domingo, 14 de junho de 2026

" [P] de PROFESSOR"

Por regra, naquilo que escrevo, não recorro a acontecimentos ou apontamentos pessoais sobretudo se envolvem terceiros, mas neste caso julgo que se justifica.

M., futura professora, apresentava-me uma versão ainda provisória do seu trabalho de final de semestre. Li: "a pessoa docente"... Na dúvida, perguntei-lhe: "quer referir-se ao professor-pessoa para o distinguir do professor-máquina? Estas categorias são-me (intoleravelmente) familiares, não concebo designar um mecanismo por professor. Mas não, não era por isso; era por uma questão de "linguagem inclusiva". 

Poucos dias passados, ouvi uma colega (professora de Latim, Grego e Português) levantar a voz na conversa que estava a ter com um estudante, que também será professor: "pessoa aluno"?! Porquê? Porque faz parte da "linguagem inclusiva". Seguiu-se a explicação gramatical, claro... 

No mesmo dia ou no dia seguinte, recebemos, na nossa caixa de correio oficial, um email no qual surgia duas vezes a expressão "pessoas estudantes" e três vezes a expressão "pessoas docentes".

Gostando eu da palavras professor e professora, no singular, de professores e professoras, no plural, e achando que não vem mal ao mundo quando se usa professores para designar o conjunto de homens e mulheres, fui saber se elas passaram a ser "desincentivadas". Perdi-me em recomendações, orientações, pareceres da UNESCO, do Conselho da Europa, do Conselho de Ministros, da Administração Pública, de Universidades, de Centros de Investigação, de Autarquias...

Vi, por exemplo, que a minha universidade está alinhada com o Conselho Económico e Social (aqui e aqui) (e, por certo, com outras entidades) no afastamento dessas palavras:

"Para neutralizar o colectivo, em vez de professores deve usar-se docentes; corpo docente. 
E em vez de alunos, deve usar-se discentes."

Mas, elas são aceites num manual de linguagem inclusiva, editado por entidades oficiais (ver aqui):

"Para evitar o uso do masculino genérico, podemos utilizar as seguintes estratégias: 
- Usar a forma feminina e masculina de forma alternada: “Os professores e as professoras devem estar preparados e preparadas para responder a todas as perguntas”;
- Usar a forma dupla: “Os/as professores/as devem estar preparados/as para responder a todas as perguntas”;
- Usar expressões inclusivas: “Todas as pessoas que ensinam devem estar preparadas para responder a todas as perguntas”. 

Certo é que em nenhum documento que consultei (e consultei muitos) vi a expressão pessoa docente, ainda que neste último que citei seja admitida a expressão pessoa que ensina.

Aqui tenho de deixar duas notas sobre a última sugestão, as quais pendem para outras discussões, que omito:

- A palavra ensino,tem desaparecido do vocabulário pedagógico; o professor orienta, guia, inspira... Dizer-se que o professor ensina será quase uma heresia;
- Ninguém, absolutamente ninguém, seja designado por professor/a, professor e professora, docente, pessoa que ensina, pessoa docente, ou o que se entender, "está preparado para responder a todas as perguntas”. Acontece que essa margem de impreparação é uma das belezas de se ser professor.

E uma terceira nota, percebi que a discussão sobre o uso de barras ou de parêntesis para escrever palavras que remetem, em simultâneo, para o masculino e para o feminino não é de somenos relevância (ver aqui).

Enfim, o que quero dizer é o seguinte: afinal, as propostas de linguagem inclusiva, e refiro-me apenas e só à designação do professor, de consensual pouco têm. Não é que estivesse a pensar mudar o modo de designar a minha profissão, mas este é um argumento poderoso para poder defender o que penso.

E, nesta efabulação, lembrei-me de Jorge Larrosa e do seu belo livro [P] de PROFESSOR. Diz ele em entrevistas:

"Estou lendo alguns professores universitários que discutem o que quer dizer ser professor hoje em dia e que experimentam, como eu, certo mal estar com os novos rumos da universidade" (ver aqui):

O "ofício do professor, portanto, consiste em ser um verdadeiro professor, um professor de 'verdade', alguém que merece ser chamado de professor, isso que o constitui e o institui como professor, isso que faz um professor no exercício mesmo de ser professor. Deste ponto de vista, o ofício supõe uma inseparabilidade entre o que se faz e o que se é (...) às vezes, para ser um verdadeiro professor não resta outra saída que não cumprir as normas que se sobrepõem ao ofício e que, nesta nossa época, que nos toca viver, falsificam-no. O que está acontecendo é que cada vez há menos gente que seja capaz de perceber a diferença, de distinguir, entre um verdadeiro professor e um professor de mentira (ver aqui).

2 comentários:

Mário R. Gonçalves disse...

-Então, que tal a nova pessoa docente, guia bem?
- Quê? Sei lá se guia bem , nem sei se anda de carro
- Não é isso, orienta bem as pessoas-aluno?
- Pai! Fala português! Não percebo nada do que dizes. Vê se traduzes.
- Ó descendente, o professor ensina bem?
- Aaaah! Sim, mas não é professor, é professora. Descendente? Estou a descer em què?
- Filha, filha, pronto. Então...aaaa ...ensina bem?
- Ensina, mas às vezes fala esquisito como tu. Como é que queres que te chame?
- Pessoa ... (ascendente não, vejamos) pessoa progenitora. Pode ser?
- Olha, vai mas é à m....
- Vou... olha, não sei uma maneira correcta de dizer isso. Talvez merdo(a).

Anónimo disse...

Brilhante!

OS PRÓXIMOS CULPADOS SERÃO OS ALUNOS

"Como vou confiar num ministro da educação que descredibiliza os meus professores e que não entrega os meus resultados? (…) As nossas n...