quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Criacionismo da Terra Jovem: Universo fez 6010 anos ontem


Bill O'Reilly conversa com Ben Stein, o tal da desonestidade intelectual em forma de filme, sobre «desenho inteligente, isto é, uma divindade criou a vida».

James Ussher, arcebispo de Armagh, teve um papel importante nos violentos conflitos entre anglicanos e presbiterianos na Inglaterra do século dezassete, mas o que o torna conhecido até hoje é a sua obra «The Annals of the World», publicada em latim em 1650 e traduzida para inglês em 1658.

Nos Anais, um calhamaço de mais de 1600 páginas subintitulado «A Origem do Tempo, e a Continuação para o Início do Reino do Imperador Vespasiano e a Destruição e Abolição Total do Templo e da Comunidade dos Judeus», Ussher dedica-se à cronologia bíblica, «calculando» que a criação aconteceu no domingo 23 de Outubro 4004 a.C - e a expulsão do «paraíso» menos de um mês depois, a 10 de Novembro.

O «sistema» de cálculo de Ussher assentava na noção hebraica, adoptada por muitos cristãos, de que a criação anteciparia o nascimento do messias por 4 000 anos e numa interpretação do «calendário» que já na altura parecia completamente ultrapassada a muitos estudiosos.

Andrew Dickson White, historiador e presidente da Universidade de Cornell (uma das mais prestigiadas universidades do mundo, que incluiu Carl Sagan no seu corpo docente) , diz-nos na sua « História da Guerra da Ciência com a Teologia na Cristandade» que o trabalho de Ussher não era original. De facto, John Lightfoot, Vice-Chancellor da Universidade de Cambridge, declarou, após estudo exaustivo das escrituras, que «céu e terra, centro e circunferência, foram criados conjuntamente, no mesmo instante, e nuvens cheias de água» e que «este trabalho teve lugar e o Homem foi criado pela trindade no dia 23 de Outubro, 4004 b.C., às nove horas da manhã». Lightfoot publicou os seus cálculos em 1644, seis anos antes dos Anais verem a luz do prelo.

Há um artigo muito interessante sobre o tema, publicado em 1996 na revista Archaeology in Oceania. No artigo «From Ussher to Slusher, from Archbish to Gish: or, not in a million years...», Colin Graves disseca os disparates criacionistas - muitos deles já abordados no De Rerum Natura, nomeadamente a pedrada em Ellen Gould White que fez ricochete em Henry Morris e John C. Whitcomb, Jr. - , e termina com:

«A constituição pressupõe democracia, laicidade e pluralismo, os criacionistas exigem uma teocracia. O público em geral tende a não perceber porque tudo isto é errado; apesar da maioria dos fundamentalistas ser imune à racionalidade, os estudantes na sua maioria não o são, e nós esperamos dotá-los de conhecimento suficiente para evitar que caiam nas fantasias criacionistas. Os cientistas, mas especialmente arqueólogos, estão na linha da frente; nós, não os artistas ou políticos, temos as munições para parar a maré do lixo criacionista, e relegá-lo ao Monty Python's Flying Circus a que pertence».

O problema nos Estados Unidos põe-se exactamente no facto de que o homeschooling é adoptado por muitos fundamentalistas que não querem que os filhos entrem em contacto com a realidade. Através de PZ Myers, descobri que o livro de Ussher foi reeditado pela primeira vez e que é um favorito entre aqueles que decidiram não mandar os filhos à escola e preferem «ensiná-los» em casa.

A informação é dada no site conservador World Net Daily, que, num atentado à inteligência, descreve o livro como o maior livro de história (da carochinha) alguma vez escrito e por isso preferido pelos «que levam a História antiga a sério. É a história do Mundo desde o jardim do éden até à queda de Jerusalém».

Mas de quem publica regularmente artigos como o que assevera que o consumo de soja leva «a uma diminuição do tamanho do pénis, confusão sexual e homossexualidade» e é o grande responsável por comportamentos «desviantes», espera-se os maiores disparates...

19 comentários:

  1. Não há uma contradição entre Ussher e Lightfoot? Ussher dizia que a Criação ocorreu (começou) a 23 de Outubro, um domingo; Lightfoot apontava esse dia como o da criação do Homem (exactamente às 9 da manhã). Ora, segundo o Génesis, a Criação começou com o «Fiat Lux!», sendo o Homem (e todos os animais) criado apenas no 6.º dia. A Criação teve de começar a um domingo, pois que Deus descansou ao 7.º dia, instituindo o sábado. Se 23 de Outubro de 4004 a.C foi efectivamente um domingo, então o Homem foi criado na sexta-feira seguinte (28 de Outubro); se o Homem foi criado a 23 de Outubro (que terá obrigatoriamente de ser uma sexta-feira), então a Criação começou 5 dias antes, a 18 de Outubro...

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  2. Ontem? E só nos dizem hoje? É o que dá andar a falar do Watson há três dias. Ainda por cima para não se chegar a conclusão nenhuma, que ele como racista é fraquinho. Não se começa uma carreira de racista com a idade dele e disfarçou sempre muito bem, em décadas de conferências e palestras no mundo inteiro, ninguém se apercebeu do seu racismo. Apetece dizer que ganhou o Nobel por ter descoberto a forma, mas não percebe nada do conteúdo...
    Mas com os cientistas nunca se sabe e pergunto-me se não é ele que nos está a chamar racistas a todos. Afinal, os cientistas passam a vida a dizer que o racismo não tem nenhuma explicação genética e a realidade é o que é! Só retiramos dos ensinamentos da ciência o que nos convém. Acabar com as doenças ainda vá, agora acabar com a discriminação, era só o que faltava! Onde é que já se viu, por exemplo, as mulheres deixarem de ser penalizadas em 20, 30, 40% (o que se quiser) pelo seu trabalho? Em lado nenhum, e a culpa também não é das igrejas (que amam as mulheres desde sempre), nem dos políticos (Deus nos livre). Se calhar a justificação para o nosso racismo é a mesma que levou a que ontem alguns comerassem o aniversário da Terra - Não tem explicação!

    guida martins

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  3. desculpem lá mas estes cáculos estão todos errados.

    é que a estupidez tem muitos séculos de existência. muitos mais que os míseros 60 e pouco que esses srs IDiotas dizem ser a idade disto tudo.

    logo...

    vou-me embora à procura doutra explicação alternativa (ou será alternadeira. é que com a prostituição intelectual que os criacionistas poluem o mundo, é capaz de ser um melhor termo).

    com a modéstia de leigo vos peço sras e srs: não liguem a essa gente! continuem com a informação pertinente sobre a caminhada do Homem em direcção ao conhecimento e dixem lá essa gente que só nos faz perder tempo. acreditem, ninguém os leva muito a sério.

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  4. Não percebi bem exactamente a que horas deveríamos ter comemorado a criação do mundo. E levaram em conta a alteração do calendário juliano para o gregoriano?

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  5. Nós que somos sobretudo especialistas em equilíbrio (diria instável) das relações com os outros e com o que nos rodeia procurando sempre "como é que me encavalito em cima deste para me conseguir dependurar naquele", e depois, Ai! que eu estrago esta porcaria toda, não posso admitir que todos nós podemos ter uma pontinha de racismo! Já não podemos ter um pouco de sinceridade e afirmar -Eu sou um bocadinho racista com os azuis! Porquê? Sei lá, porque não os conheço de lado nenhum!

    Mas claro que isto é só na prática porque na teoria somos todos uns jovens santinhos quase nem sopramos para não abanar as estruturas da matéria. Jovens sim! Porque com 6010 anos temos o quê 300/400 gerações até ao adão e eva. Assim sim, isto com metáforas literais vai lá! Não podemos dizer que somos todos irmãos, mas tios ou primos tem todo o cabimento!

    E para quê estarmos com racismos na família? Ajeitamo-nos melhor uns que outros e com uns do que com outros, e pronto!


    Artur Figueiredo

    Ps continuo a gostar de ler os posts e muitos comentários deste blog, não gosto é de patas de rã. Sabem dizer-me para que é que isso existe?

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  6. Ó Artur, está-se mesmo a ver que as pernas de rã só existem para elas, coitaditas, puderem saltar.
    Sapo.pt

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  7. Erro do tradutor em [SALMOS, 22:21] ?

    A Septuaginta [ nome de uma tradução da Torá para o idioma grego, encomendada por Ptolomeu II (287 a.c.-247 a.c.) para acervo da Biblioteca de Alexandria ] refere na versão em inglês :

    (22:21) Save me from the lion’s mouth; and regard my lowliness from the horns of the unicorns.

    Link para a Septuaginta [versão em inglês] .

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  8. Psalm 14

    For the end, Psalm of David.

    14:1 The fool has said in his heart, There is no God. They have corrupted themselves, and become abominable in their devices; there is none that does goodness, there is not even so much as one.

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  9. "The Skeptic's Annotated Bible includes the entire text of the King James Version of the Bible, but without the pro-Bible propaganda.

    Instead, passages are highlighted that are an embarrassment to the Bible-believer, and the parts of the Bible that are never read in any Church, Bible study group, or Sunday School class are emphasized.

    For it is these passages that test the claims of the Bible-believer.

    The contradictions and false prophecies show that the Bible is not inerrant; the cruelties, injustices, and insults to women, that it is neither good nor just."

    The two contradictory creation accounts

    The Garden of Eden

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  10. A Palmira insiste em afirmar que os criacionistas bíblicos são intelectualmente honestos, mas as suas intervenções só demonstram que ignora os seus argumentos e que tem a sua cabeça cheia de “clichés” e “frases feitas”, atitude pouco científica e rigorosa.

    Não foi só o Bispo James Ussher que defendeu a origem recente da Terra. O grande cientista Isaac Newton defendeu a mesma coisa.

    Qualquer pessoa que estude a Bíblia com algum cuidado só pode chegar a uma conclusão aproximada. Só se põe a fantasiar acerca de milhões de anos de idade da Terra (inobservados) quem rejeita o relato da única testemunha ocular da criação: o Criador.

    1. Dizer que o livro de Génesis contém dois relatos da criação contraditórios é um erro que só denota falta de estudo das matérias em causa.

    Se fosse esse realmente o caso, então deveríamos ter dois relatos diferentes da criação da Terra, do espaço, das estrelas, etc. Mas não é isso que sucede.

    Temos um primeiro relato que trata de toda a criação, e um outro relato que foca especialmente no homem e no jardim especialmente preparado para ele.

    Trata-se de uma técnica literária característica dos judeus e presente noutras partes da Bíblia, incluindo o Génesis.

    De resto, tanto os judeus como o próprio Jesus Cristo, sempre trataram os supostos dois relatos como uma unidade.

    2. Seria interessante que se apresentassem aqui os argumentos acerca da suposta extrema antiguidade da Terra, para podermos ver como todos eles são especulativos e “model dependent”.

    Os registos históricos mais antigos (com história realmente observada) têm cerca de quatro mil anos.

    Para além disso, os historiadores reconstroem a história a partir da sua visão do mundo.

    Os evolucionistas fazem o mesmo. Só que as evidências não corroboram a sua posição.

    Apesar de os evolucionistas defenderem a ocorrência de evolução gradual, o registo fóssil demonstra que todas as espécies surgem aí plenamente formadas e funcionais e assim permanecem durante quantidades infindas de “tempo geológico” (este é outra construção evolucionista).

    Na verdade, proliferam inclusivamente os chamados fósseis vivos.

    3. A criação recente da Terra, e a sua sujeição a um dilúvio global, é atestada, entre outras coisas, pela extrema complexidade da vida (só compatível com a sua criação sobrenatural instantânea), pela recente origem das civilizações, pelas estatísticas demográficas que demonstram que o ancestral comum de todos os seres humanos terá vivido há escassos milhares de anos, pela quantidade de sal nos oceanos, pela existência de cometas, pela velocidade de recessão da Lua, pelo “paradoxo do Sol debilitado”, pelas taxas de erosão dos continentes, pela presença de C-14 em rochas, fósseis, carvão e diamantes supostamente datados de milhões de anos, pela proliferação de fósseis vivos e polistráticos, pela evidência de catastrofismo na geologia, pela ausência de fósseis de transição, etc.

    4. A origem recente da Terra não é incompatível como a dilação gravitacional do tempo, permitindo que enquanto 6 mil anos decorrem na Terra biliões de anos ocorram nas extremidadas do Universo.

    Sabemos que o tempo não é constante. A marcha dos relógios é afectada pela gravidade.

    Partindo do princípio de que Deus estendeu o Universo (realidade afirmada na Bíblia 17 vezes), é possível construir modelos cosmológicos de base não coperniciana que, partindo de uma teoria de buracos brancos e fazendo uso da teoria da relatividade geral , e sendo totalmente consistentes com os dados empíricos, podem manifestar-se adequados ao relato bíblico.

    A expansão do Universo afecta a diferença temporal, graças à dilação gravitacional do tempo.

    Como todos estes temas têm muito que se lhes diga, iremos falando deles nos próximos anos.

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  11. Digo "intelectualmente desonestos". Fugiu-me a boca para a verdade.

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  12. Muitos Parabéns, mas creio que está a roubar um poquinho na idade!
    Será porventura a LiLi Caneças uma caricatura de Deus?

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  13. O livro de James Ussher é justamente considerado uma obra prima da historiografia. James Ussher fez um levantamento exaustivo das fontes históricas da antiguidade para concluir que só com os impérios da Babilónia e Medo-Persa é que começaram a ser feitos registos históricos com alguma fidedignidade.

    Daí que o Ussher se tenha baseado na Bíblia para reconstruir a história. Inspirada por Deus, a mesma conta a história humana desde a Criação. Os cálculos de James Ussher sobre a idade da Terra cobrem mais de 100 páginas da sua obra.

    Os mesmos revelam um autor profundamente conhecedor da história e da historiografia antigas.

    Na verdade, a história observada e registada tem escassos milhares de anos.

    Os hipotéticos milhões de anos da pré-história (não observados nem registados por ninguém) são uma reconstrução ideológica, baseada numa filosofia naturalista e evolucionista da história, sem qualquer base empírica directa.

    Hoje, em que assistimos à despromoção da Lucy (que afinal não passa de um macado extinto) e à promoção dos Neandertais (que afinal já são considerados plenamente humanos), apercebemo-nos do carácter fantasioso e tendencioso dessas reconstruções, ganhando a obra de James Ussher um interesse redobrado.


    Ontem, como hoje, existiram macacos e seres humanos, derivados de um Criador comum. Os milhões de anos são um mito, baseado na confusão precipitada (condicionada por premissas naturalistas e uniformitaristas) de processos físicos com a passagem do tempo.

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  14. É evidente que o capítulo 2 de Génesis não contém mais um relato da criação, a acrescentar ao relato do capítulo 1, na medida em que não diz nada acerca da criação dos céus e da Terra, das estrelas, do sol, da lua, da atmosfera, dos mares, dos animais marinhos, etc. O capítulo 2 menciona apenas coisas respeitantes à criação de Adão e Eva e à vida que Deus preparou para eles num jardim. O capítulo 1 contém a criação narrada a partir da perspectiva de Deus, apresentando um quadro geral, uma perspectiva global. Diferentemente, o capítulo 2 contém uma abordagem mais focalizada, a partir de uma perspectiva mais humana.

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  15. Partindo do princípio que a palavra de deus conhecida foi escrita pelo homem, e que o mais humano que há é o erro, jamais conseguiria encarar a teoria criacionista como preferível à evolucionista.
    Naturalismo sim e relativismo sobretudo...

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  16. Deixemo-nos de estórias encantadas e partamos em busca da realidade... por vezes pode parecer complicado pensar mas há que fazer um esforço e não ser preguiçosos.
    Temos matéria-prima científica (teorias) bastante forte e sofisticada para compreender o Universo. Porque não a usamos? A Física tem mostrado evidências que as mentes mais atrofiaas recusam a aceitar aderiando, por sua vez, a teorias do "porque sim".

    "Uma vez admitindo que os sete dias da Criação são um conto poético que pode ser interpretado para além da sua letra, o Génesis parece dar razão a Darwin: primeiro tem lugar uma espécie de Big Bang, com a explosão de Luz, depois os planetas ganham forma e a Terra sofre os grandes choques geológicos (as terras separam-se do mar), em seguida aparecem os vegetais, os frutos e as sementes, e por fim as águas começam a fervilhar com seres vivos (a vida surge a partir da água), os pássaros levantam voo, e só depois, aparecem os mamíferos (é imprecisa a posição genealógica dos répteis, mas não se pode exigir demasiado do Génesis).

    No fim aparece o homem que é criado a partir do barro, ou seja, de matéria precedente. Mais evolucionista do que isto não pode ser." (Umberto Eco, in "A Passo de Carangueijo")

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  17. Palmira,

    Conhece um só Historiador da Ciência contemporâneo que não considere a famosa obra de Andrew Dickinson White, que a Palmira cita de forma elogiosa, como pseudo-ciência?

    A obra de White é um chorrilho de asneiras e erros, refutados há décadas pela comunidade académica. O mesmo com a do seu precursor, John William Draper, autor de “History of the Conflict between Religion and Science” (1875). A historiografia da Ciência, hoje em dia, não dá valor nenhum a estas obras. Antes pelo contrário, Draper e White são tidos como os "pais" da teoria do conflito, há muito desmascarada como mitológica.

    Cumprimentos

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