domingo, 31 de maio de 2026

Educar na Complexidade

Prestando homenagem a Edgar Morin, o jornal Público de hoje, 31 de Maio, traz testemunhos e textos de opinião de vários autores.

Destaco aqui o artigo de António Teodoro com o título "Edu­car na com­ple­xi­dade. O legado de Edgar Morin", que pode ser lido na totalidade aqui.

António Teodoro centra-se, neste seu artigo, no livro publicado em 1999 "Os sete Saberes para a Educação do Futuro", resumindo os aspectos essenciais, e actuais, do Mestre que nos deixou, fisicamente, há dois dias.

Transcrevo alguns parágrafos que resumem e comentam a ideia de E.Morin sobre Educação:

"A morte de Edgar Morin (1921-2026) encerra sim­bo­li­ca­mente um ciclo inte­lec­tual euro­peu que atra­ves­sou o século XX sem nunca desis­tir de pen­sar o humano em toda a sua com­ple­xi­dade. Soci­ó­logo, filósofo, resis­tente anti­fas­cista, pen­sa­dor da ciên­cia, da polí­tica e da cul­tura, Morin recu­sou sem­pre as fron­tei­ras rígi­das entre dis­ci­pli­nas e os sis­te­mas fecha­dos de pen­sa­mento."

"Nenhum saber é neu­tro, com­pleto ou definitivo. Todo o conhe­ci­mento sele­ci­ona, orga­niza e inter­preta a rea­li­dade. Num tempo mar­cado pela cir­cu­la­ção ins­tan­tâ­nea de infor­ma­ção, pela mani­pu­la­ção algo­rít­mica e pela trans­for­ma­ção das opi­ni­ões em ver­da­des abso­lu­tas, esta pro­posta ganha uma atu­a­li­dade evi­dente. A edu­ca­ção não pode limi­tar-se à trans­mis­são de con­te­ú­dos; deve for­mar inte­li­gên­cias capa­zes de dis­cer­ni­mento, dúvida e jul­ga­mento."

"Quando a escola é redu­zida à lógica da per­for­ma­ti­vi­dade, da com­pa­ra­ção per­ma­nente e da ges­tão por indi­ca­do­res, tende a for­mar exe­cu­tan­tes eficazes, mas não neces­sa­ri­a­mente sujei­tos capa­zes de pen­sar cri­ti­ca­mente o mundo que habi­tam."

"Morin insis­tia, por isso, na neces­si­dade de reli­gar conhe­ci­men­tos. A grande tarefa edu­ca­tiva do século XXI seria supe­rar a sepa­ra­ção artificial entre ciên­cias, huma­ni­da­des, ética, cul­tura e polí­tica. Não para dis­sol­ver dis­ci­pli­nas, mas para criar inte­li­gên­cias capa­zes de cir­cu­lar entre elas e de com­pre­en­der as inter­de­pen­dên­cias que estru­tu­ram a vida con­tem­po­râ­nea. Essa pers­pe­tiva apro­xima-se das atu­ais dis­cus­sões sobre cur­rí­culo, cida­da­nia e sus­ten­ta­bi­li­dade, que pro­cu­ram devol­ver à escola uma fun­ção cul­tu­ral e demo­crá­tica mais ampla do que a mera pre­pa­ra­ção para o mer­cado de tra­ba­lho."

 

"Morin não ofe­re­cia recei­tas peda­gó­gi­cas rápi­das nem mode­los admi­nis­tra­ti­vos de reforma. Pro­pu­nha algo mais difí­cil: uma trans­for­ma­ção da pró­pria maneira de pen­sar a edu­ca­ção."

 

"O último saber pro­põe uma ética do género humano. Não uma moral abs­trata, mas a cons­ci­ên­cia con­creta de que par­ti­lha­mos um des­tino comum. Morin nunca acre­di­tou numa edu­ca­ção neu­tra ou pura­mente téc­nica. Para ele, toda a edu­ca­ção envolve esco­lhas éti­cas e polí­ti­cas sobre o tipo de socie­dade que dese­ja­mos cons­truir."

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