terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

15 dias a comer iogurtes

Não passa pela cabeça de ninguém que todas a músicas sejam boas, só pelo simples facto de serem músicas. Mas, por alguma razão, há uma convicção subliminar difusa de que todos "estudos científicos" são iguais. E todos bons. Há uma razão para isso, que é o sistema de revisão pelos pares. Ou seja, um conjunto de investigadores escreve um artigo em que descreve um trabalho e respectivas conclusões. Este artigo é lido por outros cientistas, que podem sugerir alterações ou esclarecimentos adicionais e que propõem ou não a sua publicação. O editor, com base nas opiniões dos vários revisores, decide ou não publicar o artigo. É um sistema que tem provado os seus méritos, um pouco como a democracia (é o pior sistema, à excepção de todos os outros). É inegável que o conhecimento tem avançado com este sistema, havendo evidentemente alguns problemas. Pode-se dizer que funciona tão bem como a qualidade dos seus intervenientes, tal como a democracia. Por isso, nem todos os artigos (ou "estudos") são iguais. Há estudos melhores que outros. Uns são publicados em revistas mais prestigiadas e rigorosas (nem sempre a relação entre as duas é linear) que outros. E o sistema de revisão não é à prova de falhas. Os resultados podem ser sempre de algum modo "penteados" pelos investigadores sem que os revisores (que não repetem as experiências) dêem por isso. Ou mesmo falseados. Portanto, se cientistas sérios escreverem artigos que são revistos por revisores empenhados e publicados por editores responsáveis, temos um estudo credível (e revistas que publicam frequentemente estudos assim são tendencialmente mais lidas e têm um maior impacto). Tendo em conta que todos os intervenientes são seres humanos, é evidente que isto nem sempre funciona bem. Ou seja, há trabalhos com erros metodológicos graves e conclusões abusivas ou erradas, que podem perfeitamente ser publicados. Claro que, se for um assunto relevante, em que trabalhem vários grupos independentes, há uma tendência natural para as coisas serem esclarecidas. E esta penso que é uma das grandes virtudes da ciência: o auto-escrutínio da comunidade científica.

Quando se recorrem aos "estudos" nos meios de comunicação o problema é mais grave. Por vezes nem sequer há a necessidade de explicitar de que "estudos" é que estamos a falar, bastando a sua evocação vaga. Mais frequentemente não há referências aos métodos utilizados (se estamos a falar de uma amostra estatisticamente significativa, se foi feito um controlo negativo, etc.), se o estudo está de acordo com a restante literatura (ou se é um forasteiro e nesse caso, porquê?), se há uma revisão sobre o tema (e como esse trabalho se enquadra), ou uma perspectiva crítica de outros cientistas. Compreendo que (por experiência própria, já fui jornalista de ciência no Público por três meses) nem sempre isto é compatível com os tempos de produção noticiosa. Em qualquer dos casos julgo que os jornalistas deveriam optar por uma escrita defensiva, atribuindo as afirmações aos seus autores (e não assumindo-as como "certas"), mantendo uma certa sobriedade. O deslumbramento com "coisas giras" é o motor para a amplificação do disparate. E nada disto é inocente: as máquinas de marketing das companhias farmacêuticas e indústria de suplementos alimentares sabem muito bem como uma perspectiva "que interessa às pessoas" pode muito bem disfarçar a falta de solidez dos estudos e de consenso científico acerca de questões de interesse comercial (como iogurtes com pro-bióticos).

Isto a propósito de um artigo publicado no Público de hoje. O jornalista viajou a convite da Danone até Paris para ser bombardeado com propaganda acerca dos iogurtes que contém suplementos para regularizar o "trânsito intestinal". O facto de ter ido não tem nada de mal (eu teria ido também, se tivesse o tempo e a oportunidade!). A sua ida não implica nenhum compromisso quanto ao conteúdo ou mesmo publicação de um artigo sobre o assunto (a decisão de publicar até nem é do jornalista).

Lendo o texto todo, reconheço que há um algum esforço de fazer um trabalho jornalístico algo distanciado do folheto de publicidade da Danone (ouvindo outras partes), mas transpira vários equívocos e incoerências. Escolhi alguns para comentar:
"20 anos de história e artigos científicos que credibilizam a publicidade"
Mais à frente no próprio artigo é possível ler que "os estudos actuais mostram alguma falta de consenso (...)". E, quanto à história, não credibiliza nada. A homeopatia tem mais de 150 anos e isso não faz com que tenha uma acção fisiológica real. A mitologia propaga-se muito bem pelo tempo.
"Um iogurte com milhões de bactérias especiais que o P2 resolveu testar."
(....) Foi o médico que deu a prescrição certa ao P2, referindo que estava comprovado que os resultados do Activia eram sentidos após a primeira semana, mas que só ao fim de 15 dias de consumo diário de um iogurte por dia é que as bactérias funcionavam a valer."
Portanto, tudo isto configuraria um ensaio clínico, com uma amostra de um (ou dois?), com as conclusões tiradas previamente. Nicolau Ferreira escreve à frente (e bem) que é um estudo muito pouco científico. Então para quê todo este "embrulho"?
"Assim, se alguém nos perguntar se o Activia resulta, responderemos com um encolher dos ombros pouco científico: "Durante estes 15 dias não, mas também não tivemos uma dieta especialmente butirogénica [rica nas tais fibras que são o alimento das bactérias]." O iogurte, no entanto, come-se bem."
A percepção dos jornalistas se o Activia "resulta" não seria nunca prova se resulta ou não (aliás, depois de toda a doutrinação a que foi sujeito pela Danone, o estranho é que não conclua pelos extremos benefícios do iogurte). Por exemplo, eu até acredito que a Bárbara Guimarães esteja plenamente convencida de que o creme anti-rugas que anuncia na televisão funcione lindamente. Mas isso não é uma demonstração da sua acção. E o simples facto de a Bárbara Guimarães pensar que funciona possivelmente é o suficiente para induzir nas suas (mencionadas) amigas a mesma convicção. E, nos espectadores do anúncio, espera a empresa que o vende. E o facto de pensarmos que temos menos rugas se usarmos um creme hidratante mais caro,possivelmente até tem um efeito positivo no nosso bem estar e valerá o dinheiro (para quem o possa pagar). Mas isso não significa que tenha uma acção fisiológica melhor do que um outro creme hidratante mais barato.

O que está aqui em causa é a convicção veiculada pelo marketing, de que podemos ter todos vidas miseráveis (sem tempos livres, actividades de lazer ao ar livre, prática desportiva ou uma alimentação equilibrada), mas que de algum modo vamos ser todos felizes se tomarmos uns comprimidos ou ingerirmos alimentos com certos suplementos.

Para terminar, tenho curiosidade sobre estas indicações da Associação Portuguesa de Nutricionistas (APN), transcritas no artigo:
"Alguns dos efeitos benéficos das bactérias como a Lactobacillus e a Bifidobacterium - o género a que pertence a espécie da bactéria do Activia - são, segundo a APN, "a melhoria da flora intestinal (...), a diminuição de diarreias, gases e obstipação, o reforço das defesas do organismo, a prevenção de alergias e facilitarem o processo digestivo".
Que defesas naturais do organismo estamos a falar? Glóbulos brancos? Anti-corpos? Coagulação mais rápida?

6 comentários:

  1. Muito bem escrito. Uma critica construtiva a um texto que deveria - como tantos - ter sido mais bem estudado e aprofundado. A bem da ciencia e da divulgacao - mas acima de tudo do esclarecimento da chamada "opiniao publica".

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  2. Um post excelente. Ilustra muito bem o processo de avaliação pelos pares, pressão natural para que uma determinada ideia ou teoria científica sobreviva ou não.
    Um excelente alerta para a atitude crítica que devemos ter sempre perante o que lemos, quer seja numa notícia jornalística, quer seja num artigo científico na mais insuspeita revista, num rótulo colado a um produto alimentar ou num produto de cosmética. Aliás, como o David saberá muito bem, as indústrias de produtos de beleza (interna e externa!) investem dilúvios de dinheiro na elaboração cuidada dos rótulos e materiais de publicidade, para que estes sejam convincentes e inatacáveis mesmo que análisados pelas perspectivas mais corrosivas. Dizem e não dizem, e numa baralhação linguística e de estilos tentam convencer o publico alvo de que a aparente laconicidade é fruto da nossa ileteracia!

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  3. inacreditável , de facto , a cena do P. li os títulos , vi as fotos , e procurei o símbolo pub. não estava lá. mas é evidente que é uma publireportagem paga pela danone.
    e para quem tem os tais problemas : kiwi/papaia de manhã , linhaça , mel , pão e já está , remédio santo e santo pequeno almoço. qual comida de plástico , quais actimeis ,activias , qual carapuça.

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  4. Essa última citação...
    Bastou-me ler até "flora intestinal" para parar. Flora?! Só se forem daquelas plantas sem raiz, caule e folhas (e células eucariotas, já agora)...

    Tem de se começar a corrigir esses erros tão apregoados. No século XIX e XX ainda se admitia agora no século XXI todos sabemos que é microbiota.

    Enfim, apenas um pequeno reparo que demonstra bem a qualidade e falta de sentido crítico de muitos pareceres e estudos que por aí abundam.

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  5. O que veio no suplemento P2 do jornal Público não foi mais do que publicidade enganosa. Isto tem um nome: fraude.

    Sinto-me defraudado pelo Público, porque julgava que ia ler um artigo de divulgação científica, quando o que os meus olhos viram foi uma despudorada promoção da Danone, disfarçada de artigo de jornal, ainda por cima "científico". Não havia qualquer indicação de "Publicidade" onde quer que fosse.

    Estou muito seriamente a pensar em mudar de jornal.

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  6. Fugindo um pouco ao tema, mas ainda no campo do Marketing, acharia interessante um aprofundamento das publicidades de estrelas desportivas (e não só) a "junk food", a refrigerantes carregadinhos de açucar e produtos ditos zero. Caricato mesmo é a publicidade de um sexagenário cheio de energia a uma das referidas marcas de refrigerantes!

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