também é atribuída a Hero a invenção de uma ferramenta para cortar parafusos.

Mas as engrenagens só receberam renovado impulso aquando do fabrico da primeira máquina de cortar engrenagens inventada por uma artífice italiano de nome Juanelo Torriano de Cremona (1501-1575). Só com um corte regular dos dentes das engrenagens, precisamente divididas e cortadas, é que foi possível uma maior estabilidade na regularidade do movimento entre duas rodas dentadas.

Em associação, o parafuso e as engrenagens permitiram e alavancaram um novo mundo de máquinas. Com estes elementos, construíram-se as primeiras máquinas de medição de Tempo modernas e, simultaneamente, os relojoeiros tornaram-se pioneiros no fabrico de instrumentos científicos de precisão.


Se hoje utilizamos o conhecimento que temos sobre a estrutura atómica da matéria, e sobre o próprio átomo, para definirmos a unidade fundamental de Tempo, o segundo, (“um segundo é o tempo de duração de 9.192.631.770 vibrações da radiação emitida pela transição electrónica entre os níveis hiperfinos do estado fundamental do átomo de césio 133”), a sua medida e definição implicou a utilização de variada instrumentação de medida progressivamente mais precisa, reprodutível e robusta, que utiliza parafusos e engrenagens como parte integrante dos seus mecanismos ou que estiveram presentes em algum momento do seu fabrico.

A medição do Tempo e a noção e definição da própria grandeza Tempo é assim inerente ao desenvolvimento científico e tecnológico da Humanidade.

Para além de ser uma propriedade da própria vida que só existe num determinado período de Tempo.

Há quanto Tempo?



António Piedade

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A QUÍMICA DO ORANGOTANGO



Crónica publicada no "Diário de Coimbra":

O genoma do orangotango foi agora publicado na revista Nature, e apresenta cerca de 3% de diferença com o nosso. Mas a química do orangotango não é diferente da nossa.

Muito pelo contrário, partilhamos com este primata, assim como com todas as espécies vivas, muitas coisas em comum. Tanto o comum à vida como as diferenças na base da biodiversidade estão inscritas em longas sequências de quatro de moléculas (guanina, adenina, timina e citosina) integrantes do biopolímero que vulgarmente designamos por DNA (ácido desoxirribonucleico). É a diferente sequência daquelas moléculas alinhadas na dupla hélice de DNA que funcionaliza a mensagem química dos genes.

Em que é que diferem aquelas quatro moléculas? Diferem em arranjos e proporções diferentes de átomos de carbono, oxigénio, nitrogénio e hidrogénio. As diferenças nas vizinhanças químicas locais na dupla hélice de DNA expressam genes diferentes, que por sua vez corporizam instruções para proteínas com funções diferenciadas e específicas. O resultado global é uma espécie de organismo diferente. Um braço peludo mais comprido, uma posição bípede mais vertical, etc.

Recorde-se, a propósito do presente Ano Internacional da Química, que se deve muito à Química (mas também à Física, à Matemática e à Biologia, entre outras disciplinas) o conhecimento que está na base da genética molecular e que permite hoje, de forma multidisciplinar, a sequenciação genómica. Vejamos, de forma breve, porquê.

Como se disse, o genoma é constituído por longas moléculas de DNA. Este foi descoberto em 1869 pelo químico alemão Johann Friedrich Miescher (1844 – 1895) no núcleo de glóbulos brancos. Miescher escolheu estas células por serem relativamente grandes e também por possuírem núcleos grandes. Esta descoberta não permitiu associar de imediato o DNA à “molécula da hereditariedade”. De facto, foram necessários cerca de mais 80 anos para que se confirmasse que são os ácidos nucleicos os componentes estruturais e funcionais dos genes. Durante todo este tempo muitos cientistas defenderam que eram as proteínas, e não os ácidos nucleicos, as moléculas de que os genes eram feitos. Parecia estranho toda a diversidade da vida poder ser codificada pela monótona constituição molecular do DNA, pelo que a genética deveria ser escrita com a maior diversidade apresentada pelas proteínas.

Duas experiências foram determinantes para esclarecer a comunidade científica sobre a "molécula dos genes".

Em 1944, o médico e bioquímico Oswald Avery (1877 – 1955) e seus colaboradores demonstraram que só o DNA (o “princípio transformador” como lhe chamaram), era “capaz” de “transformar” estirpes diferentes da bactéria pneumococo (R e S) umas nas outras.

Em 1952, o trabalho do microbiologista Alfred Hershey (1908 -1997) e da geneticista Martha Chase (1927 – 2003) colocou um ponto final e abriu um novo capítulo à genética molecular com a experiência de transferência de DNA viral (do bacteriófago T2) para bactérias, na qual ficou claramente demonstrada que era o DNA e não as proteínas a argamassa genética da vida.

Martha Chase

Em 1953, o biólogo James Watson e os físicos Francis Crick, Maurice Wilkinson e Rosalind Franklin, através dos estudos por difracção de raios X de cristais de sais de DNA, recolheram a informação física e química necessária para propor a estrutura tridimensional em dupla fita helicoidal do DNA. Note-se que esta descoberta resultou de um trabalho fundamentalmente de física e química. Diríamos hoje de biofísica e bioquímica.


Rosalind Franklin

Neste ano também dedicado às mulheres na química é de realçar nesta história que tanto Martha Chase como Rosalind Franklin não foram galardoadas com o prémio Nobel, enquanto os seus colaboradores directos o foram pelas mesmas descobertas.

António Piedade

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A primeira administração de Insulina: 11 de Janeiro de 1922



Publicado em "O Despertar":

Antes da descoberta e purificação da molécula Insulina, a doença diabética era, na maior parte dos casos, fatal!

A associação de que determinados grupos de células no tecido exócrino pancreático, identificados pela primeira vez por Paul Langerhans, em 1869, estavam envolvidos no processo digestivo e na regulação dos níveis do açúcar glicose no sangue, foi progressivamente estabelecida por várias gerações de cientistas.

Em 1889, o fisiologista Oskar Minkowski e o médico Joseph von Mering mostraram que, se o pâncreas de um cão fosse removido, o animal desenvolvia diabetes. Em 1901, Eugene Opie demonstrou a relação causa-efeito entre o estado, a integridade, dos grupos de células identificados por Langerhans (em sua honra denominados ilhéus de Langerhans) e o desenvolvimento da Diabetes mellitus.

Nas duas décadas seguintes foram várias as tentativas de tentar isolar as secreções dos ilhéus de Langerhans eventualmente responsáveis pela regulação da glicemia no sangue, mas sem sucesso clínico apreciável.

A história da descoberta está também condimentada com alguma controvérsia em torno de quem terá sido o primeiro cientista a demonstrar a acção de extractos de ilhéus de Langerhans na redução da glicemia e glicosúria. Entre eles estão cientistas como Georg Ludwig Zuelzer (1906), E. L. Scott (1911-12), Israel Kleiner (1919) e Nicolau Paulescu (1921). Este último, romeno, foi, para muitos, o primeiro cientista a descobrir a insulina, mas “problemas” no registo e patente da sua descoberta impediram que fosse galardoado com o prémio Nobel pelo seu trabalho.

De facto, o comité Nobel atribuiu em 1923 o Prémio Nobel da Fisiologia ou Medicina a Frederick Banting e a J. J. R. Macleod pela sua descoberta da insulina e sua administração num humano diabético. Estes laureados, descontentes com a decisão do comité Nobel, dividiram o reconhecimento com outros dois cientistas que, segundo eles, tinham sido decisivos no isolamento e purificação da insulina: Charles Best, assistente de Macleod, e o bioquímico Bertram Collip, convidado por Banting para o trabalho laboratorial “pesado” de isolamento e purificação.

Deve-se a Collip a obtenção do primeiro extracto de insulina purificado a partir de ilhéus de Langerhans de fetos de bezerro. Esta foi a fonte para o extracto a ser utilizado no primeiro ser humano a ser injectado com insulina: Leonard Thompson. Com 14 anos de idade, o adolescente diabético foi injectado pela primeira vez no dia 11 de Janeiro de 1922 (há 89 anos) com um extracto impuro, o que lhe causou uma reacção alérgica severa.

As injecções foram suspensas enquanto Collip não conseguiu melhorar o protocolo experimental e conseguir purificar o extracto. Conseguiu-o depois de 12 dias de intenso trabalho laboratorial. No dia 23 de Janeiro de 1922, Leonard recebeu uma injecção do novo extracto purificado, o que lhe retirou os sintomas diabéticos sem lhe causar reacções e complicações indesejadas.

Foi um sucesso das ferramentas laboratoriais químicas aplicadas à saúde e o início de uma nova era na bioquímica clínica. A Diabetes mellitus deixava de ser uma doença fatal e passava a ser uma doença crónica. O conhecimento bioquímico conquistava qualidade de vida onde antes a esperança morria doce.

António Piedade

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

(≈) 2400 ANOS DE ATOMISMO!



Breve apontamento saído no "Diário de Coimbra".

Demócrito de Abdera (cerca 460 a.C. a 370 a.C.), filósofo grego, foi o principal expoente da escola atomista da cultura helenista. Segundo ele, o cosmos que nos rodeia é formado por um número incontável de átomos, partículas finitas e indivisíveis. O movimento dessas partículas fundamentais, de que todas as coisas seriam feitas, tem implícito a ideia da existência de vazio. Sem este vazio o movimento das partículas não seria possível, terá deduzido Demócrito. Este atomista explicava ainda a diversidade e o estado da matéria através da sua constituição por diferentes associações de átomos.

Cerca de 2400 anos depois, Rutherford coordenou a experiência científica que aprofundou a ideia sobre os átomos de Demócrito: os átomos não são partículas fundamentais mas têm núcleo e electrões que se movem num enorme “vazio”. Rutherford acrescentou substância qualitativa e quantitativa ao átomo através do seu modelo atómico.

Se hoje celebramos este avanço no conhecimento científico, fruto do método experimental, não podemos de deixar de referir a ideia antiga sobre a constituição do Universo. Até porque o atomismo de Demócrito "fertilizou" todo o novo pensamento científico moderno, pelo menos a partir de Galileu Galilei.

António Piedade

Ano Internacional da Química



Apontamento publicado no "Diário de Coimbra".
(na figura, Marie Curie)

O ano de 2011 foi proclamado Ano Internacional da Química na Assembleia Geral das Nações Unidas ocorrida em Glasgow, Escócia, no verão passado. Sob o lema “Química – a nossa vida, o nosso futuro”, os diversos eventos que decorrerão sob a égide desta atribuição serão coordenados e organizados pela União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC) e pela UNESCO.

Com o objectivo de “celebrar as contribuições da química para o bem-estar da humanidade”, a simultaneidade deste ano com as efemérides dos 100 anos do modelo atómico de Ernest Rutherford e do centenário da atribuição do Prémio Nobel da Química a Marie Sklodowska Curie (primeira mulher galardoada com um Nobel) pela sua descoberta dos elementos rádio (Ra) e polónio (Po) oferece-nos imediatamente dois pontos de reflexão.

Por um lado, a ubíqua difusão da Química em tudo o que nos rodeia, desde alimentos a medicamentos, desde plásticos aos satélites artificiais que procuram existência de vida em sistemas planetários nos confins do universo, analisando os espectros de luz irradiada ou reflectida por corpos celestes e que são interpretados com base no modelo atómico. Em particular, o "século do plástico" foi-o por causa dos avanços na Química dos Polímeros.

Por outro lado, reflectir sobre a incontornável contribuição das mulheres para o desenvolvimento científico, pelo menos ao longo do último século.

O Departamento de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra vai promover um programa de eventos durante este ano (QUI365), o que, pela sua regularidade para além de ser uma iniciativa louvável , é também uma demonstração do modo como o conhecimento químico deve e tem de estar cada vez mais próximo dos cidadãos para que estes entendam melhor as transformações do mundo em que vivem, a partir dos átomos de que é feito.

António Piedade

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

ÁTOMO CENTENÁRIO



Crónica publicada no "Diário de Coimbra":

(Na figura mostra-se uma imagem de uma monocamada de ouro, sobre uma superfície de mica, obtida por AFM. microscópio de força atómica).

Comemora-se neste ano de 2011 o centenário do modelo atómico proposto pelo físico Ernest Rutherford (1871-1937), prémio Nobel da Química em 1908. O seu modelo sobre a unidade fundamental da matéria propunha um átomo constituído por um núcleo central, pequeno e denso, carregado positivamente, ao redor do qual “orbitavam” electrões, partículas carregadas negativamente. Cem anos depois, este modelo continua a ser uma boa aproximação à natureza do átomo. De certa forma tal como a teoria da gravidade de Newton continua a ser suficiente para os cálculos que nos permitem enviar um satélite até à Lua.

O "modelo planetário” do átomo foi uma das manifestações da aparente semelhança entre a organização do microcosmos, o átomo, e os sistemas planetários cósmicos, espalhados pelo Universo e dos quais o nosso sistema solar é o exemplo mais imediato. Indicou que há muito espaço vazio entre os núcleos e os electrões na matéria comum, assim como o há entre as estrelas e os planetas que as gravitam. E deixou espaço para a descoberta...

Rutherford construiu o seu modelo a partir da seguinte experiência: Hans Geiger e Ernest Marsden, sob a orientação de Rutherford, fizeram colidir um feixe de partículas alfa (Rutherford tinha mostrado tratarem-se de núcleos de hélio) contra finas camadas de folhas de ouro, com a espessura de apenas alguns átomos. Os resultados mostravam que a quase totalidade das partículas alfa atravessavam as folhas de ouro sem sofrer qualquer desvio na sua trajectória. Contudo, cerca de uma partícula alfa em cada 8000 sofria um desvio com um ângulo superior a 90 graus. Ou seja algumas invertiam o sentido da sua trajectória. Este desvio é compreendido se se considerar que ele resulta da repulsão electrostática entre a partícula alfa e um núcleo atómico carregado positivamente. A percentagem muito baixa de partículas desviadas sustentava a hipótese de os núcleos positivos ocuparem um volume muito pequeno em cada átomo na rede cristalina da folha de ouro. Com quase toda a massa e toda a carga positiva concentrada num núcleo muito pequeno (em relação ao volume total do átomo), quase todas as partículas alfa atravessam a folha de ouro sem sofrerem grandes desvios na sua trajectória.

O modelo atómico de Rutherford foi o marco fundador da Química e da Física Nuclear. Com ele deu-se uma revolução do nosso entendimento da estrutura da matéria. A tecnologia que derivou desse modelo atómico alterou a nossa forma de viver no século XX e permitiu, por exemplo, a invenção de computadores que hoje utilizamos para nos ligarmos em rede global através da internet.

António Piedade

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Newton e a Lua


Excerto do meu livro "Física Divertida", que se encontra em 7.ª edição na Gradiva:

Existem em física muitas histórias tão lendárias como a da queda das pedras na Torre de Pisa. Uma das lendas mais famosas é a da maçã de Newton, que, ao que parece, foi inventada pelo próprio para assegurar a prioridade da sua descoberta da gravitação universal.

Isaac Newton teve um dia de se refugiar na sua região natal de Lincolnshire, no coração de Inglaterra (tinha-se declarado a peste - a SIDA daquela época - na cidade universitária de Cambridge, e era melhor proteger-se no isolamento no campo). Estava Newton sentado debaixo de uma macieira, talvez a amadurecer as suas ideias, quando lhe caiu inopinadamente uma maçã em cima da cabeça. Certamente que a maçã estava demasiado madura. Ao mesmo tempo, a Lua brilhava poeticamente nos céus. Fez-se então luz no espírito de Newton, que compreendeu nesse preciso momento (quando balbuciou "aha!") que a força causadora da queda da maçã na sua cabeça era do mesmo tipo da que fazia a Lua mover-se em volta da Terra.

Nascia assim a física, tal como hoje a conhecemos, como uma tentativa de unificar vários fenómenos naturais aparentemente distintos. Pergunta: porque é que a Lua não caiu na cabeça de Newton? Ou melhor, para tornar a questão mais interessante e actual, porque é que a Lua não cai nas nossas cabeças?

Em primeiro lugar, é oportuno um comentário para expressar satisfação: ainda bem que a Lua não caiu porque nesse caso teria sido não apenas o princípio mas também o fim da física. Newton criou a física nesse instante de inspiração, em que a maçã lhe fez compreender que os fenómenos do céu eram regidos pelas mesmas leis que os fenómenos da Terra. A física começou pois com uma maçã, à semelhança do pecado que, segundo o relato bíblico, começou também com uma maçã. A lenda só não conta se Newton comeu a sua maçã tal como Adão...

O facto de a Lua não cair nas nossas cabeças explica-se facilmente invocando as condições iniciais. O movimento de um qualquer objecto é determinado, como já foi referido, não apenas pela força que sobre ele actua, mas também pelas condições no início do movimento. E a Lua é um objecto como outro qualquer: como uma pedra, uma galinha, uma pena, uma bola, uma bomba ou até uma maçã.

Não há nada como uma analogia, mesmo que grosseira, para entender a situação: se dermos uma palmada nas costas a alguém, duas coisas podem acontecer, conforme a "condição inicial" da pessoa que foi importunada. Ou a pessoa está bem disposta (a sua "condição inicial" é estar bem disposta), e não responde, limitando-se a sorrir. Ou está mal disposta (a sua "condição inicial" é estar chateada) e responde com outra palmada de volta. Uma força igual teve portanto efeitos diferentes...

Analogamente, a força da gravidade sobre a Lua pode fazê-la cair apressadamente nas nossas cabeças ou fazê-la girar tranquilamente à volta da Terra. Ninguém sabe muito bem como é que a Lua surgiu. Quando a humanidade apareceu já a Lua cá estava... Hoje em dia, cada cabeça científica escolhe a sentença mais convincente. Existem três hipóteses clássicas. Há quem diga que a Lua foi companheira da Terra, desde os mais remotos primórdios do sistema solar. Há quem diga que uma parte da Terra (talvez onde é hoje o Oceano Pacífico) se separou a certa altura para formar a Lua. E há até quem afirme que a Lua foi um corpo estranho que colidiu com uma Terra existente anteriormente.

As amostras de rochas lunares trazidas pelos astronautas norte-americanos foram datadas com suficiente rigor, usando a radioactividade natural. As mais velhas têm cerca de 4 mil milhões de anos. Sabe-se hoje que a Lua tem aproximada¬mente a idade da Terra, cerca de 4,5 mil milhões de anos, remontando ambas às origens do sistema solar (quer isto dizer que o Sol tem também, mais ou menos, essa idade). Contudo, a Terra e a Lua nem sempre foram vizinhas como são hoje. A teoria actualmente mais plausível é a indicada pela terceira hipótese. A Lua teria resultado de um violento choque da Terra com um astro vindo de fora, ficando os dois corpos a mover-se nas órbitas que hoje conhece¬mos. Embora não se saiba muito sobre o início da Lua, sabe-se de certeza uma coisa: a Lua teve uma condição inicial que a levou a permanecer em órbita da Terra desde há vários milhões de anos. Teve pois uma condição inicial "feliz". Há planetas que têm condições iniciais "infelizes", porque acabam por colidir e desaparecer. E há outros que sobrevivem. A Lua teve uma condição inicial que a levou a sobreviver, mantendo-se em órbita em torno da Terra.

O que aconteceria se um ser, muito poderoso, parado, pegas¬se na Lua e depois simplesmente a largasse? Não existem dúvidas: então a Lua cairia mesmo sobre a Terra. É um problema simples de física (embora alguns estudantes de física geral o achem complicado) calcular quanto tempo é que a Lua demoraria a cair sobre as nossas inteligentes cabeças. Podemos imaginar uma macieira gigantesca, cujos frutos sejam luas. Se o pé da nossa Lua cedesse (no caso, a macieira tem um único fruto, mas há planetas com muitas luas, como Saturno, que tem pelo menos 18), ela cairia, madura, sobre a Terra.

Newton considerou o movimento de um projéctil para várias condições iniciais (o projéctil tanto pode ser um obus de um canhão como uma maçã). Esses desenhos mostram como é que se "transforma" uma maçã numa Lua. É simples. Em vez de se esperar que a maçã caia de podre, dá-se-lhe um pipa¬rote, comunicando-lhe uma pequena velocidade inicial na horizontal. Então a maçã já não cai na cabeça de Newton mas um pouco à frente do respectivo nariz. Se se transmitir à maçã um impulso ainda maior, ela cai ainda mais longe, uns metros à frente de Newton. Dispare-se a maçã com uma boa espingarda (se se conseguir arranjar uma espingarda de disparar maçãs), que ela vai eventualmente cair meio quilómetro à frente (um bocadinho chamuscada pelo tiro, mas cai). Lance-se depois um foguete de mandar maçãs e a maçã pode muito bem, já que a Terra é redonda, dar a volta à Terra e voltar por detrás de Newton. Regressa ao ponto de partida com a mesma velocidade inicial. Esse fenómeno é possível em princípio mas impossível na prática em virtude da resistência do ar, das montanhas da Terra, etc. Suponhamos, portanto, uma situação ideal. O pobre Newton veria, atónito, a maçã aparecer-lhe por detrás...

É um exercício de física geral, que costuma sair nos exames, saber qual tem de ser a velocidade inicial para a maçã ficar em órbita circular e quanto tempo é que a maçã demora a dar uma volta completa. A resposta à primeira pergunta é 8 km/s - a maçã teria de ser muito mais rápida do que uma bala, pelo que não há espingardas capazes de a disparar assim tão rápida; a resposta à segunda questão é 1 h 23 m. Por vezes, sai nos exames um exercício um pouco diferente (e, portanto, um pouco parecido!) que consiste em saber qual é a velocidade da nossa Lua e quanto tempo demora a dar uma volta completa. As respostas são respectivamente 1 km/s, ou se se preferir 3600 km/h - que é, como vimos, a velocidade de uma bala- , e 28 dias - um mês). A Lua corre, veloz como uma bala, em torno da Terra.

Se a maçã ficasse em órbita, a Lua teria ganho uma companheira, isto é, passariam a existir dois satélites em volta do nosso planeta. Uma minhoca dentro da maçã (as maçãs podres têm minhocas, como toda a gente sabe) seria assim a primeira minhoca astronauta... A Terra teria assim duas luas (de facto, já tem muitas luas artificiais: os satélites de comunicações são uma espécie de maçãs que se lançaram no espaço). Do ponto de vista da mecânica de Newton, a única diferença entre a Lua e a maçã é o raio da respectiva órbita circular e portanto a velocidade de revolução - os corpos em órbita mais perto da Terra andam com maior velocidade e têm um menor período (o período é o tempo que um objecto demora a dar uma volta completa). A Lua não é mais do que uma maçã grande, que está a "cair" sobre a Terra, de uma maneira muito peculiar. Dizemos que cai, porque, se não existisse a Terra, a Lua iria em frente, em linha recta (despreza-se para o caso a acção dos outros corpos do sistema solar). Mas cai pouco: cai só 1,5 mm em cada quilómetro percorrido. Podemos também dizer que demora um tempo infinito a cair e que, portanto, nunca chega de todo a cair na Terra. Não há razões para ter medo da queda da Lua.

Newton mostrou que a força entre Terra e Lua ou entre maçã e Terra varia na razão inversa do quadrado da distância. Deduziu isso no seu livro "Princípios Matemáticos de Filosofia Natural", publicado há cerca de trezentos anos. É essa expressão matemática que garante a estabilidade da órbita, tanto à maçã como à Lua. Pode mostrar-se que, se a força variasse com o inverso do cubo da distância, a Lua descreveria uma espiral, acabando mesmo por cair sobre a Terra. Mas, antes disso, já teria caído a Terra sobre o Sol. O sistema solar aguenta-se, no seu conjunto, porque a força é inversamente proporcional ao quadrado da distância.

Recentemente, tem-se discutido bastante a possibilidade de os corpos em queda não obedecerem exactamente à lei da gravitação universal de Newton. A chamada "quinta força" poderia introduzir pequenas modificações à descrição newtoniana da queda. Voltaram, por isso, a ser realizadas experiências de queda de objectos. Houve quem deixasse cair graves de torres especiais, com cerca de 500 m de altura, não obtendo qualquer evidência para uma gravitação não newtoniana. As antigas ideias de Newton continuam assim a ser modernas.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Filipe de Sousa Folque (1800-1874)

Post do historiador de ciência António Mota de Aguiar sobre o astrónomo e engenheiro Filipe Folque, cuja vida e obra está contemplada numa exposição no Museu da Ciência da Universidade de Lisboa:

Nem julgue Vossa Excelencia que por um astronomo contemplar mais o cêo que a terra lhe deixa esta de merecer muitos cuidados e séria attenção… (Filipe Folque)

A historiografia da astronomia portuguesa tem como figuras principais para os primeiros 50 anos do século XIX, dois importantes homens, que embora não sendo certamente os únicos, marcam indelevelmente estes anos da astronomia portuguesa. São eles Filipe de Sousa Folque e César Augusto de Campos Rodrigues. A primeira figura que se nos apresenta é Filipe Folque, nascido em Portalegre, em 1801, filho de um homem ilustre do seu tempo, também cientista, Pedro Folque, um espanhol refugiado ainda jovem em Portugal por razões religiosas, astrónomo a bordo da Marinha de Guerra portuguesa e, mais tarde, engenheiro geodésico do reino. Filipe Folque seguiu os passos do pai nos estudos científicos. Fez os seus primeiros estudos na Congregação dos Oratorianos, no Hospício das Necessidades. Cursou os estudos superiores na Academia da Marinha e terminou-os na Universidade de Coimbra, onde se doutorou em Matemática. Durante algum tempo leccionou Matemática na Universidade de Coimbra de onde foi demitido por razões políticas, tendo vivido alguns anos com dificuldades financeiras (tinha mulher e dois filhos), dando classes privadas até 1833, altura em que o regime liberal se implantou em Portugal e Filipe Folque foi nomeado professor de Matemática em 1837 na Real Academia da Marinha.

A Escola Politécnica foi criada pelo decreto de 11 de Fevereiro de 1837. No artº 74 deste decreto lia-se: “o Observatório Real da Marinha ficará anexo á Escola Polytechnica (...).” Filipe Folque foi neste estabelecimento de ensino nomeado professor de Astronomia e Geodesia, a 4ª cadeira das onze leccionadas na Escola Politécnica (onze, contando a cadeira não curricular de Navegação). As actas das reuniões do Conselho da Escola descrevem vários problemas na contratação de professores, especialmente nas áreas de Química e Filosofia, por não os haver com as habilitações requeridas para o exercício da actividade docente. Todavia, o provimento do docente da 4ª cadeira não encontrou nenhum obstáculo. Folque foi aceite sem nenhuma oposição, a sua docência já vinha aliás da Academia da Marinha.

Folque foi um eminente cientista na área da geodesia, tendo publicado vários trabalhos, com realce para a “Carta Geodésica” do reino, publicada em 1867, a “Carta Corográfica” do país, minucioso trabalho de todos os acidentes geográficos do território nacional, os “Planos Hidrográficos” dos principais portos e barras do reino e a “Carta Geográfica” das costas de Portugal. Homem viajado, fez parte por duas vezes da comitiva que acompanhou os reis D. Pedro V e D. Luís I, nas viagens de instrução pela Europa dos dois, na altura, ainda príncipes, tendo tido a oportunidade de visitar os principais observatórios astronómicos da Europa; além destas viagens como, diríamos hoje, conselheiro científico do Rei, coube-lhe também a tarefa de preceptor dos dois príncipes.

Em 12 de Dezembro de 1875, um ano após a sua morte, ocorrida em 24 de Novembro de 1874, o lente de Astronomia da Escola Politécnica, José Maria da Ponte Horta, lia na sessão pública da Real Academia das Ciências o seu elogio histórico, enumerando os “sucessos humanos” que em vida o cientista tinha obtido:

Filipe Folque, general de divisão; doutor em mathematica; gran-cruz da ordem de S.Thiago da Espada; commendador da ordem de Nossa Senhora da Conceição de Villa Viçosa, de Aviz, e de diversas ordens estrangeiras; par do reino; director geral dos trabalhos geodesicos, hydrographicos, chorographicos e geologicos; organisador e chefe do observatorio astronomico da Ajuda; lente jubilado da Escola Polythecnica de Lisboa; socio effectivo d’esta Real Academia (...).”

Folque foi também um grande astrónomo; não foi um homem inclinado para a investigação astronómica de ponta, que se fazia na Europa, nem tão pouco um seguidor da astronomia de posição, no sentido que tenha deixado observações dos astros e que as mesmas, como veremos mais adiante, tenham sido transferidas para grandes centros internacionais de observação astronómica. Filipe Folque não foi o observador astronómico atento, como foi Campos Rodrigues, foi sim um eminente professor de Astronomia, na Academia da Marinha e na Escola Politécnica, tendo nesta última elaborado o curso de Astronomia, escrito pela sua própria mão. Segundo Horta:

“Se o talento do dr. Filippe Folque não foi inventivo, foi por ventura mais util no sentido social, por que foi pratico e assimilador,” e “cujos attributos principaes são o methodo, a lucidez, o rigor (…)”

Folque foi também um importante cientista geodésico do reino, a quem o Portugal de hoje deve as primeiras importantes medições do país: a forma, a natureza, a posição, e as dimensões de Portugal, tendo aplicado em astronomia a mesma lucidez e rigor que utilizou em geodesia. Devemos, por isso, destacar o seu empenho como professor da Academia da Marinha e da Escola Politécnica, a luta travada na dignificação do Observatório da Marinha, do qual se tornou o director por decreto de 24 de Dezembro de 1855 e, anos mais tarde, principal mentor da construção do Observatório da Ajuda.

Folque foi um intelectual honesto e competente, zeloso cumpridor das suas tarefas profissionais. Foi também um divulgador da ciência, sobretudo da astronomia, tendo lutado para a criação de um observatório astronómico em Portugal; foi por isso, como dissemos, um mentor importante da criação, na Tapada da Ajuda, do Observatório Astronómico de Lisboa. Foi um atento divulgador e dinamizador da Astronomia em Portugal, e não tem comparação no terceiro quartel do século XIX com nenhum outro astrónomo, exceptuando Campos Rodrigues.

Pelo esforço que empenhou na recuperação do Observatório da Marinha e na criação do Observatório da Tapada da Ajuda, pelos conhecimentos que colocou como professor ao serviço da astronomia, vemo-lo como o grande impulsionador da astronomia em Portugal neste quarto de século XIX.

Em 1866, escrevia:

“Depois de tudo quanto acabâmos de referir, parece impossível que Lisboa, a capital dos descobridores do oriente, continuasse a ter por observatório astronómico em 1856 o mesmo observatorio real da marinha, no estado de abatimento em que ficou no anno de 1809, em que os seus instrumentos e biblioteca, tudo foi conduzido para o Rio de Janeiro.”

E, fazendo o ponto da situação dos estudos astronómicos em Portugal, escrevia:

“Emquanto que em Portugal, por imperdoavel incuria do governo, o estudo das praticas superiores da astronomia continuava em completo esquecimento, pelo contrario em todos os mais estados da Europa progredia com enthusiasmo o gosto pelo estudo pratico desta sciencia: os instrumentos aperfeiçoavam-se, novas maravilhas se manifestam; a sciencia astronomica sempre exigente, porque mira a perfeição, inspira na alta mecanica (...), a adquirir a quasi ideal exactidão mathematica, medindo a pequenissima grandeza de um segundo, e até das fracções de segundo! (...) os astronomos não contentes de haverem conhecido os fundamentos do systema do mundo, pretendem agora investigar quaes sejam os do universo inteiro; tentam medir a distancia da Terra ás estrellas, precisam conhecer os seus effeitos parallaticos;”

Folque encaminha aqui o seu pensamento para a observação do “muito pequeno,” que iria chegar em breve. Ele sabe que se pode estudar o “mundo,” o que aqui só pode significar o sistema solar, por oposição ao “universo inteiro,” o todo. Bateu-se pela “ideia inicial da fundação d’um observatório astronómico em Lisboa, dotado de edificio especial; instrumentos apropriados; de observadores nacionaes, e instruídos, para que também com os seus recursos Portugal podesse concorrer com os institutos, congéneres estrangeiros na resolução dos grandes problemas do estudo do céu.”

É por isso a ele que ficámos a dever em grande parte o Observatório da Tapada da Ajuda.
No seu curso de Astronomia para a Escola Politécnica, escrito em 1840, Folque chama a atenção do utilizador do mesmo para o seguinte:

“Este trabalho que sahe hoje lithographado, não pode ser tido como um Curso d’Astronomia de minha composição: he uma compilação das obras de Herschel, Delambre, Puissant, e mais que tudo de Biot: será talvez um resumo deste ultimo,” (...) “não duvido dos seus deffeitos, porque he emprehendido por um Professor, que tem tido ao mesmo tempo muitos outros deveres a desempenhar; o meu fim porem he principalmente proporcionar os meios de estudo, e diminuir o trabalho a meus descipulos.”

De facto, Folque, teve ao longo da sua vida múltiplas actividades profissionais, como a de recuperar o Observatório da Marinha, dar aulas de astronomia e geodesia, levar a cabo o seu trabalho de geodésico em várias partes do país, além de ter escrito nas décadas de 40 e 50 várias Memórias na Academia das Ciências sobre trabalhos geodésicos executados em Portugal, e além ainda de ter sido preceptor dos infantes D. Pedro e D. Luís; todo este trabalho revela os muitos afazeres que tinha, sendo por isso louváveis as preocupações didácticas do divulgador de astronomia, ao compor este curso.

António Mota de Aguiar

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

A PASSAROLA (1918)


Artigo anónimo publicado n'O Século Cómico n.º 1084, 19.08.1918, sobre a deconstrução que o Dr. Ricardo Jorge fez do mito da Passarola de Bartolomeu de Gusmão (clicar em cima para ler).

domingo, 13 de dezembro de 2009

UM MUSEU DE ASTRONOMIA EM LISBOA


Post convidado de António Mota de Aguiar:

Numa das colinas de Lisboa, com vista deslumbrante sobre o Tejo, está situado o Observatório Astronómico de Lisboa (OAL), em tempos passados também chamado Observatório da Tapada ou ainda Observatório da Tapada da Ajuda.

Seria um imponente edifício se não estivesse tão mal conservado e se os jardins à sua volta não se encontrassem num abandono total, com árvores caídas, troncos secos espalhados pela superfície envolvente, um ar de desleixo e abandono generalizado.
O lugar à noite está desprotegido – apesar das supostas entradas controladas – e,por isso, já foi assaltado, tendo sido levados objectos que certamente continham informações de astronomia importantes.

Recentemente, lemos no sítio do OAL, hoje sob a tutela da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que o Estado (em razão da crise económica), restringiu os subsídios a algumas actividades científicas e culturais, tendo o pessoal sido também reduzido.

Mas o OAL tem um potencial arquitectónico e histórico enorme. A história que levou à construção do OAL é já por si fascinante, envolvendo os grandes astrónomos europeus da segunda metade do século XIX, além do malogrado D. Pedro V e do seu irmão D. Luís, como mecenas do observatório. Em 1878, o OAL falhou um projecto internacional – “La Carte du Ciel”: o Estado português não tinha o dinheiro que teria levado os estudos em Portugal para o domínio da Astrofísica, a par de várias potências da época.

As personagens que dirigiram o OAL, desde a sua entrada em funcionamento em 1867 e pelo menos até 1930 são, elas também, importantes figuras da ciência portuguesa, num momento histórico em que a nossa astronomia atingiu um certo brilho internacional. Nomes como Frederico Augusto Oom, Campos Rodrigues, Frederico Oom e Filipe Folque, Melo e Simas, estão associados à história do Observatório e as lutas que travaram em prol da astronomia portuguesa são importantes páginas da nossa história científica.

O interior do OAL é majestoso, já que foi construído para ser um grande observatório de astronomia. No seu interior encontram-se instrumentos de precisão importantes, além de telescópios que, em tempos passados, deram grande prestígio à ciência astronómica nacional.

Talvez por o país atravessar actualmente uma crise económica, há hoje uma motória falta de apoio financeiro: possuímos um património histórico deste tipo esquecido no cimo de uma colina de Lisboa. Um observatório astronómico deste tipo não é um museu de ciência nem um planetário, pelo que requer uma análise diferente. Como contributo assinalo o que me parece relevante para pôr de pé o OAL, que, na minha opinião, devia passar a ser um museu de astronomia:

• Antes de mais era necessário fazer as obras necessárias no edifício de forma a voltar à sua beleza anterior.
• Seria necessário arranjar o jardim à sua volta.
• Construir um pequeno restaurante com esplanada no jardim.
• Fazer uma campanha junto das escolas para que elas trouxessem os alunos a visitar o museu.
• Fazer uma campanha junto das agências de viagens, para que estas dêem a conhecer este tipo de museu (haveria certamente pessoas interessadas em visitar o museu de astronomia).
• Organizar visitas guiadas, onde seria exposta a história do património arquitectónico, dos astrónomos acima citados, e da astronomia de alta precisão realizada no OAL. E uma síntese para que os visitantes compreendessem como e onde se realiza hoje a investigação científica neste campo.

Se se alegar que o Estado não tem dinheiro para recuperar o edifício nem o jardim circundante, direi que a erosão, as intempéries climatéricas e os ladrões farão o necessário para que, dentro de alguns anos, o que ficar deste espólio histórico seja irrelevante.

A actividade do museu não colidiria com as actuais actividades pedagógicas e científicas levadas a cabo pelo OAL, porque o observatório é constituído por um segundo edifício. Os dois tipos de actividade antes se complementariam.

António Mota de Aguiar

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Darwin Origem das Espécies - 1859

Comemoram-se hoje 150 anos sobre a publicação de uma das mais originais e influentes obras científicas.

Escrevi há algum tempo um texto para o catálogo da exposição do Museu da Ciência, 'Darwin 150/200', de que reproduzo aqui uma parte, como forma de comemoração da publicação da 'Origem das Espécies'. E começo com o final.


There is a grandeur in this view of life, with its several powers , having been originally breathed into a few forms or into one; and that whilst this planet has gone cycling on according to the fixed law of gravity, from so simple a beginning endless forms most beautiful and most wonderful have been, and are being, evolved.


“Há uma grandeza nesta visão da vida, com os seus vários poderes originalmente soprados em algumas formas, ou em apenas uma; e enquanto este planeta foi girando na sua órbita, obedecendo à lei fixa da gravidade, intermináveis formas, belas a admiráveis, a partir de um começo tão simples, evoluíram e continuam a evoluir.”

É com esta frase que termina a mais importante e influente obra da Darwin, a “Origem das espécies”. A frase exprime um sentido de maravilhamento pela notável obra da Natureza e pela aparente simplicidade de mecanismo que tornou tudo isso possível. Darwin sublinha que esta visão da vida é uma visão grandiosa de como formas tão simples podem ter dado origem a sistemas tão complexos como as que podemos encontrar num ecossistema de floresta tropical.

“A Origem das Espécies por meio de selecção natural, ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida” é um livro com um título demasiado longo para ser vendável. Contudo, os mil duzentos e cinquenta exemplares da primeira edição, publicada a 24 de Novembro de 1859, esgotaram no primeiro dia. E havia boas razões para isso: o livro era polémico, propunha uma revolução na perspectiva como encarávamos a natureza viva que nos rodeia, abria o caminho para uma perspectiva radicalmente nova sobre as nossas origens e evolução e revelou ser um dos mais importantes livros de sempre. Nele, Darwin sustenta que as espécies evoluíram, não foram criadas, como se pensava então, e propõe o mecanismo de selecção natural para explicar essa evolução e as adaptações dos organismos.

A revolução darwiniana é umas das mais importantes revoluções científicas, a par da revolução coperniciana. A biologia é hoje inteligível graças ao pensamento de Darwin. Como afirmou um grande evolucionista, Theodozius Dobzhansky, nada em biologia faz sentido sem ser à luz da evolução. O facto de as espécies terem evoluído a partir de um pequeno número de formas surgidas na Terra há mais de três mil milhões de anos, é actualmente incontroverso e documentado por uma imensidão de evidências. A mais forte delas é a própria informação genética, o código genético, que codifica e define cada espécie de organismos. Espécies mais próximas têm um código mais parecido. A história evolutiva pode ser contada a partir do código genético, apesar de este só ter sido compreendido há menos de 50 anos.

Um outro aspecto completamente revolucionário nas ideias de Darwin, e que deriva do primeiro, é a conclusão de que a nossa espécie resulta deste processo evolutivo, tendo evoluído de primatas que viveram no passado; nós partilhamos esses antepassados com outros primatas vivos como os chimpanzés ou os gorilas. A teoria evolutiva de Darwin forneceu a primeira explicação científica para a origem da nossa espécie. Hoje, milhares de fósseis documentam e confirmam a impressionante teorização de Darwin.

Qualquer destes princípios bastaria para colocar Darwin no centro dos maiores cientistas de sempre. Contudo, a sua actividade científica e o seu pensamento compreendem outros contributos muito importantes, como o primeiro tratado comparativo do comportamento animal e humano, como é “A expressão das emoções nos animais e no Homem”, ou ainda uma explicação para os estranhos ornamentos dos machos de muitas espécies de aves e de peixes.

A grandeza desta visão da vida

De acordo com a teoria de evolução formulada por Darwin, as espécies não são imutáveis, antes evoluem lentamente ao longo do tempo. O processo de evolução é também um processo de diversificação, pelo que as várias formas de vida na Terra - árvores, escaravelhos, ou baleias - descendem de antepassados comuns a todas. Segundo a teoria de evolução, a fina e detalhada adaptação de cada organismo a formas específicas de vida resulta de um processo adaptativo guiado pela selecção natural e não resulta de qualquer inspiração divina. Darwin não questionou a existência de uma entidade divina, mas sim a sua intervenção no processo de diversificação da vida, negando a origem separada de todas as espécies e propondo uma origem comum. A revolução molecular do final do século XX veio trazer a prova definitiva da justeza das suas ideias. Todas as espécies, das bactérias aos fungos ou aos seres humanos, possuem um mesmo mecanismo de conservação e transmissão de informação. Quanto mais próximas evolutivamente são duas espécies mais semelhante é o seu DNA, o que permite fazer uma cartografia de reconstituição da história da vida na Terra exclusivamente a partir da informação genética. O livro da vida é uma espécie de registo da evolução dos últimos três mil milhões de anos.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O MISTÉRIO DO FÍSICO DESAPARECIDO


Informação recebida do Departamento de Física da Universidade de Coimbra:

Café com Física

Estão todos convidados para a próxima abertura do Café com Física na Sala de Conferências, terça-feira 6 de Outubro, às 14h, onde o convidado é

Juan Jose Gómez Cadenas (Univ. Valencia, Espanha)

falará sobre

"Ettore Majorana meets his shadow"

Every body knows that science, like poetry, is one step short from madness. Ettore Majorana was one of the greatest sicentists of the XXth century and also ond of the most tragic figures. In 1938 he disapeared in the sea. His body was never found. Before vanishing he had postulated that the neutrino, the misterious particle invented by Wolfang Pauli and christianed by Enrico Fermi a few years before, was its own antiparticle.

A particle that is its own antiparticle reminds of a man who can't be distinguished from his own shadow. The neutrino, perhaps the tiniest bit of reality we can dream of, is still, more than 80 years after its conception to the world of ideas, as misterious as the Majorana himself.

Did Majorana die in the sea? Some scientists - some poets - prefer to think that he didn't and he lives still, retired from the World, in some remote and forgotten haven. Perhaps we will never know, but instead we may find wether the neutrino is its own antiparticle, by detecting neutrinoless double beta decay events. Those processes, whose lifetime is many orders of magnitude longer than that of the universe may hold the key to the question of the nature of the neutrino, and by extension help us to understand the cosmic asymmetry between matter and antimatter. The NEXT experiment, largely an Iberian collaboration will be one of the key knights to bring light into this fundamental question, perhaps the one to answer if Ettore Majorana will, at the long last, meet his shadow.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

História da Matemática em Portugal ganha Prémio internacional

Bernardo Mota, do Centro de História das Ciências da Universidade de Lisboa, ganhou o Prémio «Jeune Historien» da Académie Internationale d'Histoire des Sciences do ano de 2009, pela sua tese de doutoramento «O estatuto das matemáticas em Portugal nos séculos XVI e XVII».

O prémio, a mais alta distinção internacional concedida a uma tese em história da ciência, foi entregue numa cerimónia pública em Budapeste, no passado mês de Julho. No relatório de um dos proponentes do prémio (Paolo Mancosu, U. C. Berkeley, EUA), pode ler-se: "Mota’s achievement is outstanding. It is a major contribution to the history of the philosophy of mathematics; to the institutional history of mathematics and philosophy, especially (but not only) in Portugal; and to theinstitutional history of the Jesuits".



Bernardo Mota apresentou publicamente o seu doutoramento em Junho de 2008. Foram seus orientadores Henrique Leitão, do Centro de Históriadas Ciências da UL, e Arnaldo Espírito Santo da Faculdade de Letras da UL. É a primeira vez que um português é homenageado com esta distinção.

É o primeiro investigador português a ser galardoado com um prémio da Académie, referência internacional na área. O trabalho que conduziu a este prémio é profundamente original. Tendo origem num problema central da História da Matemática, Bernardo Mota descobriu e trabalhou documentação original que mostra o papel desconhecido desempenhado pela Matemática portuguesa no séc XVI. Este trabalho veio a constituir a sua Tese de Doutoramento.

Publicamos a seguir uma entrevista a Bernardo Mota, conduzida pelo Prof. Jorge Nuno Silva.

Jorge Nuno Silva (JNS): Parabéns! Diz-me: de que trata a tua tese?

Bernardo Mota (BM): A tese estuda a evolução de um antigo debate sobre o estatuto epistemológico das ciências matemáticas e a sua relação com os outros ramos do conhecimento humano. Esta discussão, que assentava numa análise contrastiva entre a teoria da ciência aristotélica e a geometria euclidiana, já vem da Antiguidade Clássica, acabando por ser introduzida nos currículos de filosofia das principais universidades europeias durante a Idade Média. Mais tarde, foi retomada no século XVI, com novo vigor e sob uma nova perspectiva renascentista. O debate ficou conhecido como a Quaestio de certitudine mathematicarum e enquadrou o processo de revisão da filosofia aristotélica e a construção da moderna cultura científica ocidental.

A tese pretende ilustrar como, ao contrário do que pensamos usualmente, a ciência moderna é o culminar de um processo iniciado na antiguidade clássica e que o conhecimento científico moderno não nasceu da oposição revolucionária a ou da negação das ideias dos autores antigos ou medievais. A ciência moderna é antes o natural desenvolvimento da especulação daqueles.

O meu trabalho procura reinterpretar a ideia que os especialistas tinham do debate histórico sobre o estatuto científico da matemática e determinar o contributo dos autores nacionais para o debate (realçando a significativa contribuição para a discussão a nível nacional e a nível internacional por parte dos Jesuítas portugueses).

JNS: Como surgiu o tema?

BM: O tema tinha de incluir estudo de tópicos usualmente integrados no corpo de saberes a que chamamos ciências puras e outros integrados na área das humanidades. Tinha de ser um tema “de ponta” meio trabalhado, ou seja, o trabalho tinha de estar relacionado um tópico unanimemente reconhecido como fundamental na história da ciência, mas para o qual não havia tratamento compreensivo e diacrónico. Tinha de ser um tema universal, mas em que a cultura portuguesa estivesse presente de forma tão peculiarmente interventiva que inflectisse de alguma forma a evolução da cultura europeia. Outra condição era o tema interessar a pessoas de muitas áreas diferentes (filosofia, história da ciência, estudos clássicos, matemática, história da educação, etc.).

JNS: Que dificuldades particulares apresentou?

BM: As principais dificuldades foram trabalhar com fontes tão diversas (textos em Grego e Latim), de épocas tão diversas (antiguidade clássica, época medieval, renascimento, séculos da chamada Revolução Científica); com textos manuscritos às vezes quase impossíveis de ler e de áreas tão diferentes (matemática: Euclides, p.e.; filosofia: Aristóteles, p.e.).

JNS: Como foi o trabalho com os teus orientadores?

BM: Óptimo. Fundamental o orientador estar tão envolvido na matéria a tratar quanto o orientando. Muito importante uma relação de trabalho muito próxima. Com o meu orientador de História da Ciência (Henrique Leitão) tive um período inicial com trabalho tutorial muito intenso (às vezes mais que uma reunião por semana) e muitos emails trocados diariamente (isso mesmo: diariamente). Foi ele quem me passou a maior parte da bibliografia fundamental ao longo destas reuniões, nem sequer a tive de procurar por mim. Muito relevante também integrar projecto(s) dirigidos pelo(s) orientador(es). Fica mais fácil trabalhar em diversas frentes ao mesmo tempo. O meu orientador da área de Estudos Clássicos foi sempre uma bóia de salvação para o Latim, o Grego e para a Cultura Clássica. Regra número um: é preciso perceber ritmos e modos de trabalho dos orientadores (é preciso que tanto quem orienta como quem é orientado puxe a carroça ao mesmo tempo); regra número 2: é preciso exigir sempre mais do orientador do que aquilo que nos é exigido por ele, o que nem sempre é fácil; regra número 3: aconselho vivamente a escolha de orientadores pluridisciplinares, com formação vasta e diversificada, entusiasmados e plenos de juventude intelectual.

JNS: Tu tens formação e profissão ligadas à Faculdade de Letras. Como é que uma pessoa como tu faz uma tese num assunto destes?

BM: Não aceitando a tradicional separação entre letras e ciências a que a escola nos habitua, forçando sempre uma formação forte nas vertentes de cultura e ciência, lutando por uma unidade dos saberes que convencionámos não existir.

Falámos também com Henrique Leitão, que não esconde o orgulho no trabalho do Bernardo.

JNS: As palavras de Mancosu impressionam: “Mota’s achievement is outstanding. It is a major contribution to the history of the philosophy of mathematics… One is struck in such a young scholar by the depth of the analysis as well as by the vision of synthesis displayed in the dissertation…”. Sei que trabalharam com grande entendimento. O que gostavas de salientar no trabalho do Bernardo?

Henrique Leitão (HL): Acerca deste trabalho e do importante prémio internacional que recebeu, em primeiro lugar, como é evidente, gostava de dar os parabéns ao autor e desejar-lhe boa sorte para o futuro. Espero que esta tenha sido apenas a primeira de muitas boas notícias que ainda vamos receber do Bernardo Mota. Mas importa observar o seguinte: trata-se de uma tese escrita em português e sobre um tema essencialmente português. Porém, nada disso foi obstáculo a que recebesse a mais alta distinção internacional para uma tese em história da ciência. Ou seja: a qualidade do conteúdo é tudo e não há razão para pensar que um trabalho só porque versa algum aspecto da história científica portuguesa tenha menos interesse internacional.

JNS: Sobre a relevância do tema versado, o que nos podes dizer?

HL: O tema desta dissertação prende-se com discussões culturais e científicas ocorridas em Portugal durante o século XVII -- talvez o século mais mal conhecido da nossa história intelectual. Como se sabe, uma certa historiografia eliminou de cena, a priori, alguns dos acontecimentos mais interessantes da nossa história científica. É evidente para todos os historiadores de ciência que uma das tarefas mais importantes hoje em dia consiste em ultrapassar esses espartilhos, que tantas vezes paralisaram historiadores de outras gerações, olhando para a nossa história científica e cultural sem baias nem preconceitos. Há ainda muito à espera de ser estudado (e premiado!, esperamos todos nós) por quem tenha o talento, a determinação e a liberdade de espírito para o fazer.

JNS: O Bernardo Mota evidenciou grande virtuosismo e versatilidade intelectual ao abordar assunto tão complexo...

HL: Esta dissertação relembra uma verdade incontornável: a história da ciência é uma disciplina difícil que exige uma preparação especial e muito exigente para ser praticada. No caso deste trabalho, sem conhecimentos avançados de latim, de grego, de matemática, de história intelectual, de filosofia, etc., nem sequer se poderia ter começado a investigação. Os investigadores (como o Bernardo Mota) que reúnem estas capacidades e talentos são sempre raros e por isso nada é mais importante do que detectá-los, treiná-los e estimulá-los.

JNS: Este prémio reflecte a existência de historiadores da ciência de qualidade em Portugal, ou trata-se simplesmente de um caso isolado?

HL: Bernardo Mota foi o primeiro português a receber o famoso «Prix Jeune Historien» da Académie Internationale d'Histoire des Sciences. Fica absolutamente claro que em Portugal há pessoas e grupos de investigação a trabalhar em história da ciência ao mais alto nível internacional.