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quarta-feira, 6 de maio de 2015

Prémios de ouro, prata e bronze atribuídos a ensaios filosóficos de alunos portugueses

Num momento em que, a nível internacional, ressurge um discurso muitíssimo afirmativo contra a organização do currículo escolar (já não "por" mas) "com" disciplinas, começando, em alternativa, a implementar-se em países europeus um modelo curricular por projectos, problemas ou fenómenos, surgem notícias como a que se segue, só possível porque... (ainda) há disciplinas, algumas delas tão fundamentais como a Filosofia.

A notícia é que nas Olimpíadas Ibero-Americanas de Filosofia (onde participam Portugal, México, Espanha, Costa Rica e República Dominicana) três alunos portugueses, José Nuno Forte, Maria Beatriz Santos e Hugo Ferreira, ganham, respectivamente, as medalhas de ouro, prata e bronze numa prova de ensaio.

Sendo eu muito pouco entusiasta de olimpíadas ligadas à educação escolar, reconheço que se trata de uma iniciativa que permite destacar o bom trabalho que se faz em certas disciplinas, neste caso, numa das que mais risco corre de exclusão do currículo.

A Associação para a Promoção da Filosofia (Prosofos) disse a respeito: "É a prova inequívoca (...) da qualidade do trabalho desenvolvido pelos professores de Filosofia no nosso país". Concordo.

E acrescentou "Estes resultados (...) reiteram a necessidade de não esquecermos a importância do pensamento, muitas vezes relegado para segundo plano, sob as ciências exatas, num momento que se assume crítico na História da nossa sociedade". Com isto (que, reconheço, é trivial dizer-se) já não concordo. As Humanidades, Artes e Ciências, todas elas, podem desenvolver capacidades que dão forma ao pensamento. Não podem estar umas contra a outras, mas umas com as outras.

À parte este pormenor (que faz muita diferença, mas é de ordem diferente desta notícia), louvo o trabalho dos professores e dos alunos envolvidos, tanto portugueses como estrangeiros, pelo entusiamo que se alia ao conhecimento, neste caso, filosófico. No seu conjunto, são a esperança de que a Escola há-de continuar no seu rumo.

Muitos parabéns!

sábado, 21 de abril de 2012

Testes intermédios de filosofia

O professor Aires Almeida faz aqui e aqui uma análise mais pormenorizada do que a minha de outros aspectos do teste intermédio de filosofia.

Volto a insistir: o melhor que hoje podemos fazer pela educação em Portugal é acabar com os exames nacionais e com toda a interferência do Ministério nas escolas, dando-lhes completa liberdade de programas, métodos e avaliações. Isto permitiria que os melhores professores desenvolvessem um trabalho ainda melhor, sem a interferência do Ministério.

Ao contrário do que é comum pensar, há muitos professores muitíssimo competentes no país - e talvez muitos mais ainda muitíssimo incompetentes. Mas se forem estes últimos, como tem acontecido quase sempre, a fazer exames nacionais, directrizes educativas e programas, a situação é desastrosa porque prejudicam o trabalho dos professores que prezam o profissionalismo e a competência, que gostam de ensinar e de estudar. Na verdade, há até uma tendência para que sejam os piores professores a trabalhar para o Ministério, pois a razão disso é que são precisamente eles que estão dispostos a fazer tudo para fugir do que menos gostam, que é ensinar os alunos e estudar para poderem ensinar melhor. De modo que numa situação centralista, como a que temos, é quase inevitável que quase tudo o que emana do Ministério da Educação seja o reflexo não do melhor que temos no país, mas precisamente do pior. Ou será que estou a ver mal?

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Com exames assim não vamos longe

No teste intermédio de filosofia do Ministério da Educação português, que se pode ler aqui, encontrei os seguintes erros:
  1. No item 1.2 do Grupo II o aluno tem quatro escolhas para completar a frase "Num argumento, denominam-se premissas...". Acontece que nenhuma das alternativas dada aos alunos está correcta. A alternativa que os autores da prova pensam que está correcta é a C: "...as proposições que justificam a conclusão". Isto está errado porque num argumento inválido as suas premissas não justificam a conclusão - apenas pretendem justificá-las, mas fracassam nesse desígnio.
  2. No item 1.3 do mesmo grupo a alternativa correcta, "a conclusão deriva necessariamente das premissas", tem falta de precisão pois "deriva necessariamente" é um pleonasmo -- quando uma proposição deriva de outra ou outras, deriva necessariamente, pois a relação de derivação entre premissas e conclusão é algo que ocorre apenas quando não há qualquer circunstância em que as primeiras sejam verdadeiras e a última falsa.
Pior do que os erros de pormenor, contudo, é o facto de a prova não avaliar qualquer competência filosófica última; apenas avalia competências filosóficas instrumentais. A compreensão dos conceitos e ideias dos filósofos é meramente instrumental para aprender a raciocinar filosoficamente. Avaliar apenas essa compreensão, mas não aquilo que constitui a sua finalidade seria como avaliar, no futebol, não a competência para jogar jogos de futebol, mas antes exercícios de flexões e corrida, que certamente fazem parte do treino dos futebolistas, mas não constituem a finalidade deste.

Para se fazer tolices destas, ainda por cima a nível nacional, mais vale acabar com os exames nacionais e deixar os filhos de cada qual entregue às arbitrariedades dos seus professores e escolas - desse modo, pelo menos alguns terão a sorte de ter professores competentes, que irão prepará-los com carinho e rigor para o que é crucial em filosofia, ao passo que com exames nacionais deste cariz todos são vítimas da incompetência educativa nacional costumeira. Ou será que estou a ver mal?

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

O que significa "ideologia"?

Em comentário ao texto Não sacrifica as elites, o leitor Carlos Lopes Pires, co-autor do blogue Dúvida Metódica, faculta-nos o esclarecimento equívoca noção de Ideologia. Agradecendo a atenção e com sua autorização, adaptámos o texto que publicou aqui.

A palavra ideologia não assume sempre a mesma conotação: por vezes é utilizada com um sentido positivo, outras vezes com um sentido negativo.
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Pode remeter para um conjunto de ideais e princípios, ou seja, ideias acerca do modo como as coisas deveriam ser, nomeadamente na política. Por exemplo: o socialismo e o liberalismo são ideologias políticas. Dito por outras palavras: “qualquer sistema abrangente de crenças, categorias e maneiras de pensar que possa constituir o fundamento de projectos de acção política e social é uma ideologia: um esquema conceptual com uma aplicação prática” (Blackburn, 1997, 219).

Mas pode remeter também para um conjunto de preconceitos, de ideias anteriores à experiência e à análise crítica e racional e que, nas palavras de Blackburn (1997, 219), funcionam como “uma espécie de óculos que distorcem e dissimulam” a realidade. Nesta acepção, a ideologia leva a ajustar os factos à teoria e não a teoria aos factos, ou seja, é uma maneira de pensar que deturpa e ilude.

Nem sempre é óbvio se estamos perante o primeiro ou no segundo sentido de ideologia. Sucede por vezes que os adversários de uma ideologia no primeiro sentido (por exemplo, alguns socialistas quando criticam o liberalismo ou alguns liberais quando criticam o socialismo) a tentam reduzir ao segundo sentido.

E, em certos casos, são os próprios defensores de uma ideologia a fazer essa redução do primeiro ao segundo sentido: agarram-se tão cega e teimosamente aos seus ideais que estes se tornam meros preconceitos - ideias cristalizadas incapazes de explicar o mundo e as suas mudanças, repetidas com convicção e paixão mas de modo acrítico.

Poderemos dizer que “a marca segura de ideologia, tanto na ciência e filosofia como na política, é a negação de factos óbvios” (McGinn, 2007, 63).

Carlos Lopes Pires

Obras referidas:
- Blackburn, Simon (1997). Dicionário de Filosofia. Lisboa: Gradiva
- McGinn, Colin (2007). Como se faz um filósofo. Lisboa: Bizâncio.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Primitivismos como utopias

Nacontinuação do texto Rousseau segundo Barzun: O Bom Selvagem como abstracção.

No último século ligou-se directa e indubitavelmente a ideia de Bom Selvagem às teorizações de Jean Jacques Rousseau (1712 - 1778). Jacques Barzun considera tal ideia, que assume na nossa cultura o estatuto de culto, muito anterior a este filósofo. A verdade é que, regredindo na História do Pensamento Ocidental, ela perde-se no tempo. Ainda assim, Barzun procura acompanhar a sua evolução e expressão. Sigamos o seu raciocínio...

“O selvagem com o seu credo simples, é saudável, sereno e altamente moral, um ser mais merecedor do que o homem civilizado que se vê obrigado a ludibriar e a urdir intrigas para prosperar. Nos finais do século XVIII assiste-se ao regresso desta esperança utópica; nos finais do século XIX, Edward Carpenter dá-lhe voz na obra Civilization: Its cause and cure; e na década de 60 do século XX o tema reaparece associado à rebelião dos jovens, que procuram a vida simples em comunidade, ou que, enquanto «Flower People», defendem o amor como único e suficiente elo social” (página 18).

“Em resultado da batalha por almas e corpos que Las Casas e outros combateram em Madrid e na Nova Espanha para proteger os nativos maltratados, deu-se o reviver de uma velha ideia. O romano Tácito,
recordar-se-á, tinha descrito as tribos germânicas do século I de maneira a fazer corar de vergonha os cidadãos de Roma. Essas tribos levavam uma vida simples, em que a honestidade, o amor, a verdade, a coragem e a lealdade eram tão normais como a falsidade, o ludíbrio, a traição e o medo cobarde da morte na civilização. Este contraste foi exemplificado para o século XVI por um certo número de tribos americanas – pelo menos tal como elas se afiguravam aos observadores situados a cerca de 5000 quilómetros de distância. Assim surgiu a figura do Bom Selvagem, que desde então tem fortalecido os sucessivos PRIMITIVISMOS
(...)"

"Note-se que essa noção remonta virtualmente a Colombo, que no seu primeiro relato faz alusão à vida simples dos nativos (...)"

Factos posteriores deste género inspiram todas as Utopias, a começar pela de Thomas More, na primeira década do século XVI. Sendo assim devíamos tentar separar o Bom Selvagem do nome de Rousseau, que se destacou 200 anos depois e que não tinha qualquer simpatia por esta figura imaginária” (página 123).

“… modificar a noção dos povos ocidentais sobre as suas origens. Durante 1000 anos, tinham-se considerado filhos e filhas dos antigos romanos. Agora a ideia de raças diferentes substituía a de uma linhagem comum. O fundamento desta mudança é claro: ela está em paralelo com o fim do império e com o surgimento das nações (…) A partir desta nova perspectiva, um novo grupo de palavras ganhou notoriedade: normando, lombardo egodo (…). Além disso, cresceu a convicção de que o carácter de um povo é inato e imutável. Se os seus traços parecem estranhos ou odiosos, a teoria da raçajustifica a inimizade perpétua. Chegamos assim a alguns dos habituais preconceitos e hostilidades do nosso tempo. «Raça» acrescentou a ideia secular de diferença inata à ideia teológica de pagão e cristão" (página 123).

Referência: Barzun, J. (2003). Da Alvorada à Decadência: De 1500 à Actualidade - 500 Anos deVida Cultural do Ocidente». Lisboa: Gradiva

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Apontamentos para a compreensão da polémica António Sérgio (1883-1969) vs. Abel Salazar (1889-1946) - II


Conclusão do post de António Mota de Aguiar sobre a polémica entre os dois grandes vultos da cultura portuguesa (na foto Abel Salazar):

O que distingue as posições destes dois homens na sociedade portuguesa de então é que António Sérgio se posiciona como filósofo criacionista e Abel Salazar como agnóstico, neo-positivista, defensor da ciência contra a metafísica.

Já dissemos aqui que António Sérgio foi um homem insubmisso e livre, mas Abel Salazar não o foi menos. Abel Salazar defendeu sempre com firmeza férrea as suas teorias, estruturando o seu ideário "em princípios abertos, em afirmações condicionais, em obstáculos epistemológicos que o revelam como um intelectual de acentuado pendor crítico…" (Norberto Ferreira da Cunha, Génese e Evolução do Ideário de Abel Salazar, Imprensa Nacional Casa da Moeda)

António Sérgio privilegiou o ensaio como forma de comunicação o que, como aqui já escrevi, dificulta a sistematização do seu pensamento. Daí que a obra de António Sérgio, em matérias filosóficas e científicas, ofereça grande discordância.

Magalhães Vilhena, que estudou a obra de Sérgio, atribui um carácter "ideal" à génese do ideário filosófico de António Sérgio, salientando que "o misticismo presente no idealismo sergiano aponta para fontes distintas das científicas".

De resto, várias vezes António Sérgio afirmou que as "ideias-relações-formas-estruturas" existiam fora do espaço e do tempo, o que revela o aspecto criacionista no seu pensamento.

Transcrevo a seguir este pequeno trecho das Cartas de Problemática, § 2, 5.ª Carta (a meio) que António Sérgio nos legou como seu pensamento:

"… o pensamento unitivo do verdadeiro místico (o que afirma a Unidade e a adesão à Unidade, ou aquele íntimo «amor intelectual de Deus», à feição de um Espinosa)…O essencial da filosofia, como a tenho eu entendido, é uma reflexão sobre as actividades espirituais do homem, designando por «espiritual» o pensar des-subjectivado, o pensar des-individualizado, o que tende pois para o absoluto, - tomando consciência de uma des-egocentrização da física que me parece acompanhar uma des-sensibilização da matemática." (…)

Num outro trabalho seu (Considerações sobre o Problema da Cultura), Sérgio diz-nos que:

"O mundo externo, tal como é dado pelas sensações, (…) não existe fora do sujeito pensante"

Carlos Leone (in O Essencial sobre António Sérgio) sintetizou a filosofia de Sérgio em quatro pontos. Saliento aqui o segundo:

"O conhecimento que temos do mundo exterior e, por maioria da razão, do próprio domínio da consciência é uma construção ou representação mental, isto é, todo o conhecimento é actividade mental, ainda que nem toda essa actividade seja consciente ao sujeito."

Nascidos em berços distintos, percorreram caminhos na vida diferentes um do outro, optando por filosofias também diferentes. Enquanto Sérgio se afirmou como criacionista, rebuscando no seu cérebro esquemas intelectuais que postulou como teorias filosóficas, Abel Salazar aderiu ao neo-positivismo, ultrapassando-o mesmo, ao veicular a falência da metafísica. Esta falência constituiria um golpe mortal no pensamento filosófico de Sérgio, um golpe que este não podia aceitar, já que toda a sua filosofia ficaria em causa.

Na década de 40 do século XIX Auguste Comte propôs o positivismo, doutrina filosófica marcada pelo optimismo de que o desenvolvimento da ciência e da tecnologia iria desembocar numa sociedade de bem-estar generalizada. A doutrina positivista combateu as concepções idealistas e espiritualistas da Natureza, afirmando-se anti-teológica e anti-metafísica. Foi durante estas décadas que se assistiu em Portugal à implantação progressiva da corrente republicana que, adoptando em larga medida com o positivismo, se tornou na corrente filosófica mais influente no seio da intelectualidade portuguesa. Diga-se contudo, que António Sérgio não pertenceu a este movimento, nem tão pouco era afecto à República. “Para mim a Monarquia vale a Republica”, escreveu ele a Raul Proença. Até ao fim da década de 1910 Sérgio manteve uma vida republicana apagada.

No século XX, o positivismo evoluiu para o neo-positivismo fundado pelo Círculo de Viena. Como pilares de importância capital nas reflexões desta corrente filosófica, destacam-se a Teoria da Relatividade, a Mecânica Quântica e a Lógica Matemática. Não é pelo fato de Abel Salazar defender o neo-positivismo que os dois homens estiveram em desacordo, uma vez que o criacionista Leonardo Coimbra foi um importante relativista, defensor portanto de um dos pilares do neo-positivismo.

Tiro como ilação que o que profundamente separa os dois homens não é a problemática da divulgação da ciência, nem tão pouco o neo-positivismo, mas a crença ou não na metafísica. Para Sérgio havia a esperança do advir de um Deus redentor, para Abel Salazar havia… o desconhecido. É claro que, nas primeiras décadas do século XX, estas duas maneiras de ver a existência humana – tão extremadas como eram – implicavam posições sócio-políticas bem acentuadas e bem diferentes, que se alicerçaram nos berços tão diferenciados em que cada um deles nasceu.

António Mota de Aguiar

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

ESTÁ À VISTA O FIM DA FÍSICA?


No jornal "Público" de domingo passado o filósofo Fernando Belo perguntou-me:
"Uma tribo de milhares de físicos, suspensa dum acontecimento anunciado numa máquina de 27 km de percurso. Se se provar que o famoso bosão de Higgs existe (embora sem 'aparecer'), a pergunta ingénua que faz o leigo é: e depois, a Física fica completa, acaba?"
Respondo neste espaço. Não, não está de maneira nenhuma à vista o fim da Física, quer apareça, quer não apareça a partícula de Higgs. Não sendo especialista na área, tenho defendido o fantástico empreendimento que a numerosa "tribo" de físicos tem realizado no CERN, entre a Suíça e a França. Trata-se de um exercício colectivo de física fundamental, da união internacional de esforços para verificar se uma dada peça prevista pelos físicos teóricos para compreender a existência de massa de partículas existe ou não no nosso Universo. Ninguém melhor que o Nobel da Física Steven Weinberg afirmou a propósito da nossa necessidade da Física fundamental: "O esforço para compreender o Universo é uma das poucas coisas que eleva a vida humana acima da comédia e lhe confere um pouco da dignidade da tragédia.” Não penso que tenha sido bom para a ciência a não-notícia que foi, há dias, o anúncio em Genebra da não-descoberta (até agora) do Higgs. Esta partícula só merecerá uma conferência de imprensa quando, de facto, for notícia. Pode ser que o venha a ser. Ou pode ser - surpresa, surpresa! - que não. A Física avançará tanto num caso como noutro. No primeiro caso, por se assistir mais uma vez a uma confirmação de um modelo da Física teórica, baseado na matemática (e, mais atrás, em conceitos de simetria) e que explica um grande número de dados experimentais. No segundo caso, por ser necessária uma alternativa a esse modelo, havendo já candidatos ao lugar.

Será que está à vista o fim da Física de partículas? Stephen Hawking pensou isso no final do século passado, mas esse foi um daqueles pensamentos de fim de século que a posteridade não terá dificuldade em desmentir. Não está à vista se existir o Higgs, pois a sua não descoberta até agora está longe de ser o único problema do modelo-padrão de que hoje dispomos para descrever partículas e interacções a um nível fundamental. E também não está, por maioria de razão, se não existir o Higgs. O mecanismo para providenciar a massa poderá ser outro, abrindo novas possibilidades à Física de partículas. E é possível, mesmo provável, que a nova máquina nos dê nova física: por exemplo, nos dê esclarecimentos sobre a energia escura do Universo, um dos maiores mistérios da astrofísica. De qualquer modo, a física é muito maior do que o capítulo dela que descreve as partículas e suas interacções. Mesmo havendo uma "teoria de tudo" não se poderá com ela descrever tudo. A "teoria de tudo" coroa uma perspectiva reducionista que, nas últimas décadas, tem vindo a ser ultrapassada com avanços notáveis no estudo de fenómenos emergentes da matéria, isto é, de propriedades que se manifestam na colectividade e não no indivíduo.

Pode-se fazer a pergunta a um nível mais geral: Estará à vista o fim da Física? Na minha opinião e na da grande maioria dos físicos não de maneira nenhuma. A história da ciência mostra que, quando se resolve um problema científico, logo surgem vários outros para desafiar a imaginação dos cientistas. A vida humana vai continuar a ter, como disse Weinberg, a dignidade da tragédia. Esta não é, claro, uma afirmação científica mas sim uma opinião filosófica. E aqui está um dos muitos aspectos em que a física toca a filosofia.

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O INÍCIO DO INFINITO


Traduzo a introdução de um dos melhores livros do ano: "The Beginning of Infinity. Explanations that Transform the World", do físico israelita David Deutsch (Allen Lane, 2011):

"Progresso ao mesmo tempo suficientemente rápido para ser notado e suficientemente estável para continuar ao longo de muitas gerações só foi alcançado uma vez na história da nossa espécie. Começou aproximadamente no tempo da Revolução Científica e ainda está em curso. Tem incluído melhorias não apenas na compreensão científica, mas também na tecnologia, nas instituições políticas, nos valores morais, na arte, e em todos os aspectos do bem-estar humano.

Desde que há progresso têm-se pronunciado alguns pensadores influentes negando que ele fosse genuíno, ou que ele fosse desejável, ou mesmo que o conceito fizesse sentido. Deviam ter sido mais sábios. Há, de facto, uma diferença objectiva entre uma explicação falsa e uma explicação verdadeira, entre um falhanço crónico para resolver um problema e a sua resolução, e também entre o errado e o certo, o feio e o belo, o sofrimento e o seu alívio - e, portanto, entre a estagnação e o progresso no seu sentido pleno.

Neste livro argumento que todo o progresso, tanto teórico como prático, resultou de uma única actividade humana: a busca daquilo que chamo boas explicações. Embora esta busca seja unicamente humana, a sua efectividade é um facto fundamental que diz respeito à realidade ao nível cósmico mais impessoal - designadamente pelo facto de se conformar com leis universais da Natureza que constituem verdadeiramente boas explicações. Esta relação simples entre o cósmico e o humano sugere-nos um papel central dos seres humanos no esquema cósmico das coisas.

Será que o progresso vai terminar - devido a uma catástrofe ou a algum tipo de completude - ou será que não ele tem limites? A resposta é esta última possibilidade. Tal inexistência de limites é o "infinito" que aparece no título do livro. Explicar o título e as condições sob as quais o progresso pode ou não ocorrer conduz-nos a uma viagem através de virtualmente todos os campos da ciência e da filosofia. Em cada um destes campos aprendemos que, embora o progresso não tenha necessariamente um fim, ele tem necessariamente um início, ou um acontecimento que o desencadeia, ou uma condição necessária para levantar voo e acelerar. Cada um destes inícios é o "início do infinito" visto na perspectiva desse campo específico. Mas todos eles são facetas de um atributo único da realidade, aquilo que eu chamo o início do infinito."

David Deutsch

sábado, 17 de dezembro de 2011

O Modernismo português representado por Pessoa

Soube-se ontem: Eduardo Lourenço foi o 25.º distinguido com o Prémio Pessoa. Do filósofo e ensaista, deixamos um extracto de uma conferência proferida na Fundação Calouste Gulbenkian, em 5 de Fevereiro de 1975, intitulada Da literatura como interpretação de Portugal (De Garrett a Fernando Pessoa).

"Entre outra coisas, o Modernismo português - e em particular o representado por Fernando Pessoa - desejou ser não apenas invenção e recriação de uma nova sensibilidade e visão da realidade (aquela que o chamado mundo moderno estava pedindo), mas igualmente uma metamorfose total da imagem, ser e destino de Portugal. Estas duas perspectivas nem se opõem, nem se adicionam uma à outra. Procedem ambas de uma única inspiração. O acesso e a consquista de uma nova visão do mundo, implica e procede de uma revisitação em profundidade do que Pessoa, na sequência de Pascoaes, chamará a alma nacional. O modernismo é para Fernando Pessoa uma questão que ele tem ao mesmo tempo com o mundo em que vive e com Portugal, mas por sua vez Portugal apresentou-se-lhe cedo como enigma objectivo com o qual há muito a consciência nacional se debate. Desde jovem que ele pretende, novo Édipo, encontrar a resposta que, mais tarde, sob transparente arquitectura, será para nós o Templo da nova imagem de que necessitava para ter uma pátria cujo centro estaria em toda a parte e a circunferência em parte alguma. Se a resposta de Pessoa é aqule que a enigmática realizada lusíada estava pedindo é assunto que ficará de fora do nosso horizonte. O nosso propósito é somente o de mostrar que a utópica preocupação de Pessoa pelo ser e destino histórico-mítico de Portugal se insere num contexto e num processo mais antigo e vasto, processo a que de algum modo põe termo, diluindo em gesta flutuante, em evasão celeste, a blocagem histórica de um povo sem destino terreste definido e convincente."

In: O labirinto da saudade (Publicações Dom Quixote), pp. 79-80.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

François Chatelet sobre a educação: "na educação há uma espinha dorsal"


Do livro que comprei na Livraria Esperança no Funchal "Os Filósofos e a Educação" (Colibri, 1993) transcrevo um trecho da entrevista feita a François Châtelet, filósofo francês entretanto falecido:
"P- Qual o modelo de educação que propõe?

R- Um projecto educativo deve absolutamente evitar a noção de modelo. Somente nos períodos ditos arcaicos, a que chamamos totalitários, é que se tem uma visão monolítica da educação. É por isso que eu sou resolutamente e injustamente antipedagógico. Tenho medo de todos aqueles que têm receitas para educar, para "formar um homem". Não há modelo de homem a não ser no discurso dos teólogos. Um modelo é perigoso porque é limitativo. Restringe não apenas as possibilidades de felicidade, mas ainda as oportunidades de liberdade. A única unidade do homem, que eu conheço é biológica. Quanto ao mais, apenas vejo homens.

A boa educação é justamente aquela que preserva esta pluralidade, que se propõe manter o plural do ser humano. É por isso que eu digo "educar as pessoas" - os "numerosos", como dizia Platão, e não "formar o homem".

P- Por conseguinte, esta educação não se baseia numa ideia do homem, mas numa certa concepção da sociedade.

R- O que eu digo não é válido evidentemente para todas as sociedades, mas apenas para as democracias. Para aquelas que se baseiam na deliberação e que concedem muita importância ao conhecimento. Para debater é necessário saber. Por outras palavras, se sou partidário da instrução, não é por motivos tecnocráticos, mas por razões políticas. Vivemos com os outros, e é com os outros que temos de examinar e discutir os fins colectivos, os fins enunciados em termos claros e explícitos. Isso torna-se imperativo se queremos evitar os mal-entendidos e as manipulações. O essencial da educação diz respeito, por conseguinte, à transmissão dos conhecimentos. Não para produzir politécnicos, mas para que cada qual se forme na relação ao outro.

Além disso, há no conhecimento algo que penetra profundamente na existência, que lhe dá mais gosto e a torna mais feliz, mais consciente de si própria e ao mesmo tempo, por vezes, mais dolorosa.

P- Fala de conhecimento. faz distinção entre a instrução que transmite os saberes e a educação que forma?

R- Sim e não. São os pedagogos que endurecem uma tal distinção. Eles são contra a instrução, não se preocupam com o facto de que as pessoas saibam alguma coisa. Dão a entender que em certo tipos de relações interpessoais acontece algo parecido com uma comunicação de alma a alma. pela minha parte, creio que a linguagem do conhecimento continua a ser o melhor meio para comunicar.

Por conseguinte, na educação há uma espinha dorsal -a instrução - à qual se ligam, sem a ela se reduzirem, as outras modalidades de formação. Penso, em particular, na formação física. Não falo da ginástica sueca ou do jogging, mas da aquisição de uma espécie de inteligência do corpo.

P- E a instrução?

R- Incluo nela, ao lado do saber-fazer e do saber-pensar, aquilo a que os velhos manuais de filosofia chamavam o conhecimento desinteressado: a matemática, a poesia, a filosofia, a história, por exemplo."

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

"A vida plena é a vida do equilíbrio difícil"

Por ocasião de recente visita do nosso Presidente da República aos Estados Unidos da América, foram entrevistados vários empresários portugueses bem sucedidos. Um dos mais bem sucedidos, senhor de uma enorme fortuna, começou assim: “Se alguns têm prioridades que não seja o trabalho...” e continuou, afirmando a ideia de que esses alguns não vão a lado nenhum.

Deu-me que pensar: na vida – nos poucos, pouquíssimos, anos que temos de vida –, a nossa prioridade absoluta deverá ser o trabalho? O trabalho que se faz para ganhar dinheiro?

As pessoas são muito diversas e talvez, o trabalho, só o trabalho, nada mais do que o trabalho, faça felizes algumas delas. Nada tenho a opor, só tenho de aceitar isso como uma opção… de vida.

Outras pessoas haverá que, trabalhando, não circunscrevem a sua vida ao trabalho, por assumiram opções igualmente legítimas: apreciar o dolce fare niente, dedicar-se à família, aos estudos, embrenhar-se nisto e naquilo.

Se pensarmos no assunto, além destas, encontraremos, obviamente, muitas outras opções de vida, até aquelas em que o trabalho está excluído.

O que eu pretendo dizer é que querer-se que toda a gente assuma a mesma opção para a sua própria vida, sem ter em conta uma margem de livre arbítrio é, no mínimo, questionável. E mais questionável será não se tendo a certeza dessa opção de vida cumprir o desígnio do humano.

Pode o leitor argumentar que estamos face à mera opinião dum empresário que usa o seu exemplo pessoal como bandeira de discurso. Não é assim: a sua voz é uma voz que se ouve cada vez mais alto.

E tanto assim é que, passados dois ou três dias, ouvi mais um eco dessa voz. Era de um político, também português, que, justificando o aumento de tempo de trabalho e a redução de salários afirmava, sem denotar qualquer dúvida ou incerteza: “Temos de competir a nível mundial”. Se passarmos, como me pareceu estar implícito, dos níveis nacional, europeu e ocidental para o “nível mundial” teremos de incluir a China, por exemplo, onde os desígnios da vida são... o que são.

Ambas as declarações me fizerem lembrar de Agostinho da Silva, um apologista do ócio, apesar de muito ter trabalhado deste e do outro lado do Atlântico. No Dia Mundial da Filosofia não me parece descabido convocar as palavras dum filósofo como alavanca para pensarmos nas opções de vida neste (ainda) início de século).
“Uma das coisas que nos oprime na personalidade é o facto de termos de exercer no mundo uma profissão, de termos de ter um trabalho. Então por mais que cultivemos as nossas vocações, na realidade pomos muita coisa de parte porque a complexidade do mundo não dá tempo para o homem ser, por exemplo, ao mesmo tempo um grande médico e um grande engenheiro, embora num ou noutro ponto possa ter uma ideia da engenharia ou ser um engenheiro com uma ideia de medicina, mas como profissão, como aplicação total das suas forças, não é possível. Então o segredo para nós podermos desenvolver a nossa personalidade vai ser o de ver de que maneira vamos abolir no mundo a obrigação do trabalho, de que maneira vamos organizar as coisas de modo que as coisas materiais, digamos, as máquinas, trabalhem para nós. Ora, para construir as máquinas, só podemos fazê-lo sob o imprevisível. Nunca ninguém enamorado do imprevisível conseguiu construir uma máquina.

Então foi preciso que a Humanidade vivesse completamente no domínio do previsível e no qual, provavelmente vai ter de continuar ainda algum tempo, anos ou séculos, não sabemos, para que realmente a máquina chegue à sua máxima elaboração, cujo fim, será o de nunca nos oprimir, em que só tenham de trabalhar com ela os homens que lhe tenham amor, homens que estejam apaixonados pela máquina; ao passo que hoje a maior parte das pessoas trabalha com ódio à máquina e por isso é que tanta gente tem medo das invenções técnicas, porque tem medo que elas venham a ser opressoras da Humanidade (…)

A vida plena é a vida do equilíbrio difícil. A vida do equilíbrio fácil é aquela que leva hoje quase toda a gente no mundo, mas em que as pessoas na maior parte das vezes estão tristes. Há milhares de médicos que vivem da depressão das pessoas, e esses milhares vivem de uma coisa que grande parte da sociedade explora, que são os meios de deprimir as pessoas."
Referência completa: Agostinho da Silva (1994). Vida conversável. Lisboa: Assírio e Alvim, pp. 37-38.

Dúvida Metódica

Sara Raposo e Carlos Pires são dois professores de filosofia da Escola Secundária de Pinheiro e Rosa, em Faro. Criaram e mantêm um blogue de extraordinária qualidade que tem por designação Dúvida Metódica.

Aí exercem, sobretudo com os seus alunos, a nobre tarefa de pensar e de levar a pensar.

No Dia Mundial da Filosofia, que hoje se comemora, é justo que o De Rerum Natura destaque este propósito que, não sendo exclusivo da Filosofia, nela revela toda a sua essência e esplendor.

Para assinalar este dia, entenderam os referidos professores realizar um debate online: a ideia é, em vez de falar da Filosofia, filosofar.

Pode o leitor participar nesse debate clicando aqui.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

"A VIDA QUE PODEMOS SALVAR" DE PETER SINGER

Meu comentário sobre o mais recente livro do filósofo Peter Singer publicado em Portugal: "A Vida que Podemos Salvar": um vídeo aqui.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Com Camus

Jean Daniel, fundador do Le Nouvel Observateur, privou com Albert Camus, foram amigos, distanciaram-se, apesar de terem continuado unidos na profissão e no pensamento. A morte prematura do jornalista-filósofo-escritor-editor não permitiria uma reaproximação em presença, o que, de resto, não seria necessário: Daniel ficaria, para sempre, com Camus.

O livro que publicou em 2006 na Gallimard revela o encontro entre duas pessoas que, nas grandes e pequenas batalhas que o jornalismo convoca (e além dele) se pautaram, sem cedências, pelo humanismo.

É precisamente este conceito que se revela como o centro do livro, numa reflexão pouco linear mas indubitavelmente real: por não estar terminado e, nessa medida, implicar procura não isenta de erros; por levar, em certas ocasiões, à mudança de rumo que se tinha por certo e procurar novo caminho; por envolver coragem para pensar e agir em consciência, ainda que isso aconteça ao contrário do que está estabelecido.

Diz Daniel:

"Maravilhei-me um dia perante Camus por ele ter podido encontrar, tão jovem e com tanta facilidade, a força para se opor, a todos os seus, quando resolveu indignar-se, e com que soberba, pelo facto de a explosão da primeira bomaba atómica sobre Hiroxima poder ter sido saudada com um entusiasmo sem reticências. Negligenciando o facto (enorma, gigantesco!) de a nova invenção anunciar o fim da guerra, Camus receava já encontrar o homem na posse dos meios de destruir não só o inimigo, como a sua espécie. É preciso compreender em que consistiu a solidão desse grito e a coragem insólita de, na época, publicar a sua expressão. Como nos podemos escutar a nós mesmo quando somos os únicos a pensar? Como teremos confiança em nós mesmos? Perguntas que sempre me haveriam de atormentar. Como poderemos ousar persuadir-nos de que estamos certos, quando aqueles que admiramos discordam de nós?" (página 33).

E, mais adiante:

"Camus tem as suas receitas pessoais (...) quando não hesita em declarar que se enganou e que, daí em diante, tudo fará para manter os valores morais, mesmo que essa expressão pareça ridícula aos pedantes do realismo histórico. E quando pede aos intelectuais - e aos jornalistas! - que observem quatro obrigações: «1. Reconhecer o totalitarismo e denunciá-lo. 2. Não mentirem e saberem reconhecer o que ignoram. 3. Recusar dominar. 4. Rejeitar em todas as ocasiões e seja qual for o pretexto todo o despostismo, mesmo provisório», temosa sensação de possuir por fim estas regras de vida que nos protegem dos mais sanguinolentos desvios. (...) Como pilar filosófico de todas estas regras, havia a prevalência do facto moral (...) o que conta para mim é o facto de, em Camus, a moral não ser moralismo. Se se pode dizer que, em ceryos aspectos ele era nietzschiano, é no sentido em que a denúncia da impostura decanta a ética" (página 127).

quarta-feira, 20 de julho de 2011

MAIS UM NACO DO DIÁLOGO ENTRE PEPINO E ALCUÍNO


Em continuação de post anterior deixo mais um naco, este tirado do início do "Diálogo entre Pepino e Alcuíno", uma discussão da Alta Idade Média entre uma criança francesa, Pepino (P), e um sábio monge beneditino, Alcuíno (A). O texto vem no pequeno livro reproduzido em cima:
"P.: O que é a escrita?
A.: O guarda da história.

P.: O que é a palavra?
A.: A delatora dos segredos da alma.

P.: Quem gera a palavra?
A.: A língua.

P.: O que é a língua?
A.: O chicote do ar.

P.: O que é o ar?
A.: O guarda da vida.

P.: O que é a vida?
A.: A alegria dos ditosos, aflição dos miseráveis, espera da morte.

P.: O que é a morte?
A.: Um fato inevitável, uma incerta peregrinação, lágrimas dos vivos, confirmação dos testamentos, ladrão do homem

P.: Que é o homem?
A.: Servo da morte, caminhante passageiro, sempre um hóspede em qualquer lugar.

P.: A que é semelhante o homem?
A.: A um fruto

P.: Qual a condição humana?
A.: A de uma candeia ao vento.”

sábado, 11 de junho de 2011

O PAPEL DA FILOSOFIA NO ACESSO AO ENSINO SUPERIOR

Surpreender-se é começar a entender” (Ortega y Gasset, 1883-1955)

A malfadada Filosofia, havida, tempos atrás, como parente pobre do ensino secundário, volta a ser notícia num país em que se passa facilmente do oito ao oitenta. Ou seja, deixou a Filosofia de ser avaliada em exames nacionais do 12.º ano, passou a sê-lo e, com o Decreto-Lei nº. 50/2011, de 8 de Abril, substitui, agora, exames de Física e Química para os destinatários ainda que mesmo de uma carreira científico-técnica (vide, o post, publicado aqui, intitulado A Física e a Química trocadas pela Filosofia, 09/06/2011).

Como forma de historiar este processo trago à colação um meu post, também aqui publicado, com o título A Reposição do Exame de Filosofia no Ensino Secundário (19/11/2010). Segue a respectiva reprodução:

“A Filosofia não brota por ser útil, mas tão-pouco pela acção irracional de um desejo veemente. É constitutivamente necessária ao intelecto” (Ortega y Gasset, 1883-1955).

"Acabo de tomar conhecimento, através do Público, com a data de hoje, que o exame de Filosofia vai ser reposto no ensino secundário. Mais fiquei a saber, aí, que ontem foi assinalado o Dia Internacional da Filosofia, tendo o secretário geral das Nações Unidas, Ban Ki-mon, 'lembrado que na sua base está a possibilidade de partilha de questões universais sobre a existência humana'. E acrescentou: 'Isto dá-lhe um poder invulgar para ajudar a construir pontes entre povos e para abrir canais de comunicação entre culturas'.

Esta temática tem para mim um valor acrescentado por ter servido de leitmotiv à publicação de um meu artigo no “Diário de Coimbra” e transcrito neste blogue, em 23/07/2007, com o título “O Exame Nacional de Filosofia” - ler aqui."

É esta, portanto, a génese da questão levantada pelo post “A Física e a Química trocada pela Física”, e que, decerto, ainda fará correr muita tinta num sistema educativo nacional com o respectivo ponteiro da bússola desnorteado, podendo indicar o rumo certo num dia e o rumo errado no dia seguinte. Ou mesmo o rumo errado todos os dias!

sábado, 4 de junho de 2011

On Pythagoreanism

Gabriele Cornelli, professor de Filosofia Antiga do Departamento de Filosofia da Universidade de Brasília, dirige um projecto, que está a completar uma década, designado por Archai. Trata-se de um espaço interdisciplinar cujo objectivo é reflectir sobre as origens do pensamento ocidental, nas suas vertentes intelectual, ética, artística, cultural, etc.

Nesta linha, em Agosto próximo, entre dia 22 e dia 26, promove mais um Seminário - VIII International Archai Seminar -, cujo título é On Pythagoreanism.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

ABEL SALAZAR E A FALÊNCIA DA METAFÍSICA - 4


Mais um artigo de António Mota de Aguiar sobre a Polémica em torno aos artigos de Abel Salazar: desta vez destacando a intervenção de António Sérgio (na figura):

Abel Salazar iniciou os seus artigos na Seara Nova, a convite de António Sérgio, abordando a temática empirista que vinha defendendo há já quase dois anos e que Sérgio conhecia.

Tal como Casais Monteiro tinha feito no seu artigo de resposta, António Sérgio escrevia que não era o conteúdo dos artigos que punha em causa, não era, portanto, o empirismo lógico da Escola de Viena que estava em causa, mas o modo como a ciência estava a ser vulgarizada. Era necessário corrigir este modo, de forma a evitar prejuízos decorrentes para ambas as partes, quer para o vulgarizador quer para os destinatários.

António Sérgio punha em causa as possibilidades de uma verdadeira vulgarização cultural. Para ele o empirismo lógico não era tudo em filosofia, mas apenas uma parte dela. No seu entender, estava a levar os seus leitores a crerem no empirismo lógico como um islamita cria no Alcorão. E perguntava:

“se a vulgarização filosófica se não torna uma faina anti-cultural sempre que o indivíduo que empreende fazê-la, propondo-se facilitar o que não é fácil, se vê forçado à inexactidão das ideias, à impropriedade da expressão verbal, à imprecisão dos conceitos que emprega, e ao hábito de demarcar distinções absolutas – distinções de simplicidade talvez excessiva…”.

O diálogo entre os dois homens azedou-se e passou mesmo aos insultos, o que sintetizo nos dois parágrafos a seguir. Escrevia António Sérgio:

“crê, realmente, que se pode fazer filosofia ‘sem pensar’, e limitando-se uma pessoa a copiar alguns passos sem propósito nos folhetitos de vulgarização das ‘Actualidades científicas e industriais’…

Ao que Abel Salazar respondeu:

“…fez-me sorrir a completa étourderie com que caiu nas ratoeiras que lhe armei… e como eu perdoo tudo menos as faltas de lealdade e de honestidade intelectual… irei revelar ao público o que é o bluff António Sérgio…

A polémica tinha agora ultrapassado os limites aceites para uma discórdia deste tipo, receando-se uma escalada incontrolável do conflito. Ferreira de Macedo, Francisco Pulido Valente e Bento de Jesus Caraça, intervieram, por carta igual enviada às duas partes, apelando a ambos a que dessem por terminada a contenda.

Os homens do Estado Novo regozijavam-se com este conflito ao presenciar dois destacados vultos da oposição ao regime, envolvidos num conflito que em nada os enaltecia, mas que à Ditadura dava bastante jeito.

Hoje, cerca de 75 anos passados, por que terá ocorrido esta polémica com um tom tão agressivo e, por vezes, tão insultuoso, entre estes dois expoentes da cultura portuguesa, em torno da problemática da vulgarização da ciência?

Abel Salazar defendia, por um lado, a irredutível incompatibilidade entre a ciência e a metafísica, a irreversível decadência histórica da metafísica e sua carência de sentido e, por outro lado, a visão do mundo e da vida que o empirismo lógico da Escola de Viena veiculava. António Sérgio e Casais Monteiro não viam, talvez, uma incompatibilidade assim tão marcada, pelo que discordavam do modo como a divulgação se fazia.

Norberto Ferreira da Cunha, que estudou com profundidade a obra e vida de Abel Salazar (Génese e Evolução do Ideário de Abel Salazar, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, Lisboa, 1998), escreve no fim do seu livro:

“Uma das mais interessantes ilações que me foi dado a colher no meu estudo sobre Abel Salazar (foi) a constatação de que esse ideário se estrutura em princípios abertos, em afirmações condicionais, em obstáculos epistemológicos que o revelam como um intelectual de acentuado pendor crítico e não como um apóstolo da ciência, empenhado em divulgá-la como se tratasse do “Alcorão” ou de qualquer outro catecismo religioso.

… Abel Salazar foi sempre duma firmeza apaixonada e férrea na defesa das suas teorias. Todavia, nunca disse que essas teorias eram, na realidade, verdadeiras. O que sempre defendeu foi que, por razões de ordem prática, se deviam aceitar ‘como’ se fossem verdadeiras. Não significava isto renunciar à dúvida em benefício da utilidade. As teorias científicas deviam questionar-se, sim, mas sem deixar de ser utilizadas como se fossem verdadeiras. A dúvida não devia paralisar a ciência, mas estimulá-la.”

António Mota de Aguiar

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Abel Salazar e a Falência da Metafísica – 3


Continuação dos posts de António Mota de Aguiar sobre Abel Salazar:

Abel Salazar defendeu as suas ideias em vários jornais da época: A Ideia Livre, de Anadia (1928-1944), A Voz da Justiça, da Figueira da Foz (1904-1937), O Trabalho, de Viseu (1933-1940), O Diabo, de Lisboa (1934-1940), Sol Nascente, do Porto (1937-1940), Síntese, de Coimbra (1939-1941), Pensamento, do Porto (1930-1940), Vida Contemporânea, de Lisboa (1934-1936), A Foz do Guadiana, de Vila Real de Santo António (1935-1936), Democracia do Sul, de Évora (1907-1951), Cadernos da Juventude, de Coimbra (1937) Seara Nova, de Lisboa (1921-1979), A Esfera, do Rio de Janeiro (1938-1940), e outros.

Este grande leque de jornais dá conta do interesse que havia pela cultura na primeira metade do século XX e, mostra-nos a energia de um homem solitário defendendo a divulgação cultural e a renovação mental e moral da sociedade portuguesa, a golpe de artigos, por vezes contra tudo e contra todos, mesmo contra o lado que lhe era ideologicamente afim.

De 1935 até à sua morte, em 1946, Abel Salazar escreveu dezenas de artigos nos jornais mencionados, defendendo a microfísica (Bohr, Heisenberg, etc.), a relatividade einsteiniana e as geometrias não euclidianas, enfim os grandes pilares da revolução da física no século XX, suportes do empirismo na luta contra o idealismo.

Foi necessária uma enorme convicção na justeza das suas ideias para travar uma batalha tão desigual. Para isso, empenhou-se numa cruzada virulenta e implacável contra a metafísica e os seus sequazes, quer internos, como Leonardo Coimbra, quer externos, como Heidegger, Bergson, Driesch, e outros.

Abel Salazar bateu-se contra todos: em primeiro lugar contra os cerca de 75% de analfabetos existentes na sociedade portuguesa desta época. Esse vasto número de portugueses era, sem dúvida, o inimigo número um de quem queria passar uma mensagem, apoiada no empirismo lógico da Escola de Viena, aliás, de tão difícil apreensão.

No campo conservador, por exemplo, o jornal Acção de Águeda, em vários artigos, contestou Abel Salazar por este apresentar – dizia - os seus artigos de forma dogmática, não fundamentando a sua opinião em argumentos sólidos. Era, portanto, uma atitude desonesta servir-se do seu prestígio como professor universitário para fazer passar dados controversos, falando para pessoas que nunca tinham ouvido falar de metafísica, acrescentava o jornalista.

O autor destes artigos, perguntava-se quais seriam os objectivos de Abel Salazar fazendo a apologia da falência da metafísica? Teria objectivos políticos em vez de filosóficos, “uma intenção política, escondida e subjacente” ao afirmar “a impossibilidade do homem atingir o absoluto, Deus”? Perguntava se Abel Salazar não estaria a defender a via do materialismo histórico, fomentando ideias “anti-familiares, anti-nacionais e anti-religiosas”, sob a roupagem de um pretenso artigo de divulgação científica.

O Diário da Manhã, de Lisboa, chamou a Abel Salazar “malfeitor”, um “doente à procura de um psiquiatra” , um “filósofo destrambelhado. Quanto à Revista Católica, de Viseu, ela via nos artigos de Abel Salazar uma subversão política, nada mais nada menos do que uma divulgação do comunismo.

A Censura foi outro dos obstáculos que Abel Salazar também teve de enfrentar. O oficial censor considerava os seus artigos ofensivos do plano de morigeração; nalguns casos era cortada parte do texto, desfigurando-o, noutros, todo o texto era simplesmente eliminado.

Possivelmente, para Abel Salazar o mais duro foi a polémica que manteve com os intelectuais do mesmo lado político que o seu, pessoas como Adolfo Casais Monteiro (1908-1972), republicano, poeta, crítico e novelista, director, de 1931 a 1938, da prestigiada revista literária Presença (1927-1940). Professor de liceu no Porto, de onde era natural, afastado da carreira docente por razões políticas, teve de emigrar para o Brasil para ganhar a vida, já que o Estado Novo lhe fechara as portas à carreira docente.

Maior e mais grave foi a polémica com António Sérgio (1883-1969), filósofo, político, e homem de elevado carisma moral na sociedade portuguesa, lutador intelectual anti-fascista, por isso várias vezes preso, intelectual do grupo seareiro, da prestigiada revista Seara Nova (1921-1979), onde ao longo dos anos desenvolveu uma notável acção pedagógica e cultural, marcadamente voltada para a problemática da educação.

O confronto entre estes dois homens e Abel Salazar começou em 1937, tendo como fundo um artigo que este último escrevera no jornal Sol Nascente de 2 de Março de 1937, intitulado: Kretschener e os plotinozinhos, onde o autor atacava os “vaporosos aristocratas da quintessência”, incluindo-os no tipo dos “espiritualistas”, partidários duma concepção metafísica do homem e da vida.

Casais Monteiro, do grupo Presença, foi o primeiro a responder a Abel Salazar, pondo em destaque o modo como Abel Salazar efectuava a vulgarização cultural. Não estava em causa o fundo, não era pois o neo-positivismo do Círculo de Viena que estava em discussão, mas a falta de rigor crítico e de verdadeiro método científico que, segundo Casais Monteiro, Abel Salazar utilizava, acusando-o de fazer uma crítica simplista e dogmática à metafísica, e de não identificar os adversários, os quais não existiam, sendo tudo uma fantasia de Abel Salazar. E escrevia o seguinte:

Não basta espalhar a Ciência – é preciso, é o mais importante, espalhar o espírito científico. Num país que sofre tradicionalmente de incontinência verbal, é perigoso, quando se tem nome e discípulos, dar largas a certas fraquezas como as reveladas no (seu) artigo (…).

É triste ver um homem de grandes responsabilidades intelectuais, a título de defender a Ciência, incorrer nas mais manifestas atitudes anti-científicas enganando os leitores ignorantes que amanhã irão repetir as (suas) graças”.

Abel Salazar respondeu, identificando os seus adversários, acrescentando que não se dirigia só a estes, mas também a todos aqueles – a grande maioria -

“que neste país viviam intoxicados de filosofismo, ou seja, dum pensamento inquinado pela plétora verbal, pela retórica oca, pelo pedantismo e pela autoridade magistral, onde o sentimento se sobrepunha à reflexão e o espírito metafísico ao científico”.

A polémica com António Sérgio foi muito mais fundo, por isso mais dura...

António Mota de Aguiar

(continua)

Abel Salazar e a Falência da Metafísica – 2


Novo post do historiador António Mota de Aguiar (em cima Casa Museu Abel Salazar, em S. Mamede de Infesta, Porto):

Continuamos a síntese iniciada aqui dos artigos do médico Abel Salazar publicados entre Agosto e Outubro de 1935, sob o título em cima, na revista Ideia Livre de Anadia.

Nestes artigos, Abel Salazar informa o “leitor que se queira documentar” sobre uma série de obras "exponenciais das correntes científicas e filosóficas modernas”. Alguns dos autores destes trabalhos são os intérpretes do pensamento positivo contemporâneo da época, com especial ênfase no Empirismo Lógico do Círculo de Viena, de que Abel Salazar foi um atento divulgador entre nós. Diz Abel Salazar:

“Em suma para se compreender a ciência e a filosofia actuais é necessário, como condição fundamental, compreender, a irredutibilidade de Tyndall (e aquilo que chama ‘a condição de posição), e transcender a seguir conceitos psicológicos de Espaço e Tempo, que devem ser substituídos pelos conceitos objectivos correspondentes. (…)

O leitor vê o vermelho, o azul, etc., mas não vê o ultra-violeta; quer dizer, não o pode representar na sua consciência. Só o pode fazer por uma objectivação experimental que está além da intuição; o ultra-violeta transcende o campo de visão das cores. Identicamente – mas por uma forma mais complexa – o leitor ‘sente’ as coisas ‘psicologicamente’ no espaço de três dimensões; mas o universo que a experiência nos revela não pode ser nele recebido efectivamente.
Daí a necessidade de transcender o psicológico numa concepção mais ampla e profunda. Chegamos, pois, a uma época histórica que sob, o ponto de vista intelectual representa ‘o afastamento do homem como medida das coisas’. (…) (O homem) deixou agora de ser o centro do universo intelectual e científico, desaparecendo nele como um elemento íntimo. (…) "

"O actual movimento metafísico é uma destas coisas espasmódicas do sentimento. Não tem de nenhuma maneira o significado dum renascimento ou de um processo metafísico
(…). A metafísica representa uma tendência dilatorial do espírito humano, o espírito racionalista e dogmático. (…) E depois de ter querido determinar Deus, e dar-lhe existência, de ter querido resolver problemas tais como o princípio do mundo e sua criação ou sua eternidade, e o problema da alma, verificou um dia que apenas se debatia com problemas fantasmas, num jogo de grande criança. (…) Desta forma a própria falência histórica da metafísica nos conduz ao actual conflito do Homem com os seus destinos históricos."

Abel Salazar (Visado, em Lisboa, pela Direcção Geral de Censura à Imprensa).

António Mota de Aguiar