sábado, 6 de março de 2021

"Não estamos a educar, estamos a desumanizar"

Divulgamos um artigo de opinião recentemente publicado no jornal El País com o título Educação, burocracia e espectáculo, e assinado por Andreu Navarra. Permitimo-nos mudar o título para reafirmar o caminho anti-educativo que estamos a trilhar na escola que é (ou deve ser) para todos. No final este professor, historiador e escritor espanhol apela ao professor, como pensador, eventualmente o último baluarte da destruição dos sistemas educativos públicos. "Ainda não nos substituíram", diz. Não podemos deixar de ver nesta afirmação um misto de esperança, mas também não podemos deixar de nos questionar: será essa esperança a (curto) prazo?

Maria Helena Damião & Isaltina Martins

Publicado em 1967, “A sociedade do espectáculo” de Guy Debord pode ajudar-nos a compreender o que está a acontecer no mundo da educação. 

Por exemplo, quando Debord escreve que “o que se representa como a vida real revela-se simplesmente como a vida mais realmente espectacular”, o que podemos deduzir é que a educação “boa” ou “aceitável” de hoje é a mais espectacular, não a mais pedagógica. 

O sistema educativo esqueceu-se que deve servir para que os jovens aprendam idiomas, literatura e ciências, para que possam construir e controlar as suas vidas com um grau suficiente de autonomia. Optou pelo caminho ortodoxo de controlar como hão-de sentir-se, o que hão-de comprar, o que hão-de pensar e sentir e como hão-de alimentar as grandes companhias tecnológicas de sua principal matéria prima, que são os seus próprios dados. 

Debord ensina a entender a forma como, vendendo o seu corpo e o seu “tempo consumível”, se constituiu a sociedade do espectáculo: portanto, pode ensinar-nos a entender a revolução digital como a conversão absoluta de todo o tempo, incluindo o tempo escolar, em pura mercadoria. O nosso sistema público está em transformação: deixa de ser um espaço de promoção social e aquisição de saber para se tornar, progressivamente, e mercê de pressões exteriores, numa fábrica de dados, imagens e programações comercializáveis. 

Debord escrevia, em 1967: “A integração no sistema deve recompor os mesmos indivíduos que isola como indivíduos, deve mantê-los isolados e juntos: tanto as fábricas como os centros culturais, tanto os lugares de férias como as “grandes superfícies” organizam-se espacialmente em função dos fins dessas pseudo-colectividade (…).” Não é muito difícil entender que as escolas se tenham tornado um novo campo aberto ao consumo global. O aluno que se encontra num espaço público, mas atomizado através do seu telefone, é hoje uma imagem habitual, contra a qual estamos muito longe de saber ou de poder reagir. A multiplicação de écrans, justificada por falsos argumentos didácticos, não é mais do que a implementação de estudos de mercado empresarial. As companhias ficam com o dinheiro da instrução pública, e o que sai dos equipamentos digitais, dos computadores que estão na sala de aula e das gamificações é pura espectacularidade: canónica, vigilante, sedutora, necessitada de espectadores passivos e de indivíduos inconscientes de si mesmos. A escola que funciona, hoje em dia, segundo os parâmetros oficiais e ortodoxos, é a escola que construiu um bom site e que veicula imagens de entusiasmo, higiene e criatividade. Não importa que, na realidade, essa escola tenha problemas gravíssimos de convivência ou que praticamente já ninguém aprenda nada ali: as escolas só são valorizadas pela autocomplacência que são capazes de produzir. As escolas são centros de difusão de espectáculo público. 

Não estamos a educar, estamos a desumanizar, burocratizando e coisificando a nossa juventude (…). Se as escolas transmitem imagens de diversidade, felicidade e beleza canónica, recebem a aprovação e subvenções do Estado. O desmacha-prazeres que se atreva a assinalar a realidade, é um herege. 

Por esse motivo, entre outros, encontramo-nos face a una ditadura pseudoeducativa. Não devemos cair no abuso de falar de totalitarismo actual, mas devemos falar de ditadura quando qualquer alternativa, quando o instinto democrático mais básico deveria fazer-nos compreender que o único caminho libertador em democracia é a criação e a extensão de conhecimento poderoso, em vez da criação e extensão das imagens autocomplacentes totalmente falsas. Vale a pena falar de ditadura quando se silencia qualquer tipo de diversificação didáctica, objecção informada ou democratizante; a transformação draconiana não pode ser detida: é o novo Anjo da História de Walter Benjamin. Nenhum político se atreve a ser impopular e começar a pensar como dignifica e informa a sua cidadania. 

É muito mais cómodo e rápido continuar com o tsunami uniformizador, continuar a utilizar o rolo burocrático para conseguir medalhas e maquilhar as estatísticas. À falta de uma rede social moderna e dinâmica, cria-se um paraíso artificial e virtual de completa felicidade pedagógica, esquecendo as pessoas na sua absoluta intempérie e carência intelectual. Uma necessidade decretada por nós mesmos, adultos que perderam completamente o respeito pelos valores de um sistema minimamente liberal. 

Como pudemos permitir que se instalasse este extremismo mercantil no nosso sector público? Custa a crer que a nossa deserção tenha alcançado um estado tão avançado de inércia e servilismo. As últimas leis educativas aprovadas pelas nossas Cortes não são mais do que isso: implementação de controlo social através das novas tecnologias, quando não a encenação de um conflito político que não existe, porque nenhum partido propõe outra coisa que não seja o transhumanismo tecnológico e a generalização das imagens espectaculares. Não importa quanto sofrimento produzam estas políticas liquidacionistas. 

A nova pedagogia é uma fake new. A questão é ser feliz abandonando-nos às novas religiões emotivistas. Os chamados “especialistas” ou gurus não são mais do que responsáveis de relações públicas das companhias que pretendem modelar o tempo livre da nossa juventude à sua completa conveniência. A classe política, em vez de salvaguardar a liberdade dos nossos futuros cidadãos fornecendo-lhe uma alternativa cultural e informada, humanística e crítica, entrega-os ao grande festim das experimentações sociológicas.... 

Escrevia Debord, em 1967: “A condição prévia para elevar os trabalhadores ao estatuto de produtores e consumidores ´livres´ do tempo-mercadoria foi a expropriação violenta do seu tempo”. O nosso sistema educativo está a converter os nossos jovens em ciberproletariado à força, numa classe subalterna de vendedores de si mesmos através de redes sociais virtuais, de cujo controlo mental será quase impossível escapar. 

Debord fazia frente aos fenómenos da televisão e das férias banalizadas, à troca do tempo de qualidade por sucedâneos industriais de consumo. O nosso inimigo é ainda mais difícil de localizar: andamos com ele no bolso, tem um poder de captação espectacular muito mais sofisticado que uma programação idiotizante de televisão ou que a produção em massa de paisagens impostas. O inimigo nem sequer tem muito a ver com o aparelhito que transmite todo esse crescimento da espectacularidade da vida humana subalterna: o mais preocupante é a docilidade com que nós, adultos, nos submetemos aos novos deuses, a hipocrisia com que asseguramos e garantimos que tipo de angustiante futuro espera a nossa juventude. As classes burocráticas roubavam o tempo vital aos trabalhadores nos anos sessenta; nós fazemos algo muito mais grave quarenta anos depois: roubar aos mais novos a sua infância, canalizar a sua juventude, os seus sonhos e aspirações, impondo-lhes gostos, indumentárias e capacidades intelectuais, pensando que aceitarão de bom grado as nossas tutelas sem nos fazer perguntas. 

Mas não contavam com o facto de ainda existirem os professores e as expressões livres e autónomas. Ainda não nos substituíram. O que faz falta é que se organize a única alternativa democrática possível: a que tem como eixo o conhecimento poderoso e como divisa o difícil caminho da autonomia de critérios, a informação verdadeira e o pensamento esclarecido.

Andreu Navarra, 4 de Janeiro de 2021

2 comentários:

  1. O artigo é excelente. Passar-me-ia ao lado se não houvesse esta partilha, obrigado.
    “o mais preocupante é a docilidade com que nós, adultos, nos submetemos aos novos deuses, a hipocrisia com que asseguramos e garantimos que tipo de angustiante futuro espera a nossa juventude”.
    Num artigo de opinião editado na Revista Ípsilon do Jornal Público, de 26 de fevereiro pretérito, Mário Lopes parafraseia o professor de francês de Orwell, Huxley (1910), “dentro da próxima geração, acredito que os senhores do mundo descobrirão que o condicionamento infantil e a narco-hipnose são mais eficientes, como instrumentos de governação, que mocas e prisões, e que a luxúria do poder pode ser tão completamente saciada condicionando as pessoas a amar a sua servidão, como a chicoteá-las e pontapeá-las até à obediência (…) um universo em que a violência se esconde por trás de biombos: como sorriem os cidadãos, quão maravilhosos são os êxtases provocados pela «soma», a droga estatal que assegura a necessária e feliz alienação, e pela libertinagem sexual decretada pelo estado”.
    Recordo-me, porque o escrevo para posterior consulta, de algumas frases de Debord:
    “Há uma relação intrínseca entre a produção de espetáculos e o exercício de poder”.
    “Pela simples razão que a realidade que domina tudo isso, o sistema económico, exige a fabricação maciça de estudantes incultos e incapazes de pensar”.
    “Se o conhecimento da realidade está esvaziado, se a comunicação está reduzida ao processo de construção/desconstrução de imagens, vivemos sob o domínio da mentira sem possibilidade de contestação”.
    Sim, é horrível ter a consciência. Sem ela não se é nada.

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  2. "A nova pedagogia é uma fake new. A questão é ser feliz abandonando-nos às novas religiões emotivistas. Os chamados “especialistas” ou gurus não são mais do que responsáveis de relações públicas das companhias que pretendem modelar o tempo livre da nossa juventude à sua completa conveniência. A classe política, em vez de salvaguardar a liberdade dos nossos futuros cidadãos fornecendo-lhe uma alternativa cultural e informada, humanística e crítica, entrega-os ao grande festim das experimentações sociológicas...." Andreu Navarra

    A escola pública, onde antigamente se ensinava História, Matemática, ou até mesmo Filosofia, agora tomada pelo Coaching Educativo, é como aqueles chãos que se veem ao abandono por esse país fora, apesar de já terem dado uvas!...

    Estas considerações genéricas de Andreu Navarra são muito lúcidas e pertinentes. Citando e recriando a “passagem” do Evangelho, segundo São João, comentada nas missas do dia de hoje, eu, que agradeço às Professoras Helena Damião e Isaltina Martins este artigo em que se apela ao despertar da consciência profissional dos professores, digo que é necessário e urgente expulsar os vendilhões das escolas EB 1,2,3 + S + JI de Portugal.
    Deixem-me também ser incisivo e sintético no apelo que faço ao senhor ministro da educação, Tiago Brandão Rodrigues, no sentido de que não permita o malbaratar dos dinheiros da bazuca europeia destinados à educação em Portugal. Temos o exemplo do ouro que nos chegou do Brasil, nos séculos XVII e XVIII, e que, infelizmente, de pouco ou nada serviu para desenvolver o país. Todo o dinheiro da bazuca que for gasto em ações de formação de professores, para remunerar formadores em coaching educativo, ou noutras técnicas económico-sociais que prometem a felicidade celestial na escola, advindo daí rendimentos que permitem comprar jipes e SUV topo de gama, como aconteceu há uns anos na distribuição de outros fundos europeus, será dinheiro deitado ao lixo!

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