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| Recorte retirado daqui. |
“O google sabe tudo”, foi, na passada década, uma declaração muito repetida pelo Director para a Educação e Competências da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) em diversas partes do mundo, incluindo Portugal. Dela fizeram eco académicos com responsabilidades pela educação escolar pública, que aqui me abstenho de mencionar. O argumento, obviamente falacioso, era que "todo" o conhecimento estaria nesse tal google e, portanto, não seria preciso o professor transmiti-lo nem o aluno memorizá-lo; impunha-se uma transformação dessa educação
A empresa em causa, na sua dimensão "filantrópica" orientada para a educação, propunha-se, à altura, disponibilizar e operacionalizar o currículo de uma parte substancial do mundo. Para essa dimensão foram recentemente encaminhados vários milhões de dólares cujo destino é optimizar a ligação entre o motor de busca e a inteligência artificial generativa, isto como suporte de "iniciativas globais de educação e literacia digital".
Para que o "ecossistema educativo da google" (expressão extraordinária que remete, efectivamente, para um sistema mundial de educação... da empresa!) vingue, reforçam-se as estratégias de sedução-pressão junto de governos e escolas.
Mais uma vez, a tecnologia é apresentada como um magnífico reservatório de soluções para a aprendizagem activa, autónoma, etc, etc, etc. Será um tutor, qual Sócrates (a analogia é esta mesmo), que acompanha cada aluno no seu caminho de descoberta... E, o que acontece se as escolas entenderem que os mecanismos de inteligência artificial generativa não devem ser usados no seu espaço pedagógico? É simples: o motor de busca é desactivado.
A experiência de desactivação começa nos Estados Unidos, suportada, como passou a ser regra, por investigação produzida, corroborada, divulgada em universidades. Universidades que em vez de terem uma posição intelectualmente crítica e socialmente responsável, andam cada vez mais de mãos dadas com empresas cujo fim é distinto daquele que perseguem ou deveriam perseguir.
A resistência existe, no entanto, por parte de algumas escolas e professores que não querem (e bem) abdicar do seu poder (legítimo) de decidir o ensino a proporcionar aos alunos. Têm tido o apoio de pais e de entidades sociais, o caso chega aos tribunais.
As razões que invocam situam-se, sobretudo, nos danos cognitivos que esta tecnologia pode causar a crianças e jovens, bem como na manipulação emocional de que podem ser objecto (ver, por exemplo, aqui). Haverá a acrescentar o desvio de finalidades realmente educativas, que têm vista o bem-comum, em favor de interesses económico-financeiros particulares, marginais a valores éticos como sejam a liberdade, a democracia, a justiça, a verdade.
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Nota: A primeira citação foi retirada de entrevista das jornalistas Isabel Leiria e Joana Pereira Bastos, publicada no jornal Expresso de 20 de Abril de 2016 com o título As escolas portuguesas ainda não fizeram a transição do ensino do século XX para o século XXI. A segunda citação foi retirada da informação da Fundação Calouste Gulbenkian de 20 de Outubro de 2018 publicada no mesmo jornal com o título Primeiras Academias Gulbenkian Conhecimento avançam no País.

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