João Pinhal, o jovem jornalista que investigou a entrada de influencers nas escolas portuguesas, teve, lamentavelmente, assunto para mais um artigo, que saiu no Público de hoje: depois de o caso ter sido noticiado (como foi!), uma escola insistiu em acolher um influencer.
O director não desmentiu o acontecido, que justifica de maneira enigmática. Cito tal como vem no jornal:
“Como no fim-de-semana tinha
visto a reportagem sobre a entrada dos influenciadores em escolas, às
oito da manhã de segunda-feira enviei um email a todos os alunos
envolvidos na campanha para a associação de estudantes”. Nesse
email disse-lhes: “Vi esta notícia e pensei em vocês. Não queremos que o [agrupamento de escolas] apareça nas notícias.”
Não determina, parece-me, o cancelamento da actividade; diz que não deveria aparecer nas notícias (vejo uma diferença). Por ali terá ficado e o influencer entrou na escola, fez o que tinha a fazer no quadro das eleições (de cunho partidário) para a associação de estudantes), e publicou o costume nas redes sociais.
Questionado sobre o sucedido, o director explica que:
1) Não se deu conta da entrada do influencer na escola (nota que há falta de assistentes operacionais e nem sempre podem estar na portaria, mas, ao que parece, estavam na actividade);
2) Os encarregados de educação não foram
avisados da actuação, nem deram consentimento para a partilha
online da imagem dos seus educandos;
3) Não é naquele bocado que estão como os influencers que os alunos "aprendem as letras";
4) Não se consegue controlar a captação de imagens por parte dos alunos, nem a sua publicação (por isso defende a proibição do uso de telemóveis nas escolas, tê-lo-á feito antes?);
4) Não se consegue controlar a captação de imagens por parte dos alunos, nem a sua publicação (por isso defende a proibição do uso de telemóveis nas escolas, tê-lo-á feito antes?);
5) O problema está fora da escola (o conteúdo misógino das letras encontra-se banalizado).
Nenhum destes argumentos, reproduzidos pelo jornalista, é relevante, mas todos são muitíssimo preocupantes. E mais preocupante é nada ter dito acerca do dever último da escola, que é educar, ou seja, tudo fazer para, através do ensino, e com base em conhecimento valioso, melhorar o pensamento dos alunos, torná-los melhores. Julgo, como Bernard Charlot, que também aqui o "silêncio antropológico" constitui uma forte presença, abrindo um pouco mais a porta da barbárie enquanto se fecha a da educação (ver aqui).
Não estou nada convencida de que o grupo de trabalho agora criado, para “emitir directivas para as escolas" sobre o modo como devem decidir face a solicitações de (ou apenas destas?) entidades externas, inverta a tendência, que mais parece regra. Digo isto com base em três razões, que se implicam sequencialmente:
1) O princípio para decidir essas solicitações é muito simples: concorrem ou não para educar (não para deseducar)? Visam a formação das crianças e dos jovens ou estão-lhe agregadas agendas próprias de terceiros? Têm um carácter altruísta (beneficiando os educandos) ou interesseiro (tirando benefício dos educandos)?
2) Não é possível emitir directivas para tudo, absolutamente tudo o que os directores, professores e, até assistentes operacionais, devem decidir. Isto nega a autonomia da escola e dos profissionais (que tem de ser, evidentemente, esclarecida e moralmente sustentada);
3) Para conseguirmos uma autonomia responsável dos profissionais seria preciso (é preciso) proporcionar-lhes uma formação ética, digna dessa designação. E mesmo assim, nunca haverá garantia de desvios e de atropelos ao mais puro bom-senso.
Em face do estado a que chegámos no respeitante a este problema (80 escolas, fora todas as que não foram identificadas), e, de modo muito concreto, atendendo às declarações e justificações dos profissionais que foram ouvidos, só me ocorre dizer: não é possível!
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