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quarta-feira, 8 de março de 2017

ASTROBIOLOGIA: ORIGEM E DETEÇÃO DE VIDA NO NOSSO SISTEMA SOLAR



No próximo dia 14 de Março, terça-feira, pelas 18h00, realiza-se no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra intitulada “Astrobiologia: Origem e deteção de vida no nosso sistema solar”. A palestrante será Zita Martins, a mais destacada astrobióloga portuguesa a nível internacional, investigadora no Imperial College e membro da Royal Society, de Londres, Grande Oficial da Ordem Militar de Santiago da Espada


Zita Martins - crédito MIGUEL ANGEL FONTA


Recorde-se que Zita Martins foi cientista convidada da NASA em 2005, altura em que resolveu um problema com várias décadas de existência: a origem extraterrestre de algumas moléculas essenciais para a vida encontradas em meteoritos. 

Resumo da palestra:
"Duas das grandes questões da ciência que permanecem sem resposta são “Como é que surgiu a vida na Terra?” e “Será que existe vida noutras partes do nosso sistema solar?”. A Astrobiologia é uma ciência interdisciplinar que tem como objectivo responder a estas perguntas. Nesta palestra irá ser apresentado o que sabemos actualmente sobre os processos que levaram à origem da vida no nosso planeta, em especial a contribuição de moléculas orgânicas por meteoritos e cometas. Irão também ser apresentados os locais do nosso sistema solar que podem albergar vida extra-terrestre, e de que maneira os cientistas detectam os sinais dessas potenciais formas de vida em futuras missões espaciais."

Esta palestra insere-se no ciclo "Ciência às Seis" coordenado por António Piedade.

Entrada livre.

Link para o evento no facebook

terça-feira, 29 de setembro de 2015

ÁGUA SALGADA EM MARTE?! NÃO, "SÓ" SAIS HIDRATADOS!

Crónica primeiramente publicada na imprensa regional portuguesa.


No planeta vermelho, no Verão escorre água muito salgada pelas encostas de algumas regiões da superfície de Marte!

Esta é a proposta hipotética de uma equipa de cientistas liderados por Alfred McEwen, investigador principal da Experiência Científica de Imagens de Alta Resolução, um aparelho que pertence à Mars Reconnaissance Orbiter — a sonda da NASA que está a orbitar Marte desde 2006 – e que forneceu os dados que suportam a afirmação da eventual existência de água líquida salgada em Marte.

O impacto mediático desta descoberta foi enorme à escala planetária terrestre. A água é indissociável ao desenvolvimento e suporte da vida no nosso planeta, o único que conhecemos em que existe vida, como a nossa. A descoberta de movimentos de água no planeta vizinho, mesmo que associada a sais, alimenta a ideia, não nova, da possibilidade de a vida ter pelo menos existido alguma vez no passado em Marte. Mas isto continua a ser uma hipótese que precisa de dados e evidências experimentais.

Muitas teorias têm sido propostas nos últimos séculos sobre a existência de água em Marte. A mais famosa e a que mais alimentou a imaginação e ficção sobre a possibilidade de existência de vida, inclusive inteligente, em Marte, foi a elaborada pelo astrónomo amador norte-americano Percival Lowell no final do século XIX. No seu livro “Mars”, publicado em 1895, Lowell apresenta a ideia da presença de uma rede de irrigação para distribuir os escassos recursos hídricos de Marte. Baseado em observações telescópicas da superfície de Marte, Lowell propõe uma dinâmica para o fluxo de água a partir de calotas polares modelado pelas estações marcianas. Chega mesmo a escrever: “há água na superfície de Marte. Mas podemos também assinalar este corpo de água como efémero. Existe apenas quando as calotas polares derretem e, subitamente, desaparecem.”

Vemos, assim, que a ideia de existir água em Marte e de ela ser escassa não é nova. Mas o que agora é novo é o ter sido identificada científica e experimentalmente. Num artigo publicado no dia 28 de Setembro de 2015 na revista “Nature Geoscience”, que tem como primeiro autor Lujendra Ojha, os cientistas da experiência já referida apresentam os resultados das análises espectrais em estrias escuras presentes em colinas e vertentes na superfície de Marte, descobertas em 2011. Estas estrias surgem e desaparecem de forma cíclica todos os anos. “As nossas descobertas apoiam fortemente a hipótese de que as linhas que aparecem periodicamente em encostas se formam devido à actividade contemporânea de água em Marte”, lê-se no resumo do artigo.

A equipa de cientistas usou os dados obtidos naquelas estrias por um potente espectrómetro de imagem presente na sonda “Mars Reconnaissance Orbiter”. Este equipamento analisou a luz reflectida naquelas estrias escuras e identificou as substâncias nelas existentes. Os dados obtidos suportam a existência de certo tipo de sais hidratados. Os sais deverão ser uma mistura de cloreto de magnésio, perclorato de magnésio, e perclorato de sódio. A presença destes sais hidratados dever-se-á à sua precipitação a partir de água líquida, muito salgada, existente durante as horas mais quentes dos dias de Verão, propõem os cientistas naquele artigo.

Mas como pode haver água no estado líquido em Marte se a sua temperatura média ronda os 63 graus Celsius negativos? Sabemos que quando há sais dissolvidos na água, baixa a temperatura a que esta passa do estado líquido para o sólido (aliás, certas espécies de vida na Terra usam este estratagema para conseguirem manter a água no estado líquido a temperaturas inferiores a 0 graus Celsius). Os cientistas calculam que, com certas substâncias, a água congelada funde-se aos 70 graus negativos. Assim, torna-se compreensível a possibilidade de poder existir água no estado líquido em Marte, na estação mais quente e nas zonas mais equatoriais. O que pode explicar os dados agora publicados.

Mas, atenção: os cientistas não detectaram realmente água líquida em Marte, mas sim sinais de sais hidratados que podem dever-se à existência de soluções salinas aquosas em algumas alturas do ano marciano.

Contudo, esta descoberta vem direcionar as futuras investigações sobre a possibilidade de a vida existir ou ter existido alguma vez em Marte, para estas zonas estriadas escuras da superfície marciana.

Muito a propósito deste contexto marciano, refiro a publicação entre nós no passado mês de Junho de 2015 do livro “Os Marcianos somos nós”, de Nuno Galopim. Publicado na prestigiada colecção “Ciência Aberta” da editora Gradiva, este é um livro indispensável para quem quiser obter uma imagem completa sobre Marte, da ciência à literatura, da banda desenhada ao cinema. Uma viagem pelo imaginário marciano que há em todos nós.

António Piedade

domingo, 25 de maio de 2014

JÁ HÁ VIDA TERRESTRE EM MARTE?

Crónica publicada primeiramente na imprensa regional.



Quando os exploradores portugueses e espanhóis descobriram o continente americano, no início do século XVI, contaminaram o novo mundo com microrganismos. Sem o saber, levaram consigo vírus e bactérias que, desconhecidas dos povos nativos, causaram nestes inúmeras mortes. De regresso à Europa também trouxeram consigo microrganismos do novo mundo.  

Agora novos exploradores robotizados desvendam novos horizontes em solo marciano. E, apesar de todos os cuidados em os esterilizar antes de os enviar para Marte, há indícios de que estes engenhos tecnologicamente avançados poderão ter contaminado com bactérias o planeta vermelho.

De facto, e segundo o divulgado nesta semana que passou na reunião anual da Sociedade Americana de Microbiologia, investigações recentes mostram que o robô Curiosity, que chegou a Marte em Agosto de 2012, poderá ter transportado consigo bactérias do género Bacillus. Há evidências de que esporos destas bactérias conseguem resistir aos processos de esterilização usados nestas naves de exploração espacial. Para além disso, amostras da superfície do Curiosity recolhidas antes do seu lançamento, revelaram estarem contaminadas com 65 espécies de bactérias!


Por outro lado, experiências realizadas na Estação Espacial Internacional mostram que há bactérias (e.g., Bacillus pumilus) que conseguem sobreviver pelo menos durante 18 meses nas condições extremas de temperatura, vácuo e radiações existentes no espaço! Isto sugere que não se deve excluir que as eventuais bactérias, ou esporos delas, que tenham seguido com o robô Curiosity na sua viagem de quase dois anos até Marte, tenham conseguido sobreviver às agruras do ambiente espacial.

Na reunião científica referida em cima, também foram divulgados resultados de experiências que mostram que bactérias de vários géneros (incluindo bactérias metanogénicas como as da espécie Methanothermobacter wolfeii) podem sobreviver e reproduzirem-se em condições semelhantes às que se julgam existir nas camadas mais superficiais do solo marciano.

Assim, e resumindo, podemos dizer que muito provavelmente o robô Curiosity, que hoje explora Marte, pode ter levado consigo bactérias, que estas poderão ter sobrevivido nas condições da viagem espacial e que, uma vez chegadas ao solo marciano, podem ter encontrado condições não só para a sua sobrevivência mas também à sua reprodução. Na hipótese de estes factores todos se terem verificado, podemos estar a colonizar Marte com bactérias terrestres. Por outras palavras, a nossa tecnologia está a semear vida pelo sistema solar!

Recorde-se que uma das missões científicas do robô Curiosity é a de procurar indícios de vida em Marte. Ironicamente, esta missão poderá estar votada ao fracasso. Não porque a vida não exista em Marte, mas porque nunca poderemos afirmar que uma eventual descoberta não esteja desde já contaminada pela própria vida transportada da Terra para Marte, a bordo do Curiosity e de outras missões.

Este aspecto terá de ser devidamente acautelado em todas as futuras investigações e eventuais notícias relacionadas com a existência de vida em Marte.

António Piedade

domingo, 28 de abril de 2013

... porque os velhos não querem morrer.

José Cunha Rodrigues, ex-Procurador-Geral da República e ex-Juiz do Tribunal de Justiça da União Europeia, foi entrevistado, a vinte deste mês, por António José Teixeira no programa A Propósito da SIC.

Nessa entrevista, num determinado momento, para explicar melhor o "pensamento societal" que tomou conta do pensamento colectivo, contou um episódio singelo de que tinha tido conhecimento: uma professora pediu aos seus meninos para dizerem o que, no seu entender, justifica a crise de que toda a gente fala.

Um dos meninos respondeu: "porque os velhos não querem morrer".

O menino, na sua inocência, deu tal resposta como poderia ter dado outra resposta qualquer que pairasse no ar, mas, insinuando-se esta de modo forte, ele não podia deixar de a apreender; depurou-a dos artifícios de que os adultos se socorrem para ficarem sempre bem vistos e verbalizou-a, certamente, num sorriso.

Dizem os psicólogos sociais que uma boa forma de aferir estereótipos é inquirir crianças porque, sem terem aprimorado a filtragem da desejabilidade social, captam-nos e reproduzem-nos na sua forma mais genuína.

Devem, por isso, as suas respostas fazer-nos pensar naquilo que, como adultos, pensamos.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

TVI: A FREGUESIA DO MUNDO MAIS PARECIDA COM O PLANETA MARTE

Continuam as asneiras sobre bactérias marcianas numa pequena Vila do Alentejo, onde alguns jornalistas e um presidente de junta dizem que poderá ter acontecido o "início da vida na Terra". É muito interessante, muito mesmo, o modo como os meios de comunicação social se influenciam uns aos outros. Ao invés do que se exigiria pelas boas práticas jornalísticas verificarem a credibilidade das fontes, cruzando-as e pedindo opiniões independentes (por exemplo), as notícias propagam-se como boatos em conversas de café. E é também impressionante a falta de cultura científica de certos jornalistas não especializados em ciência.

A TVI recuperou o tema já "noticiado" pela SIC, de que numa pequena Vila Alentejana (Cabeço de Vide) existem bactérias, muito semelhantes a outras que só existem em Marte. Não se lembrou de telefonar a um qualquer cientista e perguntar de que cor são essas bactérias de Marte. Se o fizesse, poderia ficar a saber uma coisa muito simples: nunca foram encontradas bactérias ou outra forma de vida em Marte ou em qualquer outro local fora da Terra.


A reportagem pode ser vista aqui, as 22 minutos. E os pontos altos são:

- "Os cientistas acreditam que a vida poderá ter começado nesta vila Alentejana".

- "É a freguesia do mundo mais parecida com o planeta Marte."

- "[vamos] abrir as portas aos cientistas para eventuais estudos. É que Cabeço de Vide, sempre fica mais perto do que Marte".

A fonte científica desta "notícia" é o Presidente da Junta de Freguesia de Cabeço de Vide (autarquia PSD, por curiosidade), que sem dúvida está a fazer uma excelente acção de promoção das termas de Cabeço de Vide. O problema é que o faz dizendo disparates, que não têm qualquer sustentação do ponto de vista científico. E os jornalistas fazem o favor de os propagarem de um modo completamente acritico. Onde estão os principios jornalísticos?

O que acontece é que em Cabeço de Vide, uma região termal, há uma grande concentração de enxofre. Nessas condições, algumas bactérias conseguem usar alguns compostos inorgânicos (como o sulfureto de hidrogénio) como fonte de energia para fazerem moléculas orgânicas. Este processo chama-se quimiossíntese e é uma espécie de fotossíntese, sem luz do Sol. É muitíssimo menos eficiente do que a fotossíntese, mas pensa-se que terá sido usado por algumas formas de vida primordiais. E é também usado, por algumas formas de vida actuais, que existem em muitos locais da Terra (cavernas, no fundo do mar a grandes profundidades onde não chega a luz do Sol). Pode-se estudar em Cabeço de Vide como poderá ter evoluído a vida na Terra, assim como em muitos outros locais. Não se pode dizer que a vida surgiu em Cabeço de Vide (não há maneira de saber, depois de todos os movimentos tectónicos que mudaram os continentes de sítio) mas pode-se estudar a origem da vida em Cabeço de Vide (assim como em muitos outros locais).

Fora da Terra, há sítios em Marte e na lua de Júpiter Europa, que se pensa terem condições semelhantes às que possibilitaram o aparecimento da vida na Terra. E o cientista Steve Vance, que visitou Cabeço de Vide, segundo disse à SIC, estava a experimentar um instrumento que serve para medir gases e estudar estas coisas, com vista a fazer medições semelhantes em Marte, já que a sonda Curiosity (que recentemente chegou a Marte) tem um instrumento parecido a bordo.

A reportagem termina dizendo que a Vila habituada à calma alentejana, sente-se agora no "centro do mundo". Nada mais absurdo e é de uma irresponsabilidade cruel criar essa expectativa na população da Vila, a braços com os problemas da crise económica, desemprego e confrontada com a emigração, que vê neste hipotético estatuto uma esperança.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

HÁ MARCIANOS NO ALENTEJO?

Uma das reportagens mais alucinadas dos últimos tempos, que mistura tratamentos de SPA com astrobiologia. Mas os pontos mais altos vão para: "aqui neste bosque, ou noutro idêntico na américa, pode ter estado a origem da vida na Terra." e "eu não sou daqui, mas o pessoal que é daqui diz que é ali que a vida começou".


Ouvindo o cientista da NASA ficamos na dúvida se os jornalistas da SIC percebem inglês ou se (pelo menos) sabem ler as legendas. Parece um sketch dos Monty Python: um cientista diz coisas com sentido e que se percebem e o jornalista fala da vida na Terra a começar num bosque, secundado por um presidente da junta que quer vender uma pequena vila do Alentejo como "o principio da vida na Terra".

Para discutir este assunto, haverá esta noite uma sessão na Associação Rossio em Lisboa, com a presença de Carlos Oliveira (astrobiólogo) e Sérgio Paulino (Ecotoxicólogo).

Mais informação no blogue astro.pt.



Transmissão em directo da sessão pela internet, pode ser vista aqui:


quinta-feira, 4 de agosto de 2011

ETOLAS - O ARQUITECTO MINERAL!


Um outro dos meus doze textos constituintes do “Cordel de Ciência”, ilustrados por Diana Marques, iniciativa promovida e inaugurada no Pavilhão do Conhecimento aquando da comemoração do seu 12º Aniversário, no passado dia 21 de Julho de 2011. Passe por lá e leve-os consigo pela mão! Entretanto…e a pedido de alguns leitores que habitam outras paragens transatlânticas...

"Depois de um dia magnífico, passado entre brincadeiras e gargalhadas, Ricardo descansa o olhar no imenso céu estrelado que vê através da janela do seu quarto.

Enquanto o sono não chega, para viver novas aventuras em sonho, Ricardo colecciona cores e intensidades diferentes nos brilhos das estrelas. Na caderneta estrelar do Ricardo não há cromos repetidos. Aliás, Ricardo tem dificuldade em encontrar duas estrelas iguais na vastidão da abóbada celeste observável através da janela do seu quarto.

Subitamente, a intensidade do brilho de uma estrela aumenta de tal forma que inunda o seu quarto de luz. Surpreendido, Ricardo senta-se na cama e esfrega os olhos. Não podia acreditar: algo muito estranho tinha vindo junto com o brilho.

- Quem és tu? – pergunta Ricardo, estupefacto.
- Sou Etolas, o melhor arquitecto de minérios desta galáxia!
- Arquitecto de minérios?! Que profissão é essa? – questiona Ricardo, cada vez mais intrigado.
- Arquitecto as condições espaciais para que novos minerais possam ser gerados… – Ricardo interrompe Etolas.
- Espaciais? Mas donde é que tu vens? Não me pareces nada com um astronauta!
- Eu venho de um planeta que já não existe neste Universo – responde Etolas, com nostalgia. – Um planeta que orbitava entre Marte e Júpiter, mais precisamente onde hoje existe um belo cinturão interno de asteróides neste sistema solar.
- Não me digas que és um extraterrestre? – pergunta Ricardo, desconfiado.
- Do vosso ponto de vista… Sim, sou um extraterrestre.
- Estranho! Não pareces nada com os extraterrestres dos filmes que vejo: não tens antenas, não tens só um olho, não tens quatro pernas, a tua cabeça parece-me humana… Não me pareces nada com um extraterrestre. – diz Ricardo, com a dúvida a turvar o olhar.
- A imagem que vês de mim é fruto da tua imaginação. Sabes – continua Etolas – é difícil imaginarmos coisas diferentes daquelas que estamos habituados a ver e sentir desde que nascemos. E eu que te diga: não é mesmo nada fácil, mesmo para mim que já por cá viajo há milhões de anos! Por isso, é normal que a imagem que o teu cérebro constrói sobre mim não seja muito diferente da de uma imagem humanóide.
- Curioso… – comenta Ricardo – Aquilo que dizes faz algum sentido, mesmo para mim que colecciono cores e brilhos de estrelas. Apesar de ainda não ter encontrado, com a vista desarmada, duas exactamente iguais, não posso dizer que no geral sejam assim tão estranhas umas das outras. Mas, e para ti, Etolas, como é que eu te apareço? – pergunta Ricardo, desafiante.
- Queres mesmo que te diga? – compassa Etolas.
- Quero. Sou assim tão estranho aos teus olhos? – insiste Ricardo.
- Para mim a tua imagem não é estranha, pela mesma razão que a minha imagem para ti não é muito diferente da de um humano – responde Etolas.
- Mas então, se me disseres como me vês, ficarei com uma ideia de como és! – exclama Ricardo – como é que eu te apareço visualmente?
- Como um minério composto essencialmente por fosfato, cálcio, oxigénio e hidrogénio! Estes elementos, organizados em estruturas tridimensionais a que vocês dão o nome de cristais de hidroxiapatita. É uma estrutura cristalina interessante – continua Etolas – do meu ponto de vista de arquitecto de minérios, e única, posso confirmar-te, por todo o Universo por onde já viajei!
- Pareço-te então um esqueleto?! – boceja Ricardo.
- Lá está a tua incapacidade de escapar ao que te é conhecido – responde Etolas – Para mim és uma estrutura mineral que resultou do crescimento organizado de cristais, cuja regularidade nuclear pode ser descrita pela fórmula química Ca10(PO4)6(OH)2, para falarmos numa mesma linguagem química.
- Curioso não detectares carbono na minha composição! – diz Ricardo, espantado.
- Para mim – responde Etolas – o elemento carbono é superficial na imagem que tenho de ti. Aliás, deixa-me dizer-te que, para mim, as estruturas à base de carbono são muito monótonas…
- Mas é sobre essa monotonia carbónica que a vida neste planeta se edificou… curiosa essa tua visão – remata Ricardo, pensativo, para logo perguntar: – Mas se o teu planeta já não existe, de onde vens tu agora? – Ricardo abre a mão para o céu estrelado.
- Não venho de lado algum – afirma Etolas, categórico – Viajo pelo Universo à procura dos meus minérios, dos meus cristais preciosos e únicos. Já te disse que sou um arquitecto de minérios.
- Não estou a perceber nada! Se calhar estou a sonhar… – diz Ricardo, espreguiçando-se.
- Vou-te explicar com um exemplo concreto: lembras-te do minério que os vossos cientistas baptizaram por Wassonite? – pergunta Etolas, refulgente.
- Vagamente… Aquele encontrado num meteorito, creio que designado por Yamato 691, descoberto na Antártica em 1969, e que se pensa proveniente da cintura interna de asteróides… – intervala Ricardo, atónito, para recomeçar entusiasmado – Não me digas que é um pedaço do teu planeta…
- Não, Ricardo – responde Etolas. – Esse meteorito é o que resta de um dos inúmeros canteiros de minerais que eu arquitectei a partir dos elementos disponíveis. Esse, em particular, até foi uma das minhas últimas arquitecturas minerais, elaborada a partir dos elementos enxofre (S) e titânio (Ti). Consegui um arranjo cristalino estável e singular, na senda de contribuir para a imprescindível diversidade mineral do Universo! – expõe Etolas, com uma pose muito extraterrestre.
- És mesmo inorgânico, Etolas! – conclui Ricardo, piscando um olho.
- Do meu ponto de vista, sou universalmente mineral! – graceja Etolas, imiscuindo-se no seu brilho cristalino.

O galo do tio Alfredo cantou, seguindo a “Partitura de Alvorar”, autoria do “cósmico anónimo”.

Ricardo acorda. Estremunhado, recorda-se de um sonho de outro mundo, com vida muito mineral…

António Piedade

segunda-feira, 4 de julho de 2011

A VIDA NO UNIVERSO

(imagem cedida por Carlos Oliveira)

Numa altura que a capacidade da Humanidade, em observar o Universo longínquo, tem permitido encontrar planetas com características análogas às do nosso planeta, efectuei uma entrevista a Carlos Oliveira, astrónomo e comunicador de ciência português que lecciona um curso inovador de Astrobiologia na Universidade do Texas (Estados Unidos da América).

Entrevista publicada no Diário de Coimbra.

António Piedade - De que é trata a astrobiologia?
Carlos Oliveira- É o estudo da vida no Universo. Por todo o Universo, incluindo na Terra, e por todo o tempo (passado, presente e futuro). Donde vimos? Para onde vamos? Estaremos sozinhos? Que condições deverão existir para a vida tal como a conhecemos? Que tipo de vida pode existir sob certas condições? São estas algumas das perguntas que a astrobiologia faz.

António Piedade - Quem é que utilizou pela 1ª vez o termo astrobiologia?
Carlos Oliveira - A astrobiologia é uma ciência que funciona como um "guarda-chuva" de ciências. Pode-se argumentar que desde sempre as pessoas imaginaram vida pelo Universo... a que chamaram deuses. Pode-se pensar que Anaxagoras, há 2500 anos atrás, falou na panspermia - de que a vida na Terra veio do espaço. No entanto, ao longo dos séculos, a argumentação a sustentar a astrobiologia era religiosa. No Renascimento, a ideia de vida pelo Universo recebeu novo impulso, com a injecção de novas ideias por Giordano Bruno e outros. No entanto, continuou tudo muito religioso e somente baseado em opiniões.
Em 1860, Kirchhoff e Bunsen, com a espectroscopia, deram um dos primeiros passos científicos para o estudo da astrobiologia. Mesmo assim, continuou tudo a funcionar muito por analogia, e não porque se detectava alguma coisa.
Em 1941, L. J. Lafleur usou pela 1ª vez o termo astrobiologia num artigo científico, mas isto em nada desenvolveu a astrobiologia. É somente nomenclatura.
Em 1995 foram oficialmente detectados os primeiros planetas extrasolares, dando um novo impulso à astrobiologia.
Em 1998, foi criado o NAI - NASA Astrobiology Institute - que trabalha com muitos cientistas espalhados pelo mundo, sob o "guarda-chuva" da astrobiologia. Este também foi um passo extraordinário para não só tornar a astrobiologia numa ciência, mas sobretudo para a desenvolver enormemente já que todos trabalham com esse fim.

António Piedade - Quais são, na tua opinião, as principais descobertas na astrobiologia com impacto sobre o conhecimento que temos de como a vida surgiu e evoluiu?
Carlos Oliveira - Actualmente são, sem dúvida, as constantes descobertas de planetas extrasolares, as descobertas de extremófilos na Terra, e as descobertas de material orgânico nos meteoritos.

António Piedade - Quais são os principais “desafios fronteira” da astrobiologia actual?
Carlos Oliveira - Penso que serão as áreas que respondi na pergunta anterior.
Planetas extra-solares e microbiologia são duas das áreas mais fortes da astrobiologia actualmente, e que têm mais hipótese de ter grandes repercussões no futuro. Por exemplo, descobrir vida num outro local do Universo levará a uma revolução do pensamento humano. Claro que essa descoberta será muito provavelmente de vida simples, mas mesmo assim já trará enormes consequências para o nosso conhecimento. E novas perguntas começarão a surgir: será vida como a nossa? Será que teve a mesma origem? Serão saborosos? Terão deuses? Que tipo de inteligência terão? Só funcionam por instinto? Poderemos vender-lhes micro-ondas? E muitas outras perguntas do mesmo género. (algumas perguntas são meio a brincar e meio a sério: na Terra, comemos muita da vida que existe, por isso o mesmo se deverá passar no exterior; na Terra comparamos a inteligência dos outros à nossa; na Terra, regemo-nos pelo capitalismo e pelo comércio; na Terra, tentamos converter os outros aos nossos deuses; na Terra, temos a mesma origem para a vida - o antepassado comum; na Terra encontramos vida tal como a conhecemos; etc.)

António Piedade - Que satélites, sondas, telescópios estão dedicados à astrobiologia?
Carlos Oliveira - Existem vários. Fora os satélites de radioastronomia do SETI, temos claro os telescópios que podem detectar e até visualizar planetas. E nesse caso, existem vários telescópios/missões que nos ajudam: Hubble, CoRoT, Espresso, HATnet, OGLE, Super-WASP, XO, etc., e claro a fabulosa missão Kepler. Estes todos estão "virados para fora", mas há telescópios, sobretudo da NASA, virados "para dentro", ou seja, apontados à Terra, e que estudam a dinâmica de ecossistemas terrestres. E o ambiente terrestre é importante, já que é essencial para a vida na Terra (vida na Terra também é vida no Universo, logo, estudar a vida na Terra é uma das funções da astrobiologia).