terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O CINCO DE OUTUBRO

Por amabilidade da Gradiva publicamos a Introdução do livro de Ernesto Rodrigues "O Cinco de Outubro. Uma Reconstituição", que por estes dias está a sair do prelo daquela editora:

Zero horas e quarenta e cinco minutos do dia 4 de Outubro de 1910: o comissário naval Machado Santos, de 35 anos, dirige-se ao quartel de Infantaria 16, em Campo de Ourique. À uma hora, quando o pequeno cruzador Adamastor sinaliza a Revolução com três tiros, cerca de 200 soldados e civis entram em Artilharia 1, em Campolide, donde parte a marcha vitoriosa, enquadrada, em Alcântara e no Tejo, por marinheiros. Trinta e três horas depois, caíam oito séculos de Monarquia. A instauração da República é o grande feito português do século XX.

Quarta-feira, 5 de Outubro. São 8 horas, nesta manhã luminosa: a bandeira da República foi arvorada no castelo de S. Jorge, substituindo a azul e branca. Às 8, 20h, as tropas fiéis à Monarquia entregam-se, no Rossio, já vitoriadas. Ao Largo de S. Domingos, reduto da 1.a Divisão Militar que sustém a Monarquia, chega Machado Santos: são 8, 44h. Impõe a rendição. Manda que se apresse a proclamação da República.

Praças de marinha, artilharia e outros regimentos seguem, pela Rua do Ouro, para o Largo do Pelourinho, entre povo dando vivas à República. Na varanda da Câmara Municipal de Lisboa, com vereação republicana desde 1 de Novembro, assomam os responsáveis civis, com relevo para três membros do Directório do Partido Republicano Português: Francisco Eusébio Leão, José Relvas, Inocêncio Camacho Rodrigues, por ordem de assinatura do Auto da Proclamação da República Portuguesa.

Segundo este auto, redigido «pelas oito horas e quarenta da manhã», Eusébio Leão, secretário do Directório, declarou «abolida a Monarquia em Portugal e todos os seus domínios e proclamada a República Portuguesa», cuja divisa seria «Ordem e Trabalho». Seguiu-se, por Inocêncio Camacho, a proposta de nomes do Governo Provisório. José Relvas incitou o povo — que, num anseio de liberdade, moralidade e justiça, redimira a Pátria Portuguesa — «a cooperar eficazmente na obra de reconstrução nacional». Louvou a cidade e tropas revolucionárias, também pela sua clemência para com os vencidos, e honrou os mortos. «Seguidamente foi arvorada no edifício dos Paços do Concelho a bandeira vermelha e verde, cores da bandeira sob a qual combateram os revolucionários.»

A História oficial, secundada pela Imprensa, remete a proclamação, por José Relvas, para as 9 horas. Segundo Raul Brandão (II, p. 21), «Às oito e meia está proclamada a República». O Diário de Notícias de 6 corrige para as 9 horas, mais plausível, se, como afirma a 3.a edição d’O Século, os membros do Directório «foram às 8, 40 para a Câmara Municipal». Alguns indicam, mesmo, a proclamação às 11, demasiado tarde. Desde as 20h de segunda-feira, 3, Relvas e outros homens sem sono coordenam a Junta Revolucionária.

Terminava assim um processo inaugurado em 1876, quando se funda o Partido Republicano Português e nasce o Partido Progressista, que alterna no governo com o Partido Regenerador. O Partido Republicano e a Maçonaria serão os principais responsáveis pelo trabalho de propaganda e erosão do regime, em momentos-chave (1880: tricentenário da morte de Camões; 1882: centenário da morte do marquês de Pombal, que serve para campanha antijesuítica; 1890: Ultimatum; 1891: revolta republicana do Porto), que se agudizam entre 1906 e 1910 — já com a Carbonária e a Junta Liberal —, anos que traremos à boca de cena, dando, então, primazia às jornadas de 3, 4 e 5 de Outubro.

O Directório do Partido Republicano defende, a partir de 1909, a Revolução pelas armas. O almirante Cândido dos Reis é o elo de ligação às tropas, e seu chefe. O professor Miguel Bombarda coordena as estruturas civis, que deverão apoiar os soldados.

No Verão de 1910, uma campanha internacional do Partido Republicano anuncia à Europa, aos Estados Unidos e ao Brasil o triste estado do país — anuncia, de facto, a Revolução, dando garantias às potências.

Subitamente, em 1 de Outubro de 1910, os marinheiros precipitam os acontecimentos; sucedem-se desencontros, na preparação do exército; a 3, Miguel Bombarda é assassinado; e, ainda mal acordavam os regimentos, na madrugada de 4, Cândido dos Reis suicida-se.

A Junta Revolucionária controla os danos, enquanto um obscuro oficial de marinha, Machado Santos, resiste na Rotunda e, com populares, afasta a ameaça de Paiva Couceiro, rara nobreza de herói que o último governo da Monarquia não acompanhou.

A 3, rei e gabinete ministerial jantavam em Belém, convidados pelo Presidente eleito do Brasil, de passagem por Portugal. A reacção é tardia, contraditória, confusa. Como em desfazer triste de feira, o governo nem se despediu do jovem D. Manuel II e família, a caminho do exílio.

3 comentários:

O BAR DO OSSIAN disse...

Em 80 tivemos a década «vamos todos devorar o cadáver do Pessoa»... Nesta que entra quem sabe assistiremos a uma nova antropofagia cultural; a verdade é que o papel foi uma grande invenção...

Anónimo disse...

Se me dessem uma nota de 500 euros pelos romances, ensaios, tentativas de recriação histórica sobre o 5 de Outubro que saem nestes dias, estava rico. Todos os dias aparecem historiadores novos, saídos debaixo de cada pedra pontapeada. Bem dizia Pinho Leal que a maioria dos livros de luxo que saem são lixo.

Anónimo disse...

Há sempre lugar... para mais um 5 de Outubro! JCN

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