quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

BELAS BIBLIOTECAS


Minha coluna no último JL:

Um sítio especial da minha biblioteca contém livros sobre bibliotecas.  Foi o escritor argentino Jorge Luís Borges que disse que imaginava «o paraíso como uma espécie de biblioteca». Assim, os lugares da Terra onde há bibliotecas são uma espécie de paraísos. Alguns desses lugares  distinguem-se pela sua particular beleza. Os livros estrangeiros sobre «as mais belas bibliotecas do mundo» incluem normalmente a Biblioteca Joanina da Universidade de Coimbra e a Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra. É o caso  do magnificente livro The World’s Most Beautiful Libraries, do italiano Massimo Listri, mestre da fotografia de arquitectura e de ambiente (Taschen, 2018)  De facto, essas duas bibliotecas são «joaninas» por ambas estarem associadas ao rei D. João V: a Biblioteca Joanina coimbrã começou a ser construída em 1717, tendo ficado concluído em 1728 (demorou até 1750, quando morreu o rei Magnânimo, para as estantes ficarem preenchidas com livros e até mais tarde para abrir as portas), ao passo que a Biblioteca de Mafra, cujo edifício começou a ser construído também em 1717 tendo ficado concluído em 1730 (a biblioteca só ficaria completada, com a maioria dos livros no seu sítio, no final do século XVIII).

O livro Bibliotecas. Maravilhas de Portugal, da autoria do fotógrafo e editor Libório Manuel Silva (CentroAtlântico.pt, 2013), exibe, através de belas fotografias, e após eloquente prefácio de Eduardo Lourenço, as 21 “maravilhas” bibliotecárias do nosso país. Como não podia deixar de ser, lá estão a Biblioteca Joanina e a Biblioteca do Palácio de Mafra. Mas há mais maravilhas como as menos conhecidas Biblioteca Pública de Braga, Biblioteca da Academia Militar, Biblioteca da Academia das Ciências, Biblioteca da Assembleia da República e Biblioteca Pública de Évora (refiro apenas algumas das que conheço, havendo outras que estão na minha «lista de desejos»).

Acaba se sair do preço da mesma editora o segundo volume dessa obra: Bibliotecas. Maravilhas de Portugal, vol. II, bilingue como o primeiro (português-inglês), mas agora com o carácter bilingue do livro patente na capa, pois o título inclui Libraries. Wonders of Portugal. Tendo a mesma altura, o segundo volume é mais largo, beneficiando a apreciação das fotografias. Desta vez o prefácio é do bibliófilo argentino Alberto Manguel, o amigo de Jorge Luís Borges que decidiu recentemente instalar a sua biblioteca em Lisboa. Curiosamente, Manguel dedica o seu texto a Eduardo Lourenço, retribuindo a dedicatória que Eduardo Lourenço lhe tinha feito há oito anos. E, ao resumir a história das bibliotecas portuguesas, não se esquece de louvar as Bibliotecas Joanina e de Mafra. Desta vez, o autor-fotógrafo surpreende-nos com uma série de fotografias de 22 bibliotecas portuguesas que, em geral, são pouco conhecidas (três delas são antigas bibliotecas, pois são espaços religiosos que hoje estão despidos de livros). Destaco algumas das bibliotecas aqui reveladas e que tenho o gosto de conhecer: a Biblioteca da Casa de Mateus, o Museu-Biblioteca Condes de Castro Guimarães, a Sala Chinesa da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, a Biblioteca Velha do Seminário Maior de Coimbra, a Biblioteca Municipal Palácio Galveias, a Biblioteca da Imprensa Nacional – Casa da Moeda, e o Arquivo Histórico e Biblioteca do Museu de Ciência da Universidade de Lisboa. Mais uma vez fiquei com vontade de visitar aquelas que ainda não conheço.

Uma das bibliotecas que mais me surpreendeu é precisamente aquela que está representada na capa e merecer uma longa menção do autor na sua introdução (ao contrário do vol. I, Libório Silva não apresenta uma descrição sumária de cada uma das bibliotecas). Trata-se da Biblioteca do Palácio Patiño, em Alcoitão, Cascais, uma grandiosa mansão que foi adquirida nos anos 1950 pelo multimilionário boliviano Antenor Patiño (1896 - 1982), o «rei do estanho». Em 1961 ele mandou fazer uma réplica em pequena escala da Biblioteca Joanina de Coimbra, que tem também colunas em pirâmide invertida e abundante chinoiserie na espantaria. Libório Silva descreve o baile de gala que teve lugar nessa palácio em 6 de Setembro de 1968, precisamente o dia em que António de Oliveira Salazar entrou de urgência no Hospital da Cruz Vermelha, um mês após ter sofrido uma queda no Forte de Santo António, no Estoril. Convidados do faustoso baile eram estrelas de cinema como Gina Lollobrigida, Zsa Zsa Gaboir e Audrey Hepburn e membros de famílias reais  como Margarida da Dinamarca, Irene da Holanda e Soraia da Pérsia. O autor, que teve acesso à biblioteca Patiño em circunstâncias que não relata, salienta que as suas fotografias são um exclusivo, acrescentando que nada se sabe sobre o recheio dessa biblioteca.

Patiño ocupou a casa em 1981, mas ela ficou desabitada em 2009, quando morreu a sua segunda mulher. A moradia de luxo foi vendida em 2016 por 12 milhões de euros, estando hoje a propriedade em redor ocupada com um condomínio de luxo. Esta cópia da Joanina foi, de facto, uma extravagância  de um homem muito rico. Quando escrevi com Paulo Mendes, um colega meu físico e excelente fotógrafo, o livro Biblioteca Joanina. Universidade de Coimbra (Imprensa da Universidade de Coimbra, 2013), não sabia da existência desta réplica.

Tirando o caso da Biblioteca Municipal de Galveias, em Lisboa, e da Biblioteca Municipal de Reguengos de Monsaraz, as bibliotecas do segundo volume são privadas ou institucionais, não estando em geral abertas ao público. Mas a Biblioteca Velha do Seminário Maior de Coimbra, uma pequena preciosidade, pode ser visitada no quadro do circuito turístico daquele seminário. É uma biblioteca barroca  que acresce em Coimbra à Joanina. Curiosamente, uma biblioteca parecida com a Joanina, mas construída no século XX (1938) na Universidade de Coimbra, é a Sala Chinesa da Faculdade de Direito, inacessível aos turistas, mas mostrada no novo livro.

Recomendo o álbum de Libório Silva que nos leva, com esplêndidas imagens, a sítios desconhecidos que merecem ser conhecidos. Estou certo de que não serei apenas eu a querer visitar as bibliotecas desconhecidas mostradas neste livro.

Carlos Fiolhais

 

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