terça-feira, 23 de outubro de 2007

Luís de Albuquerque (1917-1992)

Depoimento sobre Luís de Albuquerque feito a pedido da Ordem dos Engenheiros:

Passaram em Março passado noventa anos sobre o nascimento de Luís Guilherme Mendonça de Albuquerque, matemático e historiador. Ele foi um extraordinário homem de cultura que marcou o nosso século XX, juntando, como é raro acontecer, o cultivo das ciências e das letras.

Engenheiro geógrafo de formação, foi Doutor em Matemática pela Universidade de Coimbra e Doutor honoris causa em História pela Universidade de Lisboa, em reconhecimento da sua vasta obra histórica, nomeadamente sobre os descobrimentos portugueses. Foi Professor Catedrático da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra. Apesar de ter sido um bom pedagogo e de ter dado origem a um grupo de investigação em Matemática, foi sobretudo como investigador da história da náutica e da cartografia que ganhou renome nacional e internacional.

Ocupou lugares de relevo na academia como o de Vice-Reitor de 1978 a 1982 e de Director da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra de 1978 até à data da sua jubilação, em 1987. Na sua direcção, modernizou os serviços e as instalações, tendo adquirido entre outros um núcleo bibliográfico do Dr. José Vicente Gomes de Moura e conseguido a oferta à universidade de diversos manuscritos, nomeadamente a Carta-portulano de Diogo Homem (ca. 1566). Além disso, deixou em testamento à Biblioteca Geral a sua enorme e rica biblioteca pessoal, onde se inclui um arquivo formado por alguns manuscritos (há, por exemplo, uma tradução em português do "De Nauigatione Libri Tres" de Diogo de Sá) e documentos.

Em homenagem ao seu ilustre antigo director, a Biblioteca Geral já decidiu atribuir à Sala actualmente usada para formação, onde se encontra aquele espólio, o nome de “Sala Luís Albuquerque”. Contudo, uma homenagem ainda maior que ele decerto merece e da qual todos seríamos beneficiários seria a catalogação da sua biblioteca que, além dos livros e revistas, contém muitos folhetos raros, colecções de recortes e fichas bibliográficas de leituras. De facto, por absoluta falta de meios humanos, esse acervo encontra-se ainda por catalogar e, portanto, por colocar à disposição dos interessados. Oxalá obtenha apoios um projecto para valorizar esse notável património que ele doou ao país.

Luís de Albuquerque era um cronista minucioso da vida cultural de Coimbra e do país. Segundo o escritor Cristóvão de Aguiar, em “Com Paulo Quintela à mesa da tertúlia : no centenário do seu nascimento”, ele mantinha diários estenografados cobrindo dezenas de anos de eventos relevantes e conversas. Assim, era com ele que os amigos iam buscar esclarecimentos sobre algum acontecimento que recordassem mal. Esses caderninhos mereciam ser disponibilizados na Biblioteca Geral e até ser transcritos para poderem ser usados como preciosa fonte histórica. Outros inéditos permanecem ainda de posse da família merecendo também divulgação.

Embora sobretudo um académico, Luís Albuquerque foi também um político: desde os tempos de assistente de Matemática que colaborou com revistas de intervenção político-cultural, como, por exemplo, a “Vértice”, e aceitou desempenhar as funções de Governador Civil de Coimbra no período a seguir ao 25 de Abril de 1974. Apesar das suas convicções de esquerda, nunca permitiu que elas se sobrepusessem às suas amizades, que soube cultivar num espectro vasto e sempre com grande generosidade.

Luís Albuquerque foi um homem sábio e um homem bom. Não tive a sorte de ter sido seu aluno, mas sou seu leitor. E orgulho-me de me contar entre os seus sucessores na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra.

5 comentários:

Anónimo disse...

E tem razão, meu caro Carlos Fiolhais, de se sentir orgulhoso por estar num cargo que já foi de um homem assim. Também eu leio Luís Albuquerque com veneração e respeito.

Graça disse...

É, sem dúvida, um nome de referência para qualquer estudioso da Expansão Portuguesa.

Anónimo disse...

Caro Carlos

... e não haverá na Cidade de Coimbra, desmpregados que saibam ler, a receber Subsídio de Desemprego e que possam dedicar 4 horas por dia a esse crítico trabalho de catalogação?
Parece ser este o nosso maior problema como país, não sabemos usar com racionalidade e sentido de utilidade os recursos de que dispomos... Aqui fica a sugestão.

Paulo disse...

O Prof. Luís Albuquerque foi meu Professor de Matemática em 1986. As aulas eram complementadas com histórias extraordinárias de vida.

Fernanda Carvalhal disse...

Grande Homem! Grande Professor! Fui aluna do Prof. Luís de Albuquerque e ficamos amigos. Foi e será sempre um modelo, juntando a Ciência, a Humanidade e a Cultura.

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