domingo, 3 de maio de 2026

"A promiscuidade entre o poder político e o poder económico"

 

No passado dia 29 de Abril, saiu no jornal Público (ver aqui) mais um texto, muitíssimo lúcido, da professora Maria do Carmo Vieira sobre a orientação política que o sistema educativo tem tomado ou é obrigado a tomar.

Trata-se de uma Carta aberta dirigida ao actual Ministro da Educação, mas podia ser dirigida a outros que o precederam. De facto, o alinhamento partidário que representam, independentemente de qual seja, vê-se subjugado às "orientações"/recomendações" de poderosas organizações supranacionais, como a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico, a quem interessa a produção de "capital humano. Isto na escola pública, já se vê!

Eis as passagens que, tendo em conta o meu estudo, vejo como mais relevantes. Tomei a liberdade de mudar o título e de colocar destaques.

"Saberá o senhor ministro que, assim como a Economia, perdido o seu norte, se tornou farto alimento para ambiciosos e obstinados, num "progresso” assente em “mais-valias” e “lucro rápido”, também o Ensino não escapou a esses desígnios, nomeadamente na trágica realidade que tem sido o desmoronamento das Humanidades, hoje em dia, com forte destaque para a História e a Geografia, ambas em estertor. Matérias que, no seu conjunto, e na avaliação de “peritos” internos, em estreita aliança com os desígnios da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico), não se adequam às palavras que traduzem o seu significado de “progresso”.

A Reforma de 2003, que o sr. ministro conhecerá bem, dado que continua em vigor, no espírito que a norteou, e nas suas nefastas consequências, não foi com efeito uma iniciativa do ministério, antes respondeu a uma estratégia concertada com a OCDE, tal como está a acontecer com “O Sonho Digital” que a mesma organização tanto defende e pretende impor. 

A promiscuidade entre o poder político e o poder económico é, na verdade, uma realidade inquestionável e um factor flagrante de corrupção.

A alteração, por exemplo, dos programas de Português, em 2003, teve como alvo prioritário a Literatura, ameaça consumada não só em Portugal, que foi aluno obediente, mas em muitos outros países. Professores franceses, belgas, espanhóis, italianos, alemães e brasileiros, entre outros, insurgiram-se igualmente contra o facto de se pretender esvaziar a Literatura dos seus autores de referência, transformando-se a “arte da palavra” em “mais um tipo de texto”, a par de uma receita culinária, uma acta, um rótulo, uma notícia ou um convite. Com esse esvaziamento, a primazia foi dada, do 1.º ao 12.º anos, ao texto funcional, de interpretação chã e paupérrimo em vocabulário, tendo sido também a escrita substituída largamente por cruzes. 

O adorno principal da “inovação”, transformado em moda “pedagógica”, apelidou-se de “lúdico”, e tudo, em uníssono, tem vindo, ao longo dos anos, a apatetar os alunos e a diminuir a sua capacidade interpretativa e o seu domínio da língua, aspectos que se intensificaram com o endeusamento da tecnologia e o respectivo excesso de estímulos.

Para a implementação deste programa, muito contestado, contou o ministério com a estreita cumplicidade da Associação de Professores de Português e da Associação de Professores de Linguística (...).

Sem dúvida que a Escola deixou de instruir!... E os seus “peritos”, sr. ministro, continuam a decidir…"

sábado, 2 de maio de 2026

NÃO BASTAM GRANDES DECLARAÇÕES: A FALIBILIDADE DA EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA

Diz-se na página 3 do documento curricular designado por Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania (os destaques são meus):
 
"A Educação para a Cidadania assume um papel determinante na resposta aos desafios complexos, diversificados e dinâmicos das sociedades contemporâneas. Ela contribui para a formação de cidadãos responsáveis, autónomos, solidários e conscientes dos seus direitos e deveres, exercidos num ambiente de respeito, diálogo e pluralismo, sustentados nos valores democráticos e nos Direitos Humanos"

O modo indicativo aqui usado quer indicar uma certeza, pressupõe que certas acções se tornarão reais: SE os alunos forem educados para a cidadania, COMPORTAR-SE-ÃO do modo como se declara que se comportem. Este raciocínio é repetido neste e noutros documentos curriculares, como se repetir uma coisa a tornasse real, verdadeira, viável... Não torna!

Estamos ao nível da crença, passando ao lado de conhecimento educativo e pedagógico a que deveríamos prestar atenção: os discursos da (desta) Educação para a Cidadania, por mais cândidos que sejam, podem ter, ou não, efeitos positivos na aprendizagem, a mais curto ou mais longo prazo. 
 
É por estarmos nesse nível que se estranha quando a aprendizagem estabelecida pelos entusiastas da (desta) Educação para a Cidadania destoa das suas declarações grandiloquentes. Isso deveria fazer com que a tutela revisse o texto dos documentos que publica, abandonando o registo de cantilena, para lhe conferir objectividade e, não menos importante, modéstia.
 

 

Um exemplo recente de dissonância entre propósitos e acção concreta, que tem sido amplamente noticiado, é o que se refere ao lado (ver aqui). 
 
Como é possível que alunos de um colégio de elite, educados nos melhores valores republicanos, tomem a iniciativa de agredir, em grupo, verbal e fisicamente, um refugiado que se deslocava sozinho?!

A directora do colégio declarou-se, em entrevista à RTP,  "profundamente chocada" por ser "contra todo o tipo de violência, todo o tipo de agressão, todo o tipo de barbárie". Acrescentou: "mais chocada fiquei quando percebi e soube que eram alunos da minha escola (...). Estamos há 90 anos a educar para a Paz. Eu sou directora desta escola há 41 anos e sempre pautei a minha prática pedagógica por ensinar aos meus alunos o Respeito, a Tolerância, a lutar pela Liberdade e pela Democracia, e, sobretudo, a não se deixarem levar pelo discurso do ódio, do racismo e da intolerância, e da xenofobia. Isso para nós é fundamental."
 
Pode ser fundamental, mas garantia não é. 

A INFÂNCIA "COMO UMA ESPÉCIE DE BASE DA HUMANIDADE"

 

O jornal Público, na sua versão online do passado domingo, deu a conhecer uma entrevista feita pela jornalista Cristiana Faria Moreira a uma investigadora de Comunicação e Estudos dos Media e ex-directora do Institute for Research on Digital Literacies da Universidade de York, no Canadá  (ver aqui). No seu trabalho destaca-se o capitalismo digital e as tecnologias destinadas a crianças (kidtech).

Dessa entrevista, extraio, e reproduzo abaixo, alguns aspectos que responsáveis pela educação escolar, formadores de professores, directores escolares, professores e outros profissionais de ensino devem ter presente nas decisões que tomam.

As crianças e os jovens são um recurso financeiro para as empresas, que os veem como uma fonte de lucro. Isso não é novo: há muito tempo que estão "no centro da cultura de consumo e do capitalismo", mas hoje temos "empresas enormes, gigantescas" a fazê-lo com competência inaudita. Essas empresas:

a) Moldam as crianças e os jovens como consumidores. Nos espaços digitais recolhem-se os seus gostos e orienta-se a publicidade em função desses gostos. E isto sem respeito pela privacidade. É o fim da privacidade;

b) Extraem deles dados com grande interesse económico: "podem-se vender a anunciantes, a máquinas de IA preditiva. Nem sequer conhecemos todas as formas como esses dados podem ser utilizados. E pensemos em grandes volumes de dados e no que, a partir deles, se pode compreender de toda uma geração ou de toda uma comunidade". É certa:

- a falta de transparência acerca do que acontece aos dados. "O que temos de perguntar é: para onde vão esses dados? Não sabemos, assim como não sabemos quanto tempo vão ser guardados, nem que outras entidades terão acesso;

- a ausência de regulação das empresas tecnológicas e das suas plataformas, não obstante a responsabilidade que os governos têm "de garantir que estas estruturas vão ao encontro das necessidades da população. Dizer às pessoas para se manterem afastadas não é uma solução (...). Parte do problema é que estas empresas são reguladas globalmente. Às vezes nem sequer as conseguimos definir. E isso tem sido uma forma de contornar a regulamentação".

c) A indústria do edtech, das tecnologias aplicadas à educação, "é global, enorme, e a crescer exponencialmente, à medida que mais governos estão a cortar no financiamento às escolas públicas". (...) "Também acho que é importante pensar no que é que está a faltar às crianças para estarem a recorrer a estas ferramentas". 

d) "Quanto mais extremo for o que se diz, mais atenção se recebe, mais valor se cria. Não basta ter mais utilizadores, é fazer com que eles fiquem mais tempo, ter mais conteúdo, deixar as pessoas furiosas e irritadas... tudo isso cria valor para a plataforma. As empresas de redes sociais não se importam que vejas os conteúdos porque os odeias ou porque gostas deles. Ser um conteúdo extremista ganha atenção. Tudo o que dizemos sobre misoginia, sobre racismo, é incorporado ali. 

e) "À medida que este material se tornar parte das ferramentas de IA preditiva perdemos o controlo sobre ele. E é bastante assustador pensar nas implicações que isso pode ter a longo prazo e sobre as quais sabemos ainda muito pouco".

Essas empresas "isentam-se completamente de toda a responsabilidade. E depois responsabilizam os pais e responsabilizam as escolas." Há muito que as crianças estão no centro da cultura de consumo e do capitalismo, mas a escola e a sala de aula são espaços que devem pugnar pela segurança.

Conclui essa investigadora: "está a tornar-se bastante assustador". É que

"Se mudarmos a infância, acabamos por mudar o que significa ser humano"
Há que pensar a infância "como uma espécie de base da humanidade".  

"A promiscuidade entre o poder político e o poder económico"

  No passado dia 29 de Abril, saiu no jornal  Público (ver aqui ) mais um texto, muitíssimo lúcido, da professora Maria do Carmo Vieira sobr...