quinta-feira, 31 de março de 2022

DA MUI NOBRE e VETUSTA ARTE DE BEM MATAR (REDONDILHAS DEDICADAS AOS INDUSTRIAIS DA GUERRA)

1
São muito boas as guerras
prós que a elas não vão:
nas guerras, ganham-se terras,
mas não são para o povão.

2
Nas guerras, manda quem pode,
e pode quem muito vende:
o pobre é quem se fode,
porque morre e não entende.

As fábricas de matar
são muito ambiciosas:
não podem nunca parar
porque são muito custosas!

Mais se morre,mais se vende:
um avião metralhado,
novo avião subentende
- eis negócio consumado. 

5
Quanto mais bombas rebentam,
mais bombas há que comprar
e só ruínas lamentam
os que não sabem ganhar.

A guerra é um grande negócio,
para quem sabe viver 
e tira os madraços do ócio, 
dando-lhes um bom morrer.

7
Os que ordenam matar
vão depois beber à glória
que se há de registar
nos compêndios de História! 

Eugénio Lisboa

domingo, 27 de março de 2022

A TERRA E NÓS

Texto de Jorge Paiva, Biólogo na Universidade de Coimbra, a propósito da entrevista que a seguir se identifica e publicado no mesmo jornal.


Todos os alunos do ensino secundário deviam ler a extraordinária entrevista feita ao geólogo Andrew Knoll (Público 20.03.2022, pág. 24-25), muito elucidativa sobre a vida na Terra, a acção nefasta da nossa espécie e alerta para o desastre para que caminhamos se os políticos continuarem a defender apenas interesses partidários, financeiros e bélicos, de que a invasão à Ucrânia é um exemplo. 

Todos os políticos deviam ler esta esclarecedora entrevista, mas poucos lêem jornais (preferem ver e aparecerem nas televisões). Mas, quando os lêem, apenas lêem as entrevista a políticos e artigos escritos por políticos, para terem assuntos para arguirem, que é o que eles gostam de fazer.

Basta vermos os debates televisivos entre eles e assistirmos às sessões da Assembleia da República, para vermos como eles passam o tempo a vociferarem unes contra os outros, em vez de tentarem procurar soluções para melhorarem as condições de vida das populações. 
 
Jorge Paiva.
Coimbra

A CHAVE, A LUZ E O BÊBADO


Minha recensão do livro de Giorgio Parisi no último número da revista «As Artes entre as Letras»:

Metade do Prémio Nobel da Física de 2021 foi atribuído ao físico teórico italiano Giorgio Parisi (nascido em Roma, 1948) «pela descoberta da interacção de desordem e flutuações sistemas físicos de escalas atómicas a planetárias». Ele é especialista em sistemas complexos, que são sistemas com muitos constituintes cujas ligações podem dar lugar a surpreendentes comportamentos colectivos: o todo é maior do que a soma das partes. É desse autor que a Gradiva acaba de publicar, como n.º 238 da sua colecção «Ciência Aberta», o livro A Chave, a Luz e o Bêbado, com o subtítulo Como se desenvolve a investigação científica (boa tradução de Bárbara Villalobos, da qual eu próprio fiz a revisão científica, do original italiano de 2006). Em 105 páginas, divididas por 15 capítulos, o autor conta o seu trabalho e o modo como vê o mundo, a ciência e a sociedade. O livro é resultado de uma conversa fluida entre o autor e o editor, respondendo em cada capítulo o primeiro a uma pergunta do segundo (por exemplo, a última pergunta é «Como foram os seus estudos na Universidade e como avalia a  universidade actual?»).

O título do livro vem de uma velha anedota, que se conta brevemente. Um bêbado que perdeu uma chave procura-a num sítio iluminado por um candeeiro de rua. Um transeunte presta-se a ajudá-lo, mas não tendo nenhum deles encontrado nada, acaba por lhe perguntar: «Tem a certeza de que a perdeu aqui?». O bêbado responde-lhe com a maior das honestidades: «Não, mas no sítio onde a perdi não havia luz». Trata-se de uma metáfora para o trabalho dos físicos. Conforme explica Parisi: «Os cientistas fazem as coisas que conseguem fazer. Quando se dão conta de que dispõem dos meios para estudar alguma coisa que até ao momento tinha sido deixada de lado, então empenham-se nessa via. Pode acontecer que, como o bêbado, tenham necessidade de procurar algo num sítio onde não têm luz. Então procuram o que há nos sítios mais bem iluminados.»

Parisi estudou um conjunto impressionante de problemas em várias escalas do Universo: começou por ganhar fama estudando uma questão dos quarks confinados dentro de um protão para mais tarde estudar a ocorrência de idades do gelo no nosso planeta, passando por questões do comportamento magnético de sistemas desordenados – os chamados «vidros de spin» são ligas metálicas em que os constituintes magnéticas estão dispostos aleatoriamente em posições de uma rede regular e questões sobre os padrões de voo, aparentemente coordenado, de um bando de milhares de estorninhos. Para quem pense que são questões meramente teóricas, esclareça-se que as soluções para os vidros de spin encontraram aplicações em algoritmos de inteligência artificial e que o voo dos estorninhos pode dar-nos indicações sobre os fenómenos da moda. Em todos esses domínios Parisi revelou a sua enorme criatividade, documentada em centenas de artigos científicos (alguns deles muitos citados), que lhe valeram vários prémios científicos antes do Nobel. Ele foi o sexto físico italiano a ganhar este prémio, depois de Cuglielmo Marconi (1909), que desenvolveu a TSF, do famoso Enrico Fermi (1938), que consstrui o primeiro reactor nuclear, de Emilio Segrè (1959), que descobriu o antiprotão (a antipartícula do protão), do mediático Carlo Rubbia (1984), que dirigiu no CERN em Genebra, na Suíça, a numerosa equipa que detectou as partículas intermediárias da força nuclear fraca, e de Riccardo Giannoni (2002), que nos Estados Unidos construiu detectores de raios X para o espaço.

Parisi formou-se na Universidade de Roma La Sapienza em 1970 (uma das mais antigas universidades de Itália – foi fundada em 1303 – e  uma das mais prestigiadas da Europa), orientado por Nicola Cabibbo, um especialista na teoria da força nuclear fraca que merecia ter ganho o Nobel (quem sai aos seus…). Passou a ser investigador nos Laboratórios Nacionais de Frascati, tendo então beneficiado de estadas nos Estados Unidos (na Universidade Columbia em Nova Iorque) e em França (esteve na Escola Normal Superior, em Paris). De volta a Itália em 1981, ganhou um lugar de professor na Universidade de Roma Tor Vergata, para, passados onze anos, se transferir para a Universidade La Sapienza, onde tinha estudado (o bom filho a casa torna!). Assim, ao contrário de outros prémios Nobel italianos, fez a maior parte da sua carreira em Itália, a pátria de Galileu, investigando em domínios tão diversos como a física de partículas, a física estatística, a mecânica dos fluidos, a física da matéria condensada e a física da complexidade. Jubilou-se aos 70 anos, para assumir a presidência da Accademia dei Lincei, a Academia dos Linces, fundada em 1603 em Roma (Galileu foi membro dessa academia).

Em 2016, Parisi criou e dirigiu o movimento Salviamo la Ricerca Italiana, que procurou o aumento do financiamento público para a ciência fundamental. O lado activista de Parisi fez-se também notar quando ele, em 2008, com colegas e alunos, se opôs, em nome da laicidade da instituição universitária, a uma intervenção do papa Bento XVI na La Sapienza, que acabou por não se realizar.

No livro agora saído entre nós faz a apologia da ciência fundamental e realça o papel que os computadores têm dado para a decifração da Natureza, realizando simulações. Ele próprio, como conta, contribuiu para o desenvolvimento de novas arquitecturas de computadores para resolver problemas específicos. Explica como os computadores ajudam na investigação de sistemas complexos, esclarecendo que os sistemas biológicos são complexos: o nosso cérebro por exemplo, é eminentemente complexo. Parisi interessa-se por características universais desses sistemas, isto é, aspectos que não dependem dos constituintes particulares e das suas interacções. Esta visão da holística física distingue-se da tradicional visão reducionista, que quer compreender o todo reduzindo-o às suas partes.

Parisi é um humanista, bom conhecedor da nossa tradição artística. Um dos capítulos discute o papel dos critérios estéticos na investigação científica. Escreve: «O ideal para um cientista – mesmo que nem todos estejam dispostos a admiti-lo- é apresentar uma teoria ‘bela’». Este livro é uma janela aberta para a sua mente.

JOÃO DA PROVIDÊNCIA (1933-2021)


Meu artigo na última Gazeta de Física:

O Prof. João da Providência Santarém e Costa, falecido em 9 de Novembro de 2021, teve uma vida de dedicação plena à academia desde que se formou em Ciências Físico-Químicas, em 1954, na Universidade de Coimbra (UC), até que aí se jubilou em 2003. Tornou-se professor catedrático da UC em 1972, tendo em várias ocasiões sido responsável pelo Departamento de Física.

Investigou em várias áreas da Física Teórica e da Matemática, brilhando principalmente em Física Nuclear e de Partículas. Criou a Escola de Física Teórica de Coimbra, ao fundar o Centro de Física Teórica da UC, que se integrou no Centro de Física da UC. Formou vários doutores no país num tempo em que a pós-graduação era bem mais rara do que hoje.  Pós-doutorados de vários sítios procuravam o seu grupo. Eu e muitos outros físicos devemos-lhe a formação e o acompanhamento profissional com constante estímu

Publicou mais de 400 artigos de Física e Matemática, contendo estudos sobre os mais variados sistemas físicos (núcleos atómicos, átomos,  moléculas e sistemas de matéria condensada) e sobre Álgebra Linear.  O último paper, saído em  2021 na Physical Review C, analisa a matéria no interior das estrelas de neutrões.  Reconhecido no mundo todo, o seu nome encontra-se em reviews e em manuais especializados de física.

João da Providência nasceu no dia 1 de Março de 1933, em Vila Verde (Braga). Em 1955, recém-licenciado, tomou posse com 2.º assistente, além do quadro. Foi enviado pouco depois para Birmingham, a fim de estudar Física Teórica. Doutorou-se primeiro em Física-Matemática pela Universidade de Birmingham (1959), com a tese Perturbation theory of a finite nucleus, e depois em Ciências Físico-Químicas pela UC (1960), com outra tese, abordando ainda as correlações entre os nucleões. O seu supervisor foi o eminente físico britânico Sir Rudolf Peierls, discípulo de Werner Heisenberg, pioneiro da  energia atómica  e  doutor honoris causa pela UC. Regressou doutorado com 26 anos, trazendo para Portugal a teoria quântica aplicada aos núcleos atómicos. Começou logo a publicar na melhores revistas internacionais, como a Nuclear Physics. Nessa altura quase não havia computadores, pelo que o trabalho principal era analítico. Nele revelava os seus invulgares dotes matemáticos, para além de uma extraordinária intuição física. Ao longo da sua vida, foi mantendo intenso intercâmbio científico com o exterior. Fez estágios  no Instituto Niels Bohr, no MIT, no Brookhaven National Laboratory, e em universidades japonesas. E colaborou com universidades e instituições prestigiadas do Reino Unido, Dinamarca, Alemanha, EUA, Brasil, Japão, etc 

Em 1993, quando fez 60 anos, os seus colegas fizeram-lhe uma festa de homenagem no quadro da Conferência Internacional sobre Many Body Physics, cujas actas foram publicadas pela World Scientific. Foi distinguido com vários prémios: Boa Esperança (1990), Gulbenkian de Ciência (1992), Oriente (1994) e Estímulo à Excelência (2014). Foi sócio honorário da Sociedade Portuguesa de Física e sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa. Apesar das honras, foi sempre uma pessoa modesta e reservada.

Dois dos seus seis filhos são professores de Física: João Pinheiro da Providência, na Universidade da Beira Interior, e Constança da Providência, na UC. É uma enorme perda não só para a família, mas também para a Física e, mais em geral, para a ciência portuguesa. Ficam os seus trabalhos e os seus discípulos e colaboradores, que o recordarão sempre com gratidão e saudade.

LEGENDA: João da Providência (à direita) na cerimónia de doutoramento honoris causa na Universidade de Coimbra de Rudolph Peierls em 1988.

Novos Classica Digitalia

Os Classica Digitalia têm o gosto de anunciar 2 novas publicações com chancela editorial da Imprensa da Universidade de Coimbra. Os volumes dos Classica Digitalia são editados em formato tradicional de papel e também na biblioteca digital, em Acesso Aberto. 

 NOVIDADES EDITORIAIS 
 Série “Autores Gregos e Latinos” [textos] 

 - Marta Isabel de Oliveira Várzeas, Plutarco. Como deve o jovem ouvir os poetas? Tradução do grego, introdução e notas (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2022). 108 p. DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2237-8 [

O tratado Como deve o jovem ouvir os poetas faz parte de um conjunto de cerca de setenta e oito obras de Plutarco, conhecidas pelo nome latino Moralia. Com ele, o autor regressa ao “antigo diferendo entre poesia e filosofia”, radicalizado por Platão na República, e resolvido na Poética de Aristóteles, embora nunca completamente ultrapassado. O tema é retomado na perspetiva da educação. Mas, ao contrário da proposta platónica, a de Plutarco vai no sentido de defender e demonstrar as potencialidades pedagógicas da poesia e o seu papel propedêutico em relação à filosofia.] 

 Série “Ideia” [estudos] 

 - Leonel Ribeiro dos Santos, A razão bem temperada: do princípio do gosto em filosofia e outros ensaios kantianos (Coimbra, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2022). 743 p. DOI: https://doi.org/10.14195/978-989-26-2193-7 

 [A ideia que dá título e confere tonalidade a este volume é tomada do primeiro ensaio, no qual se apontam os vários aspetos da profunda transformação estética da Filosofia, levada a cabo na e pela filosofia de Kant. Destaca-se a importância da metáfora-princípio do Gosto como noção sobre a qual se constrói o discurso e o pensamento estético setecentista na sua expressão mais qualificada, mas também como princípio modelador do próprio pensamento filosófico em geral, que dá a este uma inconfundível feição estética, reconhecível na linguagem e no modo de entender a produção do pensamento e a natureza da própria Filosofia e da sua peculiar poética. Os quatro primeiros ensaios explicitam os efeitos dessa “viragem para a estética” tal como ela se deu na e pela filosofia de Kant. Um segundo grupo de ensaios desenvolve aspetos pouco visitados da filosofia moral e política kantiana. E os quatro últimos ensaios dão a ver a fecundidade da polémica filosófica, ora apresentando Kant enquanto intérprete e crítico de outros filósofos antigos ou contemporâneos, ora mostrando interpretações pouco conhecidas da própria filosofia kantiana, que têm alguma relação com outros ensaios que inte

Mailing list Classicadigitalia_pt@uc.pt 

O MOSTRENGO ( RETRATO DE PUTINE )

Novo poema de Eugénio Lisboa: 

Pálido e traiçoeiro,
ele tem o sangue frio,
de insensível bandoleiro,
que convoca calafrio.

Bufo de rosto sombrio,
assassino mafioso,
solitário arredio,
bom cliente de Lombroso,

salafrário teimoso,
saudoso de impérios,
megalómano ardiloso,
vomitando impropérios,

bom filho de Satanás,
bicho que não teve mãe,
no inferno assarás
ou dele ficarás refém!

Eugénio Lisboa

Ciclo Ciência às Seis (on-line): "Dos estomas ao clima: árvores e florestas nos ciclos da água e do carbono"

 

 

Na próxima terça-feira, dia 29 de Março às 18h realiza-se via plataforma Zoom, a palestra intitulada "Dos estomas ao clima: árvores e florestas nos ciclos da água e do carbono" com Catarina Moura do Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra e moderação de Carlos Fiolhais. 

 Sessão inserida no ciclo de divulgação científica "Ciência às Seis", iniciativa do RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, destinada ao público em geral interessado em cultura científica, de participação livre e gratuita, não sendo necessária inscrição. 

ou ID da reunião: 846 2276 7649 17 

Resumo da Palestra: 

 As alterações climáticas constituem hoje um dos maiores desafios da Humanidade. Sabemos que se devem ao aumento de emissões de gases de efeito de estufa, designadamente o dióxido de carbono. As plantas são capazes, graças à fotossíntese, de absorver dióxido de carbono produzindo oxigénio. Que papel têm as árvores e os seus grandes agrupamentos que são as florestas no ciclo da água e do carbono que estão na base do clima? Que prejuízo causa a deflorestação? Que papel no clima poderá ter uma florestação intensiva? 

 Breve biografia da Oradora: 

 Catarina Moura, doutorada pela Universidade de Duke, nos Estados Unidos, passando depois por UC-Berkeley (Califórnia), pelo Instituto Max Planck de Biogeoquímica em Jena, na Alemanha, e com actividade em Portugal, em Lisboa e em Coimbra, tem se dedicado às alterações climáticas e biogeoquímica em ecossistemas terrestres e florestais, incluindo os montados do sul de Portugal. Actualmente investigadora no Centro de Ecologia Funcional da Universidade de Coimbra, e associada à Cátedra UNESCO para a Biodiversidade e Conservação para o Desenvolvimento Sustentável, tem um grande interesse pela comunicação de ciência, educação e aproximação da academia à sociedade e ao público escolar, participando em várias acções de divulgação e formação sobre os temas da biodiversidade, acção climática e sustentabilidade."

 Vídeos de sessões anteriores do ciclo estão disponíveis no Canal YouTube 

 RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra 
 Departamento de Física da FCTUC Rua Larga 3004-516 Coimbra 
 Telefone: 239 410 699 E-mail Geral: ccvromulocarvalho@gmail.com 
 

MATEI O MEU INIMIGO

Andei perdido na guerra,
procurando o inimigo:
vasculhei toda a terra,
de abrigo em abrigo.

Como seria o seu rosto?
Como se comportaria?
Seu ódio estaria exposto?
Que faria? Correria?

Matar-me-ia com fúria?
Matá-lo-ia com medo?
Gritaria uma injúria?
Um de nós, trinchado e quedo?

Empalei-o e abracei-o,
colocando-o no chão.
Com cuidado, observei-o:
era, horror!, o meu irmão! 

Eugénio Lisboa

sábado, 26 de março de 2022

SEREMOS CAPAZES DE ACORDAR?

O mundo avança "como sonâmbulo para a catástrofe climática"

Isto foi o que disse António Guterres, Secretário-geral da Organização das Nações Unidas, num recente fórum internacional sobre clima. Disse o que a maior parte de nós sabe muito bem, mas por se encontrar num inexplicável estado de sonambulismo continua em direcção ao abismo.

No rescaldo (ou ainda não) de uma pandemia e em plena guerra na Europa (sem contar outras que passaram para a penumbra), Guterres insistiu no pedido que tem feito muitas vezes a todos os países, com destaque para as potências económicas: que substituam as energias fósseis em prol da sustentabilidade da vida (de toda a vida, animal e vegetal) no planeta.

Sem desvalorizar as guerras, lembrou que, neste momento, os problemas relacionados como o clima provocam "três vezes mais" deslocados do que os conflitos.

"O problema está a ficar mais grave". "O Homem está a travar uma guerra contra a natureza. Isto é um ato suicida. A natureza ataca sempre de volta – e já o está a fazer com uma força e fúria crescentes".

E voltou a apelar ao compromisso político e individual:

“Vamos ser claros: as atividades humanas estão na raiz da nossa queda mas isso significa que a ação humana pode ajudar a resolver este problema. Fazer as pazes com a natureza é a tarefa definidora do século XXI. Deve ser a maior prioridade para todos, em todos os lugares.”

Mesmo aqueles que têm boa vontade, para assumirem a sua quota de responsabilidade nesse compromisso, precisam de sair do estado de torpor... E não é garantia que o consigam...

Ver aqui e aqui.

sexta-feira, 25 de março de 2022

Café com ciência em Braga

 


O Centro Ciência Viva de Braga irá realizar o Café com Ciência no dia 8 de abril (sexta-feira) às 21.30h que contará com a presença dos cientistas João Paiva e Carlos Fiolhais.

 

 O Café com Ciência é uma atividade gratuita mas requer inscrição através do geral@casacienciabraga.org

Resumo da atividade: 

Thomas Kuhn na sua obra “A Estrutura das Revoluções Científicas" considera que "estamos muito acostumados a ver a ciência como um empreendimento que se aproxima cada vez mais de um fim estabelecido antecipadamente pela natureza.”

 Nos séculos XVI e XVII, emergiu na Europa a chamada Revolução Científica que conduziu a uma nova conceção da ciência, baseada no método científico. Essa revolução beneficiou com o desenvolvimento de nova instrumentação e buscou apoio na matemática. Coincidiu com o nascimento de sociedades científicas e culminou com a formação de uma comunidade científica com regras e práticas acordadas. Este processo de institucionalização conduziu à fragmentação de saberes: isto é, o surgimento de disciplinas científicas específicas e distintas, como a Química, a Biologia e a Geologia. 

 A Física continua a sua tentativa de uma visão unificada. Hoje em dia, contudo, a lei única, capaz de explicar todo o Universo parece estar longe de ser alcançada. Embora os físicos tenham construído, com base na teoria quântica, um modelo padrão capaz de explicar todas as partículas conhecidas e todas as forças fundamentais, tiveram de deixar de fora a misteriosa gravitação. Por outro lado, têm que lidar com o facto de esse modelo apenas se aplicar a 4% do Universo conhecido. 

Kuhn escreveu: “É realmente útil imaginar que existe uma explicação da natureza que seja completa, objetiva e verdadeira e que a medida do êxito científico seja o ponto a que ficamos de atingir esse fim último?». 

 A ciência do século XXI parece, por vezes, ignorar algumas das grandes questões filosóficas que marcaram a História da Ciência. Que futuro têm as ciências e o seu cruzamento num mundo cada vez mais digital?

E se, de repente, um desconhecido lhe oferecer colisões, isso é… o LHC

NÃO HÁ GUERRAS BOAS


Novo texto de Eugénio Lisboa: 

 Os poetas odeiam o ódio e fazem guerra à guerra. 
 Pablo Neruda

 Nunca houve uma guerra boa nem uma paz ruim. 
 Benjamin Franklin
 

s um problema que tem angustiado os homens, de não há muito tempo a esta parte. As mulheres, que, durante muitos séculos, não tiveram de participar activamente na carnificina, mas tiveram de a sofrer, na sombra, sem poder intervir, mas arcando, depois, com as consequências da destruição, dos ferimentos e da morte dos seus, reagiram, desde muito cedo, à folia bélica com que os homens se entretinham a resolver problemas, muitas vezes de lana caprina. Mais ligadas à terra e à vida (são elas que geram vida), mais sensatas, menos dadas a fantasias com pés de barro, as mulheres opuseram-se, desde cedo, à folia mortífera da guerra. Já no ano de 411 A. C. o famoso comediógrafo grego Aristófanes pôs em cena uma hoje famosa comédia, intitulada LISISTRATA, criticando a guerra de uma maneira muito imaginativa e provavelmente eficaz. Nessa peça, as mulheres gregas, lideradas pela dinâmica Lisistrata, fartas das guerras entre Atenas e Esparta, resolvem trancar-se num templo e fazer greve sexual, enquanto se não pusesse termo à guerra. Aristófanes dava certamente voz, na sua comédia, ao sentimento que as suas conterrâneas gregas deviam andar a tornar bem visível e audível. Contudo, até tempos relativamente recentes (vésperas da primeira guerra mundial), aceitava-se, sem grandes estados de alma, o conceito de Clausewitz: “A guerra é a continuação da política por outros meios”. A guerra era o último recurso, quando a diplomacia esgotava os seus. Não havia, por assim dizer, um problema ético. Grandes fazedores de guerras, como Napoleão, eram admirados por gigantes como Goethe, Stendhal e Beethoven, não necessariamente, por causa da guerra, mas, pelo menos, apesar dela. Quando se tornou claro, nos primeiros anos do século XX, que se estava à porta de um novo grande conflito europeu – que viria de facto a começar em Agosto de 1914 – vozes corajosas de alguns grandes escritores começaram a erguer-se, com grande coragem e eloquência, contra a insensatez e a imoralidade da guerra, como modo de resolver conflitos de interesses. De entre os intelectuais europeus, que se destacaram nesse destemido e arriscado combate, citarei três: Romain Rolland, Bertrand Russell e Stefan Zweig. Romain Rolland provocou, com os textos pacifistas depois recolhidos no seu famoso e vituperado livro AU DESSUS DE LA MÉLÉE, uma reacção violenta, da parte dos belicistas, que o levou a emigrar para a Suíça, de onde continuou a lutar pela paz. Bertrand Russell pagaria com a prisão o seu credo pacifista.

 Curiosamente, dois dos maiores escritores do século XX, Anatole France e Thomas Mann alinharam, por esta altura, com os arautos da guerra, mas não demorariam a mudar de opinião, tendo-se o escritor alemão voltado contra a emergente peste nazi, que lhe valeu o exílio e a perda do título académico que lhe fora dado por uma universidade alemã, para não falar na queima dos seus livros, na praça pública.

 A carnificina nas trincheiras da Europa foi de tal natureza e dimensão, que originou em vários escritores europeus, que tinham vivido o horror da guerra, de um lado e do outro do conflito, o desejo de produzirem obras de ficção, centradas naquele morticínio, com o objectivo de fazer com que ele se não voltasse a repetir: por reacção dos leitores à dramatização daquela monstruosidade. Henri Barbusse, Roger Vercel, Roland Dorgelès, Erich Maria Remarque, Georges Duhamel, Roger Martin du Gard, Ernest Hemingway, na ficção, ou Rupert Brooke e Siegfried Sassoon, na poesia, foram impressionantes testemunhos. Nalguns, como Roger Martin du Gard, a impressão causada por aquele inferno de mortos e mutilados – ele trabalhou no serviço de ambulâncias – foi tal, que ficou irredutivelmente contra a guerra, fosse ela qual fosse. De tal maneira que, sendo um homem de esquerda, quando Hitler começou a devorar a Europa, Martin du Gard disse aos amigos, que tudo era melhor do que resistir ao ditador alemão, originando uma reedição da carnificina de 1914 – 1918. Nada era, para ele, tão mau como uma nova guerra. Mais adiante, mudaria de opinião, quando se apercebeu do que Hitler representava e de que se tornava tragicamente necessário resistir-lhe. O mesmo se passou com Bertrand Russell, que pôs entre parêntesis o seu pacifismo, reconhecendo que esta guerra era inevitável. Todavia, outro enorme escritor francês, Jean Giono, que percorrera os anos da primeira guerra mundial a carregar uma espingarda que nunca disparou, mas a ver o lado mais monstruoso da condição humana, jurou e cumpriu, que nunca mais voltaria a participar numa nova guerra. Pacifista radical, recusou-se a combater os exércitos nazis e escreveu porquê. Para Russell e Martin du Gard, não havia guerras boas, mas havia guerras inevitáveis. Para Giono, havia só guerras más, ponto final. Pertencendo ao Mouvement du Contadour, que se opunha a qualquer conflito armado, pagou-o com a prisão. Pode-se não concordar com a decisão dele, mas não se pode deixar de respeitar a coerência do seu radicalismo. Não há, de facto, guerras boas: são todas más, embora algumas sejam inevitáveis. A corajosa resistência da Ucrânia ao monstruoso poder militar de Putine originou uma guerra má, mas inevitável, ainda que desnecessária. São pessoas como Hitler e Putine que cometem o pecado supremo de originarem guerras inevitáveis. E más como a peste.

Eugénio Lisboa

quinta-feira, 24 de março de 2022

UN PETIT OBSTACLE INATTENDU

A vida é só um curto percorrer,
entre um deslumbrado despertar
e um melancólico desvanecer:
entre os dois, o nosso saber voar.

Não é importante o que acontece,
mas o que fazemos acontecer:
o que se conquista não é com prece,
nem ficando à espera de suceder.

O nosso destino é por nós feito,
como se constrói palácio ou casa.
Todavia, nada é nunca perfeito:

 tantas vezes o nosso golpe d’asa
fica acintosamente travado
por sismo que não estava programado!

Eugénio Lisboa

quarta-feira, 23 de março de 2022

OS CIENTISTAS NÃO 'ACREDITAM'

Por múltiplas e diversas razões, não gosto nada, mesmo nada, de usar aqui ou noutro lugar público casos ou exemplos pessoais, mas vou abrir uma excepção para registar um fenómeno que tenho visto acentuar-se e de que outros investigadores e professores terão dado igual conta.

Esse fenómeno é o uso de expressões como "acredito", "acreditamos" e "acredita-se" em trabalhos académicos de licenciatura, mestrado e doutoramento. Desde há uns anos a esta parte não há nenhuma época de avaliação em que não assinale múltiplas vezes a imprecisão (ou o erro) nesses trabalhos e a explique aos estudantes. Faço isso também no início de cada "unidade curricular", e devo dizer que os resultados estão longe de ser animadores. "Nunca pensei nisso", "é o hábito", dizem-me eles. Será assim, mas as palavras traduzem ideias e, em Educação (onde convivem disciplinas de teor filosófico e científico) as ideias precisam de ser escrutinadas sob pena de  nos conduzirem a sentidos indesejados.

O físico e biólogo Alexandre Quintanilha percebeu, por certo, esta tendência linguística/de pensamento antes de mim, pois em Setembro de 2009 tornou-a tema de uma conferência realizada no Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, integrada nas celebrações dos 150 anos de publicação da Teoria da Evolução das Espécies, de Charles Darwin. A conferência foi apresentada da seguinte maneira:
"Frequentemente são noticiados debates entre os que 'acreditam em Darwin' e os que 'acreditam no criacionismo ou desenho inteligente'. É muito importante esclarecer que os cientistas não 'acreditam' em Darwin" (...) "a ciência tem como objectivo analisar a evidência e a partir [dela] apresentar hipóteses que podem ser verificadas ou não", daí que "o fundamental continua a ser sempre a necessidade de pôr essas hipóteses à prova". Assim, debater se o homem evoluiu a partir de outra espécie ou se foi criado por um ser inteligente não deve ser matéria de "crença". "Os que acreditam no criacionismo não têm dúvidas. Os cientistas têm muitas dúvidas. São elas que fazem avançar a ciência", sublinha. De resto, o trabalho científico "é longo e laborioso e beneficia muito dos escolhos que encontra pelo caminho".
Nessa conferência, a que assisti, tirei as seguintes notas:
“Nós, os biólogos, não acreditamos na Teoria da Evolução”. Esta foi a primeira frase que enunciou. E explicou: “acreditar” é uma palavra sem sentido em ciência, pois o que os cientistas procuram é dados, provas para confirmarem ou infirmarem as teorias. A Teoria da Evolução não pode ser entendida como uma crença porque ao longo do tempo, os cientistas foram acumulando factos que os levam a pensar que ela está certa. 
Isso não significa que a devam entender como uma Verdade com “V” grande, mas como com “v” pequeno, pois as teorias são constantemente revistas, o que desencadeia alterações, correcções… Aqui está uma das características mais empolgantes da ciência: a transitoriedade de muitas respostas, a “verdade” está sempre sujeita a revisões. 
Segui-se a questão: como acedemos ao conhecimento científico? Ou seja, quando queremos conhecer, no campo da ciência, como fazemos? É preciso ter curiosidade e imaginação: a primeira influencia/determina as perguntas que fazemos e a segunda influencia/determina a forma como tentamos responder às perguntas. Os pensadores (e fazedores) mais criativos são aqueles que imaginam novas perguntas e respostas, pondo em causa as existentes. 
A maneira como tentamos responder a perguntas faz-se através: (a) da formulação de hipóteses; (b) concebendo formas de testar essas hipóteses; (c) acumulando e integrando informação, identificando semelhanças e diferenças; (d) e prevendo consequências. 
As respostas que se vão encontrando surgem frequentemente em forma de “estórias”, as quais podem ser mais ou menos robustas, em função da sua coerência (ausência de contradições e incoerências) e da sua fertilidade (construindo pontes novas entre áreas diferentes do conhecimento e permitindo formular hipóteses). 

Isto conduz-nos aos valores que entende serem os da ciência: 
(1) Exactidão preditiva, ou a capacidade de se prever aquilo que ainda é desconhecido;
(2) Coerência interna, ou a exigência de que os vários elementos de uma teoria não se podem contradizer;
(3) Consistência externa, ou a ideia de que não se devem violar princípios científicos já estabelecidos que, por serem sólidos, muito dificilmente podem ser questionados;
(4) Capacidade unificadora, ou a possibilidade, que infelizmente só raramente surge, de se conseguir esclarecer em simultâneo vários dados;
(5) Fertilidade (ou fecundidade), ou a aptidão para abrir novos domínios de pensamento.
Adicionou a estes, mais um valor (que não é comum invocar-se):
(6) Simplicidade ou elegância, que remete para a ideia de que a teoria tem sempre qualquer coisa de esteticamente atraente ou apelativa.  

Em suma, para se perceber que a/s expressão/ões em causa não deve/m ser usada/s no contexto que referi, como sinónimos de "considero", "entendo", parto do princípio"..., é preciso entender em profundidade, o que Alexandre Quintanilha disse. Mas como é isso possível se as disciplinas que servem de base à Educação têm desaparecido do currículo do ensino superior? Em 2009 eu leccionava, no primeiro ano da licenciatura em Ciências da Educação a disciplina de "Epistemologia das Ciências da Educação", onde questões como as que estão aqui em causa tinham lugar. Foi, naturalmente extinta, no quadro da Reforma de Bolonha, para dar lugar a "unidades curriculares" mais funcionais, deixando os estudantes mais vulneráveis a modas, pressões e afins.

NÃO MATARÁS. AVISO A QUEM O FAZ

Dizia um profeta: Não matarás!
Pensava que era tão evidente
ser obra de um mítico satanás
tirar a vida a qualquer vivente,

que dizem ter ele dado a vida,
para que nos não perdêssemos nós,
impedindo a vida de ser cumprida,
qual rio que não vai chegar à foz. 

Mas os que dizem amar o profeta
são aqueles que mais têm matado,
em nome dele e ao som da trombeta!

Matar em nome de quem avisou
que fazê-lo era grande pecado
dita fado igual ao de quem tombou. 

Eugénio Lisboa

terça-feira, 22 de março de 2022

O Padre Manuel Antunes e a ciência

 Acaba de sair na Imprensa da Universidade de Coimbra este meu texto que se refere a um colóquio de homenagem ao Padre Manuel Antunes:

O Padre Manuel Antunes e a ciência

Carlos Fiolhais

Resumo: O jesuíta Manuel Antunes acompanhou com atenção a evolução histórica do seu tempo, devida em boa parte à aceleração da ciência e da tecnologia. A partir da sua Obra Completa, analiso o olhar que ele lançou sobre essas áreas. No texto «Ciência e cultura hoje», escreveu sobre a ciência: «o espírito que ela promove – espírito de exatidão e de rigor, espírito de justiça e de verdade para com os elementos do real, espírito de descoberta, de inovação e de libertação da rotina – esse espírito é bom, em princípio» (Antunes, 2005: 292). Para ele, a ciência era fonte de progresso: «A Humanidade, “como um só homem”, aprende e acumula. Acumula instrumentos, ciência e experiência» (Antunes, 2007: 368). No entanto, salientou a necessidade de conciliar o humanismo moderno, baseado na ciência, com o humanismo clássico, contendo os valores cristãos. O homo mechanicus, o homem da ciência, tinha de se conciliar com o homo misericors, o homem misericordioso.

Palavras-chave: ciência; cultura; progresso; humanidade

Title: Father Manuel Antunes and Science

Abstract: The Jesuit Manuel Antunes followed attentively the historical evolution that happened in his lifetime, an evolution due in large part to the acceleration of science and technology. Drawing on his Obra Completa, I analyse his outlook on science and technology. In the text «Ciência e cultura hoje», he wrote about science: «the spirit which it promotes – a spirit of exactitude and rigor, a spirit of justice and truth towards the elements of reality, a spirit of discovery, of innovation and of liberation from routine – that spirit is good, in principle» (Antunes, 2005: 292). He recognized in science a source of progress: «Humanity learns and accumulates “as one man”. It accumulates instruments, science and experience» (Antunes, 2007: 368). However, he stressed the need to reconcile modern humanism, based on science, with classical humanism, containing Christian values. The homo mechanicus, the man of science, has to be reconciled with the homo misericors, the merciful man.

Keywords: science; culture; progress; humanity; religion

O Padre Manuel Antunes (1918-1985) foi um grande pensador do século xx português, um pensador da complexidade do seu tempo. No século xx, a complexidade tornou-se particularmente premente, com a globalização e a proliferação de saberes e suas aplicações, com a multiplicação de disputas e oportunidades. A aproximação do fim do século e do milénio fez surgir interrogações prospetivas. Mas, sendo um pensador da complexidade – complexidade científica, sociológica, política, filosófica, teológica do ser humano –, exibiu uma virtude rara: pensar o que valia a pena pensar e fazê-lo sempre de um modo muito claro. Na seleção e na forma de tratamento dos assuntos, revelou-se um maître à penser. Escreveu muito, mas não escreveu sobre qualquer coisa. E, acima de tudo, não escreveu qualquer coisa. É muito raro encontrar algum seu escrito desinteressante. E é também muito raro encontrar algum seu escrito obscuro. A sua escrita ainda hoje nos ilumina porque trata de problemas que não são apenas os do século xx – os verdadeiros problemas não se restringem a um só século, e o pensamento, quando é claro, nunca fica confinado ao século em que foi escrito.

Proponho-me analisar brevemente a relação do Padre Manuel Antunes com a ciência. E devo dizer, logo a abrir, que ele tem uma boa relação com a ciência. Não há uma relação de distância ou inimizade com a ciência, que ele associa, como é normal, à tecnologia – ele distingue a técnica, que precedeu a ciência em tempos idos, da tecnologia de que hoje dispomos, que é inteiramente baseada na ciência moderna. Acha que a ciência não é um mal contingente, é antes um bem necessário, indispensável mesmo, à humanidade, tal como a tecnologia que lhe está associada. Sobre a bondade da procura do saber e o benefício da ciência e da tecnologia para o desenvolvimento da humanidade, não tem quaisquer dúvidas. No seu pensamento não encontramos a crítica da ciência que hoje conhecemos associada às filosofias pós-modernistas. Ele viveu num tempo anterior a essas correntes, o tempo das filosofias fenomenológicas e existencialistas que associamos a nomes como, por exemplo, Martin Heidegger, Emmanuel Levinas, Karl Jaspers e Jean-Paul Sartre. Em contraste com alguns destes autores, o Padre Manuel Antunes achava que a ciência é globalmente benéfica. Para comprovar essa sua posição, basear-me-ei e transcreverei excertos da sua Obra Completa, publicada pela Fundação Calouste Gulbenkian, designadamente dois volumes dessa obra: o tomo I, Theoria: Cultura e Civilização, vol. IV, sobre História da Cultura (com coordenação científica de Luís Filipe Barreto), e o tomo II, intitulado Paideia: Educação e Sociedade (com coordenação científica de José Eduardo Franco). Realçando as palavras do Padre Manuel Antunes, permitir-me-ei inserir alguns comentários entre parêntesis retos.

O Padre Manuel Antunes reconhece a grande influência que a nossa sociedade recebe da ciência. Escreveu no texto intitulado «Ciência e cultura, hoje» (Antunes, 2005: 287-299), de 1968, sobre a ciência:

Hoje vivemos, começamos a viver, larga e profundamente, na dimensão científica. De muitas maneiras, que as múltiplas sondagens realizadas pelos sociólogos mostram, e demonstram, a ciência é hoje o facto determinante da história e das sociedades. Pelo menos, das sociedades evoluídas. Sintetizando, podemos dizer que a ciência como fator determinante da história e das sociedades o é duplamente: como facto e como mito. (Antunes, 2005: 287)

Um pouco mais adiante, acrescenta: «A ciência é, hoje, um facto que ninguém nega ou pensa sequer em negar» (Antunes, 2005: 287). E fornece razões:

Em primeiro lugar as suas proporções: nunca, nem relativa nem absolutamente, a ciência teve tantos cultores como hoje. […] E, em segundo lugar, as suas consequências na ordem da praxeologia. Pela primeira vez na História da Humanidade, história que já conta com cerca de um milhão de anos, a vida e a morte coletivas dependem da ciência. Em terceiro lugar, a ciência como facto afirma-se e impõe-se, a um nível global, porque é o elemento decisivo do processo da aceleração da história. (Antunes, 2005: 288-289)

De facto, a ciência é um facto e cada vez mais é um facto. Tudo depende, de uma maneira ou de outra, da ciência, e esse processo continuou, de modo progressivo e aparentemente imparável, após a morte do nosso autor. Mas, ao mesmo tempo que o Padre Manuel Antunes diz que a ciência é um facto, também diz que a ciência é um mito, não no sentido pejorativo do termo que vem dos gregos, mas num sentido simbólico e valorativo mais moderno. Se atentarmos bem nesse significado de «mito», verificaremos que muitos factos para o serem precisam também de ser mitos e que por vezes não é fácil nem mesmo possível dissociar o facto de um mito: se uma pessoa quiser factos, terá de arranjar também mitos; por exemplo, se se quer ir à Índia, terá de haver um Preste João. O Padre Manuel Antunes explica por que razão a ciência é um mito:

Para muitos dos nossos contemporâneos, que não apenas para os cientistas profissionais, a Ciência apresenta-se como o sistema absoluto de todas as referências, como o verdadeiro englobante de todas as disciplinas do espírito, como o motor mais potente do prodigioso dinamismo humano, como a síntese de tudo quanto é válido no mundo e na história, como o vetor, por excelência, de todos os grandes ideais, como o campo de forças em que se jogam o tempo e o destino da Humanidade, como o espaço, acima da terra, em que se projetam desejos e aspirações, esperanças e temores, angústias e certezas, discutem todas as descrições, esperanças, temores, angústias e incertezas. É isto que entendemos pela expressão: «a ciência como mito». (Antunes, 2005: 291-292)

Ele tem razão: esperamos mais da ciência do que aquilo que a ciência oferece, apesar de ela oferecer muito. Habituámo-nos a esperar demais da ciência. É evidente que nunca se pode esperar que os mitos se concretizem plenamente, pela própria definição de mito. Podemos e devemos esperar da ciência como facto, inclusivamente a continuação da ciência como facto, mas parece uma quimera alcançar um «sistema absoluto de todas as referências». Assim, o Padre Manuel Antunes diz que a ciência triunfou, mas que se trata de um triunfo ambíguo, «como aliás todos os triunfos», acrescenta ele, com uma ironia muito fina. E explicita de onde vem a ambiguidade:

Pode conduzir a uma real promoção da humanidade nos vários planos em que a sua vida se desenvolve, e é um bem. Pode conduzir à sua total destruição ou, se essa hipótese, menos provável, não se der, pode conduzir a um estancamento das suas energias criadoras, a uma atitude de extrapolação, tomando como ciência aquilo que não é ciência, e então é um mal. (Antunes, 2005: 292)

Extrai uma conclusão clara:

Mas, vistas as coisas globalmente, o «triunfo da ciência» ou, em sentido mais amplo, a «ciência como mito» é mais um bem do que um mal. Na verdade, embora a ciência não seja ainda, de facto, nem deva ser, de direito, a esperança única do homem, contudo o espírito que ela promove – espírito de exatidão e de rigor, o espírito de justiça e de verdade para com os elementos do real, espírito de descoberta, de inovação e de libertação da rotina – esse espírito é bom, em princípio. (Antunes, 2005: 292)

E eu não podia estar mais de acordo. O problema do mundo não é a exatidão, nem o rigor, a justiça, a verdade, a descoberta, a inovação, a libertação da rotina, mas precisamente a falta dessas virtudes.

Depois de ter apresentado esta apologia da ciência do Padre Manuel Antunes – que é moderada, pois a moderação é necessária em todos os conceitos associados a mitos, de modo a evitar totalitarismos –, vou ser mais concreto quanto ao seu pensamento sobre a ciência. Vou considerar três questões: a questão do progresso, que é um facto, mas também é mito; a questão do humanismo, que é um facto, mas também pode ser um mito; e, finalmente, a questão da irracionalidade, para a qual chamarei a atenção: o Padre Manuel Antunes pode ser visto como um «profeta» porque, sendo atual a crise da humanidade, patente por exemplo no avanço da irracionalidade e na generalização da falta de valores, ele tomou consciência de sinais que, na altura, embora apenas latentes, já estavam bem nítidos: a irracionalidade, a desinformação estavam lá, só faltava a Internet. Havia a imprensa, a rádio e a televisão, mas ainda não havia a Internet e as redes sociais.

O progresso

O progresso é um tema muito debatido e que vai continuar a ser debatido porque é interminável. Há cem anos, o alemão Oswald Spengler, no fim da Primeira Guerra Mundial, falou do declínio do Ocidente, significando o fim da civilização que tinha dado origem à guerra (Spengler, 1923). Hoje, após a continuação do progresso nesse pós-guerra, assim como no período após a Segunda Guerra Mundial, continuamos confrontados com a ideia de progresso. É um facto, mas também é um mito. Interiorizámos a ideia de progresso com a nossa experiência histórica, mas é uma ideia em relação à qual sentimos uma certa frustração, por vezes mesmo um certo receio, por termos uma ideia mitificada de progresso. O Padre Manuel Antunes era um pensador que tinha fontes muito ecléticas, gostando, por exemplo, de citar o alemão Karl Marx. Não sendo marxista, concordava com Marx quando este dizia que «as sociedades apenas pensam as questões para as quais têm solução, ou julgam que têm solução». A questão do progresso era pensada na segunda metade do século xx – e, de resto, ainda o é hoje – porque a sociedade tinha uma solução, ou pensava que tinha, baseada na ciência e tecnologia. Um livro publicado entre nós nessa época, O Progresso (Dunham et al., 1965), compila textos de vários autores que tentavam explicitar o que é o progresso. Um dos autores nesta antologia era muito querido do Padre Manuel Antunes, ou não fosse ele também jesuíta e pensador: o padre francês Teilhard de Chardin. Ele acredita no progresso humano que se insere num progresso cósmico: «o homem é o eixo e a seta da evolução». O padre Teilhard de Chardin escreve ainda, num texto intitulado «Reflexões sobre o progresso», lido na Embaixada de França em Pequim, em 1941, portanto durante a Segunda Guerra Mundial:

[…] por muito amargas que tenham sido, de algum tempo a esta parte, as nossas deceções, há, não obstante, noções científicas mais fortes que nunca para pensar que realmente avançamos e que ainda nos é dado avançar muito, contanto que definamos corretamente o sentido da progressão e nos resolvamos enveredar pelo bom caminho. (Dunham et al., 1965: 72)

Muito longe da Europa e durante uma guerra cruel, Chardin acreditava no progresso. Para ele, paleontologista, o passado poderia significar, porém, milhões de anos, de modo que um conflito mundial na atualidade nada significava, quando comparado com a grande escala do tempo paleontológico e cósmico. O seu passado ia até bastante longe e o seu futuro também estava projetado para muito longe.

O Padre Manuel Antunes definiu o progresso num texto muito sintético (tinha de ser, porque era uma entrada para a Enciclopédia Verbo) inserido no referido tomo i, vol. iv, da Obra Completa (Antunes, 2007: 366-369), começando por esclarecer a origem da ideia. Ele, que conhecia bem o pensamento grego, diz que entre os antigos gregos o conceito de «progresso» não era muito visível por eles acreditarem no mito da «idade de ouro», uma idade de esplendor que tinha ficado para trás. A ideia, diz ele, é mais romana do que grega: o progresso consiste em ir de uma cidade, Roma, a um império, o Império Romano. Cita um autor latino do século ii d.C., Gélio, que traduz um autor grego não identificado, segundo o qual «a verdade é filha do tempo: Veritas filia temporis». Aqui está uma ideia de progresso muito cara à ciência de hoje, muito influenciada pela visão popperiana: se porfiarmos, acabaremos não tanto por alcançar a verdade, mas sim por nos afastarmos do erro, isto é, com o tempo, os erros vão diminuindo. Mas o Padre Manuel Antunes informa que a ideia de progresso, não sendo muito greco-romana, é principalmente judaico-cristã: «É, porém, com a revelação judeo-cristã que a ideia de Progresso verdadeiramente desabrocha» (Antunes, 2007: 366). E explica as razões: primeiro, como há no texto bíblico do Génesis uma criação a partir do nada (ex nihilo), existe portanto um vazio muito atrás a partir do qual surge o ser, e a seta do tempo inscreve-se a priori na história cósmica. Em segundo lugar: a História não é vista «como ciclo ou repetição do idêntico, mas como projeto e caminho para o Messias libertador» (Antunes, 2007: 366). De facto, na visão teológico-cósmica de Chardin, Deus está no princípio e no final de tudo, é o alfa e o ómega, mas, de algum modo, o mesmo se passa na teologia mais canónica: não é preciso aceitar a cosmologia um pouco heterodoxa do jesuíta francês, uma vez que se encontra muito clara, no projeto cristão, a ideia do Messias libertador: cada um após a morte vai encontrar Cristo. E o Padre Manuel Antunes acrescenta algo que não tem sido suficientemente enfatizado: fala das «coisas vistas, não como dominadoras do homem mas como devendo ser por direito e progressivamente sujeitas ao mesmo homem» (Antunes, 2007: 366). Quando se fala hoje da destruição da Terra e dos problemas ecológicos associados ao progresso tecnológico, convém recordar que, de acordo com a mensagem cristã, a Terra é do homem. Se o homem é de Deus, a Terra é do homem, pois Deus deu a Terra ao homem de modo a que o homem pudesse atuar na Terra a seu bel-prazer. Muitas das modificações na Terra associadas à ideia de progresso têm por trás a mensagem de que a Terra pode ser dominada pelo homem de acordo com um direito de origem divina. Para conhecer a posição moderna da Igreja Católica, uma posição bem fundada na ciência, veja-se a recente encíclica do papa Francisco sobre as alterações climáticas globais (Francisco, 2015). Podemos, portanto, falar de uma origem religiosa do progresso. Além do mais, foi na comunidade europeia e cristã que nasceu a ideia moderna do progresso que nós ligamos inequivocamente à ciência. E, a este respeito, o Padre Manuel Antunes acrescenta que:

A moderna teoria do Progresso – gnoseológico, secular, tecnológico – começa com o Renascimento. As descobertas geográficas dos Portugueses e Espanhóis [sei que está na moda evitar falar em «Descobrimentos», mas por isso mesmo eu falo deles, ignorando os «polícias do pensamento» que acham que certas palavras podem ser proibidas], as «três grandes invenções» tecnológicas – a pólvora, a agulha de marear e a imprensa – e o conhecimento mais amplo da Antiguidade Clássica deram a certos espíritos mais lúcidos dos séculos xv, xvi e xvii a possibilidade de comparar. (Antunes, 2007: 367)

O Padre Manuel Antunes refere a seguir os nomes de Giordano Bruno (sim, Bruno, vítima da Inquisição), Francis Bacon, Galileu Galilei, René Descartes, Blaise Pascal e Gottfried Leibniz, a galeria dos fundadores do projeto da Modernidade assente na ciência, todos eles, de uma maneira ou de outra, crentes. Refira-se a este propósito que Galileu continuou a acreditar em Deus mesmo depois de condenado pela Inquisição. Em quase todos eles a filosofia estava combinada com a ciência, não existindo a diferença atual entre ciência e filosofia (só Francis Bacon, jurista, foi apenas filósofo e não cientista). Eles criaram a ideia moderna do progresso, uma ideia «que, apesar de alguns hiatos, se haveria de tornar a crença dominante nos últimos dois ou três séculos». O Padre Manuel Antunes cita Pascal no seu Fragment d’Un Traité du Vide, de 1654, no original francês: «Toute la suite des hommes, pendant le cours de tant des siècles, doit être considérée comme un même homme qui subsiste toujours et qui apprend continuellement». A humanidade é o homem que está sempre a aprender e, por isso, progride. Mas existirá a lei de Progresso? Existirão leis no Progresso? Esta é a nota com que termina a entrada sobre Progresso na enciclopédia. A resposta é clara: sim, existe a lei do Progresso (o Padre Manuel Antunes escreve a palavra com maiúscula):

Quanto à primeira pergunta, se se considera a perspetiva integrada da existência humana, é difícil não responder pela afirmativa. A Humanidade, «como um só homem», aprende, acumula. Acumula instrumentos, ciência, experiência. Sobretudo desde que, com a descoberta da escrita, há cerca de seis mil anos, os meios de acumulação e de comunicação se têm multiplicado de forma tão extraordinária [a Internet não passa de uma nova modalidade: a propagação da informação ou do conhecimento é tão antiga como a História]. Decerto, essa acumulação não obedece às leis do movimento linear e uniforme [é curioso que o Padre Manuel Antunes esteja a falar de uma lei da física: usa uma metáfora proveniente da mecânica galilaica]. Há perdas, esquecimentos, desaprendizados [aquilo que na física se chama «o atrito»]. Porém, mais geralmente, aquilo que se perdeu volta a encontrar-se, aquilo que se esqueceu volta  lembrar-se – de outra maneira, não raro –, aquilo que se desaprendeu volta a aprender-se. (Antunes, 2007: 368)

No fundo, diz que há mesmo progresso, que ficamos sempre mais ricos do que estávamos.

 O humanismo

Considerando agora a questão do humanismo, sirvo-me de um texto inserto no tomo i, vol. iv, da Obra Completa (Antunes, 2007: 306-323) que é elucidativo a seu respeito. Foi publicado no livro Indicadores de Civilização (1972) (a primeira vez que vi o nome do Padre Manuel Antunes foi na capa daquele livro, era eu estudante; nunca o conheci pessoalmente) e antes, em 1965, já tinha sido publicado na Brotéria. Repare-se desde logo no título: «Humanismo clássico e humanismo moderno: Sua complementaridade». Para o Padre Manuel Antunes, existem as duas formas de humanismo do título e as duas complementam-se. Não se anulam, complementam-se. Que é então o humanismo clássico? O mestre jesuíta, professor da Faculdade de Letras de Lisboa, transmitia o pensamento grego e ensinou esse humanismo a gerações de estudantes, a começar pelas ideias gregas e a continuar com as ideias cristãs e com a cristianização de algumas ideias gregas feitas na Idade Média. Como disse, os autores da Revolução Científica foram cristãos e herdeiros do humanismo antigo.

Sobre o humanismo moderno, diz o Padre Manuel Antunes:

A Técnica, historicamente anterior e posterior à Ciência – como tecnologia ou ciência aplicada –, revela-se fator de cultura e humanismo, multifário e fecundo: libertando o homem, pela criação de inúmeros escravos mecânicos, de tarefas que, até aqui, o agrilhoavam ao instrumento; poupando o homem, graças à eletrónica [e ele não tinha smartphone!], aos grandes esforços de atenção, quase mecânica, exigidos pela necessidade de cálculos espantosamente longos e complicados. (Antunes, 2007: 307)

Portanto, ele afirma que o humanismo moderno, que assenta na ciência, é fator de cultura (lembre-se a este respeito a questão das «duas culturas» do inglês C. P. Snow, que surgiu em Cambridge em 1959 [cf. Snow, 1996], e que o Padre Manuel Antunes abordou noutros escritos). E não tem dúvidas em afirmar que a ciência é um fator de humanismo. E, defendendo a união no progresso, cita mais à frente o padre Teilhard de Chardin, que disse «Tout ce qui monte converge». Explica o Padre Antunes:

Todos os cumes da cultura e civilização que hoje se divisam no horizonte universal mostram tendência a dialogar ou, pelo menos, a não se ignorar. Os instrumentos de comunicação que o humanismo moderno, científico e técnico, preparou encontram-se disponíveis para que, através deles, possa circular e recircular o humanismo clássico [Ainda antes da Internet, a ciência já tinha proporcionado meios de expansão daquilo que a humanidade já tinha aprendido; por outras palavras, o homem antigo e o homem moderno são o mesmo homem]. (Antunes, 2007: 310)

Refere as ambiguidades do «humanismo moderno»: «O humanismo moderno – moderno dos nossos dias – científico e técnico, com ser tão eficaz e espetacular, tão universal e tão objetivo, contém tais ambiguidades que não poucos, ainda hoje, hesitam em reconhecer-lhe o estatuto de humanismo». O problema é como conciliar as duas formas de humanismo. Nenhuma delas pode triunfar sobre a outra: «Não é viável excluir qualquer das duas formas de humanismo. Resta, portanto [veja-se a claridade matemática com que o afirma], conjugá-las de modo a obter uma nova forma e um estilo novo».

 O que é então preciso? Uma síntese. O Padre Manuel Antunes vai buscar a Terêncio a famosa frase: «Homem sou e nada do que é humano julgo me seja estranho». E cita Gaston Berger, um futurista francês de avó senegalesa, que morreu de acidente automóvel em 1960 (o Padre Manuel Antunes gostava muito dos futuristas, que aliás estavam na moda: uma outra sua referência foi outro futurista francês, Jean Fourastié), que disse: «Tout commence par la poésie, rien ne se faît sans la technique». Será possível a complementaridade e quiçá convergência das duas formas de humanismo? O Padre Manuel Antunes responde com extraordinário estilo literário:

O Humanismo moderno, científico e técnico, dá ao homem o sentido da imensidade espacial, da profundidade, do número, da proporção (entre os fins e os meios), da racionalidade, da objetividade, do movimento, da novidade incessante, da socialização humana, da responsabilidade global dos grandes conjuntos. Porém, o humanismo moderno não dá ao homem o sentido do existencial concreto, do espontâneo, do percetivo, do criativo, do outro enquanto outro ou enquanto eu-outro (pessoa), o sentido da mesura humana, da história, daquilo que o homem foi sempre, daquilo que ele é sempre, daquilo que ele será sempre, fogo perenemente vivo, inquietude infatigavelmente em ato, aspiração jamais saciada, dom jamais inteiro. (Antunes, 2007: 314)

Para conjugar as duas formas de humanismo, a sua base cristã fá-lo falar do homo mechanicus, o homem capacitado pela técnica, e do homo misericors, o homem que ajuda o outro, que vale ao outro (no eu-outro, o eu é o outro e o outro é o eu; a solução para a dicotomia consiste no reconhecimento de que os dois são o mesmo homem). O homo mechanicus às vezes não parece ser o homo misericors, mas o homo mechanicus tem de ser sempre o homo misericors. Escreve o nosso autor num texto inserto no tomo ii da Obra Completa (Antunes, 2005: 72-82) e antes publicado em Indicadores da Civilização:

Hoje, o homo mechanicus reina, o homo mechanicus governa, o homo mechanicus comanda. Um largo terço da Humanidade – aquele que se proclama a sua vanguarda – dele depende e a ele vive referido. Os outros dois terços quase outra coisa não fazem senão sonhar com ele tomando-o como seu senhor, o seu guia e o seu mestre. […] O homo mechanicus é um conquistador da Natureza. Nenhum Alexandre, nenhum César, nenhum Tamerlão possuiu semelhante império. Nem de longe. Na terra, no ar e no mar, esse império vastíssimo tende a alargar-se a tudo. O homo mechanicus subiu à Lua, está a sondar o espaço. Lançou-se à exploração das profundezas oceânicas, trazendo, orgulhoso, troféus de mil vitórias, sinais de mil mundos desconhecidos, indicadores para a resolução de mil enigmas que os seus antepassados não levantaram nem sequer sonharam. (Antunes, 2005: 73, 75)

E denuncia os perigos que esse avanço causou sobre a natureza:

O homo mechanicus é o homem da rotura. Da rotura do equilíbrio entre ele e o seu meio (natural); entre ele e o outro (ou os outros); entre ele e ele; angústia, ansiedade, insatisfação, inquietude contínua, morbidez subjetiva, difícil, por vezes, de ser verificada clinicamente, mentalismo excessivo – irrompente mesmo nas próprias disciplinas científicas –, sentimento de solidão até aos ossos. (Antunes, 2005: 78)

Será possível, pergunta o Padre Manuel Antunes, reconciliar técnica e misericórdia?

Responde optimisticamente num texto intitulado «Homo misericors», inserto ainda no referido tomo ii da Obra Completa (Antunes, 2005: 83-92) e já antes publicado na Brotéria:

Deve ser possível. Todo o processo histórico, atingindo certa saturação no desenvolvimento das ideias, forças e estruturas que o conduziram, tende a inverter-se ou, pelo menos, a organizar-se de outra maneira. Foi assim no final do Mundo Antigo e foi assim no final da Idade Média Europeia, vários indicadores parecem mostrar que será assim neste final, que estamos a viver, dos Tempos Modernos. (Antunes, 2005: 88)

Estaríamos a assistir ao limite do homo mechanicus, para dar lugar ao que denomina «um processo de inversão de recuperação e humanização». Continua o Padre Manuel Antunes mais adiante:

De resto, aquilo que o possibilita começou já: contestação do império universal da técnica; a experiência, muito funda e muito dolorosa, das enormes carências, provações e traumas do homo mechanicus; a consciência emergente, embora ainda às apalpadelas, da necessidade de andar por outros caminhos que não só pela via única, retilínea e escandidamente acelerada do progresso material; as múltiplas experimentações, ensaiadoras de outras dimensões do humano que, mau grado o desvio de umas e o aborto de outras, tiveram pelo menos o mérito de realizar ações simbólicas realmente significativas. (Antunes, 2005: 90)

Pegando na misericórdia como uma das heranças do humanismo antigo, o nosso autor considera que tinha chegado um tempo de mudança. Se calhar estamos nesse tempo, num tempo em que se multiplicam os sinais de dúvida e de inquietação, num tempo em que algo está a mudar, mas não sabendo bem nós ao certo o quê.

Conclui o Padre Manuel Antunes com cristalina clareza:

Assim se a conciliação da misericórdia e da técnica é uma possibilidade muito concreta, a sua reconciliação é um dever. Um dever não apenas individual, mas alta e largamente histórico. […] Sem ciência e sem técnica a Humanidade não pode subsistir; sem misericórdia ela não pode subsistir humana. […] A técnica faz a história, mas só a misericórdia lhe confere sentido. (Antunes, 2005: 92)

 A invasão da irracionalidade

Termino com uma «profecia», muito curiosa, que o Padre Manuel Antunes fez sobre a questão da irracionalidade. Nos anos 70, falou da invasão da irracionalidade no texto «Maré de irracionalidade», de 22 de fevereiro de 1970 (a data poderia ser a de hoje, pois um grande pensador consegue escrever textos que resistem ao tempo). O texto, que começa com um tom algo violento, é provocador e literário (se há necessidade de provocação, que ao menos tenha estilo, e este texto, tal como os outros, tem-no). Escreve o Padre Manuel Antunes, em dois textos publicados na Brotéria (Antunes, 1970 e 1973a):

Sentimo-la vir, impetuosa e avassaladora, temível e perniciosa. Trazida nas ondas da contestação global e indiscriminada, da utopia sem base, da violência, do erotismo ou do arbitrário passional, essa maré ameaça ir submergindo os espaços de racionalidade que, ao longo dos milénios, o esforço do homem custosamente foi separando das águas do irracional, sobre eles construindo edifícios que pareciam desafiar os séculos e as tempestades. (Antunes, 2005: 192)

O que ele diz é que a fortaleza da racionalidade está a ser varrida por um tsunami, que leva todas as coisas que pareciam seguras. Lembro que esse era um tempo muito marcado pela revolta do Maio de 1968 em França e, em Portugal, pela Crise Académica, em Coimbra, do ano seguinte. O nosso autor é claro:

«Todas as formas de racionalidade são atacadas. Não apenas a eclesial, a estatal, ou, mais genericamente ainda, a social, mas a racionalidade filosófica, as científicas e tecnológicas se encontram hoje sob o impacto da negação». Que não se pense que a ciência e a tecnologia estão do lado do invasor: não, elas estão do lado dos invadidos, porque o humanismo moderno é, para o Padre Manuel Antunes, a ciência e a tecnologia.

Logo a seguir (Antunes, 2005: 194-195), encontra-se um texto curto, datado de 19 de outubro de 1970, intitulado «Informação – Deformação», que tem o mesmo histórico de publicação que o anterior, no qual o Padre Manuel Antunes diz algo que nos ressoa hoje, neste tempo de fake news, de mentiras, fraudes e manipulações:

Através de cadeias de jornais e estações de Rádio e Televisão, todo um vasto mundo realiza um desejo secreto: ser enganado! Mundus vult decipi, diziam os antigos. Através de cadeias de jornais, de estações de Rádio e Televisão se cria hoje, em grande parte, o sistema de «corromper e ser corrompido» que o pessimismo do velho Tácito designava como sendo o «século»: corrumpere et corrumpi saeculum appelatur (cf. Germania, 9). Amor dos interesses estabelecidos e sua ampliação, amor do sensacionalismo e do escândalo, amor da mentira e do fantástico, não são essas as três paixões que hoje conduzem ao binómio de que fala o nosso título? (Antunes, 2005: 194)

Pergunta ele mais abaixo:

E a preocupação da Verdade? Essa subsiste, apesar de tudo, em certos círculos insubordináveis que, por isso mesmo, lutam com a falta de recursos, em meios adversos, contra os tentáculos da absorção, da intimidação, da concorrência desleal, das ideias feitas, das paixões que, por estarem ao serviço das «boas causas», se creem logo santificadas pela assistência de infalibilidade. (Antunes, 2005: 194)

E termina o texto afirmando que, apesar de muitos sinais alarmantes, havia lugar para alguma esperança. Ele é um otimista tal como os cientistas são: o mundo parece perdido e, por isso, haja alguém que o salve. Diz ele:

Apesar de muitos sinais em contrário, queremos crer que não. A preocupação da Verdade, em si e por si, é sem dúvida avis rara. Não tão rara, porém, que por vezes não sulque o nosso céu convidando-nos a não desesperar. É obedecendo ao seu convite que a espécie humana se resgata, se vai resgatando das mil e uma teias de falsidades e enredos que teimam em a reter cativa. (Antunes, 2005: 195)

Em conclusão

A propósito de «ave rara», termino com uma pequena história chinesa, talvez oportuna numa altura em que o desenvolvimento do mundo está a passar do Ocidente para o Oriente, da Europa para a China, onde viveu o padre Teilhard de Chardin. Havia um grande fogo numa grande floresta e umas pequenas aves iam a um lago, traziam água no seu bico — esta história traz, portanto, literalmente água no bico — e depositavam aquelas gotas de água no fogo. Surgiu-lhes um génio da floresta que, vendo-as, perguntou às avezinhas: «Então não veem que essas poucas gotas de nada servem?». Respondeu então uma ave, ainda mais sábia do que o génio: «Sim, vemos, mas é a única coisa que podemos fazer».

 

Bibliografia

Antunes, M. (1970). Maré de irracionalidade. Brotéria, 90, 394.

Antunes, M. (1972). Indicadores de Civilização. Lisboa: Verbo.

Antunes, M. (1973a). Educação e Sociedade. Lisboa: Sampedro.

Antunes, M. (1973b). O homo misericors (iri). Brotéria, 96, 14-22.

Antunes, M. (2005). Obra Completa do Padre Manuel Antunes, SJ (Coord. geral J. E. Franco)

(t. ii). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Antunes, M. (2007). Obra Completa do Padre Manuel Antunes, SJ (Coord. geral J. E. Franco)

(t. i, vol. iv). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

Dunham, B. et al. (1965). O Progresso. Org. M. S. Cardia. Lisboa: Presença.

Fiolhais, C. & Marçal, D. (2017). A Ciência e os Seus Inimigos. Lisboa: Gradiva.

Francisco, P. (2015). Laudato Si’. Sobre o Cuidado da Casa Comum. Lisboa: Paulinas.

Snow, C. (1996). As Duas Culturas. Lisboa: Presença.

Spengler, O. (1923). Der Untergang des Abendlandes. Umrisse einer Morphologie der Weltgeschichte. München: Beck.

Notas 

1.O autor agradece a Ana Bela Nobre e José Lopes a cuidadosa revisão deste texto

2. Apesar de o autor não seguir o novo acordo ortográfico, aceitou que o mesmo fosse aplicado ao seu texto, dado que é a norma seguida pela Imprensa da Universidade de Coimbra.

Que sei eu do teu sorriso, Do teu sorriso tão sincero?! Que sei eu do que quero, Do que quero e preciso?! Com desespero, queria Qu...