terça-feira, 19 de setembro de 2023

VIVER SEM SENTIDO

Voltando às perguntas sérias… sem resposta! 

Se a vida pode bem ter sabor,
não é certo que ela tenha sentido. 
Ter sabor é o mesmo que ter calor,
não é triunfo por nós conseguido.

O sabor é fruído mas passivo,
inventado seria o sentido
que não fosse apenas subjectivo,
mas objectivamente conseguido.

Mas como dar à vida algum sentido,
quando tudo, nela, parece absurdo?
Se, ao sentido, se tenta dar ouvido,

por que permanece este tão surdo?
Pode, então, viver-se sem sentido?
Posso eu achar-me, estando perdido?

Eugénio Lisboa

2 comentários:

Carlos Ricardo Soares disse...

A questão do sentido da vida, do bem e do mal, do universo, das coisas, do sentido (do sentido do sentido) não se coloca a toda a gente, ou, por outras palavras, nem toda a gente a coloca, ou se coloca essa questão.
Como quase todas as questões, não é necessária. E as questões que não são necessárias são vistas como inúteis e ociosas. Só poetas e filósofos tentam por todos os meios fazer com que sejam questões com sentido.
A questão do sentido da vida, os filósofos. A questão da vida, do sentimento da vida, os poetas.
Mas, para que essa questão do sentido da vida seja uma questão com sentido (não uma questão com resposta ou solução), já se ocupam, cada vez mais pensadores, a questionar a vida e a história, o desenvolvimento tecnológico e, sobretudo, a vida que as pessoas fazem, o modelo económico e o estilo de vida herdados da revolução industrial e que sobreviveram às I e II guerras mundiais que, aliás, tiveram efeitos aceleradores e propulsores, com as consequências que estamos a ver. Sobre as possibilidades de sobrevivência num mundo organizado segundo o modelo actual (falacioso e inexequível) de abundância para todos, ou, teoricamente, de riqueza para todos, casa, piscina e carro para todos, nem é uma questão de sentido, mas de contabilidade. Questão de sentido já pode ser: porque é que os responsáveis políticos continuam a apostar nesse modelo e a ganhar eleições defendendo-o, na China, na Índia, no Brasil, nos EUA, na UE, na Rússia, quando todos sabem que estão a vender uma falácia, ou seja, uma verdade que é mentira.
Verdade/mentira: pode-se ser o mais rico, ninguém, teoricamente, está excluído, à partida, do acesso ao topo da pirâmide, nem que seja por génio. /Dois biliões, ou três, ou mais, de seres humanos, porque têm direito, podem esperar e confiar que terão uma casa, alimentação, educação, lazer, uma vida digna, serviços de saúde, direito ao trabalho, à justiça e à paz.
Se um indivíduo nas suas lucubrações conclui que a vida não faz sentido, o universo não faz sentido, as suas palavras não fazem sentido, nada faz sentido, quem se sente no direito de o contrariar? Se um outro indivíduo pensa que a vida faz sentido, que tudo faz sentido, mesmo aquele indivíduo para quem nada faz sentido, quem se sente no dever de o contrariar? Ambos têm um sentido.
Se, porventura, alguma instância judicativa suprema e irrecorrível, ditadora de sentido, o ditasse, nada mudaria quanto à questão do sentido da vida que cada um adopta, ou adoptar.
Na realidade, a questão do sentido da vida é apenas uma questão, como tantas outras, não obstante, a resposta que alguém der a essa questão não deixará de ter repercussões na vida e nas vidas. É como responder a um teste na escola. Embora na escola os testes sejam sobre questões das quais já se presume saber a resposta (o que é extremamente limitativo e empobrecedor), todos os que fomos estudantes sabemos que as respostas que demos tiveram repercussões na nossa vida e na dos outros.
A tónica dominante, passe a redundância, é, continua a ser, o paradigma do puzzle, a realidade recortada de uma certa forma e, para a reconhecer, há que encaixar as peças, tal e qual como fizeram os sábios e os sacerdotes, de antanho, detentores das respostas e dos sentidos.
Num passado mais próximo, com todos os defeitos inerentes às enciclopédias, deu-se um passo em frente e, em vez de termos a resposta num livro sagrado, passamos a tê-la nas enciclopédias. Nada mau.
O que é difícil de aceitar e de vulgarizar é que, qualquer que seja a resposta que encontremos, seja em pedra lapidada, ou escrita na água, ela é uma construção operada por cada um de nós, boa ou má, certa ou errada, e não temos e não há outro remédio. Quem não gostar do termo construção, que parece muito braçal e indiferenciado, pode escolher outro, que pareça mais elegante e ajanotado.

Carlos Ricardo Soares disse...

Se um amigo me dissesse que a vida dele tem sentido, embora nem sempre e, passado um tempo, reconhecesse que, afinal, tinha perdido o sentido, eu diria que tudo isso faz sentido. Há imensas coisas falsas que fazem sentido.
Qualquer mentira faz sentido.
A esse amigo, eu era capaz de propor que, se precisava de um sentido, que escolhesse, que criasse o sentido que mais lhe agradasse, como se deve fazer quando se lê poemas. Se não precisasse de um sentido, que não se preocupasse, porque uma necessidade de sentido, em termos existenciais, ou económicos, não pode ser colmatada, ou satisfeita, com qualquer sentido imaginário, hipotético, ou sem sentido, a não ser que isso fosse uma arte ou uma filosofia criativas.

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