

Há umas semanas, escrevi um post sobre as capacidades muito precoces reveladas por bébés de apenas 6 meses, que distinguiram acções intencionais de não intencionais e entre seres autónomos e corpos inanimados. Volto a este assunto com mais algumas evidências das capacidades notáveis que os membros da nossa espécie conseguem evidenciar, em fases muito precoces do seu desenvolvimento cognitivo, e que suscitam muitas interrogações sobre como aprendemos uma parte do que sabemos acerca do mundo em em vivemos.
A questão interessa-me particularmente porque as capacidades são demasiado elaboradas para surgirem do nada e aparecem demasiado cedo para poderem ser ensinadas. Como se desenvolvem essas competências? Que papel teve a evolução na configuração destes processo de desenvolvimento?
Um considerável número de experiências realizadas ao longo das últimas décadas permitiu perceber que bébés com apenas alguns meses têm noções incríveis sobre a física do mundo que os rodeia. Percebem que o mundo é constituido por corpos sólidos coesos, que mantêm a forma quando imóveis ou quando se deslocam; que não se influenciam (não se empurram) à distância, tendo que contactar fisicamente; que um corpo geralmente desce um plano inclinado, mas não sobe sozinho; que se uma caixa chega à extremidade de uma mesa e continuar a ser empurrada cai, não fica a levitar; que os objectos continuam a existir mesmo quando não estão visíveis. E várias experiências sugerem a percepção do conceito de ‘força’ que, quando aplicada a um objecto, produz efeitos. Será uma espécie de ‘física popular’, mas que surge antes de a criança experimentar directamente. Se aprende, fá-lo muito rapidamente e a partir de uma observação penetrante e claramente dirigida.
Como é que se consegue experimentar tudo isto com bébés que não falam?
Graças a uma técnica fantástica, descoberta já há uns anos, que assenta na constatação de que um bébé presta muito mais tempo de atenção a algo novo, surpreendente ou inesperado que a algo que lhe seja familiar ou esperado. Assim, medindo o tempo de atenção quando lhes eram mostradas cenas num ecrã em que se empurrava um copo ao longo de uma mesa, foi possível verificar que os bébés ficavam surpreendidos e aumentavam consideravelmente a sua atenção se o copo continuasse para lá do tampo da mesa sem cair, ficando a ‘levitar’ sobre o chão.
Igualmente notável foi a constatação de que os bébés têm noções básicas de aritmética, através de experiências conduzidas por Karen Wynn e seus colaboradores. Numa situação (A) eram apresentados dois objectos que depois eram tapados por uma cortina. Em seguida um operador removia um dos objectos que se encontrava atrás da cortina. Quando a cortina descia, se estivessem dois objectos na mesma, o tempo de atenção aumentava imenso. Noutra situação (B), a 1 objecto inicialmente visível era adicionado outro, mas com a cortina presente. O observador também se revelava surpreendido se só aparecesse um objectos após remoção da cortina. Ou na situação em que eram colocados dois objectos, mas apareciam três quando a cortina desaparecia. Perante várias manipulações, se o resultado fosse diferente de uma aritmética correcta o observador revelava-se perplexo. E reparem que a situações referidas implicam capacidade de enumerar, não é uma mera questão de percepção. Quando olhamos para uma imagem contendo vários objectos e depois nos mostram outra semelhante e nos perguntam se falta algum, estamos a lidar com a percepção (e, claro, a memória visual). Mas, a criança sabe que 1 objecto mais 1 objecto = 2 objectos, embora não os tenha visto juntos antes. Sabe que a adição ou a subtracção resulta na alteração do número de objectos.
Como é possível saber tão cedo que 1 + 1 = 2? E sem tutor? Quando a complexidade da tarefa cognitiva é demasiado elevada para que o seu surgimento possa ocorrer por mera tentativa e erro, há poucas alternativas explicativas: ou o organismo já sabe, isto é, a informação está programada nos seus genes – como acontece com o código da dança das abelhas, ou as tarefas estereotipadas das vespas solitárias ao introduzirem um presa no seu ninho escavado no solo, como Baerends descreveu tão notavelmente – ou aprendem muito depressa e de forma muito dirigida, o que requer a intervenção de programas genéticos sobre o desenvolvimento cognitivo.
Será que as crianças já nascem com crenças sobre os objectos e as suas propriedades físicas, ou elas possuem um mecanismo que guia as sua aquisição de conhecimentos sobre os objectos? Em qualquer dos casos os genes estão em acção. A primeira possibilidade implica que nascemos já com algumas noções de aritmética. A segunda possibilidade implica a existência de mecanismos muito específicos que definem períodos sensíveis para o indivíduo aprender um determinado tipo de informação e não qualquer tipo de informação. Na fase sensível, as regiões do cérebro implicadas estão em formação ou estruturação e muito disponíveis para recolher esse tipo de informação. A aprendizagem é guiada por programas genéticos específicos destinados a garantir que o indivíduo adquire aquela informação. Porque desenhou a selecção natural um dispositivo destes para os nossos conhecimentos básicos de física e de aritmética? Isso é algo que não tem ainda resposta. Mas, há hipóteses. Estes conhecimentos podem ser fundamentais para que o indivíduo possa ter um conjunto básico de princípios que o ajudam a obter e estruturar informação que obtém subsequentemente. Ou podem ser conhecimentos essenciais para evitar acidentes em fases precoces da vida.
Em todo o caso, é evidente que não somos à partida uma pedra polida à espera de ser esculpida, ou um quadro de lousa (hoje em dia, de polímeros sintéticos) vazio à espera que os tutores nele escrevam. Cada um de nós, desde muito cedo constroi parte importante da sua própria aprendizagem, se é que não está já presente à nascença. E a propensão para aprender essas coisas é guiada pelos nossos genes.



