quarta-feira, 3 de março de 2021

A MENTE INSUBORDINADA


Novo texto de Eugénio Lisboa

                 "Nem a contradição é sinal de falsidade, nem a falta de contradição é sinal de verdade". . 
                                                                                                         Pascal 

Vou hoje falar de um certo número de coisas inconvenientes ou mesmo antipáticas. Coisas que normalmente não são ditas, num meio cultural timorato e vastamente acomodatício. Mesmo nas universidades, que são areópagos onde tudo pode e deve ser questionado, prevalece quase sempre uma verdade “aceite” contra a qual se não atrevem os candidatos a uma carreira académica. Em vez de intemeratamente se questionar o que deve ser questionado, sonda-se para que lado sopram os ventos e ajusta-se o curriculum ao sabor da ventania. É triste mas é assim.

Sempre que um personagem de notório gabarito no meio cultural faz a demolição de um nome em voga, ninguém mais se atreve a tocar-lhe nem com pinças. Poderia dar inúmeros exemplos. Quando Eça terçou armas com Pinheiro Chagas, a propósito dos reparos sensatos feitos por este aos desmandos críticos do autor de O Primo Basílio à saga dos descobrimentos, Eça foi, sem dúvida, dos dois, o que teve mais gracinha, mas Pinheiro Chagas foi, também sem dúvida, quem teve razão. “Brigadeiro Chagas” ou não, dizer a Eça que não fazia sentido julgar feitos dos séculos XV e XVI, com a ética do século XIX , era do mais razoável que se poderia observar. Reduzir a saga das descobertas a uma “ignomínia”, como fez o grande romancista realista, era completamente tonto. Mas, para sempre, Chagas passou a ser o “brigadeiro Chagas”, coberto de ridículo, e Eça, o espírito progressista e iluminado. Ninguém, nem a universidade, questionou esta injustiça. Ninguém se atreveu, ao menos, a dizer que a argumentação de Chagas estava admiravelmente construída e melhor escrita. Fazê-lo não renderia juros e era perigoso e, portanto, não se fez. Chagas foi publicamente destruído e mais ninguém se lhe referiu, a não ser como objecto de troça. Assim vai a nossa cultura. 

Outro exemplo seria o do célebre ensaio de António Sérgio dedicado ao “Caprichismo romântico na obra do Sr. Junqueiro”. Sérgio, fino crítico literário e bom ouvido para a música do verso, fez muito claramente questão de separar o trigo do joio: o seu ensaio visou não o poeta exímio que era Junqueiro, mas sim o exageradamente aplaudido maître-à-penser, que Sérgio desvalorizava. De facto, nessa altura, o desvairo promontório da grandeza de Junqueiro, como filósofo e pensador (ver o que dele dizia, por exemplo, Raul Brandão) só pode comparar-se com a gritaria encomiástica que fez de Eduardo Lourenço o homem “que ensinou os portugueses a pensar”. Nós somos mesmo assim: foge-nos sempre o pé para a idolatria. De qualquer modo, Sérgio, como disse, foi muito cauteloso: sublinhou as egrégias qualidades poéticas de Junqueiro, mas demoliu o pensador que ele pretendia ser. Pois bem: apesar de todas as cautelas, era tão grande a (justa) aura de Sérgio, por essa altura, que Junqueiro morreu para sempre: nunca mais ninguém lhe pegou (até muito recentemente), nem mesmo com pinças. Que pensar de um meio cultural e académico que assim se deixa tão completamente subjugar pela mal lida opinião de um grande “clerc”?

Outro exemplo foi o de Júlio Dantas, destruído pelo gavroche Almada Negreiros, com o seu manifesto anti-Dantas. A malta gozou e ainda hoje goza e nunca mais foi ver aos textos se o Dantas só merecia a surriada que lhe fez o autor de Nome de Guerra. O que nunca ninguém disse, porque borrava a pintura, foi que o rebelde Almada não só foi pedir desculpa ao autor de A Ceia dos Cardeais, pela agressão feita, como foi também mexer meio mundo para ser apresentado a Salazar. Assim vão estes egrégios rebeldes. De qualquer forma, se o seu intuito foi assassinar o académico, conseguiu-o plenamente. Assim fazendo sair do horizonte literário, para sempre, um dos nossos mais admiráveis cronistas, homem culto, cosmopolita e civilizadíssimo, cuja prosa limpidamente clássica e vigorosa ficaria bem nas antologias escolares. Uma nota: notável gente da esquerda foi para a Academia, pela mão não ressentida de Júlio Dantas. 

Só mais um caso, aliás, dois, mas ambos originados pela acção de um grande figurão das nossas letras – refiro-me a Eduardo Lourenço e à sua esforçada tentativa de “reduzir” a estatura da revista Presença (que nunca tinha folheado e nem para ela tinha olhado…) e a não menos esforçada tentativa (coroada de êxito) de apear Sérgio do trono em que este se encontrava, para lá ir-se instalar ele e aí permanecer até à altura da sua morte. Lourenço viu, no segundo modernismo dos presencistas uma inesperada contra-revolução de que a revolução teria sido o primeiro modernismo dos argonautas do Orpheu. Ora o segundo modernismo não se pôs nada contra o primeiro, antes o estudou e carinhosamente o promoveu e, no plano criativo, não o copiou e fez coisa muito diferente, interessando-se por áreas dos séculos XIX e XX, a que os do Orpheu tinham voltado as costas. Em suma, fizeram diferente, mas não agiram contra. Dizer que os alegados terramotos ontológicos de Álvaro de Campos eram superiores a certas sondagens místico-psicológicas, como fez Lourenço, é estar completamente desfocado em relação ao que seja arte. E comparar a alegada contra-revolução do segundo modernismo com o bonapartismo deixa-nos, no mínimo, perplexos. Napoleão não veio pôr travões à revolução de 1789, veio, sim, travar, com decisão, o Terror de 1793, isto é, a loucura sanguinária dos Robespierres e quejandos. Por isso foi admirado por grandes espíritos do século XIX, como Beethoven, Goethe e Stendhal, entre outros. Confundir bonapartismo com contra-revolução é um erro histórico de palmatória, o que não impediu a intelligentsia universitária lusíada de glosar, embevecidamente, este dislate de Lourenço, que passou a ser doutrina obrigatória de quem quisesse fazer carreira. E creio que ainda é. 

A outra vítima de Lourenço e do seguidismo beato à sua frechada absurda foi, como dissemos, António Sérgio, a quem atacou a razão, para maior glória exclusiva da intuição bergsoniana e a quem acusou de não ter ideias inocentes e virgens, limitando-se a atacar ideias de outros. Esta segunda catilinária é tão absurda, tão desconhecedora do que tenha sido todo o progresso do conhecimento científico e filosófico e todo o percurso da arte, desde tempos imemoriais até hoje, que, mais do que surpreender-me tê-la Lourenço emitido, choca-me tê-la o meio universitário aceite durante tantas décadas. A ciência tem avançado precisamente por aquilo que alguém, referindo-se a Bertrand Russell, apelidou de “mente insubordinada”.

A ciência não nasce, virgem de influências, nas mentes inocentes e descontaminadas do cientista. Copérnico, Kepler e Galileu opuseram o heliocentrismo (o Sol, como centro do sistema solar) ao geocentrismo de Ptolomeu (a Terra, como centro desse sistema). O cientista alimenta-se dos erros ou insuficiências dos que o precederam. Newton, muito provavelmente, o maior cientista de todos os tempos, não hesitou em proclamar: “Se vi mais longe, foi porque estava ao ombro de gigantes”, gigantes que sabiam menos do que ele, mas sem os quais ele não teria feito o que fez. Grande e admiravelmente abrangente como era, a macrofísica de Newton partiu, por sua vez, os dentes quando se chegou ao estudo do comportamento das partículas. Aí, o determinismo sumptuário de Newton teve de dar lugar às hipóteses não deterministas dos físicos quânticos. Nem estes ficaram diminuídos por estarem só a opor-se a Newton, nem este ficou diminuído por a sua física não chegar para sondar a incerteza das partículas. Foi o mesmo Newton quem afirmou: “Nenhuma descoberta foi feita sem um palpite ousado.” Esse palpite é “ousado” precisamente porque pode estar a pôr em causa uma hipótese até aí aceite. E não é por assim surgir, isto é, por oposição a outra hipótese anterior, que ela é menos meritória. A desqualificação de Sérgio por Lourenço foi, assim, totalmente inepta.

Com a arte é a mesma coisa. Malraux disse-o de uma vez por todas, ao afirmar que nenhum quadro é descontaminado ou inocente: ele é sempre a resposta a outro ou outros quadros. Renoir ou Matisse respondem a Delacroix com uma pintura diferente e com propósitos diferentes. Mas teria sido pouco provável que se tivesse chegado a Picasso se Delacroix não tivesse existido.

Eduardo Lourenço temeu sempre a contradição, por que achava que a contradição diminuía o contraditado. Esqueceu-se de ir arejar as ideias com o grande Pascal, que dizia: “Nem a contradição é sinal de falsidade, nem a falta de contradição é sinal de verdade.” Fugiu de ser contraditado como da peste. Mas isso não lhe garante que a posteridade lhe diga que estava certo. 

 Eugénio Lisboa

4 comentários:

  1. Senhor Eugénio Lisboa,
    Que ideia errada que tem acerca de Júlio Dantas... O dr. Júlio Dantas publicou um artigo de sua autoria, no Primeiro de Janeiro de 1944, no qual denúncia a "falência maciça e integral da ciência nas suas tentativas de explicação da vida, do universo e do homem" e proclama a "ruína da ciência".
    Com a gravidade ele ser o presidente da Academia das Ciências.
    É verdade que a censura evitou a crítica, mas houve um abaixo-assinado que correu pelas três universidades, foram dezenas de cientistas e intelectuais que subscreveram o texto para repudiar as afirmações do artigo. Entre eles os notáveis BJC, Abel Salazar, Manuel Valadares, Ruy Luís Gomes, Flávio Resende, A. A. Ferreira de Macedo, Francisco Pulido Valente, Joaquim Fiadeiro, Manuel Teles Antunes, Jorge Delgado de Oliveira, António Aniceto Monteiro, Carlos Torres d'Assuncao, Alfredo Pereira Gomes, Luís Neves Real e Aurélio Marques da Silva, entre outros.

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  2. Obrigado pelo seu comentário, Dr. Ildefonso Dias. Eu não disse, em lado nenhum, que Júlio Dantas era um grande homem de ciência, disse só que o acho um admirável cronista. E ele não pertencia à classe de Ciências da Academia, pertencia à classe de Letras. Mas, se vamos a isso, eu possuo um livro que colecciona as maiores barbaridades que grandes homens de Ciência disseram de grandes descobertas de outros homens de Ciência. Isso não tira ao mérito daquilo que fizeram e descobriram. Errare humanum est! Sabe que o grande Einstein não ia à bola com a teoria dos quanta? Alegando que Deus não jogava aos dados com o universo? Ora deixe lá o Júlio Dantas ser um belo cronista, mesmo sem acreditar muito nos poderes da Ciência! Não imagina o número de grandes cientistas que eram espíritas... Eugénio Lisboa

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    1. Sr. Eugénio Lisboa, creio que percebi o fundamental do seu texto.
      E o fundamental que nos diz, com exemplos (justos para uns ou injustos para outros - não é o mais importante), e que importa, é que o pensamento só se não renega a si mesmo quando é livre.
      É isso que dá valor ao seu texto, essa é a lição. É a coragem de mostrar a falta de liberdade do pensamento no meio cultural e académico.
      Jamais lhe diria simplesmente que o seu texto é excelente só porque sim, é que bem sei que detesta beija-maos.
      Quando escrevi o comentário anterior pensei que desconhecia o episódio... E pensei que talvez quisesse tirar o título de homem culto que atribui ao personagem.

      Não sou Dr. Tenho formação em Engenharia, tal como o senhor e sei que não foi por mal.

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  3. Excelente texto de Eugénio Lisboa. Muito obrigado. BFP

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