sábado, 13 de março de 2021

LIVROS E LEITORES


 Novo texto de Eugénio Lisboa:

                                                                                                                             Book – the noblest sound

that man has yet uttered.

Bernard Levin

 

Acabo de publicar, por arguto convite do meu editor Manuel Fonseca – um convite que foi também um desafio – um livrinho cujo título – VAMOS LER! – foi roubado a uma há muito extinta revista brasileira, que não pouco alimentou as minhas leituras e os sonhos de outras leituras, no início da minha adolescência em Moçambique. O livro pretende ser um convite à leitura, dirigido a pessoas que, por qualquer razão, nunca adquiriram o “vício impune” de ler. Procuro, nele, dar bons exemplos de grandes leitores e de como funcionam esses animais que descobriram muito cedo o “plaisir du texte”. Uma história verdadeira, que não contei no livro, passou-se com Mark Twain, esse gigante da literatura americana, que nunca aceitou que os seus livros de aventuras com Tom Sawyer e Huckleberry Finn, lidos por milhões de jovens, tivessem sido escritos para eles. Segundo o paradoxal autor do conto inesquecível – “A Célebre Rã Saltadora do Distrito de Calaveras” – os livros que todos os jovens ainda hoje devoram, deliciados, teriam sido escritos para adultos e só para adultos. A verdade, porém, é outra e mais espantosa: os livros de Tom Sawyer e de Huck Finn são mesmo para todas as idades, sem qualquer excepção. E, nisso, são uma enorme raridade. Mas isto vinha a propósito do prazer da leitura. Quando o garoto que depois se tornou no mais famoso escritor da América, já um pouco atrasadamente, aprendeu a ler e percebeu o tremendo tesouro que descobrira, foi pedir satisfações ao irmão mais velho, por este lhe não ter ensinado mais cedo esse prazer. E tão indignado estava, que lhe deu um arraial de pancadaria. Ora toma lá, que é para não guardares esta delícia só para ti! Esta história deveria ser contada nas escolas e em toda a parte onde se encontram pessoas que “não gostam de ler”. Uma pessoa que “não gosta de ler” fez-me sempre muita impressão: é que não gostar de ler é tão improvável como não gostar de chocolates! Haverá alguém que não goste de chocolates?

Querem um exemplo de grande leitor? O escritor inglês, Edward Trelawny conta que um dia saiu de casa, às dez da manhã e deixou o poeta Shelley, de pé, encostado à prateleira da lareira, absorvido na leitura de um livro; quando regressou, às seis da tarde, encontrou o poeta, no mesmo sítio, na mesma postura, absorvido no livro. Se isto não é gostar de ler, não sei o que seja. Mas há histórias mais espantosas. Vou contar algumas.

O escritor francês, Anatole France tinha na sua famosa residência em Paris – a Villa Saïd – uma enorme biblioteca e era conhecido pela sua vasta erudição. Um dia, a alguém que se extasiava diante de tantos livros, o autor de “Crainquebille”, aconselhou: Nunca empreste um livro, porque as pessoas nunca devolvem os livros que se lhes emprestam. Eu sei do que falo porque tenho uma grande biblioteca feita de livros que nunca devolvi.

Há também pessoas que gostam tanto de ler, que andam de biblioteca em biblioteca a requisitar livros, que vão acumulando em casa, tendo grande relutância em os devolver. Conta-se a história verídica de um advogado, em Nova Iorque, que chegou a acumular no seu apartamento 15 000 livros não devolvidos a várias bibliotecas. Tendo havido um pequeno incêndio no apartamento por baixo do seu, recebeu a visita de um bombeiro que andava a inspecionar todo o prédio. Ao ver aquela Babilónia de livros, grande risco de incêndio, perplexo, perguntou: “Para que quer o senhor aqui tanto livro?” Resposta pronta: “Porque gosto de ler.”

Outra história divertida passou-se quando eu vivia em Londres. A maior livraria da capital inglesa era a famosa Foyle’s, cuja proprietária era uma senhora dos seus oitenta e tal anos, que já não tinha forças nem grande apetência para dirigir aquele monstro. Quando um jornalista lhe perguntou por que não se desembaraçava saquele fardo e não o vendia, ela deu a resposta mais improvável que se possa imaginar: “Não vendo, porque gosto muito de ler e dá-me jeito ir lá de vez em quando buscar um livro”.

Para me não alargar mais com histórias de grandes leitores, termino com esta de um verdadeiro precursor das bibliotecas itinerantes, O Grão Vizir da Pérsia, Abdul Kassem Ismail (935 – 998) gostava tanto de ler, que viajava sempre com a sua grande biblioteca de 117 000 livros às costas de 400 camelos. Tal como a proprietária da Foyle’s, dava-lhe jeito, para quando tivesse necessidade de ler um livro.

Quero, com estas histórias exemplares, levar o leitor relutante a fazer a si mesmo esta pergunta: que levará estes leitores a tais extremos, a não ser o facto de a leitura ser mesmo um grande e indispensável prazer?

Eugénio Lisboa

 

P. S. – Uma nota de gratidão que nada tem que ver com o texto acima. É algo que tenho grande gosto em aqui declarar. Fui hoje finalmente vacinar-me, no centro de vacinação de Alcabideche (concelho de Cascais). Ia preparado para uma canseira burocrática e uma espera exaustiva. Tive a maior surpresa da minha vida: deparei com uma organização impecável, eficiente, rápida, cuidadosa e extremamente humana. Um verdadeiro relógio suíço, topo de gama. Uma perfeição de organização. Senti-me orgulhoso: afinal, os lusíadas também sabem fazer bem, quando é preciso. A minha gratidão vai para todo o pessoal daquele centro modelar e para a Câmara de Cascais que o gizou.

 

 

 

5 comentários:

  1. Caro Eugénio: Desculpa este meu comentário. Mas não podia deixar de o fazer por denunciar um processo de gratidão tão esquecido nos dias de hoje. Refiro-me à forma elogiosa com que te referes à tua vacinação contra o corona vírus. Eu confesso que me tenho amargo (será da minha idade?) nos meus textos sobre os nosso políticos, desta feita marcho a teu lado sobre a forma impecável com que decorreu o meu processo de vacinação em Coimbra, sexta-feira passada. Já podemos dizer que somos "maiores e vacinados"!

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  2. Li um texto de Bento Caraça publicado na Seara Nova (1945) motivado pelo desaparecimento de Romain Rolland, transcrevo o seguinte parágrafo:
    "On ne lit jamais un livre; on se lit à travers lês livres, diz ele próprio algures; grande verdade que explica a razão pela qual certos livros duram através dos séculos. E que explica por que os seus ensaios, os seus artigos, os seus apelos, encontravam uma tão larga audiência mundial e contribuíram tão poderosamente para formar mais de uma personalidade."

    Senhor Eugénio Lisboa, apoiado na citação que fiz, quero lhe perguntar se o argumento do prazer da leitura não é algo já largamente estafado, inútil, que o valor da leitura é bem mais que isso?

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    1. À pergunta que me faz o Sr. Eng. Ildefonso Dias, respondo com muito prazer. O prazer da leitura não tem nada de estafado e é recomendado não só por escritores criativos , mas recomendado e praticado por grandes filósofos e cientistas de ontem e de hoje. Platão filosofou em belíssimos e empolgantes diálogos e não considerou o prazer da leitura um ingrediente descartável. Cientistas como Jean Rostand, Sir Peter Medawar (o grande pioneiro da imunologia e Prémio Nobel da Medicina), fizeram questão de escrever admiravelmente, um, nos seus ensaios científicos e nos seus inesquecíveis aforismos, que fazem dele um mestre no género, o outro , nos valiosíssimos livros de recensões críticas que nos lega na melhor prosa que em inglês se escreveu. O Filósofo e matemático Bertrand Russell,foi, além de um admirável pensador, um extraordinário prosador, que se tornou um dos escritores mais lidos e apreciados, também pelo enorme prazer que induz a sua prosa acutilante e voltaireana. Platão filosofou, usando como isca o prazer que a beleza dos seus diálogos propiciavam. E o grande romancista Henry James dizia que uma das inalienáveis obrigações do escritor era entreter e dar prazer ao leitor. NO livro que acabo de publicar - VAMOS LER! - dou várias boas razões para se ler, mas nunca me passaria pela cabeça excluir o prazer. Não, a exigência de prazer não é uma coisa estafada. Grandes escritores e pensadores de ontem e de hoje recorrem a ele, como uma das ferramentas importantes do seu ofício. Stendhal queria que o prazer que punha na escrita se comunicasse, como igual prazer, ao leitor. Francamente, como se pode querer considerado estafado o prazer! Como se a aquisição de conhecimento tivesse de ser uma coisa aborrecida! Faz-me tudo isto lembrar as pessoas que, na época vitoriana e ainda mesmo um pouco depois achavam que o acto sexual não devia dar prazer mas ser usado apenas e severamente para procriação. Julga que Bento Caraça acreditava nisto? Não imagina o prazer que me deu a leitura dos seus perenes "Conceitos Fundamentais da Matemática", escritos não só para ensinar e cultivar, mas também para o fazer da forma mais sedutora possível. Eugénio Lisboa

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  3. Encomendei o seu livro na editora. Para evitar os portes de envio escolhi correio normal vai levar mais algum tempo. O livro é acessível no preço.
    Cumprimentos.

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  4. Recebi o livro. É interessante o conselho de Flaubert. Eu já seguia esse conselho, aprendi com Bento Caraça. Na verdade os "Conceitos Fundamentais da Matemática" ensinam isso, não são um livro para ler e divertimo-nos como crianças, também não são para instruir ambiciosos, são sim, para viver (Cultura). Eugénio Lisboa acha possível, ao mesmo tempo, a diversão, a instrução e ler para viver... O meu primeiro comentário implícita ou explicitamente marcava a atitude e a escolha em face da leitura e do seu valor.
    Eugénio Lisboa também discute o assunto e dá a sua opinião.
    É um bom livro e parabéns ao autor Eugénio Lisboa.

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