sexta-feira, 22 de março de 2019
As penalizações extravagantes por reformas antecipadas
Destaco esta carta de um leitor publicada hoje no Público. Concordo em absoluto. Coloca para ilustração um gráfico que também saiu no Publico on-line e que mostra a "diferença portuguesa". Portugal é europeu? Ainda falta, infelizmente, muito.
Reforma antecipada
Li no site do PÚBLICO que a “OCDE defende mudanças no factor que penaliza “excessivamente pensões antecipadas”. Nada mais correcto. Trabalho há 47 anos e ainda me penalizam perto de 30% se me reformar agora. Assim, espero que a comunicação constante do Governo sobre a boa saúde das nossas finanças se foque nesta área. Considero da mais elementar injustiça determinados factores penalizantes nas actuais reformas antecipadas.
Gens Ramos, Porto
Reforma antecipada
Li no site do PÚBLICO que a “OCDE defende mudanças no factor que penaliza “excessivamente pensões antecipadas”. Nada mais correcto. Trabalho há 47 anos e ainda me penalizam perto de 30% se me reformar agora. Assim, espero que a comunicação constante do Governo sobre a boa saúde das nossas finanças se foque nesta área. Considero da mais elementar injustiça determinados factores penalizantes nas actuais reformas antecipadas.
Gens Ramos, Porto
O fim do liberalismo
Extracto da Introdução de "Por que está a falhar o liberalismo?" de Patrick J. Deneen, que acaba de sair na Gradiva:
Uma filosofia política concebida há 500 anos e implementada com o nascimento dos Estados Unidos há quase 250 anos propunha que a sociedade política poderia assentar numa base diferente. Concebia os seres humanos como indivíduos detentores de direitos que podiam criar e perseguir a sua própria versão da vida boa. As oportunidades de liberdade eram mais proporcionadas por um governo limitado dedicado à «garantia dos direitos», com um sistema económico de mercado livre que dava espaço para a iniciativa e a ambição pessoais. A legitimidade política assentava numa crença partilhada num «contrato social» original que até os recém-chegados podiam subscrever, continuamente ratificado por eleições livres e justas de representantes atentos. O governo limitado, mas eficaz, o Estado de direito, um poder judicial independente, funcionários públicos atentos e eleições livres e justas eram algumas das marcas distintivas desta ordem predominante e visivelmente bem-sucedida.
Hoje, cerca de 70 por cento dos Americanos acreditam que o seu país está a mover-se na direcção errada, e metade do país pensa que os seus melhores dias já passaram. A maioria pensa que os seus filhos serão menos prósperos e terão menos oportunidades do que as gerações anteriores. Todas as instituições do governo mostram um declínio dos níveis de confiança pública dos cidadãos e o cinismo profundo em relação à política reflecte-se numa revolta em todos os pontos do espectro político contra as elites políticas e económicas. As eleições, outrora vistas como um processo bem orquestrado para conferir legitimidade à democracia liberal, são cada vez mais vistas como prova de um sistema profundamente viciado e corrupto. É para todos evidente que o sistema político está em ruptura e que o tecido social está esgarçado, em particular quando se alarga cada vez mais o fosso entre os ricos e os pobres abandonados, quando há uma divisão cada vez maior entre os fiéis e os seculares e persiste um desacordo profundo sobre o papel da América no mundo. Os americanos ricos continuam a viver em enclaves murados em cidades privilegiadas, enquanto cada vez mais cristãos comparam o nosso tempo ao do fim do Império Romano e ponderam uma retirada fundamental da sociedade americana geral para formas actualizadas de comunidades monásticas beneditinas. Os sinais dos tempos sugerem que há muita coisa que está errada na América. Um coro crescente de vozes até adverte que podemos estar a testemunhar o fim da República actual, com um regime ainda sem nome a ocupar o seu lugar.
Quase todas as promessas feitas pelos arquitectos e criadores do liberalismo foram quebradas. O Estado liberal expande-se e controla quase todos os aspectos da vida, enquanto os cidadãos vêem o governo como um poder distante e incontrolável, um governo que lhes aumenta o sentimento de impotência ao avançar irredutivelmente com o projecto de «globalização». Os únicos direitos que hoje parecem garantidos pertencem aos que têm riqueza e posição suficientes para os protegerem, e a sua autonomia — incluindo direitos de propriedade, o direito de voto e o seu controlo concomitante sobre as instituições representativas, a liberdade religiosa, a liberdade de expressão e a segurança na própria residência — é cada vez mais comprometida pela intenção jurídica ou pelo facto consumado tecnológico. A economia favorece uma nova «meritocracia» que perpetua as suas vantagens pela sucessão geracional, reforçada por um sistema educativo que, inexoravelmente, separa os ganhadores dos perdedores. O fosso cada vez maior entre as alegações do liberalismo e a sua realidade lança mais dúvidas sobre essas alegações do que engendra confiança de que o fosso será estreitado.
O liberalismo falhou — não por ter ficado aquém, mas porque foi fiel a si próprio. Falhou porque foi bem-sucedido. Quando o liberalismo se «tornou mais ele próprio», quando a sua lógica e as suas contradições internas se tornaram mais evidentes, gerou patologias que são, em simultâneo, deformações das suas alegações e realizações da ideologia liberal. Uma filosofia política que foi lançada para promover maior igualdade, defender um tecido pluralista de diferentes culturas e crenças, proteger a dignidade humana e, obviamente, expandir a liberdade gera, na prática, uma desigualdade gigantesca, impõe a uniformidade e a homogeneidade, promove a degradação material e espiritual e compromete a liberdade. O seu sucesso pode ser avaliado pela realização do oposto daquilo que se acreditava que iria realizar. Em vez de vermos a catástrofe crescente como indício do nosso fracasso em estar à altura dos ideais do liberalismo, devemos ver claramente que as ruínas que produziu são os sinais do seu próprio sucesso. Tentar curar os males do liberalismo aplicando mais medidas liberais é o mesmo que deitar achas para a fogueira. Só aprofundará a nossa crise política, social, económica e moral.
Este pode ser o momento para mais do que meros remendos institucionais. Se, na verdade, estiver a ocorrer algo de mais fundamental e transformativo do que «política normal», então não estamos apenas no meio de um realinhamento político, caracterizado pelo último estertor de uma velha classe trabalhadora branca e pela fúria de uma juventude afogada em dívidas. Podemos, ao invés, estar a testemunhar um fracasso sistémico crescente, devido à falência da sua filosofia política subjacente, do sistema político que, de uma forma geral, tomámos como garantido. O tecido das crenças que deram origem à experiência constitucional americana de quase 250 anos pode estar a chegar ao fim. Embora alguns dos Pais Fundadores acreditassem ter criado uma «nova ciência da política» que resistiria à tendência inevitável de todos os regimes para a decadência e morte eventual — chegando a comparar a ordem constitucional com um mecanismo de movimento perpétuo à prova da entropia, «uma máquina que se moveria por si mesma» —, deveríamos pensar se a América, em vez de estar nos primeiros tempos da sua vida eterna, não estará a aproximar-se do fim do ciclo natural de corrupção e declínio que limita o tempo de vida de todas as criações humanas. 2
Para os americanos modernos, esta filosofia política tem sido como água para os peixes: um ecossistema político englobante no qual nadavam, sem darem conta da sua existência. O liberalismo é a primeira das três grandes ideologias políticas do mundo moderno, e, com o fim do fascismo e do comunismo, é a única ideologia que ainda se pode dizer viável. Como ideologia, o liberalismo foi a primeira arquitectura política que propôs transformar todos os aspectos da vida para se conformar a um plano político preconcebido. Vivemos numa sociedade e num mundo cada vez mais refeitos à imagem de uma ideologia — os Estados Unidos foram a primeira nação fundada pela adesão explícita à filosofia liberal, cuja cidadania está quase totalmente modelada pelos seus compromissos e pela sua visão.
No entanto, ao contrário dos regimes claramente autoritários que surgiram baseados nas ideologias do fascismo e do comunismo, o liberalismo é menos visivelmente ideológico e só de forma sub-reptícia refaz o mundo à sua imagem. Em comparação com as ideologias concorrentes, mais cruéis, o liberalismo é mais insidioso: como ideologia, finge-se neutral, não advoga preferências e nega qualquer intenção de moldar as vidas de quem está sob o seu domínio. Insinua-se apelando às liberdades fáceis, às diversões, às atracções da liberdade, do prazer e da riqueza. Faz-se invisível, como um sistema operativo de computador, que passa praticamente despercebido — até ir abaixo. O liberalismo é agora mais visível porque as suas deformações se tornaram demasiado óbvias para serem ignoradas. Como Sócrates nos diz em A República de Platão, a maioria dos seres humanos, quase em toda a parte, está numa caverna, julgando que vê a realidade. O elemento mais insidioso sobre a caverna em que nos encontramos é o facto de as suas paredes serem como os cenários dos filmes antigos, que sugerem vistas aparentemente infindáveis, sem obstáculos ou limites; deste modo, o nosso confinamento continua a ser invisível para nós.
Das leis de ferro da política, poucas parecem mais inquebráveis do que a definitiva insustentabilidade da ideologia na política. A ideologia falha por duas razões: em primeiro lugar, porque se baseia em falsidades sobre a natureza humana e, por isso, só pode falhar; em segundo, porque, quando essas falsidades se tornam mais evidentes, aumenta o fosso entre aquilo que a ideologia diz e a experiência vivida dos seres humanos sob o seu domínio, até o regime perder a legitimidade. Ou impõe a conformidade a uma mentira que se esforça por defender, ou colapsa quando o desfasamento entre as afirmações e a realidade resulta numa perda total de crença por parte dos cidadãos. Com frequência, uma razão precede a outra.
Assim, mesmo depois de o liberalismo ter penetrado em quase todas as nações do mundo, a sua visão de liberdade humana parece ser cada vez mais uma afronta do que uma promessa. Longe de celebrar a liberdade utópica no «fim da história» que parecia estar ao alcance após a queda da última ideologia concorrente em 1989, a humanidade fortemente moldada pelo liberalismo sofre hoje as misérias dos seus sucessos. De forma generalizada, vê-se apanhada numa armadilha que ela própria criou, presa no mesmo aparelho que, supostamente, lhe deveria dar uma liberdade pura e completa.
Podemos ver isto hoje em especial em quatro áreas distintas, mas interligadas, da nossa vida comum: política e governo, economia, educação e ciência e tecnologia. Em cada um destes campos, o liberalismo transformou as instituições humanas em nome da expansão da liberdade e do aumento do nosso domínio e controlo sobre os nossos destinos. E, em cada caso, surgiu uma fúria generalizada e um descontentamento profundo da percepção cada vez maior de que os veículos da nossa libertação se transformaram em celas de ferro do nosso cativeiro.
(...)
Patrick J. Deneen
quinta-feira, 21 de março de 2019
PRIMEIROS TEXTOS SOBRE HISTÓRIA E PRÉ-HISTÓRIA
Convidamos para o lançamento do volume dedicado aos primeiros textos de pré-história, história e heráldica da coleção Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa.
Esta sessão terá lugar na Sala de Atos da Universidade Aberta (Rua da Escola Politécnica, n.º 141-147), no dia 26 de março de 2019, pelas 18.00h.
O livro será apresentado por Nuno Bicho e Carlos Fabião, contando com a presença do coordenador do volume, João Luís Cardoso, e dos diretores da coleção, José Eduardo Franco e Carlos Fiolhais.
NOVOS LIVROS DA GRADIVA
Informação recebida da Gradiva sobre os livros publicados em Março de 2019, à venda a partir de dia 22 de Março.
Patrick J. Deneen
Porque Está a Falhar o Liberalismo?
Porque Está a Falhar o Liberalismo?
Leitura imperativa para quem se preocupe com as crescentes fragilidades que ameaçam o liberalismo. Mesmo e porventura sobretudo para os liberais, para quem não subscreva a conclusão última do Autor, que pensa que «os males que afectam a sociedade liberal não podem ser resolvidos com a realização do liberalismo». É um livro raro, porque não é uma crítica marxista ou neoliberalista, vinda dos extremos políticos da esquerda e da direita. É uma crítica menos comum, numa perspectiva tradicionalista humanista. O seu valor maior é seguramente ser o inventário, o levantamento rigoroso, fundamentado, do que ameaça hoje os ideais e as realizações mais estimáveis das sociedades liberais. Partindo da evidência histórica de que o sistema desaba quando o fosso entre o ideal e a sua realização é demasiado grande, J. Deneen sustenta que o liberalismo terá sido vítima do seu próprio sucesso.
Patrick
J. Deneen é Professor de Ciências Políticas na Universidade de Notre
Dame, nos Estados Unidos. É autor de várias obras sobre política
contemporânea.
«Trajectos», 208 pp., € 17,50
https://www.gradiva.pt/catalogo/46057/porque-esta-a-falhar-o-liberalismo?
https://www.gradiva.pt/catalogo/46057/porque-esta-a-falhar-o-liberalismo?
Jacinto Jardim e José Eduardo Franco (dir.)
Empreendipédia - Dicionário de Educação para o Empreendedorismo
Empreendipédia - Dicionário de Educação para o Empreendedorismo
Nesta vasta e abrangente obra põe‑se ao alcance de um público alargado os conceitos, os modelos teóricos, as estratégias pedagógicas, as competências e as teorias que formam o corpus actual
das ciências do empreendedorismo. Sendo o primeiro dicionário
enciclopédico do género em Portugal, é sem dúvida de uma utilidade
singular, tanto para estudantes como para os empreendedores e aspirantes a sê‑lo. Um guia competente e exaustivo.
«Fora de Colecção», 800 pp., € 40,00
https://www.gradiva.pt/catalogo/46066/empreendipedia
António Carlos Cortez
Voltar a Ler
Voltar a Ler
A poesia portuguesa moderna e contemporânea, os ensaístas portugueses, a educação e outros temas de cultura, integram este livro dirigido a professores e pais, mas também aos que querem aceder a conhecimento sobre os referidos temas. O autor, com vários livros publicados, professor no Colégio Moderno, agita as águas e propõe um sério convite ao debate, enfrentando ideias feitas.
Jasmine Guillory
Um Elevador Chamado Desejo
Um Elevador Chamado Desejo
Uns
minutos presos no elevador mudam a vida de Alexa Monroe e Drew Nichols.
Sem nunca se terem visto, ele convida‑a para o acompanhar num casamento
naquele fim‑de‑semana. Estranhamente, ela aceita. Na festa, ambos se
divertem mais do que antecipavam, mas chega rápido o tempo de
regressarem às suas vidas exigentes, distantes. O problema é continuarem
a pensar um no outro. Um romance sedutor e bem‑humorado.
«Fora de Colecção», 368 pp., € 17,70
Riad Sattouf
O Diário de Esther (vol. 2)
O Diário de Esther (vol. 2)
Esther é uma criança inteligente e observadora. Comenta e enfrenta um quotidiano que é também o das nossas famílias, escolas, actualidade social. Um livro obrigatório também para os adultos, pais e professores. Do mesmo autor de O ÁRABE DO FUTURO, as tiras de O Diário de Esther foram publicadas semanalmente no Le Nouvelle Observateur.
«Fora de Colecção», 56 pp., € 11,00
https://www.gradiva.pt/catalogo/46074/o-diario-de-esther
A ORIGEM LUSO-BRASILEIRA DO LÍTIO
Meu artigo no último Das Artes entre as Letras (na figura José Bonifácio de Andrada e Silva):
Está a ser
celebrado em todo o mundo o Ano Internacional da Tabela Periódica, tomando
como pretexto os 150 anos do seu aparecimento, que se deveu ao químico russo
Dmitri Mendeleiev (1834-1907).
Portugal teve
um papel histórico na descoberta do terceiro elemento da Tabela Periódica, o
lítio. De facto, esse elemento químico, que aparece na Tabela logo após o
hidrogénio e do hélio, foi identificado pelo químico sueco Johan August
Arfwedson (1792-1841) no ano de 1817, no laboratório em Estocolmo de um outro
químico sueco, Jöns Jacob Berzelius (1779-1848), analisando um mineral chamado petalita,
que tinha sido encontrado em 1800 pelo químico luso-brasileiro José Bonifácio
de Andrada e Silva (1763-1838) numa mina na pequena ilha de Utö, na Suécia, no
arquipélago de Estocolmo. A petalita ou petalite é um aluminosilicato de lítio,
cuja fórmula química se escreve LiAlSi4O10.
José
Bonifácio, cientista polifacetado (químico, mineralogista e metalurgista), foi
primeiro aluno e depois professor da Universidade de Coimbra. Formou-se na nova faculdade de Filosofia, estabelecida após a Reforma
Pombalina da Universidade de Coimbra em 1772 em Filosofia Natural e
Direito Canónico, em 1787 e em 1788 respectivamente (não há muitos cientistas
naturais que concluíram um curso de Direito!). Após
estudar em Coimbra, iniciou em 1790 uma campanha de viagens na Europa. Beneficiou
de estadas em bons centros científicos da Europa, que duraram até 1800. Durante
este período visitou alguns dos melhores institutos da França, Itália,
Alemanha, Dinamarca, Holanda, Suécia, Grã-Bretanha, etc. Em Paris teve por
mestres de Química dois continuadores de Lavoisier – Jean-Antoine Chaptal (1756-1832)
e Antoine François de Fourcroy (1755 – 1809). Foi discípulo de René Just Haüy
(1743-1822), o fundador da Mineralogia em França. Os seus conhecimentos em
Metalurgia foram aprofundados sob a orientação de Baltazhar-Georges Sage
(1740-1824), director da Escola de Minas de Paris. Na Escola de Minas de
Freiburg foi discípulo do alemão Abraham Gottlob Werner (1749-1817). Nessa
mesma escola, foi colega do naturalista Alexander von Humboldt (1769-1859),
irmão do filósofo Wilhelm. (1767-1835).
José Bonifácio anunciou
a descoberta de doze novos minerais num artigo do Allgemeines Journal der
Chemie (1800) de Leipzig. Entre esses minerais estavam a petalita e o
espodumeno, os dois aluminossilicatos de lítio. O artigo tinha por título
(traduzido para português): Exposição sucinta das características e
das propriedades de vários minerais novos da Suécia e da Noruega... A
importância deste trabalho justificou a sua publicação, em inglês, no Journal
of Natural Phylosophy, Chemistry and the Arts (1801) e, em francês,
no Journal de Physique, de Chimie, d’Histoire Naturelle et des Arts (1800).
Foi a partir precisamente deste mineral encontrado na ilha de Utö e dos
trabalhos de José Bonifácio que Arfwedson identificou o novo elemento, que veio a ocupar
a terceira casa da Tabela Periódica, ao qual Berzelius deu o nome de lítio, do
grego lithos (pedra). No ano seguinte, um outro grande químico, o inglês
Sir Humphry Davy (1778 – 1829), aplicou a recente técnica da electrólise,
desenvolvida por ele próprio, para isolar o lítio.
Após uma década plena
de actividade científica por toda a Europa, José Bonifácio regressou a Coimbra,
dedicando-se a trabalhos de campo e ao ensino da Metalurgia (foi criada para
ele uma cadeira com esse nome na Universidade de Coimbra). Participou como professor em 1808 nas Invasões Francesas,
na defesa de Coimbra e do país, como membro do Batalhão Académico). Para além da sua actividade docente,
foi Intendente Geral de Minas e Metais do Reino. Administrou também as minas de
carvão de Buarcos, no Cabo Mondego, Figueira da Foz, e de S. Pedro da Cova,
Gondomar, e das Reais Ferrarias da Foz de Alge, um afluente do Zêzere. Foi
Director do Laboratório de Docimasia da Casa da Moeda em Lisboa, onde se
determinava a proporção de metais nos minérios. Foi ainda da sua responsabilidade
a criação de um laboratório de apoio de prospectores mineiros.
Realizou
experiências de fundição de metais no Laboratorio
Chimico, onde hoje é o Museu da Ciência da Universidade de Coimbra. Revelou‑se
preponderante no uso de um forno, descoberto na obra de restauro daquele laboratório.
Foi José Bonifácio quem usou pela primeira
vez entre nós a palavra “tecnologia”. E foi também ele quem pode ser
considerado pioneiro da ecologia em Portugal, quando escreveu um livro sobre a
plantação de árvores no Reino (saiu recentemente nas Obras Puioneiras da Cultura portuguesa). Foi membro das Academias de Estocolmo,
Copenhaga, e Turim, da Sociedade dos Investigadores da Natureza de Berlim, das
Sociedades de História Natural e Filomática de Paris, da Sociedade Geológica de
Londres, Werneriana de Edimburgo, Mineralógica e Lineana de Jena, Filosófica de
Filadélfia, etc. Foi ainda membro da Academia Imperial de Medicina do Rio de
Janeiro. Finalmente, José Bonifácio, que foi também
poeta, ficou conhecido na história brasileira, pela sua intervenção no processo
da independência do Brasil, ocorrida em 1822.
O elemento lítio,
que ultimamente ganhou renovado interesse pela possibilidade da sua utilização
em baterias, tem ainda uma outra ligação – esta actual – ao nosso país. Com
efeito, Portugal é o sexto maior país
produtor de lítio em todo o mundo, existindo reservas que oferecem o potencial
para exploração. Eis pois como um elemento, cujo mineral-mãe foi descoberto por
um português em prospecção na Suécia, tem afinal entre nós jazidas onde pode
ser encontrado. Não era preciso José Bonifácio ter ido tão longe…
"VISÃO, OLHOS E CRENÇAS"
No seu recente livro Visão, Olhos e Crenças, saído na
colecção “Ciência Aberta” da Gradiva, o professor de Física da Universidade do Porto
Luís Miguel Bernardo ensaia uma combinação entre física, medicina, história e
etnologia. Começando por abordar a visão nos animais e nos seres humanos, foca
a seguir nos olhos, adoptando a perspectiva histórica, para no final tratar dos
mitos, lendas e superstições que proliferam a respeito da visão e dos olhos. Os
interessados pela biologia poderão conhecer a diversidade dos sistemas de visão
no reino animal, incluindo o espantoso camarão louva-a-deus, que possui um dos
mais desenvolvidos sentidos cromáticos do mundo vivo. Os apreciadores da história
da ciência seguirão com prazer a evolução das ideias sobre o funcionamento da
visão e dos olhos. Finalmente, aqueles que apreciam a fantasia e a
religiosidade, poderão aprender histórias do mau-olhado, o mal provocado\ por
bruxas e feiticeiras com um simples olhar.
Para os médicos será particularmente
interessante a apresentação da vida e obra de alguns médicos portugueses que
trataram os olhos, designadamente a meia dúzia que alcançou fama internacional.
O primeiro e talvez o maior de todos foi Pedro Hispano, que, sob o nome de João
XXI, foi eleito papa, até hoje o único papa português. Ele escreveu no século
XIII o Tractatus de Oculis, onde descreve
o olho humano e aborda várias doenças oftalmológicas assim como o seu
tratamento. Consta que, mais tarde, o pintor Miguel Ângelo teria tratado uma doença
dos olhos com uma receita do papa lusitano. Para o único Nobel português em ciência,
Egas Moniz, este seria “um dos primeiros tratados de oftalmologia escritos no
mundo”. No século XVII, pontificou o médico Filipe Montalto, um judeu natural
de Castelo Branco tal como outro grande médico judeu, Amato Lusitano. Tendo
vivido exilado em vários sítios da Europa, publicou em Florença o Optica intra philosophiæ & Medicinæream (1606), onde
apresenta a fisiologia do olho ligando-a às teorias da óptica, isto é, combinando
a medicina com a física imediatamente antes do auge da Revolução Científica
(antecede, por exemplo, Descartes, que também tratou os olhos a óptica).
Montalto recebeu merecida atenção tanto dos seus contemporâneos. Um outro tratado
notável de oftalmologia, Elementos de
Cirurgia Ocular (1793) teve por autor o médico Joaquim José de Santana, que
trabalhou no Hospital de S. José, quando este, após o grande terramoto, sucedeu
ao Hospital de Todos os Santos. Merece relevo nos séculos XIX e XX o médico
António Plácido da Costa, que foi professor primeiro na Escola Médico-Cirúrgica
no Porto e depois na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. Inventou o
queratoscópio, um disco útil para o exame da córnea. Um médico da Sorbonne pretendeu
a prioridade desse invento, mas Ricardo Jorge surgiu a defender o seu colega.
Em Lisboa destacou-se como médico e cirurgião também em finais do século XIX e inícios
do século XX o médico de origem indiana Caetano Gama Pinto, cujo nome foi dado
a uma rua perto do Hospital de Santa Maria em Lisboa. O livro de Luís Miguel Bernardo
chega até à actualidade com as referências que faz ao médico da Universidade de
Coimbra José Cunha Vaz, premiado internacionalmente pelos seus trabalhos sobre
a retinopatia diabética, e aos prémios na área da visão da Fundação Champalimaud,
que são os maiores em todo o mundo.
Em suma, um livro que, a
propósito da visão e dos olhos, mostra as ligações entre ciência e sociedade de
uma maneira muito original. Bons olhos o leiam!
“POÇÕES E PAIXÕES”
O Elixir do Amor, ópera cómica em dois actos do italiano Gaetano
Donizetti, estreada em 1832 em Milão, é um exemplo das muitas conexões que
podemos encontrar entre a química e a ópera. Um médico aldrabão, o Dr.
Dulcamara (“doutor enciclopédico”) recomenda um licor que faz milagres, curando
uma variedade de doenças, desde a impotência sexual à asma. O nome do médico, que significa “doce e
amargo,” coincide com o de uma planta da família da beladona e da mandrágora. Um
camponês apaixonado (o tenor) solicita a bebida ao falso médico (baixo) a fim de
conquistar a sua amada, uma rica proprietária (soprano). O líquido não é mais
do que vinho de Bordéus, mas circunstâncias fortuitas fazem com que surta o
pretendido efeito e, como convém a um bom final, o amor triunfe.
Esta história evoca uma outra,
medieval e lendária, da paixão entre o cavaleiro Tristão e a princesa Isolda.
Os dois bebem uma poção mágica que os vai unir, apesar de Isolda estar
prometida a outro. O enredo é trágico em vez de cómico pois Tristão acaba por
morrer, ferido por uma lança, e Isolda morre a seguir, ferida de tristeza. O
tema serviu ao alemão Richard Wagner para escrever uma das óperas mais famosas
do seu reportório, Tristão e Isolda,
em três actos, que estreou em 1865 em Munique. Segundo o médico alemão Gunther
Weitz, que publicou em 2003 sobre o assunto um artigo no British Medical Journal, os sintomas de Tristão e Isolda são
típicos de drogas como alguns alcaloides presentes na família das solanáceas, precisamente
aquela a que pertence a dulcamara. Os sintomas da intoxicação, descritos no
libreto, são inequívocos. Quer dizer, pode-se fazer um diagnóstico médico com
base num texto cantado.
Tudo isto e muito mais e encontra
no livro do João Paulo André, professor de Química na Universidade do Minho e apaixonado da
ópera, no livro intitulado Poções e Paixões
e subintitulado Química e Ópera, que
é o número 225 da colecção “Ciência Aberta” da Gradiva. Com extraordinária
erudição e num estilo cativante, o autor conduz-nos numa viagem ao mundo da
ópera. Ao lê-lo ficamos a perceber que a ópera, o chamado espectáculo total, é
muito mais do que “histórias em que o barítono ama o soprano, que ama o tenor”.
A obra, ricamente ilustrada, é uma tentativa bem-sucedida de junção das duas
culturas, a cultura científica e a cultura artística.
Ficamos, logo no início do livro,
a saber que a ópera começou em 1597, em Florença com a representação de Dafne, do italiano Jacopo Peri, membro
da Camerata Fiorentina. Não deixa de ser curioso notar que a esse grupo tenha
pertencido Vincenzo Galilei, tocador de alaúde e teórico da música, que foi pai
do físico Galileu Galilei, que também tocava esse instrumento. Portanto, a ópera
começou praticamente ao mesmo tempo que a ciência moderna. Arte e ciência estão mais ligadas do que se julga… A
Química, como bem assinala João Paulo André, é mais recente: só começou em
1789, o ano da Revolução Francesa, com a publicação do Tratado Elementar de Química, do francês Antoine-Laurent Lavoisier.
O ECLIPSE QUE TORNOU EINSTEIN FAMOSO
O Eclipse Solar de 1919: as expedições científicas e as observações feitas em Sobral
O
Prof. Doutor Ildeu Moreira, Presidente da Sociedade Brasileira para o
Progresso da Ciência, irá apresentar uma palestra dia 2 de abril, pelas
18h00, no Rómulo de Carvalho - Centro de Ciência Viva da UC,
Departamento de Física, para a qual muito gostaríamos de poder contar
com a vossa presença.
Neste ano se comemora em todo o mundo o centenário das observações astronômicas feitas no eclipse solar de 29 de maio de 1919. As medidas da deflexão da luz das estrelas na borda do Sol constituíram uma confirmação importante da Teoria da Relatividade Geral de Einstein. As observações decisivas foram feitas por astrônomos britânicos em Sobral e na Ilha do Príncipe. Nesta palestra discutiremos a primeira tentativa feita no Brasil, em 1912, para se medir este efeito durante um eclipse solar. Depois comentaremos sobre os preparativos, feitos em Sobral, para a observação do eclipse pelas comissões britânica, brasileira - que fez observações sobre a corona solar - e norte-americana - que realizou medidas do magnetismo terrestre e de eletricidade atmosférica. Em seguida, analisaremos como ocorreram as observações em Sobral, no dia 29 de maio, e os resultados referentes à deflexão da luz da luz obtidos pela comissão britânica e anunciados em novembro de 1919. Finalizaremos com uma discussão sobre a repercussão destes resultados no Brasil para a aceitação de Teoria da Relatividade Geral e para o reconhecimento de Einstein como cientista. Quando esteve no Rio de Janeiro, em 1925, Einstein escreveu a seguinte frase para os jornais: “O problema concebido pelo meu cérebro incumbiu-se de resolvê-lo o luminoso céu do Brasil.”
Ildeu de Castro Moreira
Instituto de Física - UFRJ
Genética para Todos: De Mendel à Revolução Genómica do Século XXI
Hoje quinta-feira, dia 21 de Março, às 18h, realiza-se no RÓMULO - Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra, a apresentação do livro "Genética para Todos: De Mendel à Revolução Genómica do Século XXI: a prática, a ética, as leis e a sociedade" da autoria de Heloísa G. Santos e André Dias Pereira, publicado pela editora Gradiva em Janeiro de 2019.
A sessão de apresentação contará com as intervenções do Professor Carlos Fiolhais (Departamento de Física da FCTUC e Director do Rómulo), do Professor Francisco Corte Real (Presidente do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses e Professor da Faculdade de Medicina da UC) e do Professor Luís Almeida (Faculdade de Farmácia da UC e Investigador do Centro de Neurociências e Biologia Celular UC). No fim, haverá sessão de autógrafos.
ENTRADA LIVRE
SINOPSE DO LIVRO:
Poderemos compreender as principais potencialidades e limitações dos conhecimentos hoje adquiridos em Genética Humana?
O que é o ADN? O que são testes genéticos? E testes genómicos?
Podemos alterar os nossos genes e os do nosso bebé?
Poderemos contar com medicamentos personalizados e um sistema público de saúde que, com base no conhecimento das características do genoma de cada um e recurso a algoritmos, nos irá proporcionar uma medicina de total rigor e precisão?
Qual será o preço social e humano que poderemos ter de pagar por estas mudanças tão radicais?
Que papel desempenham, neste contexto, a ética e o direito?
No nosso país, são escassas as publicações que procuram dar resposta a estas questões candentes no contexto da actual 4.ª Revolução Industrial. Na esperança de ajudarem a suprir essa lacuna, os autores convidam o leitor a acompanhá-los numa fascinante viagem, desde a descoberta das células e dos cromossomas até às mais recentes inovações na área da genética humana.
O que é o ADN? O que são testes genéticos? E testes genómicos?
Podemos alterar os nossos genes e os do nosso bebé?
Poderemos contar com medicamentos personalizados e um sistema público de saúde que, com base no conhecimento das características do genoma de cada um e recurso a algoritmos, nos irá proporcionar uma medicina de total rigor e precisão?
Qual será o preço social e humano que poderemos ter de pagar por estas mudanças tão radicais?
Que papel desempenham, neste contexto, a ética e o direito?
No nosso país, são escassas as publicações que procuram dar resposta a estas questões candentes no contexto da actual 4.ª Revolução Industrial. Na esperança de ajudarem a suprir essa lacuna, os autores convidam o leitor a acompanhá-los numa fascinante viagem, desde a descoberta das células e dos cromossomas até às mais recentes inovações na área da genética humana.
NOVA ATLANTIS
A revista
“Atlantís” acaba de publicar o seu último número (em acesso aberto).
Convidamos a consultar o sumário da revista para aceder à informação.
Imprensa da Universidade de Coimbra
Atlantís - review
v. 26 (2019)Sumário
http://impactum-journals.uc.pt/atlantis/issue/view/358
[Recensão a] ALVAR, Jaime, Los Cultos Egipcios en Hispania, Besançon, Presses Universitaires de France-Comté, 2012, 192 pp. ISBN: 978-2-84867-418-6.
Nídia Catorze Santos
[Recensão a] CÂNDIDO, Maria Regina (org.), Mulheres na Antiguidade, Rio de Janeiro, Núcleo de Estudos da Antiguidade - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2012, 368 pp. ISBN 978-85-60538-08-9.
Maria Fernandes
[Recensão a] PINHEIRO, Marília P. Futre, BIERL, Anton et BECK, Roger (eds.), Intende, Lector. Echoes of Myth, Religion and Ritual in the Ancient Novel, Boston, Walter de Gruyter GmbH, 2013, 319 pp. ISBN: 978-3-11-031181-5.
Nuno Simões Rodrigues
[Recensão a], GALGANO, Nicola Stefano, I Precetti della Dea. Non Essere e Contraddizione in Parmenide di Elea, Bolonha, Diogene Multimedia, 2017, 236 pp. ISBN: 978-8893630863.
Lucio Angelo Privitello
[Recensão a] COELHO, Maria Helena da Cruz & REBELO, António Manuel Ribeiro, D. Pedro e D. Inês. Diálogos entre o Amor e a Morte, Coimbra, Imprensa da Universidade, 2016, 117 pp. ISBN: 978-989-26-1159-4.
Nair de Nazaré Castro Soares
_____________________________________________________________
Atlantís
http://impactum-journals.uc.pt/atlantis
NOVAS EFEMÉRIDES
Informação de Adriano Simões da Silva (Biblioteca Municipal Pública do Porto):
20 de março – Ciência
Costuma ser o dia do
Equinócio da Primavera, no Hemisfério Norte. O que é o equinócio? O nome diz tudo:
aequus = igual e nox = noite, pelo que o equinócio é quando a noite e o dia
duram o mesmo tempo. Os equinócios definem as mudanças de
estação. Nas culturas pagãs, os equinócios eram celebrados com tradições
que passaram para as comemorações cristãs da Páscoa. Ciência.
20 de março de 1800 – Alexandro Volta
informa a Royal Society, de Londes, da construção de um equipamento
para produzir corrente elétrica contínua. O aparelho ficou conhecido
como “Pilha de Volta”.
Ciência.
20 de março de 1848 – “Bela aquisição para a
Biblioteca Pública: acabou de chegar de França… 2ª série dos
Annaes de Chymica e Physica…” (jornal “Periódico dos Pobres no Porto”,
p. 292). Outros tempos… mas há bibliotecas públicas que ainda hoje fazem
isso. Ciência.
20 de março de 1916 – Albert Einstein publica a sua “Teoria Geral da Relatividade”. Ciência.
20 de Março Indústria
20 de março de 1942 – Guerra: é declarado o racionamento da energia elétrica e do gás. Energia. Indústria.
20 de março de 1950 – Finalmente, chegou a Portugal o
Volkswagen carocha (“O Tripeiro”, mar.2000, efem.). Indústria automóvel.
20 de março de 1954 – Assinada a escritura com a
Termo-Elétrica Portuguesa para instalação da Central Térmica do Douro (“O Tripeiro”, mar.2004, efem.). Energia. Indústria.
20 de março de 1957 – Última operação bancária da
Associação dos Engenheiros Civis Portugueses, que findara a sua
atividade no 8 de setembro passado, por se ir integrar na Ordem dos
Engenheiros (cf. Relatórios na BPMP na cota P-A-7303). Engenharia.
Indústria.
20 de março de 1956 – Transformação da
Sociedade das Minas de Vila Cova, Lda., em Minas de Vila Cova,
S.A.R.L., com minas em Vila Real (como pode ser lido no seu 1º relatório
e contas, na BPMP, na cota P-A-6771).
Indústria extrativa.
20 de março de 1969 – A CIDLA
entregou 1/3 do valor da energia elétrica do país, afirma-se no
Relatório de 1968: abastece 36% dos lares portugueses (“Diário do
Norte”, p. 3). Energia. Indústria.
20 de março de 2000 – Enterro de
Ruy de Lacerda, industrial químico, presidente da Associação Comercial do Porto, etc. (“O Tripeiro”, abr.2000, p.149). Indústria química.
21 de março de 1795 – Ciência: morte de
Giovanni Arduino, geólogo italiano, professor em Veneza de
química, mineralogia e metalurgia, foi o fundador da Estratigrafia. Foi
ele que em 1735 dividiu a história em 4 períodos: Primitivo, Secundário,
Terciário e Quaternário. Ele considerava que todos
os períodos eram delimitados por catástrofes como inundações,
glaciações, etc. Ciência.
21 de março de 2018 – A árvore europeia de 2018 é um
sobreiro assobiador português: venceu a 8ª edição do concurso: da
aldeia de Águas de Moura, Palmela (“Público, 22 mar.2018, p. 27).
Biologia. Ciência.
21 de março de 2019 Indústria
21 de março de 1839 – Anúncio: Caetano José Dias de Sá continua a fabricar folares de
pão-de-ló, em toda a semana santa, na Calçada da Esperança, nos
fornos do sr. Capitão Borges (“Periódico dos Pobres no Porto”, p. 279).
Indústria da panificação.
21 de março de 2018 – Inauguração, em Moreira da Maia, de uma fábrica do grupo
suíço Azurea, de mecânica de ultra-precisão (“Primeira Mão”, Maia, 29 mar.2018, p. 11). Indústria.
quarta-feira, 20 de março de 2019
Nova colecção EU AMO CIÊNCIA
Informação recebida da editora Saída
de Emergência
A Desassossego, chancela de não
ficção da Saída de Emergência, apresenta a EU AMO CIÊNCIA, uma coleção que
pretende revolucionar a forma como se divulga a ciência em Portugal e
conquistar espaço e visibilidade para a ciência nas livrarias. Prevemos publicar
4 a 6 títulos por ano, sobre vários ramos da ciência, desde a genética à
astrofísica, da saúde à alimentação, passando pela biologia do cérebro à origem
da vida na Terra.
A coleção pretende divulgar a
ciência e o método científico. Não pretende confrontar nem antagonizar, mas sim
dar a conhecer. Queremos criar céticos que usam a razão para fazer as suas
opções. Num país onde as teorias da conspiração e as fake news estão em crescimento; onde a pseudociência na saúde e
alimentação faz cada vez mais vítimas; onde os antivax e os negacionistas das
alterações climáticas têm cada vez mais voz, é preciso reagir. Com informação
credível. Com divulgação científica acessível ao grande público. É preciso amar
a ciência.
Manifesto:
LOGO EU AMO CIÊNCIA
É verdade, amamos ciência. E amamos a curiosidade,
a paixão pelo mistério e o prazer da descoberta que alimenta
os cientistas. Amar ciência é muito mais do que respeitar um
corpo de conhecimentos. É abraçar uma forma de pensar que
exige evidências verificáveis e as analisa com o uso da lógica.
E porque Portugal precisa de mais literacia científica, aqui
estamos nós – livro a livro, queremos ajudar os portugueses
a serem mais céticos, a estarem mais informados e, acima
de tudo, mais preparados para o futuro.
CIÊNCIA E DEUS. DEUS AINDA TEM FUTURO?
Na próxima 4ª feira,
dia 27 de Março de 2019, pelas 18h00, vai ocorrer no Rómulo Centro
Ciência Viva da Universidade de Coimbra a palestra “Ciência e Deus. Deus ainda
tem futuro?”, por Anselmo Borges, padre católico,
teólogo, ensaísta português, professor na Faculdade
de Letras da Universidade de Coimbra.
Esta palestra integra-se no ciclo "Ciência às Seis - Terceira
temporada"*
Sinopse da palestra:
Há uma ideia generalizada na sociedade de uma incompatibilidade secular
entre ciência e religião. Será mesmo assim? A religião terá sido um obstáculo
ao avanço científico? Um cientista tem necessariamente de ser um não crente em
Deus? Nesta palestra, o padre Anselmo Borges vai conversar com os presentes no
sentido de esclarecer sobre: o que se entende por religião/religiões; o que se
entende por ciência/ciências; a evolução desde o conflito à compatibilidade e á
colaboração possível entre religião e ciência. E por fim, tentar responder à
questão sobre se Deus ainda tem futuro na sociedade científica e tecnológica em
que vivemos.
Sobre o Padre Anselmo Borges
Padre da Sociedade Missionária Portuguesa. Doutorado em
Filosofia pela Universidade de Coimbra de cuja Faculdade de Letras é Professor.
Licenciado em Teologia pela Universidade Gregoriana de Roma. Tem o D. E. A.
(Diplôme d’études approfondies) em Ciências Sociais pela École des Hautes
Études en Sciences Sociales, Paris. É também Professor na Faculdade de Medicina
da Universidade do Porto e na da Universidade de Coimbra. Tem várias obras
publicadas, todas com várias edições. É colunista do “Diário de Notícias”.
*Este ciclo de palestras é coordenado por António Piedade, Bioquímico,
escritor e Divulgador de Ciência.
ENTRADA LIVRE
Público-Alvo: Público em geral
Homenagem "Prestígio Profissional"
Transcrevo, na íntegra, o meu artigo de opinião cuja primeira parte foi publicada hoje no "Diário as Beiras":
Homenagem “Prestígio Profissional”, promovida pela Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra (I)
“Época triste!
É mais fácil cindir-se um átomo do que um preconceito.”
(Einstein).
Hesitei em escrever este texto recordado dos meus tempos de português/latim do ensino liceal que nos alertava para o facto de “laus in ore proprio vilescit” (louvor, na própria boca, perde todo o valor). Todavia, por toda a moeda ter duas faces, o seu reverso obrigava-me à gratidão de tornar pública a recente homenagem “Prestigio Profissional” que me foi prestada no decurso da Conferência de Honra do “XIX Forum Internacional do Desporto”, pela Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra (08/03/2019).
Durante a supracitada conferência, intitulada “Treino da força para idosos e evidências em estudos de intervenção”, proferida por Edilson Serpeloni Cyrino, professor universitário coordenador do Grupo de Estudo e Pesquisa em Metabolismo, Nutrição e Exercício da Universidade Estadual Londrina (Brasil), o professor catedrático que a ela presidia, Manuel João Coelho e Silva, da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física (UC), quando da apresentação do conferencista feita por si, referiu-se a mim em generosas e amigas palavras que muito me desvaneceram por virem de um prestigiado académico que muito admiro e tenho em grande estima.
Nessa mesma ocasião, outra referência foi feita à minha pessoa por Edilson Cyrino que, poucos dias depois, publicaria, no meu facebook, uma mensagem que transcrevo com gratidão: “Homenagem merecida a um dos precursores do Levantamento de Peso/Halterofilismo/ Culturismo em Portugal, Prof. Rui Baptista. Me senti extremamente lisonjeado e emocionado de estar ao lado de uma lenda viva do Desporto”.

Reportavam-se estas duas personalidades ao meu livro “Os Pesos e Halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper” (publicado em idos de 73, e rapidamente esgotado). Qual pedrada no charco, atrevi-me a escrever esse livro numa época em que Kenneth Cooper, responsável pelo treinamento físico de astronautas norte-americanos, e autor de um estudo levado a efeito em cinco mil “cobaias” da Força Aérea, sustentava, num dos seus best-seller’s (1968), que o levantamento de pesos pouco representava em benefício da capacidade aeróbica dos praticantes de pesos e à sua saúde cardiovascular, embora com incontestada vantagem para o desenvolvimento dos músculos esqueléticos.
Pela minha responsabilidade na orientação de uma classe de culturismo do Clube Ferroviário de Moçambique, e pelo receio de um dos meus alunos, António Vasconcelos, por ter lido o livro de Cooper supracitado, resolvi, em dever de consciência, submeter ao teste, com o seu nome (correr ou caminhar, sem qualquer paragem durante 12 minutos), 6 praticantes de atletismo do Grupo Desportivo de Lourenço Marques e 9 praticantes de culturismo, por mim treinados, tendo obtido os 15 a classificação de excelente (o teste foi cronometrado pelo respectivo treinador de atletismo, António Matos, falecido em Coimbra onde viria a exercer, outrossim, uma acção digna de louvor).
Homenagem “Prestígio Profissional”, promovida pela Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra (II)
“Preconceito é opinião sem conhecimento” (Voltaire).
Pouco tempo depois, ratificado por Jorge Pessoa Monteiro, docente do curso de Medicina de Lourenço Marques, com a ajuda de um finalista desse mesmo curso, Raúl Silveira, praticante oficial de atletismo, foi levado a efeito por mim um outro estudo sobre o efeito dos pesos e halteres nos valores das pressões arteriais máxima, mínima e diferencial, em que participaram 9 atletas da minha classe de culturismo, demonstrativo dos benefícios aportados por este treino de força na saúde cardiovascular dos testados.
Ao tempo, era eu havido como um apóstata da Educação Física chegando-se a ponto, de quando ministrei preparação física com pesos aos nadadores de Lourenço Marques que viriam a competir, em Portugal continental, nos Campeonatos Nacionais de Natação (1958), onde pulverizaram vários recordes nacionais, ser comentado em surdina estar-se a cometer uma heresia por os pesos “prenderem os músculos”!
Sessenta e quatro anos volvidos, sendo eu docente da Faculdade de Desporto de Coimbra (2001), tomei frutuoso conhecimento de valiosos estudos científicos sobre os benefícios da exercitação com pesos da autoria de José Maria Santarem, doutorado em Medicina pela Universidade de São Paulo, com um extenso e valioso currículo de vida, em mero exemplo, ex-coordenador dos cursos de pós-graduação em Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido na Saúde, na Doença e no Envelhecimento, personalidade do mundo científico com um perfil respeitado mundialmente, a quem enviei o meu livro: “Os Pesos e Halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper”.
Passado pouco tempo, recebi o seguinte mail que reproduzo com natural orgulho:
Dois anos antes, realizei, nesse mesmo local, uma outra conferência, intitulada “Educação Física, Ciência ao Serviço da Saúde Pública” que abriu a porta grande à Educação Física, tendo eu sido eleito, meses depois, vice-presidente da respectiva direcção e presidente da Secção de Ciências. Ou seja, “nihil fit sine causa” (nada acontece sem uma causa).
Homenagem “Prestígio Profissional”, promovida pela Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra (I)
“Época triste!
É mais fácil cindir-se um átomo do que um preconceito.”
(Einstein).
Hesitei em escrever este texto recordado dos meus tempos de português/latim do ensino liceal que nos alertava para o facto de “laus in ore proprio vilescit” (louvor, na própria boca, perde todo o valor). Todavia, por toda a moeda ter duas faces, o seu reverso obrigava-me à gratidão de tornar pública a recente homenagem “Prestigio Profissional” que me foi prestada no decurso da Conferência de Honra do “XIX Forum Internacional do Desporto”, pela Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra (08/03/2019).
Durante a supracitada conferência, intitulada “Treino da força para idosos e evidências em estudos de intervenção”, proferida por Edilson Serpeloni Cyrino, professor universitário coordenador do Grupo de Estudo e Pesquisa em Metabolismo, Nutrição e Exercício da Universidade Estadual Londrina (Brasil), o professor catedrático que a ela presidia, Manuel João Coelho e Silva, da Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física (UC), quando da apresentação do conferencista feita por si, referiu-se a mim em generosas e amigas palavras que muito me desvaneceram por virem de um prestigiado académico que muito admiro e tenho em grande estima.
Nessa mesma ocasião, outra referência foi feita à minha pessoa por Edilson Cyrino que, poucos dias depois, publicaria, no meu facebook, uma mensagem que transcrevo com gratidão: “Homenagem merecida a um dos precursores do Levantamento de Peso/Halterofilismo/ Culturismo em Portugal, Prof. Rui Baptista. Me senti extremamente lisonjeado e emocionado de estar ao lado de uma lenda viva do Desporto”.

Reportavam-se estas duas personalidades ao meu livro “Os Pesos e Halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper” (publicado em idos de 73, e rapidamente esgotado). Qual pedrada no charco, atrevi-me a escrever esse livro numa época em que Kenneth Cooper, responsável pelo treinamento físico de astronautas norte-americanos, e autor de um estudo levado a efeito em cinco mil “cobaias” da Força Aérea, sustentava, num dos seus best-seller’s (1968), que o levantamento de pesos pouco representava em benefício da capacidade aeróbica dos praticantes de pesos e à sua saúde cardiovascular, embora com incontestada vantagem para o desenvolvimento dos músculos esqueléticos.
Pela minha responsabilidade na orientação de uma classe de culturismo do Clube Ferroviário de Moçambique, e pelo receio de um dos meus alunos, António Vasconcelos, por ter lido o livro de Cooper supracitado, resolvi, em dever de consciência, submeter ao teste, com o seu nome (correr ou caminhar, sem qualquer paragem durante 12 minutos), 6 praticantes de atletismo do Grupo Desportivo de Lourenço Marques e 9 praticantes de culturismo, por mim treinados, tendo obtido os 15 a classificação de excelente (o teste foi cronometrado pelo respectivo treinador de atletismo, António Matos, falecido em Coimbra onde viria a exercer, outrossim, uma acção digna de louvor).
Homenagem “Prestígio Profissional”, promovida pela Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra (II)
“Preconceito é opinião sem conhecimento” (Voltaire).
Pouco tempo depois, ratificado por Jorge Pessoa Monteiro, docente do curso de Medicina de Lourenço Marques, com a ajuda de um finalista desse mesmo curso, Raúl Silveira, praticante oficial de atletismo, foi levado a efeito por mim um outro estudo sobre o efeito dos pesos e halteres nos valores das pressões arteriais máxima, mínima e diferencial, em que participaram 9 atletas da minha classe de culturismo, demonstrativo dos benefícios aportados por este treino de força na saúde cardiovascular dos testados.
Ao tempo, era eu havido como um apóstata da Educação Física chegando-se a ponto, de quando ministrei preparação física com pesos aos nadadores de Lourenço Marques que viriam a competir, em Portugal continental, nos Campeonatos Nacionais de Natação (1958), onde pulverizaram vários recordes nacionais, ser comentado em surdina estar-se a cometer uma heresia por os pesos “prenderem os músculos”!
Sessenta e quatro anos volvidos, sendo eu docente da Faculdade de Desporto de Coimbra (2001), tomei frutuoso conhecimento de valiosos estudos científicos sobre os benefícios da exercitação com pesos da autoria de José Maria Santarem, doutorado em Medicina pela Universidade de São Paulo, com um extenso e valioso currículo de vida, em mero exemplo, ex-coordenador dos cursos de pós-graduação em Fisiologia do Exercício e Treinamento Resistido na Saúde, na Doença e no Envelhecimento, personalidade do mundo científico com um perfil respeitado mundialmente, a quem enviei o meu livro: “Os Pesos e Halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper”.
Passado pouco tempo, recebi o seguinte mail que reproduzo com natural orgulho:
“Com muita alegria recebi o seu livro. Nossos ideais são comuns, e nossas dificuldades históricas também Felizmente hoje as evidências nos apoiam e somos ouvidos, mas é sempre emocionante lembrar os tempos em que éramos quase ignorados. Gostei muito do seu texto que, naturalmente, deve ser lido com a lembrança da situação do conhecimento de então. Como me pediu, segue em anexo um texto meu actual, é um capítulo do livro de medicina do esporte, ainda a ser editado. Meu desejo é que um dia possamos nos encontrar e rir bastante com as dificuldades do passado.Viviam-se então tempos em que vigorava o enraizado preconceito contra os pesos e halteres e o receio entre os seus praticantes, que esgotaram o amplo auditório da Sociedade de Estudos de Moçambique, entidade científica “Palmas de Ouro” da Academia de Ciências de Lisboa, quando aí proferi a conferência “Os Pesos e Halteres, a função cardiopulmonar e o doutor Cooper” que serviria de base à publicação do meu livro com idêntico título.
Um fraterno abraço!
Santarem”.
Dois anos antes, realizei, nesse mesmo local, uma outra conferência, intitulada “Educação Física, Ciência ao Serviço da Saúde Pública” que abriu a porta grande à Educação Física, tendo eu sido eleito, meses depois, vice-presidente da respectiva direcção e presidente da Secção de Ciências. Ou seja, “nihil fit sine causa” (nada acontece sem uma causa).
segunda-feira, 18 de março de 2019
A MÚSICA DOS PLANETAS
Resumo da minha intervenção antes da Orquestra Metropolitana de Lisboa (formação de percussão) interpretar os "Os Planetas" de Gustav Holst. É já amanhã, 19 de Março, 14h30, no Instituto Politécnico de Leiria e na próxima semana em Beja e Faro, nos dias 28 e 29 de Março:
No século XVII o astrónomo Kepler
falou da “música das esferas”, procurando ligações entre a arte musical e os
planetas do sistema solar, mas a música e os astros nunca estiveram tão perto
como em “Os Planetas,” a suíte em 7 andamentos que é a mais célebre composição do
inglês Gustav Holst (1874-1934). Escrita durante a 1.ª Guerra Mundial, entre
1914 e 1916, o seu motivo são os 7 planetas do sistema solar conhecidos na
época, além da Terra (Plutão, descoberto em 1930, foi planeta até 2006, quando foi
relegado para planeta anão). A estreia da composição, para uma audiência
privada, ocorreu em 29 de Setembro de 1918, no Queen’s Hall, em Londres, a lendária
sala que haveria de ser destruída na 2.ª Guerra Mundial, mas a primeira
execução pública foi há cem anos, em 27 de Fevereiro de 1919. As composições de
Holst, influenciadas por autores seus contemporâneos como Stravinsky e
Schoenberg, são associados ao modernismo: Tal como as pinturas de Kandinsky, procuravam
distanciar-se de formas clássicas de beleza. A harmonia é, nas peças de música
modernistas, toldada pela dissonância, transmitindo emoções de um modo forte e
por vezes surpreendente.
A abordagem musical de Holst
aos planetas teve raízes na astrologia e não na astronomia. Segundo a astrologia, os planetas, que exercem
supostas influências sobre os seres humanos, estão associados a certos traços psicológicos. A música procura ilustrar esses traços. O 1.º andamento
é Marte, o “mensageiro da guerra”, o 2.º é Vénus, o “mensageiro da paz”, o 3.º
Mercúrio, o “mensageiro alado”, o 4.º Júpiter, o “mensageiro da alegria”, o 5.º
Saturno, o “mensageiro da velhice”, o 6.º Urano, o “mágico”, e o 7.º Neptuno, o
“místico”. Alguns dos temas são tão expressivos que bandas de rock tocaram
adaptações de “Os Planetas”, John William escreveu a banda sonora de Star Wars bebendo nessa fonte, e o
andamento sobre Marte foi usado por Carl Sagan na sua famosa série Cosmos.
Hoje, após termos enviado
diversas sondas a todo o sistema solar, sabemos muito mais sobre os planetas do
que se sabia no tempo de Holst. Mas a sua poderosa música continua merecedora da
nossa atenção, já que as emoções
veiculadas pela arte são intemporais.
O Eclipse Solar de 1919: as expedições científicas e as observações feitas em Sobral
Palestra no Rómulo no dia 2 de Abril, pelas 18h, por Ildeu de Castro Moreira, Instituto de Física - UFRJ, Brasil (na imagem equipamento usado):
Neste ano se comemora
em todo o mundo o centenário das observações astronômicas feitas no eclipse solar
de 29 de maio de 1919. As medidas da deflexão da luz das estrelas na borda do
Sol constituíram uma confirmação importante da Teoria da Relatividade Geral de
Einstein. As observações decisivas foram feitas por astrônomos britânicos em
Sobral e na Ilha do Príncipe. Nesta palestra discutiremos a primeira tentativa
feita no Brasil, em 1912, para se medir este efeito durante um eclipse
solar. Depois comentaremos sobre os
preparativos, feitos em Sobral, para a observação do eclipse pelas comissões britânica,
brasileira - que fez observações sobre a corona solar - e norte-americana - que
realizou medidas do magnetismo terrestre e de eletricidade atmosférica. Em
seguida, analisaremos como ocorreram as observações em Sobral, no dia 29 de
maio, e os resultados referentes à deflexão da luz da luz obtidos pela comissão
britânica e anunciados em novembro de 1919. Finalizaremos com uma discussão sobre
a repercussão destes resultados no Brasil para a aceitação de Teoria da
Relatividade Geral e para o reconhecimento de Einstein como cientista. Quando esteve no Rio de Janeiro, em 1925,
Einstein escreveu a seguinte frase para os jornais: “O problema concebido pelo
meu cérebro incumbiu-se de resolvê-lo o luminoso céu do Brasil.”
OS LIVROS COMO MÁQUINAS DO TEMPO
MInha apresentação em powerpoint no encontro de professores bibliotecários em Albergaria a Velha:
https://padlet.com/isabel_nina/princesasedragoes19
https://padlet.com/isabel_nina/princesasedragoes19
HOJE NO RÓMULO A NÃO PERDER: "DO INVENTOR DE ALDOAR À BUSCA DE VIDA NO UNIVERSO"
SOBRE O LIVRO:
Um livro concebido para a família e alguns amigos, e que estes, dado o
seu evidente interesse, empurraram para a publicação. Entre o relato íntimo da juventude, avivado com memórias da Vilarinha (Aldoar), e a
conquista espacial, de que o autor foi e é também actor, colorido com o
céu dos Estorninhos, um relato apaixonante que se lê dum fôlego.
OLHAR A CHINA, A PERSISTÊNCIA DA IGNORÂNCIA
Texto de Guilherme Valente saído no SOL de sábado passado:
«Sempre acreditei que a China só poderia mudar pouco a pouco.
Hoje dou-me conta de como foi rápida e brutal [abrupta] a transformação (...)
Não estou a falar dos penteados das raparigas,
mas das mentalidades e comportamentos».
Jia Zhang-Ke
«Sempre acreditei que a China só poderia mudar pouco a pouco.
Hoje dou-me conta de como foi rápida e brutal [abrupta] a transformação (...)
Não estou a falar dos penteados das raparigas,
mas das mentalidades e comportamentos».
Jia Zhang-Ke
Nunca na história um país mudou tanto, experimentou tantos modelos políticos, tão rapidamente. “Não interessa a cor do gato, é preciso é que apanhe ratos”, disse Deng. Mas persiste na generalidade dos comentários uma visão da China como ‘a China de Mao’. Estaríamos mesmo hoje perante a instalação de um novo déspota e, quiçá, na iminência de uma nova Revolução Cultural. Xi Jiping um novo Mao?
Bastaria uma informação mínima, inteligência comum, um olhar mundano, para se concluir da evidência do disparate. Vejamos o básico. Desde 1956, da ‘Revolução das Cem Flores’ (peripécia sangrenta a propósito da qual Mao, evocando Qin, o seu modelo, que enterrara vivos 460 letrados, se gabou de ter mandado matar 100 vezes mais intelectuais), que os líderes e os intelectuais chineses mais esclarecidos tentaram neutralizar o que começava a tornar-se ‘o Grande Timoneiro’.
Um ‘timoneiro’ que, num crescente delírio de poder pessoal que nunca foi possível conter, conduziria à morte milhões de seres humanos, deixando o país em cinzas. Delírio, convém não esquecer, que a imensa generalidade da inteligência europeia e caseira celebrou como anúncio redentor de um radiante e definitivo ‘mundo novo’.
O episódio Liu Shao Chi foi a tentativa que esteve mais perto do sucesso nessa determinação de afastar Mao. Mas a genialidade táctica deste, a sua total ausência de lealdade e de escrúpulos no uso dos meios mais cruéis, a adoração do povo que o identificava como o imperador que libertara a China dos monstros estrangeiros devoradores (ver o filme recente A Grande Muralha), garantiu-lhe o regresso e catalisou-lhe a loucura – já então, repito, absolutamente clara para a elite política e intelectual chinesa.
As manifestações dessa loucura foram inúmeras, tantas quantas as exaltações de louvor no Ocidente. Só o seu fim natural o neutralizou, em Setembro de 1976, entre um eclipse do Sol e um grande sismo, como era milenarmente assinalada cosmicamente a morte dos grandes imperadores...
Uma manifestação reveladora da índole de Mao e do então louvor dionisíaco no Ocidente (e caseiro) é uma confissão despudorada do déspota feita numa entrevista a Edgar Snow. Confissão que, no seu limitadíssimo conhecimento da língua e da cultura chinesas, este traduziu assim: «Sinto-me como um bonzo careca a passear à chuva com um guarda-chuva cheio de buracos». O leitor está a imaginar o orgasmo que tal metáfora induziu nos crentes caseiros e europeus! Pois, mas a questão é que se tratava de uma expressão idiomática chinesa, ignorada por Snow, que significa: «Sou um homem sem fé nem lei»! (1)
Mas essa é muitas outras lições não impediram que se continuem hoje a debitar asneiras de igual calibre sobre a China. A partir da consolidação da liderança de Deng Xiaoping, o objectivo maior foi precaver a emergência de um novo Mao e a possibilidade de algo que sequer lembrasse a Revolução Cultural. Probabilidade então fortíssima. Todos os actuais líderes chineses ou seus familiares sofreram o inaudito na Revolução Cultural. Sabe-se o que Deng várias vezes teve de suportar, o filho atirado de uma janela da universidade por um bando de libertadores guardas vermelhos. Guardas vermelhos então cantados entre nós por muitos dos especialistas que hoje anunciam temer um novo Mao.
Inúmeros quadros nos diversos níveis da Administração chinesa de hoje sofreram na pele a Revolução Cultural. Conheci alguns deles. E foi para afastar naquele período crítico a possibilidade de algum propósito ou ilusão de regresso à tirania que surgiu, entre outras, a medida – singular na História – do impedimento de os ex-Presidentes da República e dos ex-primeiros-ministros voltarem a poder exercer, depois de dois mandatos, qualquer cargo oficial no governo da China.
No espírito da concepção chinesa da História, informada pela visão ética-cosmológica que distingue radicalmente o pensamento chinês, identificado o ‘momento’ (shi 2) – que na concepção chinesa não é o instante ocidental mas ‘duração’ (2) – e decidida a ‘propensão’ (shi 4), isto é, a ocasião adequada para a intervenção humana (que não perturbe a ordem cósmica das coisas), essa solução foi então pragmaticamente considerada como a que devia ser adoptada.
E por que foi ela agora alterada, no último Congresso do (também explicavelmente) chamado PCC? Xi Xiping é o autor necessário escolhido para interpretar, externa e internamente, o novo acto, a nova etapa no processo de ‘rejuvenescimento’ da China (3). Objectivo traçado desde antes de 1911, de cuja concretização os grandes intelectuais e líderes políticos chineses nunca duvidaram. Acto escrito e a ser representado, com rigor e cuidado, com o pragmatismo milenar. Etapa já anunciada por Deng para quando... a ‘propensão’ permitisse o seu êxito.
Quando leio ou ouço os nossos maoístas arrependidos e sucedâneos a falarem sobre a China, sinto-me frequentemente como o Asterix se sentiria a ouvir a Sinfonia n.º 1 para Violino e Orquestra de Tchaikovsky executada pelo bardo da aldeia.
Guilherme Valente
NOTAS: (1) Contado por Simon Leys. (2) ‘Estruturação’, ‘estação’, no ciclo do devir das ‘coisas inumeráveis’, determinada pelo jogo dos cinco agentes cósmicos nucleares e das virtudes associadas a cada um deles. (3) Expressão usada desde 1911 por todos os PR chineses na sua tomada de posse. associadas. (4) Expressão usada desde 1911 por todos os PR chineses na sua tomada de posse.
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