segunda-feira, 29 de outubro de 2007

INFINITO EM TODAS AS DIRECÇÕES


Também estive na Gulbenkian a assistir à conferência sobre os limites da ciência. A melhor de todas as intervenções foi, para mim, a de Freeman Dyson, esse físico admirável que é o autor de "Infinito em todas as Direcções", "Mundos Imaginados" (os dois na Gradiva" e "O Sol, o genoma e a Internet" (na Temas e Debates). É precisamente sobre o primeiro desses livros que transcrevo auma minha recensão publicada no "Público" quando o livro saiu. Fiz ligeiras adaptações:

Há autores, chamemos-lhe diletantes, que se põem a falar sobre isto e sobre aquilo sem terem capacidade provada e reconhecida para falarem sobre tudo. Ficam à espera que os seus elevados pensamentos sejam publicados nos jornais. Vê-se que não sabem de tudo aquilo que falam, não sendo por isso de admirar que os leitores fiquem por vezes confundidos.

Há outros autores que falam sobre tudo e, quando o fazem, conseguem dar a ideia de que sabem de tudo aquilo que falam. E, se calhar, sabem mesmo... Entre os últimos, é justo destacar o nome de Freeman Dyson, professor de física em Princeton, nos Estados Unidos. Foi a uma cidade escocesa, enfrentou uma audiência universitária, passou a prosa a limpo e ficou, tranquilo, à espera de ser lido. O livro tem tradução em português e, em correspondência com a largueza de vistas dos conteúdos, intitula-se “Infinito em todas as direcções”. Em 1979 tinha sido publicada uma original auto-biografia de Dyson, intitulada “Disturbing the universe”, que mereceu os elogios da crítica (existe edição brasileira, da editora universitária de Brasília), mas este “Infinito” é, se possível, ainda melhor.

Freeman Dyson é um dos cientistas da geração do norte-americano Richard Feynman, do soviético Lev Landau e outros, que nos finais dos anos cinquenta, estavam em plena pujança e laboração intelectuais. Trabalhou na electrodinâmica quântica e na teoria do magnetismo. A reputação que ganhou nesses e noutros assuntos (bem merecia o Nobel!) permitiu-lhe depois dedicar-se à conjectura arrojada sobre o futuro do homem no espaço. Algumas das suas ideias são de ficção científica (a exploração humana de meteoros, a construção de uma esfera oca a envolver parte do sistema solar, a viagem às estrelas com propulsão nuclear, etc.). Nos livros que percorrem a fronteira grande e sempre sedutora entre a ciência e a ficção científica, Dyson tem sempre direito a várias referências. No entanto, a sua condição de físico teórico e espírito livre nunca o levou a evitar ou desdenhar o confronto com matérias tecnológicas, económicas e políticas bem concretas.

A tese central do livro é enunciada por Dyson logo no início: “Como hipótese de trabalho para explicar o enigma da nossa existência, sugiro que o nosso universo é o mais interessante de todos os universos possíveis e o nosso destino, como seres humanos, é tudo fazermos para que assim seja”. No fim, retoma o mote: “O universo está construído de acordo com um princípio de diversidade máxima, que opera tanto ao nível mental como físico e sustenta que as leis da natureza e as condições iniciais são de forma a tornarem o universo tão interessante quanto possível. Como resultado, a vida é possível mas não demasiado fácil”. Um universo sem vida ou um universo onde a vida fosse demasiado fácil seriam desinteressantes...

“Infinito em todas as direcções” é, como o título indica, uma viagem para todo o lado, feita por um espírito que ama as viagens, as descobertas, os enigmas e a sua decifração. Na primeira parte, ensaia uma viagem às supercordas, às borboletas, a Manchester (capital da diversidade) e a Atenas (capital da unidade), aos problemas da origem da vida e do fim do universo. Na segunda parte, vai em excursão a temas como a tecnologia, a política e a guerra, as escolhas nada fáceis que são frequentemente colocadas à razão humana. O autor avisa que os actos humanos não têm que ser determinados apenas pelos ditames da ciência. Apela à tolerância e à humildade. Existe, por um lado, um infinito para a ciência percorrer e, por outro, um infinito de opções para o homem escolher e seguir. O universo é grande e grande é também a capacidade de acção humana. O infinito do mundo espraia-se em todas as direcções, incluindo também as direcções do homem.

Fica para o fim a referência às posições teológicas da Dyson, que nos podem confundir. Mandam os escritos sagrados “não invocar o santo nome de Deus em vão”, mas alguns físicos (P. Davies, em “Deus e a Nova Física”, S. Hawking, em “Uma Breve História do Tempo”, H. Reeves, em “Malicorne”, etc.) não resistem a invocar Deus (se existir Deus, Ele saberá se em vão). Freeman Dyson também arrisca neste livro uma breve incursão pela teologia, embora ciente de que esta é muito diferente da física. Usa a palavra “Deus” numa acepção invulgar, que ele se esforça por explicar. Não se trata de uma metáfora banal, como se encontra em muitos autores, pois impressiona pela imaginação e profundidade. O discurso directo é aqui insubstituível: “Entre a matéria, tal como a observamos no laboratório, e a mente, tal como a observamos na nossa consciência, parece existir apenas uma diferença de grau, não da espécie. Se Deus existe e nos é acessível, então a sua mente e a nossa poderão, deste modo, diferenciar-se somente em grau e não em espécie. Permanecemos, por assim dizer, a meio caminho entre a imprevisibilidade da matéria e a imprevisibilidade de Deus”.

Dyson chega a adoptar as heresias do italiano Socinus que viveu no século XVI quando escreve: “Deus não é omnisciente nem omnipotente. Aprende e cresce à medida que o universo se expande. Não pretendo compreender as subtilezas teológicas a que esta doutrina conduz se a analisar em pormenor. Considero-a meramente congenial e consistente com o senso comum científico. Não faço nenhuma distinção clara entre a mente e Deus. Deus é aquilo em que a mente se transforma quando esta passa para além da escala da nossa compreensão”. Um universo sem Deus seria, apud Dyson, tão desinteressante como um universo sem vida ou um universo com vida mas onde a vida fosse fácil.

— Freeman Dyson, “Infinito em todas as direcções”, Gradiva, 1990.

2 comentários:

  1. "Permanecemos, por assim dizer, a meio caminho entre a imprevisibilidade da matéria e a imprevisibilidade de Deus”.
    Isto, meu caro Carlos Fiolhais, poderia ser dito por um teólogo católico ou de outras confissões cristãs. Talvez mesmo por um judeu.
    Quanto ao homem como ser intermédio entre a natureza não racional e Deus, também aqui facilmente um católico assinaria por baixo. Já o escritor bíblico (que não fez uma narração da criação no sentido literal do termo, sublinho) o intuiu ao pôr na boca de Deus o que pensava, e que era a semelhança entre Deus e o homem como ser racional.

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  2. Ok, mas qual o problema? Afinal, um homem pode ser um físico brilhante e, ao mesmo tempo, teísta.

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