segunda-feira, 29 de junho de 2026

A LINHA DE MONTAGEM DA AVALIAÇÃO COM FINS DE CLASSIFICAÇÃO

A crítica à "escola tradicional", a partir de finais do século XIX, incidiu particularmente na avaliação da aprendizagem por exames finais, que decidiam a passagem ou reprovação dos alunos, bem como a atribuição de diplomas. A investigação que, a partir dos anos de 1920, lhes prestou atenção mostrou as suas muitas fragilidades. É certo que foram criadas estratégias para melhorar a redacção, a aplicação e a correcção dos exames, mas há que ver que se trata de uma tarefa humana e, portanto, sujeita a múltiplos enviezamentos.

É certa a necessidade da avaliação externa com fins sumativos, pois desempenha uma função social não dispensável, mas colocar essa necessidade no centro dos sistemas de ensino é um erro lamentável que tem vindo a  acentuar-se neste século. 

Chamo a esta nota Gert Biesta, filósofo da educação, que tem feito uma crítica muito consistente à obsessão contemporânea por testes padronizados, rankings e métricas, questionando se avaliamos o que valorizamos ou se valorizamos o que avaliamos (ver aqui). É esta obsessão que alimenta o PISA e outros programas de avaliação internacional, mas também os exames nacionais.

 A digitalização destes exames abriu novas possibilidades para tornar a classificação mais objectiva, uma vez que permite a distribuição, em larga escala, de respostas dos testes (e não os testes) pelos classificadores. Este tipo de multicorrecção é, de resto uma das estratégias a que acima aludi.

Vários países europeus já fazem tal digitalização, ao que se diz, com eficácia. Andreia Sanches, jornalista do Público, num artigo que acaba de sair (ver aqui) dá conta do exemplo inglês reconhecido como de sucesso, ainda que não isento de problemas. Dois registos em vídeo mostram o processo (ver aqui e aqui). Um deles coloca a pergunta: para onde vão os nossos exames depois de os fazermos?

Vão para uma "linha de montagem" impressionante, essa é que é a verdade. Não podemos ficar indiferentes à sua concepção e funcionamento. O problema, usando o raciocínio de Biesta, é se não estamos a passar para o lado que não devíamos: aquele que valoriza o que se avalia e, sobretudo, como se avalia, para chegar a resultados que revelarão exactamente o quê?


4 comentários:

Mário R. Gonçalves disse...

Prefiro pensar que o que se pretende não é classificar por classificar, mas equalizar oportunidades em função do mérito. Que mérito? poderá ser questionado, o de despejar aprendizagens numa maratona sobe grande stress. Mas num ensino massificado não há alternativa. A nível das melhores Universidades há outras metodologias, sim, porque se trata de pequena escala. Se não se quer este mega-processamento fabril dos exames, ter-se-á de voltar a uma escolaridade elitista.

São Canhões? Sabem mesmo a manteiga... disse...

o que me preocupa mais são os dois exames exigidos porque não ficar com um para o acesso

Gustavo disse...

Nós temos o mesmo problema aqui (falo do Brasil, estado de São paulo); talvez uma versão mais crua. A avaliação virou fim, não meio. Métrica substitui aprendizado, indicador substitui pensamento. Ensinamos para a prova, corrigimos para o padrão...



No estado de São Paulo, isso vem embalado como “gestão”, mas é desmonte. Padronização burra, pressão por resultado vazio e uma infantilização do processo educativo. Some-se a isso a lógica de controle; escola com policial, censura travestida de neutralidade que é o escola sem partido; não é sobre aprender, é sobre domesticar. Biesta acerta no ponto: não é só o que avaliamos, é o que deixamos de existir quando reduzimos tudo ao que pode ser medido.

Esquecemos Paulo Freire, adotamos o liberalismo nas escolas também...

Risco nosso é retorno dos Bolsonaros (no governo federal, por que estadual já esta) em alguns meses. Estamos angustiados.

Helena Damião disse...

Prezado Leitor Gustavo
O problema da "avaliação" académica é global e, sim, determinada pelo que menciona.
Estabelecido UM perfil universal de aluno (que em Portugal, devido a críticas, foi corrigido para "alunos"), a avaliação serve para controlar a sua aquisição (por cada aluno, por cada turma, por cada escola, por cada estado, por cada país...). Como bem diz: "a avaliação virou fim, não meio. Métrica substitui aprendizado, indicador substitui pensamento. Ensinamos para a prova, corrigimos para o padrão". Padrão que é esse perfil. Logo, que é professor de verdade, não pode deixar de sentir a angústia de que fala.
Muito obrigada pelo esclarecimento que veicula no seu comentário,
MHDamião

OS PRÓXIMOS CULPADOS SERÃO OS ALUNOS

"Como vou confiar num ministro da educação que descredibiliza os meus professores e que não entrega os meus resultados? (…) As nossas n...