quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Ciência e Teatro

 
 
[Este texto sobre o teatro científico por várias razões ficou inédito, partilho-o aqui] 

Carmen Dolores (1924-2021) escreveu a sua autobiografia para o Jornal de Letras, "Vivendo outras vidas" (JL, maio de 2005). Gostou de representar, diz no livro “Nos Palcos da Memória” (Sextante, 2013)  a Margrethe de “Copenhaga”, uma peça de Michael Frayn que envolve a vida de cientistas. Ao ouvir na rádio um programa sobre esta atriz, “Tempo da Dálias”, nasceu logo ali a ideia de escrever sobre ciência e teatro. De facto, o teatro é dos meios mais poderosos para transmitir e tornar inesquecíveis ideias e dilemas. Os científicos também.

Entre a primeira edição inglesa de 1906 e a versão de 2017 de Andew Upton de “Children of the Sun,” peça de Máximo Gorki, desapareçam algumas piadas como a da criada que diz “Physistry” e “Chemics” as quais em Português não resultariam pois “Física” e “Química” têm a mesma terminação. É interessante que Upton tenha uma visão positiva da química e que explique o que pode significar atualmente ser “filho do sol” (algo que não era tão claro na versão de 1906): os nossos elementos foram feitos nas estrelas. A peça, que foi representada entre nós em 1979, tem um químico como personagem. Trata-se de uma família em isolamento devido à cólera (isso foi lembrado há pouco tempo, pois a situação é semelhante à atual). De forma convencional, refere-se que Gorki retrata o isolamento e a alienação, antecipando as revoltas que se seguiram. Mas a personagem do químico diz-nos também como a ciência era vista na altura.

Carl Djerassi foi um químico muito prolífero, que morreu em 2015. Ficou conhecido como o “pai da pílula” por ter inventado uma molécula que poderia ser usado como contracetivo oral. No final da sua vida que daria uma peça de teatro (na verdade a peça “Ego” é baseado em si próprio), dedicou-se ao que ele próprio designou como “teatro científico” e deixou fundos para apoiar artistas. E colaborou com autores e companhias de teatro portuguesas, em particular com Mário Montenegro, licenciado em Engenharia Electrotécnica e de Telecomunicações e doutorado em Estudos Artísticos (Estudos Teatrais e Performativos), que encenou muitas das suas peças e Manuel João Monte, professor e investigador da Universidade do Porto. Uma das suas peças mais conhecidas é “Oxigénio”, escrito com o Nobel Roald Hoffmann (tradução de Manuel João Monte, Edições UP, 2015) e ilustra bem o conceito. Querendo a Academia Nobel sueca dar um retro-Nobel da Química, escolhe o elemento oxigénio. Nada mais confuso. Há três candidatos: Scheele que o descobriu primeiro, mas atrasou-se na publicação, Priestley que o descobriu de forma independente e Lavoisier que lhe deu nome. Quem deverá ter o prémio? Toda esta história é contada pelas companheiras dos três cientistas, aproveitando para referir a condição da mulher. A Academia Sueca tem nesta peça uma presidente que também vive essa questão. No final… No final é necessário ver a peça, ou ler o livro! Aprende-se acompanhando esta peça de teatro multifacetada. É isso que acaba por se fazer com todas, claro, mas as de Djerassi são especificamente pensadas nesse sentido, como a “Falácia” (“Phallacy” no original, Edições UP, 2011). Nesta peça há uma historiadora que usa métodos tradicionais para datar uma estátua de bronze como sendo grega, mas afinal um colega que usou métodos instrumentais, mostra que a estátua é uma imitação renascentista. Há várias questões em jogo: A estátua perdeu o seu interesse por ser uma imitação renascentista? Os métodos científicos não deveriam ser usados já que estão disponíveis? O conflito, competição mesmo, entre a mulher e o homem (em muitas peças de Djerassi esse aspeto está presente e dá-lhe uma densidade adicional). As eternas questões do valor da Arte, das várias áreas de estudos, e, da natureza humana, são aqui retratadas ao mesmo tempo que se aprende.

Depois de traduzir Djerassi, Manuel João Monte, escreveu as suas próprias peças. Tive a sorte de acompanhar de perto a evolução do “Bairro da Tabela Periódica” (Edições UP, 2019) no “Ano Internacional da Tabela Periódica” em 2019. Desde as récitas em palestras até à encenação por Mário Montenegro, a peça foi evoluindo e percebi muito melhor o que era a criação teatral e a importância das palavras ditas. Mais recentemente, escreveu a peça “Arsénico” com que ganhou o prémio de divulgação cientifica da Sociedade Portuguesa de Autores e, com Sofia Miguens, “Que coisa é o mundo (o estado dogmático)" (Edições UP, 2021).

Tom Stoppard tem também algumas peças de teatro em que a ciência tem um papel importante. Por exemplo, em “Arcadia” (Faber & Faber, 1993) refere as questões da teoria do caos que fazem com a mecânica clássica também seja probabilística. A tese de mestrado de 2007 de  Cláudia Correia Saraiva, “Teatro Científico e ensino da Química”, refere muitas outras peças que não é aqui possível referir com mais detalhe: a “Revolução dos Corpos Celestes”, com textos de Mário Montenegro e produzida pela Marionet; também produzida pela Marionet, “Bengala dos Cegos” com textos de Mário Montenegro, que se centra na figura do matemático Pedro Nunes; “Copenhaga”, já referida, produzida pelo Teatro Aberto; “O Homem que via passar as estrelas” de Luis Mourão, pelo Teatro da Trindade; “Picasso e Einstein”, de Steve Martin, que se centra num encontro fictício entre Picasso e Einstein em 1904 em Paris; “Os Sonhos de Einstein”, na qual Alan Lightman procura refletir sobre o tempo, entre outras. O grupo “Encerrado para obras” tem peças com demonstrações científicas, assim como canções que envolvem estes temas, nomeadamente o “Quimicómico”. As listas dos projetos podem ser muito grandes, tal como são ainda mais longas as listas de projetos fracassados. As produções teatrais envolvem muitos custos e variáveis e nem sempre os promotores vêm o risco como aceitável, coisa que nós, público, nem sempre entendemos.

E mesmo as peças de teatro que parecem não ter nada que ver, acabam por nos contar coisas relacionadas com as questões científicas. Estreada em Maio de 2021, no Teatro de São João, no Porto, a peça de Henrik Ibsen, “Espectros”, tem uma personagem que sofre de sífilis congénita (curiosamente esta peça foi também destacada por Carmen Dolores que fez de mãe). A explicação é a devassidão do pai, mas sabemos hoje que havia muitas formas de transmissão, muitas delas inocentes. Que cura eficaz  na altura não havia e que a loucura espreitava. Com a profilaxia e o aparecimento dos antibióticos este flagelo acabou por quase desaparecer.

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