domingo, 7 de novembro de 2021

LUZ SOBRE A “IDADE DAS TREVAS”


 Meu artigo no último JL:

As expressões “idade das trevas” ou “noite de dez séculos” são hoje reconhecidamente desajustadas para designar a Idade Média. A primeira surgiu logo no início do século XIV, quando Petrarca quis contrastar a Antiguidade Clássica com o tempo após a queda do Império Romano do Ocidente. No século XVI, o cardeal César Barónio, historiador da Igreja Católica, usou  o termo saeculum obscurum para designar os tempos da transição do primeiro para o segundo milénio, dos quais havia muito poucos documentos. No Iluminismo, o uso dessas expressões e outras aparentadas acentuou-se, na clara tentava de contrastar os tempos pós-renascentistas com aqueles que os antecederam: a «Idade da Razão» devia contrastar com a «Idade da Fé». O Romantismo veio, porém, de várias maneiras reabilitar o tempo medieval, cultivando temas e enaltecendo pessoas dessa época.

A historiografia evita hoje esse tipo de expressões uma vez que são mais bem conhecidas as «luzes» da Idade Média. Essa atitude extravasou para o dia-a-dia: há até polémicas recentes na política por causa do uso da palavra «medieval» como sinónimo de «bárbaro». De facto, o tempo medieval legou-nos uma extraordinária instituição que perdura: a universidade. E legou-nos tecnologias como os óculos e os relógios mecânicos. Além disso, foi na Idade Média que, através da intermediação árabe e dos monges copistas, que se transmitiram os preciosos saberes da Antiguidade.

O historiador inglês Seb Falk, jovem professor de História da Ciência  na Universidade de Cambridge, publicou na Penguin no ano passado um livro que no original se intitula The Light Ages. A Medieval Journey of Discovery. O livro, a primeira obra do autor, muito bem acolhido pela crítica e pelo público, acaba de sair entre nós na Bertrand Editora, em tradução de Elsa T. S. Vieira intitulada A Idade Média. A Verdadeira Idade das Luzes. O autor apresenta a vida e a obra de um obscuro monge beneditino inglês, John Westwyk (c. 1350 - c. 1400), que viveu na imponente Abadia de St. Albans, a uns 30 km a noroeste de Londres. Westwyk foi matemático, astrónomo, instrumentista e, embora a expedição tenha falhado, um cruzado. Apesar da falta de documentação sobre o biografado, Falk conseguiu escrever um livro de 471 páginas, que se lê como um romance e que serve, mais do que para apresentar o personagem, para apresentar a ciência medieval.

Havia ciência no século XIV? A palavra latina scientia significa conhecimento, que obviamente existia. O rei D. Dinis, com  Scientiae Thesaurus Mirabilis («O maravilhoso tesouro da ciência»), o documento de 1290 que criou a Universidade de Coimbra (estabelecida em Lisboa), pretendia reforçar o conhecimento no nosso país. Não existia ainda o termo «cientista» para designar aquele que pratica a ciência usando o método científico, pois esse termo só foi cunhado no século XIX. O monge inglês, não sendo um cientista no sentido actual, procurava o conhecimento com os meios à sua disposição, fazendo avançar a ciência da sua época. A sua obra maior, escrita em inglês arcaico, intitulada The Equatorie of the Planetis. Descreve o equatorial, um instrumento que permite determinar as posições dos astros sem fazer cálculos. O livro de Falk começa com a fascinante história da descoberta desse manuscrito, o MS-75. O físico e historiador de ciência Derek de Solla Price consultou, nos anos 1950, na biblioteca medieval da Peterhouse, o colégio mais antigo de Cambridge (a Universidade de Cambridge remonta a 1209), o MS-75, tendo nele identificado  o nome de Chaucer. Julgou, com alvoroço, estar na presença de um segundo trabalho científico do escritor inglês Geoffrey Chaucer (c. 1343 – 1400), considerado o maior antes de Shakespeare: é o autor dos Canterbury Tales, que inaugura a literatura inglesa. Ora, mostrando que ciência e literatura não são incompatíveis, Chaucer é também o autor do A Treatise on the Astrolabe, um manual de instruções do astrolábio, instrumento para medir a altura dos astros que remonta aos antigos gregos, foi melhorado pelos árabes, e que os portugueses adaptaram no tempo dos Descobrimentos para o uso em alto mar. Chaucer descreveu, em inglês e não em latim, o modo de usar um astrolábio. Price, que haveria de emigrar para os Estados Unidos para ser professor na Universidade de Yale, estava equivocado. Em 2014, a historiadora norueguesa Kari Anne Rand concluiu, por comparação caligráfica, que o MS-75 era afinal da autoria de Westwyk.

Seb Falk, que foi nomeado pela BBC New Generation Thinker, tem uma enorme domínio da matemática e a astronomia medievais, incluindo o uso de astrolábios e equatoriais. Além disso, é velejador e montanhista, sabendo orientar-se pelas estrelas. É ainda corredor de maratona. E sabe escrever, como mostra este trecho do seu livro: «Na viagem de Westwyk pela ciência medieval, conheceremos um elenco de personagens fascinantes, nenhum dos quais é um nome famoso. O judeu espanhol convertido ao cristianismo que ensinou tudo sobre eclipses a um monge lotaríngio em Worcestershire; o abade relojoeiro inglês com lepra; o artesão francês transformado em espião; o polímata persa que fundou o observatório mais avançado do mundo. A ciência medieval era um empreendimento internacional, tal como a ciência de hoje (…). As crenças religiosas estimularam a investigação cientifica, mas as pessoas profundamente devotas não tinham qualquer problema em adoptar teorias de outras fés.» Esta posição contrasta com outra, baseada no julgamento de Galileu pela Inquisição e mais corrente, segundo a qual o poder da razão contraria o poder da fé. De facto, o sábio pisano tinha na sua cabeça a razão em bom equilíbrio com a fé. Disse ele que «o Espírito ensina como ir para o Céu e não como é o céu».

Este livro colocará o leitor em plena Idade Média, a fazer ciência com o monge beneditino. Aprenderá contar pelos dedos até 9999 e a fazer horóscopos. De facto, a ciência ainda não dispunha do método que tanto poder lhe deu, mas já era uma prática partilhada baseada no contacto estreito com a realidade.

3 comentários:

  1. Professor em Inglaterra, o historiador francês Jean Gimpel escreveu em 1977 'A Revolução Industrial da Idade Média', onde conta uma série de descobertas tecnológicas inglesas desse período, de uso muito prático, umas aceites e desenvolvidas, outras não.

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  2. Obrigado pela referência, que não conhecia...

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  3. A história sendo desvendada ao poucos. Excelente matéria.

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