“Por que razão continuamos a falar de Narciso, Ícaro, Prometeu, Sísifo ou Antígona em pleno século XXI? O que podem dizer-nos os mitos gregos na era dos algoritmos, do stress, da hiperconectividade e da pós-verdade? Pedro José Grande oferece uma resposta clara: estas narrativas antigas continuam a ser ferramentas poderosas para compreendermos e imaginarmos outras formas de viver. Os mitos não são relíquias do passado, mas linguagens simbólicas que iluminam as nossas contradições mais atuais.
Ao longo de 40 capítulos breves e acessíveis, o livro percorre os grandes mitos da Grécia clássica e coloca-os em diálogo com os desafios contemporâneos: redes sociais, vigilância digital, crise emocional, consumismo, dopamina, identidade líquida, burnout, polarização, amor, feminismo, violência, ecologia, dissidência… Cada mito torna-se, assim, um espelho inesperado do que somos e do que poderíamos ser.
Para esta viagem, o autor reúne uma ampla gama de escritores e filósofos cujas ideias atualizam e revitalizam os mitos, tecendo uma ponte entre a sabedoria antiga e os dilemas do presente. O resultado é um livro que nos convida a parar, a refletir e a examinar a nossa vida quotidiana com uma nova profundidade.”
É o passado sempre presente, o passado que nos ensina e nos leva, ou devia levar, a reflectir, a extrair lições para o presente. Na verdade, a mitologia greco-romana é uma fonte inesgotável de ensinamentos. Colocando deuses e homens, mortais e imortais numa convivência natural, mostra-nos também os limites do humano, a forma como os deuses superiores castigavam os que ultrapassavam esses limites.
Vale a pena ler o artigo que, sobre esta obra, escreveu um outro filósofo espanhol, Carlos Díaz, no jornal El Imparcial, no dia 10 de Março de 2026 (ver aqui) e do qual extraímos alguns parágrafos:
“... o livro a que nos referimos constitui um exemplo brilhante da relação entre os elegantes mitos helénicos e os contemporâneos, cheios dessa néscia sabedoria, “novólatra e quantofrénica” pendente da última imbecilidade de algum influencer ou tiktoker [...]
Com efeito, Homero, com a sua visão complexa da relação entre deuses e mortais, levanta questões profundas. Ulisses encontra o seu pleno sentido na luta para regressar a casa, a Odisseia é uma fuga existencial ao tédio, na qual o protagonista enfrenta provações e desafios que desafiam o seu engenho, valentia e resistência. Estas experiências permitem que ele descubra aspectos mais profundos de sua própria humanidade. [...]
O mito de Argos, com os seus olhos que se estendem por todo o corpo, é “um olhar crítico sobre as redes sociais que, na sua análise do panopticismo, descreve um modelo de poder que não precisa de punir para disciplinar, porque o sujeito se autocensura ao saber que está a ser permanentemente observado; as redes sociais reproduzem com precisão essa lógica” (p. 17).
Eco é a perda da voz, da comunicação em tempos de ruído, porque “os indivíduos, em vez de afirmarem a sua voz única, ficam presos numa dinâmica de repetição dos discursos alheios; seja na forma de memes, hashtags, frases feitas ou tendências impostas por algoritmos, tornamo-nos ecos do que foi dito” (p. 28). Pelo mesmo motivo, “Pandora é a caixa dos algoritmos, a origem do mal na internet” (p. 46). Nesse sentido, “Teseu no labirinto é uma jornada pela complexidade do mundo. Num mundo urbano fragmentado, onde o excesso de complexidade gera desconexão, torna-se tão impossível um eu sem cidade como uma cidade sem eu (p. 58).
No meio do caos, “Antígona é o direito à dissidência, a ética frente à legalidade” (p. 77), algo pelo qual Cassandra paga, ... a sua voz profética não se encaixa na lógica linear do logos heróico, não produz certezas úteis, mas advertências desestabilizadoras; a sua voz é um apelo ao cuidado, à escuta, ao tempo necessário para parar, em cuja maldição se revela uma profunda sabedoria: ver sem poder ser acreditado, a forma mais cruel de sabedoria em tempos de ruído...
Apesar de tantas dificuldades, “Ulisses, a odisseia do eu, a identidade líquida no mundo global, representa simbolicamente a possibilidade de uma coerência narrativa do dito eu, um mapa do mundo pessoal. Hoje, Ítaca pode ser a família, um projeto de vida, a própria ética, uma comunidade de pertença ou uma vocação profunda, mas nunca é oferecida: precisa de ser construída, perde-se e é preciso procurá-la novamente” (p. 91).
Uma tarefa difícil para a qual é preciso ter em conta o “monstro interior do Minotauro, a violência e a marginalidade, a sombra, aqueles aspectos da personalidade ignorados ou projetados nos outros, uma criatura híbrida meio homem e meio touro que habita a parte mais profunda do labirinto de Creta e que, como tantos outros seres excluídos, delimita o que se pode ser, representando o que não se deve ser” (pp. 94-96), tudo isso relacionado com “Actéon, o castigo do voyeur, a pornografia, o poder e a punição, uma anomalia secreta transformada em prática massiva, legal e lucrativa” (p. 99), um mito que, por sua vez, tem muito a ver com “Circe e a alquimia do desejo: controle, manipulação e género, já que ela não é simplesmente uma bruxa, mas uma figura liminar, uma metáfora do poder feminino percebido como uma ameaça pelo imaginário do desejo patriarcal ... como uma mulher em busca de autonomia, vítima de deuses abusivos e de homens que a temem por não serem capazes de subjugá-la” (pp. 101-102).
“Helena representa o mito da culpa feminina, as guerras em torno da imagem. Helena foi realmente a causa da Guerra de Tróia, ou apenas o seu pretexto simbólico? Helena continua a ressurgir nas guerras culturais e simbólicas travadas em torno do corpo feminino, da beleza normativa e da representação mediática.
“Mnemósine, o rio da memória, somos nós hoje, os gregos da antiguidade, porque na era digital a memória deixou de ser orgânica ou simbólica, tornando-se quantificável, fragmentária ... Às vezes, o esquecimento escraviza” (pp. 144-145).
Em última análise, devemos manter, como “Calipso, uma tensão fundamental entre o desejo, a pertença e a necessidade de liberdade. Calipso simboliza a ambivalência do refúgio como um espaço que protege, mas também limita” (p. 146).
1 comentário:
As minhas excursões mais marcantes e que contribuiram para reforçar as minhas (des)crenças de origem judaico-cristã, foram incursões pela antiguidade egípcia e grega, cujo contacto direto com a arqueologia avivou os meus sentidos e o meu sentido acerca das mitologias fundadoras das culturas e, especialmente, das línguas.
Desenvolvi a percepção de que as crenças religiosas, desde as mais pagãs às mais monoteístas, só ganham verdadeira dimensão simbólica e significativa a partir do momento em que passamos a vê-las e a entendê-las como aquilo que elas realmente são, sistemas simbólicos mitológicos, por vezes metáforas poderosas ou alegorias de forças e de valores e de representações mentais de natureza abstrata ou imaterial.
É quando pensamos nas divindades do Olimpo e nas figuras mitológicas em geral, egípcias e gregas, Apolo, Dioniso, nas Musas, Héracles, Sísifo, como mitos simbólicos e não como crentes, que elas adquirem verdadeiro e poderoso significado. E isto aplica-se também às mitologias e sistemas simbólicos das religiões judaico-cristãs.
Digamos que um crente que toma essas mitologias à letra, ou à letra da fé, toma a letra por aquilo que não é e fica impedido de ver aquilo que a letra significa.
É certo que a fé tem as suas mais valias, as suas vantagens, que não são despiciendas, relativamente às abordagens realistas não religiosas. Nada substitui os efeitos de uma fé que apenas o crente pode aproveitar. E não há como ficcionar um deus e uma eternidade e um paraíso que faz falta.
Mas até nesses domínios o modo de proceder humano é invariável na busca de deuses mais fortes, de mitologias mais fortes, de metáforas mais poderosas, de alegorias mais convincentes. Tudo se decide pela força, mesmo que esta envergue vestes celestiais. E não estou a referir-me à força dos argumentos.
Ainda assim, foi quando a abordagem das mitologias se fez a partir, não da crença nessas mitologias e da respetiva religião, mas a partir da simbologia e do significado, nomeadamente metafórico, que a filosofia surgiu, com Sócrates em alto relevo, e as primícias do conhecimento como metacognição em pano de fundo.
Enquanto não formos capazes de substituir o imenso “capital” de fé perdida por outro “capital” de conhecimento que nos salve, vamos andar a perpetuar religiões, com e sem deuses, que nos mobilizarão contra os deuses dos outros, sempre que isso seja necessário, porque não há sabedoria que nos confira resiliência e insensibilidade quanto baste.
Enviar um comentário