segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Kelvin em Portugal


Na sequência do post “Um casamento no Funchal”, António José Leonardo, doutorando em História da Física na Universidade de Coimbra, faz um resumo sobre a ligação de Lord Kelvin (1824-1907) a Portugal (na imagem o aparelho de sondagem inventado por Kelvin):

O grande físico britânico Lord Kelvin (William Thomson) veio a Portugal por causa da rede internacional de telegrafia eléctrica que no final do século XIX estava a ser montada e pela qual se interessou logo desde o início. A sua primeira visita ao nosso país ocorreu em Junho de 1871. A bordo do seu iate, o Lalla Rookh (título de um poema de Thomas Moore), e numa viagem realizada no Atlântico e no Mediterrâneo, fez escala em Lisboa, de onde aproveitou por enviar correspondência para casa. A navegação era a grande paixão de Lord Kelvin, tendo conhecimentos alargados sobre ela. No ano seguinte, em 1872, regressou a Lisboa, tendo visitado uma das estações telegráficas da rede em instalação.

Foram muitos os contributos de Kelvin na navegação e na telegrafia com a invenção de muitos aparelhos e o aperfeiçoamento de outros já existentes. Um destes exemplos foi um dispositivo de determinação da profundidade do mar. Habituado a observar os marinheiros lançarem uma corda com um peso, até este atingir o fundo, recolhendo-a depois e medindo o seu comprimento, imaginou uma forma alternativa com o intuito de facilitar esse trabalho. Kelvin lembrou-se de utilizar corda de piano, que poderia ser recolhida mecanicamente, na extremidade da qual colocou um pequeno cilindro de vidro com a tampa selada. A superfície interior do tubo era coberta de cromato de prata, uma substância que, em contacto com a água do mar, alterava a sua cor. À medida que o pequeno cilindro era imerso, o ar no seu interior era comprimido, devido à pressão da água do mar. Depois de recolhido, era possível verificar a pressão máxima a que esteve sujeito e assim determinar a profundidade.

Uma história relata um jogo de palavras entre os físicos Joule e Lord Kelvin, quando este último se afincava com uma corda de piano em testes da sua máquina (sounding apparatus):

- What are you doing?

- I’m sounding.

- What note?

- The deep C.

Foi devido à sua capacidade de determinar a profundidade do leito oceânico, utilizando o dispositivo por si inventado, que era muito conveniente para a colocação de cabos telegráficos submarinos, que Lord Kelvin integrou um grande projecto que previa a colocação de um novo cabo atlântico que passaria pela Madeira – Great Western Telegraph – entre a Europa e a América do Sul. Depois de uma reformulação desse projecto, em 20 de Junho de 1873, partiu de Londres o navio Hooper carregado com cerca de 4000 quilómetros de cabo para instalar no Brasil, entre o Pará e o Rio de Janeiro. O barco fez escala em Lisboa, em 26 de Junho, e atracou no Funchal a 29 do mesmo mês, tendo sido necessário proceder a arranjos do cabo transportado para corrigir uma falha detectada, o que obrigou a desenrolar uma extensão de cabo com mais de 600 quilómetros.

Um dos participante na expedição, Fleeming Jenkin, relatava numa carta à mulher: “Here we are off Madeira at 7 o’clock in the morning. William has been sounding with his special toy ever since half-past three (1087 fathoms of water).” (Um “fathom” equivale a seis pés, ou seja, 1,83 metros).

A situação obrigou a uma paragem de cerca de duas semanas na Madeira, o que permitiu a Lord Kelvin aproveitar para conhecer a ilha. Kelvin ficou fascinado com a beleza da Madeira após realizar vários passeios, num dos quais quase ia caindo de um precipício sobre o mar. Kelvin opunha-se à teoria de Darwin por esta entrar em contradição com o seu cálculo da idade da Terra, pelo que não admira a seguinte referência à Madeira: “It has been impossible to keep off Darwinism, and although Madeira gave Darwin some of his notable and ingenious and proofs, we find at every turn something to show (if anything even needed to show) the utter futility of his philosophy.”

Mas não foi apenas pela beleza natural da ilha que Kelvin se apaixonou. Ao longo da sua estadia manteve contacto com os Blandy, uma família inglesa radicada na Madeira desde o início do século XIX, em particular com as filhas do comerciante Charles Blandy, às quais ensinou código Morse que usavam para comunicar entre o navio e a cidade. Uma testemunha no barco relatou que, no momento de partida, alguém na janela da casa dos Blandy, movendo uma cortina branca e por código Morse, enviou a mensagem: G-O-O-D-B-Y-E S-I-R W-I-L-L-I-A-M T-H-O-M-S-O-N, repetindo a mensagem até esta deixar de ser visível do barco.

Quando Kelvin regressou à ilha da Madeira, em 1874, não foi por motivos relacionados com a telegrafia ou sequer com a ciência, mas sim para se casar com Frances Anne Blandy, 14 anos mais nova do que ele, no Consulado Britânico no Funchal.

Em 1877, voltou à Madeira para realizar mais testes com o seu aparelho de medição da profundidade do mar e, novamente, em 1894, na companhia da sua esposa, que recebeu o título de Baronesa Kelvin, para passar férias. Frances descreve as suas actividades na ilha numa carta enviada à cunhada:William sits out all day under the trees, very happy with his new book, and deep in a very difficult problem to solve. It is a grand time for him.”

Talvez tenha sido em Portugal que Lord Kelvin realizou algumas das suas últimas descobertas científicas…

Referências:

- THOMPSON, Vanus Silvanus Phillips (1977). The Life of Lord Kelvin. AMS Bookstore. Consultado em http://books.google.pt

- BOLTON, Sarah. Famous Men of Science. Lord Kelvin. http://www.todayinsci.com/K/Kelvin_Lord/Kelvin_Lord1.htm

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