domingo, 8 de fevereiro de 2026

A ALMA DA EDUCAÇÃO ESCOLAR PÚBLICA EM RISCO

Mão amiga fez-me chegar um artigo com o título A IA está a destruir a universidade e a própria aprendizagem, publicado em Dezembro de 2025 e assinado Ronald Purser, professor do College of Education na San Francisco State University (ver aqui).

Desse longo artigo extraí as passagens, que me pareceram mais relevante para pensar sobre a adopção da IA na educação, em geral, e na universitária, em particular, independentemente do país ou instituição de referência. Muitas das ideias que nele constam estarão no nosso horizonte.
 
Tomei a liberdade usar em título uma frase que se repete no texto e de fazer ligações (sequenciais) entre ideias, que não assinalo. Espero não ter, com isto, traído a verdade do autor. De qualquer maneira, o leitor tem acima a ligação para fazer, caso queira, uma leitura integral.

"Os estudantes usam IA para escrever trabalhos, os professores usam IA para os avaliar, os diplomas perdem o significado e as empresas de tecnologia ganham fortunas. Bem-vindo ao fim do ensino superior.

Primeiro veio o pânico. Nas reuniões do corpo docente viu-se pavor: «Como vamos agora detectar o plágio?», «Devemos voltar aos cadernos e às provas supervisionadas?» Os meus colegas) comportavam-se como se a fraude tivesse sido acabada de inventar. Porém, quase da noite para o dia, a sua ansiedade to o campus como cogumelos após a chuva. [O espírito] era de aceitação resignada: «Se não podes vencê-los, junta-te a eles».

Essa reviravolta não foi exclusiva do meu campus. O sistema da California State University (CSU) — o maior dos Estados Unidos, com 23 campi e quase meio milhão de estudantes — anunciou uma parceria com a OpenAI: tornar-se-ia o primeiro sistema universitário público “empoderado por IA” do país, oferecendo o ChatGPT Edu, gratuito a todos os estudantes e funcionários. O comunicado à imprensa elogiava as «ferramentas de aprendizagem personalizadas e focadas no futuro» e a «preparação dos estudantes para uma “economia impulsionada pela IA».

Enquanto os administradores cortavam fitas na sua iniciativa de IA, também cortavam cargos docentes, programas académicos inteiros e serviços aos estudantes. 
 
Henry Giroux foi um dos primeiros a perceber como as universidades públicas estavam a ser transformadas em centros de formação profissional para os mercados privados. Outros traçaram a mesma tendência. Sheila Slaughter e Gary Rhoades chamaram-lhe capitalismo académico: o conhe-cimento remodelado como mercadoria e os estudantes como consumidores. Em Unmaking the Public University, Christopher Newfield mostrou como a privatização empobrece as universidades públicas. Martha Nussbaum alertou para o que se perde quando as humanidades — esses espaços para a imaginação e a reflexão cívica — são tratadas como dispensáveis numa democracia. Juntos, descrevem uma universidade que deixou de se importar sobre o sentido da educação, interessando-lhe só quanto ela pode render.

Quando se insiste que o ChatGPT é «apenas mais uma ferramenta na caixa de ferramentas», fico tentado a lembrá-los que há uma diferença entre ferramentas e tecnologias. As ferramentas ajudam-nos a realizar tarefas; as tecnologias remodelam os ambientes em que pensamos, trabalhamos e nos relacionamos. Como observa o filósofo Peter Hershock, não usamos apenas tecnologias; participamos nelas. Com as ferramentas, mantemos o controlo — podemos escolher quando e como usá-las; as tecnologias remodelam as condições da própria escolha. Uma caneta amplia a comunicação sem a redefinir; as redes sociais transformaram o que entendemos por privacidade, amizade e, até mesmo, verdade.

Neil Postman alertou que uma tecnopoly surge quando as sociedades entregam o julgamento aos imperativos tecnológicos — quando a eficiência e a inovação se tornam bens morais em si mesmos. Quando a velocidade e a otimização substituem a reflexão e o diálogo, a educação transforma-se em logística: classificações automatizadas, ensaios gerados em segundos. O conhecimento transforma-se em dados; entrega-se o ensino. O que desaparece são capacidades humanas preciosas — curiosidade, discernimento, presença. O resultado não é inteligência aumentada, mas aprendizagem simulada.

A tecnopoly está a prosperar nas aulas. Os alunos não são ensinados a pensar mais profundamente, mas a responder de forma mais eficaz. Estamos a exportar o próprio trabalho de ensinar e de aprender — o trabalho lento de explorar ideias, suportar o desconforto, a dúvida e a confusão, lutar para encontrar a própria voz. A pedagogia crítica está fora de moda; os truques de produtividade é que estão na moda. Vende-se a rendição como inovação. A universidade não corre apenas o risco de se tornar irrelevante — corre o risco de se tornar um mecanismo sem alma. O maior problema não é a ignorância, mas a indiferença.

Os estudantes sempre encontraram maneiras de fazer batota, mas o ChatGPT levou isso a outro nível. De repente, tiveram acesso a um assistente de escrita que nunca dormia, nunca cobrava e nunca dizia não. As universidades reagiram com detectores de IA, os estudantes continuaram a fazer batota e as universidades reagiram com outros detectores de IA. Face à negligência institucional faz-se funcionar o capitalismo de vigilância. [E resulta?] Não! Os alunos passaram a troca dicas para tornar o ChatGPT mais burro, inserindo erros ortográficos nos seus textos, por exemplo, para os “humanizar”. Por seu lado, os professores, que antes se mostravam relutantes com a IA, estão agora a ser «empoderados» por ela para escrever palestras e artigos, corrigir trabalhos, redesenhar programas de estudos.

Todo este fingimento lembra uma velha piada soviética: «Eles fingem nos pagam e nós fingimos que trabalhamos» [que adaptada será]: «As administrações fingem nos apoiam e nós, professores, fingimos que ensinamos» e «Os professores fingem nos ensinam e nós, estudantes, fingimos que aprendemos». As universidades correm o risco de conferir diplomas sem sentido. A IA ameaça profissionalizar a arte da «atividade sem sentido». Nas palavras de Graeber, [isto cria uma] «profunda violência psicológica», a dissonância de saber que o próprio trabalho não serve nenhum propósito.

Tive um lugar na primeira fila para assistir a essa farsa no workshop «OpenAI Day Faculty Session: AI in the Classroom». A mensagem era clara. Deixe o ChatGPT redesenhar a sua aula. Deixe o ChatGPT dizer-lhe como avaliar os seus alunos. Deixe o ChatGPT dizer aos alunos como usar o ChatGPT. Deixe o ChatGPT resolver o problema da educação humana. [Face à sugestão de que a ferramenta poderia ser uma amiga, uma professora perguntou]: «Estamos a incentivar os estudantes a terem um relacionamento com ela?» [A resposta foi]: «Muitos já fazem isso. Eles veem-na como uma treinadora, mentora, orientadora de carreira... cabe-lhes decidir que tipo de relacionamento querem ter». Bem-vindo ao admirável mundo novo da ligação a máquinas. O momento foi absurdo. 
 
A educação, na sua melhor forma, desperta a curiosidade e o pensamento crítico. A «educação sem sentido» faz o oposto: treina as pessoas a tolerar a falta de significado, a aceitar a automatização do seu próprio pensamento.

Os administradores parecem incapazes de compreender o óbvio: se o ChatGPT pode escrever ensaios, conseguir classificações excelentes em exames e dar aulas, o que é que a universidade está a vender? Para quê pagar por uma experiência cada vez mais automatizada? Para quê dedicar a vida ao ensino se ele se reduz a uma engenharia de prompts? Para quê manter professores titulares cujo papel parece antiquado e redundante? Para quê ter universidades?

Um professor de filosofia alertou: «Um grande número de estudantes entrará no mercado de trabalho essencialmente analfabeto. Sempre que falo com um colega, surge o mesmo assunto: a reforma. Quando é que me posso reformar? Quando é que me posso livrar disto?»

Quando alguém se opõe a esse evangelismo corporativo, a resposta é previsível: tem «pânico moral» em relação ao progresso inevitável, como foi o caso de Sócrates em relação à escrita. As tecnologias anteriores expandiram a ação humana ao longo de gerações; esta procura substituir a cognição à velocidade da plataforma.
 
[Também se argumenta que] o melhor será aprender com a prática e corrigir depois. [Contra isto disse um professor:] «os estudantes estão a ser usados como cobaias». Essa expressão — cobaias — ecoa o aviso que Kenney e Lincoln fizeram no seu artigo de opinião no San Francisco Chronicle: «A introdução da IA no ensino superior é essencialmente uma experiência não regulamentada. Por é que os nossos alunos devem ser as cobaias?».

Mas a resposta organizada está a crescer. Nos Estados Unidos, foi apresentada uma queixa por imposição da IA sem consulta prévia do corpo docente, sob a alegação de que houve uma violação da legislação laboral e dos direitos de propriedade intelectual, e uma professora exortou os colegas a exigirem transparência no respeitante ao armazenamento de dados, à exploração laboral e aos danos ambientais que causa. Professores holandeses publicaram uma carta aberta apelando a uma moratória sobre a IA em ambientes académicos, alertando que a sua utilização «desqualifica o pensamento crítico» e reduz os estudantes a operadores de máquinas.

[De facto], o custo cognitivo e moral [imposto aos 
estudantes não pode deixar de ser tido em conta]. Um estudo recente do MIT, intitulado «Your Brain on ChatGPT: Accumulation of Cognitive Debt when Using an AI Assistant for Essay Writing Task» chegou a resultados preocupantes: quando os participantes usaram o ChatGPT para redigir ensaios, verificou-se uma queda de 47% na conectividade neural em regiões associadas à memória, linguagem e raciocínio crítico. Os seus cérebros trabalharam menos, apesar de os participantes se sentiram envolvidos — uma espécie de miragem metacognitiva. Oitenta e três por cento não conseguiram lembrar-se dos principais tópicos do que haviam «escrito«, em comparação com 10% dos que não usaram ajuda. Após quatro meses de dependência do ChatGPT, os participantes escreviam pior (sem o seu uso) do que aqueles que nunca o tinham usado. Ou seja, quando a escrita é delegada à IA, a forma de aprender muda substancialmente. Como o cientista da computação Joseph Weizenbaum alertou há décadas, o verdadeiro perigo reside na adaptação da mente humana à lógica das máquinas. Os estudantes não estão apenas a aprender menos; os seus cérebros estão a aprender a não aprender.

O podcaster Cal Newport chama a isso de «dívida cognitiva» — hipotecar a aptidão cognitiva futura em troca de facilidade a curto prazo. A linguagem da reflexão está a desaparecer. Em seu lugar, surge a gramática limpa da automação: fluente, eficiente e vazia.

A verdadeira tragédia não é que os estudantes usem o ChatGPT para fazer trabalhos, é as universidades estarem a ensinar — estudantes, professores, administradores — a parar de pensar. Caminhamos para a falência educacional: diplomas sem aprendizagem, ensino sem compreensão, instituições sem propósito.

A OpenAI não é uma parceira — é um império, disfarçado de ética A universidade não resistiu. Clicou em «Aceitar». Como professor e como estudante universitário de primeira geração, acreditava que a universidade era um espaço sagrado para aprender. Não fui para a faculdade «para» conseguir um emprego. Fui para explorar, para ser desafiado, para descobrir o que era importante. Levei seis anos para me formar em Psicologia — seis dos anos mais significativos e exploratórios da minha vida. Esse tipo de educação — aberta, acessível e em busca de significado — já floresceu nas universidades públicas. Agora está quase extinta. Mas as coisas podem ser diferentes.

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A ALMA DA EDUCAÇÃO ESCOLAR PÚBLICA EM RISCO

Mão amiga fez-me chegar um artigo com o título A IA está a destruir a universidade e a própria aprendizagem , publicado em Dezembro de 2025 ...