quinta-feira, 9 de dezembro de 2021

ELIZABETH KOLBERT E O CÉU BRANCO


Meu artigo no I de hoje:

Toda a gente sabe que o céu é azul. A expressão «céu branco» que surge em Sob um Céu Branco. A Natureza do Futuro, o mais recente título da norte-americana Elizabeth Kolbert (n. 1961), jornalista dos quadros da revista The New Yorker, é estranha, mas explica-se facilmente. Num planeta ameaçado pelo aquecimento global foram propostas algumas soluções de geoengenharia global que parecem ficção científica. Uma delas, desistindo de limitar as emissões de dióxido de carbono, que são em larga medida responsáveis pelo agravamento do efeito de estufa, consiste em espalhar pela atmosfera quantidades consideráveis de aerossóis, que, ao diminuírem a radiação solar que chega à Terra, baixariam a temperatura desta. Um problema lateral seria que o céu, em vez de azul, passaria a ser branco. As últimas palavras do livro são precisamente as do título: «Seria um clima sem precedentes, onde a carpa-prateada tremeluz sob um céu branco».

Kolbert, que é hoje uma das vedetas do jornalismo mundial, tem, desde há vários anos, centrado as suas atenções em questões ambientais. Ela gosta de usar o termo «Antropoceno», ainda não consagrado cientificamente, mas que já se generalizou para designar a nova era geológica, dominada pelo impacto das marcas humanas.

Sob um Céu Branco, saído em Portugal na Elsinore, é o seu quarto livro. Os primeiros dois, não traduzidos entre nós, foram: The Prophet of Love and Other Tales of Power and Deceit (Bloomsbury, 2004), sobre alguns políticos de Nova Iorque, e Field Notes from a Catastrophe: Man, Nature, and Climate Change (idem, 2006), sobre as alterações climáticas. Mas o grande sucesso veio com o terceiro livro, A Sexta Extinção (Elsinore, 2019), que recebeu o prémio Pulitzer para a melhor obra de não-ficção de 2015. O Pulitzer é um dos maiores prémios atribuídos anualmente nos Estados Unidos a obras de jornalismo, literatura, não-ficção e música. Para ver em que galeria entrou o livro de Kolbert, enuncio os títulos relacionados com ciência que foram galardoados e publicados entre nós: Os Dragões do Éden, de Carl Sagan (Gradiva, 1991); Gödel, Escher, Bach, de Douglas Hofstadter (idem, 2000); Armas, Germes e Aço, de Jared Diamond (Relógio d’Água, 2002); O Bico do Tentilhão, de Jonathan Weiner (Caminho, 2006); O Imperador de Todos os Males, de Siddhartta Mukherjee (Bertrand, 2012); e A Grande Mudança, de Stephen Greenblatt (Clube do Autor, 2012). É pena que o naturalista Edward O. Wilson, o único cientista que ganhou dois Pulitzers, não tenha publicadas em português nenhuma das obras pelas quais foi premiado, embora tenha várias outras.

Eram, portanto, elevadas as expectativas em torno do novo título de Kolbert. E ela soube estar à altura delas. Se o livro anterior era sobre a dramática perda da biodiversidade a que estamos a assistir (a autora estima que antes do final deste século arriscamos perder entre 20 e 50 por cento das espécies vivas) depois de terem ocorrido, antes do aparecimento dos humanos, cinco extinções em massa, o livro mais recente é sobre a continuada acção humana sobre a Natureza. A questão é: até que ponto será o mundo natural ainda natural? Para lhe responder, a autora, uma grande repórter que, para escrever esta obra, visitou alguns dos sítios mais extraordinários do planeta, começa por notar que a Natureza tem estado sujeita à intervenção humana desde há muito.

No primeiro («Rio abaixo») dos três capítulos que constituem o livro (o resto é agradecimentos, notas e créditos), Kolbert começa por descrever a sua descida de barco ao longo de um canal que foi construído no final do século XIX para desviar o trajecto do Rio Chicago para que ele não entrasse no Lago Michigan. Ao completarem-se esses trabalhos estabeleceu-se uma ligação entre a bacia hidrográfica dos Grandes Lagos e a outra grande bacia, a do rio Mississipi, alterando seriamente vários ecossistemas. Apesar de bem intencionado, o controlo da Natureza por vezes correu mal: por exemplo, introduziram-se espécies invasoras, como carpas oriundas da China, que rapidamente proliferaram, com impacto no ambiente. Uma marca do controlo humano que a autora descreve é a das barreiras eléctricas que foram construídas pelo Corpo de Engenheiros dos Estados Unidos para impedir as carpas, matando-as, de passar num certo sítio do canal artificial. Indo mais para Sul, a autora voou sobre a foz do Mississipi, não muito longe de Nova Orleães (cidade que conheço bem, pois vivi lá um ano, antes do furacão Katrina), para confirmar in loco o que já sabia: boa parte do estado da Louisiana está abaixo do nível do mar, só sendo habitável graças a um complexo sistema de diques e bombagens. No litoral do Golfo do México são permanentemente perdidas terras para o mar. O delta do rio é tudo menos um sistema natural, pois resulta da permanente luta entre a Natureza e o homem, uma luta que tem originado enormes alterações dos ecossistemas.

Eis como Kolbert vê a Natureza alterada: «É costume dizer-se que a Natureza – ou, pelo menos, o conhecimento de Natureza – está emaranhado na cultura. Até ter existido qualquer coisa que lhe pudesse ser contraposta (a tecnologia, a arte, a consciência), havia apenas a "Natureza", e, por isso, a categoria não tinha grande utilidade. Talvez seja também verdade que, quando a "Natureza" foi inventada, a cultura estava já nela intrincada. Há 20 mil anos, os lobos foram domesticados. O resultado foi uma nova espécie (ou, segundo alguns, uma subespécie), bem como duas novas categorias: o ‘domesticado’ e o "selvagem". Com a domesticação do trigo, há cerca de 10 mil anos, o mundo vegetal dividiu-se. Algumas plantas tornaram-se "colheitas" e outras "daninhas". No admirável mundo novo do Antropoceno, as divisões não param de se multiplicar.»

No Génesis 1.26 está escrito que o Criador atribuiu ao homem o domínio da Terra: «Deus disse: ’Façamos o ser humano à nossa imagem, à nossa semelhança, para que domine sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os animais domésticos e sobre todos os répteis que rastejam pela terra’». De certo modo temos cumprido esse desígnio, mudando radicalmente a paisagem, destruindo espécies e criando novas. A Natureza deixou, há muito, de ser natural. Kolbert cita Edward O. Wilson: «Não somos como deuses. Não somos ainda sencientes ou inteligentes o suficiente para sermos o que quer que seja.»

No segundo capítulo, «Rumo à Natureza», Kolbert descreve uma caverna no deserto do Nevada, não muito longe de Las Vegas, onde vive uma colónia de pequenos peixes azuis que só existem aí. São muito poucos – não mais que poucas centenas - estando ameaçados de extinção. Têm corrido vários perigos, como quando baixou o nível da água (que está à temperatura de 33 ºC) devido à irrigação de uma propriedade próxima. Houve um litígio, que foi a tribunal, entre os destruidores e os salvadores dos peixinhos. As autoridades têm feito tudo para preservar a colónia, desde o reforço da alimentação no seu habitat natural até à sua deposição noutros habitats, incluindo uma caverna artificial que é uma réplica fiel da verdadeira e cuja construção custou cerca de cinco milhões de dólares. No mesmo capítulo, a autora vai primeiro ao Havai e depois à Austrália para ver o que está a ser feito para defender a Grande Barreira de Coral das múltiplas ameaças que pairam sobre ela. Não é só a barreira que é frágil, também os humanos o são: A cientista que ajudava a autora morre rapidamente quando lhe aparece um tumor no cérebro. Kolbert procura outros cientistas, visitando, na Austrália, um laboratório biológico de alta segurança e inteirando-se sobre o CRISPR, uma nova técnica de edição genética, que poderá ajudar a salvar os corais. Entre os personagens que encontra há um com aspecto de «cientista louco»: um biofísico de cabeleira loura, piercings e tatuagens cuja empresa oferece serviços de design genético. Ele próprio, embora sem sucesso, tentou desactivar um dos seus genes para ficar com uns bíceps maiores…

No último capítulo («Nas Nuvens»), Kolbert descreve a sua viagem à Islândia para saber como se «petrifica» o dióxido de carbono. Ela tinha recorrido a um serviço de uma empresa de emissões negativas de dióxido de carbono, que retira este gás do ar injectando-o na crusta terrestre. Esta é outra possibilidade de geoengenharia para controlar o aquecimento global, em alternativa ou complemento ao espalhamento de aerossóis no ar. Ainda é muito cara. A autora queria ir a mais sítios, mas as suas excursões foram subitamente interrompidas pela erupção da COVID.

A prosa de Kolbert é sóbria, mas extremamente eficaz. Ela leva-nos aos sítios onde esteve. A legibilidade do livro, que tem mapas e figuras elucidativas, é bastante ajudada pela excelente tradução de Eugénia Antunes. Remato com um resumo que a própria autora faz no final: «Este é um livro sobre pessoas que tentam resolver problemas criados por pessoas que tentavam resolver problemas. Enquanto o escrevia, falei com engenheiros e engenheiros genéticos, com biólogos e microbiólogos com cientistas atmosféricos e empreendedores atmosféricos. Sem excepção mostraram-se apaixonados pelo seu trabalho. Regra geral, contudo, o seu entusiasmo era contrabalançado pela dúvida. As barreiras eléctricas, as crevasses de betão, a caverna artificial, as nuvens sintéticas: estes projectos foram-me apresentados mais num espírito de tecno-fatalismo do que de tecno-optimismo.» A questão que logo ocorre é: quem controla os controladores da Natureza?

3 comentários:

  1. Prezado Professor,
    a obra Field Notes from a Catastrophe teve edição portuguesa, pela Guerra & Paz com o título Tópicos para uma Catástrofe mas, infelizmente, já só se encontra em bibliotecas e, quiçá, alfarrabistas.
    Aliás, nem na página Web da editora tem menção mas, como a desorganização lá impera, não vale a pena esperar muito.
    Grata,
    Susana Serrão

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  2. Muito obrigado
    pela informação, bom ano! CF

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  3. Cara Susana, eu devia saber do livro que traduziu pois eu proprio o ofereci à biblioteca ROMJULO que criei em Coimbra
    http://webopac.sib.uc.pt/search~S17*por?/Xkolbert&searchscope=17&SORT=D/Xkolbert&searchscope=17&SORT=D&SUBKEY=kolbert/1%2C5%2C5%2CE/frameset&FF=Xkolbert&searchscope=17&SORT=D&5%2C5%2C

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