sábado, 3 de outubro de 2026

ENSINAR A CURIOSIDADE

Quando somos crianças, acontece, por vezes, sermos repreendidos, com uma frase: "não sejas curioso!". Parece que "ser curioso" é mau, é falta de educação, é um defeito a ser corrigido. 

Será sempre assim?

Vejamos:

Curiosidade do latim curiositas, curiositatis (do acusativo curiositatem com a queda do -m final e a passagem da consoante dental t a d — curiosidade ).

Da raiz de cura, que significa "cuidado", e do verbo curare "cuidar / ocupar-se de" aplica-se também aos cuidados do corpo, por isso, "tratar uma doença", "cuidar de alguém", curar.

Assim, o adjectivo curiosus significa "cuidadoso",  "dedicado", "atento".

Daí ser usado também para o trabalho do espírito, o trabalho intelectual; o curiosus é o que se dedica à investigação, o que tem desejo de saber.

Então, se a palavra curiosidade, em sentido pejorativo, significa "bisbilhotice", "indiscrição", ela é também sinónimo de desejo de saber, de conhecer, de gosto pela investigação, de procura do conhecimento.

Logo, podemos perguntar:

Não será esse o papel da escola, do professor? Despertar o gosto pelo conhecimento, pelo saber, pela investigação, ensinar a curiosidade?

Porque a curiosidade não nasce connosco, aprende-se, por isso se pode, e deve, ensinar.

 

Ensi­ne­mos a curi­o­si­dade — é o título de um artigo de opinião da autoria de Pedro Norton, no jornal Público do passado dia 14 de Julho de 2026 (aqui).

 Pretende o autor mostrar como a curiosidade é o motor do conhecimento, é a

"... von­tade de tudo apren­der ... o saber pelo saber ... o apren­der pelo apren­der ... o tra­ba­lho infinito de per­se­guir mea­das sem fio ... a von­tade tão mara­vi­lhosa como qui­mé­rica de bus­car o saber uni­ver­sal e de o cap­tu­rar num livro, numa enci­clo­pé­dia ou numa bibli­o­teca.

Dir-se-á que este tipo de curi­o­si­dade irre­fre­ada é uma forma de lou­cura mansa. Pois eu ouso dis­cor­dar. A curi­o­si­dade é, de certa forma, a fun­da­ção de todos os sabe­res. A curi­o­si­dade é a linha impro­vá­vel que une o fas­cí­nio pela Arte ao fas­cí­nio pela His­tó­ria, o fas­cí­nio pela Astro­no­mia ao fas­cí­nio pela Lite­ra­tura. A curi­o­si­dade é a pré-con­di­ção para o conhe­ci­mento."


E apresenta exemplos:

"Plí­nio, o Velho, almi­rante da frota de Miseno, mor­reu de curi­o­si­dade no ano 79 da nossa era. Tal­vez seja útil expli­car melhor. Autor, filósofo, coman­dante mili­tar, natu­ra­lista, Plí­nio vivia a uma dis­tân­cia razo­á­vel de Pom­peia quando se ini­ciou a erup­ção do Vesú­vio. E não terá pen­sado duas vezes. Man­dou pre­pa­rar uma pequena embar­ca­ção de nove homens e fez-se ao mar com a inten­ção de estu­dar e regis­tar de perto e com todo o rigor científico um fenó­meno natu­ral a todos os títu­los exce­ci­o­nal. Para um natu­ra­lista, a ten­ta­ção era irre­sis­tí­vel. Irre­sis­tí­vel e fatal, acres­cento. Segundo nos conta Plí­nio, o Jovem, seu sobri­nho, terá sido sur­pre­en­dido por uma gigan­tesca nuvem de cin­zas e gases vul­câ­ni­cos que aca­ba­riam por ditar a sua morte. Não sei se a curi­o­si­dade matou o gato, mas parece facto assente que terá sido res­pon­sá­vel pela morte de Plí­nio.

Para­do­xal­mente, se é certo que Plí­nio deve a morte à sua insa­ci­á­vel curi­o­si­dade, tam­bém parece ine­gá­vel que foi gra­ças a esta que ganhou a imor­ta­li­dade. Ou não fosse ele o autor da Natu­ra­lis His­to­ria, uma enorme enci­clo­pé­dia de 37 volu­mes, que sobre­vi­veu até hoje e que tinha a ambi­ção, nada mais, nada menos, do que reu­nir numa única obra todo o conhe­ci­mento até então dis­po­ní­vel. Da astro­no­mia à arte, pas­sando pela zoo­lo­gia, pela botâ­nica, pela geo­lo­gia ou pela mine­ra­lo­gia.

E a ver­dade é que é difí­cil meno­ri­zar a influ­ên­cia desta His­tó­ria Natu­ral, filha dileta da insa­ci­á­vel curi­o­si­dade de Plí­nio. 

Dela se diz, por exem­plo, ter ser­vido de ins­pi­ra­ção às Vidas dos Mais Exce­len­tes Pin­to­res, Escul­to­res e Arqui­te­tos, que Vasari have­ria de escre­ver 15 sécu­los depois.

... dois sécu­los depois de Vasari, 17 pas­sa­dos depois da curi­osa morte de Plí­nio, Dide­rot e D’Alem­bert, igual­mente insa­ci­á­veis de curi­o­si­dade, alme­ja­ram tam­bém reu­nir todo o conhe­ci­mento do Mundo. A sua cele­brada Ency­clo­pé­die não é senão a mate­ri­a­li­za­ção dessa imensa vora­gem e desse gigan­tesco desejo de tudo saber.

Sob a batuta dos dois edi­to­res tra­ba­lha­ram mais de uma cen­tena de auto­res, entre os quais se des­ta­cam, pasme-se, Vol­taire, Rous­seau e Mon­tes­quieu.

Atra­vés da sua cor­res­pon­dên­cia com livrei­ros ingle­ses, Wil­liam Ches­ter Minor* terá tido conhe­ci­mento de um pequeno anún­cio que fazia apelo a volun­tá­rios para cola­bo­rar na fei­tura do Oxford English Dic­ti­o­nary, então diri­gido pelo filólogo James Mur­ray. Foi nessa altura que, pre­ci­sa­mente movido pela curi­o­si­dade, Minor ganhou um lugar neste meu muito sin­gu­lar e dis­cu­tí­vel pan­teão. Com acesso irres­trito à sua vasta bibli­o­teca pes­soal, aju­dado pela viúva do homem que tinha assas­si­nado (que o visi­tava com fre­quên­cia para o abas­te­cer de livros), Minor mer­gu­lhou de cabeça. Ao longo de deze­nas de anos tor­nar-se-ia um dos prin­ci­pais con­tri­bui­do­res para o Oxford English Dic­ti­o­nary, envi­ando mui­tos milha­res de cita­ções e exem­plos de usos de pala­vras extra­í­dos do seu espó­lio de livros anti­gos.

E termina deste modo:

Numa altura em que a escola parece por vezes per­dida num labi­rinto buro­crá­tico e pro­ces­sual, numa altura em que, mal­grado os esfor­ços bem-inten­ci­o­na­dos de mui­tos, parece blo­que­ada por for­ças con­tra­di­tó­rias que se anu­lam e ame­a­çam fazer per­der o sen­tido último do seu pro­pó­sito, tal­vez não seja má ideia regres­sar a esta ideia sim­ples: ensi­ne­mos a curi­o­si­dade.

Plí­nio, Dide­rot, D’Alem­bert e Ches­ter Minor, uns mais lou­cos do que outros é certo, foram toca­dos, cada um à sua maneira, pelo vírus da curi­o­si­dade.


*Médico cirurgião (1834-1920). Formado na Escola de Medicina de Yale em 1863, foi cirurgião do exército americano durante a Guerra Civil Americana; tendo ficado perturbado pelos horrores a que assistiu, foi internado num hospital psiquiátrico. Num acesso de delírio tinha disparado contra um homem, mas foi considerado inocente devido à sua insanidade. A sua história está documentada no filme de 2019, O Professor e o Louco.

Isaltina Martins

ENSINAR A CURIOSIDADE

Quando somos crianças, acontece, por vezes, sermos repreendidos, com uma frase: "não sejas curioso!". Parece que "ser curioso...