terça-feira, 5 de outubro de 2021

Cristóvão de Aguiar: no dia da morte de um senhor da palavra

No dia da sua morte é necessário não deixar esquecer Cristóvão de Aguiar, e chamar a atenção dos que ainda não conhecem a sua obra, pois é um dos melhores escritores portugueses da segunda metade do século XX. 

Senhor de uma obra vasta e variada, que vai da poesia (Mãos vazias, 1965, O pão da palavra, 1977, Sonetos de amor ilhéus, 1992) ao monumental diário, Relação de Bordo (1964-2015), que é uma imagem próxima, rigorosa, vibrante e frontal de Coimbra, das suas elites e, simultaneamente, do tempo coimbrão e português, durante mais de cinquenta anos. E muitas outras obras, como Com Paulo Quintela à mesa da tertúlia (1986), A tabuada do tempo – a lenta narrativa dos dias (Prémio Miguel Torga / cidade de Coimbra, 2007), Miguel Torga o lavrador das letras, um percurso partilhado, no 1.º centenário do seu nascimento (2007), Braço tatuado (1990), Passageiro em trânsito (1994), Charlas sobre a língua portuguesa (2009), e ainda tradutor, por exemplo, desse clássico que é A riqueza das nações, de Adam Smith. 

Mas é sobretudo na sua obra de ficção Ciclone de Setembro (1985), Passageiro em trânsito (1988), O braço tatuado (1990), A descoberta da cidade e outras histórias (1992), Um grito em chamas (1995), A semente e a seiva (1979) (Prémio Ricardo Malheiros), Vindima de fogo (1979), e O fruto e o sonho (1980), uma trilogia que foi posteriormente publicada num só volume (2015), Raiz comovida, e integrada nas suas Obras Completas.

Relendo Raiz comovida à distância de quarenta anos, verificamos que não envelheceu nada, que continua viva e com todas as suas qualidades. Para os que viveram no Portugal daquele tempo, que o amaram e sofreram com os seus ambientes, pessoas, situações, mentalidades, carências, injustiças, desigualdades, misérias e grandezas, é estimulante e chega a entusiasmar o reencontro com essa realidade já algo afastada. É um retrato magnífico da sociedade portuguesa em meados do século XX, uma autêntica aguarela, como se costuma dizer, rica, colorida, picaresca, mas realista e cheia de humanidade e graça. Como diz Aníbal Pinto de Castro, 
«o que mais profundamente me impressiona na sua escrita é a riquíssima carga de humanidade que simultaneamente lhe serve de “raiz”, lhe vivifica a alma e lhe marca o estilo. Por isso a sua ficção está tão visceralmente ligada aos lugares onde nasceu, cresceu, viveu, e às pessoas que, sendo parte essencial desses lugares, deles conservam marcas tão fundas mesmo quando, no seu discurso, se volvem personagens».
É, de facto, a especificidade açoriana em toda a sua pujança – nas peripécias, na linguagem, nas paisagens, nos ambientes sociais – o que nos comove e encanta, pois parecem revelar simultaneamente uma feição arquetípica e um concreto particular e intransmissível. É um todo açoriano que se integra num todo português, próximo pelos hábitos e pelos modos de sentir, pelos afetos, pelas crenças, mesmo que afastado por milhares de quilómetros. 

Ao retratar os Açores dos anos cinquenta, Cristóvão de Aguiar retrata igualmente o Portugal desse tempo. Com uma estrutura aberta, numa sequência de memórias de lugares, pessoas e situações, uma criança recorda as suas vivências e vai muito para trás relatando casos contados por familiares, histórias da vila, personagens, rivalidades e lutas que viveu ao ritmo do calendário litúrgico, das estações do ano, das tempestades marítimas, dos tremores de terra, sempre com o sonho da América e uma vida melhor, na alma, e sob a proteção da Santa Madre Igreja, como também acontecia no Continente.

A obra de Cristóvão de Aguiar, para quem visite as ilhas açorianas e se delicie com aquela preciosidade paisagística, urbanística, humana e cultural, ganha em nós uma profundidade renovada, um encantamento e uma riqueza suplementares, como se aquele mundo tão particular exigisse a obra, e esta, mais que reconhecer e sentir aqueles lugares e situações fosse dela uma sublimação literária, como de facto é.

E tudo isto através de uma escrita de grande qualidade, conseguindo misturar ingredientes que não é comum vermos tão bem sintetizados numa só obra. É de facto, como disse o Medeiros Ferreira, seu contemporâneo e amigo, uma «homenagem à língua portuguesa»; mas é mais do que isso, é uma homenagem ao povo açoriano e, em termos mais vastos, a todo o povo português, pois sentimo-lo ali das mais variadas e autênticas maneiras.

Não há muitas obras na literatura portuguesa que nos mostrem tão bem o Portugal de então. E se nos restringirmos aos Açores, certamente que não há outra. Há, é certo, o Mau tempo no canal, de Vitorino Nemésio, que é efetivamente um dos nossos grandes romances do século XX. Mas tendo em conta que os dois autores são açorianos, que emergem da mesma realidade cultural e sem grande diferença temporal, a comparação é inevitável, embora seja sempre uma fonte de equívocos e de possíveis injustiças.

Ora, sem pôr em causa a qualidade do livro de Vitorino Nemésio, uma vez que retratam a mesma época e paisagem mas não exatamente o mesmo estrato social, Raiz comovida é um retrato mais realista e mais próximo do povo açoriano. E, note-se, com não menos qualidade literária. Se outro mérito não tivesse, a obra constitui um vastíssimo e variadíssimo quadro social e cultural, uma montra dos usos, costumes, mentalidades, falas, expressões, relações familiares, artes, ofícios, crenças, moralidade, sexualidade, repressão, formas de educação, manhas e artimanhas, enfim, histórias de muitas formas e feitios, que nos proporcionam um enorme prazer na leitura e uma informação sobre os Açores que nenhum outro meio consegue.

Por outro lado, repito, a obra tem uma qualidade que não cede ao longo de todos os livros, uma originalidade de sintaxe, sem desconstruir sintaticamente, uma riqueza linguística única, e um sem número de achados de primeira 
(Alguns exemplos tirados de Raiz comovida: De contente, «o senhor padre não cabia nos paramentos», ou «os luteranos recolheram as redes e partiram com elas vazia de almas e de peixes», p. 405; «os olhos colavam-se às montras das lojas que se sucediam como pevides de melancia», p. 277, etc., etc.). 
E algumas descrições de antologia, como a ida à cidade, com o pai, para comprar ferro, no pós-guerra, pp. 274-280, ou a aparição do Inferno ao pobre do Luz Cruz, pp. 241-244). Talvez um pouco gongórica aqui e além. Mas também isto tem que ser contextualizado porque faz parte da amálgama lexical, social, cultural e até paisagística que, de algum modo, a solicita. E talvez até exija, pois é sobretudo descrição, oralidade, colorido e não propriamente o jogo verbal e o arrebique desnecessário de que o gongorismo tanto gosta. Ou seja, a base coloquial das histórias, sequenciais e entrecruzadas, implica uma certa repetição, e até, por vezes, alguma redundância, mas todas as obras, na medida em que são, ou devem ser, um sistema, definem a sua coerência, e o importante é saber se conseguem mantê-la, ou não.

Ora, também a este nível, Raiz comovida é irrepreensível. E se pensarmos em alguns dos nossos maiores (Camilo, Aquilino Ribeiro, Tomaz de Figueiredo) encontramos gongorismos bem mais assumidos e desenvolvidos, e nem por isso as consideramos menos. Ombreia com os nossos melhores neorrealistas, e sendo já um clássico estou certo de que o será cada vez mais. 

Para Coimbra, onde Cristóvão de Aguiar se formou e onde viveu desde a juventude, é sem dúvida uma grande perda. Consola, porém, o facto de poder juntar o seu nome a muitos outros – José Régio, Edmundo de Betencourt, João Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, Afonso Duarte, Vitorino Nemésio, Fernando Namora, Virgílio Ferreira, Carlos de Oliveira, Torga, Agustina Bessa Luís, Eugénio de Andrade, Eduardo Lourenço, Manuel Alegre – que aqui se formaram ou por cá passaram e que a cidade, de uma maneira ou de outra, marcou e inspirou, e a quem nem sempre soube agradecer como devia.

Pessoalmente, tive o grande privilégio de, nos últimos anos, pertencer a um grupo de amigos – de que fazia parte Cristóvão de Aguiar – e que se reuniam regularmente. Pude apreciar a sua erudição, a sua competência linguística, e o verbo ora entusiasmado e veemente ora ácido e duro, conforme o tema o entusiasmava ou o indignava.

Era um homem bem formado e de caráter. 
João Boavida

1 comentário:

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