segunda-feira, 25 de agosto de 2008

La Fura, política e os fazedores de mitos



Desde o primeiro espectáculo em Lisboa que acompanho o fantástico grupo catalão La Fura dels Baus, que esteve este mês em Portugal com o Naumon. Todos os espectáculos dos La Fura contêm uma mensagem ou uma crítica, por vezes muito apropriada como no caso de um dos espectáculos de que mais gostei, o «OBS» que vi no Passeio Marítimo de Algés em 2001. O Obsesiones del ser humano é uma crítica à sociedade contemporânea do espectáculo, onde a substância da mensagem não interessa mas sim o espectáculo em que é travestida e transmitida. O OBS compara a sociedade actual imbecilizada pela televisão com as sociedades medievais. O enredo sugere que embora os tempos tenham mudado, a barbárie mantém-se, agora mantida não com golpes de espada mas sim golpes de concursos televisivos e propaganda publicitária.

Não consegui ver o espectáculo XXX mas segui a celeuma que criou um pouco por todo o mundo - na Alemanha, por exemplo, o espectáculo foi cancelado por pressão de grupos cristãos. O espectáculo foi inspirado n'«A filosofia de Alcova», a obra do Marquês de Sade que o grupo escolheu para representar a sexualidade do Século XXI:

«Muito antes do nascimento da psicanálise, já a obra de Sade iluminava as orientações mais ocultas do subconsciente humano e libertava-as de toda a prisão moral».

Mark Borkowski, descrito pelo acérbico Jeremy Paxton como «o maior publicitário que conheço», foi o relações públicas escolhido pelos La Fura para divulgar o XXX em Inglaterra. Assim, quando descobri na Amazon que sairia em Agosto o seu livro «The Fame Formula: How Hollywood's Fixers, Fakers and Star Makers Shaped the Publicity Industry», o cartão de visita dos La Fura e o título do livro despertaram a minha curiosidade e resolvi encomendá-lo.

O livro revelou-se inesperadamente uma leitura fascinante. Escrito num estilo leve com laivos de humor tipicamente britânico (algumas partes recordaram-me Tom Sharpe) o autor, que de facto domina a cena publicitária, pelo menos em Inglaterra, conta-nos com alguns detalhes picarescos a história da indústria das relações públicas. Borkowski começa por explicar como os publicitários moldaram a mundo do espectáculo - e por arrasto todo o mundo - desde o vaudeville do século XIX e continua pelos primórdios do cinema mudo até à mega indústria actual.

Mas o livro realmente surpreendente foi o que comprei simultaneamente por sugestão da Amazon, «Alpha Dogs: How Spin Became a Global Business» de James Harding, editor do Times - curiosamente analisados em conjunto pelo Guardian -, que conta basicamente a mesma história mas agora no mundo da política.

No livro figura proeminentemente a Sawyer Miller, inicialmente a D. H. Sawyer & Associates criada por David Sawyer, um aristocrata idealista da Nova Inglaterra. A alteração de nome deu-se devido a Scott Miller, actualmente presidente e fundador do Corey Strategy Group. Como refere logo na introdução o autor:
«This is the story of three drop-outs who changed the world’s politics. They didn’t mean to do it. One had hoped to be an actor; one dreamed of playing American football; the third was a disenchanted spy. They stumbled into the election business because it paid well, because it seemed meaningful, because it was more fun than real work. They had a knack for television, the new medium of politics.»
A Sawyer Miller esteve nos bastidores de todas as campanhas presidenciais norte-americanas desde a eleição de Richard Nixon e rapidamente alargou globalmente os seus serviços. Por exemplo, foi a Sawyer Miller que desenhou a campanha eleitoral de Cory Aquino nas Filipinas. O consultor que acompanhava a caravana da candidata (Mark Malloch Brown, um antigo jornalista que é hoje ministro do governo inglês) viajava no chão do autocarro para que a sua presença não fosse detectada por potenciais eleitores e jornalistas. Mas a Sawyer Miller supervisionou campanhas eleitorais um pouco por todo mundo, na Venezuela, Chile, Panamá, Colômbia, Rússia, Coreia do Sul, Ucrânia, Israel, Perú, etc., como escreve Harding na introdução:
«The men from the Sawyer Miller Group helped Cory Aquino to lead the People Power revolution in the Philippines and advised democrats in Chile on the removal of General Pinochet; they led their clients to victory in Bolivia, Colombia, and Ecuador, as well as to defeat in Greece and Peru; they worked pro bono for Tibet’s Dalai Lama, and they got paid in sweaty bundles of hundred-dollar bills in Nigeria»
E a revelação mais espantosa foi de facto saber que um executivo da Sawyer Miller, que era budista, ofereceu os seus serviços ao Dalai Lama e é o responsável pela sua transformação numa super-estrela a nível global, lançando as bases ao mesmo tempo para a transformação de uma realidade medieval sob domínio teocrático na fantasia romântica de um Tibete que nunca existiu mas que tantos inflamou em vésperas dos Jogos Olímpicos.

De facto, até à sua reincorporação na China, o Tibete não era mais que uma sociedade absolutamente feudal, com uma nobreza minoritária, um clero todo-poderoso e um povo escravizado pelo poder dos mosteiros - mais de 95% da população tibetana era constituída por servos e escravos sem terra e sem liberdade pessoal. O livro «Friendly Feudalism: The Tibet Myth» do historiador e cientista político Michael Parenti é uma leitura que permite de facto avaliar o poder destes «cães alfa» na lavagem da memória colectiva e na criação de mitos sem a mais remota semelhança com a realidade.

Os primeiros rapazes nos bastidores da Sawyer Mills eram idealistas que ajudaram a derrubar ditadores um pouco por todo o mundo. Estes pioneiros spin doctors políticos acreditavam que o poder dos mass media seria benéfico para a política e para a democracia mas, como refere Harding, acreditavam igualmente que a televisão seria o caminho para uma «democracia rejuvenescida, mais verdadeira e mais saudável». E será que num mundo em que, por exemplo, os Tories vão pagar ao spin doctor mais do dobro do que pagam ao seu líder político, ainda há política ou existirão apenas obsessões fureras?

4 comentários:

  1. Uiiiii Palmira, o aco de gatos que esta história do Dalai Lama vai ser. Vai ser giro ver as reacções...

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  2. Sempre me fez confusão esta treta toda em volta do Dalai Lama e do Tibete. Agora já percebo.

    Será que estes fulanos têm alguém infiltrado no Nobel da Paz??? Tantos clientes deles, pro bono ou a pagantes, candidatos ou gabhadores do Nobel da Paz levanta suspeitas...

    JSA, como a beatada que frequenta o DRN é ou católica ou evangélica não antecipo grandes reacções. Nenhum cristão morre de amores pelo budismo que têm andado a roubar clientela no Ocidente.

    Clientela ofuscada pelo spin americano, pelos vistos :)

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  3. Muitíssimo bom este post! parabéns! e parabéns pela coragem de falar do Tibet, que me recorde é a primeira pessoa «publicamente credível» que se atreve a tal.

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  4. Mas isto do Dalai Lama é novidade para alguém? Tipos que não aceitam o sexo oral como não "pecaminoso" nunca são de boa colheita.

    É este e a Madre Teresa de Calcutá mas essa ainda era muito pior. Para mim quase que personifica a maldade hipócrita.

    Já agora, falando de prémios nobel da paz, aquela história da gaja que ganhou o nobel da paz e depois veio dizer que o VIH era uma invenção dos brancos para matar os pretos sempre foi verdade ou tratou-se de mais um spin em sentido "contra-positivo"?

    Depois do Kissinger, Arafat e Horta vale tudo.

    Falando de spin doctors, faltou a referencia ao nosso bem amado Sarabago cuja literatura aposto que a Dra Palmira aprecia que quando recebeu o seu Nobél(?) sofreu ataques (justificados em parte) por ter sido o culminar duma longa campanha de publicidade e lobbies. Ainda me lembro da sua cara de agradecido a cumprimentar o gajo que esteve em Estocolmo a tratar da forcinha. Disso e da agência publicitária Sueca contratada para a sua tourné.

    Recordações.

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