quinta-feira, 11 de março de 2021

Que palavras nos restam? - 1

Mão amiga mandou-me a seguinte notícia:
Uma escola privada de Manhattan, em Nova Iorque, EUA, quer tornar a sua escola mais inclusiva e por isso pretende que os seus alunos deixem de usar alguns termos como pai, mãe, ou pais. O motivo, refere a instituição, é que este tipo de linguagem pode levantar suposições desnecessárias sobre a vida pessoal dos alunos. 
A Escola Grace Church, em NoHo, que leciona aulas desde o ensino pré-primário ao secundário, entregou aos alunos e funcionários um guia de 12 páginas onde explica a sua missão para a inclusão. O guia detalhado recomenda a utilização dos termos "adultos", "pessoas", "família" ou "tutores" como alternativas a "mãe", "pai" e "pais". Também sugere a utilização de "cuidador" em vez de "ama/babysitter". "As famílias são formadas e estruturadas de muitas maneiras. Na Grace Church School utilizamos uma linguagem inclusiva que reflete esta diversidade. É importante abstermo-nos de fazer suposições sobre com quem as crianças vivem, quem cuida delas, se dormem no mesmo lugar todas as noites, se veem os seus pais, etc." (Andrea Pinto, 11 de  Março de 2021, ver aqui).
Não estranhei a supressão das palavras em causa - trata-se, pensei, de mais uma ideia peregrina entre as milhares que configuram a educação do futuro/do século XXI -; o que estranhei foi a justificação: evitar conhecer o ethos familiar do aluno! Ora conhecer esse ethos, entrar na vida privada do aluno para, diz-se, melhor o compreender, é o must de umas quantas teorias (pseudo)pedagógicas.

Então, fui confirmar a notícia e, sim, parece que é verdade. E as palavras a evitar são muitas, muitas, muitas mais...

O melhor é o leitor consultar o tal Grace Inclusive Language Guide e, já agora, o site da escola (aqui).


3 comentários:

  1. Interessante como os movimentos pós-modernistas, com o seu pós-estruturalismo, relativismo cognitivo e moral impõem todo o tipo de pseudoconhecimento, pseudociência, pseudopedagogia no mundo académico. Sokal expôs de forma contundente essa impostura intelectual nas ciências, no entanto parece que o obscurantismo se vai desenvolvendo com estes movimentos ideológicos radicais.

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  2. Caro Anónimo.
    Devíamos ter aprendido alguma coisa com a "brincadeira" de A. Sokal. Mas depois dessa "brincadeira" a evolução que todo esse tipo de "pseudos" teve. Quem imaginaria, ao tempo, o que está ia acontecer, o que está a acontecer, com as palavras no campo educativo? As poucas que restam têm o destino marcado! Bom, talvez estejamos a exagerar nesta divagação. Esperemos que seja isso...
    Cumprimentos.
    MHDamião

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  3. Citando Steven Pinker:
    https://www.browndailyherald.com/2021/03/12/reed-21-steven-pinker-wants-repair-campus-culture/

    "...this new wave of illiberalism “is just the cumulative effect of several generations” of professors having indoctrinated their students in an ideological mixture of postmodernism and Marxist critical theory. Unfortunately, we have just reached the tipping point.

    But the problem isn’t just some fringe groups of student activists, Pinker says. Many of our institutions, including much of the campus bureaucracy itself, have become radicalized over the years. “So many people in positions of administrative power were brought up with this postmodernist and critical theory ideology that it’s become second-nature.” Professors then indoctrinate the next generation of students in these sorts of beliefs, namely that “history is a struggle,” that “there is no objective truth” and “that argumentation and logic are just pretexts to power.” These students, in turn, go on to become professors themselves primed to indoctrinate the next generation."

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