segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Protector solar verde

As plantas da família Brassicaceae anteriormente conhecidas como Cruciferae, que incluem, entre outras, brócolos, couve-flor, agriões e couve de bruxelas, apresentam um grupo de compostos secundários armazenados dentro dos vacúolos celulares, os glucosinolatos, com reconhecidas propriedades anticancerígenas.

Quando se processa mecanicamente as crucíferas, cortando-as ou mastigando-as (cruas ou cozidas por menos de três minutos), a enzima mirosinase promove a hidrólise dos glucosinolatos originando D-glucose e uma série de compostos como os isotiocianatos, tiocianatos, nitrilos e indoles, dependendo de parâmetros como o pH, a temperatura e, claro, o substrato sobre que actua.

Os rebentos de brócolos e couve-flor são especialmente ricos no glucosinolato glucorafanina que, por acção da mirosinase, origina sulforafano, um químico com actividade anti-cancerígena, nomeadamente é o indutor mais potente que se conhece de um tipo particular de enzima de fase II, a quinona redutase. As enzimas de fase II convertem carcinógenos activados em produtos menos tóxicos e facilmente excretáveis.

No último número da revista PNAS, o artigo «Sulforaphane mobilizes cellular defenses that protect skin against damage by UV radiation» encontra mais uma aplicação inusitada deste composto extraído de brócolos: como protector solar!

Embora alguns dos mais eficientes protectores solares sejam encontrados em plantas - e especialmente em alguns frutos e flores vermelhos ou azuis que devem a sua coloração a uma família de compostos designados por antocianinas -, estes actuam absorvendo a radiação ultravioleta. O sulforafano não absorve no ultravioleta, a radiação chega às células mas estas estão protegidas pelas enzimas entretanto expressadas, efeito catalítico que dura vários dias.

Extractos de rebentos da planta foram utilizados como protectores pelo grupo coordenado por Paul Talalay, do Centro de Protecção Química contra o Cancro Lewis B. e Dorothy Cullman, e resultaram na redução da inflamação na pele provocada pela radiação ultravioleta. A gravidade do eritema – vermelhidão na pele resultante da exposição ao sol – depende da dose de exposição sem protecção aos raios ultravioleta, e reincidências deste tipo de exposição aumentam o risco de carcinomas de pele.

Num estudo anterior, o mesmo grupo verificou que o sulforafano eleva os níveis celulares de enzimas de fase II quando aplicado na pele. O estudo agora publicado indica que um extracto de rebentos de brócolos, aplicado na pele até três dias antes antes da exposição solar, reduz os eritemas em 37.7% em circunstâncias em que os protectores solares são essencialmente ineficazes.

Embora Plínio o Velho tenha escrito sobre brócolos há quase 2000 anos e se pense que os etruscos desenvolveram este vegetal cerca de 850 anos antes, nos Estados Unidos, onde os estudos foram realizados, os brócolos são um vegetal intimimamente relacionado com quem ocupa a Casa Branca. De facto, a primeira menção aos brócolos em solo norte-americano deve-se a Thomas Jefferson, um dos pais fundadores deste país.

Desde que foram introduzidos comercialmente nos Estados Unidos, em 1923 pela D'Arrigo Brothers Company que plantou sementes italianas em San Jose, California, o consumo de brócolos aumentou regularmente nos Estados Unidos até Bush pai assumir a presidência e declarar «Eu sou o presidente dos Estados Unidos e nunca mais vou comer brócolos». O protesto dos agricultores que enviaram toneladas do vegetal para a Casa Branca não surtiu efeito, o consumo de brócolos só retomou o crescimento depois de Bill Clinton ter sido eleito e Hillary ter declarado na primeira entrevista pública ao New York Times que os Clinton eram «grandes comedores de brócolos».

2 comentários:

  1. "As enzimas de fase II convertem carcinógenos activados em produtos menos tóxicos e facilmente excretáveis."

    Estava aqui a perguntar aos meus retículos endoplasmáticos se a fase II a que se refere pertence ao citocromo P450. E já agora um preciosismo: "índoles" leva acento?

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  2. Sem resposta da Palmira nem dos meus retículos endoplasmáticos, estava a reflectir na acentuação grave do substantivo indole - e não na acentuação esdrúxula, que lhe confere índole não química - e lancei-me numa severa repreensão a mim próprio por não ter reparado logo que no texto existe "substracto" com c. Valha-me Deus e a Virgem.

    (Pal, sabe perfeitamente que apenas a aborreço por causa da sua sorte insultuosa. É inteligente, bonita e ganha cerca de 500 vezes mais do que eu. Além disso hoje é dia de dentista e estou um pouco melindrável)

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