quinta-feira, 3 de julho de 2025

"O PODER DA LITERATURA". UMA HISTÓRIA, UM LIVRO

Talvez haja quem se recorde de, nos anos oitenta do passado século, certa professora, chamada Maria do Carmo Vieira, e os seus alunos do 11.º ano da Escola Secundária Marquês de Pombal, em Lisboa, terem redigido uma carta aberta em defesa do café Martinho da Arcada, frequentado por Fernando Pessoa e que, à altura, estava destinado a "mudar de ramo". A carta deu origem à Associação Pessoana dos Amigos do Martinho da Arcada (APAMA), cujas solicitações tiveram acolhimento político e governamental (ver aqui e aqui). 

A história é mais complexa do que isto, mas o que me interessa aqui sublinhar, porque toca o cerne, a alma, da educação escolar, é a possibilidade de se construir na escola, na relação entre professores e alunos, por via do conhecimento, algo de novo, capaz de tornar o mundo um pouco melhor. Não é certo que sempre assim aconteça, não é certo que, no caso, a literatura tenha sempre o poder de mobilizar o que de melhor há nas pessoas em prol do bem-comum, mas por vezes pode... A educação cidadã é isto mesmo, não aquilo que o Ministério da Educação, desde há longa data, quer que seja.

Perceber-se-à melhor o que digo com a leitura do livro que Maria do Carmo Vieira publicou recentemente, descrito no texto de apresentação como "um manifesto apaixonado sobre o poder de a literatura inspirar novos interesses e paixões e desencadear mudanças na sociedade" e sobre "o papel fundamental do professor de Português como transmissor de um legado cultural, que desafia imposições e métodos, evidenciando o contraste entre o sentido da literatura, arte da palavra, e o utilitarismo de um texto funcional."
 
Na feira do livro de Lisboa encontrou-se a professora e dois desses seus alunos numa maravilhosa conversa que pode ver abaixo.

4 comentários:

Mário R. Gonçalves disse...

Destaco "o papel fundamental do professor de Português como transmissor de um legado cultural"; pois a transmissão de um legado - cultural, científico, artístico... - sempre foi para mim uma das duas principais linhas orientadoras da Educação; e a que hoje em dia mais se desvaloriza. O passado é bem mais fundador e fundamental na nossa formação que o futuro, que a preparação do futuro como objectivo, perspectiva quase sempre mal orientada e mal intencionada.

Anónimo disse...

Na atamancada escola atual, formatada pelos Professores Doutores Maria de Lurdes Rodrigues e João Costa, entre outros insignes pedagogos, onde, quando o professor diz “Parou!”, levanta-se imediatamente um aluno que vai fazer xixi no canto da sala de aula, ou então outro aluno salta pela janela fora, ou a turma inteira arma uma algazarra medonha, não é possível ensinar:
-Seja a educação para a cidadania, por mais de vinte domínios e subdomínios transversais e longitudinais;
-Seja e educação humanista, que eleva o indivíduo pelo estudo das artes, nomeadamente da literatura, e das ciências físicas e sociais.
Não é fácil pegar um touro pelos cornos, mas enquanto, ao nível do ministério da educação, não tivermos um cabo de forcado à altura de mitigar, pelo menos, a indisciplina e violência que grassam pelas escolas, a tourada vai continuar.

Helena Damião disse...

Caro Leitor Anónimo, os Professores Doutores Maria de Lurdes Rodrigues e João Costa não são pedagogos; foram ministros da educação, o que é substancialmente diferente. Um enorme problema que toca a identidade e respeitabilidade da Educação/Pedagogia é que tudo cabe nela(s), mesmo as mais absurdas declarações e todos se pronunciam em seu nome sem terem credenciais académicas e/ou estudo profundo. Cordialmente, MHDamião

Anónimo disse...

Cara Helena Damião,
Ironia à parte, os paladinos da melhoria das aprendizagens essenciais são antipedagagos. Eles transformaram as escolas em lugares pouco recomendáveis para professores e alunos, dada a indisciplina e violência que por lá campeiam, muito bem denunciadas por Maria do Carmo Vieira.
Cordialmente!

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