quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Apontamentos para a compreensão da polémica António Sérgio (1883-1969) vs. Abel Salazar (1889-1946) - I


Novo post do historiador António Mota de Aguiar (na figura António Sérgio):

António Sérgio foi um pensador polemista por natureza e avezo a sistematizações, tendo ao longo da vida mantido polémicas com vários intelectuais do seu tempo: na década de 1910 polemiza com Jaime Cortesão e Teixeira Pascoaes a respeito de matérias de identidade nacional; na década de 1920 polemiza com António Sardinha do Integralismo Lusitano em torno da interpretação da História de Portugal e com Cabral de Moncada a respeito do pensamento político português; na década de 1930 será com Casais Monteiro e João Gaspar Simões do grupo literário "Presença." Ainda na década de 1930 com Abel Salazar sobre divulgação da ciência e com Leonardo Coimbra sobre educação. As suas últimas polémicas foram com Bento Jesus Caraça e António José Saraiva.

António Sérgio tinha da polémica uma concepção elevada no debate das ideias, dizia ele que: "A polémica é necessária ao progredir científico, ao avançar da cultura." Contudo, na defesa das suas teses, Sérgio não teve sempre razão, sobretudo em matérias de ciência, uma vez que a sua formação científica não era muito profunda, por isso se discorda tanto das suas teses, e se compreende algum apagamento a que chegou hoje o seu nome.

Isso não impede que Sérgio tenha sido um dos grandes animadores culturais da primeira metade do século XX, de pensamento insubmisso e livre, lutou contra as ideias totalitárias do Estado Novo, sendo várias vezes preso.

António Sérgio nasceu em Damão em 1883, tinha origem indiana por parte da mãe, além de uma ascendência nobiliárquica por parte do avô, o almirante Sérgio de Sousa, ajudante-de-campo do rei D. Luís e governador-geral do Estado da Índia. Seu pai fora vice-almirante e Governador do Distrito de Damão. O jovem António Sérgio é, portanto, oriundo de uma família fidalga do liberalismo português quando ainda com 2 meses de idade o trazem para Lisboa. Com a idade de 6 anos acompanha o pai para Angola onde este ocupará o lugar de governador do distrito do Congo.

Com 11 anos ingressa no Real Colégio Militar e, aos 18 anos, entra para a armada, onde terminou o curso da Escola Naval. Em 1905 parte para Macau, no ano seguinte está em Newcastle. Em 1907 é promovido a segundo-tenente e colocado na Estação Naval de Cabo Verde.

António Sérgio não foi afecto à Monarquia, mas tão pouco via na República a solução dos problemas de Portugal, porém, quando em 1910 se implanta a República, dá um giro à sua vida e liga-se às correntes republicanas intelectuais do seu tempo, pondo em evidência o seu perfil de pedagogo, que manterá até ao fim da vida.

Até ao princípio da década de 1930 participará nas principais revistas literárias de então: Serões, Águia, Seara Nova, e participa no movimento Renascença Portuguesa, ao lado de intelectuais do seu tempo, afirmando-se "aristocrata" e "socialista",

Nestes 20 anos seguintes à implantação da República Sérgio viajará muito: viverá no Brasil, visita várias cidades da Europa, faz estadias prolongadas por razões de saúde na Suíça e em Nice e constrói o seu sistema de análise crítica da História de Portugal e da Europa. Ligado aos movimentos culturais da capital, fortalece nesses 20 anos os seus principais ideais filosóficos.
É principalmente neste período que construirá o seu sistema filosófico-científico e as suas teses económicas, ao qual o seu nome ficou associado como cooperativista.

Quando começa a década de 1930 António Sérgio tem 47 anos, sendo seis anos mais velho que Abel Salazar. Porém, o seu percurso humano, existencial, é completamente distinto daquele efectuado por Abel Salazar.

Ao contrário de António Sérgio, filho de monárquicos, o pai de Abel Salazar foi um homem afecto aos problemas da 'res-publica'. No ano lectivo de 1881-1882, foi, por razões profissionais, enviado para o Porto, tendo deixado Abel Salazar e seu irmão Camilo em Guimarães, entregues aos cuidados da avó e da tia. No ano lectivo de 1899-1900, com dez anos de idade, ingressou no Seminário-liceu de Guimarães de onde guardou deste tempo amargas e perduráveis recordações, pela obscura e intransigente educação religiosa ministrada neste estabelecimento.
Provavelmente, a sua infância e adolescência foram influenciadas por estes anos de seminário e concorreram para a sua posterior "instabilidade emocional." Acrescente-se ainda uma união conjugal infeliz, que o terá atormentado ao longo da vida.

Ao contrário de Sérgio, que como já dissemos, não fora afecto à Monarquia, mas que também não via na República a solução milagrosa dos problemas nacionais, e que na correspondência com Raul Proença escreveu várias vezes que “para mim a Monarquia vale a República”, e que colocava os seus ideias de progresso para Portugal numa solução que estaria para lá dos dois sistemas jurídico-políticos, Abel Salazar ainda jovem aderiu ao ideal republicano e via na República o passo necessário para o progresso de Portugal. Nas primeiras décadas do século XX, são duas concepções diferentes de ver a História de Portugal.

Em 1915, quando terminou o curso universitário, Abel Salazar enveredou pela carreira de investigador científico na área de histologia e, no ano seguinte, é nomeado pela Faculdade de Medicina do Porto para reger esta cadeira. Pouco tempo depois, com 30 anos, é nomeado Professor Catedrático de Histologia e Embriologia da mesma Faculdade, fundando algum tempo depois o mesmo Instituto. Começaria por estes anos a sua carreira de investigador científico que o tornariam internacionalmente conhecido.

Em 1927 Abel Salazar sofreu um esgotamento, motivado por várias causas: excesso de trabalho, conflitos com os colegas na universidade, pela doença grave que sofria a mãe, e por excesso de tabaco, esgotamento também facilitado pela sua "instabilidade emocional". Retira-se então para uma casa de repouso (no fundo, uma casa para alienados mentais), durante cerca de 4 anos.
Em 1931, quando regressa, encontra o seu gabinete desmantelado. É por essa altura que começa a sua intervenção como filósofo neo-positivista, através de conferências de divulgação científica e, a partir de 1935, escrevendo em vários periódicos: O Trabalho, A Voz da Justiça, O Diabo, O Sol Nascente, a Seara Nova, Pensamento, etc., e em muitos jornais da província, como A Ideia Livre de Anadia. Neste último, iniciou uma série de artigos sobre A Falência da Metafísica, cuja síntese iniciei neste blogue em Maio de 2011.

Nestes artigos Abel Salazar defendia, por um lado, a irredutível incompatibilidade entre a ciência e a metafísica, a irreversível decadência histórica da metafísica e sua carência de sentido e, por outro lado, a visão do mundo e da vida que o empirismo lógico da Escola de Viena veiculava.

É também por esta altura que começa a ser seriamente perseguido pela ditadura fascista que, nos anos 1930 redobrava de vigor, quer pela implementação da Constituição de 1933, quer pela força que o fascismo e o estalinismo ganhavam e exerciam tragicamente no mundo inteiro.

Neste sentido, também António Sérgio fora (e seria) perseguido pela ditadura, e algumas vezes preso. Como opositores da ditadura, ambos contribuíram, cada um à sua maneira, para o seu posterior derrube. Ambos pertenceram a movimentos de esquerda opositores ao regime político de então, ambos cobriam o espaço político não comunista, embora certamente fossem de famílias políticas diferentes. Não foi, portanto, por razões políticas que se desentenderam.

As breves biografias que acima tracei destes dois homens, mostram bem que tiveram percursos de vida bem diferentes um do outro, o que ajuda a compreender as posições que tomaram quando da polémica que viriam a ter sobre a divulgação da ciência. Diga-se, contudo, que, se não fosse pelo tom exaltado que esta polémica suscitou, seria apenas uma polémica mais para a História da cultura portuguesa.

(Continua)

António Mota de Aguiar

4 comentários:

  1. Joaquim Manuel Ildefonso Dias4 de janeiro de 2012 às 10:38

    Transcrevo parte de uma carta de Abel Salazar dirigida ao Professor Bento de Jesus Caraça(Bento de Jesus Caraça - Semeador de Cultura e Cidadania - Campo das Letras, pag.527);
    […] “Foi por indicação dele próprio que fui ler a nota do Vol III dos Ensaios e nessa nota, com estupefacção minha, fui encontrar textos alheios que o Sr. Sérgio apresenta como seus. Um desses textos é precisamente de Carnap, copiado directa ou indirectamente do primeiro fascículo do Erkenntnis.
    […] Quer dizer o Sr. Sérgio, apresenta-nos como sua, na referida nota, a teoria da lógica das relações, que tem mais de 60 anos de existência.
    […] Folheei os ensaios e fiquei, de resto, edificado. Que tal bluff exista e que um país o aceite, eis o que me enche de inquietação – e ao mesmo tempo de revolta.”
    Professor António Mota Aguiar, os motivos para a existência inquietação e revolta nos nossos dias persistem, e adensam-se neste país.
    Obrigado por este excelente post.

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  2. Joaquim Manuel Ildefonso Dias4 de janeiro de 2012 às 19:27

    Professor António Mota de Aguiar, classifiquei o seu artigo do seu 1º post, de excelente, no meu anterior comentário, pela perspectiva de discussão e debate que nos deixa;
    No entanto, manifesto-lhe a minha discordância relativamente ao que escreve no 2º parágrafo do post; quando afirma que “António Sérgio tinha da polémica uma concepção elevada no debate das ideias, dizia ele que:….”
    Na polémica, com Bento de Jesus Caraça, que conhece, porque a refere, encontramos um TESTEMUNHO de que a concepção elevada no debate das ideias não foi sempre a linha condutora da acção de António Sérgio; se assim não fosse, não teria Bento de Jesus Caraça escrito: (Bento Jesus Caraça, conferencias e outros escritos – pág. 317, Lisboa 1970).
    “É evidente que, nesta minha conversa com António Sérgio, está largamente ultrapassado aquele ponto morto para além do qual estão perdidas as condições necessárias para um completo esclarecimento dos problemas em debate”.
    […] Se a conversa se passasse entre dois homens com a mesma formação mental (embora com ideias diferentes!) o seguimento não podia deixar de ser este:
    António Sérgio ou respondia – tem razão – e a questão estava morta, ou replicava: O Sr. Fulano diz-me que a «operação algébrica» não existe; existe tal – é a entidade matemática definida desta maneira (e dava a definição) e com estas propriedades (e dava as propriedades). Em seguida, uma só de duas coisas era possível – ou eu respondia tem V. razão, desculpe, ou então impugnava a definição ou as propriedades.
    Fez António Sérgio alguma daquelas coisas? O que ele fez, e que ficará como um documento da nossa vida intelectual nos tempos que vivemos, está, bem patente, no fasc. VI, pág. 46 desta revista. Dai, o tom da minha resposta, que atribui a «mau humor» e que não representa mais que um sentimento de repulsa pelo emprego de tais processos de discussão.”


    E, porque ao Historiador interessa o testemunho, estou certo que avaliará a minha discordância nas suas palavras, na perspectiva de um bom debate.

    Com os cumprimentos muito cordiais

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  3. António Mota de Aguiar5 de janeiro de 2012 às 18:23

    Meu Caro Joaquim Manuel Ildefonso Dias,

    Muito obrigado pelas suas observações e pela classificação que dá do meu post. A qualidade das suas observações vieram enriquecer o meu post.

    De facto, conclui que se António Sérgio pensava que "A polémica é necessária ao progredir científico, ao avançar da cultura" é porque "tinha da polémica uma concepção elevada no debate das ideias...". Um silogismo um pouco apressado da minha parte e, segundo as leituras da correspondência que me dá com Bento de Jesus Caraça, não muito correcto.

    Penso levar para a frente - não de imediato - esta investigação e abarcar as partes menos conhecidas da personalidade de António Sérgio e tentar compreender o papel que ele teve na História da Cultura portuguesa, esperando tê-lo de novo como leitor do meu futuro post.

    Com os meus melhores cumprimentos.

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  4. Do bigodinho os homens eu detesto,
    que me fazem lembrar contabilistas
    à Fernando Pessoa, que de resto
    parecem tudo... menos humanistas!

    JCN

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