Mostrar mensagens com a etiqueta Observação. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Observação. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A sociedade vigilante

A preocupação com a segurança de pessoas e bens e com a qualidade de serviços e instituições tem constituído argumento necessário e suficiente para se justificar a instalação duma panóplia de sofisticados sistema de vigilância e controlo em espaços exteriores e interiores, em contextos reais e virtuais: aeroportos, hospitais, tribunais, lojas, recintos desportivos, laboratórios, escolas, ruas, prédios, bibliotecas, correio electrónico, telefones… As câmaras de filmar, os cartões electrónicos, as impressões digitais, a leitura da retina, os chips, os satélites... entraram no nosso vocabulário e no nosso modo de ver e estar no mundo.

Poderíamos pensar que se trata de uma imposição por parte de instâncias com poder, correlativamente, aceite pelas pessoas comuns, numa atitude conformista, de quem nada pode fazer a não ser sujeita-se à autoridade.

Pelo que me é dado perceber, não é bem assim… As próprias pessoas, letradas e não letradas, de esquerda, de direita ou do centro, das cidades ou das aldeias, velhas, de meia-idade ou novas… não só aceitam de boa mente essa vigilância e controlo, como os reivindicam se não existem e onde existem querem-nos redobrados.

De modo que se me afigura ligado ao que acima disse, as solicitações de televisões, de revistas e jornais, da internet… para disponibilizar dados particulares, para se retratar, para contar o seu caso, para mostrar o seu quotidiano, para dizer o que faz, o que pensa, o que lhe vai na alma, de si e dos outros, entrou nos hábitos sociais.

Mais uma vez aqui se podería pensar que se trata de coerção mais ou menos dissimulada, que as pessoas comuns, por necessidade económica ou outra, por constrangimento ou desejabilidade social, por serem apanhadas desprevenidas, ou por falta de preparação intelectual, aceitam mas a contra-gosto.

Mas, também pelo que me é dado perceber, a explicação está longe de ser esta… As próprias pessoas, seja qual for a sua condição, disponibilizam amostras de comportamentos e sentimentos privados e até íntimos, partilham acontecimentos que só a si e aos seus dizem respeito, contam o seu dia-a-dia e daqueles com quem se cruzam, ilustram os discursos com imagens da sua casa, do seu quarto, publicam fotografias suas, de amigos, dos filhos…

Assim, neste início de século, tudo e todos parecem estar a ser observados, a todo o momento, em relação a todas as dimensões da vida…

Todas estas considerações a propósito de um livro que me parece dissonante da tendência opinativa. Problematiza, apresenta teorizações e estudos, leva a pensar na nossa identidade e no modo de nos relacionarmos.

Tem por título: A Sociedade Vigilante - Ensaios sobre identificação, vigilância e privacidade, foi organizado pela antropóloga Catarina Fróis e publicado em 2009 pela Imprensa de Ciências Sociais.

Trata-se de uma obra que "reúne um conjunto de ensaios de proeminentes cientistas sociais, nacionais e internacionais, que procuram problematizar a implementação e legitimação de vários mecanismos de controlo vigentes na sociedade contemporânea. Aqui são abordados temas como a videovigilância; o policiamento; a introdução de novos cartões de identificação; a regulação das politicas de protecção da privacidade individual; o uso e recolha de dados pessoais (estatísticos e genéticos) para fins governamentais ou comerciais. Os autores deste livro propõem-se mostrar que estar alerta, ser-se vigilante, é uma preocupação pertinente para a academia, para decisores políticos e para a sociedade civil, procurando contribuir para um debate lúcido e informado em torno destas matérias."

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O uso que Galileu deu ao telescópio

Jim Bennett, historiador da Ciência, numa comunicação intitulada O estatuto dos instrumentos científicos, apresentada no ciclo de Conferências A ciência tal qual se faz, que teve lugar entre Outubro de 1996 e Janeiro 1998, na Fundação Calouste Gulbenkian, referiu-se da seguinte maneira ao telescópio que Galileu usou de forma inovadora.

"Inicialmente, o telescópio não foi relevante para a astronomia. Sabemos que pessoas que não eram astrónomas também se interessavam pelos céus. O telescópio não fazia medições - uma condição necessária para um instrumento de astronomia. O telescópio começou por ser um instrumento de guerra, e foi pela primeira vez apresentado por Galileu ao Senado veneziano nesse contexto - um invento óptico que daria ao seu utilizador uma vantagem sobre o inimigo. Mesmo quando Galileu dirigiu o instrumento para os céus, não estava a fazer astronomia no sentido tradicional.

No entanto, isto constitui um desafio - ou, pelo menos Galileu fez com que assim se tornasse, pretendendo que as observações feitas com a luneta (canocchiale) eram uma prova contra a ideia de uma terra central estacionária e a favor da consideração de terra como um planeta. Neste ponto, e apesar da integridade da disciplina, a astronomia geométrica viu-se obrigada a prestar atenção, já que a suposição de uma terra estacionária era fundamental para o seu trabalho. O telescópio pretendia revelar verdades novas e nunca vistas sobre os céus; desafiava a competência da astronomia e, para além disso, tornava instável a distinção, cada vez mais difícil de manter, entre a astronomia geométrica e o estudo físico dos céus."


Referência: Bennett, J. (1999). O estatuto dos instrumentos científicos. F. Gil (Coordenação e apresentação). A ciência tal qual se faz. Lisboa: Edições Sá da Costa, páginas 203-213.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Quero que prestes atenção aos padrões

Richard Feynman, o físico teórico premiado, o inventor perspicaz, o professor talentoso, o divulgador de ciência, o músico amador, também escreveu poesia, desenhou e pintou.

Podemos perguntar, o que há de comum em todas estas actividades, que se afiguram como distintas? A resposta pode ser: observar com precisão e tentar compreender, sem excluir a imaginação, claro. Feynman reconheceu que devia essas aprendizagens, em primeiro lugar, ao pai.

"Conta-se que, quando a minha mãe estava grávida — não tive conhecimento directo da conversa, bem entendido —, meu pai disse um dia: «Se for rapaz, será cientista. Como é que ele conseguiu isto? Nunca me disse que devia ser cientista». De facto, meu pai não era cientista, era um homem de negócios, chefe de vendas de um armazém de uniformes militares. No entanto, lia e tinha uma verdadeira paixão pela ciência. Quando era miúdo — a primeira história que conheço —, quando ainda comia numa cadeira de bebé, meu pai, depois do jantar, costumava brincar comigo um jogo. Tinha trazido vários azulejos rectangulares de casa de banho de um lugar qualquer da cidade de Long Island. Colocávamo-los de pé, um após outro, todos empilhados, e podia empurrar o pri­meiro e ver cair tudo. Até aqui tudo bem!
A seguir, o jogo tornou-se mais complicado. Os azulejos eram de cores diferentes. Tinha de dispô-los numa certa ordem, com a seguinte sequência: um branco, dois azuis, mais um branco e depois dois azuis (…); se, por acaso, quisesse colocar um terceiro azulejo azul, meu pai obrigava-me a colocar um branco. Já estão a reconhecer a velha astúcia: primeiro, encantar a criança com a brincadeira, depois, introduzir lentamente material de valor educativo. Ora, a minha mãe, que era muito mais emotiva do que o meu pai, começou a com­preender a perfídia dos seus esforços e disse-lhe: «Por favor, Mel, deixa a pobre criança pôr um azul, se quiser!». Meu pai respondeu-lhe: «Não, quero que prestes atenção aos padrões. É (…) matemática ao nível mais elementar»".

E, continua...

"Penso que é muito importante — pelo menos era-o para mim — que ao ensinar as pessoas a fazer observações se lhes deve mostrar que algo de maravilhoso pode resultar desse facto. Foi nessa altura que aprendi qual é a base da ciência: uma grande paciência. Se se souber olhar, observar e prestar atenção, é-se amplamente recompensado (provavelmente nem sempre!).
Mais tarde, como adulto (…) trabalhava meticulosamente em vários problemas, hora após hora, durante anos — algumas vezes vários anos, outras vezes menos tempo —, sem chegar a algo que não fosse deitar um monte de rascunhos para o cesto dos papéis. Contudo, de vez em quando, surgia um instante dourado: antever uma nova compreensão, momento que apren­dera a esperar, ainda quando miúdo (…). E isto acontecia porque tinha plena consciência de que a observação vale sempre a pena e é recompensada."

Para se entender bem do que Feynam fala, a estas palavras em prosa deve aliar-se o seguinte poema:

Contemplo a sós o mar e penso ...
Vejo as ondas em agitado movimento ...
São montanhas de moléculas,
cada umas indiferente às outras ...
triliões as separam
formam, porém um uníssono a branca espuma.

Idades primervas sucessivas ...
´inda as ondas não eram por humanos olhos visíveis
ano após ano
ano após ano, tão estrondosamente
como agora, batiam nas praias.
para quem, para quê? ...
num planeta ainda sem vida,
um espectáculo sem espectadores.

Jamais em repouso ...
torturado era o mar pela energia
prodigiosa do Sol ...
desperdiçada sem trégua, derramada no espaço.
Uma migalha apenas faz bramir o mar.

Na profundidade dos oceanos, as moléculas
repetiam-se em padrões codificados
e repetindo-se, repetindo-se sem fim,
moléculas complexas formaram.
Novas e outras iguais a si ...
E uma dança original iniciaram.

Crescendo em tamanho, escolheram a via da
complexidade ...
Eis, por fim, a vida, multidões de átomos,
ADN, proteínas ...
Sempre, sempre embalando-se em estrutura complicada

Saídos já do berço-mar, agora
terrestres ...
átomos que ponderam,
matéria observadora.

À beira-mar ...
um Eu ...
Pergunta e pergunta-se:
um universo de átomos ...
um átomo-ilha no universo

Citação retirada de uma conferência proferida por Richard Feynman em 1966, na 14.ª Convenção Anual da National Science Teacher Association e publicada, bem como o poema, no livro Uma tarde com o Sr. Feynman (Gradiva).
Imagem: Equations and sketches, desenho de Richard Feynman, datado de 1985.