quinta-feira, 13 de junho de 2019

"Um país amnésico: o que é que a Escola e a Universidade estão a fazer?"

Sabendo-se que o conhecimento humanístico que não foi já suprimido do currículo escolar é reduzido ou aligeirado (de momento, o caso da História é preocupante), atente-se no que disse António Carlos Cortez, professor de Português e escritor, no último programa semanal de televisão (RTP 1) Prós e contras, com o título Portugal antes de tudo (aos 33 minutos):
"Para quem está no ensino hoje, nos últimos vinte anos, [a questão do país amnésico] talvez seja uma das questões mais urgentes. Não acho que possamos pensar Portugal sem pensar na questão fundamental: o que é que a Escola e a Universidade estão a fazer?
Porque, dos programas escolares ao modo como se lecciona, há muita coisa a repensar. Há uma amnésia cultural, de facto (...). O passado é muitas vezes um catalisador do futuro, sem esse conhecimento do passado não é possível fazer o presente nem é possível projectar um futuro (...). 
A questão, para mim, que não é sequer pensada é, mesmo, a da educação. 
Nós temos hoje gerações de alunos formadas nas escolas portuguesas que, independentemente dos cursos que frequentam, desconhecem factos, não articulam factos e ideias, desconhecem conceitos e, no entanto, tiram cursos superiores e, no entanto, são até jovens lideres partidários e, no entanto, fazem as carreiras profissionais à custa do carreirismo partidário ou de outro tipo de carreirismo, então este Portugal, tem, de facto, um problema e é um problema, voltamos sempre ao mesmo, na verdade, o diagnóstico de Antero está correcto, a nossa fatalidade é a nossa história. 
Nós temos elites separadas das massas e essas elites muitas vezes não compreendem o que está em causa, na medida em que o seu quotidiano é absolutamente diferente daquele quotidiano do português que trabalha e que paga os seus impostos e que, hoje em dia, tem como único móbil, como único foco de energia o futebol."

3 comentários:

  1. É o triunfo da vaidade!
    Com os incentivos hipócritas e facilitadores da escola flexível do sucesso para todos, atualmente até os indivíduos mais destituídos mentalmente, que frequentam o ensino secundário, podem, e devem, "entrar na Faculdade", como eles dizem, mesmo quando se referem a institutos politécnicos, o que interessa é frequentar e concluir cursos superiores.
    A secundarização do ensino secundário, com as escolas praticamente transformadas em repartições de emissão de diplomas que conferem o direito universal de ingresso no ensino superior, Portugal corre o risco, num futuro muito próximo, de juntar à míngua de capital financeiro a escassez de capital humano.
    Muito pior do que um país com poucos doutores, será um país com excesso de falsos doutores!

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  2. Quem tem poder de decisão não tem a mínima ideia do que se aprende em História e depois há sempre Geografia a encavalitar-se aos ombros da História para colher os seus frutos.
    Mesmo directores que parecem dotados de alguma cultura pensam que a disciplina trata, apenas, de datas e factos e quando lhes dizemos que o programa de Cidadania e Desenvolvimento, na sua maior parte, integra o programa de História acham que só queremos levar a água ao nosso moinho e na verdade a disciplina não serve para rigorosamente nada.
    Agora, perante as provas de aferição, e apesar de todos os anos ser referido em actas, foi um "valha-me Deus " porque se aperceberam que com a horas alocadas à disciplina não se consegue dar o programa.

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  3. Tudo o que se possa dizer sobre a Escola, e é imenso, não pode deixar de ter em atenção um princípio, que deverá nortear tudo o resto, o princípio da humanização da Escola e a sua função civilizacional.
    Se a Escola e os professores e os currículos e os programas e os projetos e os espaços e os tempos e os princípios pedagógicos e as políticas educativas e as filosofias e os valores...não respeitarem e não se subordinarem àquele princípio de humanização da Escola, de que Escola estaremos a falar?
    Não é sequer a questão do estudo das humanidades. É a questão do respeito e da cultura de humanização, civilização, cidadania, paz e desenvolvimento, cada vez mais prementes.
    Nada, nem ninguém, substitui a vocação humanizadora e civilizacional da Escola e tudo lhe deve ser vinculado, sob pena de os problemas maiores a temer serem as pessoas.
    As realidades humanas e sociais, os problemas humanos e sociais, os problemas sociológicos, sobrelevam cada vez mais em acuidade, relativamente a tantos problemas técnicos e tecnológicos.
    Não faz sentido centrarmos mais a nossa preocupação no perigo dos robots e da inteligência artificial do que no perigo que as pessoas podem representar, sobretudo as que controlam os poderes da ciência e da tecnologia.
    O mais difícil, que nenhuma ciência por si só resolve, é assegurar que a Escola tenha um rosto humano, seja humana, amigável em vez de hostil, integradora e incentivadora de bons comportamentos e atitudes, com as condições físicas e ergonómicas básicas.
    Nem as sociedades mais evoluídas e mais ricas o têm conseguido. Conseguem mais facilmente produzir bombas atómicas e venenos e demónios invisíveis.
    E depois, mas isso são outros problemas graves, há o papel avaliador e classificador da Escola.
    A Escola não pode ser reduzida a esta função mobilizadora das aprendizagens e dos alunos.
    As aprendizagens, a motivação para aprender, para questionar, para explorar e descobrir, muitas vezes abortam em ambiente de avaliação, classificação. E, independentemente disso, muitas vezes não se coadunam, nem convivem saudavelmente, com a pressão de competições viciadas, utilitaristas, mercantilistas, dos saberes que “contam”.
    Muita curiosidade se dá bem com as contas a receber, mas nenhuma curiosidade resiste à pressão das contas...a pagar.

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