quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Doris Lessing: a visionária de uma civilização dividida

Foi há minutos anunciado o prémio Nobel da Literatura deste ano, atribuído a Doris Lessing, «a contadora épica da experiência feminista, que com cepticismo, fogo e poder visionário, sujeitou a escrutínio uma civilização dividida».

Doris Lessing, com os seus livros difíceis de encaixar num qualquer estilo literário, livros que são sobretudo pertubadores e perturbantes, é uma das minhas autoras favoritas. Apenas Doris Lessing (e a série de banda desenhada «Les Vagabondes des Limbes») transforma em prazer para uma anglófila assumida ler francês, nomeadamente o livro que é para mim a sua imagem de marca «Carnet d’or» - que depois reli em inglês, com o título «The Golden Notebook».

Como fã de ficção científica, «conheci» Doris Lessing através da pentalogia «Canopus em Argos», publicada na colecção Nébula da Europa América, em que a pena magistral da autora mistura ficção científica e literatura apocalíptica para contar toda a história da humanidade num «mundo novo» que a autora diz ter criado «para mim mesma».

A escritora feminista foi também uma combatente heróica contra as injustiças, o colonialismo e o apartheid, retratados no livro «A Erva Canta», de 1950, igualmente publicado pela Europa América.

Doris Lessing, que há muito consta das listas de possíveis laureados, nasceu no Irão em 1919 - o que a torna a mais velha laureada com o Nobel, o Nobel da Física em 2002, Raymond Davis Jr., que contava 88 anos à data da nomeação é o correspondente no masculino - e mudou-se com a família para a Rodésia do Sul (agora Zimbabwe), onde viveu até 1949. Lessing mostrou-se muito crítica de Robert Mugabe, o presidente do Zimbabwe que conturba a cimeira euro-africana que a presidência portuguesa da UE está a organizar, o que torna prevísiveis repercussões políticas da atribuição.

O último livro de Lessing que li, «The Sweetest Dream» lançado em 2002, é uma autobiografia de um sonho. Como referiu numa entrevista à BBC Brasil, «O novo livro é sobre as utopias em que eu e as pessoas de minha geração acreditávamos. Daí a palavra sonho. Quando eu era jovem, abre aspas, todo o mundo, fecha aspas, era comunista. É disso que o livro fala, do velho sonho comunista, que virou poeira».

Para os que desejarem conhecer mais sobre a escritora e a mulher, a BBC disponibiliza uma rara entrevista de Doris Lessing, realizada há 20 anos aos microfones da Radio 4.

4 comentários:

Joana disse...

A Ladbrokes este ano estendeu-se ao comprido com as suas previsões.

Já tinha desesperado que Doris Lessing fosse escolhida estou muito contente com a escolha :)

Claudio Magris ganha para o ano :)

Anónimo disse...

Extraordinário. Estou embasbacado.

Fernando Dias disse...

Nunca tinha lido nada de Doris Lessing, mas ainda vou a tempo para colmatar uma falha que tinha nas minhas leituras. A avaliar pelo que me é dado aqui conhecer da autora (apesar de me saber a pouco),e agora laureada, fico muito satisfeito.

A riqueza do seu mundo interior, a sua afronta às injustiças, ao racismo (colonialismo e apatheid), penso que o prémio Nobel da Literatura deste ano vai contribuir imenso para que cada vez menos pessoas fiquem indiferentes à deriva duma civilização dividida.

mulher disse...

Tanbém eu li o Golden Notebook em francês e gostei muito.

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