terça-feira, 17 de junho de 2025

FICAMOS A SABER QUE HÁ UMA BOA E UMA MÁ IDEOLOGIA NA EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA

Por dever de ofício, revisitei recentemente, no site da Direção-Geral da Educação, os documentos de "educação financeira", um dos domínios da área curricular de "Cidadania e Desenvolvimento".
 
Percebi que tinha havido actualizações no sentido de reforçar o domínio (aqui, aqui e aqui, por exemplo). Em resultado escrevi um texto, que a seu tempo publicarei neste blogue, sobre o pendor marcadamente ideológico da área, tal como ela se apresenta. 
 
Ontem vi no blogue de Paulo Guinote (aqui) o que se segue, retirado do Programa do XXV Governo Constitucional (aqui):

O título que deu ao post foi, e muito bem, "A Piada Faz-se Sozinha".
 
Será que o domínio designado por Educação para os Direitos Humanos está cativo de "amarras e agendas ideológicas? Os direitos humanos são ideologia?!

Quanto à educação ou literacia financeira, tomadas erradamente como sinónimos, extraí do dito Programa, que ainda não havia consultado (os sublinhados são meus):
 
"Elevar o nível de literacia financeira da população, nomeadamente nas matérias relativas à segurança social, poupança e preparação para a reforma (p. 14).
Apostar na elevação do nível de literacia financeira da população, nomeadamente nas matérias relativas à segurança social, poupança e preparação para a reforma. Sendo esta necessidade mais premente entre as gerações mais jovens de trabalhadores, propõe-se que estes três temas integrem o plano nacional de formação financeira, em articulação com o Conselho Nacional de Supervisores Financeiros, com a preparação de materiais formativos dirigidos a diferentes públicos em função da interação das pessoas com a Segurança Social ao longo do seu ciclo de vida (p. 210).
 
Aqui as "amarras e agendas ideológicas" parecem-me óbvias... Se o leitor ficar com dúvidas pode consultar o site que acima indiquei.
 
Também é dito no Programa:
 
Garantir a implementação dos conteúdos de literacia financeira como conteúdos obrigatórios já no próximo ano letivo 2025/2026 (p.167)
 
Ora, os conteúdos que conheço de literacia financeira constam no Referencial de Educação Financeira que não é uma directriz, um programa oficial, é um "documento orientador" "não prescritivo" (p. 6).

4 comentários:

Mário R. Gonçalves disse...

Só uma notinha. "Será que os Direitos Humanos são uma ideologia" , pergunta. Para grande parte da humanidade, os direitos humanos básicos não são ideologia, são um direito, à nascença, obviamente. O direito à livre locomoção e residência no país natal já é mais questionável. O direito à propriedade também, sendo bastante 'ideológico'. O direito à instrução " promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz" é absolutamente político. E, finalmente, para a larga maioria da população sob regimes que estão no poder em Ásia, no Médio Oriente, em África , sim, os direitos humanos são uma ideologia. Erradamente, mas são. Para um islâmico por exemplo, são.

Helena Damião disse...

Prezado Leitor, a pergunta (Os direitos humanos são ideologia?!) era, naturalmente, retórica. Ideologia aqui não tem o sentido de campo de estudo das ideias, nem de ideal formativo que se quer alcançar, tem o sentido que se tornou trivial, de inculcação de ideias particulares a outrem. Os direitos humanos não são ideias particulares a inculcar, traduzem valores estimados pela comunidade humana e que devem ser particularmente estimados na escola. No caso concreto do Programa do Governo dá-se a entender - pelo menos foi assim que entendi - que todos os domínios, com excepção do de educação financeira estão ancorados em ideologia(s). Cordialmente, MHDamião

Carlos Ricardo Soares disse...

Como tudo, o ser bom ou mau é um problema de valoração ética, moral, ou simplesmente de sobrevivência. O ser ideológico, por si só, não colocando qualquer problema, não pode ser bom nem mau. É como uma coisa qualquer, uma pedra, um fruto, uma estrela, o Big-bang. Ideológico é da natureza da cultura, do humano. A linguagem é ideologia, ou está impregnada de ideologia. Ideologia é a matéria prima de algo que não consegue esconder aquilo de que é feito. O ser ideológico é como ser oxigénio. A ideologia, como o oxigénio, está em toda parte, invisível, mas essencial. Nós vivemos, pensamos, amamos, julgamos e agimos dentro de atmosferas ideológicas.
E assim como o oxigénio pode ser vital ou tóxico, dependendo da dose e do contexto, as ideologias também podem nutrir ou envenenar. Uma ideologia pode inspirar justiça e liberdade, ou aprisionar em preconceitos e desigualdades.
Talvez o mais importante seja ganhar consciência do ar que respiramos, ou seja, desenvolver um olhar atento sobre as ideias que naturalizamos e sobre aquelas que poderíamos reinventar.
O que faz a diferença é a nossa ideologia não se compatibilizar com as outras e não sermos capazes de conviver e de conciliar a nossa visão com a visão dos outros. Este problema costuma consistir em disputas por poder, porque ideologias não são apenas ideias. Elas moldam políticas, instituições, privilégios.
Se não temos forma de demonstrar que a nossa ideologia deve prevalecer, então devemos aceitar, no plano da ação política, uma negociação. Não no sentido de ceder princípios, mas de reconhecer que, num mundo plural, o convívio exige escuta, mediação e construção coletiva. A política vive da arte do possível.
Como dizia Norberto Bobbio, a democracia não é o regime da verdade absoluta, mas o da convivência entre incertezas.
À primeira vista, pelo que significa educar (“fazer sair” ou “conduzir para fora”, do latim educare, ligado à ideia de cultivar, desenvolver, orientar. Não é só transmitir conteúdo, mas despertar potência, revelar possibilidades que ainda não floresceram) a educação acontece numa dialética complexa entre aquilo que é e aquilo que deve ser, sem esquecer que este dever-ser está em constante reformulação. O que, ontem, devia ser, hoje pode já ser diferente, no entanto, o que foi não pode ser modificado, assim como muitas das suas consequências e efeitos.
Pensar em que deve consistir a educação é, no fundo, pensar no tipo de ser humano e de mundo que queremos cultivar.
Que horizontes poéticos e políticos seremos capazes de abrir com a trangalhadança horrível das bombas a demolir e a incinerar o resultado de todos os nossos esforços? Que poema seremos capazes de escrever quando o chão treme? Que poema podemos salvar do apocalipse? O que resiste? O que diz “estamos aqui!”?

Anónimo disse...


"Elevar o nível de literacia financeira da população, nomeadamente nas matérias relativas à segurança social, poupança e preparação para a reforma" . Aí está o encaminhamento para o fim da segurança social e para o fim do estado social!

"A escola como plataforma do comércio"

    Artigo de opinião do Professor Mário Frota, especialista em Direito do Consumo, publicado no jornal As Beiras de hoje, 12 de Maio de 20...