segunda-feira, 25 de agosto de 2008

ANTÓNIO GIÃO, UM EREMITA CIENTÍFICO

Aguçando o apetite para o próximo número da "Gazeta de Física", que está quase a sair, sob a batuta competente da Teresa Penha, deixo aqui a minha crónica nessa revista da Sociedade Portuguesa de Física (na foto a casa de Gião em Reguengos de Monsaraz):


Em 16 de Janeiro de 1946 chegava ao gabinete de Albert Einstein na Universidade de Princeton, uma carta de Reguengos de Monsaraz. Assinava-a António Gião, um físico aí nascido e nela era proposta uma teoria das forças fundamentais, um assunto que nessa altura ocupava a mente do sábio exilado.

Qual não foi o contentamento de Gião quando, quase na volta do correio, chegava à sua casa de Reguengos uma simpática resposta de Einstein. O autor da teoria da relatividade apresentava alguns cálculos, que exprimiam algumas dificuldades técnicas da proposta do alentejano. Gião replicou com júbilo: parecia um adolescente que obtém resposta de uma “rockstar”! Essa correspondência encontra-se hoje no Arquivo Einstein, na Universidade Hebraica de Jerusalém.

Gião (1906-1969) tinha feito estudos secundários em Évora e, em parte, estudos superiores na Universidade de Coimbra. Foi depois para Estrasburgo, onde se formou em Engenharia Geofísica e Física (Meteorologia), e a seguir para Bergen e Paris. Passou a primeira metade da sua vida científica no estrangeiro. No total, publicou mais de 150 artigos, muitos deles nas melhores revistas como a Physical Review, os Comptes Rendus (apresentados por Louis de Broglie), o Journal de Physique, etc. Foi, salvo erro, o primeiro português a publicar na Nature (uma carta em 1926, tinha ele 20 anos, sobre a posição das nuvens). Atingiu, por isso, notoriedade internacional suficiente para receber não só um convite para professor no MIT como até um convite para uma expedição internacional de voo sobre o pólo Norte em 1928. Felizmente recusou este último, pois a viagem de dirigível, capitaneado pelo italiano Umberto Nobile, acabou em tragédia. Regressado a Portugal, passou a interessar-se cada vez mais pela física de partículas e cosmologia. Publicou na Portugaliae Physica, a revista criada em 1943 (Gião escreveu um artigo sobre meteorologia e outro sobre teoria quântica relativista, no 2º volume), Portugaliae Mathematica, Técnica (revista dos estudantes do IST), etc.

Mas Gião foi um físico isolado, um eremita, sendo Reguengos a sua choupana. Publicou quase sempre sozinho. Foi visto como um nefelibata, para usar uma imagem da sua área de trabalho inicial. Mesmo quando foi nomeado professor catedrático da Universidade de Lisboa, não conseguiu fazer discípulos. Tinha um feitio difícil, dizia uns. Tinha ideias demasiado exóticas (como a dos “microelectrões”), diziam outros ou os mesmos, pelo que não admira que hoje seja citado em sítios de pseudociência... Tinha tiradas filosófico-poéticas: em 1967 numa conferência em Évora dizia que o Universo é o manto pelo qual o Ser se protege do Nada. O certo é que não deixou descendentes científicos. Ainda assim, como director do Centro de Cálculo da Fundação Gulbenkian, organizou em 1963 um encontro de cosmologia em Lisboa, com a presença do alemão Pascual Jordan (um dos criadores da mecânica quântica, muito prejudicado pelas suas ideias nazis) e do inglês Hermann Bondi (astrofísico de origem judaica e grande humanista que defendeu a teoria do estado estacionário em oposição à do Big Bang).

Gião representa bem a tragédia que foi a ciência nacional na primeira parte do século XX. Mesmo aqueles que se estrangeiraram, bebendo água das melhores fontes, não conseguiram fertilizar um terreno que, entre nós, estava tão seco como o Alentejo no pico do estio.

6 comentários:

  1. não nefebilata, mas sim nefelibata. um abraço e parabéns pelo excelente blog.

    fernando b figueiredo

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  2. Caro Fernando Figueiredo
    Já emendei, obrigado. Não sei como é que aparecem esse e outros erros...
    um abraço
    Carlos Fiolhais

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  3. Olá
    É grande o prazer de saber que uma pessoa com o mesmo sobrenome que eu tenha se destacado na Física. Sou brasileiro e estou buscando informações sobre a família Gião em Portugal. Um grande abraço.

    Wagner Gião

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  4. Tendo trabalhado 5 anos (entre 1962 e 1967) como assistente de investigação no extinto Centro de Cálculo Científico do Instituto Gulbenkian de Ciência, centro este cujo director científico era o Professor António Gião, meu chefe directo, parece-me ligeiramente incorrecta a imagem que este poster transmite (e também o outro aqui publicado em 24 de Agosto de 2009): ambos dão excessivo relevo à presença de António Gião em Reguengos. Transmitem a ideia que foi lá que ele fez a sua carreira científica! Ora Gião amava a sua terra e, quando eu trabalhei com ele, ia lá passar os fins-de-semana. Mas vivia em Lisboa, na Av. D. João V. E antes de viver em Lisboa, quando foi convidado para catedrático da Faculdade de Ciências, estava a viver em Paris que foi durante muito tempo a sua cidade. E julgo saber que também viveu em outras cidades europeias, o que aliás é reconhecido nos referidos posters. Terá escrito a Einstein durante o período, no imediato pós-guerra (Janeiro de 1946), em que, segundo ele próprio me disse, deixou a França e se refugiou em Portugal. Mas foi um interregno relativamente curto na sua vida. Não coincide de modo algum com as minhas memórias de António Gião que ele fosse um eremita da Ciência a trabalhar em Reguengos!

    J. M. S. Simões Pereira

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  5. O meu nome é Carla e sou da família de António Gião.
    Durante esta semana encontrámos este artigo ocasionalmente sem fazermos a mínima ideia da existência dele :-)
    Se quiserem informações sobre a família Gião o meu Avô poderá dar pois era primo direito de António Gião. Se tiverem interesse enviem-me o vosso e-mail e entrarei em contacto.
    Confesso que esta descoberta foi mesmo engraçada e interessante.

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  6. Cara Carla:
    Qual é o seu endereço? O meu é público: por exemplo tcarlos@teor.fis.uc.pt
    Carlos Fiolhais

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