sábado, 2 de julho de 2022

Encontrem designação para romances que o não são

João Boavida

Há uma teoria que vem de Aristóteles e que ficou conhecida como Hilemorfismo que diz que em todas as coisas há uma matéria e uma forma. A matéria é aquilo com que se faz uma dada coisa, isto é, que lhe dá possibilidade de ser, e a forma é o que faz com que a matéria seja essa coisa, é o que nos permite ver e poder lidar com ela. 

Esta teoria, assim formulada simplesmente, teve muitos desenvolvimentos e interpretações ao longo da história e pode ser abordada num ponto de vista metafísico ou ontológico, lógico e, como é de prever, literário. 

É este que aqui os interessa.
E porquê?

Porque esta relação pode identificar-se, ou pôr-se em paralelo com uma outra dupla, potência - ato, que também vem de Aristóteles, e que se aplica sobretudo à realidade em movimento, em transformação, e que, por ventura, se aproximará mais do conceito de criação e de criatividade. 

Por ela entendemos que, para mudar, houve uma força que se pôs em ação, e que, portanto, a matéria adquiriu outra forma, e dessa transformação tomamos conhecimento pela sua nova forma. A matéria nunca aparece sem uma forma qualquer; ao transformar-se, a matéria adquiriu uma forma nova. Esta relação clássica matéria-forma torna-se em grande medida equivalente à dupla conteúdo- forma, que se aplica que nem luva à literatura. 

Todas as produções literárias têm um conteúdo e uma forma.

Em termos simples podemos considerar que conteúdo é o que o livro diz: ideias, relatos de factos e ações, acontecimentos, enredos, pensamento, perguntas, respostas, enfim tudo o que constitui matéria objetiva ou objetivável através de palavras e de estruturas sintáticas.

A forma é o modo como o conteúdo é apresentado, a modalidade que reveste, a maneira como se concretiza a matéria literal ou literária, ou seja, o seu produto final. São duas componentes interdependentes.

O conteúdo não pode viver sem uma dada forma, e esta tem que ter o seu conteúdo, seja isso o que for, caso contrário, seria tão vazia que seria uma inexistente; rigorosamente nem seria pensável.

O ideal é que o conteúdo seja apresentado na forma que melhor se lhe adeque; e, inversamente, a forma deve corresponder ou adequar-se o mais possível ao conteúdo. Aquilo que se quer transmitir – o conteúdo – exige uma forma específica, a qual deverá ser a mais eficaz para traduzir aquele conteúdo.

É aqui que a criatividade de um autor se pode e deve revelar, pois as capacidades de conceber, conceptualizar, reorganizar, estruturar, imaginar, intuir, relacionar, revelar, descobrir constituem as suas possibilidades, o seu mais valioso trunfo. Mas, por outro lado, tem que ter suficiente domínio da forma, ou seja, suficientes recursos, isto é, talento, trabalho, muita oficina, para que essa criatividade em ebulição encontre a forma que melhor consiga concretizar tal impulso

É assim que muitas boas ideias se perdem, porque o autor não lhes conseguiu dar as formas que mereciam; e muito escritor, artista plástico, músico, cineasta, etc. com talento, pode não produzir obra de mérito por falta de escola, de disciplina, de esforço ou de treino. Neste caso, o talento foi posto ao serviço de fracas e vulgares ideias. 

É claro que toda a obra tem que ir ao encontro de novo conteúdos e novas formas; toda a arte se manifesta por invenção e, portanto, por renovação, mas nunca pode fugir a esta dupla condição de toda a criação artística: a matéria, ou conteúdo, e a forma em que apresenta. 

É certo que as correntes vanguardistas que atravessaram o século XX (dadaistas, objetivistas, iracundistas, frenetistas, concretistas, letristas, existencialistas, estruturalistas, desconstrutivistas, novo-romance, etc.) exerceram sobre o romance, e não só, múltiplas influências que lhe deram configurações novas, muitas delas desestruturantes e experimentalistas. E houve até tentativas de esvaziar a matéria que à forma corresponde, ou deve corresponder, fundir o conteúdo com a forma, ou descoordenar de todo a matéria da forma. Mas levou quase sempre à demonstração prática da impossibilidade desse imaginada possibilidade, digamos assim, ou seja a um beco sem saída.

Tentar escrever sobre o nada é ainda escrever sobre alguma coisa, e se se avançar sobre essa coisa (que já é nada) até um nada mais completo, verificamos que sempre por nos foge, em suma, insistir em escrever sobre o nada é, em última análise, nada escrever, ou qualquer inexistência equivalente. 

Portanto, verdadeiramente, nunca uma forma deixou de ter um conteúdo e, inversamente, nunca um conteúdo, por mais vago e desestruturado que seja, conseguiu viver se uma forma. 

Não se julgue, por outro lado, que penso na “morte do romance”, como muitos andaram a vaticinar durante todo o século XX. Nem que se devam escrever romances como se faziam no século XIX, o século de oiro do romance, pois no século XX produziram-se grandes romances, uns mais acessíveis aos leitores, outros menos, mas com as características básicas de um romance. 

É claro que há livros considerados difíceis que, para leitores mais treinados, serão fáceis, e que mesmo os ininteligíveis para a maior parte poderão produzir alguma inteligibilidade interpretativa noutros leitores. Mas, podemos perguntar até que ponto é que uma obra destas se deve ainda classificar como romance. E observar que um produto literário tornado ininteligível é uma contradição lógica, uma destruição do próprio conceito.

A verdade é que, não sei se muitos, mas em certos casos já se chegou àquele ponto da evolução em que certos produtos literários só dificilmente se poderão dizer romances, apesar de exibirem a designação na folha de rosto e até na capa. Dizem-se romances, embora o não devessem pela falta de condições mínimas de conteúdo e de forma para o poder ser. Não estou a dizer que não sejam criações literárias, nem que não tenham eventualmente valor, nem sequer que não possam vir a ser consideradas grandes obras no futuro, mas que, em rigor, não deveriam ser classificadas como romances. Têm todo o direito à vida, mas estão a precisar de outra categoria literária mais de acordo com a forma que muitas vezes apresentam. 

João Boavida

7 comentários:

  1. O tema dos conteúdos e das formas é daqueles em que é bom, vale a pena, reflectir. Aliás, a reflexão altera sempre o conteúdo do nosso pensamento e memória, cujas formas nao são fixas, nem fixáveis. Se considerarmos que uma ideia adquire uma forma, por exemplo, escrita, até que ponto podemos garantir que o conteúdo dessa forma escrita é aquela ideia? De qualquer modo, há um conteúdo e microformas dessa forma escrita, como a tinta, o papel, as letras, que não são a ideia, nem a contêm, nem, em rigor, a exprimem, porque é o leitor que lhe encontra significado/conteúdo, já sob uma outra forma. Poder o autor da forma escrita, de algum modo, antecipar, esperar, prever, contar com o efeito que ela desencadeará/produzirá no leitor tem a ver com o conhecimento e familiaridade com as convenções da escrita e da linguagem como meio de comunicação.
    O conteúdo de um livro é, desde logo, papel e tinta. A tinta pode estar distribuída sob formas de letras, ou outros caracteres. Ao folhear, mesmo que saiba ler o que está escrito, essa forma de livro é também o conteúdo, enquanto não começar a ler. Quando começo a ler, a forma do livro mantém-se, mas o conteúdo ganha as formas e os conteúdos que o meu aparelho cognitivo lhe reconhecer. De qualquer modo, para cada leitor, estas formas e conteúdos serão diferentes.
    Quando fechar o livro, que formas e conteúdos foram alteradas? As formas e os conteúdos das minhas memórias? Dos meus pensamentos? Dos meus sentimentos? Dos meus circuitos neurológicos? Da minha corrente sanguínea? Das minhas pulsações cardíacas? Da acidez da minha boca?
    Por outro lado, o conteúdo material daquele livro, a tinta, o papel, as letras (por exemplo, não usar sequer todas as letras do alfabeto) podem ser a escrita de um célebre poema, ou famoso romance, ou tese filosófica, ou lista telefónica. O que faz a diferença, neste ponto, é a forma como o conteúdo está organizado.
    Dizer a uma criança que está a começar a aprender o abecedário e o alfabeto e os algarismos que todos os livros da biblioteca foram escritos com aquelas formas, ou que é possível escrever outros tantos com aquelas formas, não é dizer-lhes que o conteúdo desses livros se resume a esses caracteres, nem, muito menos, que esses caracteres que a criança vê no quadro, contêm ou são a forma dos livros.

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  2. O conteúdo do livro pode ser tudo, mas isso é aquilo de que o livro precisa para ser livro. E para ser literatura tem que ter matéria literária, pois pode ser um livro de faturas, e, como todo o respeito pelos contabilistas, isso ainda não é - ou não deve ser - obra literária. É claro que podemos dizer que ao folhear um livro de faturas podemos imaginar muitas coisas, mas o mesmo poderá acontecer ao folhearmos um desses famosos "livros brancos" que há alguns anos um patusco imaginou, pondo à venda, nas livrarias, cadernos de apontamentos, de simples folhas brancas, pelo preço de obras literárias. Que serão por certo suscetíveis de imensas interpretações, tão variadas e ricas quantos os "leitores" e que, segundo parece, foi um "sucesso literário". Tudo é possível, mas ainda nos resta o direito - prenso eu - de considerar aquilo uma brincadeira.

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  3. A água não tem forma própria. É apenas matéria, conteúdo.
    A garrafa de Klein tem conteúdo? Só forma.
    Conclusão: Pode haver existência ou sem forma ou sem conteúdo.

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  4. A água tem sempre a forma do que a contém ou condiciona.

    Por outro lado, se uma obra literária, por hipótese, chegasse ao apuro de não ter dentro nem fora é porque alcançara a absoluta perfeição em que conteúdo e forma se identificavam integralmente

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  5. A relação das partes com o todo (que é sempre, por sua vez, uma parte de uma parte maior) é uma relação de umas formas com outras, cada uma contendo outras, mas sendo contida por outras.
    Mas a questão do vácuo interpela-me de vários modos. Não sei o que é o vácuo. Não sei se o vácuo acontece ou aconteceu alguma vez, por exemplo, se algo que existe, submetido à vacuização, deixou de existir, por força da vacuização. Será esta força mais uma a acrescentar às reconhecidas forças da natureza?
    No vácuo, a força da gravidade “deixou de funcionar” (não me digam “deixa de funcionar”)? O espaço e o tempo foram suprimidos? O nada foi criado? Deixou de haver movimento?
    Os físicos não terão dificuldade em esclarecer uma dúvida tão básica, se calhar não mais do que uma questão de linguagem, mas poderá alguém aspirar sequer a entrar /estar num lugar vazio?

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  6. Todo o imaginável terá que ter um conteúdo para ser imaginado, e uma forma sem a qual não irá além de o poder ser.

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  7. Salvo melhor opinião, penso que o vazio físico, ou o vácuo, não nos interessa aqui muito. Um vazio, ou vácuo, ou está dentro de um espaço limitado, e terá a forma desse espaço, ou reservatório, ou o pensamos em termos astrais e, para assim o pensarmos, temos que o conceber como uma entidade qualquer, pois se assim não for nem sequer o poderemos pensar como vácuo, ou vazio. A matéria desse vácuo é ainda o vácuo delimitado pela forma que o contém, e mediante a qual se nos apresenta de alguma maneira. Perguntar-me-ão, mas que conteúdo é esse? É aquilo, seja o que for, mesmo que não seja fisicamente nada, em que penso ou que intuo, ou que imagino, quando penso , intuo ou imagino esse vazio condicionado por um limite qualquer.
    E volto ao comentário anterior: imaginável é o que se pode imaginar, mas, ao imaginá-lo, ganha um conteúdo que é aquilo que a forma representa e que me permite concebê-lo, e, portanto, formar dele um conceito.

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